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sábado, 31 de outubro de 2026

Metamorfose de uma Mulher

            A manhã aproximava-se lenta no seu despertar. O Sol desmaiado de dezembro erguia-se pálido e preguiçoso e o rubor habitual da Aurora tardava.

Levantei-me e descalça pisei o chão frio que sempre me arrefecia os pés. Voltei a prometer calçar as pantufas. Sabia que não o faria, contudo. Há muito deixara de contar as promessas que fazia a mim mesma. Sempre as quebrava. Rememorava as vezes que me deixei humilhar, depois de me ter jurado nunca mais o fazer. Assim, o chinelo de quarto era mais um lembrete do que um propósito. De qualquer modo, o ar gélido que se sentia na madrugada permitia-me sentir a realidade. Transpassava-me a carne até se alojar na alma.

Cumpri o alívio que o corpo me exigia, espreitei pela pequena janela da casa de banho e a luminosidade ainda fraca da manhã lembrou-me outro dezembro. O dia das poucas promessas que conseguira cumprir. Corria o ano de 1978. Tinha 30 anos, a pele lisa e firme, as mãos sem as manchas do tempo, o olhar cheio de esperanças por realizar. Tinha sido numa manhã como esta, de dezembro, fria e de sol esmaecido que se me fizera luz.

Não me sujeitaria mais as expectativas alheias e cumpriria o meu destino. Casada há 7 anos, os filhos não surgiram. Sentia no olhar alheio a reprovação do ventre seco, árido como a areia do deserto. Se me soubessem! Talvez tivessem sabido! Nunca fora eu. A prova são os três filhos que vieram mais tarde.

A autoridade do marido era a lei da casa e se ele me assegurava que responsabilidade era minha, só eu poderia ser solo e estéril e inóspito. Nunca o homem falharia na missão de propagação da espécie. Eu era a inútil que o destino tinha determinado ao marido educadíssimo, gentil e perfeito. As suas palavras eram mil agulhas finas a cravarem-se-me na pele. As suas ironias feriam-me mortalmente. O olhar de desprezo que me lançava quando pressentia que os meus olhos se detinham numa montra de roupa de criança era devastador. Sempre o mesmo comentário seco:

— quem não tem carro não precisa de garagem.

Fingia não ouvir e fingia não sentir. Normalizava o comentário cruel que me diminuía e que, aos poucos, me destruía. A cada remoque, a vontade de sair tomava conta dos meus músculos que se enrijeciam. Com o tempo, o meu rosto tornou-se sério e o meu sorriso gentil e fácil, que tanto o cativara, desaparecera.

Tinha, no entanto, um bom marido — diziam-me — até me permitia trabalhar!

Uma mulher sem filhos precisava de ocupar o seu tempo, pelo menos fosse útil à sociedade, já que era terra árida como esposa. Esta era a sua justificação. Não podia, porém, esquecer-me das minhas obrigações domésticas. Poder trabalhar era um luxo que me era oferecido e que eu não deveria desperdiçar. Eu era exemplar: excelente profissional, excelente dona da casa, perfeccionista. Sabia que ele não tolerava a desorganização e numa casa coabitada por dois adultos, a manutenção da limpeza não era difícil, mas os espaços deveriam estar imaculados, se me quisesse poupar os gritos que me atingiam como pedras de que a minha inutilidade se estendia à mais simples tarefa doméstica e que competia a qualquer mulher.

A minha epifania não se revelou repentinamente. Foi um processo longo durante o qual a rebelião interior se foi tornando mais forte. A leitura de O Segundo Sexo foi uma pedrada no charco. Não se leem novecentas e muitas páginas num ápice e nenhuma mulher permanece a mesma após a leitura de Beauvoir. Seguir-se-ia outra Simone, a Veil. Tinha de encontrar os subterfúgios mais imaginativos para conseguir esconder os livros que arranjara clandestinamente. Felizmente, como mulher semieducada da época, não tocava piano, mas sabia falar francês. Lia-os na língua original, em livros algo amarrotados e já gastos, passados de mão em mão, por um clube feminista pecaminoso, rebelde e clandestino. O livro circulava numa pasta de arquivo opaca e fechada. Visto de fora, seria apenas documentação de trabalho.

Era secretária num escritório de advogados e aproveitava a hora de almoço, que passava no local, para ler. Às vezes, inventava ligeiros atrasos ao final do dia, por força do excesso de trabalho, para poder ler. Sabia que nesse dia, em casa, teria de lidar com a frustração do meu atraso, mas pontualmente arriscava. Paulatinamente, as palavras de Simone foram ressoando e criando uma voz interior que se tornou questionadora. Desafiava os limites impostos e a decência. Inicialmente, corava ao ler determinadas passagens, depois, sorria e sentia um calor penetrar-me interiormente, invadindo-me o alegria plena que desconhecia.

«Ninguém nasce mulher: torna-se mulher.»

«O drama da mulher reside nesta confluência entre a reivindicação essencial de todo o sujeito, que se afirma sempre como o essencial, e as exigências de uma situação que a constitui como inessencial.»

«A representação do mundo, como o próprio mundo, é obra dos homens; eles descrevem-no a partir do seu próprio ponto de vista, que confundem com a verdade absoluta.»

 

«O casal livre não é uma utopia; para que exista, basta que a mulher seja educada e viva no mesmo mundo que o homem, partilhando com ele os mesmos deveres e os mesmos direitos.»

Eu descobria, paulatinamente, a construção do feminino e a alteridade, a falta de reciprocidade na relação entre os sexos, o privilégio masculino desvelado, o direito à autonomia e à liberdade. Eu descobria-me como ser autónomo, responsável por mim, pleno, um ser igual em direitos e deveres ao seu cônjuge e a qualquer outro homem.

Quando a luz interna se instala jamais é possível desativá-la. Assim sucedeu. À medida que ia mastigando devagar e fazendo a digestão lenta da autora, quebrava em mim, grilhão a grilhão a corrente que me prendia. Subitamente, em mim, só cabia a liberdade.

Num final de tarde, daqueles em que o expediente aperta, atrevi-me a consultar a Constituição de 1976. Nova. Dois anos de existência. Quase imaculada. A lei não muda a mentalidade, no imediato, mas a minha tinha vindo a fazer a sua metamorfose.

Esbarrei com o Princípio Geral da Igualdade (Artigo 13.º): «Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica ou condição social.»

Os meus olhos detiveram-se por um largo minuto na palavra sexo. Sorri. Depois, veio o direito de contrair casamento e dissolvê-lo (Artigo 36.º, n.º 1 e n.º 2): «Todos têm o direito de constituir família e de contrair casamento em condições de plena igualdade.» «A lei regula os requisitos e os efeitos do casamento e da sua dissolução, por morte ou divórcio, independentemente da forma de celebração.»

Cheguei a casa, tarde, nessa noite. Não fiz o jantar. Passei numa churrasqueira, aviei um frango de churrasco que sabia não constituir as delícias do paladar exigente do marido, umas batatas fritas e uma salada. Concedi-me o direito de ser displicente. Uma vez. Pus a mesa entre reclamações, lamentos e insultos embrulhados em lançarotes de ironia:

— Nada me compraz tanto quanto deliciar as minhas papilas gustativas com o cuidado de uma refeição bem confecionada pela minha mulher… Tão dócil e dedicada.

Desta vez respondi num tom cortante e áspero:

— Não me apeteceu cozinhar.

Senti-lhe a surpresa no latejar das têmporas, mas nada mais acrescentou.

Na manhã seguinte, liguei para o escritório a dar conta de uma indisposição. Fiz uma mala com os meus pertences. Saí para não voltar. As próximas notícias que ele receberia, seriam enviadas a partir do escritório de Miguel Veiga, a solicitar o divórcio.

Nina M.

 

 

 

 

 

 

 

 

           

Crónica de Maus Costumes 487

 

O veio da memória

               A Literatura é sempre um bom motivo para encontros e descobertas. Ontem, na apresentação do vencedor do prémio António Mendes Moreira, promovido pelo município de Paredes, descobrimos (os que lá estávamos) um belo pedaço de texto, tão bem trabalhado quanto a madeira. Para quem não sabe, Paços de Ferreira tem o feliz epíteto de “Capital do Móvel”, título que não pode nem deve deixar cair, mas os nossos vizinhos fronteiriços têm a mesma tradição.

            O texto ganhou outra dimensão porque o seu autor, Miguel Correia, natural de Lordelo, Paredes, e professor residente em Beja, soube afagar as palavras, tal como aprendeu a afagar a madeira e a respeitar-lhe o veio, que não se contraria, sob pena do mobiliário se poder partir. Assim explicou no seu texto. Pena que tantas pessoas tenham o seu veio contrariado por tantas circunstâncias, umas pelas quais poderão ser responsáveis e outras que não podem controlar.

            A vida não nos respeita o veio e, por isso, quebramos algumas vezes. Teria de perguntar ao Miguel o que se faz a uma mesa partida porque se lhe contrariou o veio. Que concerto se impõe e a haver concerto, fica sempre a cicatriz da fenda. Afinal, o Gepeto percebeu antes de todos que a madeira tinha vida e, como tal, podia fazer um filho a partir dela. Só ontem me dei conta disso. O Pinóquio quis contrariar o veio, muitas vezes, e sempre que o fez foi infeliz.

            A madeira de Paredes e de Paços de Ferreira fez muitos filhos. Os pacenses têm o Museu do Móvel que preserva essa memória. Foi ela que permitiu a muitos filhos fazerem-se diferentes do pai, sonharem outros caminhos. Assim foi com o autor premiado, ainda que ele tenha aprendido a arte de trabalhar a madeira e de reconhecer o carvalho, sabendo-o diferente da faia.

            Eu não sabia nada disso, apesar de ter marceneiros na família. Creio não haver uma família em Paços que não tenha alguém a saber manejar a madeira e fazer com que dela, por artes mágicas, saiam cadeiras, camas, mesas, sofás, armários, enfim, tudo o que faz da casa lar.

            O autor lembrou o papel das mulheres nos tempos difíceis. As carreteiras. Mães e esposas. Carregavam às costas os móveis para entrega: mesas, armários, cadeiras… Partiam de Lordelo, a pé e descalças, até ao Porto, Póvoa de varzim, Lamego e outras localidades.

            Impossível não invocar Cesário, as suas varinas, floristas ou costureiras. Umas com as canastras à cabeça e as outras de pescoço vergado, tal como as carreteiras, vergando as costas sob o peso do seu jugo. Soubesse Cesário e tê-las-ia imortalizado num outro poema.

            Paços não tinha carreteiras, mas tinha as galinheiras, que igualmente descalças, de cestas à cabeça, levavam as galinhas para o Porto e a cesta dos ovos na mão. As galinheiras de Seroa. Havia também as leiteiras e a famosa Leitaria da Quinta do Paço, fundada em 1920 e conhecida pelo leite pasteurizado vendido em garrafa, os éclairs e o chantilly. Ainda hoje é uma referência, com múltiplas casas abertas pelo país e várias no Porto. Eu, que não sou apreciadora de natas, as da Leitaria não se dispensam e, quando por lá passo, se for à Baixa portuense, arranco um sorriso às meninas quando lhes digo: quais pastéis de Belém qual quê! As natinhas da Leitaria é que valem a pena!

            A vida dificílima das carreteiras ou das galinheiras retrata a dureza da vida das mulheres no início do século. Evidentemente, nessa época de miséria, todos sofriam. Os homens trabalhavam muito e as mulheres ombreavam com eles na labuta, só não lhes foi devidamente reconhecido o seu papel na economia doméstica. Eram mães, esposas, agricultoras, galinheiras, carreteiras e tudo o que fosse preciso. Eram um colosso!

            A minha avó Matilde era tecedeira, mas também foi agricultora e até parteira da aldeia. Nunca vi a minha avó sorrir. Sempre um ar grave. Austero. Dizia sempre: “muito riso pouco siso.”

            O sorriso não devia ser uma expressão fácil na penúria. Palmilhava quilómetros de Bustelo, Penafiel, onde fabricava a quinta dos Ferreira Gomes até Ferreira, atravessando campos e montes, subindo a Santiago de Ferreira, pela Serra.

O prémio seria a água fresca das três bicas. Um bom pedaço de caminho, ainda, de Santiago ao Loureiro. O que hoje se faz por desporto, noutros tempos era necessidade.

            Todas essas mulheres tiveram o veio contrariado. Nunca conheceram o afago, mas as suas descendentes não precisaram de vergar tanto a espinha. Carregamos um legado de suor e dor. Saibamo-lo respeitar.

           

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

A medida das coisas

A realidade é sempre pequena.
Uma caixa de fósforos que nos aperta
E nos deixa entalados.
Sempre com os pés ou as mãos de fora.
De pulsos ou tornozelos trilhados.

E a vida cá dentro de nós a fazer-se.
Em silêncio, constrói a sua teia,
Tão maior e tão mais extraordinária!
O lugar dos infinitos:
Do absurdo e da genialidade.

Aí, Somos todos inteiros,
Num universo absoluto onde
Os peixinhos laranja volteiam
E chegam ao fim do mundo,
Onde um lago é sempre mar.

sábado, 24 de outubro de 2026

Crónica de Maus Costumes 486

 

O fado de ser português

            Portugal tem vindo a tornar-se num país de terceiro mundo. É certo que sempre estivemos a léguas dos nossos parentes europeus, fruto dos anos do “orgulhosamente sós”. Ficamos sós e sem orgulho porque perante o cenário de uma Guerra Colonial, da fome, da miséria, da falta de infraestruturas, da baixíssima taxa de alfabetização, do raquitismo, da emigração em barda, da mentalidade mesquinha e corrupta, da subserviência — e poderia continuar, pois o rosário não se findaria tão cedo— não há altivez que subsista.

            Continuamos um país de joelhos perante a Europa, sem capacidade de a olhar de igual para igual, pela pequenez do território, mas sobretudo, pela pequenez económica e produtiva. Não falo de pequenez cultural e científica. Temos gente excecional, com provas dadas, quer internamente quer internacionalmente.

            Este país que vive há séculos de joelhos, há fases em que parece conseguir soerguer-se, mas nunca se chega a levantar. A dada altura, faltam as forças e pega-se-lhe o quebranto. Perante esta constatação, não falta gente entendida, alguns percebem muito de tudo e de todas as áreas, a debitar palpites sobre as medidas mais eficazes para resolver os problemas da saúde, da educação e da habitação rapidamente. Não sei como nenhum Governo se lembrou de os convocar para beneficiar de tão douto conhecimento.

            Eu apenas sei que a crise de habitação é séria e há muita gente aflita e com razão para reclamar e se fazer ouvir. Não pode haver famílias em que ambos os elementos do casal trabalham e não ganham o suficiente para pagar a renda de casa, pois não lhes sobraria quase nada para fazer face às outras despesas.

            Um problema que se arrasta há mais de duas décadas e tem vindo a piorar. Em primeiro lugar, o país deixou de investir na construção de habitação social. Foi um erro. Mais casas com rendas acessíveis e em conformidade com o salário português é o que se deseja. O aumento populacional, embora possa não ser a principal razão, contribuiu para o agudizar da situação por si só difícil. Ora… É neste mesmo país que existem 638 frações de imóveis devolutos, pertencentes ao Ministério da Defesa, sem que se faça delas usufruto. O mais curioso é que segundo notícias de 2021, iria ser feito um investimento de 775 milhões de euros, em que 30% seria dedicado à reabilitação e 67% à construção de novas casas. Até ao momento, não se verificou nem uma coisa nem outra. Essa rede habitacional com rendas moderadas deveria estar pronta em 2026, mas nada mais se ouviu a esse propósito.

            O país contabiliza mais de 730 mil habitações desocupadas, que não estão oficialmente classificadas como devolutas. Sem cadastro nacional atualizado, com câmaras municipais desprovidas de meios técnicos e de vontade política, o país assiste à degradação das habitações enquanto, ó suprema ironia, tantos reivindicam o direito à habitação! Convém acrescentar, direito à habitação a preço justo, isto é, adequado à realidade dos salários do país.

Neste cenário ou numa casa onde não há pão, todos berram e ninguém tem razão.

            O problema existe. É preciso procurar soluções. Julgo que uma das soluções passaria pela reabilitação de imóveis devolutos e a construção de novos imóveis, recorrendo às casas modulares ou de madeira, de forma mais rápida e, já agora, mais económica. Incomoda-me sobremaneira este número avassalador de casas vazias. O Estado tem de agilizar e de simplificar processos num país onde o papelinho, o requerimento, o modelo A-não-sei-das-quantas ainda vigoram para tudo e para nada!

            É indecente. No entanto, antes que se ponham com ideias, tudo isto tem e deve ser feito de forma ágil, mas em conformidade com a lei. Talvez possa haver vontade política para isso, quem sabe, mas o processo não será tão célere quanto se gostaria e há questões que levam o seu tempo. Urge paciência e ponderação.

            Finalmente, ter acabado com o SEF foi um péssimo serviço prestado ao país. Ver as filas desde as quatro da manhã, à porta da AIMA, de gente que aguarda ser atendida, sentada nos passeios, tudo parece um cenário irrealista de um país subdesenvolvido.

            Estas imagens deixam-nos a léguas do desenvolvimento e com a sensação de que somos a periferia de todas as periferias. Uma pessoa arrepela-se, esbugalha os olhos, sente o abalo nas tripas, bufa, solta uns impropérios, diz-se que dá vontade de zarpar daqui para fora, mas é a este retângulo esquizofrénico que, apesar de tudo, sentimos pertencer.

           

Nina M.

 

 

 

 

sábado, 17 de outubro de 2026

Crónica de Maus Costumes 485

 

O lado oposto da barricada

               Ouvem gritos de protestos. Insultos. Palavras que carregam um peso que não cabe a muitos. Fascista! Chulo (por desconhecerem pária ou por ser mais feio), “filho desta e mais da outra”. Alguns, talvez as mereçam, é como tudo na vida, mas não são, seguramente, a maioria. Não respondem. Sentem os músculos do corpo enrijecer e a contração muscular sob o peso de coletes, proteções e capacetes. Cerram fileiras. Aguardam ordens. Nunca há uma carga policial das forças especiais sem ordem superior e sem pré-avisos. E os avisos são os apelos ao cumprimento das solicitações efetuadas por aqueles que estão a trabalhar.

            Não entendo a ideia peregrina de se considerar que se pode tudo, mesmo depois das explicações sobre o que a lei prevê. Dura Lex, sed lex. O cansaço acumula-se no corpo e na alma e pode, efetivamente, afetar o discernimento e a razoabilidade. Eis que surge a ordem: é para dispersar os manifestantes. Neste momento, só me ocorre a rubrica do Gato Fedorento e aplicá-la a uma nova realidade: os manifestantes queiram, por delicadeza e ordeiramente, arrumar a tenda (literalmente) e dispersar! Às três da manhã, não podem cantar nem perturbar os outros que têm direito ao descanso! Ocorre-me imediatamente aplicar a mesma estratégia às festas de verão, ao ar livre, com o brilhantismo e arte dos DJ’s que me chegam até casa, até às cinco da manhã! Dar-me-ia jeito alguém para terminar com o barulho. Do outro lado, ouvidos moucos porque o protesto tudo permite.

            Dadas as ordens para varrer o local, os agentes devem zelar pelo cumprimento dos regulamentos a que estão sujeitos, nomeadamente o da proporcionalidade no uso da força e, pelo qual, depois, cada um responde por si, havendo razões para abertura de inquérito.

            Então… As pessoas não se podem manifestar? Podem e devem, se entenderem haver razões para isso. Não podem perturbar a ordem pública nem desobedecer às instruções indicadas por quem tem o ofício de fazer cumprir a lei, a menos que ao obedecer se esteja a incorrer num crime. Se não for o caso, a desobediência insistente e duradoura pode trazer consequências nefastas e evitáveis para todos.

            Assisto a tempos estranhos e pesarosos em que se perderam o bom senso e o respeito entre pessoas que, por força das circunstâncias, estão em lados opostos da barricada. Lastimo profundamente. Parece-me uma forma de esvaziar os motivos do protesto e de desviar o foco da discussão que é urgente que o país tenha.

            Dito isto, é importante que os governantes ouçam e sintam o pulsar das agruras e do desespero dos que trabalham, dos que se esforçam e, mesmo assim, não conseguem chegar ao final do mês, porque um dos ordenados fica no arrendamento. Seria suposto ter uma vida digna, ganha com o suor do trabalho de cada um. É preciso implementar políticas que obriguem os mercados a serenar.

            Governo e autarquias têm de investir em habitação social com rendas moderadas que os mais jovens e famílias de classe de classe média-baixa possam suportar. Há formas de construir mais rapidamente e com qualidade. É imperioso fazê-lo e sem demora. Em simultâneo, arranjar forma de reduzir a especulação imobiliária, talvez com o aumento de impostos sobre uma segunda habitação. Até lá, resta ao povo aguentar-se e sofrer. Fazer ouvir a sua voz de forma ordeira e pacífica é sempre necessário. Causar caos e anarquia, como assistimos noutros países europeus, apenas enfraquece os centros democráticos, favorecendo o crescimento dos líderes populistas. Criar o caos e a anarquia, fomentando a necessidade de repor a ordem, é a melhor forma de causar a erosão das democracias. Elas, que estão tão frágeis por conta das frustrações acumuladas, dados os problemas complexos para os quais os líderes não têm conseguido arranjar soluções. Uma democracia também se conserva mediante a qualidade do futuro que consegue oferecer.

            Esperemos que os ânimos serenem, que haja discernimento para se saber que problemas complexos não têm soluções simples e que o ruído sem a intenção de que todas as partes se ouçam e criem condições para se tentar solucionar o problema não resolve nada, apenas polariza, corrói e destrói o que se tenta preservar.

Nina M.

sábado, 10 de outubro de 2026

Crónica de Maus Costumes 484

 

Tragédia Ronaldo

               O ser humano é hilariante. O mundo está a ferro e fogo. Trump declara que já é tempo de a Ucrânia arranjar outro presidente, preferencialmente, um fantoche de Putin para que ambos explorem o território que não lhes pertence como entenderem. Quem sabe uma espécie de novo Tratado de Tordesilhas, mais modesto, é certo, em que os dois dividem a Ucrânia entre eles. A ex-URSS já fez um pacto desses, cujo rompimento culminou na Segunda Guerra Mundial. Os alemães invadiram primeiro a Polónia, não cumpriram o trato e a coisa azedou. Zangam-se as comadres e descobrem-se as verdades. Lá andam ambos em negociatas, já que a guerra com o Irão nos lixou a vida e os combustíveis estão a um preço absurdo. Os norte-americanos também pagam a fatura e o alucinado presidente tem de resolver o problema que ele mesmo arranjou. Para ele, negociar com o execrável Vladimir é normalíssimo. Normal, normal, como diria o outro. Afinal, um ao lado do outro, no jogo do descubra as diferenças, eliminadas as físicas e a maior inteligência do russo, em tudo o resto se assemelham, representando ambos o que o ser humano tem de pior.

            A França é uma casa a arder. Para se ser presidente daquele país, atualmente, é preciso uma coragem avassaladora. Quem será capaz de dizer àqueles cidadãos que o país não tem dinheiro suficiente para tudo? A dívida pública francesa ultrapassou os quatro triliões de dólares em junho, superando o tamanho da própria economia. O país não gera superavit desde 1974, o que significa que esta situação é insustentável. Neste momento, com a guerra na Europa e também no Médio Oriente, as circunstâncias tornam-se, ainda, mais difíceis. Para piorar, os protestos estudantis eclodiram por todo o país, motivados pela falta de professores e de condições nas escolas. Na rua, a luta ultrapassa as fronteiras da educação e a insatisfação faz-se sentir. A minha questão é a seguinte: num país há muito habituado a uma proteção social de relevo, quem vai ter a coragem de dizer aos franceses que não vai ser possível continuar assim e que eles terão, necessariamente, de fazer sacrifícios? Notem bem, os franceses têm um salário mínimo de cerca de 1 500 euros, líquidos e o médio ronda os 2 733 euros. O preço da habitação é considerável. Em Paris, um T1 pode custar entre os 900 e os 1 200 euros mensais. Fora de Paris, o arrendamento fica um pouco mais barato. É possível arranjar um T2 entre os 650 e os 850 euros mensais. Se compararmos com a realidade portuguesa, observamos que o nosso salário mínimo é bastante inferior ao deles. O salário mínimo de um francês corresponde ao salário médio de um português, mas o preço da habitação é semelhante. O custo de vida é mais elevado em França, mas atendendo ao maior salário, sobra-lhes mais dinheiro ao final do mês. Apesar disto, percebe-se, pelas manifestações, que os franceses não estão disponíveis para aceitar a contenção. Sem falar da idade da reforma, que é bem mais baixa para o lado dos gauleses, aos 63 anos, quase. Nós já vamos quase nos 67. Seria caso para dizer que com essas condições os portugueses fariam milagres e os que diziam que se andava a viver acima da média, deveriam envergonhar-se. Somos peritos em engenharia financeira e, então, agora, com o preço dos combustíveis e dos bens alimentares, somos uns heróis! Nem à rua saímos. Vivemos conforme podemos. Mesmo assim, não surge um político honesto que nos diga, meus amigos, o orçamento é para gente pobre. Não é ambicioso nem pode ser, porque não há dinheiro e dentro do dinheiro que se tem, fazem-se opções políticas que não chegam a todo o lado. O cobertor é sempre curto. Eu creio que os portugueses desconhecem outro meio de vida além da austeridade, desde o início da derrocada do império, ainda no tempo do ilustre Camões.

Sabem lá os franceses! Eu acho que os poderíamos ajudar! Estou tentadíssima a enviar-lhes o Passos Coelho e o Vítor Gaspar e eles iriam ver se aguentam ou não! “Ai aguentam, aguentam!” — já dizia o economista. E aguentámos. Que remédio. Sabem lá os franceses!

No meio deste bulício internacional, nós fazemos como a atriz Susana Blazer, através da sua personagem Dolores Cotovelo: encolhemos os ombros e apregoamos um saboroso “quero lá saber! É-me indiferente!”

O que não nos é indiferente é a novela Ronaldo, que a procissão ainda vai no adro e estes assuntos da bola, neste país, são a coisa mais séria do mundo. Eu também tenho os meus momentos e as minhas reflexões e dei comigo a pensar que Ronaldo daria um herói trágico maravilhoso. Dei por mim a analisá-lo sob o ponto de vista literário. O moço ficou imediatamente mais interessante. Temos a personagem nobre ou heroica. Apesar de não ser nem aristocrata nem deus, pelos feitos futebolísticos realizados, assemelha-se a um semideus. Já serve. Temos vários conflitos trágicos que surgem impostos pela força motriz e implacável do destino e, também, motivados pelas paixões humanas. O desfecho não o conhecemos, ainda, mas pode encaminhar-se para a catástrofe, tão necessária à catarse coletiva.

O rapaz pobre sai em tenra idade da sua ilha natal, qual Ítaca, e desafia os deuses, contrariando o destino que lhe caberia. O jovem é a desmesura, uma improbabilidade e com uma vontade e orgulho férreos cresce como jogador nos palcos internacionais, torna-se uma lenda. Desafia as leis da natureza e recusa o envelhecimento (hybris). A personagem ameaça a ordem do cosmos e potencia o caos. Não passa incólume aos acontecimentos. Apesar das vitórias sucessivas, não se livra do pathos, do sofrimento imposto pelo fado (anankê), fruto das suas ações e escolhas. Tal como Ulisses, enfrentará outros ciclopes, outros monstros marinhos e sereias encantadoras. A ação da personagem conduzi-la-á ao conflito (Ágon), por outras palavras, a uma luta entre o bem e o mal. Durante o conflito, o semideus terá o auxílio de deuses protetores, mas convém sempre lembrar que o destino e a inevitabilidade estão acima deles. Nem estes o conseguem contrariar. Eis que subitamente, surge a peripécia, o acontecimento imprevisível que altera o rumo dos acontecimentos que compõem a ação dramática, sem que nada o fizesse esperar. Infalivelmente, virá a anagnórise, o reconhecimento dos acontecimentos trágicos, por meio de uma nova personagem de nome emblemático, qual presságio! Ei-lo: Jesus, no seu esplendor!

Obviamente, a ação só poderia culminar em catástrofe, resultante do confronto entre o desafio e o destino, num crescendo de sofrimento, atingindo-se o clímax. O herói abandonou o estágio em Copenhaga, em sofrimento desmesurado, e voa para junto da família, regressando ao seu clube, em busca de uma catarse (Katharsis) redentora. Resta-nos aguardar o último capítulo. Na reta final, o público, através do terror e da piedade que a tragédia desencadeia, deve-se juntar ao seu herói, na purificação das emoções e das paixões.

Até ao momento, ainda estamos no momento do terror, veremos se a piedade e a catarse final serão possíveis.

Perante esta tragédia, quem precisa de se preocupar com outras guerras?! Como diz a Dolores, não a mãe, a Dolores Cotovelo: “Quero lá saber! É-me indiferente!”

 

Nina M.

sábado, 3 de outubro de 2026

Crónica de Maus Costumes 483

 

Telenovela Ronaldo

             Tudo o que tenha a ver com o nome Ronaldo mexe. Natural. O homem é um símbolo do futebol mundial, um símbolo desportivo e de publicidade. O Ronaldo é uma máquina de fazer dinheiro. Enquanto se afirmava como um génio do futebol, afirmava-se como símbolo sexual que marcas desportivas, de perfumes, de vestuário, de champô e afins exploravam com sucesso.

            Ronaldo é alto, tem um porte e um corpo atlético e um palmo de cara que não lhe assenta mal — o dinheiro faz milagres. Quem não se lembra dele aos dezoito anos, imberbe e de dentes tortos — e a indústria da imagem e da moda tratou do resto. Tudo foi possível porque o jogador é autoconfiante, determinado e os seus resultados e a superação constante de recordes lhe alimentavam a autoestima e o ego gigante que até hoje revela. Ronaldo não se intimida com a câmara. É atrevido e dotado de dons naturais que fazem com que ela goste dele. É a pessoa mais seguida nas redes sociais, ocupa o primeiro lugar no Instagram, com 679,2 milhões de seguidores, mas desmontou-se todo quando, num programa gravado em família, perguntou aos filhos quem era a pessoa mais famosa que eles conheciam e um dos petizes respondeu: a mamã! O ar de Ronaldo denunciou um misto de surpresa e de indignação. Eu fartei-me de rir. Foi uma pequena lição de humildade dada por um filho.

            Se pudesse, diria ao Ronaldo que ele pode descansar. Ninguém no seu perfeito juízo pode minimizar a sua carreira, os seus troféus e todos os recordes arrancados a ferros com muito suor, disciplina e esforço. Acrescentaria, também, que ele não precisa de ser amado nem venerado por toda gente. Não haverá reconhecimento algum que lhe possa trazer o amor e a presença dos pais que tanta falta lhe fizeram na infância. Descanse o guerreiro porque venceu. Será o orgulho da Dona Dolores e do Senhor José Dinis. Amá-lo-ão profundamente. Só não o puderam acompanhar para o abraçar sempre que precisou. Essa dor moldou-lhe o carácter. Fez da fraqueza força e superou-se. Nada mais há a provar.

            Não antipatizo com o rapaz. Não o idolatro, porque o único homem digno disso é Jesus, o Cristo, não o outro, e reúne, até hoje, mais seguidores do que o Ronaldo. Esta luta já perdeste, CR7. Nem vale a pena tentar competir. De resto, vejo o egotismo do homem, a sua autoconfiança muito pincelada de arrogância, mas da qual precisou, principalmente, em Espanha. Se fosse um bom menino, a imprensa espanhola tê-lo-ia comido vivo. Não são muito fãs de portugueses, apesar de nos apelidarem “nuestros hermanos.” Ronaldo teve muita fome de vencer, foi obstinado e obcecado e só assim se conseguiu colocar no mesmo patamar do genial Messi. O que num é talento puro, no outro há talento e muito trabalho. O Cristiano sabe disso e acreditou em si, mas teve de correr sempre muito para chegar mais alto, para quebrar todos os recordes. Dá vontade de perguntar se a criança ferida já encontrou amor suficiente no reconhecimento alheio.

            O Ronaldo cresceu e tornou-se um quarentão. Está impecável. Ótimo. Uma condição física invejável. Só não chega para jogar e fazer a diferença na alta competição. O Ronaldo continua a ter muita vontade e a querer distinguir-se, mas parece que a bola já não quer muito com ele. Escapa-se-lhe, os pés enrolam-se um no outro e falha os remates, os livres embatem na barreira, não pressiona o adversário, já não parte em drible para cima dele, nem o finta e nem o passa. Muitas vezes, nem uma bola tirada à medida consegue introduzir na baliza. Com os seus 41 anos faz muito, mas não o suficiente para ser titular ou jogar todos os jogos da seleção. Tal como a mulher bela cujo tempo marcou e tem dificuldade em aceitar os vincos que surgem no rosto e a flacidez natural, as marcas da vida, o Cristiano parece não aceitar os efeitos do tempo e não se consciencializa que o seu egotismo, as suas vontades não se podem sobrepor ao sonho coletivo.

            Ninguém está contra o Cristiano. Todos lhe reconhecem as conquistas, mas a equipa produz mais sem ele em campo. As pedras funcionam como coletivo, quando não são obrigadas a produzir para uma referência na linha avançada que pouco se movimenta, não recupera bolas e denuncia dificuldade em marcar.

            O envelhecimento não poupa ninguém. Nem mesmo o Cristiano e ele não quer aceitar. Alguém tem de lhe dizer que há já algum tempo não é um dos melhores do mundo, apesar de ficar na História do futebol como um dos melhores do mundo de todos os tempos. Porém, o estatuto não pode jogar sempre que quer. Poderá jogar se e quando o treinador entender pertinente. É isto que Ronaldo não aceita e é forçoso que o faça para não cair no ridículo. É penoso ver-se alguém que alcançou o céu fazer isto a si mesmo. Foi essa sensação que o Pinto da Costa me deixou no seu último mandato, com particular ênfase, no seu último ano. Creio ter sido para todos os portistas uma dor de alma ver o homem responsável pela dimensão que o FCP alcançou a sair do estádio derrotado. Triste como a noite e com um peso imensurável sobre os ombros. Foi uma derrota necessária, mas não deixou de ser dolorosa inclusivamente para os que contra ele votaram.

            Não posso ser hipócrita. Ronaldo não me causa o mesmo pesar, por um motivo evidente: para mim, ninguém está acima do FCP e do que à instituição está ligado e nem o presidente dos presidentes está acima do FCP. Nunca uma personalidade pode estar acima de uma entidade amada.

            Acontece o mesmo com a seleção. Nunca o Ronaldo deverá estar acima dos interesses de um coletivo. O melhor para a seleção seria ter o Cristiano e dar-lhe minutos de jogo quando a equipa estiver a ganhar por três bolas de diferença e não for necessário apertar muito.

            O Ronaldo não aceitou a evidência e ficou furioso. Sentiu o seu estatuto posto em causa e abandonou os companheiros por achar que todos lhe devem prestar vassalagem. Esquece que há talentos emergentes. Miúdos bons e que precisam e têm o direito de mostrar o que valem sem terem de jogar para o galáctico que envelheceu. O Jorge Jesus, treinador também egotista, tem razão, neste caso. Enquanto timoneiro das quinas, deve zelar pelos interesses da equipa. É só isto. Não há invejas, não há panelinhas nem traições, apenas a evidência de que o tempo passa para todos, inclusive para o Ronaldo.

            Haverá amigo verdadeiro que lhe consiga dizer isto? Sabemos que o mundo conhece Ronaldo e que ele é um símbolo de Portugal, embora preferisse que fôssemos conhecidos por Pessoa. Saramago, Camões ou Sophia. Sabemos que pôs o nome de Portugal na boca do mundo e que deu muito à seleção, mas também recebeu muito dela. Ninguém se faz sozinho e Ronaldo deveria saber disso. Assim como foi capaz de agradecer à senhora que lhe dava o hambúrguer quando sentia fome, ainda criança, na academia de Alvalade, também deveria reconhecer que a seleção o ajudou a atingir alguns dos seus objetivos. Nem a seleção deixará de existir sem Ronaldo nem este deixará de ser um dos maiores ícones do futebol.

            Era tudo tão escusado se o homem tivesse um pouco menos de vaidade e ajudasse verdadeiramente o treinador a construir balneário.

            Lamento por Portugal, pelos portugueses que gostam do Ronaldo e, sobretudo, por ele mesmo. Depois disto, espero que ele mantenha a sua posição e que a seleção não se humilhe. Em 2011, o Ricardo Carvalho fez uma parvoíce semelhante, na altura de Paulo Bento. O melhor defesa central, na época. Ninguém foi atrás dele. Ficou um ano de castigo. Regressou em 2014, com o Fernando Santos, depois de um pedido de desculpas público por parte do jogador. Se, eventualmente, quiserem trazer de volta o Cristiano, será o mínimo a exigir e se ele aceitar, sem birras, ficar no banco. Talvez seja pedir muita humildade a quem se tem atribui excelsa importância.

            Por fim, resta lembrar-lhe que apesar da sua reconhecida excelência, é tão mortal quanto nós. Tudo se resume a isto — o banho de realidade que lhe está a fazer falta.

 

Nina M.