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sábado, 11 de julho de 2026

Crónica de Maus Costumes 476

 

A filha da stôra

               Os miúdos, em determinadas ocasiões, são fantásticos. Tal como nós, não todos os dias, não sempre, mas têm lampejos de sabedoria e momentos deliciosos.

            Quando cheguei a casa, disse à minha pequena:

— Matilde, no ginásio, o Francisco, o monitor, veio inteirar-se do meu treino e perguntou-me se eu era a mãe da Matilde. Disse-lhe que sim.

— Esse é aquele alto e magro. Já sei quem é – respondeu. Ahah! Vês?! Ali, não sou a filha da stôra. Tu é que és a mãe da Matilde.

— Com muito gosto — disse eu.

A minha pequena (já não é assim tão pequena, mas há de ser sempre ela a pequena) detesta ser a filha da stôra, pelo que tem o hábito de me fugir carro fora para tentar não ser vista comigo ao chegar à escola, mesmo que já tenha percebido que não adianta muito. Ignora-me nos corredores, se calharmos de cruzar, o que raramente acontece, pelo facto de a escola ser tão grande. Finge não me ver e eu faço o mesmo para não a envergonhar e, depois, por provocação, já em casa, pergunto-lhe se posso voltar a ser a mãe dela.

Na verdade, compreendo-a. Também não gostava muito de ser a irmã do Zico. Quer dizer, nada contra o facto imutável de sermos irmãos, mas tal como acontece com a miúda, ser a irmã do Zico anulava-me um bocadinho o reconhecimento da minha pessoa. No entanto, era inevitável, dada a popularidade dele, pelo que me sobrava ser reconhecida como a irmã. Ele conhecido da escola inteira; eu quase anónima. Assim me mantenho, na minha cidade, uma quase anónima, graças a Deus e amém!

Ser quase um estranho forasteiro tem enormes vantagens. Cultivo um bocadinho esse anonimato. Não me veem em cafés ou outros espaços sociais, salvo em eventos culturais, quando há a oportunidade.

A minha miúda é um pouco mais solta. Sempre gostei mais de pequenos grupos, onde se consiga sentir a pertença e nem sempre acontece. Ela está sempre disposta a sair com os amigos e gosta de ser a Matilde, de modo que ser a “filha da stôra” é cortarem-lhe a sua identidade e a possibilidade de ser quem realmente é: tão diferente de mim e tão melhor do que eu em quase tudo!

Havemos de resolver isso, filha.

Um dia destes, tive cá em casa uma das suas grandes amigas — com essas é às três de uma vez e detestam que se diga as gémeas! Vou porém, fazê-lo, para não identificar a qual delas me refiro. Às vezes, vêm as três; outras, só uma de cada vez. Gostam de vir à vez para não roubarem a atenção umas às outras. São umas ariscas engraçadas e que gosto de ter por cá. Abraçam-me e falam-me das saudades de vir cá a casa e afirmam gostar muito de estar connosco. Respondo, de coração cheio, que são sempre muito bem-vindas e que também gosto de as receber.

Decide, então, a gémea contar-me que na nova escola os colegas são muito “betinhos”, ricos e cheios de mania. Diz-me com ar muito indignado:

— Ó Sónia! Imagina que no outro dia, um deles  me disse que sabia que havia gente pobre, assim, aqueles que só vão de férias para o Algarve! Eu fiquei a olhar para ele… Pensei: será que esta gente não tem televisão?! Eu nem disse nada!

Soltou-se-me uma gargalhada franca e lembrei-me, imediatamente do Caco Antibes do Sai de Baixo: “Detesto pobre!” O que me ri! Depois, disse-lhe: deverias ter respondido que os verdadeiramente pobres não se podem dar ao luxo de ir para o Algarve nem para lado nenhum, até porque o Algarve está pela hora da morte.

A miúda concordou. Ficava mais caro ir para o Algarve do que certos destinos no estrangeiro. Ainda mais me ri quando me conta que o sujeito teve um blusão de prenda de uma marca caríssima, que tinha custado mil euros e ela nesse dia, tinha levado um blusão já menos novo e dizia:  “e eu… Fogo! A olhar para o meu…”

Respondi, imediatamente: o teu que te deixava quentinha de igual forma, que é o que importa. Também tenho um dessa marca do teu e gosto bem dele. Sabes, isso não interessa para nada. Valemos pelo que somos e não pelo que temos ou ostentamos. Ainda por cima, quando é feito dessa forma exibicionista, não é bonito. Não há nada de mal em poder comprar essas coisas, mas se acharem que são melhores do que os outros que as não podem ter, enganam-se. A soberbia não é propriamente admirável.

Os olhos sorriram-se-lhe. Deve ter cogitado: “pensas como nós.” Uso o plural, porque os pais das meninas em questão são muito bem formados e têm feito um belo trabalho. Elas são extremamente educadas, sensíveis e generosas, mas têm um sentido de justiça e um poder de argumentação assinalável e não se deixam intimidar. Dizem o que pensam.

Rio-me sempre muito quando as tenho comigo. Adoram a Matilde. Adoram estar cá e nós gostamos de as ter. Sobretudo, porque para elas, a Matilde não é filha da stôra. É só a filha da Sónia.

 

Nina M.

 

 

 

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Eros

Num cerimonial nosso,
Repetido a cada manhã,
Mias-me junto à porta,
À espera do maná.

Saciada a fome urgente,
Em voltas em meia-lua,
Saltitas roças-te todo
Nas minhas pernas nuas.

Por vício ou ritual,
Olhas-me com olhos doces,
De um azul sem igual,
Grato pelo que te trouxe.

Mimas-me com a cauda,
A cabeça e nariz frio,
Numa dança matinal
Com a qual sempre rio.

sábado, 4 de julho de 2026

Crónica de Maus Costumes 475

 

Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar

            O verso central de “Cantata da paz”, de Sophia de Mello Breyner Andresen, que denuncia as injustiças e apela às consciências permanecerá atualíssimo enquanto houver humanidade.

            Como saberão, lembro que Sophia era católica progressista, voz ativa contra a ditadura, juntamente com o marido Francisco Sousa Tavares, homem dotado de grande coragem. Sophia, essa mulher aristocrática, com semblante de deusa grega, não lhe ficava atrás. O poema referido foi criado para ser declamado numa vigília, na Capela do Rato, em Lisboa, como protesto contra a guerra colonial e um apelo à liberdade. Uma denúncia da fome, da injustiça, da guerra, com referências a Hiroshima — onde a carne das crianças se transforma em cinza — a África e ao Vietname. Uma chamada de atenção para uma época em que se vivia um “pecado organizado”.

            Aconselho a sua leitura ou melhor, aconselho a sua audição. O poema foi musicado pelo Francisco Fanhais, sacerdote progressista, influenciado pelo Bispo D. António Ferreira Gomes e pelas músicas de Zeca Afonso, que ouvia à revelia no seminário. Facilmente o encontrareis na Internet. Acabei de o ouvir. Fazei o mesmo e percebereis que o podemos cantar hoje porque, infelizmente, não perdeu a sua atualidade.

            O Homem é uma besta e as atrocidades continuam a existir. Continuamos a viver numa época de pecado organizado, em que todos sabemos quem são os grandes pecadores, que continuam a beneficiar da clemência e absoluta absolvição de outros líderes. Uns porque pertencem ao clã do pecado organizado e outros porque lhes falta a coragem de se oporem veementemente aos dislates, com enorme receio das consequências nefastas que tal ousadia implicaria, em termos económicos, para as suas nações.

            O mundo segue, assim, numa realidade feia e inaceitável, mas em que todos fingem. Uns fingem que não são responsáveis; outros fingem-se de vítimas; outros fingem não saber; outros fingem acreditar no que nunca acreditaram. Enfim, transformam a vida e os destinos dos povos numa enorme peça de teatro, onde cada um interpreta o seu papel o melhor que souber para que o pecado organizado se perpetue com a complacência de todos, incluindo a nossa.

            Nós, a arraia-miúda, encolhe os ombros numa resignação de quem já desistiu, de quem entende nada poder resolver e, portanto, vale mais não se inquietar muito. Ricardo Reis tinha razão: sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo. E assim vivemos, com as nossas preocupações, agora, com o Mundial, o calor que abunda, o pensamento nas férias, o trabalho que ainda é preciso cumprir… Distraímo-nos com o quotidiano comezinho, tantas vezes entediante e vazio. Não nos sobra tempo para olharmos para o lado. Afinal, o que se poderia fazer? As manifestações não adiantam de nada! Marcam uma posição, mas no dia seguinte, tudo permanece imutável.

Imagino, na minha inocência, um dia em que o mundo parasse por completo. Um dia em que ninguém saísse para trabalhar e jurasse assim continuar até que os responsáveis pelas vilanias erguessem as bandeiras brancas, em sinal de rendição e de redenção. Se Saramago fosse vivo, talvez aproveitasse a ideia e lhe desse forma de romance. Começaria assim: No dia seguinte, ninguém trabalhou. As alfaias agrícolas não saíram dos celeiros, os cafés não abriram. As escolas fecharam. Os hospitais colocaram um letreiro que dizia volto já, as esquadras estavam vazias e as indústrias paradas. Só os parques, as praias e os rios se povoavam com a leveza dos risos. Havia, porém, um local em cada país onde o desespero se fazia sentir: o parlamento ou o centro do poder.

            O resto da história podereis imaginar.

            Talvez os conflitos terminassem de uma vez, talvez os governantes de cada país começassem, finalmente, a governar para a população e não contra ela e até, quem sabe, os professores conseguissem voltar a exames escorreitos e sem enganos para classificar, sob o sol tórrido de julho!

            Talvez o senhor ministro da educação viesse, finalmente, reconhecer o erro e pedir desculpa ao país. Não dói assim tanto reconhecer um erro. Aliás, é a melhor forma de desarmar o outro: a assunção da culpa ou da responsabilidade. Talvez viesse dizer que na segunda fase se entregaria os exames em papel aos classificadores. Talvez os pais se preocupassem mais com os filhos. Talvez se pudesse continuar a acreditar na palavra de ministro.

 

Nina M.

sábado, 27 de junho de 2026

Crónica de Maus Costumes 474

 

Herói, vilão e espelho

               Poderia falar da catástrofe terrível que aconteceu na Venezuela e, no meio do caos, do recém-nascido de dezoito dias e da sua mãe que foram salvos. Uma graça, uma sorte, um acaso, mas não um milagre, porque seria Deus tão discriminador, que salva uns e condena outros? É esse o motivo que nos obriga à humildade de, perante um revés na vida, um problema grave, nunca questionarmos: porquê eu? Atrevo-me a dizer que a pergunta certa seria: porque não eu? Eu não sou mais importante do que o meu semelhante para a sociedade e os dois não somos mais do que um ponto obscuro na imensidão do universo. Nada há mais de tão real, de tão verdadeiro, mas em simultâneo, tão libertador.

            Poderia ir por aí. Não vou. Poderia ir pelo tumulto que se instalou uma vez mais na educação, nos aproveitamentos políticos feitos, no deitar gasolina numa casa já em chamas, mas a verdade é que o fogo foi posto pelo próprio Ministério. Mais uma digitalização imbecil, o ridículo de nos pôr a pintar bolinhas tornou-se ainda mais absurdo. Um sistema que é suposto agilizar, cedeu perante a tempestade de exames. Dou voltas à cabeça e nunca compreendo as razões para se mexer no que ainda vai funcionando neste país. Também não vou por aí nem pelo aperto que os russos começam a sentir.

            Excetuando o primeiro tópico, que me comove, que me emociona e enluta, e do último que me irrita, porque toda a guerra é uma imbecilidade, do intermédio não quero saber. Demasiado cansada destes filmes, da incompetência misturada com o histerismo de colegas que, perante um cenário caótico, ainda o ampliam, transformando-o numa cena apocalíptica. Quem tiver acesso a grupos de professores e dois dedos de testa perceberá a que me refiro. Bolas! Precisa-se de alguma serenidade e não de gente ainda mais ansiosa à beira de um ataque de nervos, a pôr todos os outros em polvorosa e à beira de um ataque de pânico, também. Evidentemente, a situação é grave, mas não é por se gritar muito uns com os outros que vai melhorar. Calma. Serenidade. Bom senso. Obviamente, os prazos para classificação de exames serão alargados e os miúdos não podem ser prejudicados. Obviamente, sobra sempre para os professores. É um facto. No entanto, criar mais caos, agora, nada resolve. Aguardem tranquilamente e quem arranjou o sarilho descalce a bota.

            Não vou por aí. Sobra-me um tema que polariza emoções como poucos: Cristiano Ronaldo. Há quem o endeuse e quem o demonize. A meu favor, e esta é uma qualidade sempre a meu favor, o meu portismo, que neste caso me torna insuspeita. Não idolatro o Ronaldo, mas admiro o seu profissionalismo e a sua determinação, reconhecendo, porém, que como qualquer ser humano, tem as suas falhas e tem direito a elas e às suas contradições como qualquer um de nós.

            Ronaldo é um vencedor. Não se fez sozinho, porque ninguém se faz sozinho, mas soube aproveitar todas as oportunidades que lhe foram oferecidas, com muito esforço, trabalho e também sofrimento. Não é fácil para uma criança pequena, de uma localidade, neste caso, situada numa ilha no meio do Atlântico, vir para a capital sozinho, sofrer com a ausência dos pais que só poderia ver de vez em quando. Um miúdo a quem faltou quase tudo. Não me espanto, por isso, que agora resvale um pouco para a ostentação. Quem nunca teve nada e agora pode ter tudo quanto o dinheiro pode comprar é natural que se deslumbre. Não aprecio propriamente essa maneira de estar. Há muitos outros exemplos de jogadores portugueses absolutamente extraordinários e dos melhores do mundo, com imensa visibilidade: Vitinha, Nuno Mendes e João Neves, por exemplo, que são muito mais recatados. O Ronaldo e a sua Georgina aproximam-se do universo das Kardashians. Vivem da imagem e para a imagem. Se o Ronaldo fosse apenas isto, obteria o meu respeito enquanto profissional, mas não a minha admiração. Ele consegue ser extremamente vaidoso e arrogante, mas também humilde, determinado e abnegado no seu ofício. É o jogador que raramente recusa uma fotografia com um petiz, que lhes faz festas, que pega neles ao colo, que lhes acena e sorri. Ao que parece, também é capaz de gestos solidários e altruístas e proporciona um nível de vida impensável a todos os seus familiares. Pode-se pensar que mal seria, mas na verdade, não é obrigado a isso.

            Na atualidade, o Ronaldo, como jogador, já não é o mesmo. É menos rápido, tem menos força e tornou-se num avançado mais estático. Creio que o próprio Ronaldo reconhecerá isso, mas compete ao treinador e apenas a este tomar a decisão de o pôr ou não a jogar, de o deixar ou não os noventa minutos em campo, de o considerar ou não um ativo precioso para a equipa. Pelos vistos, assim o considera. Acho, por isso, tão ofensivo que se culpe o Ronaldo por todos os desaires quanto se lhe dê os louros absolutos de uma vitória, porque o futebol é um coletivo. Sempre foi e sempre será. De modo que o empate do primeiro jogo não pode ser imputado ao Cristiano quando uma equipa falhou em toda a linha. Não é justo.

            Reconhecer isto não significa que ele tenha sempre lugar cativo na equipa ou que não possa sair se e quando o treinador entender, mediante a sua estratégia de jogo. Perante esta decisão, caso a haja, não compete ao Ronaldo fazer birra nem pressões, como já aconteceu anteriormente. A última palavra será sempre do treinador.

            O Cristiano irrita muita gente porque não encena o papel de bom moço e de profissional humilde. O Vitinha diz: “Não gosto de dizer que sou o melhor do mundo, porque há mais dois ou três jogadores muito bons, também.” Ao ouvir isto, nós sorrimos e batemos palmas. Gostamos da humildade. O Cristiano apregoava aos sete ventos que era o melhor do mundo. Em muitas épocas foi mesmo e é inquestionável que é um galáctico que extrapola o futebol. Fora do recinto de jogo, só comparável ao fenómeno David Beckham. Muita publicidade e mulheres aos pés de ambos. Em relação a este último, lembro-me sempre de uma tirada de uma colega que não posso aqui reproduzir para não cometer uma inconfidência.

            O Cristiano irrita muita gente porque nos retira as desculpas que arranjamos para os nossos pequenos fracassos. Ele contrariou o destino e, ao fazê-lo, mostra que é possível a realização com trabalho árduo. Também é preciso alguma sorte, mas esta não dispensa o empenho. A verdade é que poucos possuem a sua determinação e a sua obsessão. Ele é o homem que tem mais do que um euromilhões e continua a trabalhar como um louco, quando a maioria de nós se aposentaria. Isto pode ser visto como uma qualidade ou como um defeito, mas ninguém espere que ele diga não lhe apetecer jogar.

            Cristiano Ronaldo é tudo isto: humilde e arrogante, simples e vaidoso, solidário e egoísta, homem de família e ícone de sedução, autor de marcos históricos individuais e coletivos.

            Não aplaudo todas as suas opções de vida nem todas as suas escolhas, mas nada tenho a ver com isso. Cristiano é profundamente humano, tal como eu e tu, cheio de erros e de defeitos, mas também com as suas virtudes.

            Ronaldo é um herói e um vilão e apesar do golo monumental, do meio da rua, que marcou ao meu Futebol Clube do Porto, no Dragão, envergando as cores do seu Manchester United, não consigo não gostar dele nem não sentir orgulho por ser português, ainda que o tenha maldito dessa vez.

            Ele aguenta as críticas justas e injustas. São o seu combustível. Gostaria que nós, portugueses, e por extensão o Ronaldo, fôssemos todos muito felizes neste campeonato do mundo. Só para ver se o rapaz pode pendurar as chuteiras como campeão do mundo pela seleção, caso lhe apeteça.

 

Nina M.

 

 

 

sábado, 20 de junho de 2026

Crónica de Maus Costumes 473

 

O que nos fica dos dias

               Entre dias preenchidos que temos, há bocadinhos que nos ficam a temperar a alma. Junho é o mês da feira do livro da cidade, talvez a sua atividade cultural maior. Ontem, com Hugo Van Der Ding, o espaço encheu para o ouvir falar e hoje, também, Luísa Sobral foi contemplada com uma bela plateia e com uma conversa bem conduzida, que soube partir do livro, sem se perder em grandes detalhes biográficos. A Luísa é boa conversadora e, quando assim é, a tarefa do moderador torna-se um pouco mais fácil.

Tive, hoje, o privilégio de estar na apresentação do livro de uma querida amiga que teve o trabalho de recolher o testemunho e as histórias dos anciãos de Frazão. Memórias que seriam perdidas se a Lurdes Martins não se interessasse genuinamente pelos pedaços de gente, de tradições e de costumes. Partiu à descoberta e encontrou modos de vida num tempo cinzento e difícil. Memórias de tempos de miséria e de fome, revividos com emoção, nostalgia e saudade. Já sabemos que a memória tende a colecionar o que lhe faz bem, de modo que foi com comoção que muitos ouviram e contaram as histórias que lhes pertencem e que definem um pouco o que são hoje.

Guardo a felicidade autêntica da plateia a ouvir a autora desvendar um pouco dos mistérios que se encontram nas páginas dos livros, a ânsia com que o compraram, provavelmente, cheios de pressa para ler as narrativas que a Lurdes compilou, tendo o cuidado de registar a voz de cada um, as expressões populares já caídas em desuso. Testemunhos de enorme valor documental, que retratam uma época.

À noite, fui ouvir a Luísa Sobral. A conversa girou em torno do seu romance “Nem todas as árvores morrem de pé”.  Eu não o li, de modo que não posso ter qualquer opinião. No entanto, saber que foi apresentado e que obteve o aval de Maria do Rosário Pedreira para publicação é um belíssimo sinal.

De tudo quanto a Luísa foi desvendando, houve algo que não passa despercebido a uma mulher, o facto de abordar o tema da maternidade nos seus diferentes modos e homenagear todas as mães dos filhos por nascer. É um tema sobre o qual pouco se fala.

Já li, certa altura, um texto de uma mãe a lamentar-se da falta de empatia para com o luto de um filho que não chegou a ser. É um assunto delicado e que deve ser tratado com cautela. As perdas do embrião ou do feto exigem um luto que necessariamente tem de ser feito e um luto de uma mãe é perene. Haverá uma tendência para o minimizar, por se tratar de uma fase precoce, no entanto, quando a gravidez é desejada, a mulher torna-se mãe quando a descobre, portanto, é possível que para ela tenha havido a perda de um filho e não a perda de um amontoado de células. A mãe do texto que li lamentava a falta de compreensão pelo seu luto, a quase exigência de rápida recuperação como se os nossos sentimentos funcionassem mediante o simples acionar dos botões de ligar e desligar.

Não é assim. Quem perdeu sabe que perdeu e não esquece. Talvez lhe imagine um rosto e um nome que lhe pertencem. Talvez lhe imaginem a vida que poderia ter tido.

Lembro-me de, na minha segunda gravidez, numas análises de rotina, ao fazer a ficha, a funcionária me fazer responder a um inquérito e perguntar em voz alta, audível para toda a plateia: “quantos abortos já teve?”

Nenhum – foi a minha resposta. Soergueu a cabeça em sinal de espanto. Voltei a repetir: “nenhum, felizmente.”

Senti-me, de algum modo, agredida pela banalização de um assunto tão íntimo, mesmo que não tivesse passado pelo processo. Não é pergunta que se apregoe, assim, em tom elevado, no meio de uma sala cheia.

Imagino a dor das mães que já passaram pela experiência e algumas mais do que uma vez.

É preciso respeitar o tempo, as mazelas, os lutos, os sofrimentos alheios, mesmo que nos pareçam exagerados. Sente quem passa pelas vivências. Sentir com a imaginação é fundamental e garante a empatia, mas ainda assim, estará longe da tristeza que invade aquelas que enfrentam essas dificuldades. Efetivamente, curar as dores alheias é sempre muito mais fácil.

 

Nina M.

 

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Beijo no umbral

Tudo era intenso, assim,
Como o instante que precede
O beijo roubado contra o umbral

Mãos que acariciam o cabelo
E outras enlaçam a cintura
Enquanto o beijo se faz e se desfaz

Volta a ser beijo novamente
Esse instante sem ar
De estertor e desejo

Tudo era intenso, assim,
Num beijo desejado contra o umbral
E contra mim

terça-feira, 16 de junho de 2026

Submersão

Cruzei a tempestade
Enfrentei ventos e marés
Nuvens escuras e trovões

Perdi-me na agitação das vagas
E como casco leve submergi
A matar a sede com água salgada

Quase afoguei os pulmões
Na imensidão da vaga
Mas na crista da onda

Inteira e só
Devolvi-me
O naufrágio não me varou