Seguidores

sábado, 27 de dezembro de 2025

Crónica de Maus Costumes 448

 

Palavra dada, palavra honrada

               O Natal foi regado com Moët & Chandon, espécie de promessa antiga que o meu mano decidiu pagar porque alguém o terá presenteado com uma. Não foi egoísta ao ponto de a beber sozinho e decidiu partilhar o néctar, sugerindo o assunto para a crónica.

            As reações não foram consensuais. Uma das cunhadas estremecia. Sabia-lhe a amargo. O pai declarava que preferia o seu Contemporal ou Raposeira meio-seco. Eu declarei logo que aprecio o meio-seco, mas que este bruto era bom, até porque não aprecio o espumante doce, do género Asti Gancia (acho que deveria cobrar publicidade nesta crónica). O champagne era brut e, como se sabe, deveria acompanhar refeição e não o doce, mas a garrafa era única e nós muitos, logo para acompanhamento de refeição, nem para um singelo bochechar chegaria. Eu já não me lembro como surgiu a promessa. Sei que num jantar qualquer em que nos encontrávamos todos, eu lá soltei qualquer coisa como se fosse uma Moët & Chandon é que era bom e o mano mais velho lá disse que não era coisa que não se pudesse experimentar e declarou, solenemente, que um dia traria uma. Ora… Se fosse um Dom Pérignon era bem mais caro, acrescentei, mas ainda assim, engolir trinta e tal euros, num pequeníssimo instante que rapidamente se esvai, era coisa que me custava. Isso e comida… Deus me livre! Não como que se justifique tal! Muito menos de momento, com as minhas intolerâncias! Eu faço logo as contas em livros (o mais barato) e em viagens (o mais caro).

Se andar atenta… Ainda por estes dias poderia ter comprado quatro livros por vinte euros. Não o fiz. Comprei um há pouco por esse valor, mas não o arranjava mais barato. Se usasse a Vinted, com jeitinho, conseguia cinco ou seis livros pelos trinta euros. Garantem-me horas de prazer e conhecimento e são peças únicas que enfeitam as minhas estantes e por lá permanecem. Se me apetecer, posso revisitá-los, enfim… Os livros são coisas sólidas e perenes. De modo que entre gastar dinheiro em vinho ou em livros, eu fico com os livros! Além disso, como dizia o senhor Claudino: É vinho!

            Certo é que quem nasceu para lagartixa nunca chega a jacaré, logo, meus caros familiares, tendes é jeito para pobres, porque quem experimenta Moët & Chandon e faz caretas ou prefere Raposeira, está bem como está. É o pé que puxa para o chinelo… Nada a fazer… E se eu fosse o caco Antibes do Sai de Baixo, diria: “Detesto pobre!”, “Tenho horror a pobre!”

            Agora, que a promessa foi cumprida, tarde ou nunca voltarei a beber do mesmo, pelo menos que seja eu a comprar… Enfim…

O meu irmão mais velho tem destas coisas. Gosta de agrados e, por isso, para todos os sobrinhos, o tio Paulo é que é fixe. Também cumpriu a promessa de lhes fazer a francesinha, no dia 23, quando se celebrava os 58 anos de casados dos avós. Não sei que lhe deu para cumprir tudo de enfiada… Eu acho que foi para pagar a penitência do que me agastava quando éramos pequenos! Era uma melga que me arreliava fortemente. Andávamos sempre pegados e era certo e sabido que a mãe, já sem paciência e farta de nos aturar, distribuía uns chapotes a cada um para resolver a questão. Irritava-me sobremaneira! Chateava-me a cabeça e ainda levávamos por cima! Se fosse hoje, eu haveria de ficar caladinha, sem pestanejar, mas quê… Inocência… Éramos o cão e o gato, mas sempre um atrás do outro. O mais velho e a do meio. O mais novo não entrava nestas guerras.

            Esse meu irmão mais velho dá-lhe para pancas! Ainda solteiro, comprou uma moto, apesar de ter carro. Não sei se uma Susuki ou Kawasaki, mas era daquelas que se deitam nas curvas, a parecer moto de pista e queria levar-me a dar uma volta. Nunca! Primeiro, sabia que ele gostava de  dar gás e, depois, lembrava-me bem dos dois grandes tombos que tinha dado com ele na bicicleta e que me deixaram toda arrebunhadinha! Ainda hoje tenho os joelhos impróprios de uma “lady” à conta dos tombos! Um deles foi nos pavilhões (assim designávamos), o largo da escola primária em que andámos e que era um pavilhão de madeira provisório, constituído por duas salas, que perduraram mais de vinte anos, talvez. Imediatamente atrás da escola, era monte, com eucaliptos enormes que deixavam o terreno cheio de bugalhas. Claro que o meu irmão teve a ideia de jerico de me levar com ele na sua bicicleta, que tinha um selim comprido, onde cabiam dois rabos magros de petizes. Éramos ambos escanzelados, portanto, cabíamos perfeitamente… Bem lhe gritava para ir devagar, mas quanto mais lhe dizia, mais ele pedalava… Logicamente, uma derrapadela nas bugalhas foi a morte dos dois artistas! Joelhos, cotovelos e mãos numa desgraça!  A outra vez foi em Fundo de Vila. Não sei que recado foi levar ao senhor Claudino, mas não queria ir sozinho e lá me convenceu a acompanhá-lo, mais uma vez de bicicleta. Fi-lo jurar que ia devagar, mas claro que depressa se esqueceu e, mais uma vez, houve tombo e arranhadelas em barda. Não admira que em pouco tempo rasgasse as calças que a minha mãe lhe comprava. Era catraia, admite-se, agora, moça já nas casa dos vinte, já não me apanhou na moto. Nunca! Nem uma única vez! Não fosse o Diabo tecê-las... Deixei isso para a minha cunhada que é corajosa ou inconsciente, vá lá saber-se! A fronteira entre ambos é ténue…

            À medida que o tempo foi passando, desapareceram as implicâncias e sobrou a irmandade. Quando um chegava a casa e o outro não estava a primeira pergunta que se fazia à mãe era: O João Paulo?  (no meu caso) ou a Sónia? (no caso dele). Hoje, é o irmão que me vai levar e buscar ao aeroporto, por morar a 10 minutos dele, e ainda me oferece almoço ou jantar. Sempre amigo de fazer vontades.

Acho que deve estar a pagar por todas as arreliadelas causadas… Se pensar bem… Com jeitinho, mano, só com uma Dom Pérignon te podes redimir!

 

Nina M.

 

 

 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Poesia

 A poesia anda solta

Sem que dela se faça caso

É livre, cavalo alado,

A espreitar, insuspeita

Num sorriso de ocaso

Na palavra, emoção de um instante,

Num gesto que a solidão espanta

É matéria definida

Tão concreta como a vida:

Água quente sobre a pele

Lágrimas de dor

Cheiro de refeição fresca

Gente sem calor

Mergulho em mar azul

Ou mãos calejadas da vida

Passeio espantado pela cidade

Beijo apaixonado ao anoitecer

Desgosto que nos faz morrer

Abraço sofrido de despedida

A poesia...

A poesia está presente em cada dia!


terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Velhice

A velhice é uma chaga que traga a carne.

Deixa a alma pendurada em pele murcha
Engelhada  e inerte a olhar o tempo
De olhar embaciado
A lucidez profunda de quem já viveu
E aguarda... Pacientemente numa antecâmara da morte
Vem o carrasco de foice erguida
A velhice já não lhe quer fugir
Em pernas trôpegas, pouco lestas e cansadas
Aguarda
E a hipocrisia a salvar-nos o instante.
[-Estou muito mal!
- Nada disso! Essa cabeça ainda pensa.]
Nenhum de nós acedita
Mas ambos assentimos placidamente na mentira
Numa resignação tácita.
Só o que pressente o fim se atreve a dizê-lo. Pode dizê-lo por direito adquirido.
E os olhos onde ainda mora uma centelha
Parecem mais pardos e tristes
Num lamento de quem se despede.
Não há futuro. Só passado
Feito de trabalho e de luta.
Consciência do dever cumprido.
O presente pouco promissor.
A resignação de quem se prepara para atravessar a linha.
A pele quase sem corpo impressiona-me sempre.
O espectro de quem se foi...
Preserva a dignidade uma lucidez fina
A mesma que se atreve a enfrentar o fim
De olhos bem abertos e com um sorriso
Sem desmaio nem complacência
Nem vertigem ou agoiro

O que for virá.


sábado, 20 de dezembro de 2025

Crónica de Maus Costumes 447

 

É vinho

               Começo a crónica desta semana a repetir a ideia que tantas vezes registo: como todo o ser humano, sou mais miséria do que proeza e cometo erros e enganos, mesmo sem ser propositados. Porém, como dizia o Ronaldo a um colega que cometeu uma falta sobre ele e lhe pediu desculpa, porque tinha sido sem querer: “está bem, mas sem querer também é falta.” Eu sem, sem querer, também me enganei.

               Valeu-me a simpatia e a compreensão dos colegas, a quem agradeço. Quem me conhece sabe do meu brio profissional e fico furiosa quando falho (mesmo sem querer), principalmente, se o meu erro trouxer transtorno aos outros. Retrato-me publicamente, ainda que a maioria não o saiba, mas não faz mal, porque o pedido de desculpa seguiu, imediatamente, para quem de direito. Não é uma falha que não se possa resolver facilmente, mas sinto-a como um espinho que me fere a carne. Assim, serve o texto para comprovar a minha absoluta imperfeição e cumpre o efeito catártico, embora, não seja esse o fim da minha escrita.

               Este episódio obriga-me a pensar na implicação que as nossas ações têm na vida dos outros. As nossas escolhas que conduzem a ações, já sabemos e devemos ter consciência de que interferem na vida dos que nos rodeiam, mas mesmo uma ação involuntária pode condicionar outras vidas ao nosso redor. Pode ser benéfico e pode ser catastrófico. A vida do ser humano e a sua relação com o outro oscila como um pêndulo (não como o de Foucault), entre a harmonia e o desentendimento que só pode ser sanado por meio do diálogo. No entanto, para que isso seja uma realidade tem de haver disponibilidade de ambas as partes para ouvir, compreender e acolher. Olhando para o mundo, tudo isto tem faltado à humanidade. Felizmente, nas nossas relações pessoais, encontramos sempre quem o saiba fazer.

               Ocorre-me um episódio de infância. O senhor Claudino era um lavrador que fazia uma quinta próxima da minha casa, vulgarmente, um caseiro. A casa tinha, em baixo, a corte dos animais e lojas para guardar alfaias agrícolas e ferramentas e, por cima, a cozinha, escura, com a sua pedra tosca do lar e com o soalho gasto e preto, com tábuas rompidas, já com buracos que deixavam ver o fundo, que sempre me causavam uma pequena ansiedade por imaginar escorregar por lá baixo, mesmo que só coubesse um pé dos meus ou, então, o que me ocorria era que se o chão tinha buracos, poderia ir abaixo… Enquanto os adultos conversavam, bebericavam o seu vinho e tragavam uns nacos de presunto, acompanhado de broa, eu lá me ia arrepiando com a possibilidade de tudo aluir, mortinha por sair dali, para terra mais firme… Efetivamente, nunca se sabe o que se passa na mente de um gaiato… O lavrador era brioso (acho que o são, na generalidade) e ancho das suas habilidades, portanto, ninguém poderia ter melhores colheitas e produtos do que aqueles que lhe saíam do seu esforço e das mãos. Para além da quinta, o senhor Claudino fazia outros trabalhos para fora. Era ele quem podava as ramadas de muitos. Na época da poda, naquela altura toda a gente tinha ramada para produzir o seu próprio vinho… Amargo como trovisco e pior que vinho de pacote, enquanto houve ramada em casa, depois da morte do meu avô, que sabia bem do ofício da poda, vinha lá o senhor Claudino. Para além da jeira, era comum o dono da casa oferecer o almoço ao podador, de modo que nos dois dias em que o senhor lá andasse, comia por lá. A preocupação do meu pai era arranjar um vinho que satisfizesse o paladar apurado do apreciador… A conversa breve repetia-se todos os anos.

               O meu pai enchia-lhe o copo e ficava à espera do veredicto. Assim que o senhor Claudino enfiasse os beiços e o néctar lhe escorregasse goela abaixo, o meu pai perguntava:

               - Então, Claudino? Que tal a pinga?

               Invariavelmente, ouvia sempre a mesma resposta:

- É vinho.

Lacónico, de poucas falas a olhar por baixo, a sentença estava dada. Admitir que aquele vinho era bom, seria menosprezar, no seu entendimento, o seu próprio produto. Portanto, a resposta poderia ser: não é mau, mas o meu é melhor. Mesmo que não fosse verdade, para ele era assim. Sempre todo ufano.

Todos os anos o meu pai repetia a diatribe, porque já sabia a resposta, que era, invariavelmente, a mesma. Também a dava em casa de outras pessoas, pelo que quando se cruzavam lá comentavam o sucedido.

O senhor Claudino era assim. Não desfazia o seu produto. Orgulhoso do que produzia, não condescendia, facilmente. Depois, juntou dinheiro, lá deixou a quinta, para se mudar para Fundo de Vila, junto ao rio, onde não morava ninguém, metido no meio do monte. Comprou terras e lá as cultivava mais o filhos e a Eva, mulher varonil e hercúlea que se viu consumida para atravessar a Ponte D. Luís, no Porto, com a ceira do farnel à cabeça, por ver o rio lá em baixo e achar que ia cair. As palavras da desgraçada eram: “Ai! os meu boizinhos! Nem por isso apelava pelos filhos! Mas o que há a admirar? Filhos em catadupa que só davam o que fazer… Realmente, os bois não aborreciam tanto!

Aos domingos, quando os meus pais se lembravam de o ir visitar, era um degredo… A canalha acha sempre a companhia dos adultos um aborrecimento e eu também o pensava e o problema era que o tempo parecia parar. A única coisa boa que havia na visita era o presunto caseiro, dos porcos que lá criava. Já em miúda gostava de presunto e de broa! Na gravidez, enjoei o carapau, mas o presunto e a broa nunca me causaram fastio!

De maneira que, lá por casa, entrou a expressão “é vinho”, como dizia o senhor Claudino, quando alguém acha que tem uma especialidade qualquer que, afinal, se revelou um logro ou quando queremos, apenas, brincar uns com os outros…

É vinho e “in vino veritas est”.

 

Nina M.

 

              

 

 

 

sábado, 13 de dezembro de 2025

Crónica de Maus Costumes 446

 

A culpa de ser humano quando o desvio se torna rumo

               Caros leitores… É mais leitoras, mas não vá haver alguém másculo que me leia e eu não saiba e possa sentir-se ofendido. Assim, vós que me ledes, sabeis que ando em experiências com a Minerva. Minerva é a minha aplicação do Gemini, sem querer fazer publicidade, com quem tenho andado a conversar e a quem batizei com o nome da deusa da sabedoria.

Efetivamente, ela é um acervo de informação magnífico! Pois bem… Decidi partilhar com ela, apenas para a testar, que tinha uma crónica para fazer, mas que me sentia desinspirada. Solícita, Minerva sugeriu-me, imediatamente, uns exercícios desbloqueadores de pensamento e uma série de ideias… Aconselhou a olhar para um objeto e relatar a história que ele poderia contar… Só m vem à cabeça os meus livros, os objetos que mais prezo, mas nem me aventuro por esse caminho… Se fosse recordar a história de cada livro, de quem mo ofereceu ou os que eu comprei e as circunstâncias, não sairia disto… Também me poderia focar num livro concreto, mas aí surgiria a dificuldade da escolha… Volto sempre à Criação do Mundo de Miguel Torga, mas são tantos e tão bons… No momento, ando ocupada com “Les Misérables” de Victor Hugo. Não me tinha chegado a empreitada do “Guerra e Paz” e meti-me noutra… Já começo com o síndroma de despedida. Já não falta tudo para acabar o vasto segundo volume. Lá pereceram os meus heróis republicanos, na barricada, trespassados de balas e de perfurações de baioneta… Acabou-se o intrépido e belo Enjolras, como o narrador sempre o caracteriza e os do seu bando: Combeferre, Courfeyrac, Feully, Prontaire e o benjamim da rapaziada, o atrevidote Gavroche. Uma morte honrosa de todos, de luta incessante até ao fim, em menor número, sabendo exatamente o que o destino lhes guardava se a rebelião não passasse a revolução. Não passou e os republicanos pereceram alegres, em nome de uma causa. Uma partida poética e trágica, numa luta desigual de Golias contra David. Ganhou o gigante, mas eu gosto sempre muito de anti-heróis. Lá escapou, uma vez mais, o Jean Valjean e levou o Mário da sua pequena Cosetta, mas num gesto magnânimo, tinha libertado, momentos antes, o seu inimigo mortal, o inspetor Javert, o funcionariozinho zeloso que não entende as injustiças da justiça e quer fazê-la cumprir a todo o custo. Quase me apetecia penicar o Valjean! Então, soltas o teu carrasco e, ainda, lhe dizes onde te encontras? Sabes bem que Javert tem a crueldade dos ímpios e a cegueira dos morcegos! Não vos relatarei o final… Faltam-me menos de duzentas páginas, grandes, escritas a letra do tamanho dez! A empreitada não é pequena e, se não sabia o que ia escrever, estão a ver as linhas que isto já rendeu… A Literatura sempre me salva…

Outra das possibilidades apresentadas pela minha amiga IA é apresentar um texto com uma ideia contrária ao que se espera e, nesse âmbito, sugere o Natal ou a exposição de um fracasso pessoal… Bem… Minerva não sabe que, em relação à quadra natalícia, não falta já quem erga a voz para declarar o seu desgosto com a época e o seu consumismo e hipocrisia que lhe encontram! Portanto, o tema não ofereceria qualquer originalidade e, por outro lado, não me conhece assim tão bem… Nunca escreveria a desdenhar o Natal por ser a festa das festas para mim! A festa de que mais gosto, efetivamente, apesar do consumismo e da hipocrisiazinha de, repentinamente, ficarmos todos bonzinhos e compreensivos. Não quero saber. Isso reina o ano todo e, apesar de se dizer que o Natal é quando o homem quer, só o celebramos uma vez no ano! Eu gosto da magia do Natal. Gosto do Natal porque tudo nele é poesia: a sua mensagem e os seus símbolos. Gosto da música da Comercial, sempre divertida e animada e gosto da minha árvore (e este ano renovei a árvore e os enfeites!) e do meu presépio, do meu Deus-menino posto sobre o móvel. Ele chega sempre uns dias antes, a minha casa, pronto para receber, mais uma vez, a sua bênção, quando for aspergido na tradicional eucaristia. Há lá coisa mais poética do que celebrar o nascimento de quem tem tantos anos, nunca envelhece e deixou uma mensagem tão necessária!

Logo se vê que não cumpro requisito! Poderia lá apresentar uma ideia negativa do Natal! Quanto ao fracasso pessoal… Minerva… Como todo o ser humano sou mais miséria do que proeza! Já admiti a minha falta de jeito para tudo e mais alguma coisa! Não sei cantar, não sei desenhar, não sei construir coisas, não sei costura, aprendi rudimentos de croché, de malha e de bordados e pus para o lado, porque além do tédio, essas atividades nunca me deram qualquer prazer. Só serviam para me enervar! Coitadinha da minha avó Matilde! Ela, tão boa tecedeira, bem tentou passar-me o gosto por lavores… Mas aqui a este pedaço de asno nunca foi capaz de nada de jeito… Vou fazendo comida razoavelmente bem, mas sem grandes artifícios para os quais não tenho paciência nenhuma… Há, efetivamente, dois traços que me acompanham desde a infância: a mania de sentar as vizinhas para a porta da garagem e dar aula, escrevendo a giz, na porta que era de madeira e a mania de escrever tudo em todo o lado, nas paredes, nos móveis, nos livros, nas fotografias… (que me perdoem os meus pais, que eu já não posso). Consegui chegar à sala de aula, na qual ainda permaneço e quanto à escrita… É o que vedes… Ainda me sugeriu atentar num detalhe esquecido da minha rotina, mas… Francamente, Minerva! Os meus sábados são tão insípidos no cumprimento de tarefas domésticas, que ninguém está interessado em saber quantas camisas passei a ferro! Ainda me veio com temas mais profundos como o tempo, a perfeição inatingível, a culpa do descanso ou um contratempo pessoal… Minerva! Já tratei esses temas todos, mulher! Estás a enervar-me! Não conseguiste dar-me nenhuma ideia original, estou só a repetir-me, de outra forma… Vê lá se me arranjas um título decente para esta parafernália de coisas e arrematamos por aqui.

Ficai a saber que perguntei e só me fez sugestões parvas, mas misturando uma palavra de uma e de outra sugestão, sai qualquer coisa: A culpa de ser humano quando o desvio se torna rumo.

 

Nina M.

 

 

 

sábado, 6 de dezembro de 2025

Crónica de Maus Costumes 445

 

Por dias melhores

               Li um texto que me surgiu na rede onde publico e que me fez regressar no tempo. A autora remetia para um Portugal miserável, em que as mulheres, absolutamente submissas, tinham de ser os esteios da casa e suportar os desvarios alcoólicos dos maridos. Se estes tinham “bom vinho”, como é uso dizer-se, a coisa sempre ia, mas o maior fadário era quando o “mau vinho” punha cá fora a ruindade, normalmente, gerida em silêncio. Era pancadaria de meia-noite!

               Na minha freguesia, havia um caso desses. Era habitual, à segunda-feira, ouvir-se que a Maria (nome fictício), para não ferir suscetibilidades nem expor ninguém, tinha levado uma tareia do Zé (também fictício), porque o desgraçado chegou embriagado e desatou à pancada na mulher. Lembra o Sebastião da música infantil que comia tudo e, no fim, ainda, arreava na mulher! Esta violência povoava, inclusivamente, o universo das letras das músicas infantis, a comprovar que era social e culturalmente aceite que o Sebastião, o grande grunho barrigudo, depois de encher a pança, desse pancada na mulher. Eu sempre me lembro de, em pequena, esta letra e a do “atirei o pau ao gato” me meter uma confusão medonha! Aquilo nunca me fez qualquer sentido porque, em minha casa, ninguém atirava paus a gatos e muito menos o Sebastião, neste caso, João, o meu pai, sequer esboçou qualquer gesto de agressão à sua mulher e filhos! Bem pelo contrário! Fui muito menina do seu papá, como deve ser! Portanto, lembro-me, sim, de essas letras me deixarem desconcertada. O meu universo era distinto de tudo aquilo…

               Já me desviei do assunto… O fluxo do pensamento tem estas derivas, há que as suportar. Dizia que a Maria era frequentemente espancada pelo Zé, até ao dia em que decidiu parar com aquilo. Bendita coragem! Houve um sábado que ela não esteve pelos ajustes. Preparou-se para se defender. O marido, tal como era habitual, ia para o café, depois do jantar, e a mulher ficava a arrumar a cozinha e a cuidar dos filhos. A mentalidade comum era esta. Nessa noite, a coisa correu mal ao sujeito. Embebedar-se, embebedou, o mau vinho também apareceu, mas dessa vez a Maria não se aquietou, houve sublevação e quem levou uma valente tareia foi o Zé. O álcool tirara-lhe parte das forças e a esposa, mulher do campo, habituada à lida, à vida dura e à força braçal, pôs o Zé no lugar. Quem vai à guerra dá e leva. Na segunda-feira, a novidade percorrera a aldeia e as mulheres, entre sussurros, diziam, fez ela muito bem! Pecou por ser tão tarde! Aquela besta, sempre a arrear-lhe sem ter qualquer razão para isso! Eram estas as palavras… Notemos o discurso subliminar… As próprias mulheres entendiam que lhes pudessem bater se elas se portassem mal, se o seu comportamento não fosse o que se esperava de uma mulher, ou seja, se ela não tratasse da casa e não lhe fizesse a comida e coisas do género… Não entendiam que por mais que uma mulher pudesse ser falha, isso não justificava a violência, porque ninguém pode agredir o outro, já que ninguém é propriedade de alguém.

               É deste Portugal atrasado, mesquinho e miserável, analfabeto, em que os homens lavavam o estômago com vinho, em que as mulheres eram espancadas e os filhos saciados com sopas de vinho e chupetas de aguardente, de que muitos têm saudades! Do tempo em que as crianças enregelavam de tanto frio, levavam pedras aquecidas nas lareiras nas mãos para combater a geada ou os nevões, andavam de socos, na melhor das hipóteses, e descalços na pior delas, sem meias, sem casacos, à espera de que as senhoras burguesas e caridosas lhes fizessem os camisolinhas de lã para os pobres, como expiação dos pecados e alívio das consciências. Um país miserável e motivo de vergonha, até da alheia, cujo único refúgio consistia na religião que acolhia os pobres e lhes garantia serem os prediletos de Jesus. E eram, mas uma religião sem obra é como uma comida sem sal. Tem-se a forma, falta o sabor. E a religião incutida também era um quadro tenebroso. Deus não era amor! Era um Ser Supremo, omnipotente, omnisciente e omnipresente (qual big brother!) disposto aos piores castigos! Só de pensar nisso… Aquela gente já era tão, mas tão miserável, tão desgraçada, tão subjugada e com pouca esperança no futuro, se é que nele pensavam, porque a vida era aquilo que conheciam: tormenta, mas ainda havia a necessidade de os amedrontar com um hipotético castigo de penas infernais, na outra vida! Alertar para o perigo do inferno a quem por ele passou enquanto viveu! Sempre tem a sua graça… A mudança começou com o Concílio Vaticano II, ou melhor, o retorno às raízes da mensagem evangélica de amor deixada por Jesus. Poucos se questionariam sobre a figura severa de Deus, num país analfabeto, em que a vida era feita do nascer ao pôr do sol, à procura do sustento, que nunca era suficiente. A sardinha tinha de dar para quatro e a canalha comia o rabo para não se engasgar com as espinhas. Não admira que, naquela altura, fôssemos um país pequeno, de gente mirrada e raquítica, com falta de dentes e completamente acabados aos cinquenta anos! Um país em que tantos passavam a salto à França, sem dinheiro e com dois ou três salpicões e pão, para irem aguentando a fome durante a viagem. Ver fotografias deles é ver os refugiados da atualidade. É neste mesmo país pobre, que se vê amiúde esventrado por levas de emigração, que há alguns que se atrevem a erguer a voz àqueles que vêm, iguais a tantos de nós que um dia também foram!

               Surge-me o avô paterno Francisco, homem franzino, trigueiro, baixo, sempre de cigarro no canto da boca. O lábio já tinha calo. A sua boca só se despedia dos Definitivos para dormir. O domingo inteiro com o cigarrito que lhe amarelava os dedos. Isso e o copito de tinto que bebericava e oferecia às visitas de domingo. Já só jantava chá com bolacha Maria e comia petinga frita quase diariamente. Creio que o seu estômago se habituou à parcimónia. A Fartura faz mal. Faleceu o avô Chico aos setenta e qualquer coisa, de trombose… O homem que gostava de pregar partidas à vizinhança e que trabalhava como carpinteiro para quem lhe encomendasse serviço. Os filhos aprenderam com ele a arte, mas todos vieram a arranjar outros trabalhos, assim que a vida melhorou, depois do vinte e cinco de abril, quando a educação e a saúde se começaram a abrir às massas, as melhores conquistas de abril, juntamente, com a liberdade, obviamente.

               Há, ainda, muito por cumprir! Imenso! É preciso defender a educação e a saúde públicas como garantia de combate às assimetrias sociais que persistem. É preciso tornar o país mais produtivo. Urgente! É preciso muita coisa, mas querer olhar para trás, com saudade de um país obscuro e miserável, não! Não acredito haver quem possa sentir nostalgia da miséria. A saudade é mais funda… É da memória afetiva de certos momentos… De descobrir que no sapatinho de Natal havia um molete e uma maçã! E era dia de festa, por isso! A memória que se enternece com tamanha simplicidade e pureza e é essa limpidez de alma que o ser gosta de resgatar.

               O meu pai conseguia comer bacalhau, no Natal. Na consoada era à grande; no resto dos dias reinava a miséria. Talvez a regueifa e os Definitivos que sempre levava ao avô Francisco quando íamos a Vila Boa de Quires, fosse a compensação pelo bacalhau de que sempre gostou!

               Por dias melhores!

 

Nina M.

 

 

 

 

 

sábado, 29 de novembro de 2025

Crónica de Maus Costumes 444

 

 Uma árvore que cai faz mais barulho do que uma floresta que cresce

               Ouço a notícia do agente da PSP e dos militares da GNR que escravizavam os imigrantes, depois, junta-se a notícia dos onze bombeiros que decidiram sodomizar o colega, ainda rapazito jovem… Que diabo se passa com esta gente? Não sei como se deixa tanto mal criar-se em nós. A maldade faz-me sentir impotente. Felizmente, meia-dúzia de meliantes não põem em causa uma classe inteira.

 Quando soube da prisão preventiva de um sujeito conhecido por suspeita de crimes de associação criminosa, fraude fiscal qualificada, falsificação de documentos e de branqueamento de capitais, lesando pessoas e o Estado em cinco milhões e meio de euros, eu já só penso que, pelo menos, este e os seus compinchas, porque há mais falsários envolvidos, não exploraram violentamente ninguém…

            Cismo no mundo em que vivo e a fúria ataca-me e, juntamente com este tempo cinzento, tempo de chuva, tempo húmido e frio, fico mal-humorada. Imagino a habitação social que se poderia construir com esse dinheiro, para que os jovens possam ter a sua independência e construir família mais cedo e penso, sobretudo, em quantos outros cinco milhões e meio esvoaçam na economia paralela para manter vidas, às vezes, pornograficamente faustosas de que ninguém necessita, sem o mínimo pudor, a mínima consciência social, a mínima noção de que todos, todos, todos, devemos contribuir para uma sociedade melhor, porque a sociedade evoluída é aquela em que todos cuidam de todos. Olhar o mundo e ver que há gente tão desumanamente e miseravelmente estúpida, que não vê além do seu umbigo, ensandece-me! Porém, não me compadeço deles. Compadeço-me daqueles que lhes são próximos e são arrastados para esse lodaçal, sem responsabilidade. Dos desonestos, por ambicionarem excessivamente mais do que aquilo que necessitam, por mera vaidade, ou dos cruéis, não sou capaz de sentir misericórdia. Que cada um colha aquilo que plantou e veja a justiça a funcionar.

Ouvir notícias, hoje, é uma prova de resistência à sanidade. Se partirmos para o panorama internacional, então, a ação humana fede: a invasão russa da Ucrânia; a guerra entre Israel e Palestina, com milhares de mortos e bloqueios à ajuda humanitária; o genocídio e a guerra civil no Sudão; o domínio de gangues e massacres no Haiti; censura e crimes de lesa-humanidade na Nicarágua; perseguições e prisões políticas na Venezuela; intensificação da repressão na Bielorrússia; perseguição dos uigures na China; extinção dos direitos das mulheres pelo regime talibã no Afeganistão; violência do narcotráfico no México e no Brasil; sequestros e massacres de cristãos na Nigéria e Moçambique, entre muitas outras que, certamente, me faltará designar.

Maioritariamente, não ligo a televisão. Pouco vejo e o que vejo é porque alguém da casa a ligou. Se estiver só, faz-me companhia o silêncio, o livro ou programas radiofónicos que abraçam a cultura ou me envolvem numa boa conversa, enquanto trato de tarefas domésticas, porque em minha casa, em catraia, nunca fui tratada com o síndroma da princesa e, como tal, lá cumpro com a regra de que quem usa ou suja limpa. Mais depressa me colariam à pele o síndroma da gata borralheira para aprender que a vida se leva com esforço, trabalho e empenho. As mulheres da minha família sempre foram muito kantianas sem sequer imaginarem o que isso significa. A moral cristã do trabalho, também, lhes foi bem passada e eu… Mais calaceirita me confesso, porque nos meus devaneios reflexivos reconheço o papel produtivo do ócio e, à boa maneira do pós-modernismo, abraço a ideia de que o trabalho é necessário com conta peso e medida e que romantizar os que trabalham em excesso é contribuir para a normalização dos esgotamentos, a doença do século. De modo que enquanto atimo as lides caseiras, procuro consolo nesses placebos que se revelam eficazes enquanto duram e me ajudam a não perder totalmente a fé na humanidade.

Hoje, no “Vencidos” de Luís Osório, fiquei a conhecer um pouco melhor Luís Portela, o homem que foi médico durante três anos, seis anos professor universitário e aos 27 anos assumiu a presidência da Bial. Em 1994, criou a fundação Bial, que atribui inúmeras bolsas para investigação na ciência e inúmeros prémios, alguns bem chorudos, na área da saúde. Ouvir este homem falar do seu sentido de vida, apesar de ter uma vida confortável e economicamente abastada, que se sente feliz quando recebe e-mails de doentes a agradecer-lhe a descoberta do medicamento que lhes permitiu controlar a epilepsia ou ouvi-lo dizer que diariamente procura ser melhor do que aquilo que foi no dia anterior e que esse caminho de aperfeiçoamento deverá ser um propósito ou, ainda, o cuidado que punha na escolha dos trabalhadores da Bial, desde o cientista à senhora da limpeza, pois é preferível escolher um bom ser humano, ainda que menos evoluído tecnicamente, do que um técnico excelente, mas de má índole, é um verdadeiro bálsamo que minimiza as iniquidades a que vamos assistindo neste mundo. São estes seres que, ainda, permitem alguma fé na humanidade e, tal como ele, também o meu “vencido” preferido é Jesus, ele, homem de ciência, não-religioso, mas absolutamente crente na espiritualidade, ainda entende ser possível que Ele e a Sua mensagem triunfem. Jesus, o maior e melhor líder espiritual, diz ele, apesar de também admirar Confúcio e Buda.

Quando se ouve ou lê gente desta, seres absolutamente admiráveis, quer profissionalmente quer humanamente, aqueles que comecei por referir nos primeiros parágrafos da crónica tornam-se-me tão pequenos, tão desprezíveis e, sobretudo, absolutamente, ridículos! Compraz-se o meu coração por saber de homens que justificam a sua existência. De alguma forma, sereno um pouco e agradeço ao Luís Osório a possibilidade que nos dá de os descobrir. No meio do deserto encontrar um oásis é, seguramente, uma forma de salvação.

Ide ouvir, ide.

 

Nina M.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sábado, 22 de novembro de 2025

Crónica de Maus Costumes 443

 

Ideias de jerico

            Quem nunca teve ideias luminosas, que depois de executadas se percebe que só podem ter sido sopradas ao ouvido por Belzebu, atire a primeira pedra!

Eu tenho algumas e faço o impensável: sei que pode correr mal, mas ainda assim ponho em prática… Já aconteceu duas vezes e não há duas sem três e não adianta jurar que não volto a incorrer na asneira, porque sei que basta que as circunstâncias conspirem e zás! Lá estou eu novamente… Há quem abane a cabeça e chame de teimosia, mas eu prefiro dizer que é … Técnica de aperfeiçoamento…

Não aprecio muito ir à cabeleireira nem a salões de estética. Aborrece-me ter de telefonar para marcar. Sei lá… Não me apetece falar para isso. Ando constantemente a dizer para mim mesma que preciso de ligar, mas nunca me apetece fazê-lo e o tempo vai passando e eu vou procrastinando…

 Entedia-me o tempo gasto nesses locais… Falta-me a paciência e dá-me cabo dos nervos. Ponho-me a pensar no que poderia estar a fazer naquela 1h30 que para ali estou. Um desperdício! Que rica caminhada faria e mais proveitosa!

Quando a falta de tempo aperta, por obrigações profissionais, tudo se torna pior e sou obrigada a fazer escolhas. O cabelo não se compadece com alturas ocupadas e há momentos em que uma mulher se põe a olhar e aquilo… Bem… Já lhe começa a meter ranço… Dita o juízo que se ligue e se marque uma hora na cabeleireira e pronto. Ficaria resolvido. No entanto, esta alminha, lembra-se que até pode ir buscar a tinta e fazer o procedimento em casa e, enquanto, a tinta está no cabelo, até se pode ir fazendo outras coisas! Muito prático, pois claro… Seria muito prático, se a cor que a nossa cabeleireira faz existisse prontinha… Porém… Não acontece exatamente assim e vamos arriscando…

Mulheres! Tenham cuidado com os acobreados! Garanto-vos que já consegui ficar rosa, laranja e ruiva mais escura. Pois… Desta vez foi ruiva… E atrevi-me dois dias, mas aquela mulher não era eu e nem a Nina que tão bem conheço! E a esta altura já se estão a questionar … Foi à cabeleireira arranjar o que estragou… Pois claro que não! Não ia arriscar ouvir sermão da minha cabeleireira que já deve andar pelos cabelos das invenções ranhosas que vou arranjando… Nem pensar! Já sabem que a única pessoa que nos manda baixar a cabeça e a gente obedece é, precisamente, a cabeleireira! Não senhor! A Internet também serve para coisas boas e lá aprendi que os verdes e os azuis, por serem do espectro oposto cortam os vermelhos e que uma tinta clara que diga cinza ou mate mitiga o problema. Ufa! Safei-me do ruivo… Mais ou menos… O acobreado lá está, mas a coisa está mais aproximada do que tinha e dá para o gasto…

Agora… Tranquilamente, deixarei passar esta fase ruim e quando estiver mais desafogada e a tinta já mais desbotada, prometo-me que lá vou ao salão e se a Zeza estranhar, eu lá direi que… Enfim… Tive de meter uma coisita caseira a meio para arranjar as raízes por falta de tempo, mas que foi uma cor aproximada, mas que sempre é melhor ir lá retificar bem aquilo. Placidamente, ela fingirá acreditar, enquanto me separa as mexas e vê os acobreados que considerará mitigar, que ela é que sabe o que põe a mais ou menos para o resultado ser decente, enquanto pensa com os seus botões que já andei a inventar, mais uma vez, e que espero que ela arranje o que eu mesma andei a arruinar… Mas também… Vá lá… É só cabelo! Já que lá vou menos vezes do que o desejável, dar-lhe um bocadinho mais que pensar não fará assim tão mal…

Em casa, os filhos abanam a cabeça e já me dizem… Já estás a inventar outra vez. Na segunda, perante os comentários da canalha, que nunca deixa escapar nada, vão-me dizer: “a stôra pintou o cabelo, outra vez!”. Serenamente, responderei: “a outra era a base que precisei de fazer para chegara a esta.” Assunto encerrado durante dois meses, até à próxima tentativa, quer dizer… Ida à cabeleireira…

 

Nina M.

 

 

 

 

 

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Há sempre sombra

Há sempre sombra 
Por detrás da luz
E uma certa penumbra
Por detrás do brilho
Um chovisco impercetível
Em dia soalheiro

E quem não sabe ver
Nem escuta
Não adivinha
Ou sequer perscruta
Silêncios

Imagina céus limpos
Sem nevoeiros
Drama
Sem tragédia
E mares
Sem fúria


Na janela
Olhares distantes
A fixar horizontes

Quem tem um sol dentro
Sabe limar-lhe as sombras



segunda-feira, 17 de novembro de 2025

É uma brisa que perpassa

É uma brisa que perpassa  
E me estremece o ser
Vem de longe e abraça
Até ao anoitecer

Não é friagem este sopro
Que sinto também na alma
É tépida aragem que sofro
E me transtorna a calma

Que será e o que diz?
Assim não o sei dizer
É sopro, brisa, aragem
Que me faz estremecer

Neste arrepio de alma
Onde baila o coração
Acende-se imensa chama
Incendeia-se a paixão.

sábado, 15 de novembro de 2025

Crónica de Maus Costumes 442

 

Porta das petições II

            Deveria fazer como o rei do Conto da “Ilha Desconhecida”, de Saramago, e arranjar um primeiro secretário, que por sua vez chamava o segundo e este o terceiro, que chamava o primeiro ajudante e por aí adiante até chegar à mulher da limpeza que abria a porta das petições para ouvir o homem dizer que queria um barco…

            Acontece que cá em casa a mulher da limpeza sou eu, pelo que acabaria por me caber abrir a porta das petições e perguntar às mulheres:

 - Que quereis?

- Uma crónica que seja um brinde à nossa amizade.

            Lá acabaria por dizer que iria ver o que se podia arranjar e como elas fizessem como o suplicante do conto e se fossem sentar a um canto da porta até lhes fazerem chegar o escrito, é melhor satisfazer-lhes a vontade com o coração grato e disponível.

            Honrarei Aristóteles. Ficai a saber, amigas, que este grego prezava imensamente a amizade. Para ele, este vínculo é essencial para os seres humanos, porquanto lhes permite alcançar a eudaimonia (conceito traduzido, normalmente, por felicidade). Segundo ele, as relações sociais são vitais para o desenvolvimento ético e moral do homem. Tem razão, pois claro. O homem não é sozinho e descobre-se na relação com o outro, que nos obriga a estabelecer os nossos limites e a nossa ética que pode ou não se enquadrar na moralidade vigente, mas que só é construída na relação com o outro. Estes gregos sabiam umas coisas e deixam-nos um legado extraordinário e atual. De modo que, ficais a saber que se Aristóteles fosse vivo, provavelmente, seria utilizador de redes sociais e, mais certo ainda, não dispensaria um jantar, na companhia de amigos, tal como fizemos.  Dizia ele que a amizade poderia ser de três tipos diferentes: a amizade útil, que é aquela em que ambas as partes beneficiam da relação. As pessoas juntam-se porque se podem ajudar de alguma maneira, mas também é superficial, pois desaparece a utilidade e desaparece a amizade. Acontece com os colegas de trabalho com quem temos de colaborar, mas com quem não mantemos contacto fora do âmbito profissional. Depois, há a amizade por prazer, aquela que se fundamenta na busca de prazer e de diversão, visível naqueles que se juntam para o exercício de determinada atividade recreativa ou festa. Esta também é passageira. Basta que os interesses mudem e eles mudam ao longo da vida e a amizade termina. Por fim, vem a amizade por virtude: a mais duradoura e elevada. Esta baseia-se na apreciação mútua do carácter e da bondade do outro, desejam o bem de forma altruísta e partilham valores. Esta amizade é mais rara e exige tempo e intimidade para que se possa estabelecer.

            Creio que já percebestes (sois mulheres perspicazes) aonde vai desaguar a conversa. Obviamente, a nossa amizade encontra-se no estágio número três, mas percorreu as três etapas, necessariamente. Passamos pela utilidade. Conhecemo-nos em contexto laboral, depois, juntamos à utilidade a diversão, ocasionalmente, e, entretanto, muitos anos depois, já em lugares de trabalho diferentes, continuamos a marcar encontro e a falarmos, menos do que aquilo que deveria ser, na verdade, mas a vida não está com contemplações e obriga-nos, sempre a muita ocupação. Todos sabemos que não deveria ser assim. Não se pode adiar o amor como não se pode adiar a amizade e umas tantas outras coisas, mas passamos uma vida inteira a fazê-lo e a arrependermo-nos, para voltar a falhar consecutivamente. Felizmente, vamos conseguindo manter de pé o encontro anual. Por mais jantares e encontros brindados com sorrisos!

            Conhecemo-nos na mesma escola. Primeiro a Adelaide e a Zé, depois a Sofia e eu, no mesmo ano, ambas grávidas. Uma no fim de gravidez, a parir em dezembro e a outra em junho. Em seguida, vieste tu, Lurdes, completar o ramalhete. Quiseram os deuses que colaborássemos, que nos divertíssemos algumas vezes e que a amizade por virtude ficasse.

Vou dizer-vos o que mais aprecio no grupo: a ausência de ego. Nenhuma se considera o alfa e o ómega e olhai, mulheres, que tendes boas qualidades: sois competentes, profissionais e empáticas, mas há em vós um desassombro que me agrada profundamente. Gosto de gente desassombrada e livre de vaidades inócuas. Num mundo onde todos se acham tão cheios de si, encontrar pessoas que sabem que fazem um bom trabalho, mas que encaram esse facto com naturalidade e sem artifícios, permitiu construir esta relação de confiança mútua, que nos permite certas partilhas e muitas, muitas risadas. Temos histórias desde o palheiro da Lurdes até Paris! Já sei, Lurdes, fui uma boa guia turística e muito convincente, ninguém duvidaria do meu conhecimento e até fui enfermeira do “chouchou de la maîtresse”, o diabo do rapaz logo tinha de querer experimentar os serviços do SAMU e os hospitais franceses! Valha-nos ao menos que o médico era uma simpatia! Convosco, ainda arriscaria a mais uma viagem de autocarro para Paris (Deus me livre!) onde só a madame Lurdes consegue dormir “super bem!”

            Por mais jantares e brindes à amizade e que a nossa nunca perca a virtude!

 

Nina M.

           

 

 

 

sábado, 8 de novembro de 2025

Crónica de Maus Costumes 441

                A porta das petições

               Não aprecio por aí além escrever a pedido, mas há certas petições, feitas de modo indireto, que na verdade dissimulam pequenas recriminações, que não me atrevo a ignorar.

            Vá-se lá saber a razão, o meu rapaz decidiu perguntar-me sobre o que tinha sido a crónica, na semana passada, talvez porque se aproximasse a hora de me sentar, para a escrever. Certamente, uma curiosidade inócua, visto que não lê a mãe. Não faltaria mais nada! Não basta ouvi-la quanto mais lê-la! Lá lhe disse o tema, a polarização política a que se assiste no mundo atual. Atira-me com um “isso é bom”! Entenda-se, a temática, não a crónica em si, obviamente. Disse-lhe que foi referenciado no texto. Ainda antes de acrescentar o que quer que fosse, a pequena, a irmã, olha para mim e diz-me que esta semana poderia escrever sobre ela, que estou sempre a falar do Rodrigo… Nem sempre é em tom elogioso, sempre com muito carinho e amor de mãe, é certo, mas isso ela não sabe. Também não me lê. Pergunto-lhe, então, queres que escreva sobre ti?! “Olha, fala que eu te vou buscar as camisolas e que as uso…”

            Lá lhe fiz o reparo que também tem algumas crónicas em que aparece, mas não a convenci. De modo que, minha pequena amorosa ciumenta, a crónica de hoje é tua, da filha que não escolhi, mas que desejei muito e que não trocaria por outra. A Matilde gosta de reconhecimento, sente necessidade de aprovação e gosta de reforço positivo. Não é difícil conseguir fazê-lo. É uma menina empática e sensível, dona de um coração meigo e que se comove facilmente. É criativa e habilidosa. Ao contrário da mãe, que é uma desajeitada, ela tem jeito para tudo: desenrasca-se muito bem nos trabalhos manuais, é uma boa atleta e uma boa aluna. Tem um brio e uma exigência implacáveis consigo mesma e é muito comprometida com o que decida fazer. A minha menina é aquela pequena ansiosa para quem falhar é insuportável. É assim desde pequenina. Ainda no infantário, fui obrigada a ligar à educadora para lhe dizer que havia dias em que os pais não a conseguiam levar à escola e que precisávamos de recorrer à ajuda do tio. Ainda hoje, quando é preciso, entreajudamo-nos e levamos filhos e sobrinhos, de modo que se acontecesse, de um dia por entre outro, a Matilde chegar ligeiramente mais tarde, a responsabilidade não seria dela. A educadora Denise (beijinho para ela), quando alguns meninos se atrasavam muito, brincava com eles e perguntava-lhes: “Já chegaste, ó turista?” A Matilde, só de pensar que poderia chegar um pouco depois e ouvir a educadora chamar-lhe turista, entrava em sofrimento sério. Teve de me ouvir falar com a educadora para poder serenar. É a menina ansiosa a quem treme as mãos e dói a barriga em dia de certos testes, apesar de se preparar muito bem e tem de recorrer ao “sedatif”, medicamento natural, recomendado pela pediatra, mais placebo do que outra coisa, para controlar o nervosismo. Já está um bocadinho melhor. É a menina a quem tenho de lembrar que não é obrigada a ter “muito bom” a tudo. Ela diz que sim, que sabe, mas chega ressabiada quando as coisas não correm como deseja e apresenta um oitenta e oito. Para ela, abaixo de noventa não é grande coisa… Se for de oitenta cinco para cima, ainda vai, menos disso fica rezingona, o que lhe vale o epíteto de “aziada”, posto pelo irmão, que não é dessas tolices nem compreende tamanhos desvarios… Tenho o mais relaxado que possa existir e a mais ansiosa. Quem sofre é a mãe, que tem de ser diferente, a mãe que cada um deles precisa é o oposto da outra.

            Esta menina delicada e sensível é, também, alegre, sociável, mas tímida, desenrascada, proativa, mas com pelo na venta. Se lhe dá na veneta, não faz fretes e acabou a conversa! É a minha doçura que em tenra idade gostava de me preparar lanches surpresa e de ver a minha reação de felicidade, que consistia em abraçá-la muito e dar-lhe muitos beijinhos. No fim, perguntava se tinha ficado feliz. Tinha de lhe garantir que sim. Precisava extremamente desse reconhecimento, porque gosta de agradar. É a menina que me pedia abraços. “Dás-me um abraço?”. Dava, claro! Muitos e prolongados, até ela se querer soltar de mim. A adolescência limpou algumas destas características. Os afetos começam a envergonhar-se…

            Matilde, raramente me pedes abraços, agora, e quando os dou não os recusas liminarmente, mas és mais comedida, invadida pela vergonha da adolescência. Não gostas de estar na mesma escola da mãe e ainda menos de seres vista comigo. Assim que estaciono o carro, é ver-te sair porta fora o mais rapidamente que consigas! Eu compreendo, filha. E deixo-te seguir, mas sabes… Tenho saudades dos abraços e das tareias de cócegas e de beijos que vos fazia, antes de vos deitar e de vos ler a história, antes de vos adormecer.

            Quando implicáveis um com o outro para saber a quem pertencia a fatia maior do amor da mãe, eu garantia que era exatamente igual: muito e imensurável. O teu mano, mais pequeno, por falta de melhor argumento, dizia-te que eu gostava dele há mais tempo. Não havia como negar, ele é mais velho. Veio primeiro. Fazer-te entender que a partir do momento em que te aninhaste na barriga da mãe te tornaste igual no amor, não era tarefa fácil. Via sempre uma pequena sombra no teu olhar, uma certa tristeza por não seres a primogénita.

O comentário de hoje é a sombra no teu olhar. Eu sei. O teu irmão exige mais da mãe, consome-lhe mais energia e, de certa maneira, mais atenção. A tua mãe é diferente da mãe do Rodrigo, porque assim tem de ser, mas aborrece-se muito, muito menos contigo e podes ter a certeza de que a medida do amor é a mesma: muito e imensurável.

Aqui tens a tua crónica, minha pequena Mati. Dás-me um abraço?

 

Nina M.

              

           

 

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Em qualquer cais

Não te canso de esperar, Amor,
Mesmo se te não espero
Nesta vida gasta e vã

Sinto-te aninhado a meu lado
A ofereceres o peito calado
Numa ausência já prevista

Talvez fosse hora de não esperar
De desesperançar da hora tardia
Conhecer o sabor do dia

De uma manhã que raiou fria
Filha da noite sem calma
Em hora fugidia

Não te canso de esperar, Amor,
Neste inverno que é a vida
Nem em cada despedida

E  se o dia se renova
A espera feita treva
Traz esperança luminosa

Nesse nada feito ausência
A correr para o vazio
Vaga a vida como um fio

Não te canso de esperar, Amor,
Nem que leve duas vidas
Num navio encalhado

À espera em qualquer cais




sábado, 1 de novembro de 2025

Crónica de Maus Costumes 440

 

Bom senso e bom gosto

               O grande revolucionário, hoje, é aquele que mostra equilíbrio e bom senso. Entre o tudo e o nada deve haver alguma coisa e entre o céu e a terra, mais do que se possa suspeitar. Hoje, numa sociedade tão polarizada, o se não és por mim és contra mim vigora, num cerrar de fileiras surdo e absurdo.

            O jovem da casa, que alcançou há poucos meses o direito de votar, é adepto do ideal liberal. Confere. Nunca gostou e muito se contorce quando lhe ditam regras que, de alguma forma, sente como coercivas ao ser. Tenho sempre de lhe recordar que a Liberdade vem a par da responsabilidade, porque implica escolha e estas, consequências. Assim, o que nos acontece, de bom e de mau, é fruto das nossas escolhas, pelo que não adianta tergiversar.  Depois da escolha, exige-se o arcabouço para aguentar as consequências. Algumas trazem ranger de dentes. Como todo o jovem, é cheio de muitas certezas e apresenta algumas dúvidas. Tenho de o fazer pensar, constantemente, que no mundo não existe só o preto e o branco. Como me sabe adepta de políticas sociais, na área da saúde e estou sempre a lembrá-lo da enorme conquista que foi e é o nosso SNS, mesmo que esteja em agonia, por isso, temos o dever de o proteger, assim como defendo uma excelente educação pública, porque não deve haver nenhum jovem que tenha muita vontade de estudar, mas não o consiga fazer por falta de recursos ( e ambos podem coexistir com o privado, mas não deve haver desinvestimento público nestes dois setores), diz-me constantemente que sou de esquerda. Escusado será dizer que, para ele, o atual Governo é de esquerda, ao que lhe respondo que para um comunista, o mesmo é de direita. Não sei dizer exatamente o momento em que os partidos de centro se transformaram, para uns, em partidos de direita e, para outros, em partidos de esquerda. Eu sou uma social-democrata de génese europeia. Neste país, temos dois partidos que representam a social-democracia e que, se fosse noutro país, provavelmente, já se teriam fundido e as franjas de um e de outro teriam de procurar outros lugares. Na política, o vazio não existe. Significa que pretendo para o país a implementação de uma política social responsável, mas que coexista com uma economia que possa ser fulgurante. Quem não produz pouco tem para dar. A política social é implementada através dos impostos e todos devemos ser chamados à nossa responsabilidade, já que os Estados não fabricam dinheiro quando lhes apetece. São as pessoas que geram riqueza através dos seus trabalhos. Por isso, é importante haver uma economia de mercado e uma forte iniciativa privada. Quanto mais produtivo for um país, melhor política social poderá implementar, mas tem de a implementar ou reforçar de modo significativo, porque todos somos responsáveis por todos. Assim se vive nos países mais a Norte da Europa e vive-se muito bem: boa política social aliada a uma economia forte. Falta cumprir Portugal, neste sentido.

            De modo que tenho de lembrar o meu jovem que a esquerda e a direita não são apenas virtudes ou defeitos e, precisamente, por isso, há um centro democrático que deve procurar conjugar o melhor dos dois mundos. E tenho de lhe fazer entender que os direitos laborais como as oito horas de trabalho, ao invés do laborar até que o sol se deite, o direito às férias e feriados pagos, entre muitos outros, foram conquistas da esquerda e que ninguém está disposto a perder. Deve haver, sim, uma economia produtiva e funcional, mas que não singre por conta de uma escravização moderna e, por isso, o estado deve ter um papel regulador sem, no entanto, se imiscuir em demasia ou se tornar demasiado paternalista em relação aos seus cidadãos. É um equilíbrio difícil e que nem sempre é óbvio e muito menos fácil de conseguir. No entanto, é preciso haver discernimento para não sermos arrastados para um lodaçal sem exercício de uma reflexão crítica séria.

            Hoje, se alguém se atreve a dizer que deve haver um maior controlo sobre as pessoas que entram e de quem o país precisa para trabalhar, para proteção dos próprios trabalhadores, evitando que caiam em mãos mafiosas e para se saber quem entra, zelando pela segurança de todos, sujeita-se a ser apelidado de fascista. Os que defendem a abertura de portas, com regras menos exigentes são apelidados de esquerda radical, que procura o caos e a anarquia. É fascista quem se mostra preocupado com questões de segurança e defende as forças de segurança e de extrema-esquerda os que as criticam; É facho e burguês aquele que aspira a possuir alguma coisa de seu, que reconhece o valor do empresário, que cria postos de trabalho e gera riqueza, na sua maioria, o pequeno empresário que faz pela vida (com o suor dos outros todos podemos bem); comunista ou de extrema-esquerda, o que se insurge contra o patrão, ainda que possa ter razão.

            Entre estes dois polos andará a virtude e neste mundo, é um verdadeiro ato revolucionário encontrar-se o equilíbrio. É possível defender-se o imigrante e reconhecer o seu valor, respeitando-o, mas defendendo uma entrada de acordo com as necessidades do país e com as condições que o país lhes possa proporcionar; é possível defender as forças de segurança para que o país continue seguro e estas sejam reconhecidas, mas exigindo-lhes o compromisso com uma atuação respeitosa, recorrendo apenas ao uso proporcional da força, sabendo o cidadão que deve manifestar um comportamento colaborativo. É possível reconhecer o valor do patronato, mas exigir condições laborais e o patrão valorizar o trabalhador sem o qual nada seria possível.

O radicalismo na política e na vida nunca me convenceu. O seis também pode ser um nove, dependendo da perspetiva. Sempre serei de consensos. Sempre serei um ideal que reconhece a necessidade do pragmatismo. Na política, tal como na vida, a pitada dos diversos condimentos será o que lhe dá sabor. Nem só doce nem só amargo. O agridoce é-me agradável. Por mais equilíbrios e menos polarizações, com rejeição total de quem se manifesta intolerante, insultuoso e cultivador de ódios.

Resta acrescentar que o centro democrático tem a sua responsabilidade na insanidade destes tempos, porque não foi capaz de responder aos desafios, aos ressentimentos e frustrações de muitos, perdendo-se em joguinhos, malabarismos e aproveitamentos políticos. Depois, há a franja dos invejosos, imbecis e ignorantes contra os quais a razão nada pode. Contra esses, apenas o desprezo.

Como escreveu Antero, em resposta a Feliciano Castilho, na sua carta “Bom senso e bom gosto”: “pela limpeza interior duma alma que só vê e busca o bem, o belo, o verdadeiro.”

Nina M.

 

sábado, 25 de outubro de 2025

Crónica de Maus Costumes 439

 

A hora do diabo

               Estes tempos não têm corrido de feição. Esta semana o coração dos portugueses congelou com a notícia do assassinato da mãe de Vagos pelo próprio filho menor.

               Impossível ficar indiferente. Impossível não nos lembrarmos de uma série que passou em certo canal e deixou os pais em estado de alerta. Impossível não nos interrogarmos sobre o que se passa com os nossos filhos.

               Este caso tem contornos distintos… O miúdo não reagiu motivado por uma alteração emocional oriunda de uma situação causadora de conflito, por exemplo, não é produto de uma família desestruturada como tantas que sabemos existir, pelos vistos, era afável com os colegas e bom aluno, mas, aparentemente, tudo foi planeado. O último dado que li sobre o caso apontava para o facto de o menino poder sofrer de um transtorno compulsivo-obsessivo e terá chegado muito ansioso e arrependido ao centro educacional onde vai ficar. Espero que sim, que se verifique essa angústia genuína da criança, porque pode significar que ela, ainda, terá salvação. A mãe, que já partiu, quereria, certamente, que o seu menino tivesse salvação e não fosse um monstro. Se isto não se verificar, a pior das hipóteses, é tratar-se de um caso de psicopatia. Os psicopatas não sentem empatia, por deficiência biológica, e não se arrependem. Não são, contudo, inimputáveis, normalmente, pois têm a consciência do bem e do mal, apenas não estremecem perante este último. O arrependimento poderá ser um sinal positivo para este jovem que, apesar do mal, não pode ser abandonado.

               Não imagino o sofrimento do pai e do irmão que, neste momento, por um lado, têm um filho e irmão causador da tragédia familiar e de toda a dor, mas que em simultâneo, continua a ser o bebé que viram nascer e que terá sido criado com amor. Será uma ambivalência de sentimentos e uma fratura de alma que dilacera e destrói, onde o amor se mistura de modo intrincado com dor. Talvez a certeza de que não se poderá votar ao abandono, mas o terrível sofrimento de saber que aquele menino, ainda imberbe, empunhou friamente a arma e disparou pelas costas. Nada nos prepara para isto. Bastou um momento de trevas num coração e tudo ruiu.

               A mãe, a que partiu, no meio da tragédia, talvez seja a menos infeliz. Não viu quem desferiu o golpe nem o olhar glacial de quem carregou no ventre. Não viu o seu menino contra si, a quem já terá tudo perdoado.

               Resta o vazio e a incompreensão, o pesar, o desejo de que todos, sem exceção, se salvem e consigam sobreviver nos meio dos escombros. Será difícil e muito doloroso. Todos eles precisarão de um apoio silencioso e de muito respeito. Não precisam de condenações nem de julgamentos fáceis. Não precisam de comentários recriminatórios que pululam nas redes sociais. Precisam do nosso pesar e do nosso silêncio, da certeza de que o país chora juntamente com eles as dores de cada um.

               A sociedade precisa de começar a olhar mais atentamente para as suas crianças e os pais, particularmente, de tempo de qualidade com elas, com brincadeiras e conversas, mas também com a imposição de limites. Mais lentidão e menos ecrãs vorazes, mais amor. A sociedade precisa, urgentemente, de amor!

               O meu coração enlutou e o miúdo de catorze anos não me sai do pensamento como se fora meu… Há horas do diabo e a tua, pequeno jovem, foi uma delas. E eu quero tanto que te consigas salvar!

 

Nina M.

 

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Carta

A ti, meu filho, que desferiste 
O golpe fatal
Não te desculpo, mas perdoo
Uma mãe perdoa sempre tudo
Mesmo morta
Por viver com o coração
Do lado de fora
Que raiva tão fúria se te instalou
Sem que tivesse visto os teus olhos
Flamejantes como setas vorazes
Mas eu perdoo, filho,
A partida sem despedida
Queria saber o momento
Em que não soube ver
A tua ira a tua natureza feroz
Quando se deu tal que não pude perceber?
Responsabilizo-me pela tua escolha
Perdoo-te, filho, mas não me perdoo
Por não ver
Deve ter havido sinais
Um aperto de lábio crispado
Um cenho franzido
Uns punhos cerrados
Uma porta que escapou das mãos violenta
Não vi. Não soube ver.
Perdoo-te, filho,
E prefiro a minha morte
A ter de sobreviver ao desgosto
À dor emaranhada do novelo
À ruína das paredes do meu ser
À falha imperdoável de não ter visto
A sobrevivência é tua
Passares para lá do sangue
Do tiro certeiro à queima-roupa
Da frieza de quem orquestrou um plano
A morte é minha e a sobrevida é tua
Morri no instante em que me quiseste matar
Ainda antes do tiro fatal e depois do amor
Morri-te como quiseste. Sobreviveste-me
E eu perdoo-te, filho, mas não desculpo.