Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar
O verso
central de “Cantata da paz”, de Sophia de Mello Breyner Andresen, que denuncia
as injustiças e apela às consciências permanecerá atualíssimo enquanto houver
humanidade.
Como
saberão, lembro que Sophia era católica progressista, voz ativa contra a
ditadura, juntamente com o marido Francisco Sousa Tavares, homem dotado de
grande coragem. Sophia, essa mulher aristocrática, com semblante de deusa
grega, não lhe ficava atrás. O poema referido foi criado para ser declamado
numa vigília, na Capela do Rato, em Lisboa, como protesto contra a guerra colonial
e um apelo à liberdade. Uma denúncia da fome, da injustiça, da guerra, com referências
a Hiroshima — onde a carne das crianças se transforma em cinza — a África e ao Vietname.
Uma chamada de atenção para uma época em que se vivia um “pecado organizado”.
Aconselho a
sua leitura ou melhor, aconselho a sua audição. O poema foi musicado pelo Francisco
Fanhais, sacerdote progressista, influenciado pelo Bispo D. António Ferreira Gomes
e pelas músicas de Zeca Afonso, que ouvia à revelia no seminário. Facilmente o
encontrareis na Internet. Acabei de o ouvir. Fazei o mesmo e percebereis que o
podemos cantar hoje porque, infelizmente, não perdeu a sua atualidade.
O Homem é
uma besta e as atrocidades continuam a existir. Continuamos a viver numa época
de pecado organizado, em que todos sabemos quem são os grandes pecadores, que
continuam a beneficiar da clemência e absoluta absolvição de outros líderes.
Uns porque pertencem ao clã do pecado organizado e outros porque lhes falta a
coragem de se oporem veementemente aos dislates, com enorme receio das
consequências nefastas que tal ousadia implicaria, em termos económicos, para
as suas nações.
O mundo segue,
assim, numa realidade feia e inaceitável, mas em que todos fingem. Uns fingem
que não são responsáveis; outros fingem-se de vítimas; outros fingem não saber;
outros fingem acreditar no que nunca acreditaram. Enfim, transformam a vida e
os destinos dos povos numa enorme peça de teatro, onde cada um interpreta o seu
papel o melhor que souber para que o pecado organizado se perpetue com a
complacência de todos, incluindo a nossa.
Nós, a
arraia-miúda, encolhe os ombros numa resignação de quem já desistiu, de quem
entende nada poder resolver e, portanto, vale mais não se inquietar muito.
Ricardo Reis tinha razão: sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo. E
assim vivemos, com as nossas preocupações, agora, com o Mundial, o calor que
abunda, o pensamento nas férias, o trabalho que ainda é preciso cumprir…
Distraímo-nos com o quotidiano comezinho, tantas vezes entediante e vazio. Não
nos sobra tempo para olharmos para o lado. Afinal, o que se poderia fazer? As
manifestações não adiantam de nada! Marcam uma posição, mas no dia seguinte,
tudo permanece imutável.
Imagino, na minha inocência, um dia
em que o mundo parasse por completo. Um dia em que ninguém saísse para
trabalhar e jurasse assim continuar até que os responsáveis pelas vilanias
erguessem as bandeiras brancas, em sinal de rendição e de redenção. Se Saramago
fosse vivo, talvez aproveitasse a ideia e lhe desse forma de romance. Começaria
assim: No dia seguinte, ninguém trabalhou. As alfaias agrícolas não saíram dos
celeiros, os cafés não abriram. As escolas fecharam. Os hospitais colocaram um
letreiro que dizia volto já, as esquadras estavam vazias e as indústrias paradas.
Só os parques, as praias e os rios se povoavam com a leveza dos risos. Havia,
porém, um local em cada país onde o desespero se fazia sentir: o parlamento ou
o centro do poder.
O resto da
história podereis imaginar.
Talvez os
conflitos terminassem de uma vez, talvez os governantes de cada país começassem,
finalmente, a governar para a população e não contra ela e até, quem sabe, os
professores conseguissem voltar a exames escorreitos e sem enganos para
classificar, sob o sol tórrido de julho!
Talvez o
senhor ministro da educação viesse, finalmente, reconhecer o erro e pedir
desculpa ao país. Não dói assim tanto reconhecer um erro. Aliás, é a melhor
forma de desarmar o outro: a assunção da culpa ou da responsabilidade. Talvez
viesse dizer que na segunda fase se entregaria os exames em papel aos
classificadores. Talvez os pais se preocupassem mais com os filhos. Talvez se
pudesse continuar a acreditar na palavra de ministro.
Nina M.