O país real
Durante
esta semana, a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho,
salientou a importância de partilhar boleias e de reduzir a velocidade para que
os portugueses consigam poupar em época de crise energética. Os conselhos são
pertinentes. Efetivamente, para poupar no combustível e poupar o planeta à
poluição, essas sugestões são úteis agora e sempre.
O
problema não está, portanto, no que a senhora ministra disse, mas quando o fez.
Proferir estas afirmações numa época de preços controlados não seria somente
sensato, seria uma forma de sensibilizar os portugueses para a adoção de
comportamentos responsáveis. Poder-se-iam acrescentar outras sugestões:
preferir andar a pé ou preferir as bicicletas quando o tempo e as distâncias o
permitem, usar mais transportes públicos, principalmente, nas médias e grandes
cidades. As pequenas cidades, vilas e aldeias não têm, normalmente, essa
oferta, pelo que a adoção de tal medida não seria possível para toda a gente.
Entendo ser pertinente sensibilizar os portugueses para estas preferências. Nas
grandes cidades europeias não faltam executivos de fato, empoleirados na sua
bicicleta, para se dirigirem ao seu local de trabalho. A mentalidade portuguesa
ainda não alcançou esse patamar de evolução, porque o veículo continua a ser
símbolo de status quo para a maioria, para mim, aqueles que pensam desse
modo, apenas símbolo de imbecilidade. Não discordo da senhora ministra no
conteúdo, mas não posso aplaudir o momento escolhido. Nesta altura, ter uma
declaração destas é afrontoso para a população portuguesa. Desde logo, há
inúmeros trabalhos em que não é possível haver poupança de combustível: Um
taxista, um condutor de Uber ou de TVDE, um distribuidor de produtos, entre
outros tantos ofícios não podem dispensar o veículo nem partilhar boleias para
poupar no gasóleo, pelo que tais afirmações soam a falta de sensibilidade, a
incapacidade de compreender as dificuldades do cidadão comum e a um afastamento
da realidade que se torna confrangedor. Todos notamos os efeitos desta crise
energética quando passamos no supermercado e compramos meia-dúzia de bens
alimentares. O preço que aparece no ecrã das máquinas registadoras faz-nos
apanhar pequenos sustos, mesmo que já tenhamos aprendido técnicas de poupança,
como comprar um determinado produto numa determinada loja ou usar os cupões de
desconto ou dar preferência às marcas brancas que não são sinónimo de qualidade
inferior. O custo de vida aumentou substancialmente e os portugueses ganham
mal, porque temos uma economia débil e deficitária. Ponto. Seria bom que os
políticos o admitissem sem rodeios. Desde a decadência do império, o país
sofre. Esta é a realidade. Apesar disto, a vida melhorou infinitamente em
relação ao tempo da outra senhora. Não há comparação possível. Antes que alguém
venha falar nas reservas de ouro, nas metalurgias, indústria naval e na balança
comercial equilibrada, convém dizer que barras de ouro num país onde um povo
morre à fome e onde não há estado social, pouco interessam. É como a fortuna do
defunto: a ele, não lhe resolve nada.
Numa
crise semelhante, é inadmissível esta falta de tato. Lamento pela ministra
porque se tinha mostrado uma das mais competentes deste Governo. Provou-o
aquando da tempestade que assolou o país no último inverno. Ouvi-la significava
aprender com alguém que sabia o que dizia. Nesta semana, ou foi muito infeliz
ou foi tonta ou foi insensível. Nenhuma das hipóteses é boa.
Dou
comigo a pensar que esta gente precisa de uma imersão no Portugal profundo. Não
iria gostar da experiência. Sentiria uma irritação e, quem sabe, vergonha de
viver num país onde ainda há um nível de ignorância e, em simultâneo, uma
genuinidade desarmante. Esta gente de gabinete precisa urgentemente do contacto
com os mais desfavorecidos, com a miséria económica e, sobretudo com a miséria
moral e de espírito. Só na maturidade compreendi cristalinamente as palavras da
avó Matilde, que sempre dizia que os pobres de espírito eram os que mais
compaixão necessitavam. “Um pobre com cabeça sabe governar-se — dizia — mas um
pobre que acumula a pobreza de espírito, nem que tenha algum, depressa se faz
pouco”. Em criança (a minha avó faleceu quando eu tinha 10 anos) entendia ser
um disparate. Então, se tinham meios mínimos de sustento e não sabiam gerir,
não eram dignos de lamento. Esquecia-me das crianças que não tinham qualquer
responsabilidade nisso, apenas o azar de ter nascido ali. Até para nascer é
preciso sorte. Esquecia-me e nem podia saber que a miséria era tanta e a vida
tão sofrida, que o meio bagaço ou o kentucky ou digestivo não
eram luxo, mas uma necessidade premente da alma. Não se pode pedir a quem vive
com dois salários mínimos ou pouco mais, que paga renda de casa ou prestação ao
banco, que tem filhos a seu cargo, que nada ou quase nada lhe sobra ao fim de
mês, para poupar. Quando o consegue fazer, o pobre reza para que o filho não
precise de ir a um oftalmologista ou para que nada avarie em casa. Esta gente
de gabinete, se sabe disto, parece cega e surda.
Por
estes dias, precisei de ir ao hospital público. De cada vez que lá vou, venho
com histórias hilariantes para contar. De um homem que deu guarida à filha e ao
neto porque o companheiro quase a desfazia à pancada e, apesar dos alertas do
pai que não o deixava entrar na sua propriedade, ele teimou. Ia munido de faca.
O homem tinha uma maceta à mão e atingiu-o na cabeça. Por sorte não o matou
(ainda bem) abriu-lhe um lanho que precisou de vários pontos (abençoado pai).
“E se me tem tocado na irmã mais pequenina, na outra filha que tenho em casa,
conforme ameaçou, matava-o à pancada.” As mulheres que ouviam a história
convenciam-no de que nada tinha a temer, porque agiu em legítima defesa. O
homem tinha a faca que conseguiu retirar ao meliante. O desaforado ainda foi
para tribunal. Outra que ouvia jurava a pés juntos que dizia muitas vezes ao
marido que se alguma vez lhe pusesse as mãos, só o faria uma vez. Ela não diria
nada, na altura, mas ele não viveria para contar a história e ai daquele que
ousasse fazer mal a um filho seu, porque por um filho, matava! “Matava! Não
tenho pejo em dizê-lo.” Foi um desfiar do rosário do que tinha feito a sicrano
e beltrano que se tinham atrevido a fazer bullying com a sua dócil
criatura. As veias do pescoço encarniçavam-se, enquanto a voz subia de tom,
pouco adequado ao lugar. As narrativas eram pavorosas e eu, ali, no meio
daquele bulício, tomada de riso pelo relato entusiasmado, mas que não ousei
soltar, dada a seriedade do assunto. Gente simples. Gente humilde. Gente de
carne imperfeita com virtudes e defeitos. Gente de trabalho e de vida
massacrada que ainda tem de ouvir que deve partilhar boleia para poupar. A
outra partilhou a vida com um canalha e quase ficava sem ela.
Haja
respeito.
Nina M.