A filha da stôra
Os miúdos, em determinadas ocasiões,
são fantásticos. Tal como nós, não todos os dias, não sempre, mas têm lampejos
de sabedoria e momentos deliciosos.
Quando cheguei a casa, disse à minha
pequena:
— Matilde, no ginásio, o Francisco, o monitor, veio
inteirar-se do meu treino e perguntou-me se eu era a mãe da Matilde. Disse-lhe
que sim.
— Esse é aquele alto e magro. Já sei quem é – respondeu.
Ahah! Vês?! Ali, não sou a filha da stôra. Tu é que és a mãe da Matilde.
— Com muito gosto — disse eu.
A minha pequena (já não é assim tão pequena, mas há de ser
sempre ela a pequena) detesta ser a filha da stôra, pelo que tem o hábito de me
fugir carro fora para tentar não ser vista comigo ao chegar à escola, mesmo que
já tenha percebido que não adianta muito. Ignora-me nos corredores, se
calharmos de cruzar, o que raramente acontece, pelo facto de a escola ser tão
grande. Finge não me ver e eu faço o mesmo para não a envergonhar e, depois,
por provocação, já em casa, pergunto-lhe se posso voltar a ser a mãe dela.
Na verdade, compreendo-a. Também não gostava muito de ser a
irmã do Zico. Quer dizer, nada contra o facto imutável de sermos irmãos, mas
tal como acontece com a miúda, ser a irmã do Zico anulava-me um bocadinho o
reconhecimento da minha pessoa. No entanto, era inevitável, dada a popularidade
dele, pelo que me sobrava ser reconhecida como a irmã. Ele conhecido da escola
inteira; eu quase anónima. Assim me mantenho, na minha cidade, uma quase
anónima, graças a Deus e amém!
Ser quase um estranho forasteiro tem enormes vantagens.
Cultivo um bocadinho esse anonimato. Não me veem em cafés ou outros espaços
sociais, salvo em eventos culturais, quando há a oportunidade.
A minha miúda é um pouco mais solta. Sempre gostei mais de pequenos
grupos, onde se consiga sentir a pertença e nem sempre acontece. Ela está sempre
disposta a sair com os amigos e gosta de ser a Matilde, de modo que ser a “filha
da stôra” é cortarem-lhe a sua identidade e a possibilidade de ser quem
realmente é: tão diferente de mim e tão melhor do que eu em quase tudo!
Havemos de resolver isso, filha.
Um dia destes, tive cá em casa uma das suas grandes amigas — com
essas é às três de uma vez e detestam que se diga as gémeas! Vou porém,
fazê-lo, para não identificar a qual delas me refiro. Às vezes, vêm as três;
outras, só uma de cada vez. Gostam de vir à vez para não roubarem a atenção
umas às outras. São umas ariscas engraçadas e que gosto de ter por cá.
Abraçam-me e falam-me das saudades de vir cá a casa e afirmam gostar muito de
estar connosco. Respondo, de coração cheio, que são sempre muito bem-vindas e
que também gosto de as receber.
Decide, então, a gémea contar-me que na nova escola os
colegas são muito “betinhos”, ricos e cheios de mania. Diz-me com ar muito
indignado:
— Ó Sónia! Imagina que no outro dia, um deles me disse que sabia que havia gente pobre, assim,
aqueles que só vão de férias para o Algarve! Eu fiquei a olhar para ele… Pensei:
será que esta gente não tem televisão?! Eu nem disse nada!
Soltou-se-me uma gargalhada franca e lembrei-me,
imediatamente do Caco Antibes do Sai de Baixo: “Detesto pobre!” O que me ri!
Depois, disse-lhe: deverias ter respondido que os verdadeiramente pobres não se
podem dar ao luxo de ir para o Algarve nem para lado nenhum, até porque o
Algarve está pela hora da morte.
A miúda concordou. Ficava mais caro ir para o Algarve do que certos
destinos no estrangeiro. Ainda mais me ri quando me conta que o sujeito teve um
blusão de prenda de uma marca caríssima, que tinha custado mil euros e ela
nesse dia, tinha levado um blusão já menos novo e dizia: “e eu… Fogo! A olhar para o meu…”
Respondi, imediatamente: o teu que te deixava quentinha de
igual forma, que é o que importa. Também tenho um dessa marca do teu e gosto
bem dele. Sabes, isso não interessa para nada. Valemos pelo que somos e não
pelo que temos ou ostentamos. Ainda por cima, quando é feito dessa forma
exibicionista, não é bonito. Não há nada de mal em poder comprar essas coisas,
mas se acharem que são melhores do que os outros que as não podem ter, enganam-se.
A soberbia não é propriamente admirável.
Os olhos sorriram-se-lhe. Deve ter cogitado: “pensas como
nós.” Uso o plural, porque os pais das meninas em questão são muito bem
formados e têm feito um belo trabalho. Elas são extremamente educadas, sensíveis
e generosas, mas têm um sentido de justiça e um poder de argumentação
assinalável e não se deixam intimidar. Dizem o que pensam.
Rio-me sempre muito quando as tenho comigo. Adoram a Matilde.
Adoram estar cá e nós gostamos de as ter. Sobretudo, porque para elas, a
Matilde não é filha da stôra. É só a filha da Sónia.
Nina M.