A manhã aproximava-se lenta no seu despertar. O Sol desmaiado de dezembro erguia-se pálido e preguiçoso e o rubor habitual da Aurora tardava.
Levantei-me e descalça pisei o chão frio
que sempre me arrefecia os pés. Voltei a prometer calçar as pantufas. Sabia que
não o faria, contudo. Há muito deixara de contar as promessas que fazia a mim
mesma. Sempre as quebrava. Rememorava as vezes que me deixei humilhar, depois
de me ter jurado nunca mais o fazer. Assim, o chinelo de quarto era mais um
lembrete do que um propósito. De qualquer modo, o ar gélido que se sentia na
madrugada permitia-me sentir a realidade. Transpassava-me a carne até se alojar
na alma.
Cumpri o alívio que o corpo me exigia,
espreitei pela pequena janela da casa de banho e a luminosidade ainda fraca da
manhã lembrou-me outro dezembro. O dia das poucas promessas que conseguira
cumprir. Corria o ano de 1978. Tinha 30 anos, a pele lisa e firme, as mãos sem
as manchas do tempo, o olhar cheio de esperanças por realizar. Tinha sido numa
manhã como esta, de dezembro, fria e de sol esmaecido que se me fizera luz.
Não me sujeitaria mais as expectativas
alheias e cumpriria o meu destino. Casada há 7 anos, os filhos não surgiram.
Sentia no olhar alheio a reprovação do ventre seco, árido como a areia do
deserto. Se me soubessem! Talvez tivessem sabido! Nunca fora eu. A prova são os
três filhos que vieram mais tarde.
A autoridade do marido era a lei da casa e
se ele me assegurava que responsabilidade era minha, só eu poderia ser solo e
estéril e inóspito. Nunca o homem falharia na missão de propagação da espécie.
Eu era a inútil que o destino tinha determinado ao marido educadíssimo, gentil
e perfeito. As suas palavras eram mil agulhas finas a cravarem-se-me na pele.
As suas ironias feriam-me mortalmente. O olhar de desprezo que me lançava
quando pressentia que os meus olhos se detinham numa montra de roupa de criança
era devastador. Sempre o mesmo comentário seco:
— quem não tem carro não precisa de
garagem.
Fingia não ouvir e fingia não sentir.
Normalizava o comentário cruel que me diminuía e que, aos poucos, me destruía.
A cada remoque, a vontade de sair tomava conta dos meus músculos que se
enrijeciam. Com o tempo, o meu rosto tornou-se sério e o meu sorriso gentil e
fácil, que tanto o cativara, desaparecera.
Tinha, no entanto, um bom marido —
diziam-me — até me permitia trabalhar!
Uma mulher sem filhos precisava de ocupar
o seu tempo, pelo menos fosse útil à sociedade, já que era terra árida como
esposa. Esta era a sua justificação. Não podia, porém, esquecer-me das minhas
obrigações domésticas. Poder trabalhar era um luxo que me era oferecido e que
eu não deveria desperdiçar. Eu era exemplar: excelente profissional, excelente
dona da casa, perfeccionista. Sabia que ele não tolerava a desorganização e
numa casa coabitada por dois adultos, a manutenção da limpeza não era difícil,
mas os espaços deveriam estar imaculados, se me quisesse poupar os gritos que
me atingiam como pedras de que a minha inutilidade se estendia à mais simples
tarefa doméstica e que competia a qualquer mulher.
A minha epifania não se revelou
repentinamente. Foi um processo longo durante o qual a rebelião interior se foi
tornando mais forte. A leitura de O Segundo Sexo foi uma pedrada no
charco. Não se leem novecentas e muitas páginas num ápice e nenhuma
mulher permanece a mesma após a leitura de Beauvoir. Seguir-se-ia outra Simone,
a Veil. Tinha de encontrar os subterfúgios mais imaginativos para conseguir
esconder os livros que arranjara clandestinamente. Felizmente, como mulher
semieducada da época, não tocava piano, mas sabia falar francês. Lia-os na
língua original, em livros algo amarrotados e já gastos, passados de mão em
mão, por um clube feminista pecaminoso, rebelde e clandestino. O livro
circulava numa pasta de arquivo opaca e fechada. Visto de fora, seria apenas
documentação de trabalho.
Era secretária num escritório de advogados
e aproveitava a hora de almoço, que passava no local, para ler. Às vezes,
inventava ligeiros atrasos ao final do dia, por força do excesso de trabalho,
para poder ler. Sabia que nesse dia, em casa, teria de lidar com a frustração
do meu atraso, mas pontualmente arriscava. Paulatinamente, as palavras de
Simone foram ressoando e criando uma voz interior que se tornou questionadora.
Desafiava os limites impostos e a decência. Inicialmente, corava ao ler
determinadas passagens, depois, sorria e sentia um calor penetrar-me interiormente,
invadindo-me o alegria plena que desconhecia.
«Ninguém nasce mulher: torna-se mulher.»
«O drama da mulher reside nesta
confluência entre a reivindicação essencial de todo o sujeito, que se afirma
sempre como o essencial, e as exigências de uma situação que a constitui como
inessencial.»
«A representação do mundo, como o próprio
mundo, é obra dos homens; eles descrevem-no a partir do seu próprio ponto de
vista, que confundem com a verdade absoluta.»
«O casal livre não é uma utopia; para que
exista, basta que a mulher seja educada e viva no mesmo mundo que o homem,
partilhando com ele os mesmos deveres e os mesmos direitos.»
Eu descobria, paulatinamente, a construção
do feminino e a alteridade, a falta de reciprocidade na relação entre os sexos,
o privilégio masculino desvelado, o direito à autonomia e à liberdade. Eu
descobria-me como ser autónomo, responsável por mim, pleno, um ser igual em
direitos e deveres ao seu cônjuge e a qualquer outro homem.
Quando a luz interna se instala jamais é
possível desativá-la. Assim sucedeu. À medida que ia mastigando devagar e
fazendo a digestão lenta da autora, quebrava em mim, grilhão a grilhão a
corrente que me prendia. Subitamente, em mim, só cabia a liberdade.
Num final de tarde, daqueles em que o
expediente aperta, atrevi-me a consultar a Constituição de 1976. Nova. Dois
anos de existência. Quase imaculada. A lei não muda a mentalidade, no imediato,
mas a minha tinha vindo a fazer a sua metamorfose.
Esbarrei com o Princípio
Geral
da Igualdade
(Artigo 13.º): «Ninguém pode ser
privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento
de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de
origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação
económica ou condição social.»
Os meus olhos detiveram-se por um largo
minuto na palavra sexo. Sorri. Depois, veio o direito de contrair casamento e
dissolvê-lo (Artigo 36.º, n.º 1 e n.º 2): «Todos têm o direito de constituir
família e de contrair casamento em condições de plena igualdade.» «A lei regula
os requisitos e os efeitos do casamento e da sua dissolução, por morte ou
divórcio, independentemente da forma de celebração.»
Cheguei a casa, tarde, nessa noite. Não
fiz o jantar. Passei numa churrasqueira, aviei um frango de churrasco que sabia
não constituir as delícias do paladar exigente do marido, umas batatas fritas e
uma salada. Concedi-me o direito de ser displicente. Uma vez. Pus a mesa entre
reclamações, lamentos e insultos embrulhados em lançarotes de ironia:
— Nada me compraz tanto quanto deliciar as
minhas papilas gustativas com o cuidado de uma refeição bem confecionada pela
minha mulher… Tão dócil e dedicada.
Desta vez respondi num tom cortante e
áspero:
— Não me apeteceu cozinhar.
Senti-lhe a surpresa no latejar das
têmporas, mas nada mais acrescentou.
Na manhã seguinte, liguei para o escritório a dar conta de uma
indisposição. Fiz uma mala com os meus pertences. Saí para não voltar. As
próximas notícias que ele receberia, seriam enviadas a partir do escritório de
Miguel Veiga, a solicitar o divórcio.
Nina M.