Seguidores

sábado, 3 de outubro de 2026

Crónica de Maus Costumes 483

 

Telenovela Ronaldo

             Tudo o que tenha a ver com o nome Ronaldo mexe. Natural. O homem é um símbolo do futebol mundial, um símbolo desportivo e de publicidade. O Ronaldo é uma máquina de fazer dinheiro. Enquanto se afirmava como um génio do futebol, afirmava-se como símbolo sexual que marcas desportivas, de perfumes, de vestuário, de champô e afins exploravam com sucesso.

            Ronaldo é alto, tem um porte e um corpo atlético e um palmo de cara que não lhe assenta mal — o dinheiro faz milagres. Quem não se lembra dele aos dezoito anos, imberbe e de dentes tortos — e a indústria da imagem e da moda tratou do resto. Tudo foi possível porque o jogador é autoconfiante, determinado e os seus resultados e a superação constante de recordes lhe alimentavam a autoestima e o ego gigante que até hoje revela. Ronaldo não se intimida com a câmara. É atrevido e dotado de dons naturais que fazem com que ela goste dele. É a pessoa mais seguida nas redes sociais, ocupa o primeiro lugar no Instagram, com 679,2 milhões de seguidores, mas desmontou-se todo quando, num programa gravado em família, perguntou aos filhos quem era a pessoa mais famosa que eles conheciam e um dos petizes respondeu: a mamã! O ar de Ronaldo denunciou um misto de surpresa e de indignação. Eu fartei-me de rir. Foi uma pequena lição de humildade dada por um filho.

            Se pudesse, diria ao Ronaldo que ele pode descansar. Ninguém no seu perfeito juízo pode minimizar a sua carreira, os seus troféus e todos os recordes arrancados a ferros com muito suor, disciplina e esforço. Acrescentaria, também, que ele não precisa de ser amado nem venerado por toda gente. Não haverá reconhecimento algum que lhe possa trazer o amor e a presença dos pais que tanta falta lhe fizeram na infância. Descanse o guerreiro porque venceu. Será o orgulho da Dona Dolores e do Senhor José Dinis. Amá-lo-ão profundamente. Só não o puderam acompanhar para o abraçar sempre que precisou. Essa dor moldou-lhe o carácter. Fez da fraqueza força e superou-se. Nada mais há a provar.

            Não antipatizo com o rapaz. Não o idolatro, porque o único homem digno disso é Jesus, o Cristo, não o outro, e reúne, até hoje, mais seguidores do que o Ronaldo. Esta luta já perdeste, CR7. Nem vale a pena tentar competir. De resto, vejo o egotismo do homem, a sua autoconfiança muito pincelada de arrogância, mas da qual precisou, principalmente, em Espanha. Se fosse um bom menino, a imprensa espanhola tê-lo-ia comido vivo. Não são muito fãs de portugueses, apesar de nos apelidarem “nuestros hermanos.” Ronaldo teve muita fome de vencer, foi obstinado e obcecado e só assim se conseguiu colocar no mesmo patamar do genial Messi. O que num é talento puro, no outro há talento e muito trabalho. O Cristiano sabe disso e acreditou em si, mas teve de correr sempre muito para chegar mais alto, para quebrar todos os recordes. Dá vontade de perguntar se a criança ferida já encontrou amor suficiente no reconhecimento alheio.

            O Ronaldo cresceu e tornou-se um quarentão. Está impecável. Ótimo. Uma condição física invejável. Só não chega para jogar e fazer a diferença na alta competição. O Ronaldo continua a ter muita vontade e a querer distinguir-se, mas parece que a bola já não quer muito com ele. Escapa-se-lhe, os pés enrolam-se um no outro e falha os remates, os livres embatem na barreira, não pressiona o adversário, já não parte em drible para cima dele, nem o finta e nem o passa. Muitas vezes, nem uma bola tirada à medida consegue introduzir na baliza. Com os seus 41 anos faz muito, mas não o suficiente para ser titular ou jogar todos os jogos da seleção. Tal como a mulher bela cujo tempo marcou e tem dificuldade em aceitar os vincos que surgem no rosto e a flacidez natural, as marcas da vida, o Cristiano parece não aceitar os efeitos do tempo e não se consciencializa que o seu egotismo, as suas vontades não se podem sobrepor ao sonho coletivo.

            Ninguém está contra o Cristiano. Todos lhe reconhecem as conquistas, mas a equipa produz mais sem ele em campo. As pedras funcionam como coletivo, quando não são obrigadas a produzir para uma referência na linha avançada que pouco se movimenta, não recupera bolas e denuncia dificuldade em marcar.

            O envelhecimento não poupa ninguém. Nem mesmo o Cristiano e ele não quer aceitar. Alguém tem de lhe dizer que há já algum tempo não é um dos melhores do mundo, apesar de ficar na História do futebol como um dos melhores do mundo de todos os tempos. Porém, o estatuto não pode jogar sempre que quer. Poderá jogar se e quando o treinador entender pertinente. É isto que Ronaldo não aceita e é forçoso que o faça para não cair no ridículo. É penoso ver-se alguém que alcançou o céu fazer isto a si mesmo. Foi essa sensação que o Pinto da Costa me deixou no seu último mandato, com particular ênfase, no seu último ano. Creio ter sido para todos os portistas uma dor de alma ver o homem responsável pela dimensão que o FCP alcançou a sair do estádio derrotado. Triste como a noite e com um peso imensurável sobre os ombros. Foi uma derrota necessária, mas não deixou de ser dolorosa inclusivamente para os que contra ele votaram.

            Não posso ser hipócrita. Ronaldo não me causa o mesmo pesar, por um motivo evidente: para mim, ninguém está acima do FCP e do que à instituição está ligado e nem o presidente dos presidentes está acima do FCP. Nunca uma personalidade pode estar acima de uma entidade amada.

            Acontece o mesmo com a seleção. Nunca o Ronaldo deverá estar acima dos interesses de um coletivo. O melhor para a seleção seria ter o Cristiano e dar-lhe minutos de jogo quando a equipa estiver a ganhar por três bolas de diferença e não for necessário apertar muito.

            O Ronaldo não aceitou a evidência e ficou furioso. Sentiu o seu estatuto posto em causa e abandonou os companheiros por achar que todos lhe devem prestar vassalagem. Esquece que há talentos emergentes. Miúdos bons e que precisam e têm o direito de mostrar o que valem sem terem de jogar para o galáctico que envelheceu. O Jorge Jesus, treinador também egotista, tem razão, neste caso. Enquanto timoneiro das quinas, deve zelar pelos interesses da equipa. É só isto. Não há invejas, não há panelinhas nem traições, apenas a evidência de que o tempo passa para todos, inclusive para o Ronaldo.

            Haverá amigo verdadeiro que lhe consiga dizer isto? Sabemos que o mundo conhece Ronaldo e que ele é um símbolo de Portugal, embora preferisse que fôssemos conhecidos por Pessoa. Saramago, Camões ou Sophia. Sabemos que pôs o nome de Portugal na boca do mundo e que deu muito à seleção, mas também recebeu muito dela. Ninguém se faz sozinho e Ronaldo deveria saber disso. Assim como foi capaz de agradecer à senhora que lhe dava o hambúrguer quando sentia fome, ainda criança, na academia de Alvalade, também deveria reconhecer que a seleção o ajudou a atingir alguns dos seus objetivos. Nem a seleção deixará de existir sem Ronaldo nem este deixará de ser um dos maiores ícones do futebol.

            Era tudo tão escusado se o homem tivesse um pouco menos de vaidade e ajudasse verdadeiramente o treinador a construir balneário.

            Lamento por Portugal, pelos portugueses que gostam do Ronaldo e, sobretudo, por ele mesmo. Depois disto, espero que ele mantenha a sua posição e que a seleção não se humilhe. Em 2011, o Ricardo Carvalho fez uma parvoíce semelhante, na altura de Paulo Bento. O melhor defesa central, na época. Ninguém foi atrás dele. Ficou um ano de castigo. Regressou em 2014, com o Fernando Santos, depois de um pedido de desculpas público por parte do jogador. Se, eventualmente, quiserem trazer de volta o Cristiano, será o mínimo a exigir e se ele aceitar, sem birras, ficar no banco. Talvez seja pedir muita humildade a quem se tem atribui excelsa importância.

            Por fim, resta lembrar-lhe que apesar da sua reconhecida excelência, é tão mortal quanto nós. Tudo se resume a isto — o banho de realidade que lhe está a fazer falta.

 

Nina M.

 

sábado, 26 de setembro de 2026

Crónica de Maus Costumes 482

 

O país real

               Durante esta semana, a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, salientou a importância de partilhar boleias e de reduzir a velocidade para que os portugueses consigam poupar em época de crise energética. Os conselhos são pertinentes. Efetivamente, para poupar no combustível e poupar o planeta à poluição, essas sugestões são úteis agora e sempre.

               O problema não está, portanto, no que a senhora ministra disse, mas quando o fez. Proferir estas afirmações numa época de preços controlados não seria somente sensato, seria uma forma de sensibilizar os portugueses para a adoção de comportamentos responsáveis. Poder-se-iam acrescentar outras sugestões: preferir andar a pé ou preferir as bicicletas quando o tempo e as distâncias o permitem, usar mais transportes públicos, principalmente, nas médias e grandes cidades. As pequenas cidades, vilas e aldeias não têm, normalmente, essa oferta, pelo que a adoção de tal medida não seria possível para toda a gente. Entendo ser pertinente sensibilizar os portugueses para estas preferências. Nas grandes cidades europeias não faltam executivos de fato, empoleirados na sua bicicleta, para se dirigirem ao seu local de trabalho. A mentalidade portuguesa ainda não alcançou esse patamar de evolução, porque o veículo continua a ser símbolo de status quo para a maioria, para mim, aqueles que pensam desse modo, apenas símbolo de imbecilidade. Não discordo da senhora ministra no conteúdo, mas não posso aplaudir o momento escolhido. Nesta altura, ter uma declaração destas é afrontoso para a população portuguesa. Desde logo, há inúmeros trabalhos em que não é possível haver poupança de combustível: Um taxista, um condutor de Uber ou de TVDE, um distribuidor de produtos, entre outros tantos ofícios não podem dispensar o veículo nem partilhar boleias para poupar no gasóleo, pelo que tais afirmações soam a falta de sensibilidade, a incapacidade de compreender as dificuldades do cidadão comum e a um afastamento da realidade que se torna confrangedor. Todos notamos os efeitos desta crise energética quando passamos no supermercado e compramos meia-dúzia de bens alimentares. O preço que aparece no ecrã das máquinas registadoras faz-nos apanhar pequenos sustos, mesmo que já tenhamos aprendido técnicas de poupança, como comprar um determinado produto numa determinada loja ou usar os cupões de desconto ou dar preferência às marcas brancas que não são sinónimo de qualidade inferior. O custo de vida aumentou substancialmente e os portugueses ganham mal, porque temos uma economia débil e deficitária. Ponto. Seria bom que os políticos o admitissem sem rodeios. Desde a decadência do império, o país sofre. Esta é a realidade. Apesar disto, a vida melhorou infinitamente em relação ao tempo da outra senhora. Não há comparação possível. Antes que alguém venha falar nas reservas de ouro, nas metalurgias, indústria naval e na balança comercial equilibrada, convém dizer que barras de ouro num país onde um povo morre à fome e onde não há estado social, pouco interessam. É como a fortuna do defunto: a ele, não lhe resolve nada.

               Numa crise semelhante, é inadmissível esta falta de tato. Lamento pela ministra porque se tinha mostrado uma das mais competentes deste Governo. Provou-o aquando da tempestade que assolou o país no último inverno. Ouvi-la significava aprender com alguém que sabia o que dizia. Nesta semana, ou foi muito infeliz ou foi tonta ou foi insensível. Nenhuma das hipóteses é boa.

               Dou comigo a pensar que esta gente precisa de uma imersão no Portugal profundo. Não iria gostar da experiência. Sentiria uma irritação e, quem sabe, vergonha de viver num país onde ainda há um nível de ignorância e, em simultâneo, uma genuinidade desarmante. Esta gente de gabinete precisa urgentemente do contacto com os mais desfavorecidos, com a miséria económica e, sobretudo com a miséria moral e de espírito. Só na maturidade compreendi cristalinamente as palavras da avó Matilde, que sempre dizia que os pobres de espírito eram os que mais compaixão necessitavam. “Um pobre com cabeça sabe governar-se — dizia — mas um pobre que acumula a pobreza de espírito, nem que tenha algum, depressa se faz pouco”. Em criança (a minha avó faleceu quando eu tinha 10 anos) entendia ser um disparate. Então, se tinham meios mínimos de sustento e não sabiam gerir, não eram dignos de lamento. Esquecia-me das crianças que não tinham qualquer responsabilidade nisso, apenas o azar de ter nascido ali. Até para nascer é preciso sorte. Esquecia-me e nem podia saber que a miséria era tanta e a vida tão sofrida, que o meio bagaço ou o kentucky ou digestivo não eram luxo, mas uma necessidade premente da alma. Não se pode pedir a quem vive com dois salários mínimos ou pouco mais, que paga renda de casa ou prestação ao banco, que tem filhos a seu cargo, que nada ou quase nada lhe sobra ao fim de mês, para poupar. Quando o consegue fazer, o pobre reza para que o filho não precise de ir a um oftalmologista ou para que nada avarie em casa. Esta gente de gabinete, se sabe disto, parece cega e surda.

               Por estes dias, precisei de ir ao hospital público. De cada vez que lá vou, venho com histórias hilariantes para contar. De um homem que deu guarida à filha e ao neto porque o companheiro quase a desfazia à pancada e, apesar dos alertas do pai que não o deixava entrar na sua propriedade, ele teimou. Ia munido de faca. O homem tinha uma maceta à mão e atingiu-o na cabeça. Por sorte não o matou (ainda bem) abriu-lhe um lanho que precisou de vários pontos (abençoado pai). “E se me tem tocado na irmã mais pequenina, na outra filha que tenho em casa, conforme ameaçou, matava-o à pancada.” As mulheres que ouviam a história convenciam-no de que nada tinha a temer, porque agiu em legítima defesa. O homem tinha a faca que conseguiu retirar ao meliante. O desaforado ainda foi para tribunal. Outra que ouvia jurava a pés juntos que dizia muitas vezes ao marido que se alguma vez lhe pusesse as mãos, só o faria uma vez. Ela não diria nada, na altura, mas ele não viveria para contar a história e ai daquele que ousasse fazer mal a um filho seu, porque por um filho, matava! “Matava! Não tenho pejo em dizê-lo.” Foi um desfiar do rosário do que tinha feito a sicrano e beltrano que se tinham atrevido a fazer bullying com a sua dócil criatura. As veias do pescoço encarniçavam-se, enquanto a voz subia de tom, pouco adequado ao lugar. As narrativas eram pavorosas e eu, ali, no meio daquele bulício, tomada de riso pelo relato entusiasmado, mas que não ousei soltar, dada a seriedade do assunto. Gente simples. Gente humilde. Gente de carne imperfeita com virtudes e defeitos. Gente de trabalho e de vida massacrada que ainda tem de ouvir que deve partilhar boleia para poupar. A outra partilhou a vida com um canalha e quase ficava sem ela.

               Haja respeito.

 

Nina M.

 

 

 

 

sábado, 19 de setembro de 2026

Crónica de Maus Costumes 481

 

Lista de desejos

            Sei que não é Ano Novo e que em setembro ninguém come doze passas ao bater das doze badaladas, enquanto formula desejos com o pensamento e os atira ao universo. Pode ser que este os acolha e os expanda. Todavia, é setembro e para quem trabalha por anos letivos começa um novo ano. Basta, por isso, chegar às escolas para que os colegas se desejem mutuamente um bom ano, nesta fase. Assim se justifica a lista de desejos.

            Poderia fazer como o meu sobrinho que, no seu aniversário, ao apagar as velas, automaticamente lhe saiu uma série de desejos, todos eles muito semelhantes: quero que o FCP seja campeão, que ganhe a Champions e a taça! Logo na altura, afirmei a sageza de tais desejos e que os considerava muito bem escolhidos.

Ora… Como esse voto está feito, passemos a outros. Desejo que este ano possa ser uma época de serenidade para todos. Hesitei entre serenidade ou tranquilidade. São usadas como sinónimos e, em certa medida, podem sê-lo, mas há uma ligeira nuance entre elas. É por causa destes pormenores que a língua portuguesa é bela. A tranquilidade vem do étimo latino tranquillus, remetendo para algo físico que é calmo ou pacífico. É a ausência de ruído ou de agitação. Serenidade vem do latim, também, de serenus, inicialmente usado como termo meteorológico. O céu sereno significava céu limpo, sem nuvens e luminoso. Metaforicamente, passou a simbolizar a clareza mental e a paz de espírito, mesmo no meio da adversidade. Assim, a tranquilidade é referente a algo externo ou físico, um ambiente tranquilo, sem ruído ou sem agitação e a serenidade aponta para a paz interior, para a capacidade de se aceitar a si e a vida como ela é, de forma positiva. A serenidade remete para um certo estoicismo e autocontrolo, essenciais para que o homem seja livre. Confluímos para Kant. O homem só é livre se for capaz de dominar o seu ímpeto e as suas pulsões. Deste modo, escolhi serenidade. A tranquilidade pode depender de fatores externos e que não controlamos, já na serenidade temos um papel a cumprir. Se houver uma tempestade, não há tranquilidade e nada podemos fazer, mas no meio do caos, posso e devo manter a serenidade para poder agir com sabedoria, em conformidade. Assim, não formulo o desejo de afastamento das vicissitudes. Seria inútil e infantil fazê-lo, mas peço a serenidade para saber fazer-lhes frente. Creio que o mundo está bastante necessitado de serenidade.

Depois, pedir que cada um seja capaz de dar o seu melhor e se nada de bom houver a ofertar, então, nada dê. A omissão nem sempre é má. Se não formos capazes de acrescer, não diminuamos. O silêncio e a quietude também salvam.

Peço que não nos falte a voz nem a coragem para denunciar atropelos e injustiças; peço um coração de carne e que sangre, como dizia o Nobel português, com o hábito de se compadecer pela dor e pela fragilidade alheias; peço a singeleza de nos encantarmos com as coisas mais simples da vida. O dom poético do encantamento nunca sai de moda.

Peço o imaterial ao alcance de todos: a capacidade de sorrir ao ouvir a avó que fala ao telemóvel, em público, com a neta e lhe diz que tem de estar com ela porque já juntou quatrocentos euros para lhe dar e, imediatamente a seguir, se lamenta que já deixou passar a senha por quatro vezes, pelo que terá de retirar outra; peço a paciência da senhora que a atendeu com cordialidade, respeito e simpatia.

Peço humanidade; peço o mínimo de decência; peço o que está nas mãos de cada um conseguir dar.

Não são grandes milagres. Pequenas ações que nos salvam da própria miséria.

Nina M.

 

 

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

A língua de Deus

Escreve-se como quem ora.
Uma prece. Uma súplica.
Proteção para os filhos
Feridas na nossa carne

Alegrias do nosso espírito.
Habituamo-nos ao coração
Que mora do lado de fora
Inquilino esquivo e resoluto

Tudo o que pedires
Será concedido.

A poesia é a língua de Deus.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Desagregação

Tempo vão perdido
ombros covardes
Que se esquivam à coragem
De um mergulho profundo
Em terra de plantio

Tarde de mais
Questões vãs
De um amanhã sem resposta

Só quando a derrota verga
Surge no horizonte
A dor de futuro perdido

Tarde para o que um dia
Se abandonou ou se quis
As marés sempre voltam
E o sol sempre nasce

Na luz está a paz




sábado, 12 de setembro de 2026

Crónica de Maus Costumes 480

 

Crónica leve de verão

            Há quem me diga que sou predisposta a que determinadas coisas me aconteçam ou, de forma menos simpática, que me ponho a jeito. Eu já tentei fazer uma introspeção relativamente a isso, mas francamente não encontro uma razão especial a não ser a de que as pessoas olham e devem considerar que não tenho ar de maltratar ninguém, até porque facilmente me apanham a sorrir. Sozinha, muitas vezes. Sou meio tresloucadita.

            Estação de metro no Dragão. O objetivo era seguir para o centro do Porto. Estacionámos o carro nas imediações e, depois, seria percorrer o centro a pé, deixar-nos encantar pelas vielas, pelas belíssimas escadas das verdades que conduzem os turistas da Sé até à Ribeira, pelo meio do casario labiríntico e colorido.

            Retirava os Andantes da máquina para mim e familiares que vivem nos Estado-Unidos. Um deles, norte-americano, lá nascido e criado. Retirei e distribuí os passes. Entretanto, fui abordada por um senhor de meia-idade (agora me lembro que talvez fosse pouco mais velho do que eu). Nos dias de hoje, um quase jovem, afinal! Deus me livre! Tenho de me curar desta maleita de olhar para os outros e os achar envelhecidos sem me lembrar que já levo a minha conta bem avançada. Impregna-se esta mania no corpo de pensar que é mais jovem do que aquilo que é na realidade, e que a rigidez muscular e o ranger das articulações desmentem com uma facilidade quase afrontosa.

            O senhor abordou-me. Olhos vivos, pequeninos e azuis. Um senhor alto, magro e calvo.

            — Ó menina, não me poderia ajudar? Eu conheço bem o Porto, mas hoje vim de autocarro e nunca andei de metro… Não sei tirar o bilhete.

            — Com certeza. Não me custa nada. O senhor para onde quer ir?

O homem explicou que queria ir para a Trindade. Disse-lhe que saía mesmo lá, na estação, atrás da Câmara. De seguida, perguntou-me se sabia onde ficava uma certa companhia de seguros, porque precisava de resolver um problema. Já andavam a brincar com ele há demasiado tempo. Eu não sabia, mas peguei no telemóvel e fui pesquisar para desenrascar o senhor. A coisa tinha ficado resolvida. Disse-lhe o nome da rua e o senhor desceu para a plataforma.

Chegou o metro. Íamos sair no Bolhão e o homem na Trindade. Entrámos e, coincidentemente, o senhor ficou ao meu lado. Certo e sabido: foi durante toda a viagem a conversar comigo e a contar-me a sua história de vida. Eu não perguntei absolutamente nada; ouvi atentamente, apenas. Gosto de gente genuína e simples. O senhor era assim. Desses que abre o livro e ficamos a saber coisas que nem perguntámos. Queria resolver uma questão por causa do trabalho. O patrão de muitos anos não lhe queria pagar a indemnização a que tinha direito, por causa de um acidente de trabalho. Parece que tentaram chegar a acordo, mas a outra parte falhou. O bom homem já nem se queria ralar, afinal, trabalhou tantos anos para o patrão! Tinha consideração por ele, mas nem pensar! A doutora (a advogada) não deixou. Tinha-lhe dito: “vai pagar, vai; tem de lhe pagar o que o senhor tem direito.

— Sabe… É que a doutora também recebe o dela…

— Pois claro, então… Ninguém trabalha de graça – respondi.

— Sabe, menina, eu tenho um filho na Bélgica e foi ele que me disse que era melhor vir cá para resolver isto com o seguro. Nunca mais me dizem nada. Eu ligo, ligo e não querem saber. Não pode ser.

— Pois não.

— Olhe… Eu conheço meio mundo! Já estive na Bélgica, também… Já trabalhei nos Açores… Mas aí… É preciso cuidado! As mulheres, se apanham um tipo, não o largam! Eu não! Mas tive um colega que se viu lixado com uma! Ele tinha cá mulher!

— Por esta altura, eu já mostrava um sorriso de orelha a orelha deliciada com a singeleza, a transparência e a genuinidade do homem.

— Respondi-lhe, apenas: olhe que a coisa havia de se pôr feia, caso a esposa descobrisse.

— Pois é. Pois é. Elas são lixadas. São lixadas.

Pelo meio, ainda teve tempo de me dizer a quantia que iria receber e de que eu já não me lembro…

O americano olhava incrédulo. Devia estar a pensar que os portugueses são doidos. Falam com gato e sapato e pelos cotovelos. Saímos no Bolhão. Se tivéssemos seguido para a Trindade, desconfio que haveria de ter conversa para todo o dia. A minha sobrinha lá explicava ao marido que aqui as pessoas são assim, mesmo não conhecendo, falam facilmente. É verdade e se encontrarem um ouvido disposto, então, o desbragamento é total. Já na Penha, em Guimarães tinha ocorrido algo semelhante. À saída do teleférico, ao ver expostas umas peças, fruto de escavações, inferia, alto, que pudessem ter sido trazidas de Briteiros. Ora… Ia a passar um senhor que ouviu e me informou que foram encontradas numa obra que alguém que ele conhecia fazia. O seu pai assistira ao achado. Tinham sido entregues ao museu e, posteriormente, levadas para ali. Escusado será dizer que tivemos visita guiada pela Penha e capelas e a informação preciosa de que para comer mais barato nas tascas dos pedregulhos era melhor ir à outra que naquele dia se encontrava fechada, mas que serve bem e mais em conta. Fez questão de nos narrar a história de um lisboeta que dali saiu encantado e a quem o homem, prestável, à boa maneira das gentes do Norte, ainda lhe arranjou quem lhe vendesse uma boa pinga.

É assim. Não faltam histórias. Haja ocasião, tempo e boa vontade para as ouvir. Esta portugalidade genuína e pura enternece-me e, talvez, o consigam adivinhar no meu olhar.

 

Nina M.

 

           

 

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Que sei eu do amor?

Que sei eu do amor?
Esse lugar em chama
Brasido na cinza
Tudo o que fica
Depois da paixão

Que sei eu do amor?
Uma quarta de cinzas
E folia de verão

Que sei eu do amor?
Só o que fica
Depois de abrir a mão