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sábado, 30 de maio de 2026

Crónica de Maus Costumes 470

 

Ainda há mesa

             Se há algo que me traz um pequeno momento de felicidade é ver os meus dois filhos num momento de cumplicidade fraterna. Aqueles instantes em que dizem coisas longe dos ouvidos dos pais e riem-se ambos do mesmo, nem que seja por um vídeo parvo do tiktok que eles sabem que eu detesto que eles vejam, apesar de saber que os veem mais do que o necessário.

            Ontem, a Matilde decidiu comparar as infâncias dos pais. Descobriu que a infância da mãe, apesar de ter sido muito diferente das deles, foi sobejamente mais fácil do que a do pai. Circunstâncias da vida e circunstâncias geográficas assim o ditaram.

            Sem que o soubessem expressar  desta forma, tomaram consciência de que a mãe, apesar de ter experienciado a sementeira das batatas e o seu arrancar (só de me lembrar de andar a apanhar as batatas dos porcos já me canso), de saber o que é andar de carro de bois, porque o avô das vizinhas fazia uma quinta e tinha bois e carro para transportar o que precisasse, de saber o que é ir ao mato e aos pinheiros ao monte, de percorrer as carreiras dos feijões ou do milho, também, por causa das vizinhas e saber o que é acartar lenha das oficinas para preparar o inverno, desta feita, lá para casa, assim como apanhar os bagos do chão, no tempo das vindimas, para se fazer um vinho que era amargo como trovisco e que os adultos juravam a pés juntos ser bom – só me lembro do senhor Claudino da Eva: “É vinho” — certo é que tinha participação nestas coisas uma vez no ano; o pai fazia-o sempre, ao longo de muitos anos. Vidas…

            Decidiram ambos, Rodrigo e Matilde, retirarem-me a autoridade moral para os repreender por se fazerem difíceis para colaborar nas tarefas domésticas, porque a mãe, eu mesma, não lhes posso dizer que se tivessem de fazer aquilo que eu fazia na idade deles é que iriam perceber o quanto custa. Sem qualquer pudor, atiraram-me à cara:

— Ó mãe! Tu não podes falar! Enquanto o pai andava a trabalhar, a fazer coisas, tu estavas a ver televisão ou a brincar. Se o pai te visse, naquela altura, iria achar-te rica!

            E assim me rotularam de burguesinha sem mais quê. Ponto. Lá tive de lhes explicar que, sim, que a minha infância foi muito feliz e que tive efetivamente meninice, tal como eles, mas sem os excessos atuais.

            A conversa foi circular. Chegou a este ponto porque a mais pequena perguntou se preferiríamos viver com ou sem telemóvel. Respondi que vivi sem ele durante uma boa parte da minha vida e que não me tinha feito falta. Bem, se fosse como os primeiros aparelhos, que só davam mesmo para telefonar e, mais tarde, enviar mensagem, estaria muito bem. Andaríamos todos menos distraídos com a espuma dos dias e eles aproveitariam melhor o tempo livre, porque a voracidade com que consomem vídeos não lhes treina a paciência nem a concentração. Só as estraga.

            Uma existência consumida em vertigem é apagada sem que disso se dê conta. Por isso, à mesa não há telemóveis. Se os houvesse, não existiria interação e a mesa ainda é o local de encontro. Pouco depois, cada um regressa aos seus afazeres. A mesa ainda é espaço de conversa e de partilha de ideias, de questões que se impõem, de espaço de diálogo. Quando os filhos crescem, é este tempo que permite a existência da família, para que não sejamos apenas indivíduos que coabitam no mesmo espaço e o vínculo permaneça.  

É-me insuportável estar a conversar com alguém que olhe para o telemóvel a todo o instante, que responda ou envie mensagens a todo o momento. Significa que a companhia do outro não preenche. É vazia. É uma falsa presença. Estes aparelhos, que também têm a enorme vantagem de permitir encontros, podem ser, paradoxalmente, responsáveis pelo afastamento e pela companhia vazia.

Não se convide alguém para café ou qualquer outra atividade se depois vai estar só pela metade. Quando se aceita o convite ou sugestão, é porque a presença das pessoas importa, caso contrário, não se aceitaria. É, portanto, justo que as tratemos com a atenção merecida.

Talvez precisemos de voltar a aprender o valor das pequenas coisas, o tempo em que um café se demorava sem pressa.

Eu, que raramente vou ao café, agora.

Pode ser um café caseiro. Acho sempre preferível. A maturidade traz o apreço pela intimidade, pelo recato e pelo conforto do lar. Nenhuma mesa ou banco de café é tão adequado e aprazível quanto o sofá de casa. Se alguém deixa o seu conforto para nos acompanhar, respeitemo-lo e saibamo-lo honrar com a nossa presença efetiva. Nunca sabemos quando será a última vez.

 

Nina M.

  

 

 

 

sábado, 23 de maio de 2026

Crónica de Maus Costumes 469

 

Geografia da alma.

               Costumo dizer aos meus alunos que a Literatura é a vida. Não, necessariamente, uma cópia fiel e plasmada. Não uma imitação simples e tosca. Demasiadas vezes, o mundo prova que a ficção fica aquém da realidade.

            A vida, por si só, não basta e o ser humano tem a necessidade de recriar outras vidas que não são mais fáceis nem mais amáveis, mas são universos constitutivos de matéria profundamente humana, de muitas misérias e de algumas alegrias. Ocorrem-me, por isso, os versos de Gedeão: “Vê moinhos? São moinhos. /Vê gigantes? São gigantes.”

            Ninguém vê o mundo como ele é. Olha-se para ele como se é. Carregados com mochilas de dores, alegrias, prazeres e frustrações. O legado dos românticos alemães, de Schlegel, Novalis, Schiller mostra-nos isso. A importância do “eu” que nos serve de filtro para o mundo, onde as emoções ocupam o seu lugar de relevância. A interpretação onde não cabe unicamente a frieza ou o distanciamento racional. Talvez não nos possamos abandonar inteiramente às nossas perceções, sob pena de falharmos na análise, mas provavelmente também não nos poderemos cingir a um racionalismo inflexível. O que para um progenitor pode ser proteção, para um filho pode ser opressão.

            Quando olhamos para trás, sabendo que a memória nos atraiçoa e nos faz esquecer de certas violências ao ser, lembramos o que foi aprazível e apagamos o que foi negativo, excetuando, obviamente, situações demasiadamente traumáticas. Precisamente porque não as podermos esquecer se transformam em trauma. Ser-nos-ia impossível viver com todas as dores acumuladas ao longo da existência, de forma vívida e presente. Precisamos do esquecimento para nos salvarmos. Os deuses sempre souberam da importância das águas do Letes.

            Assim, na generalidade e salvaguardando as perturbações sérias, ao recuarmos aos tempos da inocência, não lembramos os episódios comezinhos de castigos e de pequenas infelicidades, mas as alegrias e as brincadeiras que nos fazem sorrir. Se lembramos as punições, é já sem dor, pelo que as desvalorizamos. Só assim se entende que as pessoas recordem tempos difíceis e de miséria com nostalgia e uma sensação de paraíso perdido. Na verdade, essas vivências não terão sido todas agradáveis, mas a nossa perceção, auxiliada pelo mecanismo da memória, mostra-nos o pedaço de céu que gostamos sempre de relembrar.

            Acontece sempre que relembro as correrias monte acima e monte abaixo, numa algaraviada de catraios inconscientes e felizes. Caso para dizer: “Raiva de não ter trazido o passado na algibeira”.

            Não é o passado que queremos na algibeira. É a sensação de paz, de conforto e de alegria simples que se perde com a idade adulta. Talvez o passado nem tenha sido assim, mas é dessa forma que o nosso “eu” o mostra. Quando o revisito, os tombos de bicicleta já nem doem e o paparoto de amoras ainda cheira maravilhosamente bem e deixa a boca roxa do seu vinho. A água fria do mar de Mindelo parece-me amena, no calor do verão, e o cheiro a maresia enche-me as narinas como ontem. Hoje, as amoras já não sabem ao mesmo e o mar do Mindelo é sobejamente mais gélida. No entanto, continua o mar do Norte mais encantador.

Sabiamente, o povo diz que recordar é viver e o poeta diz querer trazer o passado na algibeira. Os pedaços de memória reconstituem a geografia da alma e compõem a história que nos vai definindo e que vamos reescrevendo.

Olhamos o mundo com toda a bagagem que somos e que continuamente construímos, a alma de mãos dadas com a razão até à última página do livro que somos.

 

Nina M.

 

 

sábado, 16 de maio de 2026

Crónica de Maus Costumes 468

 

A origem do mal

            De onde surge a maldade? Onde habita e como se decide manifestar? A educação e a cultura deveriam bastar para a eliminar. Não basta.

             Vivo sem aceitar. Não tenho a bem-querença de Rousseau e entendo que o bem e o mal habitam o homem. A educação deveria fazer com que a escolha do bem fosse uma evidência, mas olhar atentamente o mundo arruína esta tese. Penso nos pais que têm filhos que fizeram a escolha do mal e entristeço-me. Talvez nada me pesasse tanto. Talvez nada me fizesse sentir tão absolutamente fracassada. No entanto, tenho a consciência de que a trajetória de cada um é mais da sua responsabilidade do que da alheia. Filhos dos mesmos pais, criados nas mesmas circunstâncias, reagem e crescem de modo diferente. Há um caminho feito em solidão, apesar de todas as influências que possamos ter.

            Não há nada de mais comovente e importante quanto ser, genuinamente, boa pessoa. Conseguir que o amor que nos habita vença a maldade para que na solidão de que todos somos feitos possamos descansar.

            Lembro-me de ter sido má e de logo em seguida a culpa remoer-me até aos ossos. A avó Matilde ainda tinha o tear, creio. Penso que estaria a batucar nele. Por alguma razão, não pude fazer o que me apetecia (já não sei do que se tratava), mas a avó não permitiu. Sei que conseguiu enfurecer-me muito. Subiu-me a ira ao rosto e sem que me pudesse libertar da frustração, muito zangada, disse-lhe que deveria cair e partir as duas pernas. Arrependi-me imediatamente a seguir, mas já estava dito e a avó sempre fazia questão de nos lembrar que o silêncio era de ouro.

            Não me lembro do que a avó me respondeu. Talvez tenha dito que não se desejava isso a ninguém. Eu calei. Fundo. Envergonhada e demasiadamente perturbada para lhe pedir desculpa, porém, ainda hoje me lembro do episódio.

            A avó Matilde, passados cinco minutos, já teria esquecido, mas eu não. Andei, depois, à roda dela, sem me descoser, até perceber que as palavras que não deveria ter dito foram esquecidas. Creio ter sido a única vez que me terá saído tal coisa à minha avó e com vontade, naquele momento. No entanto, a mais ferida fui eu.

            Este episódio pueril e inocente serve, provavelmente, para comprovar que a maldade poderá ferir quem a recebe, mas também quem a lança. A minha pequena maldade passou, mas não explica o mundo. A ciência tenta. Segundo ela, o mal deve ser analisado através de uma lente biopsicossocial.

Durante centenas de milhares de anos, o hominídeo competiu por recursos: comida, território, parceiros. Aqueles que eram capazes de usar a violência ou a trapaça para garantirem a sua sobrevivência tinham mais hipóteses de passar os seus genes adiante. Entretanto, o homem evoluiu para cooperar com os membros do seu grupo, mas desenvolveu uma forte hostilidade contra o outro, visto como potencial ameaça. Qualquer semelhança com os tempos atuais não é mera coincidência.

 A cooperação, por sua vez, exige empatia, capacidade de sentir a dor do outro. Para isso, a rede cerebral que inclui os neurónios-espelho, o córtex cingulado anterior e a ínsula, tem de estar a funcionar bem. Qualquer avaria gera defeito de fabrico. Assim, surge a psicopatia. O psicopata compreende racionalmente o sofrimento alheio, mas é incapaz de o sentir. Aliado a isto, convém que o córtex pré-frontal, o gerente dos “impulsos” esteja bem de saúde para ser capaz de travar o ímpeto violento.

 Finalmente, a perspetiva psicológica e social comprova que pessoas comuns podem cometer atrocidades quando o outro é desumanizado, reduzido a um rótulo, a um número. Durante o Holocausto, os judeus não tinham nome. Eram um número tatuado na pele. Antes disso, foram rotulados, o alvo a abater por serem os responsáveis da desgraça (há quem faça o mesmo, atualmente, com os imigrantes). Torna-se mais fácil, ainda, quando há diluição da responsabilidade e a obrigatoriedade de obediência. Foi assim que Arendt olhou para Eichmann, no julgamento de Nuremberga. O Holocausto não teria sido possível sem a cumplicidade e a indiferença de homens e mulheres, que difundiram o terror e que, no exercício do poder, se limitaram a cumprir ordens, incapazes de usarem a razão. Uma vez mais, qualquer semelhança com a atualidade será mera coincidência.

            A seleção natural, que nos programou para sermos adaptáveis e não propriamente amorosos, fez com que desenvolvêssemos duas ferramentas essenciais para a sobrevivência: a cooperação e a competição e a linha que separa o comportamento ético da crueldade é ténue e dependerá do equilíbrio biológico e também do contexto sociocultural do indivíduo.

            É imperioso calibrar as ferramentas evolutivas da cooperação e da competição, com urgência. Com toda a informação à disposição, é doloroso ver o homem, no século XXI, reduzido à sua condição animalesca. Quem sabe, um dia, não se invente um medicamento contra a maldade, que restabeleça os circuitos neuronais, para que possamos afirmar, finalmente, que o paraíso são os outros.

 

Nina M.

 

 

 

sábado, 9 de maio de 2026

Crónica de Maus Costumes 467

 

« Noli me tangere »

               Deparei-me com um texto de um pároco que me fez andar a pensar sobre o assunto uma boa parte do dia. O texto abordava o tema da Ressurreição de Jesus e o facto de a primeira pessoa a vê-Lo ter sido Maria de Magdala, vulgo Maria Madalena, aquela que foi designada a “Apóstola dos Apóstolos”, pois a ela coube a missão, confiada pelo próprio Cristo de anunciar a Ressurreição.

               O texto tinha por base o Evangelho de João, por ser o que mais se centra na figura de Madalena, ainda que todos os outros evangelistas tivessem registado o mesmo episódio. Narra João que Madalena chorava junto ao túmulo vazio, quando vê dois anjos e uma figura que não reconhece de imediato. Ao ouvir a voz que a chama: “Maria!” Ela reconhece-O e trata-O por Mestre. Jesus vivo ter-lhe-á dito: “ Noli me tangere”, mais vulgarmente traduzido por “Não me detenhas” ou, na tradução do professor Frederico Lourenço, que o clérigo invocou, “Não me toques”.

               A partir desta proibição, o senhor padre desenvolveu uma reflexão que culminaria numa possível explicação para interditar o sacerdócio às mulheres. Questionava-se sobre o motivo desta proibição, pois Jesus já tinha sido tocado por mulheres, anteriormente. A famosa cena da pecadora que lhe lava os pés com as lágrimas e os enxuga com os cabelos é disso prova. O próprio corpo de Cristo foi preparado para o sepulcro por mulheres, que o limparam e cobriram dos unguentos habituais.

               Concluía o raciocínio, afirmando que a materialidade corpórea que Madalena via era de pertença de uma outra dimensão. Jesus Ressuscitado apresentava corpo, uma vez que incitou Tomé, o descrente, a tocar-lhe nas chagas e nos orifícios, marcas da crucificação. No entanto, não tinha permitido que Maria Madalena o tocasse. O seu pensamento conduziu-o ao facto de Cristo ter, em certa medida, escolhido apenas homens como sacerdotes, porque são a representação de Cristo, são os únicos que tiveram a autorização para O tocar e continuam a ser, pois na Eucaristia assiste-se à transubstanciação, ou seja, a transformação do pão e do vinho no corpo e sangue de Cristo, quando o sacerdote pronuncia as palavras de Jesus na Última Ceia. Resumindo, se Madalena foi proibida de O tocar, as mulheres não podem ser sacerdotisas porque também o tocariam, no momento da transubstanciação, para além de o sacerdote assumir o papel do próprio Cristo, pelo que não caberia a uma mulher.

               Terminaria, contudo, lembrando que compete ao homem o papel de pai, isto é, de representar Jesus e às mulheres, pelo dom da maternidade, de mães, cumprindo o papel de mãe de Jesus, no cumprimento da maternidade com os próprios filhos. Desta forma, o papel da mulher na Igreja é igualmente relevante, mas diferente do papel do homem, sendo-lhes, porém, permitido que sejam ministras da comunhão, por delegação do representante de Cristo.

               Não faltaram palavras elogiosas de fiéis à reflexão do senhor padre, nomeadamente, de mulheres. Surgiu, no entanto, o comentário de um homem indignado com as interpretações de Frederico Lourenço, insinuando que a sua leitura era “perigosa” por causa da sua orientação sexual. Sorri. No século XXI, ainda há quem tema a leitura, o pensamento e o diálogo, como se o conhecimento fosse uma ameaça.

               Fiquei pensativa com o raciocínio do senhor padre que me pareceu, ainda que envolto em pruridos, no mínimo, condescendente e, no máximo, misógino.

               Fui procurar saber o que diziam os outros evangelistas. Marcos e Lucas confirmam o surgimento primeiro de Jesus a Madalena, mas nada referem quanto a qualquer proibição. Mateus, por sua vez, refere o episódio e diz que Jesus encontra Madalena e a outra Maria (Sua mãe) no caminho, enquanto corriam para avisar os discípulos e que elas abraçam os pés Dele e O adoram. Primeira contradição: segundo Mateus, as mulheres puderam tocar Cristo, já que Lhe abraçam os pés! Talvez por isto a tradução mais vulgar não seja não me toques, mas antes, não me detenhas (interpretação minha, que não estudei teologia).

               Depois, dentro do Cristianismo há diferentes interpretações, visto que no Protestantismo, a mulher pode exercer o papel de pastora. Fui em busca da explicação. Para os católicos, o sacerdote atua “in persona Christi” (na pessoa de Cristo), mas no protestantismo progressista, o pastor ou pastora é o líder e o “professor espiritual” dentro de uma comunidade, e não alguém revestido de um carácter ontológico especial. Assim, se todos os batizados são sacerdotes perante Deus, o género não impede o exercício do ministério. São mais inclusivos, sem sombra de dúvida.

               A divergência entre os dois braços do tronco comum está no facto de os católicos e protestantes conservadores colocarem ênfase em passagens como a de Timóteo (“Não permito que a mulher ensine…”) e os protestantes progressistas olharem para passagens como a dos Gálatas (“Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo Jesus”). Para estes, também não há transubstanciação, pois não há comunhão. Desta forma, qualquer pessoa, desde que preparada, pode presidir a cerimónia. Os protestantes conservadores, tal como os católicos, proíbem o sacerdócio às mulheres.

               Concluo, portanto, que as posições derivam de interpretações teológicas feitas pelos homens e à sua medida. Jesus nada escreveu e quando os primeiros Evangelhos surgiram, entre 60 e 100 DC, os discípulos já estavam, na sua maioria mortos. O único que poderia estar, ainda, vivo era João. Quem conta um conto aumenta-lhe um ponto. Não há como ter certezas do que foi dito exatamente, para além de se dever ter em conta a época e a interpretação dos próprios apóstolos, pelo que são admissíveis diferentes aceções e elas existem. Creio que Jesus não se importuna com este assunto. Quer apenas que o homem, à Sua imagem e semelhança, seja bom e justo.

               Interrogo-me se não passa de receio da Igreja por ver posto em causa um patriarcado milenar. A avaliar pelos fiéis que se encontram na eucaristia, para além de ser gente mais velha, o público é maioritariamente feminino. A Igreja corre o risco de sacramentar apenas homens que exercerão o seu ministério para mulheres!

               A minha amiga Lurdes diz que é melhor não pensarmos nalgumas coisas, mas eu não consigo evitar. É mal que se me cola ao corpo.

               Isso ou fazer como quando tinha uns três ou quatro anos e os meus pais me levavam à missa. Consta que eu gostava de imitar o senhor padre em todos os gestos que ele fazia. Ainda hoje considero haver muita poesia nos rituais eucarísticos. Ora… O padre Luís era tomado pelo riso e via-se aflito para não se desmanchar, pelo que pediu à minha mãe para não me levar, porque eu o imitava em tudo e ele tinha de fazer um esforço para se não rir. Eu imagino que, para mim, o altar seria uma espécie de palco. A minha mãe, em casa, admoestou-me e disse-me que o padre Luís não me deixava mais ir à missa, porque eu o imitava e não podia ser. Muito lampeira e despeitada, atirei:

               - Ai é?! Então, diz-lhe que já não vou ser médica. Vou ser padre e também não o deixo ir à minha missa!

               Bem… Padre não sou e médica também não, mas púlpito não me falta. Na sala de aula, contrario Timóteo, porque ensino todos os dias. Até doutrina, quando tenho de dar o “Sermão de Santo António aos Peixes”, de Padre António Vieira.

Nina M.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sábado, 2 de maio de 2026

Crónica de Maus Costumes 466

 

Campeões

               Obrigada, presidente. Obrigada, mister Farioli. Obrigada, rapazes. Obrigada, anónimos, que no silêncio dos corredores mantêm a máquina a funcionar. Hoje, é dia de título. Já vivemos muitos, mas este é especial. É mais íntimo. Mais ferido. Mais nosso.

            Desde logo, a família portista andava ressacada. Três anos sem ganhar o título de campeões nacionais é muito para quem anda mal-habituado ou bem, dependendo da perspetiva. Depois, foi um ano de perdas para o clube. O presidente Jorge Nuno partiu a 15 de fevereiro de 2025. A despedida era previsível. Sabia-se da doença e do agravamento do seu estado de saúde. Mais tarde, e sem nada que o fizesse prever, a 5 de agosto de 2025, o clube perdeu um dos ídolos, uma das suas lendas, um dos jogadores que representa a mística do clube, o diretor desportivo do clube, na altura. Uma perda irreparável. Muito sentida. Muito chorada.

            A conjuntura não era favorável ao FCP. Vinha de uma época desastrosa. Não era o facto de não ganhar. Era a forma como perdia. Uma equipa esfrangalhada, com muitos problemas, um plantel com pouca qualidade e um treinador que, apesar de ser bom comunicador, veio a meio da época para não acrescentar nada. Não faltou vontade, mas faltou competência para fazer melhor. Não faltou suor nem entrega, mas faltou capacidade. Saiu-lhe um presente envenenado, porque não se faz omeletes sem ovos, mas talvez fosse possível ter-se feito um bocadinho mais.  

No futebol, como na vida, parece que, às vezes, todo o mal se junta, apesar dos esforços. A situação financeira do clube era igualmente periclitante. O FCP passou pela mudança de direção, pela oposição interna de alguns adeptos (ainda hoje existe). No momento, está em silêncio, porque o Porto se sagrou campeão, mas basta um jogo menos conseguido, ainda que o ganhe, que os fantasmas saltam à rua, põem o trabalho em causa e tentam desestabilizar, por mais que a maioria lhes sugira que se calem, porque não têm razão.

            A vontade era muita e a necessidade também, quer sob o ponto de vista desportivo quer sob o ponto de vista económico. Além do campeonato, o FCP garante o acesso direto à “Champions”. Numa época de reestruturação, não foi coisa pouca. Talvez poucos acreditassem que fosse possível, mas esta casa já provou tantas e tantas vezes que, aqui, não há impossíveis! Há uma crença profunda de que é possível vencer impossíveis. Não de forma espalhafatosa, mas com trabalho, empenho, entrega e rigor. Nem sempre se consegue, é verdade, mas que não seja por falta de querer.

            Pinto da Costa dizia que gostava de ver o clube campeão, porque para algumas pessoas, com vidas muito difíceis, era das poucas alegrias que tinham e que ele gostava dessa sensação, de contribuir para um momento de alegria. Evidentemente, para uns sorrirem, outros têm de entristecer. É a vida. Hoje, é a nossa vez de sorrir. O presidente dos presidentes, onde quer que esteja, sorri. Não pode ser de outra forma para quem fez deste clube a sua vida.

            O eterno Jorge Costa gostaria de estar aqui a comemorar, mas com jeitinho, está a erguer um copo de vinho e a cortar um salpicão. Que o diga o Domingos, que não bebia vinho, mas que nos almoços, ao lado do capitão, pedia o seu copinho. Podiam beber um copinho. O Bicho arranjava forma de beber dois. O dele e o do Paciência. O homem que tinha direito à sua latrina particular, no balneário, e onde ninguém se atrevia a sentar. O homem que durante os primeiros dez minutos moía a cabeça ao Ricardo Carvalho, porque dizia que ele demorava dez minutos a acordar e a entrar no jogo. O mesmo homem que zurzia a cabeça ao Quaresma e o chamava de cigano filho da tal, quando este perdia uma bola em sítio proibido, e o mandava correr atrás dela. O mesmo homem sobre quem Mourinho disse, quando perguntado sobre a equipa para a época seguinte, que seria o Jorge e mais dez. O mesmo Jorge que num jogo frente ao Belenenses e a perder ao intervalo, se fechou com os colegas e deixou o Mourinho à porta e disse o que havia a dizer. Na segunda parte, o FCP virou o jogo e o Jorge marcou.

            Estas histórias, amplamente conhecidas do universo portista, que gosta de as saber e de as ouvir, serão, com toda a certeza partilhadas. O Bicho era bicho dentro do campo e lá o deixava ficar, porque fora das quatro linhas, era um homem tranquilo e amistoso, segundo os que com ele privaram.

            Jorge Costa esteve com o plantel até ao momento da consagração. Todos queriam ganhar o título. Por eles, mas também pelo Bicho. Era imperioso.

            Parabéns ao justíssimo vencedor. A melhor equipa, a mais coesa e a mais consistente. Honra aos vencidos. Ninguém vence sozinho. Os adversários engrandecem as vitórias . O campeonato ainda mexe. A disputa pelo segundo lugar ferve.

Viva o FCP! Viva o presidente André Villas-Boas! Viva os nossos rapazes!

Hip-hip! Urra!

 

Nina M.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Desalento


Vivo uma caixa vazia
Amarrotada e velha
Desferida a golpes

Sobejam longos silêncios
A temperar a alma
A forjar a calma

Já houve sonho e esperança
Até amor
Onde sobram migalhas

Intrépidas solidões
Que insistem ficar
Um sorriso desmaiado

Porque o sol que nem aquece
Deitou-se noutros poentes
Sobre outras marés

sábado, 25 de abril de 2026

Crónica de Maus Costumes 465

 

Abril, hoje e sempre

            Passei a manhã em lides domésticas e enquanto cumpro com tarefas necessárias, mas infinitamente aborrecidas, vou ouvindo coisas que me tornam a tarefa mais suportável. Concentro-me na palavra e o trabalho pesa menos. Fui recuperar o Vencidos do Luís Osório, programa que gosto de ouvir, porque o jornalista, escritor e artista (o Luís faz um pouco de tudo) convida sempre portugueses muito interessantes. Pessoas que vale a pena conhecer.

            O convidado da semana passada tinha sido o tenente-coronel Vasco Lourenço, o homem que arquitetou o 25 de Abril, mas que se encontrava nos Açores, com uma transferência compulsiva ordenada por Marcelo Caetano como punição pela sua atividade conspirativa. Marcelo tinha razão. Vasco Lourenço conspirava. Foi uma das figuras mais carismáticas do Movimento das forças Armadas e o grande estratega do golpe militar que viria a derrubar a ditadura. Não fosse isto suficiente, aliado a Melo Antunes, foi um dos integrantes do “Grupo dos Nove”, uma ala moderada, a quem devemos que o país não tenha caído para uma deriva radical nem à esquerda e nem à direita. O seu posicionamento e atuação, talvez, tenha evitado uma guerra civil. É sempre bom ouvir quem conheceu o movimento por dentro.

            Ao ouvi-lo, consolido a ideia. Ler certos comentários sobre qualquer publicação que se faça sobre o 25 de Abril causa náuseas. Vasco Lourenço di-lo de forma serena e tranquila: são os efeitos da Democracia, que não é um regime perfeito, mas aquele que ainda é o melhor. Tem razão, naturalmente. E acrescenta que é preciso enfrentá-los sem medo, porque é com isso que eles contam. Confesso que há coisas contra as quais não consigo ficar calada, como seja o facto de haver gente tão… Nem sei que lhe hei de apodar… Gente tão sem memória ou intelectualmente desonesta que se põe a tecer loas ao modo de vida antes de Abril e tem a ousadia de tecer comparações inenarráveis. Conseguem irritar-me, verdadeiramente.

Tal como disse Vasco Lourenço, para essa gente, só encontro três explicações: ou são pessoas cruéis, no sentido de acreditarem e de validarem os princípios defendidos por semelhante regime, com todas as ignomínias que o compunham, ou são ignorantes e desconhecem os factos ou são verdadeiramente estúpidas e não têm capacidade para os compreender. Penso haver imensa gente a integrar os dois últimos grupos.

Como gosto de interagir com os autores de algumas publicações, há sempre alguém que se entende no direito de vir comentar o meu comentário. Se o fizer educadamente, ainda que diga disparates, ainda tolero, mas ter de aturar grunhos ignorantes e mal-educados, numa conversa que nem lhes era dirigida, é insuportável. Não me calam. É preciso enfrentar essa gente. É aborrecido, mas necessário.

            Não há paciência para os que querem ser donos de Abril.  Não há paciência para os que de Abril desdenham. Não há paciência para quem santifica toda a esquerda nem para quem a demoniza. Não há paciência para os que igualam os dois anos de PREC a 48 de ditadura, nem para os que têm memória seletiva e atacam uns movimentos reacionários, defendendo outros, quando ambos têm os mesmos males agarrados ao corpo.

            Abril foi o que de melhor aconteceu a este país, a madrugada esperada, “o dia inicial inteiro e limpo”, tal como escreveu Sophia. Isto é inquestionável. Nos anos que se seguiram, até à consolidação da Democracia, especialmente no tempo do PREC, houve momentos vergonhosos, cruéis e sangrentos, perpetrados quer por uma esquerda radicalizada, com alguma da gente que fez com que Abril fosse possível, mas que depois decidiu entrar por terrenos pantanosos, quer por uma direita extremada e inconsolável, que pretendia recuperar o poder que havia perdido.  O distinto “Grupo dos Nove” foi essencial para a preservação de um regime democrático moderado.

            Ver pessoas a defender “o meu bandido é melhor do que o teu” é absolutamente confrangedor. Depois, houve a necessidade de unificar e de fazer um país funcionar e de enterrar os machados de guerra e foram concedidos perdões a ambas as partes e até condecorações.

            O 25 de Abril foi uma enorme conquista e o melhor que aconteceu aos portugueses. O saldo é francamente positivo, mas houve danos causados também, feridas abertas, algumas por curar. É preciso encarar a realidade dos factos tais como eles aconteceram, sem omissões. Reconhecer que não há revolução sem vítimas, sem injustiças e sem erros. Eles aconteceram.

            Não há paciência, sobretudo, para quem transforma Abril numa trincheira partidária. A luta foi entre a Ditadura e a Democracia. Há esquerda e direita radicais, mas também há esquerda e direita democráticas. No fim, só estas últimas são necessárias e desejáveis, porquanto não impugnam a Liberdade, a substância da qual deveremos ser feitos.

 

Nina M.