Abril, hoje
e sempre
Passei a manhã em lides domésticas e
enquanto cumpro com tarefas necessárias, mas infinitamente aborrecidas, vou
ouvindo coisas que me tornam a tarefa mais suportável. Concentro-me na palavra
e o trabalho pesa menos. Fui recuperar o Vencidos do Luís Osório, programa que
gosto de ouvir, porque o jornalista, escritor e artista (o Luís faz um pouco de
tudo) convida sempre portugueses muito interessantes. Pessoas que vale a pena
conhecer.
O convidado da semana passada tinha
sido o tenente-coronel Vasco Lourenço, o homem que arquitetou o 25 de Abril,
mas que se encontrava nos Açores, com uma transferência compulsiva ordenada por
Marcelo Caetano como punição pela sua atividade conspirativa. Marcelo tinha
razão. Vasco Lourenço conspirava. Foi uma das figuras mais carismáticas do
Movimento das forças Armadas e o grande estratega do golpe militar que viria a
derrubar a ditadura. Não fosse isto suficiente, aliado a Melo Antunes, foi um
dos integrantes do “Grupo dos Nove”, uma ala moderada, a quem devemos que o
país não tenha caído para uma deriva radical nem à esquerda e nem à direita. O
seu posicionamento e atuação, talvez, tenha evitado uma guerra civil. É sempre
bom ouvir quem conheceu o movimento por dentro.
Ao ouvi-lo, consolido a ideia. Ler certos
comentários sobre qualquer publicação que se faça sobre o 25 de Abril causa
náuseas. Vasco Lourenço di-lo de forma serena e tranquila: são os efeitos da
Democracia, que não é um regime perfeito, mas aquele que ainda é o melhor. Tem
razão, naturalmente. E acrescenta que é preciso enfrentá-los sem medo, porque é
com isso que eles contam. Confesso que há coisas contra as quais não consigo
ficar calada, como seja o facto de haver gente tão… Nem sei que lhe hei de
apodar… Gente tão sem memória ou intelectualmente desonesta que se põe a tecer
loas ao modo de vida antes de Abril e tem a ousadia de tecer comparações
inenarráveis. Conseguem irritar-me, verdadeiramente.
Tal como disse Vasco Lourenço, para essa gente, só encontro
três explicações: ou são pessoas cruéis, no sentido de acreditarem e de
validarem os princípios defendidos por semelhante regime, com todas as ignomínias
que o compunham, ou são ignorantes e desconhecem os factos ou são
verdadeiramente estúpidas e não têm capacidade para os compreender. Penso haver
imensa gente a integrar os dois últimos grupos.
Como gosto de interagir com os autores de algumas
publicações, há sempre alguém que se entende no direito de vir comentar o meu
comentário. Se o fizer educadamente, ainda que diga disparates, ainda tolero,
mas ter de aturar grunhos ignorantes e mal-educados, numa conversa que nem lhes
era dirigida, é insuportável. Não me calam. É preciso enfrentar essa gente. É
aborrecido, mas necessário.
Não há paciência para os que querem
ser donos de Abril. Não há paciência para
os que de Abril desdenham. Não há paciência para quem santifica toda a esquerda
nem para quem a demoniza. Não há paciência para os que igualam os dois anos de
PREC a 48 de ditadura, nem para os que têm memória seletiva e atacam uns
movimentos reacionários, defendendo outros, quando ambos têm os mesmos males
agarrados ao corpo.
Abril foi o que de melhor aconteceu
a este país, a madrugada esperada, “o dia inicial inteiro e limpo”, tal como
escreveu Sophia. Isto é inquestionável. Nos anos que se seguiram, até à
consolidação da Democracia, especialmente no tempo do PREC, houve momentos
vergonhosos, cruéis e sangrentos, perpetrados quer por uma esquerda
radicalizada, com alguma da gente que fez com que Abril fosse possível, mas que
depois decidiu entrar por terrenos pantanosos, quer por uma direita extremada e
inconsolável, que pretendia recuperar o poder que havia perdido. O distinto “Grupo dos Nove” foi essencial
para a preservação de um regime democrático moderado.
Ver pessoas a defender “o meu
bandido é melhor do que o teu” é absolutamente confrangedor. Depois, houve a
necessidade de unificar e de fazer um país funcionar e de enterrar os machados
de guerra e foram concedidos perdões a ambas as partes e até condecorações.
O 25 de Abril foi uma enorme
conquista e o melhor que aconteceu aos portugueses. O saldo é francamente
positivo, mas houve danos causados também, feridas abertas, algumas por curar.
É preciso encarar a realidade dos factos tais como eles aconteceram, sem
omissões. Reconhecer que não há revolução sem vítimas, sem injustiças e sem
erros. Eles aconteceram.
Não há paciência, sobretudo, para
quem transforma Abril numa trincheira partidária. A luta foi entre a Ditadura e
a Democracia. Há esquerda e direita radicais, mas também há esquerda e direita
democráticas. No fim, só estas últimas são necessárias e desejáveis, porquanto
não impugnam a Liberdade, a substância da qual deveremos ser feitos.
Nina M.