A origem do mal
De onde
surge a maldade? Onde habita e como se decide manifestar? A educação e a
cultura deveriam bastar para a eliminar. Não basta.
Vivo sem aceitar. Não tenho a bem-querença de
Rousseau e entendo que o bem e o mal habitam o homem. A educação deveria fazer
com que a escolha do bem fosse uma evidência, mas olhar atentamente o mundo
arruína esta tese. Penso nos pais que têm filhos que fizeram a escolha do mal e
entristeço-me. Talvez nada me pesasse tanto. Talvez nada me fizesse sentir tão
absolutamente fracassada. No entanto, tenho a consciência de que a trajetória
de cada um é mais da sua responsabilidade do que da alheia. Filhos dos mesmos
pais, criados nas mesmas circunstâncias, reagem e crescem de modo diferente. Há
um caminho feito em solidão, apesar de todas as influências que possamos ter.
Não há nada
de mais comovente e importante quanto ser, genuinamente, boa pessoa. Conseguir
que o amor que nos habita vença a maldade para que na solidão de que todos
somos feitos possamos descansar.
Lembro-me de
ter sido má e de logo em seguida a culpa remoer-me até aos ossos. A avó Matilde
ainda tinha o tear, creio. Penso que estaria a batucar nele. Por alguma razão,
não pude fazer o que me apetecia (já não sei do que se tratava), mas a avó não
permitiu. Sei que conseguiu enfurecer-me muito. Subiu-me a ira ao rosto e sem
que me pudesse libertar da frustração, muito zangada, disse-lhe que deveria
cair e partir as duas pernas. Arrependi-me imediatamente a seguir, mas já
estava dito e a avó sempre fazia questão de nos lembrar que o silêncio era de
ouro.
Não me
lembro do que a avó me respondeu. Talvez tenha dito que não se desejava isso a
ninguém. Eu calei. Fundo. Envergonhada e demasiadamente perturbada para lhe
pedir desculpa, porém, ainda hoje me lembro do episódio.
A avó
Matilde, passados cinco minutos, já teria esquecido, mas eu não. Andei, depois,
à roda dela, sem me descoser, até perceber que as palavras que não deveria ter
dito foram esquecidas. Creio ter sido a única vez que me terá saído tal coisa à
minha avó e com vontade, naquele momento. No entanto, a mais ferida fui eu.
Este
episódio pueril e inocente serve, provavelmente, para comprovar que a maldade poderá
ferir quem a recebe, mas também quem a lança. A minha pequena maldade passou,
mas não explica o mundo. A ciência tenta. Segundo ela, o mal deve ser analisado
através de uma lente biopsicossocial.
Durante centenas de milhares de anos,
o hominídeo competiu por recursos: comida, território, parceiros. Aqueles que
eram capazes de usar a violência ou a trapaça para garantirem a sua
sobrevivência tinham mais hipóteses de passar os seus genes adiante.
Entretanto, o homem evoluiu para cooperar com os membros do seu grupo, mas
desenvolveu uma forte hostilidade contra o outro, visto como potencial ameaça.
Qualquer semelhança com os tempos atuais não é mera coincidência.
A cooperação, por sua vez, exige empatia, capacidade
de sentir a dor do outro. Para isso, a rede cerebral que inclui os neurónios-espelho,
o córtex cingulado anterior e a ínsula, tem de estar a funcionar bem. Qualquer
avaria gera defeito de fabrico. Assim, surge a psicopatia. O psicopata
compreende racionalmente o sofrimento alheio, mas é incapaz de o sentir. Aliado
a isto, convém que o córtex pré-frontal, o gerente dos “impulsos” esteja bem de
saúde para ser capaz de travar o ímpeto violento.
Finalmente, a perspetiva psicológica e social
comprova que pessoas comuns podem cometer atrocidades quando o outro é
desumanizado, reduzido a um rótulo, a um número. Durante o Holocausto, os
judeus não tinham nome. Eram um número tatuado na pele. Antes disso, foram
rotulados, o alvo a abater por serem os responsáveis da desgraça (há quem faça
o mesmo, atualmente, com os imigrantes). Torna-se mais fácil, ainda, quando há
diluição da responsabilidade e a obrigatoriedade de obediência. Foi assim que
Arendt olhou para Eichmann, no julgamento de Nuremberga. O Holocausto não teria
sido possível sem a cumplicidade e a indiferença de homens e mulheres, que
difundiram o terror e que, no exercício do poder, se limitaram a cumprir
ordens, incapazes de usarem a razão. Uma vez mais, qualquer semelhança com a
atualidade será mera coincidência.
A seleção
natural, que nos programou para sermos adaptáveis e não propriamente amorosos,
fez com que desenvolvêssemos duas ferramentas essenciais para a sobrevivência:
a cooperação e a competição e a linha que separa o comportamento ético da
crueldade é ténue e dependerá do equilíbrio biológico e também do contexto sociocultural
do indivíduo.
É imperioso
calibrar as ferramentas evolutivas da cooperação e da competição, com urgência.
Com toda a informação à disposição, é doloroso ver o homem, no século XXI,
reduzido à sua condição animalesca. Quem sabe, um dia, não se invente um
medicamento contra a maldade, que restabeleça os circuitos neuronais, para que
possamos afirmar, finalmente, que o paraíso são os outros.
Nina M.