A dor e o esquecimento
Dei
comigo a pensar em Fernando Pessoa e na sua necessidade de se refugiar na
infância, mesmo que esta fosse literariamente recriada – a da sua poesia, para
obliterar a sua dor de pensar.
Na verdade, ele
teve um tio muito fanfarrão e bom contador de histórias que o acompanhou na
viagem de navio para a África do Sul e o entreteve durante o percurso. O
próprio Pessoa, ao que parece, gostava de pregar partidas. Certo dia, terá
posto uns transeuntes à procura de uma moeda que lhe teria caído sem cair, mas
para o poeta do “mito é o nada que é tudo”, não espanta que gostasse dessas
brincadeiras. Bastará lembrar do simulacro do suicídio do mago britânico Alesteir
Crowley, em que Pessoa esteve envolvido. Independentemente das razões que terão
motivado a encenação, Pessoa ter-se-á divertido. Fala-se de golpe publicitário
para o inglês vender os seus livros, já que andava mal de finanças; equaciona-se
a iniciação de Pessoa na corrente esotérica de Crowley e até quem sugira uma
cortina de fumo que terá permitido ao mago encontros de espião. Uma semana mais
tarde, Crowley foi visto em Berlim e as investigações cessaram. Certo é que a
infância surge como o paraíso perdido e irrecuperável, o tempo mítico da felicidade
que não voltaria a viver.
Depois, surge-me
o reino maravilhoso de Miguel Torga, encravado entre fragas nuas e inóspitas. Uma
meninez de escassez e de miséria, de tempos difíceis e uma infância curta, visto
que aos 13 anos embarcaria para o Brasil para trabalhar na fazenda do seu tio. Regressaria
aos 18, com uma vida precoce marcada pelo trabalho. Quem lê a sua autobiografia
romanceada, A Criação do Mundo, encontra, nas primeiras páginas, a
nostalgia da infância, através da longa rememoração efetuada pelo narrador. Lobo
Antunes, escritor cru e duro, não omite a ternura nas suas memórias de infância
junto dos avós, nem Saramago, apesar da dor da injustiça social. As páginas
dedicadas ao avô Jerónimo, o homem mais sábio que conheceu, apesar de
analfabeto, comprovam-no. Por fim, basta analisarmos a nossa própria
experiência. A infância surge sempre doce e distante da dor e quando a
evocamos, se fôssemos filmados ou fotografados, ver-nos-iam com um sorriso
aparvalhado de quem não pensa em coisa nenhuma, mas se encontra fora deste
mundo.
Há uma
explicação para a doçura nostálgica: o nosso cérebro tende a fazer com que as emoções
negativas associadas a uma memória desapareçam mais rapidamente do que as
positivas. É um mecanismo de autopreservação e de sobrevivência. Se nos
lembrássemos de todas as dores ou medos infantis, o trauma seria paralisante.
Precisamente por isto, a gente que passou por traumas terríveis na sua infância
precisa de ajuda especializada para os superar. O esquecimento é, por isso, um
bem. Organizamos as memórias de modo a criarmos uma narrativa onde somos os
sobreviventes, em que os tempos difíceis realçam a nossa resiliência ou o
carinho e proteção dos que amamos. Construímos a nossa própria narrativa adocicada.
Na idade
adulta, o mecanismo continua a funcionar, com algumas nuances. O cérebro não
apaga o facto, mas reduz substancialmente a carga negativa. Só por isso somos
capazes de nos rirmos, no ano seguinte, de umas férias que tenham corrido muito
mal. Manter a dor emocional viva consumir-nos-ia a energia mental e
bloquear-nos-ia os passos. O nosso cérebro transforma os momentos maus em
aprendizagem ou lições de vida e guarda, preferencialmente, os sucessos. No
entanto, em casos de trauma severo, o cérebro mantém a memória negativa profundamente
ativada e, por isso, há situações em que a doçura não nos abraça facilmente e a
memória queima como uma casa em chamas.
Recuperemos,
por isso, os momentos inocentes e puros da infância ou, em alternativa,
banhemo-nos no rio Lima, que já foi confundido com o Letes pelas legiões
romanas, desde que o comandante Décimo Júnio Bruto não esteja do outro lado da
margem a chamar-nos pelo nome.
Nina M.