O que nos fica dos dias
Entre dias preenchidos que temos, há
bocadinhos que nos ficam a temperar a alma. Junho é o mês da feira do livro da
cidade, talvez a sua atividade cultural maior. Ontem, com Hugo Van Der Ding, o
espaço encheu para o ouvir falar e hoje, também, Luísa Sobral foi contemplada
com uma bela plateia e com uma conversa bem conduzida, que soube partir do
livro, sem se perder em grandes detalhes biográficos. A Luísa é boa
conversadora e, quando assim é, a tarefa do moderador torna-se um pouco mais
fácil.
Tive, hoje, o privilégio de estar na
apresentação do livro de uma querida amiga que teve o trabalho de recolher o
testemunho e as histórias dos anciãos de Frazão. Memórias que seriam perdidas
se a Lurdes Martins não se interessasse genuinamente pelos pedaços de gente, de
tradições e de costumes. Partiu à descoberta e encontrou modos de vida num
tempo cinzento e difícil. Memórias de tempos de miséria e de fome, revividos
com emoção, nostalgia e saudade. Já sabemos que a memória tende a colecionar o
que lhe faz bem, de modo que foi com comoção que muitos ouviram e contaram as
histórias que lhes pertencem e que definem um pouco o que são hoje.
Guardo a felicidade autêntica da
plateia a ouvir a autora desvendar um pouco dos mistérios que se encontram nas
páginas dos livros, a ânsia com que o compraram, provavelmente, cheios de
pressa para ler as narrativas que a Lurdes compilou, tendo o cuidado de
registar a voz de cada um, as expressões populares já caídas em desuso.
Testemunhos de enorme valor documental, que retratam uma época.
À noite, fui ouvir a Luísa Sobral. A
conversa girou em torno do seu romance “Nem todas as árvores morrem de pé”. Eu não o li, de modo que não posso ter
qualquer opinião. No entanto, saber que foi apresentado e que obteve o aval de
Maria do Rosário Pedreira para publicação é um belíssimo sinal.
De tudo quanto a Luísa foi
desvendando, houve algo que não passa despercebido a uma mulher, o facto de
abordar o tema da maternidade nos seus diferentes modos e homenagear todas as
mães dos filhos por nascer. É um tema sobre o qual pouco se fala.
Já li, certa altura, um texto de uma
mãe a lamentar-se da falta de empatia para com o luto de um filho que não chegou
a ser. É um assunto delicado e que deve ser tratado com cautela. As perdas do
embrião ou do feto exigem um luto que necessariamente tem de ser feito e um
luto de uma mãe é perene. Haverá uma tendência para o minimizar, por se tratar de
uma fase precoce, no entanto, quando a gravidez é desejada, a mulher torna-se
mãe quando a descobre, portanto, é possível que para ela tenha havido a perda
de um filho e não a perda de um amontoado de células. A mãe do texto que li
lamentava a falta de compreensão pelo seu luto, a quase exigência de rápida
recuperação como se os nossos sentimentos funcionassem mediante o simples acionar
dos botões de ligar e desligar.
Não é assim. Quem perdeu sabe que
perdeu e não esquece. Talvez lhe imagine um rosto e um nome que lhe pertencem.
Talvez lhe imaginem a vida que poderia ter tido.
Lembro-me de, na minha segunda
gravidez, numas análises de rotina, ao fazer a ficha, a funcionária me fazer
responder a um inquérito e perguntar em voz alta, audível para toda a plateia: “quantos
abortos já teve?”
Nenhum – foi a minha resposta. Soergueu
a cabeça em sinal de espanto. Voltei a repetir: “nenhum, felizmente.”
Senti-me, de algum modo, agredida
pela banalização de um assunto tão íntimo, mesmo que não tivesse passado pelo
processo. Não é pergunta que se apregoe, assim, em tom elevado, no meio de uma
sala cheia.
Imagino a dor das mães que já
passaram pela experiência e algumas mais do que uma vez.
É preciso respeitar o tempo, as mazelas,
os lutos, os sofrimentos alheios, mesmo que nos pareçam exagerados. Sente quem
passa pelas vivências. Sentir com a imaginação é fundamental e garante a
empatia, mas ainda assim, estará longe da tristeza que invade aquelas que
enfrentam essas dificuldades. Efetivamente, curar as dores alheias é sempre
muito mais fácil.
Nina M.