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sábado, 1 de agosto de 2026

Crónica de Maus Costumes 479

 

A Tasca do Zequinha

               A portugalidade tem algumas características pavorosas e outras absolutamente divinas!

            Por estes dias, numa passeata pelo Alto Douro Vinhateiro, paisagem única de montanhas enfeitadas com folhas de videira que preenchem as cepas enfileiradas, de onde saltam já os cachos de uvas generosos, ainda que o bago esteja verde. Precisam do calor, do sol de agosto para amadurecer. Em setembro, já ali, as costumadas vindimas começarão.

            Hoje, há tratores a percorrer os socalcos da vinha, mas antigamente, era tudo à força do braço. Um trabalho pesado em que homens e mulheres eram enfiados em barracões, pavilhões mal-amanhados, onde pernoitavam enquanto a jeira da vindima perdurasse. Alguns por força da proximidade física atreviam-se a intimidades, quando o corpo precisava de desafogar cansaços e vontades. Basta ler o romance de Torga para compreendermos a dureza do trabalho sazonal, mas como diz o título de um dos livros do meu amigo Luís Altério: “Quem dos bagos extrai vinho é bom homem”.

            Quando passo nesta paisagem seminatural e semi-humana, penso sempre nos homens e mulheres que nela trabalham arduamente, no Torga, que deixou o sacrifício e o sofrimento deles nas páginas do seu romance e no fabuloso título que o Altério arranjou para um dos seus contos e que intitulou o livro.

            Pernoitei por lá (obrigada, mano, pelo magnífico presente de aniversário), literalmente no meio do vinhedo, não em barracões, mas numa casinha de xisto cheia de charme. Barriga vazia não dorme e tivemos de ir procurar alimento. Foi assim que chegámos à Tasca do Zequinha. Em Mesão Frio, na sua rua central, a que desce até aos paços do concelho, numa casa antiga, vê-se uma corredor estreito, de porta aberta, com balcão, barril de cerveja, vinho, e tudo quanto um tasco tem direito. Homens à porta, outros de barriga encostada ao balcão. Mais dentro, numa sala do rés-do chão, outro indivíduo que comia calmamente e com satisfação os carapauzinhos que havia pedido. Silencioso. Nenhuma palavra ousaria estragar o manjar ou se interporia entre ele e o petisco.

Umas escadas estreitas e velhas indicavam a subida para o piso superior. Chega o Zequinha, pressupus.

— Quantos vão ser? — pergunta ao grupo da frente.

Sem esperar resposta conta cinco.

— Ora… Mesinha para cinco, certo?

Fez o mesmo com a restante clientela e acrescenta:

— Vão aguardar aqui que eu já chamo.

Voltou a subir, rapidamente. Ouvem-se mesas a arrastar… Depois de algum tempo, grita do alto da escada:

— O grupo dos cinco já pode subir!

Acompanhou-os diligentemente e, depois, fez o mesmo para todos os clientes. Ninguém tinha feito reservas para o tasco. Subimos.

O andar superior era, literalmente, uma casa. A sala de uma habitação, com duas rosáceas de gesso no teto de onde saíam uns candeeiros do tempo da avó. Um aparador alto cheio de cacarecos, fotografias e pedaços de toalha de papel ou de guardanapos escritos colados na parede, a lembrar um memorial. Numa das paredes, um azulejo com uma passagem de S. Mateus — Jesus disse: vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos e eu vos aliviarei. Efetivamente, assim é. Alivia o cansaço e permite que nos sentemos e alivia-nos a fome. Automaticamente pensei com os meus botões que era bom que a frase não fosse outra, a da Divina Comédia, de Dante: Abandonai toda a esperança, vós que entrais.

Aquilo não era uma tasca. Era a casa da avó, onde se vai almoçar ou jantar e não desilude. Uma mesa de alemães. Aguardavam o repasto. Chega a travessa de arroz de tomate malandrinho seguida de uma outra de carapauzinho frito. Ficam estáticos a olhar. Não sabiam como comer e perguntam isso mesmo ao dono do estabelecimento que, pasme-se, num bom inglês, lhe diz que se usar faca e garfo tinha de abrir pela lateral e exemplificou, mas os portugueses comem mesmo à mão. É mais fácil e melhor. Os alemães ficaram incrédulos. A senhora boquiaberta continuou de talher a respeitar a etiqueta e o marido ia retirando as lascas à mão que metia gulosamente na boca.

Eu já sorria, deliciada. Vi a lista e quando chegou a minha vez de pedir, disse que queria os carapauzinhos fritos para mostrar à estrangeirada e sem peneiras como se comem um ror deles num instantinho. Sou perita nisso. É com o carapauzinho e com a petinga. Em casa conto-os, porque se se distraem muito, enquanto comem quatro, eu já comi oito!

Chegou o jantar. Comi à portuguesa que está na avó e não na tasca. Com as duas mãos, a agarrar o rabo com a esquerda e a cabeça com a direita, fui arrancando as lascas estaladiças e saborosas. A alemã a olhar pasmada e a sorrir, tal como o marido. Nos entretantos, segue uma garfada de arroz malandro, com tomate a saber a horta.

— Very good! — diziam.

Quiseram saber o nome do peixe. O Zequinha esclareceu e a piscar o olho pergunta-nos que tal o petisco? É uma maravilha, não é?

— É, sim. Só nunca me passou pela cabeça vir comer carapauzinho frito a Mesão Frio.

— Olhe, teve sorte! Hoje, olhei para eles e lembrei-me!

— Rica lembrança!

Sorrimos ambos. Pagámos modestamente, com entradas de pão, azeitona e azeite e uma bola de carne, cortesia da casa. Tudo acompanhado por um jarrinho de tinto da casa, obviamente.

Nina M.

P.S. A habitual rubrica encerra para descanso de pessoal durante o mês de agosto. Agradecemos a compreensão.

 

 

 

 

 

 

sábado, 25 de julho de 2026

Crónica de Maus Costumes 478

 

Um abraço terno

 A capacidade de nos enternecermos aquece-nos. Olhar exaustivamente para o mundo é desencorajador. A paz entre os homens é uma miragem, as notícias que nos chegam são todas más. O mal gera interesse e cria audiência. O mundo transformado em espetáculo de misérias. Talvez o ser humano precise de ver as cicatrizes expostas nos outros para suportar as suas próprias, para se tolerar e conseguir viver consigo, porque queira ou não será sempre a sua mais persistente companhia.

Assim, nesta realidade desoladora e triste, a capacidade de nos enternecermos prova que ainda vivemos, que ainda resiste um último pingo de humanidade em nós. Talvez ainda tenhamos salvação.

Esta semana, ao passar por casa dos meus pais, os vizinhos que tinham saído para uma breve caminhada, estavam à conversa ao portão. Há muito não nos cruzávamos e eles lamentaram isso mesmo. Ainda no carro, de cabeça baixa a separar uns papéis de que iria precisar, sinto um vulto parado, a olhar-me. Olhei para o vidro. A Senhora Glória aguardava pacientemente que a visse e decidisse falar-lhe, quem sabe sair. Arrumei as coisas, desapertei o cinto e abri a porta para a cumprimentar.

— Ó Sónia! Há tanto tempo que te não via!

Verdade. Há muito tempo. Cumprimentei-a. Assim que me baixo ligeiramente, para lhe dar dois beijinhos, ela dá-me um forte abraço. Daqueles que demoram com um sorriso rasgado, enquanto garantia ter gostado de me ver. Segurei-lhe as mãos. Perguntei como tem passado.

Entretanto, veio o marido. O mesmo lamento. A ausência. Não me viam há muito. Cumprimentei-o também. Começou, imediatamente, a falar-me do quadro de demência da esposa, das dificuldades que tem para a amparar, por ter já oitenta e quatro anos.

 — Ela não quer ir para o lar de dia…

 A senhora Glória a acompanhar a conversa e a mexer a cabeça para ambos os lados.

— Não quero. Não conheço as pessoas. Não fui habituada a andar nesses ambientes. Fui criada aqui, assim…

— Foi criada em casa e no campo, não é? Vida de muito trabalho.

— Pois foi. Agora, que podíamos estar tão bem…

As reticências não falaram da vida de pobreza do casal com as suas seis filhas. Ela a trabalhar na lavoura com o pai, que fabricava uma quinta, de onde saía boa parte do alimento. O marido marceneiro. Uma vida de sacrifício, num casebre fraco. Perderam uma filha levada por um tumor cerebral aos catorze anos. Era cerca de dois anos mais velha do que eu. À medida que as raparigas foram trabalhar para contribuir para a casa, a vida deles foi melhorando. Arranjaram a casinha. Lá me fez ir a casa dela buscar uma cabaça e uns ovos caseiros e queria que trouxesse cebolas. Agradeci. Não as posso comer nem usar na comida. Agradeci. Veio a curgete em substituição.

Eu a lembrar-me do tempo de gaiata, em que passava as tardes com as filhas dela, a brincar. Às vezes, acompanhava-as para o campo. A senhora Glória, coitada, que sabia que eu gostava da broa de milho (ainda gosto), a oferecer-me uma fatia ao lanche, que eu preferia ao trigo ou à bolacha Maria. Lembro-me das batatas cozidas que comia na casa dela, regadas com azeite e uma pontinha de vinho tinto a servir de vinagre. Na verdade, servia, que aquele vinho tinto verde, carrascão, era amargo como trovisco. E eu, que obrigava a Glória, a minha prima, a andar com o prato dos leõezinhos na bouça em frente, no penedo grande, enquanto me enfiava goela abaixo a batata cozida esmagada com peixe ou carne, já fria, comia com gosto em casa da vizinha do pouco que tinham, do caldo e das batatas. A sorte deles é que era fraca comedora.

A minha mãe incrédula a perguntar-se como era possível semelhante façanha. E para compensar, sabendo das dificuldades, lá lhes levava uma mercearia para os compensar.

Ambos felizes por me darem a abóbora. A alegria vem-lhes de um lugar mais fundo, do simples gesto natural de os cumprimentar com dois beijos e um abraço.  São pessoas que cultivam alguma reverência perante aqueles que consideram, de alguma forma, estar num patamar superior, devido às condições económicas. Sentem-se neste modo de os cumprimentar tratados como iguais. Cumprimento-os como cumprimentaria uma pessoa da família ou uma amiga. Este gesto, para mim tão trivial e sinal de educação, para eles, um afago, um sentir que importam. Enterneci-me e uma alegria singela invadiu-me. Senti alguma culpa por nunca me ter lembrado de os visitar.

— Esta mulher consome-me — dizia-me o senhor José. No outro dia cismou que eu estava com outra mulher na cama!

Soltei uma risada. Achei delicioso! Ela, meio envergonhada, acrescenta:

— As figuras que uma pessoa se sujeita a fazer nesta idade… Eu estava a dormir-

— E sonhou que estava por aí outra mulher, não foi? De repente, acordou e estremunhada pareceu-lhe ver alguém.

— Foi, respondeu aliviada.

— Olhe, deixe lá, senhora Glória, uma pessoa também não tem culpa dos sonhos! Não os escolhemos. Importa que depois acordou e a única mulher da casa era a senhora.

— Pois era. Ó Zé, então, não vamos à Pedreira?

— Ela ainda não andou, hoje. Ia levá-la a caminhar, mas já é tarde e ela anda tão devagar que não chego antes das sete e meia (19h30).

— Leve-a só até à oficina dos irmãos Ferreira e volte para trás.

— É, Zé. Vamos só até à oficina e voltamos.

Soube que já não consegue cozinhar. Não quer. Passa o dia entre o deitar-se na cama e levantar-se. Fala com o pai que já morreu há muito tempo. Fala com os mortos que vê.

— Fala com os mortos todos — diz o marido — mas não se lembra da filha.

— Ai não, não lembra! Lembro, lembro – apressou-se a dizer.

A demência, nesse dia, foi menos traiçoeira. Conheceu-me bem e deu-me um abraço apertado como quem sabe que tem dias em que a memória lhe rouba o ser.

 

Nina M.

 

 

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Desajuste

Não pertenço.

Nunca pertenci totalmente a nada.

Nunca coube por completo em lugar algum.


​Às vezes, sobra um espaço imenso:

miúdo perdido dentro das calças 

de um pai.

Às vezes, encolho-me.

O espaço é exíguo e escuro,

mesmo se é dia ao ar livre.

De volta à casa, a mim,

estico os braços, deito-me,

estico-me toda.


Quase a sentir cãibras na barriga

 das pernas.

Tensionar o corpo por segundos

para expirar de seguida.

Um profundo suspiro

até encostar as costelas aos pulmões.

Sinto a realidade do corpo.

O espaço onde me caibo.


sábado, 18 de julho de 2026

Crónica de Maus Costumes 477

 

       Entre o númeno e o caos

               Sei bem que vemos o mundo com a nossa lente, interpretamo-lo como somos e a nossa bagagem é imensa. Os filósofos já no-lo explicaram há muito. Devemos a esses pensadores tanta coisa que parece quase impossível descobrir algo que seja uma novidade. Talvez não haja mesmo essa possibilidade. O que vier será um acréscimo, uma nuance mais do que já foi deslindado.

               Kant mostrou que a nossa mente molda a nossa experiência do mundo. Separou o mundo em númeno e fenómeno. O númeno seria o mundo em si, a exata realidade e o fenómeno o mundo que conseguimos perceber e interpretar. Significa que o númeno nunca é alcançado plenamente pelo Homem, porque este apreende a realidade a partir do seu aparelho cognitivo. Depois de Kant, surge Fichte, da escola de Jena e que foi mais longe, ainda. Para este, o mundo exterior, o númeno de Kant, o não-ich ou não-eu para Fichte é uma espécie de espelho  criado pela consciência humana para que possamos lutar contra ele, superar obstáculos através da ação e do esforço e, assim, alcançar a liberdade. Estavam lançados os primeiros alicerces do Romantismo alemão.  

Não abordei Fichte na escola, mas ainda ouço a professora Celestina a explicar o númeno e o fenómeno, citando a Crítica da Razão Pura.

Mais tarde, Schopenhauer, partindo da base de Kant, afirma que o mundo exterior é uma criação da nossa representação mental, ou seja, tudo quanto o Homem conhece é uma imagem filtrada pela sua própria consciência.

Nietzsche irá mais longe, ainda, e afirma mesmo que “não há factos, apenas interpretações”.

Hans-Georg Gadamer, já no século XX, mostra que a nossa interpretação do mundo é um diálogo constante entre o nosso contexto cultural, os nossos preconceitos, não no sentido pejorativo, mas antes no sentido de “pré-compreensões”, a bagagem de que somos feitos, afinal, e as novas experiências, interpretação construída através da linguagem e da história.

Não admira, portanto, que as opiniões sejam sempre como as cerejas. Na verdade, sobre o mesmo facto é legítimo pensar-se que poderá haver tantas interpretações quanto os indivíduos que sobre ele reflitam. Assim se explica que haja tanta sensibilidade e perceções diversificadas em relação à situação aflitiva (já estou a interpretar) que se vive na educação.

Tentei não embarcar na indignação precoce, certamente motivada pela ansiedade legítima vivida pelos colegas professores classificadores, nestes últimos tempos. Num primeiro momento pensei com os meus botões que poderia estar a ocorrer algum excesso de zelo, chamemos-lhe assim por parte de colegas. Aqui em casa há sempre dois que querem tudo para ontem e qualquer coisa gera ansiedade e outros dois mais tranquilos (um deles até em demasia) e que não gostam muito de antecipar cenários dantescos. No entanto, à medida que o tempo ia passando, a situação ia-se degradando e as opiniões convergindo.

Eu acredito nas boas intenções do ministro Fernando Alexandre e no seu otimismo. Não me custa a crer que ele imaginou ser perfeitamente possível implementar a digitalização dos exames com celeridade e competência. Enganou-se. Os professores avisaram. Têm anos de experiência e souberam prever o que poderia acontecer num processo apressado e pouco acautelado. Tentaram avisar, mas não foram ouvidos. Talvez o senhor ministro parta sempre da sua interpretação com base nos seus preconceitos, levando-o a fazer afirmações que nem ao Diabo lembrariam.

É uma pena. Eu gostaria mesmo que a nossa classe política compreendesse que o povo português seria capaz de passar por cima de uma incompetência. Se formos honestos connosco, verificaremos que somos, por vezes, incompetentes. Faz parte da condição humana.

Já é mais difícil perdoar a mentira descarada e um discurso falacioso em que se percebe que nem o próprio ministro acredita na enxurrada de falácias que oferece continuamente à comunicação social.

 É uma pena. Quando se falha e se admite o erro, pedindo um pouco de paciência para que se possa reparar o problema, os cidadãos, mais ou menos contrafeitos, geralmente, concedem-na. Não obstante, quando se começam a arranjar bodes expiatórios e fazer dos professores os cordeiros pascais, quando toda a gente percebe a verdadeira origem das dificuldades sentidas, a empatia torna-se difícil.

Senhor ministro, não lhe fica bem responsabilizar as escolas, os professores e os encarregados de educação. Espero que tenha compreendido que não pode mandar digitalizar todos os exames no mesmo espaço. Independentemente de haver mais gastos, precisa de mais equipas a trabalhar na digitalização, de preferência sem enganos, e de uma plataforma que funcione de forma eficaz. Nada disto se verificou e para cúmulo ainda se afixaram pautas incompletas, apenas para o senhor ministro poder dizer que garantiu os prazos.

Vi duas alunas em lágrimas pelo facto de o seu resultado ter sido: suspenso. Não se faz. Ou todos têm acesso ou não tem nenhum! O senhor ministro conseguiu somente incrementar a ansiedade dos que ainda aguardam uma classificação.

Nem professores nem alunos mereciam semelhante salgalhada e falta de respeito. Mereciam aplausos pela paciência que têm revelado. Peça desculpa ao país e agradeça aos seus professores por terem sustentado a casa no meio de caos, ainda que lhes tivesse tentado imputar uma culpa que não lhes cabe.

Desilusão será a palavra a marcar este final de julho. Espero que tenha aprendido a lição.

 

Nina M.

 

 

 

 

sábado, 11 de julho de 2026

Crónica de Maus Costumes 476

 

A filha da stôra

               Os miúdos, em determinadas ocasiões, são fantásticos. Tal como nós, não todos os dias, não sempre, mas têm lampejos de sabedoria e momentos deliciosos.

            Quando cheguei a casa, disse à minha pequena:

— Matilde, no ginásio, o Francisco, o monitor, veio inteirar-se do meu treino e perguntou-me se eu era a mãe da Matilde. Disse-lhe que sim.

— Esse é aquele alto e magro. Já sei quem é – respondeu. Ahah! Vês?! Ali, não sou a filha da stôra. Tu é que és a mãe da Matilde.

— Com muito gosto — disse eu.

A minha pequena (já não é assim tão pequena, mas há de ser sempre ela a pequena) detesta ser a filha da stôra, pelo que tem o hábito de me fugir carro fora para tentar não ser vista comigo ao chegar à escola, mesmo que já tenha percebido que não adianta muito. Ignora-me nos corredores, se calharmos de cruzar, o que raramente acontece, pelo facto de a escola ser tão grande. Finge não me ver e eu faço o mesmo para não a envergonhar e, depois, por provocação, já em casa, pergunto-lhe se posso voltar a ser a mãe dela.

Na verdade, compreendo-a. Também não gostava muito de ser a irmã do Zico. Quer dizer, nada contra o facto imutável de sermos irmãos, mas tal como acontece com a miúda, ser a irmã do Zico anulava-me um bocadinho o reconhecimento da minha pessoa. No entanto, era inevitável, dada a popularidade dele, pelo que me sobrava ser reconhecida como a irmã. Ele conhecido da escola inteira; eu quase anónima. Assim me mantenho, na minha cidade, uma quase anónima, graças a Deus e amém!

Ser quase um estranho forasteiro tem enormes vantagens. Cultivo um bocadinho esse anonimato. Não me veem em cafés ou outros espaços sociais, salvo em eventos culturais, quando há a oportunidade.

A minha miúda é um pouco mais solta. Sempre gostei mais de pequenos grupos, onde se consiga sentir a pertença e nem sempre acontece. Ela está sempre disposta a sair com os amigos e gosta de ser a Matilde, de modo que ser a “filha da stôra” é cortarem-lhe a sua identidade e a possibilidade de ser quem realmente é: tão diferente de mim e tão melhor do que eu em quase tudo!

Havemos de resolver isso, filha.

Um dia destes, tive cá em casa uma das suas grandes amigas — com essas é às três de uma vez e detestam que se diga as gémeas! Vou porém, fazê-lo, para não identificar a qual delas me refiro. Às vezes, vêm as três; outras, só uma de cada vez. Gostam de vir à vez para não roubarem a atenção umas às outras. São umas ariscas engraçadas e que gosto de ter por cá. Abraçam-me e falam-me das saudades de vir cá a casa e afirmam gostar muito de estar connosco. Respondo, de coração cheio, que são sempre muito bem-vindas e que também gosto de as receber.

Decide, então, a gémea contar-me que na nova escola os colegas são muito “betinhos”, ricos e cheios de mania. Diz-me com ar muito indignado:

— Ó Sónia! Imagina que no outro dia, um deles  me disse que sabia que havia gente pobre, assim, aqueles que só vão de férias para o Algarve! Eu fiquei a olhar para ele… Pensei: será que esta gente não tem televisão?! Eu nem disse nada!

Soltou-se-me uma gargalhada franca e lembrei-me, imediatamente do Caco Antibes do Sai de Baixo: “Detesto pobre!” O que me ri! Depois, disse-lhe: deverias ter respondido que os verdadeiramente pobres não se podem dar ao luxo de ir para o Algarve nem para lado nenhum, até porque o Algarve está pela hora da morte.

A miúda concordou. Ficava mais caro ir para o Algarve do que certos destinos no estrangeiro. Ainda mais me ri quando me conta que o sujeito teve um blusão de prenda de uma marca caríssima, que tinha custado mil euros e ela nesse dia, tinha levado um blusão já menos novo e dizia:  “e eu… Fogo! A olhar para o meu…”

Respondi, imediatamente: o teu que te deixava quentinha de igual forma, que é o que importa. Também tenho um dessa marca do teu e gosto bem dele. Sabes, isso não interessa para nada. Valemos pelo que somos e não pelo que temos ou ostentamos. Ainda por cima, quando é feito dessa forma exibicionista, não é bonito. Não há nada de mal em poder comprar essas coisas, mas se acharem que são melhores do que os outros que as não podem ter, enganam-se. A soberbia não é propriamente admirável.

Os olhos sorriram-se-lhe. Deve ter cogitado: “pensas como nós.” Uso o plural, porque os pais das meninas em questão são muito bem formados e têm feito um belo trabalho. Elas são extremamente educadas, sensíveis e generosas, mas têm um sentido de justiça e um poder de argumentação assinalável e não se deixam intimidar. Dizem o que pensam.

Rio-me sempre muito quando as tenho comigo. Adoram a Matilde. Adoram estar cá e nós gostamos de as ter. Sobretudo, porque para elas, a Matilde não é filha da stôra. É só a filha da Sónia.

 

Nina M.

 

 

 

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Eros

Num cerimonial nosso,
Repetido a cada manhã,
Mias-me junto à porta,
À espera do maná.

Saciada a fome urgente,
Em voltas em meia-lua,
Saltitas roças-te todo
Nas minhas pernas nuas.

Por vício ou ritual,
Olhas-me com olhos doces,
De um azul sem igual,
Grato pelo que te trouxe.

Mimas-me com a cauda,
A cabeça e nariz frio,
Numa dança matinal
Com a qual sempre rio.

sábado, 4 de julho de 2026

Crónica de Maus Costumes 475

 

Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar

            O verso central de “Cantata da paz”, de Sophia de Mello Breyner Andresen, que denuncia as injustiças e apela às consciências permanecerá atualíssimo enquanto houver humanidade.

            Como saberão, lembro que Sophia era católica progressista, voz ativa contra a ditadura, juntamente com o marido Francisco Sousa Tavares, homem dotado de grande coragem. Sophia, essa mulher aristocrática, com semblante de deusa grega, não lhe ficava atrás. O poema referido foi criado para ser declamado numa vigília, na Capela do Rato, em Lisboa, como protesto contra a guerra colonial e um apelo à liberdade. Uma denúncia da fome, da injustiça, da guerra, com referências a Hiroshima — onde a carne das crianças se transforma em cinza — a África e ao Vietname. Uma chamada de atenção para uma época em que se vivia um “pecado organizado”.

            Aconselho a sua leitura ou melhor, aconselho a sua audição. O poema foi musicado pelo Francisco Fanhais, sacerdote progressista, influenciado pelo Bispo D. António Ferreira Gomes e pelas músicas de Zeca Afonso, que ouvia à revelia no seminário. Facilmente o encontrareis na Internet. Acabei de o ouvir. Fazei o mesmo e percebereis que o podemos cantar hoje porque, infelizmente, não perdeu a sua atualidade.

            O Homem é uma besta e as atrocidades continuam a existir. Continuamos a viver numa época de pecado organizado, em que todos sabemos quem são os grandes pecadores, que continuam a beneficiar da clemência e absoluta absolvição de outros líderes. Uns porque pertencem ao clã do pecado organizado e outros porque lhes falta a coragem de se oporem veementemente aos dislates, com enorme receio das consequências nefastas que tal ousadia implicaria, em termos económicos, para as suas nações.

            O mundo segue, assim, numa realidade feia e inaceitável, mas em que todos fingem. Uns fingem que não são responsáveis; outros fingem-se de vítimas; outros fingem não saber; outros fingem acreditar no que nunca acreditaram. Enfim, transformam a vida e os destinos dos povos numa enorme peça de teatro, onde cada um interpreta o seu papel o melhor que souber para que o pecado organizado se perpetue com a complacência de todos, incluindo a nossa.

            Nós, a arraia-miúda, encolhe os ombros numa resignação de quem já desistiu, de quem entende nada poder resolver e, portanto, vale mais não se inquietar muito. Ricardo Reis tinha razão: sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo. E assim vivemos, com as nossas preocupações, agora, com o Mundial, o calor que abunda, o pensamento nas férias, o trabalho que ainda é preciso cumprir… Distraímo-nos com o quotidiano comezinho, tantas vezes entediante e vazio. Não nos sobra tempo para olharmos para o lado. Afinal, o que se poderia fazer? As manifestações não adiantam de nada! Marcam uma posição, mas no dia seguinte, tudo permanece imutável.

Imagino, na minha inocência, um dia em que o mundo parasse por completo. Um dia em que ninguém saísse para trabalhar e jurasse assim continuar até que os responsáveis pelas vilanias erguessem as bandeiras brancas, em sinal de rendição e de redenção. Se Saramago fosse vivo, talvez aproveitasse a ideia e lhe desse forma de romance. Começaria assim: No dia seguinte, ninguém trabalhou. As alfaias agrícolas não saíram dos celeiros, os cafés não abriram. As escolas fecharam. Os hospitais colocaram um letreiro que dizia volto já, as esquadras estavam vazias e as indústrias paradas. Só os parques, as praias e os rios se povoavam com a leveza dos risos. Havia, porém, um local em cada país onde o desespero se fazia sentir: o parlamento ou o centro do poder.

            O resto da história podereis imaginar.

            Talvez os conflitos terminassem de uma vez, talvez os governantes de cada país começassem, finalmente, a governar para a população e não contra ela e até, quem sabe, os professores conseguissem voltar a exames escorreitos e sem enganos para classificar, sob o sol tórrido de julho!

            Talvez o senhor ministro da educação viesse, finalmente, reconhecer o erro e pedir desculpa ao país. Não dói assim tanto reconhecer um erro. Aliás, é a melhor forma de desarmar o outro: a assunção da culpa ou da responsabilidade. Talvez viesse dizer que na segunda fase se entregaria os exames em papel aos classificadores. Talvez os pais se preocupassem mais com os filhos. Talvez se pudesse continuar a acreditar na palavra de ministro.

 

Nina M.