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sábado, 14 de fevereiro de 2026

Crónica de Maus Costumes 455

 

Amor e violência

               É Dia dos Namorados… Deveria ser um dia dedicado ao amor, à amizade e à paixão. Se possível, o ideal é ter tudo isso num só relacionamento, mas a perfeição não existe. Nessa impossibilidade, que se possa aproximar, pelo menos.

               Não tenho o hábito de celebrar este dia. O capitalismo consegue transformar tudo em oportunidade de negócio, até os sentimentos mais bonitos, criando uma espécie de artificialidade que me incomoda. Muita gente diz o mesmo sobre o Natal, mas para mim, essa data é incomparável. Será sempre a celebração do Amor pela humanidade e a festa da família… Não me alongarei sobre a minha visão sobre este dia, até porque já o fiz, há muito tempo, numa destas crónicas. Seria repetitivo e escusado. Entristece-me mais que estes dias precisem de ser relembrados, em claro sinal de que nos outros 364 dias do ano, mal se vai.

               Foi com este pesar e choque que me chegou o caso brasileiro de um indivíduo que matou os dois filhos e, depois, pôs termo à sua própria vida, para se vingar da esposa que o havia deixado. O pusilânime alegou uma traição. Ao que parece, o casal já estaria separado desde dezembro e o monstro não foi capaz de respeitar a decisão da ex-mulher em abandonar a relação. Para piorar a situação, a mãe, durante as exéquias dos meninos, teve de se ausentar porque há gente escabrosa e alienada que se deu ao trabalho de aparecer no local para injuriar esta mãe, que vive a dor maior do luto pelos filhos. A vítima maior de todo este caso horripilante. Pior, algumas das injúrias foram proferidas por mulheres, que tiveram o topete de a responsabilizar por uma escolha que competiu, unilateralmente, ao macho-alfa de ego tão frágil e tão incrivelmente covarde, que foi capaz de fazer matar os próprios filhos! Este sujeito não tem perdão! Certamente, conseguiu o seu intuito: matou a ex-mulher, deixando-a viva. Não sei o que acontecerá a esta mãe, o que fará com o seu desespero, com a sua dor… A mim… A revolta é tanta que só me apeteceria profanar a sepultura e espancar o morto até às últimas forças! Mesmo sabendo que ninguém morre, efetivamente, duas vezes. É pouco cristão e não traria os meninos de volta àquela mãe, mas… Caramba! Que dizer, sentir, pensar numa situação destas?!

               Não é apenas um caso isolado. Infelizmente, não será único, mas quando se falar em machismo estrutural e em misoginia, lembrem-se de casos destes… Estes conceitos encerram uma ferramenta de controlo que serve para punir mulheres que desafiam normas sociais e recompensam aquelas que as seguem. A desqualificação intelectual, a objetificação do corpo feminino, as diferenças salariais, a dificuldade em ascender a cargos de poder, as barreiras à educação, o assédio moral, sexual e feminicídio são manifestações claras de uma herança patriarcal, que é preciso desmanchar. Entendamos que está tão interiorizada que as próprias mulheres padecem do mal. Essa é a razão para que uma mãe fosse vilipendiada, no auge do seu sofrimento por outras mulheres. Ler testemunhos que legitimam a ação do criminoso ao dizer que “toda a ação desencadeia uma reação” é doloroso. Não se pode ter afirmações dessas. Nada legitima esta violência contra os próprios filhos! E, evidentemente, não há amor nenhum aqui! Apenas ódio, posse e incapacidade de lidar com a frustração. Um homem fraco. Um criminoso que não perdoou a mulher por não o desejar mais e se vingou da forma mais nojenta e mais vil que poderia existir. Nenhum casamento legitima a posse. Ninguém é dono de ninguém. Habituem-se, homens! As mulheres são seres livres, independentes, dotadas de inteligência, com direito à mesma liberdade, às suas escolhas, sonhos e ambições pessoais, que não dependem de nenhum macho! Obviamente, estão obrigadas ao cumprimento dos mesmos deveres enquanto cidadãs…

               O psiquiatra Daniel Sampaio afirmava, numa entrevista ao Luís Osório, que todos os hospitais deveriam ter uma ala de psiquiatria para adolescentes e falava, precisamente, na necessidade de sensibilizar os jovens e de os educar para a rejeição da violência no namoro. As últimas estatísticas portuguesas referentes ao assunto são escabrosas: 68% dos jovens legitima, pelo menos, um comportamento violento, como o controlo (impedir o parceiro de estar com amigos ou exigir as senhas de redes sociais - 53,4%), a perseguição (40,9%), a violência psicológica (insultos ou chantagem emocional - 27,6%), violência nas redes sociais (partilha de fotos íntimas ou pressão para atos sexuais – 15,1%), violência física (6%). Os dados revelam que 66.7% dos jovens que já tiveram um relacionamento reportam ter sido vítimas de pelo menos um destes comportamentos.

Desde cedo se confunde controlo com cuidado, ciúme com prova de amor e se legitima a violência com o sofrimento do agressor. Ninguém é responsável pelas reações coléricas do outro. A incapacidade de gerir a frustração e o ego ferido compete a cada um de nós e a mais ninguém.

               Hoje, em Dia dos Namorados alerto os jovens que não me leem… Os sinais de alerta são sempre dados, a paixão, que se diz ser cega, impede que os vejamos… Portanto, se o relacionamento avança de forma extremamente rápida com declarações de amor eterno em poucos dias, se houver pressão para morar juntos ou até casar muito cedo, se o controlo for efetuado em nome da tua segurança e sob a desculpa de cuidado, como críticas à indumentária, pedir a localização em tempo real, exigir senhas de telemóvel ou de computador, exigir saber com quem falas a todo o instante, tecer comentários negativos sobre os amigos para te afastar deles, fazer-te duvidar da tua própria memória, negando factos, viver em constante estado de alerta para não causar um conflito e oscilações bruscas de humor sem razão aparente, são bandeiras vermelhíssimas às quais deves dar importância! Foge desse relacionamento tóxico o quanto antes. Essa pessoa sugar-te-á toda a energia e a tua saúde mental.

               É preciso trabalhar estes temas com os jovens e a ensiná-los a aceitar a frustração que, naturalmente, surge quando há uma rejeição. Perceber que alguém saudável sofre como tem de sofrer, sem causar dano a terceiros, para se voltar a reerguer. A vida é feita destes tombos e da capacidade de nos regenerarmos. Se cada pessoa que se sentiu enganada fosse matar alguém por causa da sua dor, não sobraria gente no mundo! É preciso educar para as emoções. As escolas vão abordando estes assuntos, mas não de maneira eficaz. É o que se conclui ao olharmos para as estatísticas e a sociedade tem de aprender a deixar de delegar tudo nas escolas, que já fazem extraordinariamente mais do que lhes compete.

               É desde cedo que se desconstroem preconceitos e a prevenção é sempre melhor do que a reação. Portugal nunca aprendeu a prevenir o que quer que fosse. Está na hora de o começarmos a pensar a longo prazo e não, apenas, no imediato.

               É Dia dos Namorados e não tenho nada terno para dizer, depois do que li e que tanto me agastou. Namorai o que puderdes e bem.

 

Nina M.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Crónica de Maus Costumes 454

 

Memento Mori

               Partiu o pobre ou o Pacheco, nome pelo qual era tratado, mas como nem era pobre (o epíteto não passava de um chiste para acicatar quem tinha fama de poupado) nem Pacheco, porque este não era o seu verdadeiro nome, na verdade, o senhor Cândido Azevedo permanece entre os que o conheceram e com ele privaram. Teve uma vida cheia de trabalho e de sacrifício, de domingo a domingo. Viveu pelos filhos e para os filhos e creio que não sabia ser de outra forma.

               Eu gostava do Pacheco. A falar dele, dizia assim, a falar com ele, tratava-o por senhor Cândido. Partiu com 92 anos à frente da sua esposa, também ela Cândida, que padece de demência há alguns anos. Ele, mais velho, mas talvez todos fôssemos capazes de jurar que resistiria mais do que a mulher. A última vez que o vi, na véspera de consoada, estava hospitalizado e já muito debilitado, mas sempre a insistir em fazer as coisas por si, ainda que precisasse de ajuda para se sentar ou levantar. Foi simpatia mútua, porque o senhor Cândido sempre me tratou muito bem, com alguma deferência, até. Muitas vezes, dava-lhe para me tratar por madame e deixar cair um “comment allez-vous?”, que ia buscar ao fundo da sua memória prodigiosa, dos seus tempos de emigrante em França. O Pacheco engraçou comigo, desde que a minha existência começou a fazer parte daquele lugar, da aldeia onde Camilo, por si dito, passou os anos mais felizes da sua juventude. A aldeia perde parte do seu pitoresco e é um pouco estranho chegar ao café e saber que não irei encontrar o Pacheco nem o irei ver mais em cima do trator ou a conduzir o seu Fiat, ainda que as suas cataratas já não lhe permitissem ver um palmo à frente do nariz. Ele ria-se. Encolhia os ombros e gracejava que o carro já conhecia o caminho, quando lhe dizia que ele já não deveria conduzir. Guardei a sua imagem, em cima do trator, a passar estradão abaixo, a levantar o braço, com o chapéu de palha, no verão, sempre de sorriso aberto. Era muito fácil simpatizar-se com o senhor Cândido pela sua simpatia natural e pela sua astúcia para o negócio que me fazia sorrir. Um negociador nato! Deixo-lhe o meu pequeno tributo. Descanse em paz, senhor Cândido.

               Escrever a despedida de alguém faz-nos lembrar da nossa própria finitude. Comecei a pensar se preferiria ser cremada ou ter o habitual enterramento. Falar sobre isto não é mórbido. Creio ser sinal de consciência e de desassombro. A ideia de ficar fechada a sete palmos debaixo de terra é um pouco asfixiante… Eu sei que não sentirei nada, mas atrapalha-me as ideias em vida… Que hei de fazer? Na verdade, o que não me apetece nada é morrer. Nunca senti tal vontade… O forno não é propriamente sedutor, mas traz algumas vantagens: primeiro, literariamente, é mais interessante. O fogo é sempre símbolo de destruição, mas também de purificação, de fogo redentor e de reconstrução, a ideia de fénix renascida. Como creio que nos transformaremos numa energia que se fundirá no universo (como o pai de Lobo Antunes disse, o nada, em biologia não existe) será um renascimento. Portanto, o fogo destrói o antigo para permitir o novo. É bem mais bonita esta imagem literária do que a do “funéreo enterramento”, para usar uma expressão camoniana, extraída de “Os Lusíadas”. Depois, pouparei trabalho aos filhos com mausoléus no cemitério. A urna de cinzas, como lhe chamam, é pequena e caberá em qualquer parte. Se quiserem, podem deixá-la num columbário, mas não faço questão nenhuma… Liberto-os da “obrigação” de visitar sepultura, limpar e enfeitar com flores… Eu não estarei lá, de qualquer forma… De modo que ao falar disto, disse ao meu rapaz: como o pote (a urna de cinzas) vem lacrada, podes deixar-me ali, na biblioteca. Será um bom lugar… Depois, avisei, mas cuidado! Imaginemos que por acidente atirais o pote ao chão e ainda vos vedes obrigados a limpar… Atenção! Ainda vou parar dentro do aspirador! Isso também não me parece muito bem… Eis que o rapaz teve a belíssima ideia de dizer que sempre pode ir espalhar as cinzas ao Dragão!... Eu sorri. Pareceu-me um belíssimo lugar, na verdade, só que o avisei que terá de o fazer à renúncia. Só fará sentido se as esparzir pelo relvado… Ora, meu menino… Não te vão deixar fazer… Ele garantiu, de imediato, que compra um bilhete para visitar o museu e lá se arranja…

A minha imaginação viu-o a correr relvado adentro, a tentar livrar-se da mãe a todo o custo, enquanto seguranças correm atrás dele para impedir o maluco de pisar o relvado. Seria épico e muito mais engraçado do que baixar o féretro à terra…

Não sei… Fazei lá o que quiserdes das cinzas… Metei-as num armário qualquer, como se de uma arrumação se tratasse e pronto. Caso resolvido. Se vos pegar, de vez em quando, alguma saudade da mãe, tereis fotografias e tereis estes textos, que serão o legado possível. O enterramento, eu dispenso, meus filhos.

 

P.S. Amanhã, é dia de eleições. Ide votar, ide.

Nina M.

              

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Inteireza

A sombra, reverso da luz

A melancolia, reverso da alegria

A soturnidade, reverso da jovialidade

Assim é o meu ser: vivo e lúgubre

Nostálgico a espaços e álacre amiúde

Um equilíbrio sereno entre peso e leveza

Não se aventure o vampiro

A romper-me as veias

A sugar-me o sangue

Procure outro sol outra luz

Outro longe

A minha inteireza resistirá

Ao sopro do vento

Ao canto da sereia








sábado, 31 de janeiro de 2026

Crónica de Maus Costumes 453

 Enquanto os tolos dão, os finos não compram


            Ando há umas semanas a tentar escrever umas crónicas mais doces, quem sabe mais literárias, mas deparo-me com a realidade aterradora que nãos nos dá tréguas: a invasão de Trump à Venezuela, as atuações miseráveis do ICE, as intenções de apropriação da Groenlândia, a primeira volta das presidenciais, os milhares de mortos no Irão…


           Por mais que queiramos esquecer, a bem da nossa sanidade, a realidade não permite. Puxa-nos a perna. Enquanto escrevo, vou espreitando um documentário (amanhã, terei de o recuperar atentamente) sobre a ação do Trump em relação à justiça. A colonização que dela tenta fazer, aniquilando a separação de poderes, decidindo quem é ou não processado, fechando acordos com grandes escritórios de advogados, proíbe a entrada de determinada imprensa na Casa Branca, confronta as Universidades, fez deportações ilegais de imigrantes, não cumprindo com ordens judiciais, enfim, um ditadorzinho do calibre de Putin, que já esvaziou o poder de muitas entidades que o poderiam travar (a ele e aos seus cães de fila trogloditas). Vigora o medo e dizem os entendidos que o que se passará a seguir dependerá, em boa parte, da reação do povo e do que entendem querer para o país. Por outras palavras: ou o povo estadunidense cerra fileiras e sai à rua, luta pela democracia ou poderá estar a assistir ao princípio do fim de um Estado de Direito e na concentração de um poder absoluto nas mãos de um presidente. Os exemplos da História não são bons. Será fundamental que as pessoas compreendam o perigo real que isso pode oferecer. Não basta o contexto internacional terrível a que assistimos, para mim, a defesa da democracia e da liberdade é um imperativo de consciência. Não há valores mais altos do que estes, porque nada sobeja quando a liberdade falha e a democracia morre. De modo que assisto com gastura crónica ao que se passa.


            Quando volto os olhos para dentro, vejo uma região centro devastada pela intempérie e o desespero da população afetada pela calamidade. Os políticos não são responsáveis pela tempestade, obviamente. Contra a força bruta da natureza, o homem nada pode, mas os governantes são responsáveis pelo país e pelas suas gentes. Uma ministra da Administração Interna não pode demorar três dias a chegar ao local. A sua obrigação primeira é a de ir ao local, inteirar-se com os seus olhos e deixar uma palavra de conforto e, preferencialmente, de confiança, às pessoas. Em que mundo vive esta gente? Será alienação ou incompetência pura? Não entendo! Logicamente, a presença da senhora não acrescentaria nada à logística nem aos trabalhos que estavam a ser realizados, mas era a sua obrigação ter comparecido, tal como o primeiro-ministro. Tenho bem presente a imagem dos reis de Espanha presentes nas cheias que lhes alagou o sul do país. Ouviram o que não quiseram, algumas críticas justas, talvez, outras, completamente infundadas, gritos que vinham do desespero, mas não deixaram de cumprir com a sua obrigação moral e ética. O governo falhou redondamente. Para não falar do ministro Leitão Amaro e do suor desperdiçado em telefonemas. Ó senhor ministro, há portugueses a trabalhar diariamente tanto ou mais que o senhor, só não pode ser em mangas de camisa e arregaçadas, porque está um frio de rachar, nalgumas zonas, e nem todos dispõem de ar condicionado. Não bastava isto (apesar do pronto arrependimento e do eclipse das imagens, o mal já estava causado e caiu no ridículo), ainda haveria de chegar outro com meia-dúzia de garrafões de água, qual ajuda humanitária, para retirar da tragédia dividendos políticos! Vou explicar como deveria ser feito. Queria mesmo levar água? Arranjava um daqueles camiões grandes que usa para os comícios em campanha e carregava-os até cima. Mandava entregar com cumprimentos do deputado e até poderia lá ir, desde que não se fizesse acompanhar por uma comitiva de jornalistas, também sempre prontos a explorar uma cena deplorável, populista e sensacionalista.


           Às vezes, apetece emigrar… Tudo parece mau de mais. Mais fez o Pedro Chagas Freitas que tentou mobilizar gente capaz de prestar um primeiro auxílio, porque o nível dos estragos é de monta e vai levar tempo até se conseguir repor alguma normalidade no que à eletricidade e água diz respeito. Deixo a minha solidariedade àquelas pessoas e a um Presidente da Câmara sempre presente, esse sim, a fazer o que pode e o que o ultrapassa, a tentar obter ajuda para resolver o problemas da sua população. Aí está a diferença entre a política de gabinete e a política de proximidade. É de proximidade e de preocupação genuína de que este povo precisa. Um cansaço…
Assalta-me o espírito o Nero, não o romano, mas antes o mendigo pelintra da minha infância, sem túnica nem coroa de louro, o que ia à mercearia do Sininho, que lhe dava as bolachas Maria que ficavam partidas no fundo da caixa de cinco quilos e lhe zurzia a paciência: “Ó Carvalho, tu não precisas de andar nessa figura… Olha para isso…”
Sujo, andrajoso, sapatos sem meias, um casaquito, num frio de enregelar os ossos, no inverno, de barba e de cabelos algo compridos, magrito, o Nero calcorreava as redondezas a pedir esmola. Morava numa casa velha, com janelas partidas, sem condições, no meio do monte. No entanto, tinha posses, o Nero… Tinha bens, terrenos… E tinha uma pancada forte naquela cabeça… Não sei exatamente qual seria o problema, padecia de uma doença do foro mental. Isso é certo.


- Não precisas dito, Carvalho! Parece impossível – dizia-lhe o Sininho, com boas intenções e amigo de lhe matar a fome.


- Olha… Enquanto os tolos dão, os finos não compram!


- Ah! Seu cara de… um nome parecido com o do mendigo Carvalho… Então… Tu ainda me chamas de tolo?!


Era uma gargalhada de cada vez que o Sininho contava a façanha do Nero.


O Nero… O Nero não tinha preocupações com o contexto político nacional ou internacional. Movia-o apenas a preocupação de arranjar a comida do dia e, no inverno, de passar a noite junto aos fornos da padaria do Mesquita e, por certo, comer uns pães quentinhos e uns bolos a sair do fornos de lenha. O Nero encaixa no perfil de loucos que o Ariano Suassuna, escritor brasileiro, estimava… Aqueles que dão respostas inusitadas e que, no meio da sua loucura, mostram uma lucidez desarmante!


Enquanto os tolos dão, os finos não compram! Verdade, Nero. Verdade.
 
Nina M.
 
 
 

sábado, 24 de janeiro de 2026

Crónica de Maus Costumes 452

 

O novo Calígula

            Os tempos mórbidos que vivemos apontam para uma transformação social que se adivinha, não se sabe se para melhor ou pior…

Os mais velhos tenderão a achar que é para pior e os mais novos, bem… Têm um futuro inteiro à sua frente e pouco passado atrás. Assim, a luta que a geração dos nossos pais travou pela liberdade e que nos deixou como legado a preservar, é a nossa preocupação essencial. Crescemos politizados, numa democracia muito jovem que era preciso proteger acima de qualquer outro valor. Os que viveram sob o jugo da ditadura sabem como a vida era difícil. A geração dos meus filhos entende que os pais já foram suficientemente desgraçados por não terem tido acesso a certos bens materiais que fazem parte da sua realidade. É-lhes impensável viver sem telemóvel, computadores e consolas. Ouvem as nossas histórias de infância e julgam-nos uns desgraçados. Insistimos que vivemos uma infância muito feliz: não passamos fome, ao contrário dos nossos pais (a minha mãe passa a vida a falar do caldo pobre que mais triste se tornava a seus olhos, quando não havia feijão. Nunca gostou da sopa sem ele. O meu pai acrescenta que o caldo era água lavada de couve-galega e um pouco da batata), mas não tivemos excesso e aprendemos a partilhar. Era o tempo em que uma bicicleta tinha de dar para todos os irmãos ou primeiro computador, o “spectrum” que funcionava ligado a um gravador, com a cassete dos jogos, comprado com o dinheiro que tínhamos juntado dos presentes… Nunca gastei dinheiro que considerasse um tal desperdício como este! Posso contar pelos dedos das mãos as vezes que sentei em frente ao machibombo para jogar… Não encho uma! Nunca gostei nem nunca tive paciência para esses jogos. Valia mais uma partida de cartas ou outras brincadeiras ao ar livre… Fomos uma geração mais equilibrada, ainda do analógico, do tempo em que as fotografias levavam o seu tempo. Era preciso gastar o rolo, primeiro, depois, levá-lo ao fotógrafo que levava oito dias para as revelar. Mesmo assim, corria-se sempre o risco de cortar cabeças, pés, de ficarem desfocadas… O preço era ao rolo. Ficassem boas ou más, aproveitássemos muitas ou poucas e o dia de o ir buscar, uma emoção e a ansiedade. Hoje, os miúdos vivem o tempo da vertigem e do “scrolling” ininterrupto, o tempo das imagens sucessivas, num caleidoscópio interminável, sem pausas, sem informação aprofundada e sem reflexão. A nossa geração soube o significado de crescer com algumas dificuldades, sem as mordomias que lhes proporcionamos, hoje. A vida mais confortável e livre que já herdamos era um legado que deveria ser preservado e alargado. Paulatinamente, a nossa geração transformou-se no novo conservadorismo, no sentido de querermos preservar e cuidar do novo modo de vida democrática. Portanto, sim, sou uma das que defendo e quero preservar os 50 anos disto. Significa os 50 anos democráticos. Tudo isto está muito longe das novas gerações para quem a defesa da democracia e da liberdade se tornou uma meta curta e precisam de que lhes falem num futuro em que viver em Marte seja a nova conquista. Nós continuamos a lutar contra a fome e as terríveis assimetrias que o mundo apresenta, a protestar e a verter uma lágrima pelas vidas que sucumbem perante assassinatos a sangue-frio e à vista de todos, por uma polícia que se torna política (ICE), num país que já foi o baluarte da democracia. A nossa geração estremece perante estas imagens e recusamo-nos a aceitar que possa ser verdade! É inaceitável. É injustificável e inqualificável. Os EUA escolheram ser governados por um terrorista sociopata e aqueles agentes que foram capazes de disparar, sem qualquer motivo, primeiro, contra Renée Good e, hoje, contra Alex Pretti são assassinos. Homicidas. Num país onde vigore a decência e a justiça estes canalhas teriam de responder perante a lei. Estou zangada. Muito zangada. Um presidente demente, um novo Calígula, mas poderoso, consegue trair todo o ocidente, todos os valores construídos, todas as Instituições e os Direitos Humanos. Um mentecapto mentiroso que não respeita o próprio povo, a quem só falta arranjar um cavalo chamado “Incitatus” e nomeá-lo senador. Grande besta! Pode ser que morra pelas mãos da própria guarda pretoriana, tal como aconteceu com o Calígula romano!

Olho para esta realidade angustiada. Não sei o olhar das novas gerações, facilmente manipuláveis, mas espero que compreendam que a oposição a estas tiranias é mais importante do que o avanço da Inteligência Artificial. Espero que entendam que os discursos de ódio cavam fossos sociais que antes não existiam, que a verdadeira evolução humana consiste na eliminação da crueldade e da maldade. Espero que compreendam que aqueles que se dizem muito cristãos, mas atiram, não a primeira, mas um cesto inteiro de pedras, subvertem a mensagem de Amor fraterno que Ele nos deixou. Invocam o Seu nome em vão. São os verdadeiros vendilhões do templo. Espero que entendam que estes não são melhores do que outros terroristas a quem apontam o dedo e de quem, insistem, nos querem proteger. Deus nos proteja dos falsos profetas!

Espero que a situação vivida nos EUA sirva de lição interna. Atentem nos discursos e nas colagens, nas bandeiras defendidas e nas sucessivas mentiras e não façam a escolha entre esquerda e direita. Façam a escolha entre a democracia e a tirania, entre a liberdade e a opressão, entre o bem e o mal. Chegamos aqui: não é mais uma simples escolha entre democratas, mas uma escolha entre o bem e o mal e este não acontece, apenas, aos outros.

Estou agastada. Bom domingo, se vos for possível…

 

Nina M.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

God's failed Project


(versão inglesa IA de O projeto falhado de Deus)

​There are days of cavernous bleakness

​Skin wrinkles under a death-rattle of cold

A white mantle covers the streets

Or the heavy rain washing the windowpanes

Reminds one of helplessness

The fragility of wounded innocents

The vile blow they do not understand

And from which they cannot deviate

They only want the father, the mother, the routine

Something that sounds familiar

And reminds them of caresses

Of the safe harbor that was home

They suffer abandonment and solitude

The betrayal that comes from the hand

That should have provided shelter

Ignominy opens irreconcilable craters

Brutality is always sordid

It fixes itself, grimy, upon the skin

It is deaf.

It is cowardly.

It is petty.

It is aviling.

Never ask the scoundrel if he wants to be good.

​Man — God’s failed project!

Projeto falhado de Deus

Há dias de desalento cavernoso

A pele enruga-se sob um estertor de frio
Um manto branco cobre as ruas
Ou a chuva forte a lavar as vidraças
Lembra o desamparo
A fragilidade de inocentes feridos
O soco vil que não compreendem
 E do qual não se sabem desviar
Só quer o pai, a mãe, a sua rotina
Algo que lhe soe a conhecido
E lhe lembre das carícias
Do porto seguro que foi a casa
Sofrem o abandono e a solidão
A traição que vem da mão
Que deveria amparar 
A ignomínia abre crateras inconciliáveis
A bruteza é sempre sórdida
Fixa-se, encardida, na pele 
É surda.
É cobarde.
É mesquinha.
É aviltante.
Nunca perguntes ao pulha se quer ser bom.

O homem - projeto falhado de Deus!