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sábado, 18 de abril de 2026

Crónica de Maus Costumes 464

 

O homem que filmou o escuro

No espetáculo do Martim Sousa Tavares, ouvi algumas histórias e uma das mais engraçadas foi passada com o realizador João César Monteiro. Esse mesmo. O cineasta que colocou o público a ir ao cinema para olhar para um ecrã escuro durante a maior parte do filme, apenas com a leitura do guião, numa espécie de voz off. Ironia suprema: o filme chamava-se Branca de Neve, mas o ecrã ficava preto.

O público não gostou. Sentiu-se enganado. A película tinha sido financiada por entidades públicas, ligadas à cultura, envolvendo muito dinheiro, cerca de 130 mil contos, o que equivaleria a 650 mil euros, na atualidade. Evidentemente, o realizador não foi poupado a críticas, apelidado de maluco lunático, na melhor das hipóteses; de ladrão  de contribuintes, na pior.

Porém, João César Monteiro era alguém fora dos padrões. Ele pretendia passar a mensagem de que há textos tão belos que dispensam a imagem. A imagem, dizia ele, distrai, desviando o foco da beleza textual. Ele já contestava a ditadura da imagem para valorizar a beleza da palavra. O público não compreendeu nem aceitou semelhante explicação, o que levou o cineasta a proferir a famosa frase: “eu quero que os portugueses se fodam”.

Naturalmente, se a audácia de fazer um filme auditivo, quase sem imagem, caiu mal, a injúria proferida ao povo não lhe foi perdoada. O caso lavrou muita tinta nos jornais e foi assunto à mesa do café. Num gesto polémico de humor cáustico, o realizador terá enviado uma quantia irrisória ao Estado como “reembolso”, acompanhada de um comentário sarcástico, após o ICAM (atual ICA) ter reduzido o subsídio a metade, após a estreia.

João César Monteiro era um provocador. Hoje, talvez a maioria sorria ao lembrar-se deste episódio; na época, foi considerado persona non grata. Efetivamente, num dos seus filmes, ele usa a frase em relação ao dinheiro que lhe dão: “Eu vou gastá-lo mal.” César Monteiro teve talento para o gastar mal.

Foi ele o autor do documentário de Sophia, realizado no Algarve, numas férias da família. O realizador ligou à poeta (Sophia queria ser chamada de poeta e não de poetisa) e esta acedeu, convidando-o para ir ter ao Algarve. Numa das cenas, grava a família no mar. Acontece que uma das familiares não mergulhava como Monteiro pretendia. Ele entrega a câmara ao barqueiro e atira-se à água para exemplificar. Conseguiu mergulhar, mas tardava regressar à superfície. É, então, quando um tio do Martim comenta: “Se calhar, ele está a afogar-se”.  O pai e o tio do maestro mergulham e, na verdade, salvam o cineasta. Refeitos do susto, o realizador esclarece que não sabia nadar! Será difícil compreender o que lhe terá passado pela cabeça para se atirar à água sem saber nadar. Deve ter contado com a perícia dos nadadores, mas arriscou-se bem!

 Esta e outras narrativas serviram para mostrar como somos feitos de histórias e como, nalguns casos, se atinge a imortalidade. Um homem só está morto quando não houver mais ninguém que dele se lembre. Quando lembramos os nossos mortos ao partilhar uma história comum, estamos a fixar a memória deles e a torná-los imortais. Os grandes artistas são recordados com uma certa nostalgia, até por aqueles que não os conheceram, e muitos são idolatrados post-mortem. Foi o que ocorreu com este cineasta português. Após a morte, a irreverência foi catalogada como genialidade e os críticos de cinema internacionais, principalmente os franceses, compararam-no a Jean-Luc Godard.

São vários os exemplos em que o reconhecimento maior chega após a morte, basta-nos pensar em Pessoa. No entanto, para nós, comuns mortais, a imortalidade nesta vida é menor e vem com prazo. Duraremos até que os nossos familiares e amigos se lembrem de nós. Quando formos apenas um nome perdido numa genealogia encomendada, sem que ninguém dê por nós, chegamos ao fim. Teremos alcançado o chão do mar, onde César Monteiro correu o risco de repousar.

 

Nina M.

 

 

 

sábado, 11 de abril de 2026

Crónica de Maus Costumes 463

 

Viagens e cansaços

               A fadiga é muita e só por comprometimento alinhavo meia-dúzia de palavras. A leitura da crónica de Gonçalo Cadilhe, conhecido pela sua escrita de viagem, deixou-me a pensar.

            O autor, pródigo andarilho e que conhece o mundo nos seus infinitos recantos, afirma que muito lhe falta conhecer, ainda. Imediatamente estabeleço comparações. Se este homem tece esta constatação que direi eu? Só poderia considerar-me uma analfabeta de mundo. Conheço algumas coisas, mas ao pé deste viajante, o que conheço caber-lhe-á no bolso de um casaco.

            Surpreendeu-me, por isso, o conceito do síndrome de Stendhal, que desconhecia, por completo. O próprio autor que deu nome à “doença” o clarificou: o desânimo e a tristeza sentidos quando, na primeira viagem a Florença, se apercebeu de que o tempo de que dispunha era manifestamente insuficiente para albergar tanta descoberta e conhecimento. O ser sente-se incompetente para conseguir apreender tudo o que os sentidos lhe fazem chegar. Aí, surge a comoção.

Compreendo bem Stendhal, porque Florença causou-me o mesmo impacto. E, agora, Praga. São aqueles lugares com os quais nos identificamos de imediato, como se, de alguma forma, o nosso ser ali tivesse pertença. Não acontece com todos os locais, por mais belos que estes possam ser. Há uma espécie de magia que nos liga por um fio invisível a sítios que visitamos pela primeira vez. A riqueza despretensiosa destas cidades acolhedoras agrada-me, assim como a alegria traduzida em conversas na rua, uma certa boémia que lhes confere charme.

            Pelos vistos, ao Cadilhe, terá sido o Egipto a causar-lhe o mesmo efeito. Não nego, à partida, o que desconheço, mas não me imagino propriamente apaixonada por este país, apesar da sua importância para a história da humanidade e da biblioteca de Alexandria.

            Certo é que viajar é sempre prazeroso e o contacto com a realidade de outro país e de outros povos permite criar empatia pela diferença, aprender a respeitar outras culturas, enfim, a saber viver num mundo cada vez mais global.

            É o medo do outro que origina a discriminação, mas quando compreendemos que o forasteiro não vem para subtrair, mas para somar, passamos a olhar o mundo por outro prisma.

            Viajar é bom e a “democratização” das viagens de avião, uma benesse que não se pode perder.

 

Nina M.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sábado, 4 de abril de 2026

Crónica de Maus Costumes 462

 

Páscoa e memórias

            Entramos na Páscoa. A memória mais recuada que tenho atira-me para um domingo de Páscoa cuja tarde foi passada em casa da minha avó. Deveria dizer casinha. Abrigo de pobres, construída sabe-se com que sacrifício!

            A casa tinha rés-do chão e primeiro andar. Em baixo, aquilo que se chamava de lojas: dois compartimentos que poderiam servir de arrumos para lenha. Talvez a minha avó tivesse aí o seu tear para fazer as mantas e as colchas de rei. Estas eram tecidas com fios brancos, com uma coroa ao centro. Tenho uma feita por ela - e tenho, também, os brincos com que sempre a vi. Raramente os uso porque são difíceis de colocar. Apertam ao contrário. Porém, em ocasião de festa mais especial, gosto de os usar.

As memórias que tenho não me permitem ver o tear nesse local, porque nessa altura, a minha avó já passava o dia em casa dos meus pais e só iam à noite para a sua casinha, pelo que o tear foi montado lá. Ainda bebé, a minha avó punha a alcofa no estrado e eu dormia o dia todo ao som da batida do tear e das canelas a deslizarem pelos fios. Dizem que à noite ninguém me aguentava! Não dormia e berrava. Eu digo que me faltava o barulho do tear, mas nunca ninguém se lembrou de ir experimentar.

Era para essa casinha, já um pouco mais crescida, que os acompanhava e dormia no meio dos dois, da avó Matilde e do avô António, e tenho tão presente pôr cada uma das minhas pernas em cima deles e de dizer: esta é do avô (a esquerda) e esta é da avó (a direita). Sei que às vezes, talvez, no tempo mais quente, o avô ia dormir para a outra cama.

            Em cima, a casa tinha a cozinha com a pedra do lar para pôr os potes, um quarto e uma sala onde também cabia uma cama. Quer a porta da cozinha quer a da sala, nas extremidades da casa, davam para o pequeno quintal que tinham. A memória mais antiga que tenho da Páscoa foi passada nesta casita, onde se esperou uma tarde inteira pela visita do compasso, com a mesa posta, como manda a tradição. Eu e uma saia de bombazina azul-marinho com peito e alças que prendiam com dois patinhos brancos.

            São memórias muito ténues, porque o meu avô ainda era vivo e ele faleceu quando eu tinha, apenas, cinco anos. Lembro-me, no entanto, muito bem do avô António: de estatura média, magro, já calvo e também não sei porquê, mas vejo-o sempre nas suas calças pretas com o balde na mão para pensar as galinhas. No tempo da poda, com as folhas de fiteiras presas nas presilhas das calças para amarrar as vides, empoleirado na escada.

Não me lembro da voz dos meus avós. A avó Matilde era parca em palavras. Sempre um ar austero e grave como se o riso fosse um desconcerto. Muito riso, pouco sizo, diz o ditado. Creio que a avó assim pensava. Eu e os meus irmãos éramos dos seus netos mais novos. A avó tinha imensos netos, mais de vinte, descendência de quatro dos seus filhos. Uma delas é solteira e não deixou prole no mundo.

            O meu avô António teve a infelicidade de ficar órfão de pais aos cinco anos e de ter sido criado por uma irmã mais velha. O desgraçado aos dez ou onze anos começou a servir. A minha avó Matilde é fruto de um casamento em segundas núpcias da minha bisavó Justina, que teve os seus próprios filhos - uma mão cheia deles - e dois enteados para criar. O azar foi tanto que enviuvou cedo e ficou só, naquele tempo, para criar o bando de petizes que tinha a seu cargo.

            Olhando para o par de jarras que eram os meus avós, é caso para constatar que a pobreza casa com a miséria! Só a terceira geração (a minha) largou a pobreza para passar à condição de remediada. Pelo meio, uma exceção que foi a minha mãe, que conseguiu estudar, fruto da ajuda da família Ferreira Gomes. Houve uns anos em que os meus avós foram para a Granja, uma quinta em Bustelo, Penafiel, como caseiros do Dr. Ferreira Gomes. Já lá estava também a tia Emília, meia-irmã da minha avó. A minha mãe sempre dizia que queria ser professora e foi, com a ajuda deles. Depois, os genes devem ter passado porque dois dos seus filhos seguiram-lhe as pisadas.

            Durante muitos anos, já após a morte dos avós, a Páscoa era celebrada em passeio. Sobrava para a tia que, anualmente, se levantava de madrugada para aquecer o forno a lenha e pôr o anho a assar, ainda antes da missa dominical matutina. Depois da eucaristia das 08h00, era todo um afazer de embalar pratos e copos, talheres, mesa e cadeiras, porque o almoço seria o tradicional anho assado, mas em jeito de piquenique. Só de imaginar o labor, a fome encolhe-se. Para nós e para os primos era uma festa. A canalha quer estar junta, porque o mundo dos adultos é sensaborão e sem interesse.

Amanhã, será Páscoa. Agora, mais tranquila e sem arcas atrás, no sossego do lar de todos, que é sempre a casa dos pais. Continua a haver o anho magistralmente assado em forno de lenha. Nem nos melhores restaurantes. O mérito é da mãe e da tia, que às nove horas - ou até antes - estarão a acender o forno para o queimar e deixar com o lastro necessário para meter as grossas pingadeiras com o anho, as batatas e o arroz de forno, obviamente.

Amanhã, será Páscoa e o almoço melhorado. Afinal, Jesus ressuscitou. Aleluia, Aleluia!

 

Nina M.

 

 

 

sábado, 28 de março de 2026

Crónica de Maus Costumes 461

 

O algoritmo decisor

Vamos ver se reproduzo o que já escrevi, mentalmente, ao longo do dia. A propósito de uma conversa sobre Inteligência Artificial (IA) com uma colega, deu-me para pesquisar um pouco sobre o assunto e o que começa a acontecer é uma inversão de papéis no mundo empresarial.

Recentemente, foi lançado o projeto Rentahuman.ai (o Marketplace gerido por IA), que funciona assim: uma empresa - ou até outra IA - define um objetivo, por exemplo, criar uma campanha de marketing em Portugal. Para o alcançar, o agente de IA, portanto, o algoritmo da plataforma analisa o mercado, publica a vaga, entrevista os candidatos humanos, define o salário conforme o mercado e contrata o gestor humano. Este, por sua vez, reportará o progresso alcançado à IA e se os indicadores de desempenho não forem atingidos, o humano pode ver o seu contrato renegociado ou automaticamente terminado pelo agente IA. Na prática, significa isto: o humano trabalha e presta contes ao algoritmo. A máquina a comandar o homem; a criação a tomar conta do criador.

A chinesa NetDragon inverteu o sistema. Colocou a IA Tang Yu a planear a captação de talentos. Identifica onde há falhas de competência na empresa e emite ordens de contratação para os Recursos Humanos, que executam as estratégias definidas pelo algoritmo. É aqui que nos encontramos e será um pouco difícil imaginar onde estaremos daqui a 15 anos.

Depois, tropecei numa notícia que dava conta de um robô - ou humanoide, se preferirmos - concebido para fazer companhia a senhoras solitárias ou menos solitárias, dependendo da sua vontade, dotados de falo, na verdade, um falo enorme de 30 centímetros, ajustável ao gosto da compradora! Fiquei a magicar que nenhuma mulher precisa de tal e que será desconfortável e contraproducente! Mesmo na engenharia, o tamanho continua a ser a grande obsessão masculina! Esta ideia de jerico só pode ter vindo de um homem! Confirmadíssimo: recorri à IA para saber a informação. O modelo, Henry, foi criado por Matt McMullen.

O humanoide é “construído” ao gosto do cliente, que pode escolher traços de personalidade - timidez, intelectualidade, romantismo. Está programado para aprender com as conversas. Memoriza factos e preferências o que lhe permite desenvolver a interação. É capaz de falar, de contar piadas e até de recitar poesia. O cliente pode “trocar módulos” sem precisar de comprar um robô novo: muda o rosto, por exemplo, revestido de silicone de platina, o mesmo que é usado em próteses médicas, capaz de reter o calor se o sistema de aquecimento interno for ativado.

Este mundo novo levanta questões éticas enormes: o perigo da desumanização das relações. Habituar-se a um “parceiro” que não tem vontade própria e diz sim a tudo, diminui a capacidade de lidar com a complexidade do outro e há a privacidade: a intimidade com um robô cheio de microfones e de câmaras, que processa dados na nuvem gera um nível de exposição sem precedentes. Quem responsabilizar se as conversas íntimas forem “hackeadas”?

Não me seduz este “admirável mundo novo”, mas lembro-me das palavras do sábio Agostinho da Silva: chegaria o dia em que o homem não precisaria de trabalhar, porque seria substituído pelas máquinas - que o homem não foi feito para trabalhar, mas para criar. Esse tempo já esteve mais longe. São assim os visionários. Capazes de prever muito antes o que acaba por suceder.

Dentro de poucos anos, o trabalho será residual - o novo luxo. A maioria viverá de um rendimento individual atribuído pelos governos, fruto da tributação das empresas. Teremos de preencher o vazio existencial deixado pela ausência de trabalho e de encontrar um sentido e propósito para a vida. Os criadores estarão em vantagem. Libertos das questões pragmáticas da vida, poderão dedicar-se aos seus delírios.

Eu, que já trabalho há 28 anos, se a renda anual me permitir viajar de vez em quando, com a leitura, a escrita e alguma prática desportiva, arranjo-me bem. Se o robô doméstico se tornar acessível e fizer a lida da casa, melhor ainda. Posso sempre dar-lhe aulas enquanto ele me passa a roupa a ferro ou me limpa as casas de banho.

Em alternativa, podemos tentar extrair água em Marte e arranjar maneira de começar tudo de novo noutro planeta, mantendo a humanidade mais ou menos como sempre foi - com exceção da sua tendência para arranjar conflitos armados. De hoje para amanhã, ainda andamos à paulada aos humanoides e temo que não ganhemos a guerra.

Tudo isto me assusta, mas em simultâneo, desperta-me uma curiosidade enorme. Quero estar cá para observar a mudança e fazer como Ricardo Reis, porque sábio é aquele que se contenta com o espetáculo do mundo!

Para terminar em beleza, não posso deixar de pedir à IA que seja o meu leitor beta. Já vos conto as novidades. Propôs uns reajustamentos - uns aceito; outros ignoro. Nunca é de desprezar a ajuda do maquinismo e, como é expectável, as críticas são sempre positivas.

 

Nina M.

 

 

quinta-feira, 26 de março de 2026

Assalto

Quando me assaltaram
O meu coração estilhaçou-se no chão
Não me levaram nada
Exceto a minha própria presença

Fiquei assim desamparada
Como ramo fustigado
Em noite de invernia

Sempre à espera da próxima primavera

sábado, 21 de março de 2026

Crónica de Maus Costumes 460

 

A dor e o esquecimento

               Dei comigo a pensar em Fernando Pessoa e na sua necessidade de se refugiar na infância, mesmo que esta fosse literariamente recriada – a da sua poesia, para obliterar a sua dor de pensar.

Na verdade, ele teve um tio muito fanfarrão e bom contador de histórias que o acompanhou na viagem de navio para a África do Sul e o entreteve durante o percurso. O próprio Pessoa, ao que parece, gostava de pregar partidas. Certo dia, terá posto uns transeuntes à procura de uma moeda que lhe teria caído sem cair, mas para o poeta do “mito é o nada que é tudo”, não espanta que gostasse dessas brincadeiras. Bastará lembrar do simulacro do suicídio do mago britânico Alesteir Crowley, em que Pessoa esteve envolvido. Independentemente das razões que terão motivado a encenação, Pessoa ter-se-á divertido. Fala-se de golpe publicitário para o inglês vender os seus livros, já que andava mal de finanças; equaciona-se a iniciação de Pessoa na corrente esotérica de Crowley e até quem sugira uma cortina de fumo que terá permitido ao mago encontros de espião. Uma semana mais tarde, Crowley foi visto em Berlim e as investigações cessaram. Certo é que a infância surge como o paraíso perdido e irrecuperável, o tempo mítico da felicidade que não voltaria a viver.

Depois, surge-me o reino maravilhoso de Miguel Torga, encravado entre fragas nuas e inóspitas. Uma meninez de escassez e de miséria, de tempos difíceis e uma infância curta, visto que aos 13 anos embarcaria para o Brasil para trabalhar na fazenda do seu tio. Regressaria aos 18, com uma vida precoce marcada pelo trabalho. Quem lê a sua autobiografia romanceada, A Criação do Mundo, encontra, nas primeiras páginas, a nostalgia da infância, através da longa rememoração efetuada pelo narrador. Lobo Antunes, escritor cru e duro, não omite a ternura nas suas memórias de infância junto dos avós, nem Saramago, apesar da dor da injustiça social. As páginas dedicadas ao avô Jerónimo, o homem mais sábio que conheceu, apesar de analfabeto, comprovam-no. Por fim, basta analisarmos a nossa própria experiência. A infância surge sempre doce e distante da dor e quando a evocamos, se fôssemos filmados ou fotografados, ver-nos-iam com um sorriso aparvalhado de quem não pensa em coisa nenhuma, mas se encontra fora deste mundo.

Há uma explicação para a doçura nostálgica: o nosso cérebro tende a fazer com que as emoções negativas associadas a uma memória desapareçam mais rapidamente do que as positivas. É um mecanismo de autopreservação e de sobrevivência. Se nos lembrássemos de todas as dores ou medos infantis, o trauma seria paralisante. Precisamente por isto, a gente que passou por traumas terríveis na sua infância precisa de ajuda especializada para os superar. O esquecimento é, por isso, um bem. Organizamos as memórias de modo a criarmos uma narrativa onde somos os sobreviventes, em que os tempos difíceis realçam a nossa resiliência ou o carinho e proteção dos que amamos. Construímos a nossa própria narrativa adocicada.

Na idade adulta, o mecanismo continua a funcionar, com algumas nuances. O cérebro não apaga o facto, mas reduz substancialmente a carga negativa. Só por isso somos capazes de nos rirmos, no ano seguinte, de umas férias que tenham corrido muito mal. Manter a dor emocional viva consumir-nos-ia a energia mental e bloquear-nos-ia os passos. O nosso cérebro transforma os momentos maus em aprendizagem ou lições de vida e guarda, preferencialmente, os sucessos. No entanto, em casos de trauma severo, o cérebro mantém a memória negativa profundamente ativada e, por isso, há situações em que a doçura não nos abraça facilmente e a memória queima como uma casa em chamas.

Recuperemos, por isso, os momentos inocentes e puros da infância ou, em alternativa, banhemo-nos no rio Lima, que já foi confundido com o Letes pelas legiões romanas, desde que o comandante Décimo Júnio Bruto não esteja do outro lado da margem a chamar-nos pelo nome.

 

Nina M.

 

 

 

 

 

sexta-feira, 20 de março de 2026

Há tristezas que se sentam

Há tristezas que se sentam
À mesa
E dormem connosco
Na cama

Fazem-nos calos na alma
Entumescem-nos a carne

Para, ao acordar, sabermos
Que há vida em nós