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sábado, 21 de março de 2026

Crónica de Maus Costumes 460

 

A dor e o esquecimento

               Dei comigo a pensar em Fernando Pessoa e na sua necessidade de se refugiar na infância, mesmo que esta fosse literariamente recriada – a da sua poesia, para obliterar a sua dor de pensar.

Na verdade, ele teve um tio muito fanfarrão e bom contador de histórias que o acompanhou na viagem de navio para a África do Sul e o entreteve durante o percurso. O próprio Pessoa, ao que parece, gostava de pregar partidas. Certo dia, terá posto uns transeuntes à procura de uma moeda que lhe teria caído sem cair, mas para o poeta do “mito é o nada que é tudo”, não espanta que gostasse dessas brincadeiras. Bastará lembrar do simulacro do suicídio do mago britânico Alesteir Crowley, em que Pessoa esteve envolvido. Independentemente das razões que terão motivado a encenação, Pessoa ter-se-á divertido. Fala-se de golpe publicitário para o inglês vender os seus livros, já que andava mal de finanças; equaciona-se a iniciação de Pessoa na corrente esotérica de Crowley e até quem sugira uma cortina de fumo que terá permitido ao mago encontros de espião. Uma semana mais tarde, Crowley foi visto em Berlim e as investigações cessaram. Certo é que a infância surge como o paraíso perdido e irrecuperável, o tempo mítico da felicidade que não voltaria a viver.

Depois, surge-me o reino maravilhoso de Miguel Torga, encravado entre fragas nuas e inóspitas. Uma meninez de escassez e de miséria, de tempos difíceis e uma infância curta, visto que aos 13 anos embarcaria para o Brasil para trabalhar na fazenda do seu tio. Regressaria aos 18, com uma vida precoce marcada pelo trabalho. Quem lê a sua autobiografia romanceada, A Criação do Mundo, encontra, nas primeiras páginas, a nostalgia da infância, através da longa rememoração efetuada pelo narrador. Lobo Antunes, escritor cru e duro, não omite a ternura nas suas memórias de infância junto dos avós, nem Saramago, apesar da dor da injustiça social. As páginas dedicadas ao avô Jerónimo, o homem mais sábio que conheceu, apesar de analfabeto, comprovam-no. Por fim, basta analisarmos a nossa própria experiência. A infância surge sempre doce e distante da dor e quando a evocamos, se fôssemos filmados ou fotografados, ver-nos-iam com um sorriso aparvalhado de quem não pensa em coisa nenhuma, mas se encontra fora deste mundo.

Há uma explicação para a doçura nostálgica: o nosso cérebro tende a fazer com que as emoções negativas associadas a uma memória desapareçam mais rapidamente do que as positivas. É um mecanismo de autopreservação e de sobrevivência. Se nos lembrássemos de todas as dores ou medos infantis, o trauma seria paralisante. Precisamente por isto, a gente que passou por traumas terríveis na sua infância precisa de ajuda especializada para os superar. O esquecimento é, por isso, um bem. Organizamos as memórias de modo a criarmos uma narrativa onde somos os sobreviventes, em que os tempos difíceis realçam a nossa resiliência ou o carinho e proteção dos que amamos. Construímos a nossa própria narrativa adocicada.

Na idade adulta, o mecanismo continua a funcionar, com algumas nuances. O cérebro não apaga o facto, mas reduz substancialmente a carga negativa. Só por isso somos capazes de nos rirmos, no ano seguinte, de umas férias que tenham corrido muito mal. Manter a dor emocional viva consumir-nos-ia a energia mental e bloquear-nos-ia os passos. O nosso cérebro transforma os momentos maus em aprendizagem ou lições de vida e guarda, preferencialmente, os sucessos. No entanto, em casos de trauma severo, o cérebro mantém a memória negativa profundamente ativada e, por isso, há situações em que a doçura não nos abraça facilmente e a memória queima como uma casa em chamas.

Recuperemos, por isso, os momentos inocentes e puros da infância ou, em alternativa, banhemo-nos no rio Lima, que já foi confundido com o Letes pelas legiões romanas, desde que o comandante Décimo Júnio Bruto não esteja do outro lado da margem a chamar-nos pelo nome.

 

Nina M.

 

 

 

 

 

sexta-feira, 20 de março de 2026

Há tristezas que se sentam

Há tristezas que se sentam
À mesa
E dormem connosco
Na cama

Fazem-nos calos na alma
Entumescem-nos a carne

Para, ao acordar, sabermos
Que há vida em nós

sábado, 14 de março de 2026

Crónica de Maus Costumes 459

 

Memórias de um país distante

Assaltam-me memórias. Interrogo-me sobre as memórias que povoarão as novas gerações. Certamente distintas. Certamente importantes. Espero que igualmente lúcidas.

As minhas retratam um Portugal esquecido, já, algo bafiento e muito provinciano. Nem sabíamos que o éramos! A nossa visão de mundo era do tamanho do que os olhos alcançavam e do que a ingenuidade permitia, para o bem e para o mal. As minhas memórias não são cosmopolitas. Pertencem, ainda, a um mundo rural que já não encontro nem nas profundezas da ruralidade. Não porque os meus pais possuíssem terras, além do pequeno quintal que rodeava a casa. As tarefas agrícolas eram poucas e eu era-lhes poupada. Nunca gostei da sensação de secura que fica nas mãos depois de mexer na terra-as luvas são uma modernice- ou depois do manejo da enxada. Talvez haja quem não saiba que os homens cuspiam nas mãos e as esfregavam energicamente uma contra a outra para as humedecer e amolecer os calos, retirar-lhes a aspereza que sobrava da jorna. As únicas leiras que sirvo para talhar são as das palavras. Porém, não esqueço. O trabalho miúdo de apanhar o bago para a prensa, já em dias outonais, tantas vezes molhados, melancólicos e frios. Maldizia comigo os adultos que punham a catraiada a apanhar bagos. Que interesse haveria em fazer mais meia-dúzia de garrafas de vinho era o que não entendia. Se ainda fosse bom! A sua maior qualidade seria a ausência de aditivos e nem assim, porque o sulfato era sagrado. Uma zurrapa que dali resultava, mas que só quem já tinha passado mal poderia compreender a necessidade de evitar qualquer desperdício. Por isso, todo o bago se apanhava.

Ouço ao longe o aproximar do carro de bois. Não tínhamos bois. Eram do senhor Casimiro que fazia as terras do senhor Alão. Aproveitei a boleia uma ou duas vezes enquanto brincava com a suas netas, gaiatas mais ou menos da minha idade. Para lá o carro ia vazio e a canalha empoleirava-se numa algaraviada que acompanhava o solavanco das rodas sobre o alcatrão esburacado. Em simultâneo, ouço o tio Manel, acabado de chegar da França, a resmungar do estado do piso. Parece impossível que esses filhos – já perceberam o restante - não componham a estrada! Chega-se a Portugal e é um tam-tam-tam, tam-tam-tam! Depois, os bois sobre os sulcos do caminho de terra para chegar ao campo. Hora de apear. À vinda, o trajeto era feito a pé. O carro transportava ora o milho ora o pendão ora a erva. O que fosse. E eu trazia, por vezes, a brisa e a coceira de passar entre os carreiros das espigas ou dos feijões. Quando havia sede, a bica sobre o tanque grande era incansável e a água fresca. O calor talvez desse vontade de fazer do tanque piscina, mas ninguém o usava para esse fim. Não ia sempre para o campo. Às vezes, as raparigas lá podiam ficar a brincar em minha casa, mas se a jeira fosse mais longa que o habitual… Ala! Lá iam as moças contrafeitas. Era bem melhor brincar às casinhas ou ao elástico ou ao esconde-esconde.

A voz dos adultos torna-se clara e ouço o Sininho a contar e a rir-se que nem um perdido que o Severinho, seu irmão, lhe jurara a pés juntos ter ouvido o padre dizer na missa “o comunismo esteja convosco” em vez do habitual “o Senhor esteja convosco”. O irmão não acreditou, pois claro. Tal tirada não tinha qualquer nexo, ainda que o senhor padre não fosse propriamente escorreito. E lá lhe dizia para ele não dizer isso a ninguém. O Severinho, já com uma certa idade e com problemas de audição, chamava a mulher para confirmação. Olha lá, diz lá tu o que é que o padre disse, hoje, na missa. Ela, coitada, o mal da surdez deve-se-lhe ter pegado e confirmava: “o comunismo esteja convosco!”

O Sininho ria-se como um perdido, até às lágrimas, porque não achara meios de convencer o irmão, que não ia à missa com o padre. Cristão cumpridor das suas funções, sabendo da avareza do prelado, fazia questão de lhe pagar a côngrua no último dia de dezembro. O pároco era carne de pescoço e a velhice talvez o estivesse a tornar avarento ou apenas a agravar-lhe os sintomas. Havia paroquianos que não lhe atendiam aos caprichos que consideravam insustentáveis e um contratestemunho de fé. De modo que o Severinho jurava a pés juntos que se o padre passasse por ele na rua e lhe estendesse a mão para o cumprimentar, que lhe responderia: “Mão de porco só cozida!” O irmão bem tentava contemporizar e acalmar-lhe os ânimos, mas não havia meio. O mesmo Severinho veio, certa vez, regalado de uma tarde de passada na discoteca para celebrar qualquer data que não me recordo! Surdo como uma porta, a música aos brados não lhe fez impressão e dizia à boca cheia que tinha julgado mal aqueles lugares, mas que afinal se estava lá muito bem…

Eu ouvia estas e outras histórias, enquanto saboreava a broa que o sininho me dava, enquanto esperava com o meu pai que a mãe terminasse o serviço na Junta. A mulher tirou a carta, mas não conduzia. Entretinha-se à conversa com o Sininho, na mercearia. Eu sempre às espreita, porque, às vezes, lá calhava de passar por lá o Nero, o mendigo cordial, mas de quem eu fugia como o diabo da cruz.

Ouço o tossicar do Lino das Toiras que me ouve no caminho, de mão dada com a avó, a caminho da sua casa, e como o silêncio me era uma ideia estranha, nesse tempo, me perguntava, invariavelmente: “Já vais, minha papagaia?!” Ao Lino das Toiras entrou-lhe uma vaca telhado adentro, durante a noite. Foi um rebuliço. O meu avô e outros homens a pé. Atrás da vaca, talvez… Eu não dei por nada. No sono profundo, se um terramoto vier, ficarei soterrada.

Vem-me a voz da senhora Margarida, a imagem já não me é nítida. Vejo o vulto de preto, a subir as escaditas de pedra para casa. Mulher má com os próprios filhos e que maltratava o cão. Coitadinho do bicho. Nem nome tinha.  Preso à casota por um cadeado curto. Batia-lhe, por vezes. Só lhe dava caldo que o bicho não comia. Queria que comesse a batata do caldo. Aqueles olhos tristes do animal, a quem ela dizia, num tom raivoso, que era fidalgo. A senhora Margarida tinha uma fúria muito grande dentro de si que a inocência não permitia compreender. E nós, miúdos, a assistir àquilo remoídos… Raios partam a velha, má como as cobras! E a nós ainda nos deixava brincar na sua eira! Outros quaisquer eram corridos sem dó nem piedade. Lá nos devia achar educados… Aguentou-se numa velhice prolongada, mas nem os filhos lhe poupavam as palavras e apelidavam a mãe de ser muito mazinha. Era.

Estas pessoas poderiam ser personagens de um conto do Torga, o retrato de um Portugal distante e rude, longe dos centros urbanos que, ainda assim, não escapavam à pequenez de um país por se cumprir. Talvez sejamos a última geração com memórias semelhantes. Aquela em que, na escola primária (era assim chamada), as enfermeiras apareciam para vacinar a catraiada. Tudo em fila. Eu escapava. Felizmente, a minha mãe levava os filhos ao centro de saúde e poupava-nos à vergonha de deixar um pouco da nalga ao léu, à frente de todos, para levar com a seringa. Era isso e os comprimidos de flúor. A escola sempre foi pau para toda a colher!

Não sei que memórias guardará a juventude. Não serão mais as de um Portugal tão provinciano quanto o meu, mas que ainda assim, me faz sorrir!

 

Nina M.

 

 

 

 

terça-feira, 10 de março de 2026

Exílio

Há dias de exílio
Nortadas que tombam
Os corpos por terra
Dias de cicatrizes fechadas
Quem se é após a sobrevivência
A duros golpes
Não é mais quem se foi
Descobrir o lugar de pertença
Nos lugares e gentes
E saber-se não ser dali

Sobra o vazio por acúmulo
De feridas e dor
O embotamento
Um corpo fechado
A defender-se sem esbracejar
E no fim das penas
Nâo sem pesar
Resta ir

domingo, 8 de março de 2026

Manifesto

 Mulher!


Queriam-te submissa
Ousaste desobedecer

Queriam-te delicada
Ousaste a dureza

Queriam-te útil ao lar
Inventaste a Arte

Queriam-te a mais fiel
Ousaste a traição

Queriam-te contida
Ousaste a excentricidade

Queriam-te inteligência discreta
Derrubaste Academias

Quiseram-te tudo e o seu contrário
Só não te quiseram a ti!

Então...
Vieram as violências
As ignomínias
Força bruta de animais
Irados medrosos
Do que não podem controlar

Apanhaste
Sofreste
Morreste. Tantas vezes.
Uma e outra e mais outra.
Sobreviveste
Não podes calar!

sábado, 7 de março de 2026

Crónica de Maus Costumes 458

 

O despertar de um génio

As notícias desta semana trouxeram a morte de António Lobo Antunes. Nada que surpreendesse muito. Sabia-se que ele tinha uma doença neurodegenerativa. Nem os génios são poupados à demência. Na verdade, nos últimos tempos já não seria o Lobo Antunes. O corpo, sim, mas o ser estaria longe…

Sempre que falo de Lobo Antunes, lembro-me da sua tirada para o pai, que o foi acordar, farto da sua preguiça. Sua excelência não se punha a pé para ir para a faculdade e andou três anos sem pôr os pés num exame! Quando me enervo com o meu filho, lembro-me desta história, porém, o Lobo Antunes era um genial e o meu filho, um simples mortal como a maioria de nós. Irritado com o rompante do pai, Lobo Antunes pergunta-lhe:

- Que foi? Veio assistir ao despertar de um génio?

Lembrava este episódio consciente do seu descaramento e da ousadia próprias de uma juventude, dona de uma ignorância atrevida, mas não deixou de dizer, quando recebeu o prémio da SPA, que já não tinha oportunidade, mas que gostaria de ter dito à mãe que, afinal, é possível viver de livros. Aliás, que um médico do SNS se reforma com cerca de 2 500 euros e que ele ganha bem mais. Afinal, se continuasse médico é que teria de ir vender pensos rápidos para a rua! Tem a sua piada, sim. Os pais que lhe exigiram o curso de medicina, que depois acabou por fazer de uma assentada, primeiro porque a mãe o comprou com a carta de condução e em segundo, porque ele descobriu que se despachasse a coisa, ficava com as férias livres para poder escrever, acabaram por receber uma bofetada de luva branca. O destino do filho era mesmo ser um gigante da literatura. Quando assim é, nada há a fazer. O homem lia aos quatro anos! Aos cinco e aos seis escrevia “romances de duas páginas”, como ele mesmo afirmou!

Tenho pena que o Nobel nunca tenha chegado. Lobo Antunes teve a bênção e a maldição de nascer português! Seria bem merecido, como certamente para tantos outros escritores de países periféricos… A França tem dezasseis laureados, EUA, treze, Reino Unido, doze, Alemanha, nove, Suécia, oito, Espanha e Itália, seis cada, Polónia, cinco, Irlanda, quatro e Rússia /URSS, quatro. Em português, apenas um (José Saramago), tal como Egito, Nigéria e Japão! O facto de haver um único prémio em língua portuguesa é de uma injustiça tremenda! O Brasil tem bons escritores! Um Jorge Amado foi esquecido! Clarice Lispector, o moçambicano Mia Couto, entre outros. Houve contemplados na América latina, na língua espanhola: Gabriel García Márquez (colombiano), Pablo Neruda e Gabriela Mistral (chilenos), Mario Vargas Llosa (peruano). O uruguaio Eduardo Galeano foi esquecido, apesar do seu antiamericanismo e anticapitalismo, tal como o checo Milan Kundera, exilado em Paris, a quem nunca foi perdoado ter virado costas ao regime da ex-União Soviética.

O processo de seleção é complexo. Em cada ano, de setembro a janeiro, a Academia Sueca envia 600 a 700 formulários de indicação para pessoas ao redor do mundo: a Membros da própria Academia Sueca, a membros de outras academias ou sociedades literárias, a professores de literatura e linguística em universidades, ex-laureados com o prémio Nobel, presidentes de sociedades de autores. De fevereiro a abril, a Academia recebe as propostas e filtra cerca de 200 nomes para eliminar repetições e certificarem-se de que os candidatos se integram nos “critérios de excelência idealista” de Alfred Nobel. E a excelência idealista dará pano para mangas… Em Maio, os nomes ficarão reduzidos a cinco, aprovados por todos os dezoito membros da Academia Sueca. De junho a Agosto, os elementos da Academia têm de ler a obra completa dos cinco finalistas e a deliberação chega entre setembro e outubro. Em setembro, reúnem para debater o mérito de cada finalista e a votação é em outubro. O vencedor tem de receber mais da metade dos votos. Finalmente, o anúncio é feito numa quinta-feira de outubro, às 13horas. Todo este processo é envolto no mais absoluto sigilo. Há que admitir que o processo é longo e muito cuidado, mas não impede que injustiças sejam cometidas e que os países mais periféricos sejam mais esquecidos, como se observa pela lista. Percebemos que o processo é também politizado e que a interpretação do conceito de excelência idealista pedida por Alfred Nobel tem mudado ao longo do século. Seja como for, faltou mais um Nobel para Portugal. É caso para questionarmos se a obra de Lobo Antunes não será mais válida do que a de Bob Dylan, literariamente falando, por mais que as letras das suas canções abordem temas ligados à condição humana e tenham qualidade literária!

Lobo Antunes, o romancista polifónico, e do fluxo de consciência, que aborda temas como a memória, a solidão, a guerra colonial, enfim… faz desfilar a solidão radical do indivíduo, as suas máscaras e o que sobra do homem sem elas, a dor profunda e tentativa de colar os próprios cacos, um indivíduo a tentar não se dissolver no caos que é o mundo. Uma leitura densa e difícil, mas que nos confronta com os próprios demónios.

Lobo Antunes partiu sem o Nobel e eu acho profundamente injusto, para ele, para nós, um país pequeno capaz de produzir gigantes e, sobretudo, para a língua portuguesa.

Descanse em Paz, Lobo Antunes, e que Deus lhe faça a vontade e o deixe repousar entre Camões e Vasco da Gama, como escreveu numa das suas belíssimas crónicas e o deixe ter inúmeras conversas com os grandes amigos que foi perdendo (José Cardoso Pires, Vasco Pulido valente e Eduardo Lourenço, para além do irmão e pais, naturalmente). Frei Bento Domingues, ainda por cá se aguenta, apesar dos seus 91 anos. Rezará pelo amigo, mas não o visitará na tumba, já que lhe disse, certa altura, que nenhum morto se encontrava no cemitério.

Com tristeza, assistimos à partida de um génio com a esperança de que possa ser o despertar para outra coisa ainda e essa coisa é que é linda, para parafrasear Pessoa.

 

Nina M.

 

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Crónica de Maus Costumes 457

 

Amor maior

               O mundo anda louco, filha. O dia em que fizeste 15 anos fica marcado pelo ataque conjunto dos EUA e de Israel ao Irão. Obviamente, as retaliações não se fizeram esperar e as imagens de prédios em chamas, em vários países do Médio Oriente que os governantes iranianos considerarão aliados dos Estados Unidos da América, invadem os canais televisivos.

               No entanto, fazes 15 anos, Matilde e, hoje, nenhuma destas loucuras importa. Lembro-me da passagem de Camilo a propósito da sua heroína romântica, Teresa, em “Amor de Perdição” - Amava Simão uma sua vizinha, menina de quinze anos, rica herdeira, regularmente bonita e bem-nascida. Da janela do seu quarto é que ele a vira pela primeira vez, para amá-la sempre. Não ficara ela incólume da ferida que fizera no coração do vizinho: amou-o também, e com mais seriedade que a usual nos seus anos.

               Ora, minha filha, és uma rica herdeira, mas não uma herdeira rica, és mais do que regularmente bonita e que eu saiba, ainda nenhum Simão te cortejou à janela e, para já, chegas-me incólume ao lar. Espero que se prolongue esta benesse por mais uns anitos, porque o mundo é imenso e largo, por isso, há mais do que tempo para o conheceres.

               Não és uma herdeira rica, dizia, nem princesa, epíteto pelo qual nunca te tratei e o motivo é simples: quero-te uma linda plebeia, ciente da realidade que a circunda e das dificuldades que a vida sempre insiste em nos trazer. Porém, este realismo não precisa de ser cru. Pode e deve ser sempre acompanhado da esperança que nos faz mover. Movemo-nos com a fé de quem espera dias melhores, mesmo que os dias nos pareçam muito negros, de vez em quando. Assim, não és uma princesa a quem os súbditos, servem, obedecem e mimam. És uma jovem a preparar o teu futuro de mulher que sabe que é a única responsável por si mesma e, como tal, deve garantir a sua independência. Sei que será assim. És uma menina doce, mas determinada; uma menina meiga, mas que sabe dizer não, quando não quer algo e, dificilmente, te demovem. Uma menina que trabalha com brio para alcançar o que pretende e que tem algum pelo na venta.

               Foi um dia feliz para ti e foi bonito ver a tua alegria com o gesto do teu irmão. Não esperavas e foi o sinal de que, apesar das implicâncias de irmãos, ele está lá e tu importas-lhe. Foi um momento bonito, ver-te correr escada abaixo para me contares que o Rodrigo te presenteou. Nada me deixa mais feliz do que vos pressentir amigos e unidos. Assim deve ser. Assim é com a mãe e o pai e os tios de ambos os lados. 

               São 15 anos da minha pequena Matilde, cuja ânsia em conhecer o mundo fez com que viesse um mês mais cedo. Colocaram-te no meu regaço e tu, acabada de seres retirada de dentro de mim, ao seres pousada no meu colo, olhaste-me, curiosa, de olho arregalado, no teu nico de gente, de 48 centímetros. Eras uma réplica do teu irmão, mais pequenina e mais magrinha, os mesmos olhos despertos para abraçar o mundo. Uma viagem rápida que deixa a mãe muito saudosa dos momentos em que vos podia equilibrar em cima do meu peito e deixar-vos adormecer, assim, em ritmo compassado pelo bater dos corações.

És demasiado grande para que te possa deixar dormir sobre mim, agora, mas nunca o suficiente para que não caibas, ainda, todinha no meu coração. No dia 28 de fevereiro de 2011, nascia o meu segundo amor maior.

 

Nina M.