Páscoa e memórias
Entramos na
Páscoa. A memória mais recuada que tenho atira-me para um domingo de Páscoa
cuja tarde foi passada em casa da minha avó. Deveria dizer casinha. Abrigo de
pobres, construída sabe-se com que sacrifício!
A casa tinha
rés-do chão e primeiro andar. Em baixo, aquilo que se chamava de lojas: dois
compartimentos que poderiam servir de arrumos para lenha. Talvez a minha avó
tivesse aí o seu tear para fazer as mantas e as colchas de rei. Estas eram tecidas
com fios brancos, com uma coroa ao centro. Tenho uma feita por ela - e tenho, também,
os brincos com que sempre a vi. Raramente os uso porque são difíceis de
colocar. Apertam ao contrário. Porém, em ocasião de festa mais especial, gosto
de os usar.
As memórias que tenho não me permitem
ver o tear nesse local, porque nessa altura, a minha avó já passava o dia em
casa dos meus pais e só iam à noite para a sua casinha, pelo que o tear foi
montado lá. Ainda bebé, a minha avó punha a alcofa no estrado e eu dormia o dia
todo ao som da batida do tear e das canelas a deslizarem pelos fios. Dizem que
à noite ninguém me aguentava! Não dormia e berrava. Eu digo que me faltava o
barulho do tear, mas nunca ninguém se lembrou de ir experimentar.
Era para essa casinha, já um pouco
mais crescida, que os acompanhava e dormia no meio dos dois, da avó Matilde e
do avô António, e tenho tão presente pôr cada uma das minhas pernas em cima
deles e de dizer: esta é do avô (a esquerda) e esta é da avó (a direita). Sei
que às vezes, talvez, no tempo mais quente, o avô ia dormir para a outra cama.
Em cima, a
casa tinha a cozinha com a pedra do lar para pôr os potes, um quarto e uma sala
onde também cabia uma cama. Quer a porta da cozinha quer a da sala, nas
extremidades da casa, davam para o pequeno quintal que tinham. A memória mais
antiga que tenho da Páscoa foi passada nesta casita, onde se esperou uma tarde
inteira pela visita do compasso, com a mesa posta, como manda a tradição. Eu e
uma saia de bombazina azul-marinho com peito e alças que prendiam com dois
patinhos brancos.
São memórias muito ténues, porque o
meu avô ainda era vivo e ele faleceu quando eu tinha, apenas, cinco anos.
Lembro-me, no entanto, muito bem do avô António: de estatura média, magro, já calvo
e também não sei porquê, mas vejo-o sempre nas suas calças pretas com o balde
na mão para pensar as galinhas. No tempo da poda, com as folhas de fiteiras presas
nas presilhas das calças para amarrar as vides, empoleirado na escada.
Não me lembro da voz dos meus avós. A
avó Matilde era parca em palavras. Sempre um ar austero e grave como se o riso
fosse um desconcerto. Muito riso, pouco sizo, diz o ditado. Creio que a avó
assim pensava. Eu e os meus irmãos éramos dos seus netos mais novos. A avó
tinha imensos netos, mais de vinte, descendência de quatro dos seus filhos. Uma
delas é solteira e não deixou prole no mundo.
O meu avô
António teve a infelicidade de ficar órfão de pais aos cinco anos e de ter sido
criado por uma irmã mais velha. O desgraçado aos dez ou onze anos começou a
servir. A minha avó Matilde é fruto de um casamento em segundas núpcias da
minha bisavó Justina, que teve os seus próprios filhos - uma mão cheia deles -
e dois enteados para criar. O azar foi tanto que enviuvou cedo e ficou só,
naquele tempo, para criar o bando de petizes que tinha a seu cargo.
Olhando para o par de jarras que eram
os meus avós, é caso para constatar que a pobreza casa com a miséria! Só a
terceira geração (a minha) largou a pobreza para passar à condição de remediada.
Pelo meio, uma exceção que foi a minha mãe, que conseguiu estudar, fruto da
ajuda da família Ferreira Gomes. Houve uns anos em que os meus avós foram para
a Granja, uma quinta em Bustelo, Penafiel, como caseiros do Dr. Ferreira Gomes.
Já lá estava também a tia Emília, meia-irmã da minha avó. A minha mãe sempre
dizia que queria ser professora e foi, com a ajuda deles. Depois, os genes
devem ter passado porque dois dos seus filhos seguiram-lhe as pisadas.
Durante muitos
anos, já após a morte dos avós, a Páscoa era celebrada em passeio. Sobrava para
a tia que, anualmente, se levantava de madrugada para aquecer o forno a lenha e
pôr o anho a assar, ainda antes da missa dominical matutina. Depois da
eucaristia das 08h00, era todo um afazer de embalar pratos e copos, talheres,
mesa e cadeiras, porque o almoço seria o tradicional anho assado, mas em jeito
de piquenique. Só de imaginar o labor, a fome encolhe-se. Para nós e para os
primos era uma festa. A canalha quer estar junta, porque o mundo dos adultos é
sensaborão e sem interesse.
Amanhã, será Páscoa. Agora, mais
tranquila e sem arcas atrás, no sossego do lar de todos, que é sempre a casa dos
pais. Continua a haver o anho magistralmente assado em forno de lenha. Nem nos
melhores restaurantes. O mérito é da mãe e da tia, que às nove horas - ou até
antes - estarão a acender o forno para o queimar e deixar com o lastro
necessário para meter as grossas pingadeiras com o anho, as batatas e o arroz
de forno, obviamente.
Amanhã, será Páscoa e o almoço
melhorado. Afinal, Jesus ressuscitou. Aleluia, Aleluia!
Nina M.