A Tasca do Zequinha
A portugalidade tem algumas características
pavorosas e outras absolutamente divinas!
Por estes dias, numa passeata pelo Alto
Douro Vinhateiro, paisagem única de montanhas enfeitadas com folhas de videira
que preenchem as cepas enfileiradas, de onde saltam já os cachos de uvas
generosos, ainda que o bago esteja verde. Precisam do calor, do sol de agosto
para amadurecer. Em setembro, já ali, as costumadas vindimas começarão.
Hoje, há tratores a percorrer os socalcos
da vinha, mas antigamente, era tudo à força do braço. Um trabalho pesado em que
homens e mulheres eram enfiados em barracões, pavilhões mal-amanhados, onde
pernoitavam enquanto a jeira da vindima perdurasse. Alguns por força da
proximidade física atreviam-se a intimidades, quando o corpo precisava de
desafogar cansaços e vontades. Basta ler o romance de Torga para compreendermos
a dureza do trabalho sazonal, mas como diz o título de um dos livros do meu
amigo Luís Altério: “Quem dos bagos extrai vinho é bom homem”.
Quando passo nesta paisagem
seminatural e semi-humana, penso sempre nos homens e mulheres que nela
trabalham arduamente, no Torga, que deixou o sacrifício e o sofrimento deles
nas páginas do seu romance e no fabuloso título que o Altério arranjou para um
dos seus contos e que intitulou o livro.
Pernoitei por lá (obrigada, mano,
pelo magnífico presente de aniversário), literalmente no meio do vinhedo, não
em barracões, mas numa casinha de xisto cheia de charme. Barriga vazia não
dorme e tivemos de ir procurar alimento. Foi assim que chegámos à Tasca do
Zequinha. Em Mesão Frio, na sua rua central, a que desce até aos paços do
concelho, numa casa antiga, vê-se uma corredor estreito, de porta aberta, com
balcão, barril de cerveja, vinho, e tudo quanto um tasco tem direito. Homens à
porta, outros de barriga encostada ao balcão. Mais dentro, numa sala do rés-do
chão, outro indivíduo que comia calmamente e com satisfação os carapauzinhos
que havia pedido. Silencioso. Nenhuma palavra ousaria estragar o manjar ou se
interporia entre ele e o petisco.
Umas escadas estreitas e velhas indicavam a subida para o piso
superior. Chega o Zequinha, pressupus.
— Quantos vão ser? — pergunta ao grupo da frente.
Sem esperar resposta conta cinco.
— Ora… Mesinha para cinco, certo?
Fez o mesmo com a restante clientela e acrescenta:
— Vão aguardar aqui que eu já chamo.
Voltou a subir, rapidamente. Ouvem-se mesas a arrastar…
Depois de algum tempo, grita do alto da escada:
— O grupo dos cinco já pode subir!
Acompanhou-os diligentemente e, depois, fez o mesmo para
todos os clientes. Ninguém tinha feito reservas para o tasco. Subimos.
O andar superior era, literalmente, uma casa. A sala de uma
habitação, com duas rosáceas de gesso no teto de onde saíam uns candeeiros do
tempo da avó. Um aparador alto cheio de cacarecos, fotografias e pedaços de
toalha de papel ou de guardanapos escritos colados na parede, a lembrar um
memorial. Numa das paredes, um azulejo com uma passagem de S. Mateus — Jesus
disse: vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos e eu vos aliviarei.
Efetivamente, assim é. Alivia o cansaço e permite que nos sentemos e alivia-nos
a fome. Automaticamente pensei com os meus botões que era bom que a frase não
fosse outra, a da Divina Comédia, de Dante: Abandonai toda a esperança, vós
que entrais.
Aquilo não era uma tasca. Era a casa da avó, onde se vai
almoçar ou jantar e não desilude. Uma mesa de alemães. Aguardavam o repasto.
Chega a travessa de arroz de tomate malandrinho seguida de uma outra de
carapauzinho frito. Ficam estáticos a olhar. Não sabiam como comer e perguntam
isso mesmo ao dono do estabelecimento que, pasme-se, num bom inglês, lhe diz
que se usar faca e garfo tinha de abrir pela lateral e exemplificou, mas os
portugueses comem mesmo à mão. É mais fácil e melhor. Os alemães ficaram
incrédulos. A senhora boquiaberta continuou de talher a respeitar a etiqueta e
o marido ia retirando as lascas à mão que metia gulosamente na boca.
Eu já sorria, deliciada. Vi a lista e quando chegou a minha
vez de pedir, disse que queria os carapauzinhos fritos para mostrar à
estrangeirada e sem peneiras como se comem um ror deles num instantinho. Sou
perita nisso. É com o carapauzinho e com a petinga. Em casa conto-os, porque se
se distraem muito, enquanto comem quatro, eu já comi oito!
Chegou o jantar. Comi à portuguesa que está na avó e não na
tasca. Com as duas mãos, a agarrar o rabo com a esquerda e a cabeça com a
direita, fui arrancando as lascas estaladiças e saborosas. A alemã a olhar
pasmada e a sorrir, tal como o marido. Nos entretantos, segue uma garfada de
arroz malandro, com tomate a saber a horta.
— Very good! — diziam.
Quiseram saber o nome do peixe. O Zequinha esclareceu e a
piscar o olho pergunta-nos que tal o petisco? É uma maravilha, não é?
— É, sim. Só nunca me passou pela cabeça vir comer
carapauzinho frito a Mesão Frio.
— Olhe, teve sorte! Hoje, olhei para eles e lembrei-me!
— Rica lembrança!
Sorrimos ambos. Pagámos modestamente, com entradas de pão,
azeitona e azeite e uma bola de carne, cortesia da casa. Tudo acompanhado por
um jarrinho de tinto da casa, obviamente.
Nina M.
P.S. A habitual rubrica encerra para descanso de pessoal
durante o mês de agosto. Agradecemos a compreensão.