Entre o númeno e o caos
Sei
bem que vemos o mundo com a nossa lente, interpretamo-lo como somos e a nossa
bagagem é imensa. Os filósofos já no-lo explicaram há muito. Devemos a esses
pensadores tanta coisa que parece quase impossível descobrir algo que seja uma
novidade. Talvez não haja mesmo essa possibilidade. O que vier será um
acréscimo, uma nuance mais do que já foi deslindado.
Kant
mostrou que a nossa mente molda a nossa experiência do mundo. Separou o mundo
em númeno e fenómeno. O númeno seria o mundo em si, a exata realidade e o
fenómeno o mundo que conseguimos perceber e interpretar. Significa que o númeno
nunca é alcançado plenamente pelo Homem, porque este apreende a realidade a
partir do seu aparelho cognitivo. Depois de Kant, surge Fichte, da escola de
Jena e que foi mais longe, ainda. Para este, o mundo exterior, o númeno de Kant,
o não-ich ou não-eu para Fichte é uma espécie de espelho criado pela consciência humana para que
possamos lutar contra ele, superar obstáculos através da ação e do esforço e,
assim, alcançar a liberdade. Estavam lançados os primeiros alicerces do
Romantismo alemão.
Não abordei
Fichte na escola, mas ainda ouço a professora Celestina a explicar o númeno e o
fenómeno, citando a Crítica da Razão Pura.
Mais tarde,
Schopenhauer, partindo da base de Kant, afirma que o mundo exterior é uma
criação da nossa representação mental, ou seja, tudo quanto o Homem conhece é
uma imagem filtrada pela sua própria consciência.
Nietzsche irá
mais longe, ainda, e afirma mesmo que “não há factos, apenas interpretações”.
Hans-Georg Gadamer,
já no século XX, mostra que a nossa interpretação do mundo é um diálogo
constante entre o nosso contexto cultural, os nossos preconceitos, não no
sentido pejorativo, mas antes no sentido de “pré-compreensões”, a bagagem de
que somos feitos, afinal, e as novas experiências, interpretação construída
através da linguagem e da história.
Não admira,
portanto, que as opiniões sejam sempre como as cerejas. Na verdade, sobre o
mesmo facto é legítimo pensar-se que poderá haver tantas interpretações quanto
os indivíduos que sobre ele reflitam. Assim se explica que haja tanta
sensibilidade e perceções diversificadas em relação à situação aflitiva (já
estou a interpretar) que se vive na educação.
Tentei não embarcar
na indignação precoce, certamente motivada pela ansiedade legítima vivida pelos
colegas professores classificadores, nestes últimos tempos. Num primeiro
momento pensei com os meus botões que poderia estar a ocorrer algum excesso de
zelo, chamemos-lhe assim por parte de colegas. Aqui em casa há sempre dois que
querem tudo para ontem e qualquer coisa gera ansiedade e outros dois mais
tranquilos (um deles até em demasia) e que não gostam muito de antecipar
cenários dantescos. No entanto, à medida que o tempo ia passando, a situação
ia-se degradando e as opiniões convergindo.
Eu acredito nas
boas intenções do ministro Fernando Alexandre e no seu otimismo. Não me custa a
crer que ele imaginou ser perfeitamente possível implementar a digitalização
dos exames com celeridade e competência. Enganou-se. Os professores avisaram.
Têm anos de experiência e souberam prever o que poderia acontecer num processo
apressado e pouco acautelado. Tentaram avisar, mas não foram ouvidos. Talvez o
senhor ministro parta sempre da sua interpretação com base nos seus
preconceitos, levando-o a fazer afirmações que nem ao Diabo lembrariam.
É uma pena. Eu gostaria
mesmo que a nossa classe política compreendesse que o povo português seria
capaz de passar por cima de uma incompetência. Se formos honestos connosco,
verificaremos que somos, por vezes, incompetentes. Faz parte da condição
humana.
Já é mais
difícil perdoar a mentira descarada e um discurso falacioso em que se percebe
que nem o próprio ministro acredita na enxurrada de falácias que oferece
continuamente à comunicação social.
É uma pena. Quando se falha e se admite o
erro, pedindo um pouco de paciência para que se possa reparar o problema, os
cidadãos, mais ou menos contrafeitos, geralmente, concedem-na. Não obstante,
quando se começam a arranjar bodes expiatórios e fazer dos professores os
cordeiros pascais, quando toda a gente percebe a verdadeira origem das
dificuldades sentidas, a empatia torna-se difícil.
Senhor
ministro, não lhe fica bem responsabilizar as escolas, os professores e os
encarregados de educação. Espero que tenha compreendido que não pode mandar
digitalizar todos os exames no mesmo espaço. Independentemente de haver mais
gastos, precisa de mais equipas a trabalhar na digitalização, de preferência
sem enganos, e de uma plataforma que funcione de forma eficaz. Nada disto se
verificou e para cúmulo ainda se afixaram pautas incompletas, apenas para o
senhor ministro poder dizer que garantiu os prazos.
Vi duas alunas
em lágrimas pelo facto de o seu resultado ter sido: suspenso. Não se faz. Ou
todos têm acesso ou não tem nenhum! O senhor ministro conseguiu somente
incrementar a ansiedade dos que ainda aguardam uma classificação.
Nem professores
nem alunos mereciam semelhante salgalhada e falta de respeito. Mereciam
aplausos pela paciência que têm revelado. Peça desculpa ao país e agradeça aos
seus professores por terem sustentado a casa no meio de caos, ainda que lhes
tivesse tentado imputar uma culpa que não lhes cabe.
Desilusão será
a palavra a marcar este final de julho. Espero que tenha aprendido a lição.
Nina M.