Tragédia Ronaldo
O ser humano é hilariante. O mundo
está a ferro e fogo. Trump declara que já é tempo de a Ucrânia arranjar outro
presidente, preferencialmente, um fantoche de Putin para que ambos explorem o
território que não lhes pertence como entenderem. Quem sabe uma espécie de novo
Tratado de Tordesilhas, mais modesto, é certo, em que os dois dividem a Ucrânia
entre eles. A ex-URSS já fez um pacto desses, cujo rompimento culminou na
Segunda Guerra Mundial. Os alemães invadiram primeiro a Polónia, não cumpriram
o trato e a coisa azedou. Zangam-se as comadres e descobrem-se as verdades. Lá
andam ambos em negociatas, já que a guerra com o Irão nos lixou a vida e os
combustíveis estão a um preço absurdo. Os norte-americanos também pagam a fatura
e o alucinado presidente tem de resolver o problema que ele mesmo arranjou.
Para ele, negociar com o execrável Vladimir é normalíssimo. Normal, normal,
como diria o outro. Afinal, um ao lado do outro, no jogo do descubra as
diferenças, eliminadas as físicas e a maior inteligência do russo, em tudo o resto
se assemelham, representando ambos o que o ser humano tem de pior.
A França é
uma casa a arder. Para se ser presidente daquele país, atualmente, é preciso
uma coragem avassaladora. Quem será capaz de dizer àqueles cidadãos que o país
não tem dinheiro suficiente para tudo? A dívida pública francesa ultrapassou os
quatro triliões de dólares em junho, superando o tamanho da própria economia. O
país não gera superavit desde 1974, o que significa que esta situação é
insustentável. Neste momento, com a guerra na Europa e também no Médio Oriente,
as circunstâncias tornam-se, ainda, mais difíceis. Para piorar, os protestos
estudantis eclodiram por todo o país, motivados pela falta de professores e de
condições nas escolas. Na rua, a luta ultrapassa as fronteiras da educação e a
insatisfação faz-se sentir. A minha questão é a seguinte: num país há muito
habituado a uma proteção social de relevo, quem vai ter a coragem de dizer aos
franceses que não vai ser possível continuar assim e que eles terão,
necessariamente, de fazer sacrifícios? Notem bem, os franceses têm um salário mínimo
de cerca de 1 500 euros, líquidos e o médio ronda os 2 733 euros. O preço
da habitação é considerável. Em Paris, um T1 pode custar entre os 900 e os 1 200
euros mensais. Fora de Paris, o arrendamento fica um pouco mais barato. É
possível arranjar um T2 entre os 650 e os 850 euros mensais. Se compararmos com
a realidade portuguesa, observamos que o nosso salário mínimo é bastante
inferior ao deles. O salário mínimo de um francês corresponde ao salário médio
de um português, mas o preço da habitação é semelhante. O custo de vida é mais
elevado em França, mas atendendo ao maior salário, sobra-lhes mais dinheiro ao
final do mês. Apesar disto, percebe-se, pelas manifestações, que os franceses
não estão disponíveis para aceitar a contenção. Sem falar da idade da reforma,
que é bem mais baixa para o lado dos gauleses, aos 63 anos, quase. Nós já vamos
quase nos 67. Seria caso para dizer que com essas condições os portugueses
fariam milagres e os que diziam que se andava a viver acima da média, deveriam
envergonhar-se. Somos peritos em engenharia financeira e, então, agora, com o
preço dos combustíveis e dos bens alimentares, somos uns heróis! Nem à rua
saímos. Vivemos conforme podemos. Mesmo assim, não surge um político honesto
que nos diga, meus amigos, o orçamento é para gente pobre. Não é ambicioso nem
pode ser, porque não há dinheiro e dentro do dinheiro que se tem, fazem-se
opções políticas que não chegam a todo o lado. O cobertor é sempre curto. Eu
creio que os portugueses desconhecem outro meio de vida além da austeridade,
desde o início da derrocada do império, ainda no tempo do ilustre Camões.
Sabem lá os franceses! Eu acho que os
poderíamos ajudar! Estou tentadíssima a enviar-lhes o Passos Coelho e o Vítor Gaspar
e eles iriam ver se aguentam ou não! “Ai aguentam, aguentam!” — já dizia o
economista. E aguentámos. Que remédio. Sabem lá os franceses!
No meio deste bulício internacional,
nós fazemos como a atriz Susana Blazer, através da sua personagem Dolores
Cotovelo: encolhemos os ombros e apregoamos um saboroso “quero lá saber! É-me
indiferente!”
O que não nos é indiferente é a
novela Ronaldo, que a procissão ainda vai no adro e estes assuntos da bola,
neste país, são a coisa mais séria do mundo. Eu também tenho os meus momentos e
as minhas reflexões e dei comigo a pensar que Ronaldo daria um herói trágico maravilhoso.
Dei por mim a analisá-lo sob o ponto de vista literário. O moço ficou imediatamente
mais interessante. Temos a personagem nobre ou heroica. Apesar de não ser nem aristocrata
nem deus, pelos feitos futebolísticos realizados, assemelha-se a um semideus.
Já serve. Temos vários conflitos trágicos que surgem impostos pela força motriz
e implacável do destino e, também, motivados pelas paixões humanas. O desfecho
não o conhecemos, ainda, mas pode encaminhar-se para a catástrofe, tão
necessária à catarse coletiva.
O rapaz pobre sai em tenra idade da
sua ilha natal, qual Ítaca, e desafia os deuses, contrariando o destino que lhe
caberia. O jovem é a desmesura, uma improbabilidade e com uma vontade e orgulho
férreos cresce como jogador nos palcos internacionais, torna-se uma lenda. Desafia
as leis da natureza e recusa o envelhecimento (hybris). A personagem
ameaça a ordem do cosmos e potencia o caos. Não passa incólume aos
acontecimentos. Apesar das vitórias sucessivas, não se livra do pathos, do
sofrimento imposto pelo fado (anankê), fruto das suas ações e escolhas. Tal
como Ulisses, enfrentará outros ciclopes, outros monstros marinhos e sereias
encantadoras. A ação da personagem conduzi-la-á ao conflito (Ágon), por
outras palavras, a uma luta entre o bem e o mal. Durante o conflito, o semideus
terá o auxílio de deuses protetores, mas convém sempre lembrar que o destino e
a inevitabilidade estão acima deles. Nem estes o conseguem contrariar. Eis que
subitamente, surge a peripécia, o acontecimento imprevisível que altera o rumo
dos acontecimentos que compõem a ação dramática, sem que nada o fizesse
esperar. Infalivelmente, virá a anagnórise, o reconhecimento dos acontecimentos
trágicos, por meio de uma nova personagem de nome emblemático, qual presságio! Ei-lo:
Jesus, no seu esplendor!
Obviamente, a ação só poderia
culminar em catástrofe, resultante do confronto entre o desafio e o destino,
num crescendo de sofrimento, atingindo-se o clímax. O herói abandonou o estágio
em Copenhaga, em sofrimento desmesurado, e voa para junto da família,
regressando ao seu clube, em busca de uma catarse (Katharsis) redentora.
Resta-nos aguardar o último capítulo. Na reta final, o público, através do
terror e da piedade que a tragédia desencadeia, deve-se juntar ao seu herói, na
purificação das emoções e das paixões.
Até ao momento, ainda estamos no momento
do terror, veremos se a piedade e a catarse final serão possíveis.
Perante esta tragédia, quem precisa
de se preocupar com outras guerras?! Como diz a Dolores, não a mãe, a Dolores
Cotovelo: “Quero lá saber! É-me indiferente!”
Nina M.