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sábado, 4 de abril de 2026

Crónica de Maus Costumes 462

 

Páscoa e memórias

            Entramos na Páscoa. A memória mais recuada que tenho atira-me para um domingo de Páscoa cuja tarde foi passada em casa da minha avó. Deveria dizer casinha. Abrigo de pobres, construída sabe-se com que sacrifício!

            A casa tinha rés-do chão e primeiro andar. Em baixo, aquilo que se chamava de lojas: dois compartimentos que poderiam servir de arrumos para lenha. Talvez a minha avó tivesse aí o seu tear para fazer as mantas e as colchas de rei. Estas eram tecidas com fios brancos, com uma coroa ao centro. Tenho uma feita por ela - e tenho, também, os brincos com que sempre a vi. Raramente os uso porque são difíceis de colocar. Apertam ao contrário. Porém, em ocasião de festa mais especial, gosto de os usar.

As memórias que tenho não me permitem ver o tear nesse local, porque nessa altura, a minha avó já passava o dia em casa dos meus pais e só iam à noite para a sua casinha, pelo que o tear foi montado lá. Ainda bebé, a minha avó punha a alcofa no estrado e eu dormia o dia todo ao som da batida do tear e das canelas a deslizarem pelos fios. Dizem que à noite ninguém me aguentava! Não dormia e berrava. Eu digo que me faltava o barulho do tear, mas nunca ninguém se lembrou de ir experimentar.

Era para essa casinha, já um pouco mais crescida, que os acompanhava e dormia no meio dos dois, da avó Matilde e do avô António, e tenho tão presente pôr cada uma das minhas pernas em cima deles e de dizer: esta é do avô (a esquerda) e esta é da avó (a direita). Sei que às vezes, talvez, no tempo mais quente, o avô ia dormir para a outra cama.

            Em cima, a casa tinha a cozinha com a pedra do lar para pôr os potes, um quarto e uma sala onde também cabia uma cama. Quer a porta da cozinha quer a da sala, nas extremidades da casa, davam para o pequeno quintal que tinham. A memória mais antiga que tenho da Páscoa foi passada nesta casita, onde se esperou uma tarde inteira pela visita do compasso, com a mesa posta, como manda a tradição. Eu e uma saia de bombazina azul-marinho com peito e alças que prendiam com dois patinhos brancos.

            São memórias muito ténues, porque o meu avô ainda era vivo e ele faleceu quando eu tinha, apenas, cinco anos. Lembro-me, no entanto, muito bem do avô António: de estatura média, magro, já calvo e também não sei porquê, mas vejo-o sempre nas suas calças pretas com o balde na mão para pensar as galinhas. No tempo da poda, com as folhas de fiteiras presas nas presilhas das calças para amarrar as vides, empoleirado na escada.

Não me lembro da voz dos meus avós. A avó Matilde era parca em palavras. Sempre um ar austero e grave como se o riso fosse um desconcerto. Muito riso, pouco sizo, diz o ditado. Creio que a avó assim pensava. Eu e os meus irmãos éramos dos seus netos mais novos. A avó tinha imensos netos, mais de vinte, descendência de quatro dos seus filhos. Uma delas é solteira e não deixou prole no mundo.

            O meu avô António teve a infelicidade de ficar órfão de pais aos cinco anos e de ter sido criado por uma irmã mais velha. O desgraçado aos dez ou onze anos começou a servir. A minha avó Matilde é fruto de um casamento em segundas núpcias da minha bisavó Justina, que teve os seus próprios filhos - uma mão cheia deles - e dois enteados para criar. O azar foi tanto que enviuvou cedo e ficou só, naquele tempo, para criar o bando de petizes que tinha a seu cargo.

            Olhando para o par de jarras que eram os meus avós, é caso para constatar que a pobreza casa com a miséria! Só a terceira geração (a minha) largou a pobreza para passar à condição de remediada. Pelo meio, uma exceção que foi a minha mãe, que conseguiu estudar, fruto da ajuda da família Ferreira Gomes. Houve uns anos em que os meus avós foram para a Granja, uma quinta em Bustelo, Penafiel, como caseiros do Dr. Ferreira Gomes. Já lá estava também a tia Emília, meia-irmã da minha avó. A minha mãe sempre dizia que queria ser professora e foi, com a ajuda deles. Depois, os genes devem ter passado porque dois dos seus filhos seguiram-lhe as pisadas.

            Durante muitos anos, já após a morte dos avós, a Páscoa era celebrada em passeio. Sobrava para a tia que, anualmente, se levantava de madrugada para aquecer o forno a lenha e pôr o anho a assar, ainda antes da missa dominical matutina. Depois da eucaristia das 08h00, era todo um afazer de embalar pratos e copos, talheres, mesa e cadeiras, porque o almoço seria o tradicional anho assado, mas em jeito de piquenique. Só de imaginar o labor, a fome encolhe-se. Para nós e para os primos era uma festa. A canalha quer estar junta, porque o mundo dos adultos é sensaborão e sem interesse.

Amanhã, será Páscoa. Agora, mais tranquila e sem arcas atrás, no sossego do lar de todos, que é sempre a casa dos pais. Continua a haver o anho magistralmente assado em forno de lenha. Nem nos melhores restaurantes. O mérito é da mãe e da tia, que às nove horas - ou até antes - estarão a acender o forno para o queimar e deixar com o lastro necessário para meter as grossas pingadeiras com o anho, as batatas e o arroz de forno, obviamente.

Amanhã, será Páscoa e o almoço melhorado. Afinal, Jesus ressuscitou. Aleluia, Aleluia!

 

Nina M.

 

 

 

sábado, 28 de março de 2026

Crónica de Maus Costumes 461

 

O algoritmo decisor

Vamos ver se reproduzo o que já escrevi, mentalmente, ao longo do dia. A propósito de uma conversa sobre Inteligência Artificial (IA) com uma colega, deu-me para pesquisar um pouco sobre o assunto e o que começa a acontecer é uma inversão de papéis no mundo empresarial.

Recentemente, foi lançado o projeto Rentahuman.ai (o Marketplace gerido por IA), que funciona assim: uma empresa - ou até outra IA - define um objetivo, por exemplo, criar uma campanha de marketing em Portugal. Para o alcançar, o agente de IA, portanto, o algoritmo da plataforma analisa o mercado, publica a vaga, entrevista os candidatos humanos, define o salário conforme o mercado e contrata o gestor humano. Este, por sua vez, reportará o progresso alcançado à IA e se os indicadores de desempenho não forem atingidos, o humano pode ver o seu contrato renegociado ou automaticamente terminado pelo agente IA. Na prática, significa isto: o humano trabalha e presta contes ao algoritmo. A máquina a comandar o homem; a criação a tomar conta do criador.

A chinesa NetDragon inverteu o sistema. Colocou a IA Tang Yu a planear a captação de talentos. Identifica onde há falhas de competência na empresa e emite ordens de contratação para os Recursos Humanos, que executam as estratégias definidas pelo algoritmo. É aqui que nos encontramos e será um pouco difícil imaginar onde estaremos daqui a 15 anos.

Depois, tropecei numa notícia que dava conta de um robô - ou humanoide, se preferirmos - concebido para fazer companhia a senhoras solitárias ou menos solitárias, dependendo da sua vontade, dotados de falo, na verdade, um falo enorme de 30 centímetros, ajustável ao gosto da compradora! Fiquei a magicar que nenhuma mulher precisa de tal e que será desconfortável e contraproducente! Mesmo na engenharia, o tamanho continua a ser a grande obsessão masculina! Esta ideia de jerico só pode ter vindo de um homem! Confirmadíssimo: recorri à IA para saber a informação. O modelo, Henry, foi criado por Matt McMullen.

O humanoide é “construído” ao gosto do cliente, que pode escolher traços de personalidade - timidez, intelectualidade, romantismo. Está programado para aprender com as conversas. Memoriza factos e preferências o que lhe permite desenvolver a interação. É capaz de falar, de contar piadas e até de recitar poesia. O cliente pode “trocar módulos” sem precisar de comprar um robô novo: muda o rosto, por exemplo, revestido de silicone de platina, o mesmo que é usado em próteses médicas, capaz de reter o calor se o sistema de aquecimento interno for ativado.

Este mundo novo levanta questões éticas enormes: o perigo da desumanização das relações. Habituar-se a um “parceiro” que não tem vontade própria e diz sim a tudo, diminui a capacidade de lidar com a complexidade do outro e há a privacidade: a intimidade com um robô cheio de microfones e de câmaras, que processa dados na nuvem gera um nível de exposição sem precedentes. Quem responsabilizar se as conversas íntimas forem “hackeadas”?

Não me seduz este “admirável mundo novo”, mas lembro-me das palavras do sábio Agostinho da Silva: chegaria o dia em que o homem não precisaria de trabalhar, porque seria substituído pelas máquinas - que o homem não foi feito para trabalhar, mas para criar. Esse tempo já esteve mais longe. São assim os visionários. Capazes de prever muito antes o que acaba por suceder.

Dentro de poucos anos, o trabalho será residual - o novo luxo. A maioria viverá de um rendimento individual atribuído pelos governos, fruto da tributação das empresas. Teremos de preencher o vazio existencial deixado pela ausência de trabalho e de encontrar um sentido e propósito para a vida. Os criadores estarão em vantagem. Libertos das questões pragmáticas da vida, poderão dedicar-se aos seus delírios.

Eu, que já trabalho há 28 anos, se a renda anual me permitir viajar de vez em quando, com a leitura, a escrita e alguma prática desportiva, arranjo-me bem. Se o robô doméstico se tornar acessível e fizer a lida da casa, melhor ainda. Posso sempre dar-lhe aulas enquanto ele me passa a roupa a ferro ou me limpa as casas de banho.

Em alternativa, podemos tentar extrair água em Marte e arranjar maneira de começar tudo de novo noutro planeta, mantendo a humanidade mais ou menos como sempre foi - com exceção da sua tendência para arranjar conflitos armados. De hoje para amanhã, ainda andamos à paulada aos humanoides e temo que não ganhemos a guerra.

Tudo isto me assusta, mas em simultâneo, desperta-me uma curiosidade enorme. Quero estar cá para observar a mudança e fazer como Ricardo Reis, porque sábio é aquele que se contenta com o espetáculo do mundo!

Para terminar em beleza, não posso deixar de pedir à IA que seja o meu leitor beta. Já vos conto as novidades. Propôs uns reajustamentos - uns aceito; outros ignoro. Nunca é de desprezar a ajuda do maquinismo e, como é expectável, as críticas são sempre positivas.

 

Nina M.

 

 

quinta-feira, 26 de março de 2026

Assalto

Quando me assaltaram
O meu coração estilhaçou-se no chão
Não me levaram nada
Exceto a minha própria presença

Fiquei assim desamparada
Como ramo fustigado
Em noite de invernia

Sempre à espera da próxima primavera

sábado, 21 de março de 2026

Crónica de Maus Costumes 460

 

A dor e o esquecimento

               Dei comigo a pensar em Fernando Pessoa e na sua necessidade de se refugiar na infância, mesmo que esta fosse literariamente recriada – a da sua poesia, para obliterar a sua dor de pensar.

Na verdade, ele teve um tio muito fanfarrão e bom contador de histórias que o acompanhou na viagem de navio para a África do Sul e o entreteve durante o percurso. O próprio Pessoa, ao que parece, gostava de pregar partidas. Certo dia, terá posto uns transeuntes à procura de uma moeda que lhe teria caído sem cair, mas para o poeta do “mito é o nada que é tudo”, não espanta que gostasse dessas brincadeiras. Bastará lembrar do simulacro do suicídio do mago britânico Alesteir Crowley, em que Pessoa esteve envolvido. Independentemente das razões que terão motivado a encenação, Pessoa ter-se-á divertido. Fala-se de golpe publicitário para o inglês vender os seus livros, já que andava mal de finanças; equaciona-se a iniciação de Pessoa na corrente esotérica de Crowley e até quem sugira uma cortina de fumo que terá permitido ao mago encontros de espião. Uma semana mais tarde, Crowley foi visto em Berlim e as investigações cessaram. Certo é que a infância surge como o paraíso perdido e irrecuperável, o tempo mítico da felicidade que não voltaria a viver.

Depois, surge-me o reino maravilhoso de Miguel Torga, encravado entre fragas nuas e inóspitas. Uma meninez de escassez e de miséria, de tempos difíceis e uma infância curta, visto que aos 13 anos embarcaria para o Brasil para trabalhar na fazenda do seu tio. Regressaria aos 18, com uma vida precoce marcada pelo trabalho. Quem lê a sua autobiografia romanceada, A Criação do Mundo, encontra, nas primeiras páginas, a nostalgia da infância, através da longa rememoração efetuada pelo narrador. Lobo Antunes, escritor cru e duro, não omite a ternura nas suas memórias de infância junto dos avós, nem Saramago, apesar da dor da injustiça social. As páginas dedicadas ao avô Jerónimo, o homem mais sábio que conheceu, apesar de analfabeto, comprovam-no. Por fim, basta analisarmos a nossa própria experiência. A infância surge sempre doce e distante da dor e quando a evocamos, se fôssemos filmados ou fotografados, ver-nos-iam com um sorriso aparvalhado de quem não pensa em coisa nenhuma, mas se encontra fora deste mundo.

Há uma explicação para a doçura nostálgica: o nosso cérebro tende a fazer com que as emoções negativas associadas a uma memória desapareçam mais rapidamente do que as positivas. É um mecanismo de autopreservação e de sobrevivência. Se nos lembrássemos de todas as dores ou medos infantis, o trauma seria paralisante. Precisamente por isto, a gente que passou por traumas terríveis na sua infância precisa de ajuda especializada para os superar. O esquecimento é, por isso, um bem. Organizamos as memórias de modo a criarmos uma narrativa onde somos os sobreviventes, em que os tempos difíceis realçam a nossa resiliência ou o carinho e proteção dos que amamos. Construímos a nossa própria narrativa adocicada.

Na idade adulta, o mecanismo continua a funcionar, com algumas nuances. O cérebro não apaga o facto, mas reduz substancialmente a carga negativa. Só por isso somos capazes de nos rirmos, no ano seguinte, de umas férias que tenham corrido muito mal. Manter a dor emocional viva consumir-nos-ia a energia mental e bloquear-nos-ia os passos. O nosso cérebro transforma os momentos maus em aprendizagem ou lições de vida e guarda, preferencialmente, os sucessos. No entanto, em casos de trauma severo, o cérebro mantém a memória negativa profundamente ativada e, por isso, há situações em que a doçura não nos abraça facilmente e a memória queima como uma casa em chamas.

Recuperemos, por isso, os momentos inocentes e puros da infância ou, em alternativa, banhemo-nos no rio Lima, que já foi confundido com o Letes pelas legiões romanas, desde que o comandante Décimo Júnio Bruto não esteja do outro lado da margem a chamar-nos pelo nome.

 

Nina M.

 

 

 

 

 

sexta-feira, 20 de março de 2026

Há tristezas que se sentam

Há tristezas que se sentam
À mesa
E dormem connosco
Na cama

Fazem-nos calos na alma
Entumescem-nos a carne

Para, ao acordar, sabermos
Que há vida em nós

sábado, 14 de março de 2026

Crónica de Maus Costumes 459

 

Memórias de um país distante

Assaltam-me memórias. Interrogo-me sobre as memórias que povoarão as novas gerações. Certamente distintas. Certamente importantes. Espero que igualmente lúcidas.

As minhas retratam um Portugal esquecido, já, algo bafiento e muito provinciano. Nem sabíamos que o éramos! A nossa visão de mundo era do tamanho do que os olhos alcançavam e do que a ingenuidade permitia, para o bem e para o mal. As minhas memórias não são cosmopolitas. Pertencem, ainda, a um mundo rural que já não encontro nem nas profundezas da ruralidade. Não porque os meus pais possuíssem terras, além do pequeno quintal que rodeava a casa. As tarefas agrícolas eram poucas e eu era-lhes poupada. Nunca gostei da sensação de secura que fica nas mãos depois de mexer na terra-as luvas são uma modernice- ou depois do manejo da enxada. Talvez haja quem não saiba que os homens cuspiam nas mãos e as esfregavam energicamente uma contra a outra para as humedecer e amolecer os calos, retirar-lhes a aspereza que sobrava da jorna. As únicas leiras que sirvo para talhar são as das palavras. Porém, não esqueço. O trabalho miúdo de apanhar o bago para a prensa, já em dias outonais, tantas vezes molhados, melancólicos e frios. Maldizia comigo os adultos que punham a catraiada a apanhar bagos. Que interesse haveria em fazer mais meia-dúzia de garrafas de vinho era o que não entendia. Se ainda fosse bom! A sua maior qualidade seria a ausência de aditivos e nem assim, porque o sulfato era sagrado. Uma zurrapa que dali resultava, mas que só quem já tinha passado mal poderia compreender a necessidade de evitar qualquer desperdício. Por isso, todo o bago se apanhava.

Ouço ao longe o aproximar do carro de bois. Não tínhamos bois. Eram do senhor Casimiro que fazia as terras do senhor Alão. Aproveitei a boleia uma ou duas vezes enquanto brincava com a suas netas, gaiatas mais ou menos da minha idade. Para lá o carro ia vazio e a canalha empoleirava-se numa algaraviada que acompanhava o solavanco das rodas sobre o alcatrão esburacado. Em simultâneo, ouço o tio Manel, acabado de chegar da França, a resmungar do estado do piso. Parece impossível que esses filhos – já perceberam o restante - não componham a estrada! Chega-se a Portugal e é um tam-tam-tam, tam-tam-tam! Depois, os bois sobre os sulcos do caminho de terra para chegar ao campo. Hora de apear. À vinda, o trajeto era feito a pé. O carro transportava ora o milho ora o pendão ora a erva. O que fosse. E eu trazia, por vezes, a brisa e a coceira de passar entre os carreiros das espigas ou dos feijões. Quando havia sede, a bica sobre o tanque grande era incansável e a água fresca. O calor talvez desse vontade de fazer do tanque piscina, mas ninguém o usava para esse fim. Não ia sempre para o campo. Às vezes, as raparigas lá podiam ficar a brincar em minha casa, mas se a jeira fosse mais longa que o habitual… Ala! Lá iam as moças contrafeitas. Era bem melhor brincar às casinhas ou ao elástico ou ao esconde-esconde.

A voz dos adultos torna-se clara e ouço o Sininho a contar e a rir-se que nem um perdido que o Severinho, seu irmão, lhe jurara a pés juntos ter ouvido o padre dizer na missa “o comunismo esteja convosco” em vez do habitual “o Senhor esteja convosco”. O irmão não acreditou, pois claro. Tal tirada não tinha qualquer nexo, ainda que o senhor padre não fosse propriamente escorreito. E lá lhe dizia para ele não dizer isso a ninguém. O Severinho, já com uma certa idade e com problemas de audição, chamava a mulher para confirmação. Olha lá, diz lá tu o que é que o padre disse, hoje, na missa. Ela, coitada, o mal da surdez deve-se-lhe ter pegado e confirmava: “o comunismo esteja convosco!”

O Sininho ria-se como um perdido, até às lágrimas, porque não achara meios de convencer o irmão, que não ia à missa com o padre. Cristão cumpridor das suas funções, sabendo da avareza do prelado, fazia questão de lhe pagar a côngrua no último dia de dezembro. O pároco era carne de pescoço e a velhice talvez o estivesse a tornar avarento ou apenas a agravar-lhe os sintomas. Havia paroquianos que não lhe atendiam aos caprichos que consideravam insustentáveis e um contratestemunho de fé. De modo que o Severinho jurava a pés juntos que se o padre passasse por ele na rua e lhe estendesse a mão para o cumprimentar, que lhe responderia: “Mão de porco só cozida!” O irmão bem tentava contemporizar e acalmar-lhe os ânimos, mas não havia meio. O mesmo Severinho veio, certa vez, regalado de uma tarde de passada na discoteca para celebrar qualquer data que não me recordo! Surdo como uma porta, a música aos brados não lhe fez impressão e dizia à boca cheia que tinha julgado mal aqueles lugares, mas que afinal se estava lá muito bem…

Eu ouvia estas e outras histórias, enquanto saboreava a broa que o sininho me dava, enquanto esperava com o meu pai que a mãe terminasse o serviço na Junta. A mulher tirou a carta, mas não conduzia. Entretinha-se à conversa com o Sininho, na mercearia. Eu sempre às espreita, porque, às vezes, lá calhava de passar por lá o Nero, o mendigo cordial, mas de quem eu fugia como o diabo da cruz.

Ouço o tossicar do Lino das Toiras que me ouve no caminho, de mão dada com a avó, a caminho da sua casa, e como o silêncio me era uma ideia estranha, nesse tempo, me perguntava, invariavelmente: “Já vais, minha papagaia?!” Ao Lino das Toiras entrou-lhe uma vaca telhado adentro, durante a noite. Foi um rebuliço. O meu avô e outros homens a pé. Atrás da vaca, talvez… Eu não dei por nada. No sono profundo, se um terramoto vier, ficarei soterrada.

Vem-me a voz da senhora Margarida, a imagem já não me é nítida. Vejo o vulto de preto, a subir as escaditas de pedra para casa. Mulher má com os próprios filhos e que maltratava o cão. Coitadinho do bicho. Nem nome tinha.  Preso à casota por um cadeado curto. Batia-lhe, por vezes. Só lhe dava caldo que o bicho não comia. Queria que comesse a batata do caldo. Aqueles olhos tristes do animal, a quem ela dizia, num tom raivoso, que era fidalgo. A senhora Margarida tinha uma fúria muito grande dentro de si que a inocência não permitia compreender. E nós, miúdos, a assistir àquilo remoídos… Raios partam a velha, má como as cobras! E a nós ainda nos deixava brincar na sua eira! Outros quaisquer eram corridos sem dó nem piedade. Lá nos devia achar educados… Aguentou-se numa velhice prolongada, mas nem os filhos lhe poupavam as palavras e apelidavam a mãe de ser muito mazinha. Era.

Estas pessoas poderiam ser personagens de um conto do Torga, o retrato de um Portugal distante e rude, longe dos centros urbanos que, ainda assim, não escapavam à pequenez de um país por se cumprir. Talvez sejamos a última geração com memórias semelhantes. Aquela em que, na escola primária (era assim chamada), as enfermeiras apareciam para vacinar a catraiada. Tudo em fila. Eu escapava. Felizmente, a minha mãe levava os filhos ao centro de saúde e poupava-nos à vergonha de deixar um pouco da nalga ao léu, à frente de todos, para levar com a seringa. Era isso e os comprimidos de flúor. A escola sempre foi pau para toda a colher!

Não sei que memórias guardará a juventude. Não serão mais as de um Portugal tão provinciano quanto o meu, mas que ainda assim, me faz sorrir!

 

Nina M.

 

 

 

 

terça-feira, 10 de março de 2026

Exílio

Há dias de exílio
Nortadas que tombam
Os corpos por terra
Dias de cicatrizes fechadas
Quem se é após a sobrevivência
A duros golpes
Não é mais quem se foi
Descobrir o lugar de pertença
Nos lugares e gentes
E saber-se não ser dali

Sobra o vazio por acúmulo
De feridas e dor
O embotamento
Um corpo fechado
A defender-se sem esbracejar
E no fim das penas
Nâo sem pesar
Resta ir