Até que Caiam Chuvas Ácidas ao Amanhecer
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terça-feira, 25 de agosto de 2026
Que sei eu do amor?
Esse lugar em chama
Brasido na cinza
Tudo o que fica
Depois da paixão
Que sei eu do amor?
Uma quarta de cinzas
E folia de verão
Que sei eu do amor?
Só o que fica
Depois de abrir a mão
sábado, 1 de agosto de 2026
Crónica de Maus Costumes 479
A Tasca do Zequinha
A portugalidade tem algumas características
pavorosas e outras absolutamente divinas!
Por estes dias, numa passeata pelo Alto
Douro Vinhateiro, paisagem única de montanhas enfeitadas com folhas de videira
que preenchem as cepas enfileiradas, de onde saltam já os cachos de uvas
generosos, ainda que o bago esteja verde. Precisam do calor, do sol de agosto
para amadurecer. Em setembro, já ali, as costumadas vindimas começarão.
Hoje, há tratores a percorrer os socalcos
da vinha, mas antigamente, era tudo à força do braço. Um trabalho pesado em que
homens e mulheres eram enfiados em barracões, pavilhões mal-amanhados, onde
pernoitavam enquanto a jeira da vindima perdurasse. Alguns por força da
proximidade física atreviam-se a intimidades, quando o corpo precisava de
desafogar cansaços e vontades. Basta ler o romance de Torga para compreendermos
a dureza do trabalho sazonal, mas como diz o título de um dos livros do meu
amigo Luís Altério: “Quem dos bagos extrai vinho é bom homem”.
Quando passo nesta paisagem
seminatural e semi-humana, penso sempre nos homens e mulheres que nela
trabalham arduamente, no Torga, que deixou o sacrifício e o sofrimento deles
nas páginas do seu romance e no fabuloso título que o Altério arranjou para um
dos seus contos e que intitulou o livro.
Pernoitei por lá (obrigada, mano,
pelo magnífico presente de aniversário), literalmente no meio do vinhedo, não
em barracões, mas numa casinha de xisto cheia de charme. Barriga vazia não
dorme e tivemos de ir procurar alimento. Foi assim que chegámos à Tasca do
Zequinha. Em Mesão Frio, na sua rua central, a que desce até aos paços do
concelho, numa casa antiga, vê-se uma corredor estreito, de porta aberta, com
balcão, barril de cerveja, vinho, e tudo quanto um tasco tem direito. Homens à
porta, outros de barriga encostada ao balcão. Mais dentro, numa sala do rés-do
chão, outro indivíduo que comia calmamente e com satisfação os carapauzinhos
que havia pedido. Silencioso. Nenhuma palavra ousaria estragar o manjar ou se
interporia entre ele e o petisco.
Umas escadas estreitas e velhas indicavam a subida para o piso
superior. Chega o Zequinha, pressupus.
— Quantos vão ser? — pergunta ao grupo da frente.
Sem esperar resposta conta cinco.
— Ora… Mesinha para cinco, certo?
Fez o mesmo com a restante clientela e acrescenta:
— Vão aguardar aqui que eu já chamo.
Voltou a subir, rapidamente. Ouvem-se mesas a arrastar…
Depois de algum tempo, grita do alto da escada:
— O grupo dos cinco já pode subir!
Acompanhou-os diligentemente e, depois, fez o mesmo para
todos os clientes. Ninguém tinha feito reservas para o tasco. Subimos.
O andar superior era, literalmente, uma casa. A sala de uma
habitação, com duas rosáceas de gesso no teto de onde saíam uns candeeiros do
tempo da avó. Um aparador alto cheio de cacarecos, fotografias e pedaços de
toalha de papel ou de guardanapos escritos colados na parede, a lembrar um
memorial. Numa das paredes, um azulejo com uma passagem de S. Mateus — Jesus
disse: vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos e eu vos aliviarei.
Efetivamente, assim é. Alivia o cansaço e permite que nos sentemos e alivia-nos
a fome. Automaticamente pensei com os meus botões que era bom que a frase não
fosse outra, a da Divina Comédia, de Dante: Abandonai toda a esperança, vós
que entrais.
Aquilo não era uma tasca. Era a casa da avó, onde se vai
almoçar ou jantar e não desilude. Uma mesa de alemães. Aguardavam o repasto.
Chega a travessa de arroz de tomate malandrinho seguida de uma outra de
carapauzinho frito. Ficam estáticos a olhar. Não sabiam como comer e perguntam
isso mesmo ao dono do estabelecimento que, pasme-se, num bom inglês, lhe diz
que se usar faca e garfo tinha de abrir pela lateral e exemplificou, mas os
portugueses comem mesmo à mão. É mais fácil e melhor. Os alemães ficaram
incrédulos. A senhora boquiaberta continuou de talher a respeitar a etiqueta e
o marido ia retirando as lascas à mão que metia gulosamente na boca.
Eu já sorria, deliciada. Vi a lista e quando chegou a minha
vez de pedir, disse que queria os carapauzinhos fritos para mostrar à
estrangeirada e sem peneiras como se comem um ror deles num instantinho. Sou
perita nisso. É com o carapauzinho e com a petinga. Em casa conto-os, porque se
se distraem muito, enquanto comem quatro, eu já comi oito!
Chegou o jantar. Comi à portuguesa que está na avó e não na
tasca. Com as duas mãos, a agarrar o rabo com a esquerda e a cabeça com a
direita, fui arrancando as lascas estaladiças e saborosas. A alemã a olhar
pasmada e a sorrir, tal como o marido. Nos entretantos, segue uma garfada de
arroz malandro, com tomate a saber a horta.
— Very good! — diziam.
Quiseram saber o nome do peixe. O Zequinha esclareceu e a
piscar o olho pergunta-nos que tal o petisco? É uma maravilha, não é?
— É, sim. Só nunca me passou pela cabeça vir comer
carapauzinho frito a Mesão Frio.
— Olhe, teve sorte! Hoje, olhei para eles e lembrei-me!
— Rica lembrança!
Sorrimos ambos. Pagámos modestamente, com entradas de pão,
azeitona e azeite e uma bola de carne, cortesia da casa. Tudo acompanhado por
um jarrinho de tinto da casa, obviamente.
Nina M.
P.S. A habitual rubrica encerra para descanso de pessoal
durante o mês de agosto. Agradecemos a compreensão.
sábado, 25 de julho de 2026
Crónica de Maus Costumes 478
Um abraço terno
Assim, nesta realidade desoladora e
triste, a capacidade de nos enternecermos prova que ainda vivemos, que ainda
resiste um último pingo de humanidade em nós. Talvez ainda tenhamos salvação.
Esta semana, ao passar por casa dos
meus pais, os vizinhos que tinham saído para uma breve caminhada, estavam à
conversa ao portão. Há muito não nos cruzávamos e eles lamentaram isso mesmo.
Ainda no carro, de cabeça baixa a separar uns papéis de que iria precisar,
sinto um vulto parado, a olhar-me. Olhei para o vidro. A Senhora Glória
aguardava pacientemente que a visse e decidisse falar-lhe, quem sabe sair.
Arrumei as coisas, desapertei o cinto e abri a porta para a cumprimentar.
— Ó Sónia! Há tanto tempo que te não
via!
Verdade. Há muito tempo.
Cumprimentei-a. Assim que me baixo ligeiramente, para lhe dar dois beijinhos,
ela dá-me um forte abraço. Daqueles que demoram com um sorriso rasgado,
enquanto garantia ter gostado de me ver. Segurei-lhe as mãos. Perguntei como
tem passado.
Entretanto, veio o marido. O mesmo
lamento. A ausência. Não me viam há muito. Cumprimentei-o também. Começou,
imediatamente, a falar-me do quadro de demência da esposa, das dificuldades que
tem para a amparar, por ter já oitenta e quatro anos.
— Ela não quer ir para o lar de dia…
A senhora Glória a acompanhar a conversa e a
mexer a cabeça para ambos os lados.
— Não quero. Não conheço as pessoas.
Não fui habituada a andar nesses ambientes. Fui criada aqui, assim…
— Foi criada em casa e no campo, não
é? Vida de muito trabalho.
— Pois foi. Agora, que podíamos estar
tão bem…
As reticências não falaram da vida de
pobreza do casal com as suas seis filhas. Ela a trabalhar na lavoura com o pai,
que fabricava uma quinta, de onde saía boa parte do alimento. O marido
marceneiro. Uma vida de sacrifício, num casebre fraco. Perderam uma filha
levada por um tumor cerebral aos catorze anos. Era cerca de dois anos mais
velha do que eu. À medida que as raparigas foram trabalhar para contribuir para
a casa, a vida deles foi melhorando. Arranjaram a casinha. Lá me fez ir a casa
dela buscar uma cabaça e uns ovos caseiros e queria que trouxesse cebolas.
Agradeci. Não as posso comer nem usar na comida. Agradeci. Veio a curgete em
substituição.
Eu a lembrar-me do tempo de gaiata,
em que passava as tardes com as filhas dela, a brincar. Às vezes,
acompanhava-as para o campo. A senhora Glória, coitada, que sabia que eu
gostava da broa de milho (ainda gosto), a oferecer-me uma fatia ao lanche, que
eu preferia ao trigo ou à bolacha Maria. Lembro-me das batatas cozidas que
comia na casa dela, regadas com azeite e uma pontinha de vinho tinto a servir
de vinagre. Na verdade, servia, que aquele vinho tinto verde, carrascão, era
amargo como trovisco. E eu, que obrigava a Glória, a minha prima, a andar com o
prato dos leõezinhos na bouça em frente, no penedo grande, enquanto me enfiava
goela abaixo a batata cozida esmagada com peixe ou carne, já fria, comia com
gosto em casa da vizinha do pouco que tinham, do caldo e das batatas. A sorte
deles é que era fraca comedora.
A minha mãe incrédula a perguntar-se
como era possível semelhante façanha. E para compensar, sabendo das
dificuldades, lá lhes levava uma mercearia para os compensar.
Ambos felizes por me darem a abóbora.
A alegria vem-lhes de um lugar mais fundo, do simples gesto natural de os
cumprimentar com dois beijos e um abraço.
São pessoas que cultivam alguma reverência perante aqueles que
consideram, de alguma forma, estar num patamar superior, devido às condições
económicas. Sentem-se neste modo de os cumprimentar tratados como iguais. Cumprimento-os
como cumprimentaria uma pessoa da família ou uma amiga. Este gesto, para mim
tão trivial e sinal de educação, para eles, um afago, um sentir que importam. Enterneci-me
e uma alegria singela invadiu-me. Senti alguma culpa por nunca me ter lembrado
de os visitar.
— Esta mulher consome-me — dizia-me o
senhor José. No outro dia cismou que eu estava com outra mulher na cama!
Soltei uma risada. Achei delicioso! Ela,
meio envergonhada, acrescenta:
— As figuras que uma pessoa se sujeita
a fazer nesta idade… Eu estava a dormir-
— E sonhou que estava por aí outra
mulher, não foi? De repente, acordou e estremunhada pareceu-lhe ver alguém.
— Foi, respondeu aliviada.
— Olhe, deixe lá, senhora Glória, uma
pessoa também não tem culpa dos sonhos! Não os escolhemos. Importa que depois
acordou e a única mulher da casa era a senhora.
— Pois era. Ó Zé, então, não vamos à
Pedreira?
— Ela ainda não andou, hoje. Ia
levá-la a caminhar, mas já é tarde e ela anda tão devagar que não chego antes
das sete e meia (19h30).
— Leve-a só até à oficina dos irmãos
Ferreira e volte para trás.
— É, Zé. Vamos só até à oficina e voltamos.
Soube que já não consegue cozinhar.
Não quer. Passa o dia entre o deitar-se na cama e levantar-se. Fala com o pai
que já morreu há muito tempo. Fala com os mortos que vê.
— Fala com os mortos todos — diz o
marido — mas não se lembra da filha.
— Ai não, não lembra! Lembro, lembro –
apressou-se a dizer.
A demência, nesse dia, foi menos
traiçoeira. Conheceu-me bem e deu-me um abraço apertado como quem sabe que tem
dias em que a memória lhe rouba o ser.
Nina M.
sexta-feira, 24 de julho de 2026
Desajuste
Não pertenço.
Nunca pertenci totalmente a nada.
Nunca coube por completo em lugar algum.
Às vezes, sobra um espaço imenso:
miúdo perdido dentro das calças
de um pai.
Às vezes, encolho-me.
O espaço é exíguo e escuro,
mesmo se é dia ao ar livre.
De volta à casa, a mim,
estico os braços, deito-me,
estico-me toda.
Quase a sentir cãibras na barriga
das pernas.
Tensionar o corpo por segundos
para expirar de seguida.
Um profundo suspiro
até encostar as costelas aos pulmões.
Sinto a realidade do corpo.
O espaço onde me caibo.
sábado, 18 de julho de 2026
Crónica de Maus Costumes 477
Entre o númeno e o caos
Sei
bem que vemos o mundo com a nossa lente, interpretamo-lo como somos e a nossa
bagagem é imensa. Os filósofos já no-lo explicaram há muito. Devemos a esses
pensadores tanta coisa que parece quase impossível descobrir algo que seja uma
novidade. Talvez não haja mesmo essa possibilidade. O que vier será um
acréscimo, uma nuance mais do que já foi deslindado.
Kant
mostrou que a nossa mente molda a nossa experiência do mundo. Separou o mundo
em númeno e fenómeno. O númeno seria o mundo em si, a exata realidade e o
fenómeno o mundo que conseguimos perceber e interpretar. Significa que o númeno
nunca é alcançado plenamente pelo Homem, porque este apreende a realidade a
partir do seu aparelho cognitivo. Depois de Kant, surge Fichte, da escola de
Jena e que foi mais longe, ainda. Para este, o mundo exterior, o númeno de Kant,
o não-ich ou não-eu para Fichte é uma espécie de espelho criado pela consciência humana para que
possamos lutar contra ele, superar obstáculos através da ação e do esforço e,
assim, alcançar a liberdade. Estavam lançados os primeiros alicerces do
Romantismo alemão.
Não abordei
Fichte na escola, mas ainda ouço a professora Celestina a explicar o númeno e o
fenómeno, citando a Crítica da Razão Pura.
Mais tarde,
Schopenhauer, partindo da base de Kant, afirma que o mundo exterior é uma
criação da nossa representação mental, ou seja, tudo quanto o Homem conhece é
uma imagem filtrada pela sua própria consciência.
Nietzsche irá
mais longe, ainda, e afirma mesmo que “não há factos, apenas interpretações”.
Hans-Georg Gadamer,
já no século XX, mostra que a nossa interpretação do mundo é um diálogo
constante entre o nosso contexto cultural, os nossos preconceitos, não no
sentido pejorativo, mas antes no sentido de “pré-compreensões”, a bagagem de
que somos feitos, afinal, e as novas experiências, interpretação construída
através da linguagem e da história.
Não admira,
portanto, que as opiniões sejam sempre como as cerejas. Na verdade, sobre o
mesmo facto é legítimo pensar-se que poderá haver tantas interpretações quanto
os indivíduos que sobre ele reflitam. Assim se explica que haja tanta
sensibilidade e perceções diversificadas em relação à situação aflitiva (já
estou a interpretar) que se vive na educação.
Tentei não embarcar
na indignação precoce, certamente motivada pela ansiedade legítima vivida pelos
colegas professores classificadores, nestes últimos tempos. Num primeiro
momento pensei com os meus botões que poderia estar a ocorrer algum excesso de
zelo, chamemos-lhe assim por parte de colegas. Aqui em casa há sempre dois que
querem tudo para ontem e qualquer coisa gera ansiedade e outros dois mais
tranquilos (um deles até em demasia) e que não gostam muito de antecipar
cenários dantescos. No entanto, à medida que o tempo ia passando, a situação
ia-se degradando e as opiniões convergindo.
Eu acredito nas
boas intenções do ministro Fernando Alexandre e no seu otimismo. Não me custa a
crer que ele imaginou ser perfeitamente possível implementar a digitalização
dos exames com celeridade e competência. Enganou-se. Os professores avisaram.
Têm anos de experiência e souberam prever o que poderia acontecer num processo
apressado e pouco acautelado. Tentaram avisar, mas não foram ouvidos. Talvez o
senhor ministro parta sempre da sua interpretação com base nos seus
preconceitos, levando-o a fazer afirmações que nem ao Diabo lembrariam.
É uma pena. Eu gostaria
mesmo que a nossa classe política compreendesse que o povo português seria
capaz de passar por cima de uma incompetência. Se formos honestos connosco,
verificaremos que somos, por vezes, incompetentes. Faz parte da condição
humana.
Já é mais
difícil perdoar a mentira descarada e um discurso falacioso em que se percebe
que nem o próprio ministro acredita na enxurrada de falácias que oferece
continuamente à comunicação social.
É uma pena. Quando se falha e se admite o
erro, pedindo um pouco de paciência para que se possa reparar o problema, os
cidadãos, mais ou menos contrafeitos, geralmente, concedem-na. Não obstante,
quando se começam a arranjar bodes expiatórios e fazer dos professores os
cordeiros pascais, quando toda a gente percebe a verdadeira origem das
dificuldades sentidas, a empatia torna-se difícil.
Senhor
ministro, não lhe fica bem responsabilizar as escolas, os professores e os
encarregados de educação. Espero que tenha compreendido que não pode mandar
digitalizar todos os exames no mesmo espaço. Independentemente de haver mais
gastos, precisa de mais equipas a trabalhar na digitalização, de preferência
sem enganos, e de uma plataforma que funcione de forma eficaz. Nada disto se
verificou e para cúmulo ainda se afixaram pautas incompletas, apenas para o
senhor ministro poder dizer que garantiu os prazos.
Vi duas alunas
em lágrimas pelo facto de o seu resultado ter sido: suspenso. Não se faz. Ou
todos têm acesso ou não tem nenhum! O senhor ministro conseguiu somente
incrementar a ansiedade dos que ainda aguardam uma classificação.
Nem professores
nem alunos mereciam semelhante salgalhada e falta de respeito. Mereciam
aplausos pela paciência que têm revelado. Peça desculpa ao país e agradeça aos
seus professores por terem sustentado a casa no meio de caos, ainda que lhes
tivesse tentado imputar uma culpa que não lhes cabe.
Desilusão será
a palavra a marcar este final de julho. Espero que tenha aprendido a lição.
Nina M.
sábado, 11 de julho de 2026
Crónica de Maus Costumes 476
A filha da stôra
Os miúdos, em determinadas ocasiões,
são fantásticos. Tal como nós, não todos os dias, não sempre, mas têm lampejos
de sabedoria e momentos deliciosos.
Quando cheguei a casa, disse à minha
pequena:
— Matilde, no ginásio, o Francisco, o monitor, veio
inteirar-se do meu treino e perguntou-me se eu era a mãe da Matilde. Disse-lhe
que sim.
— Esse é aquele alto e magro. Já sei quem é – respondeu.
Ahah! Vês?! Ali, não sou a filha da stôra. Tu é que és a mãe da Matilde.
— Com muito gosto — disse eu.
A minha pequena (já não é assim tão pequena, mas há de ser
sempre ela a pequena) detesta ser a filha da stôra, pelo que tem o hábito de me
fugir carro fora para tentar não ser vista comigo ao chegar à escola, mesmo que
já tenha percebido que não adianta muito. Ignora-me nos corredores, se
calharmos de cruzar, o que raramente acontece, pelo facto de a escola ser tão
grande. Finge não me ver e eu faço o mesmo para não a envergonhar e, depois,
por provocação, já em casa, pergunto-lhe se posso voltar a ser a mãe dela.
Na verdade, compreendo-a. Também não gostava muito de ser a
irmã do Zico. Quer dizer, nada contra o facto imutável de sermos irmãos, mas
tal como acontece com a miúda, ser a irmã do Zico anulava-me um bocadinho o
reconhecimento da minha pessoa. No entanto, era inevitável, dada a popularidade
dele, pelo que me sobrava ser reconhecida como a irmã. Ele conhecido da escola
inteira; eu quase anónima. Assim me mantenho, na minha cidade, uma quase
anónima, graças a Deus e amém!
Ser quase um estranho forasteiro tem enormes vantagens.
Cultivo um bocadinho esse anonimato. Não me veem em cafés ou outros espaços
sociais, salvo em eventos culturais, quando há a oportunidade.
A minha miúda é um pouco mais solta. Sempre gostei mais de pequenos
grupos, onde se consiga sentir a pertença e nem sempre acontece. Ela está sempre
disposta a sair com os amigos e gosta de ser a Matilde, de modo que ser a “filha
da stôra” é cortarem-lhe a sua identidade e a possibilidade de ser quem
realmente é: tão diferente de mim e tão melhor do que eu em quase tudo!
Havemos de resolver isso, filha.
Um dia destes, tive cá em casa uma das suas grandes amigas — com
essas é às três de uma vez e detestam que se diga as gémeas! Vou porém,
fazê-lo, para não identificar a qual delas me refiro. Às vezes, vêm as três;
outras, só uma de cada vez. Gostam de vir à vez para não roubarem a atenção
umas às outras. São umas ariscas engraçadas e que gosto de ter por cá.
Abraçam-me e falam-me das saudades de vir cá a casa e afirmam gostar muito de
estar connosco. Respondo, de coração cheio, que são sempre muito bem-vindas e
que também gosto de as receber.
Decide, então, a gémea contar-me que na nova escola os
colegas são muito “betinhos”, ricos e cheios de mania. Diz-me com ar muito
indignado:
— Ó Sónia! Imagina que no outro dia, um deles me disse que sabia que havia gente pobre, assim,
aqueles que só vão de férias para o Algarve! Eu fiquei a olhar para ele… Pensei:
será que esta gente não tem televisão?! Eu nem disse nada!
Soltou-se-me uma gargalhada franca e lembrei-me,
imediatamente do Caco Antibes do Sai de Baixo: “Detesto pobre!” O que me ri!
Depois, disse-lhe: deverias ter respondido que os verdadeiramente pobres não se
podem dar ao luxo de ir para o Algarve nem para lado nenhum, até porque o
Algarve está pela hora da morte.
A miúda concordou. Ficava mais caro ir para o Algarve do que certos
destinos no estrangeiro. Ainda mais me ri quando me conta que o sujeito teve um
blusão de prenda de uma marca caríssima, que tinha custado mil euros e ela
nesse dia, tinha levado um blusão já menos novo e dizia: “e eu… Fogo! A olhar para o meu…”
Respondi, imediatamente: o teu que te deixava quentinha de
igual forma, que é o que importa. Também tenho um dessa marca do teu e gosto
bem dele. Sabes, isso não interessa para nada. Valemos pelo que somos e não
pelo que temos ou ostentamos. Ainda por cima, quando é feito dessa forma
exibicionista, não é bonito. Não há nada de mal em poder comprar essas coisas,
mas se acharem que são melhores do que os outros que as não podem ter, enganam-se.
A soberbia não é propriamente admirável.
Os olhos sorriram-se-lhe. Deve ter cogitado: “pensas como
nós.” Uso o plural, porque os pais das meninas em questão são muito bem
formados e têm feito um belo trabalho. Elas são extremamente educadas, sensíveis
e generosas, mas têm um sentido de justiça e um poder de argumentação
assinalável e não se deixam intimidar. Dizem o que pensam.
Rio-me sempre muito quando as tenho comigo. Adoram a Matilde.
Adoram estar cá e nós gostamos de as ter. Sobretudo, porque para elas, a
Matilde não é filha da stôra. É só a filha da Sónia.
Nina M.
sexta-feira, 10 de julho de 2026
Eros
Repetido a cada manhã,
Mias-me junto à porta,
À espera do maná.
Saciada a fome urgente,
Em voltas em meia-lua,
Saltitas roças-te todo
Nas minhas pernas nuas.
Por vício ou ritual,
Olhas-me com olhos doces,
De um azul sem igual,
Grato pelo que te trouxe.
Mimas-me com a cauda,
A cabeça e nariz frio,
Numa dança matinal
Com a qual sempre rio.