Uma prece. Uma súplica.
Feridas na nossa carne
Alegrias do nosso espírito.
Habituamo-nos ao coração
Que mora do lado de fora
Inquilino esquivo e resoluto
Tudo o que pedires
Será concedido.
A poesia é a língua de Deus.
Há quem me
diga que sou predisposta a que determinadas coisas me aconteçam ou, de forma
menos simpática, que me ponho a jeito. Eu já tentei fazer uma introspeção
relativamente a isso, mas francamente não encontro uma razão especial a não ser
a de que as pessoas olham e devem considerar que não tenho ar de maltratar
ninguém, até porque facilmente me apanham a sorrir. Sozinha, muitas vezes. Sou
meio tresloucadita.
Estação de
metro no Dragão. O objetivo era seguir para o centro do Porto. Estacionámos o
carro nas imediações e, depois, seria percorrer o centro a pé, deixar-nos
encantar pelas vielas, pelas belíssimas escadas das verdades que conduzem os
turistas da Sé até à Ribeira, pelo meio do casario labiríntico e colorido.
Retirava os Andantes
da máquina para mim e familiares que vivem nos Estado-Unidos. Um deles,
norte-americano, lá nascido e criado. Retirei e distribuí os passes. Entretanto,
fui abordada por um senhor de meia-idade (agora me lembro que talvez fosse
pouco mais velho do que eu). Nos dias de hoje, um quase jovem, afinal! Deus me
livre! Tenho de me curar desta maleita de olhar para os outros e os achar
envelhecidos sem me lembrar que já levo a minha conta bem avançada. Impregna-se
esta mania no corpo de pensar que é mais jovem do que aquilo que é na realidade,
e que a rigidez muscular e o ranger das articulações desmentem com uma
facilidade quase afrontosa.
O senhor
abordou-me. Olhos vivos, pequeninos e azuis. Um senhor alto, magro e calvo.
— Ó menina,
não me poderia ajudar? Eu conheço bem o Porto, mas hoje vim de autocarro e
nunca andei de metro… Não sei tirar o bilhete.
— Com
certeza. Não me custa nada. O senhor para onde quer ir?
O homem explicou que queria ir para a
Trindade. Disse-lhe que saía mesmo lá, na estação, atrás da Câmara. De seguida,
perguntou-me se sabia onde ficava uma certa companhia de seguros, porque
precisava de resolver um problema. Já andavam a brincar com ele há demasiado
tempo. Eu não sabia, mas peguei no telemóvel e fui pesquisar para desenrascar o
senhor. A coisa tinha ficado resolvida. Disse-lhe o nome da rua e o senhor
desceu para a plataforma.
Chegou o metro. Íamos sair no Bolhão e
o homem na Trindade. Entrámos e, coincidentemente, o senhor ficou ao meu lado.
Certo e sabido: foi durante toda a viagem a conversar comigo e a contar-me a
sua história de vida. Eu não perguntei absolutamente nada; ouvi atentamente,
apenas. Gosto de gente genuína e simples. O senhor era assim. Desses que abre o
livro e ficamos a saber coisas que nem perguntámos. Queria resolver uma questão
por causa do trabalho. O patrão de muitos anos não lhe queria pagar a
indemnização a que tinha direito, por causa de um acidente de trabalho. Parece
que tentaram chegar a acordo, mas a outra parte falhou. O bom homem já nem se
queria ralar, afinal, trabalhou tantos anos para o patrão! Tinha consideração
por ele, mas nem pensar! A doutora (a advogada) não deixou. Tinha-lhe dito: “vai
pagar, vai; tem de lhe pagar o que o senhor tem direito.
— Sabe… É que a doutora também recebe
o dela…
— Pois claro, então… Ninguém trabalha
de graça – respondi.
— Sabe, menina, eu tenho um filho na
Bélgica e foi ele que me disse que era melhor vir cá para resolver isto com o
seguro. Nunca mais me dizem nada. Eu ligo, ligo e não querem saber. Não pode
ser.
— Pois não.
— Olhe… Eu conheço meio mundo! Já
estive na Bélgica, também… Já trabalhei nos Açores… Mas aí… É preciso cuidado!
As mulheres, se apanham um tipo, não o largam! Eu não! Mas tive um colega que
se viu lixado com uma! Ele tinha cá mulher!
— Por esta altura, eu já mostrava um
sorriso de orelha a orelha deliciada com a singeleza, a transparência e a
genuinidade do homem.
— Respondi-lhe, apenas: olhe que a
coisa havia de se pôr feia, caso a esposa descobrisse.
— Pois é. Pois é. Elas são lixadas.
São lixadas.
Pelo meio, ainda teve tempo de me
dizer a quantia que iria receber e de que eu já não me lembro…
O americano olhava incrédulo. Devia
estar a pensar que os portugueses são doidos. Falam com gato e sapato e pelos
cotovelos. Saímos no Bolhão. Se tivéssemos seguido para a Trindade, desconfio
que haveria de ter conversa para todo o dia. A minha sobrinha lá explicava ao
marido que aqui as pessoas são assim, mesmo não conhecendo, falam facilmente. É
verdade e se encontrarem um ouvido disposto, então, o desbragamento é total. Já
na Penha, em Guimarães tinha ocorrido algo semelhante. À saída do teleférico,
ao ver expostas umas peças, fruto de escavações, inferia, alto, que pudessem
ter sido trazidas de Briteiros. Ora… Ia a passar um senhor que ouviu e me informou
que foram encontradas numa obra que alguém que ele conhecia fazia. O seu pai
assistira ao achado. Tinham sido entregues ao museu e, posteriormente, levadas
para ali. Escusado será dizer que tivemos visita guiada pela Penha e capelas e a
informação preciosa de que para comer mais barato nas tascas dos pedregulhos
era melhor ir à outra que naquele dia se encontrava fechada, mas que serve bem
e mais em conta. Fez questão de nos narrar a história de um lisboeta que dali
saiu encantado e a quem o homem, prestável, à boa maneira das gentes do Norte,
ainda lhe arranjou quem lhe vendesse uma boa pinga.
É assim. Não faltam histórias. Haja ocasião,
tempo e boa vontade para as ouvir. Esta portugalidade genuína e pura enternece-me
e, talvez, o consigam adivinhar no meu olhar.
Nina M.
A portugalidade tem algumas características
pavorosas e outras absolutamente divinas!
Por estes dias, numa passeata pelo Alto
Douro Vinhateiro, paisagem única de montanhas enfeitadas com folhas de videira
que preenchem as cepas enfileiradas, de onde saltam já os cachos de uvas
generosos, ainda que o bago esteja verde. Precisam do calor, do sol de agosto
para amadurecer. Em setembro, já ali, as costumadas vindimas começarão.
Hoje, há tratores a percorrer os socalcos
da vinha, mas antigamente, era tudo à força do braço. Um trabalho pesado em que
homens e mulheres eram enfiados em barracões, pavilhões mal-amanhados, onde
pernoitavam enquanto a jeira da vindima perdurasse. Alguns por força da
proximidade física atreviam-se a intimidades, quando o corpo precisava de
desafogar cansaços e vontades. Basta ler o romance de Torga para compreendermos
a dureza do trabalho sazonal, mas como diz o título de um dos livros do meu
amigo Luís Altério: “Quem dos bagos extrai vinho é bom homem”.
Quando passo nesta paisagem
seminatural e semi-humana, penso sempre nos homens e mulheres que nela
trabalham arduamente, no Torga, que deixou o sacrifício e o sofrimento deles
nas páginas do seu romance e no fabuloso título que o Altério arranjou para um
dos seus contos e que intitulou o livro.
Pernoitei por lá (obrigada, mano,
pelo magnífico presente de aniversário), literalmente no meio do vinhedo, não
em barracões, mas numa casinha de xisto cheia de charme. Barriga vazia não
dorme e tivemos de ir procurar alimento. Foi assim que chegámos à Tasca do
Zequinha. Em Mesão Frio, na sua rua central, a que desce até aos paços do
concelho, numa casa antiga, vê-se uma corredor estreito, de porta aberta, com
balcão, barril de cerveja, vinho, e tudo quanto um tasco tem direito. Homens à
porta, outros de barriga encostada ao balcão. Mais dentro, numa sala do rés-do
chão, outro indivíduo que comia calmamente e com satisfação os carapauzinhos
que havia pedido. Silencioso. Nenhuma palavra ousaria estragar o manjar ou se
interporia entre ele e o petisco.
Umas escadas estreitas e velhas indicavam a subida para o piso
superior. Chega o Zequinha, pressupus.
— Quantos vão ser? — pergunta ao grupo da frente.
Sem esperar resposta conta cinco.
— Ora… Mesinha para cinco, certo?
Fez o mesmo com a restante clientela e acrescenta:
— Vão aguardar aqui que eu já chamo.
Voltou a subir, rapidamente. Ouvem-se mesas a arrastar…
Depois de algum tempo, grita do alto da escada:
— O grupo dos cinco já pode subir!
Acompanhou-os diligentemente e, depois, fez o mesmo para
todos os clientes. Ninguém tinha feito reservas para o tasco. Subimos.
O andar superior era, literalmente, uma casa. A sala de uma
habitação, com duas rosáceas de gesso no teto de onde saíam uns candeeiros do
tempo da avó. Um aparador alto cheio de cacarecos, fotografias e pedaços de
toalha de papel ou de guardanapos escritos colados na parede, a lembrar um
memorial. Numa das paredes, um azulejo com uma passagem de S. Mateus — Jesus
disse: vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos e eu vos aliviarei.
Efetivamente, assim é. Alivia o cansaço e permite que nos sentemos e alivia-nos
a fome. Automaticamente pensei com os meus botões que era bom que a frase não
fosse outra, a da Divina Comédia, de Dante: Abandonai toda a esperança, vós
que entrais.
Aquilo não era uma tasca. Era a casa da avó, onde se vai
almoçar ou jantar e não desilude. Uma mesa de alemães. Aguardavam o repasto.
Chega a travessa de arroz de tomate malandrinho seguida de uma outra de
carapauzinho frito. Ficam estáticos a olhar. Não sabiam como comer e perguntam
isso mesmo ao dono do estabelecimento que, pasme-se, num bom inglês, lhe diz
que se usar faca e garfo tinha de abrir pela lateral e exemplificou, mas os
portugueses comem mesmo à mão. É mais fácil e melhor. Os alemães ficaram
incrédulos. A senhora boquiaberta continuou de talher a respeitar a etiqueta e
o marido ia retirando as lascas à mão que metia gulosamente na boca.
Eu já sorria, deliciada. Vi a lista e quando chegou a minha
vez de pedir, disse que queria os carapauzinhos fritos para mostrar à
estrangeirada e sem peneiras como se comem um ror deles num instantinho. Sou
perita nisso. É com o carapauzinho e com a petinga. Em casa conto-os, porque se
se distraem muito, enquanto comem quatro, eu já comi oito!
Chegou o jantar. Comi à portuguesa que está na avó e não na
tasca. Com as duas mãos, a agarrar o rabo com a esquerda e a cabeça com a
direita, fui arrancando as lascas estaladiças e saborosas. A alemã a olhar
pasmada e a sorrir, tal como o marido. Nos entretantos, segue uma garfada de
arroz malandro, com tomate a saber a horta.
— Very good! — diziam.
Quiseram saber o nome do peixe. O Zequinha esclareceu e a
piscar o olho pergunta-nos que tal o petisco? É uma maravilha, não é?
— É, sim. Só nunca me passou pela cabeça vir comer
carapauzinho frito a Mesão Frio.
— Olhe, teve sorte! Hoje, olhei para eles e lembrei-me!
— Rica lembrança!
Sorrimos ambos. Pagámos modestamente, com entradas de pão,
azeitona e azeite e uma bola de carne, cortesia da casa. Tudo acompanhado por
um jarrinho de tinto da casa, obviamente.
Nina M.
P.S. A habitual rubrica encerra para descanso de pessoal
durante o mês de agosto. Agradecemos a compreensão.
Um abraço terno
Assim, nesta realidade desoladora e
triste, a capacidade de nos enternecermos prova que ainda vivemos, que ainda
resiste um último pingo de humanidade em nós. Talvez ainda tenhamos salvação.
Esta semana, ao passar por casa dos
meus pais, os vizinhos que tinham saído para uma breve caminhada, estavam à
conversa ao portão. Há muito não nos cruzávamos e eles lamentaram isso mesmo.
Ainda no carro, de cabeça baixa a separar uns papéis de que iria precisar,
sinto um vulto parado, a olhar-me. Olhei para o vidro. A Senhora Glória
aguardava pacientemente que a visse e decidisse falar-lhe, quem sabe sair.
Arrumei as coisas, desapertei o cinto e abri a porta para a cumprimentar.
— Ó Sónia! Há tanto tempo que te não
via!
Verdade. Há muito tempo.
Cumprimentei-a. Assim que me baixo ligeiramente, para lhe dar dois beijinhos,
ela dá-me um forte abraço. Daqueles que demoram com um sorriso rasgado,
enquanto garantia ter gostado de me ver. Segurei-lhe as mãos. Perguntei como
tem passado.
Entretanto, veio o marido. O mesmo
lamento. A ausência. Não me viam há muito. Cumprimentei-o também. Começou,
imediatamente, a falar-me do quadro de demência da esposa, das dificuldades que
tem para a amparar, por ter já oitenta e quatro anos.
— Ela não quer ir para o lar de dia…
A senhora Glória a acompanhar a conversa e a
mexer a cabeça para ambos os lados.
— Não quero. Não conheço as pessoas.
Não fui habituada a andar nesses ambientes. Fui criada aqui, assim…
— Foi criada em casa e no campo, não
é? Vida de muito trabalho.
— Pois foi. Agora, que podíamos estar
tão bem…
As reticências não falaram da vida de
pobreza do casal com as suas seis filhas. Ela a trabalhar na lavoura com o pai,
que fabricava uma quinta, de onde saía boa parte do alimento. O marido
marceneiro. Uma vida de sacrifício, num casebre fraco. Perderam uma filha
levada por um tumor cerebral aos catorze anos. Era cerca de dois anos mais
velha do que eu. À medida que as raparigas foram trabalhar para contribuir para
a casa, a vida deles foi melhorando. Arranjaram a casinha. Lá me fez ir a casa
dela buscar uma cabaça e uns ovos caseiros e queria que trouxesse cebolas.
Agradeci. Não as posso comer nem usar na comida. Agradeci. Veio a curgete em
substituição.
Eu a lembrar-me do tempo de gaiata,
em que passava as tardes com as filhas dela, a brincar. Às vezes,
acompanhava-as para o campo. A senhora Glória, coitada, que sabia que eu
gostava da broa de milho (ainda gosto), a oferecer-me uma fatia ao lanche, que
eu preferia ao trigo ou à bolacha Maria. Lembro-me das batatas cozidas que
comia na casa dela, regadas com azeite e uma pontinha de vinho tinto a servir
de vinagre. Na verdade, servia, que aquele vinho tinto verde, carrascão, era
amargo como trovisco. E eu, que obrigava a Glória, a minha prima, a andar com o
prato dos leõezinhos na bouça em frente, no penedo grande, enquanto me enfiava
goela abaixo a batata cozida esmagada com peixe ou carne, já fria, comia com
gosto em casa da vizinha do pouco que tinham, do caldo e das batatas. A sorte
deles é que era fraca comedora.
A minha mãe incrédula a perguntar-se
como era possível semelhante façanha. E para compensar, sabendo das
dificuldades, lá lhes levava uma mercearia para os compensar.
Ambos felizes por me darem a abóbora.
A alegria vem-lhes de um lugar mais fundo, do simples gesto natural de os
cumprimentar com dois beijos e um abraço.
São pessoas que cultivam alguma reverência perante aqueles que
consideram, de alguma forma, estar num patamar superior, devido às condições
económicas. Sentem-se neste modo de os cumprimentar tratados como iguais. Cumprimento-os
como cumprimentaria uma pessoa da família ou uma amiga. Este gesto, para mim
tão trivial e sinal de educação, para eles, um afago, um sentir que importam. Enterneci-me
e uma alegria singela invadiu-me. Senti alguma culpa por nunca me ter lembrado
de os visitar.
— Esta mulher consome-me — dizia-me o
senhor José. No outro dia cismou que eu estava com outra mulher na cama!
Soltei uma risada. Achei delicioso! Ela,
meio envergonhada, acrescenta:
— As figuras que uma pessoa se sujeita
a fazer nesta idade… Eu estava a dormir-
— E sonhou que estava por aí outra
mulher, não foi? De repente, acordou e estremunhada pareceu-lhe ver alguém.
— Foi, respondeu aliviada.
— Olhe, deixe lá, senhora Glória, uma
pessoa também não tem culpa dos sonhos! Não os escolhemos. Importa que depois
acordou e a única mulher da casa era a senhora.
— Pois era. Ó Zé, então, não vamos à
Pedreira?
— Ela ainda não andou, hoje. Ia
levá-la a caminhar, mas já é tarde e ela anda tão devagar que não chego antes
das sete e meia (19h30).
— Leve-a só até à oficina dos irmãos
Ferreira e volte para trás.
— É, Zé. Vamos só até à oficina e voltamos.
Soube que já não consegue cozinhar.
Não quer. Passa o dia entre o deitar-se na cama e levantar-se. Fala com o pai
que já morreu há muito tempo. Fala com os mortos que vê.
— Fala com os mortos todos — diz o
marido — mas não se lembra da filha.
— Ai não, não lembra! Lembro, lembro –
apressou-se a dizer.
A demência, nesse dia, foi menos
traiçoeira. Conheceu-me bem e deu-me um abraço apertado como quem sabe que tem
dias em que a memória lhe rouba o ser.
Nina M.
Não pertenço.
Nunca pertenci totalmente a nada.
Nunca coube por completo em lugar algum.
Às vezes, sobra um espaço imenso:
miúdo perdido dentro das calças
de um pai.
Às vezes, encolho-me.
O espaço é exíguo e escuro,
mesmo se é dia ao ar livre.
De volta à casa, a mim,
estico os braços, deito-me,
estico-me toda.
Quase a sentir cãibras na barriga
das pernas.
Tensionar o corpo por segundos
para expirar de seguida.
Um profundo suspiro
até encostar as costelas aos pulmões.
Sinto a realidade do corpo.
O espaço onde me caibo.