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sábado, 1 de agosto de 2026

Crónica de Maus Costumes 479

 

A Tasca do Zequinha

               A portugalidade tem algumas características pavorosas e outras absolutamente divinas!

            Por estes dias, numa passeata pelo Alto Douro Vinhateiro, paisagem única de montanhas enfeitadas com folhas de videira que preenchem as cepas enfileiradas, de onde saltam já os cachos de uvas generosos, ainda que o bago esteja verde. Precisam do calor, do sol de agosto para amadurecer. Em setembro, já ali, as costumadas vindimas começarão.

            Hoje, há tratores a percorrer os socalcos da vinha, mas antigamente, era tudo à força do braço. Um trabalho pesado em que homens e mulheres eram enfiados em barracões, pavilhões mal-amanhados, onde pernoitavam enquanto a jeira da vindima perdurasse. Alguns por força da proximidade física atreviam-se a intimidades, quando o corpo precisava de desafogar cansaços e vontades. Basta ler o romance de Torga para compreendermos a dureza do trabalho sazonal, mas como diz o título de um dos livros do meu amigo Luís Altério: “Quem dos bagos extrai vinho é bom homem”.

            Quando passo nesta paisagem seminatural e semi-humana, penso sempre nos homens e mulheres que nela trabalham arduamente, no Torga, que deixou o sacrifício e o sofrimento deles nas páginas do seu romance e no fabuloso título que o Altério arranjou para um dos seus contos e que intitulou o livro.

            Pernoitei por lá (obrigada, mano, pelo magnífico presente de aniversário), literalmente no meio do vinhedo, não em barracões, mas numa casinha de xisto cheia de charme. Barriga vazia não dorme e tivemos de ir procurar alimento. Foi assim que chegámos à Tasca do Zequinha. Em Mesão Frio, na sua rua central, a que desce até aos paços do concelho, numa casa antiga, vê-se uma corredor estreito, de porta aberta, com balcão, barril de cerveja, vinho, e tudo quanto um tasco tem direito. Homens à porta, outros de barriga encostada ao balcão. Mais dentro, numa sala do rés-do chão, outro indivíduo que comia calmamente e com satisfação os carapauzinhos que havia pedido. Silencioso. Nenhuma palavra ousaria estragar o manjar ou se interporia entre ele e o petisco.

Umas escadas estreitas e velhas indicavam a subida para o piso superior. Chega o Zequinha, pressupus.

— Quantos vão ser? — pergunta ao grupo da frente.

Sem esperar resposta conta cinco.

— Ora… Mesinha para cinco, certo?

Fez o mesmo com a restante clientela e acrescenta:

— Vão aguardar aqui que eu já chamo.

Voltou a subir, rapidamente. Ouvem-se mesas a arrastar… Depois de algum tempo, grita do alto da escada:

— O grupo dos cinco já pode subir!

Acompanhou-os diligentemente e, depois, fez o mesmo para todos os clientes. Ninguém tinha feito reservas para o tasco. Subimos.

O andar superior era, literalmente, uma casa. A sala de uma habitação, com duas rosáceas de gesso no teto de onde saíam uns candeeiros do tempo da avó. Um aparador alto cheio de cacarecos, fotografias e pedaços de toalha de papel ou de guardanapos escritos colados na parede, a lembrar um memorial. Numa das paredes, um azulejo com uma passagem de S. Mateus — Jesus disse: vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos e eu vos aliviarei. Efetivamente, assim é. Alivia o cansaço e permite que nos sentemos e alivia-nos a fome. Automaticamente pensei com os meus botões que era bom que a frase não fosse outra, a da Divina Comédia, de Dante: Abandonai toda a esperança, vós que entrais.

Aquilo não era uma tasca. Era a casa da avó, onde se vai almoçar ou jantar e não desilude. Uma mesa de alemães. Aguardavam o repasto. Chega a travessa de arroz de tomate malandrinho seguida de uma outra de carapauzinho frito. Ficam estáticos a olhar. Não sabiam como comer e perguntam isso mesmo ao dono do estabelecimento que, pasme-se, num bom inglês, lhe diz que se usar faca e garfo tinha de abrir pela lateral e exemplificou, mas os portugueses comem mesmo à mão. É mais fácil e melhor. Os alemães ficaram incrédulos. A senhora boquiaberta continuou de talher a respeitar a etiqueta e o marido ia retirando as lascas à mão que metia gulosamente na boca.

Eu já sorria, deliciada. Vi a lista e quando chegou a minha vez de pedir, disse que queria os carapauzinhos fritos para mostrar à estrangeirada e sem peneiras como se comem um ror deles num instantinho. Sou perita nisso. É com o carapauzinho e com a petinga. Em casa conto-os, porque se se distraem muito, enquanto comem quatro, eu já comi oito!

Chegou o jantar. Comi à portuguesa que está na avó e não na tasca. Com as duas mãos, a agarrar o rabo com a esquerda e a cabeça com a direita, fui arrancando as lascas estaladiças e saborosas. A alemã a olhar pasmada e a sorrir, tal como o marido. Nos entretantos, segue uma garfada de arroz malandro, com tomate a saber a horta.

— Very good! — diziam.

Quiseram saber o nome do peixe. O Zequinha esclareceu e a piscar o olho pergunta-nos que tal o petisco? É uma maravilha, não é?

— É, sim. Só nunca me passou pela cabeça vir comer carapauzinho frito a Mesão Frio.

— Olhe, teve sorte! Hoje, olhei para eles e lembrei-me!

— Rica lembrança!

Sorrimos ambos. Pagámos modestamente, com entradas de pão, azeitona e azeite e uma bola de carne, cortesia da casa. Tudo acompanhado por um jarrinho de tinto da casa, obviamente.

Nina M.

P.S. A habitual rubrica encerra para descanso de pessoal durante o mês de agosto. Agradecemos a compreensão.

 

 

 

 

 

 

sábado, 25 de julho de 2026

Crónica de Maus Costumes 478

 

Um abraço terno

 A capacidade de nos enternecermos aquece-nos. Olhar exaustivamente para o mundo é desencorajador. A paz entre os homens é uma miragem, as notícias que nos chegam são todas más. O mal gera interesse e cria audiência. O mundo transformado em espetáculo de misérias. Talvez o ser humano precise de ver as cicatrizes expostas nos outros para suportar as suas próprias, para se tolerar e conseguir viver consigo, porque queira ou não será sempre a sua mais persistente companhia.

Assim, nesta realidade desoladora e triste, a capacidade de nos enternecermos prova que ainda vivemos, que ainda resiste um último pingo de humanidade em nós. Talvez ainda tenhamos salvação.

Esta semana, ao passar por casa dos meus pais, os vizinhos que tinham saído para uma breve caminhada, estavam à conversa ao portão. Há muito não nos cruzávamos e eles lamentaram isso mesmo. Ainda no carro, de cabeça baixa a separar uns papéis de que iria precisar, sinto um vulto parado, a olhar-me. Olhei para o vidro. A Senhora Glória aguardava pacientemente que a visse e decidisse falar-lhe, quem sabe sair. Arrumei as coisas, desapertei o cinto e abri a porta para a cumprimentar.

— Ó Sónia! Há tanto tempo que te não via!

Verdade. Há muito tempo. Cumprimentei-a. Assim que me baixo ligeiramente, para lhe dar dois beijinhos, ela dá-me um forte abraço. Daqueles que demoram com um sorriso rasgado, enquanto garantia ter gostado de me ver. Segurei-lhe as mãos. Perguntei como tem passado.

Entretanto, veio o marido. O mesmo lamento. A ausência. Não me viam há muito. Cumprimentei-o também. Começou, imediatamente, a falar-me do quadro de demência da esposa, das dificuldades que tem para a amparar, por ter já oitenta e quatro anos.

 — Ela não quer ir para o lar de dia…

 A senhora Glória a acompanhar a conversa e a mexer a cabeça para ambos os lados.

— Não quero. Não conheço as pessoas. Não fui habituada a andar nesses ambientes. Fui criada aqui, assim…

— Foi criada em casa e no campo, não é? Vida de muito trabalho.

— Pois foi. Agora, que podíamos estar tão bem…

As reticências não falaram da vida de pobreza do casal com as suas seis filhas. Ela a trabalhar na lavoura com o pai, que fabricava uma quinta, de onde saía boa parte do alimento. O marido marceneiro. Uma vida de sacrifício, num casebre fraco. Perderam uma filha levada por um tumor cerebral aos catorze anos. Era cerca de dois anos mais velha do que eu. À medida que as raparigas foram trabalhar para contribuir para a casa, a vida deles foi melhorando. Arranjaram a casinha. Lá me fez ir a casa dela buscar uma cabaça e uns ovos caseiros e queria que trouxesse cebolas. Agradeci. Não as posso comer nem usar na comida. Agradeci. Veio a curgete em substituição.

Eu a lembrar-me do tempo de gaiata, em que passava as tardes com as filhas dela, a brincar. Às vezes, acompanhava-as para o campo. A senhora Glória, coitada, que sabia que eu gostava da broa de milho (ainda gosto), a oferecer-me uma fatia ao lanche, que eu preferia ao trigo ou à bolacha Maria. Lembro-me das batatas cozidas que comia na casa dela, regadas com azeite e uma pontinha de vinho tinto a servir de vinagre. Na verdade, servia, que aquele vinho tinto verde, carrascão, era amargo como trovisco. E eu, que obrigava a Glória, a minha prima, a andar com o prato dos leõezinhos na bouça em frente, no penedo grande, enquanto me enfiava goela abaixo a batata cozida esmagada com peixe ou carne, já fria, comia com gosto em casa da vizinha do pouco que tinham, do caldo e das batatas. A sorte deles é que era fraca comedora.

A minha mãe incrédula a perguntar-se como era possível semelhante façanha. E para compensar, sabendo das dificuldades, lá lhes levava uma mercearia para os compensar.

Ambos felizes por me darem a abóbora. A alegria vem-lhes de um lugar mais fundo, do simples gesto natural de os cumprimentar com dois beijos e um abraço.  São pessoas que cultivam alguma reverência perante aqueles que consideram, de alguma forma, estar num patamar superior, devido às condições económicas. Sentem-se neste modo de os cumprimentar tratados como iguais. Cumprimento-os como cumprimentaria uma pessoa da família ou uma amiga. Este gesto, para mim tão trivial e sinal de educação, para eles, um afago, um sentir que importam. Enterneci-me e uma alegria singela invadiu-me. Senti alguma culpa por nunca me ter lembrado de os visitar.

— Esta mulher consome-me — dizia-me o senhor José. No outro dia cismou que eu estava com outra mulher na cama!

Soltei uma risada. Achei delicioso! Ela, meio envergonhada, acrescenta:

— As figuras que uma pessoa se sujeita a fazer nesta idade… Eu estava a dormir-

— E sonhou que estava por aí outra mulher, não foi? De repente, acordou e estremunhada pareceu-lhe ver alguém.

— Foi, respondeu aliviada.

— Olhe, deixe lá, senhora Glória, uma pessoa também não tem culpa dos sonhos! Não os escolhemos. Importa que depois acordou e a única mulher da casa era a senhora.

— Pois era. Ó Zé, então, não vamos à Pedreira?

— Ela ainda não andou, hoje. Ia levá-la a caminhar, mas já é tarde e ela anda tão devagar que não chego antes das sete e meia (19h30).

— Leve-a só até à oficina dos irmãos Ferreira e volte para trás.

— É, Zé. Vamos só até à oficina e voltamos.

Soube que já não consegue cozinhar. Não quer. Passa o dia entre o deitar-se na cama e levantar-se. Fala com o pai que já morreu há muito tempo. Fala com os mortos que vê.

— Fala com os mortos todos — diz o marido — mas não se lembra da filha.

— Ai não, não lembra! Lembro, lembro – apressou-se a dizer.

A demência, nesse dia, foi menos traiçoeira. Conheceu-me bem e deu-me um abraço apertado como quem sabe que tem dias em que a memória lhe rouba o ser.

 

Nina M.

 

 

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Desajuste

Não pertenço.

Nunca pertenci totalmente a nada.

Nunca coube por completo em lugar algum.


​Às vezes, sobra um espaço imenso:

miúdo perdido dentro das calças 

de um pai.

Às vezes, encolho-me.

O espaço é exíguo e escuro,

mesmo se é dia ao ar livre.

De volta à casa, a mim,

estico os braços, deito-me,

estico-me toda.


Quase a sentir cãibras na barriga

 das pernas.

Tensionar o corpo por segundos

para expirar de seguida.

Um profundo suspiro

até encostar as costelas aos pulmões.

Sinto a realidade do corpo.

O espaço onde me caibo.


sábado, 18 de julho de 2026

Crónica de Maus Costumes 477

 

       Entre o númeno e o caos

               Sei bem que vemos o mundo com a nossa lente, interpretamo-lo como somos e a nossa bagagem é imensa. Os filósofos já no-lo explicaram há muito. Devemos a esses pensadores tanta coisa que parece quase impossível descobrir algo que seja uma novidade. Talvez não haja mesmo essa possibilidade. O que vier será um acréscimo, uma nuance mais do que já foi deslindado.

               Kant mostrou que a nossa mente molda a nossa experiência do mundo. Separou o mundo em númeno e fenómeno. O númeno seria o mundo em si, a exata realidade e o fenómeno o mundo que conseguimos perceber e interpretar. Significa que o númeno nunca é alcançado plenamente pelo Homem, porque este apreende a realidade a partir do seu aparelho cognitivo. Depois de Kant, surge Fichte, da escola de Jena e que foi mais longe, ainda. Para este, o mundo exterior, o númeno de Kant, o não-ich ou não-eu para Fichte é uma espécie de espelho  criado pela consciência humana para que possamos lutar contra ele, superar obstáculos através da ação e do esforço e, assim, alcançar a liberdade. Estavam lançados os primeiros alicerces do Romantismo alemão.  

Não abordei Fichte na escola, mas ainda ouço a professora Celestina a explicar o númeno e o fenómeno, citando a Crítica da Razão Pura.

Mais tarde, Schopenhauer, partindo da base de Kant, afirma que o mundo exterior é uma criação da nossa representação mental, ou seja, tudo quanto o Homem conhece é uma imagem filtrada pela sua própria consciência.

Nietzsche irá mais longe, ainda, e afirma mesmo que “não há factos, apenas interpretações”.

Hans-Georg Gadamer, já no século XX, mostra que a nossa interpretação do mundo é um diálogo constante entre o nosso contexto cultural, os nossos preconceitos, não no sentido pejorativo, mas antes no sentido de “pré-compreensões”, a bagagem de que somos feitos, afinal, e as novas experiências, interpretação construída através da linguagem e da história.

Não admira, portanto, que as opiniões sejam sempre como as cerejas. Na verdade, sobre o mesmo facto é legítimo pensar-se que poderá haver tantas interpretações quanto os indivíduos que sobre ele reflitam. Assim se explica que haja tanta sensibilidade e perceções diversificadas em relação à situação aflitiva (já estou a interpretar) que se vive na educação.

Tentei não embarcar na indignação precoce, certamente motivada pela ansiedade legítima vivida pelos colegas professores classificadores, nestes últimos tempos. Num primeiro momento pensei com os meus botões que poderia estar a ocorrer algum excesso de zelo, chamemos-lhe assim por parte de colegas. Aqui em casa há sempre dois que querem tudo para ontem e qualquer coisa gera ansiedade e outros dois mais tranquilos (um deles até em demasia) e que não gostam muito de antecipar cenários dantescos. No entanto, à medida que o tempo ia passando, a situação ia-se degradando e as opiniões convergindo.

Eu acredito nas boas intenções do ministro Fernando Alexandre e no seu otimismo. Não me custa a crer que ele imaginou ser perfeitamente possível implementar a digitalização dos exames com celeridade e competência. Enganou-se. Os professores avisaram. Têm anos de experiência e souberam prever o que poderia acontecer num processo apressado e pouco acautelado. Tentaram avisar, mas não foram ouvidos. Talvez o senhor ministro parta sempre da sua interpretação com base nos seus preconceitos, levando-o a fazer afirmações que nem ao Diabo lembrariam.

É uma pena. Eu gostaria mesmo que a nossa classe política compreendesse que o povo português seria capaz de passar por cima de uma incompetência. Se formos honestos connosco, verificaremos que somos, por vezes, incompetentes. Faz parte da condição humana.

Já é mais difícil perdoar a mentira descarada e um discurso falacioso em que se percebe que nem o próprio ministro acredita na enxurrada de falácias que oferece continuamente à comunicação social.

 É uma pena. Quando se falha e se admite o erro, pedindo um pouco de paciência para que se possa reparar o problema, os cidadãos, mais ou menos contrafeitos, geralmente, concedem-na. Não obstante, quando se começam a arranjar bodes expiatórios e fazer dos professores os cordeiros pascais, quando toda a gente percebe a verdadeira origem das dificuldades sentidas, a empatia torna-se difícil.

Senhor ministro, não lhe fica bem responsabilizar as escolas, os professores e os encarregados de educação. Espero que tenha compreendido que não pode mandar digitalizar todos os exames no mesmo espaço. Independentemente de haver mais gastos, precisa de mais equipas a trabalhar na digitalização, de preferência sem enganos, e de uma plataforma que funcione de forma eficaz. Nada disto se verificou e para cúmulo ainda se afixaram pautas incompletas, apenas para o senhor ministro poder dizer que garantiu os prazos.

Vi duas alunas em lágrimas pelo facto de o seu resultado ter sido: suspenso. Não se faz. Ou todos têm acesso ou não tem nenhum! O senhor ministro conseguiu somente incrementar a ansiedade dos que ainda aguardam uma classificação.

Nem professores nem alunos mereciam semelhante salgalhada e falta de respeito. Mereciam aplausos pela paciência que têm revelado. Peça desculpa ao país e agradeça aos seus professores por terem sustentado a casa no meio de caos, ainda que lhes tivesse tentado imputar uma culpa que não lhes cabe.

Desilusão será a palavra a marcar este final de julho. Espero que tenha aprendido a lição.

 

Nina M.

 

 

 

 

sábado, 11 de julho de 2026

Crónica de Maus Costumes 476

 

A filha da stôra

               Os miúdos, em determinadas ocasiões, são fantásticos. Tal como nós, não todos os dias, não sempre, mas têm lampejos de sabedoria e momentos deliciosos.

            Quando cheguei a casa, disse à minha pequena:

— Matilde, no ginásio, o Francisco, o monitor, veio inteirar-se do meu treino e perguntou-me se eu era a mãe da Matilde. Disse-lhe que sim.

— Esse é aquele alto e magro. Já sei quem é – respondeu. Ahah! Vês?! Ali, não sou a filha da stôra. Tu é que és a mãe da Matilde.

— Com muito gosto — disse eu.

A minha pequena (já não é assim tão pequena, mas há de ser sempre ela a pequena) detesta ser a filha da stôra, pelo que tem o hábito de me fugir carro fora para tentar não ser vista comigo ao chegar à escola, mesmo que já tenha percebido que não adianta muito. Ignora-me nos corredores, se calharmos de cruzar, o que raramente acontece, pelo facto de a escola ser tão grande. Finge não me ver e eu faço o mesmo para não a envergonhar e, depois, por provocação, já em casa, pergunto-lhe se posso voltar a ser a mãe dela.

Na verdade, compreendo-a. Também não gostava muito de ser a irmã do Zico. Quer dizer, nada contra o facto imutável de sermos irmãos, mas tal como acontece com a miúda, ser a irmã do Zico anulava-me um bocadinho o reconhecimento da minha pessoa. No entanto, era inevitável, dada a popularidade dele, pelo que me sobrava ser reconhecida como a irmã. Ele conhecido da escola inteira; eu quase anónima. Assim me mantenho, na minha cidade, uma quase anónima, graças a Deus e amém!

Ser quase um estranho forasteiro tem enormes vantagens. Cultivo um bocadinho esse anonimato. Não me veem em cafés ou outros espaços sociais, salvo em eventos culturais, quando há a oportunidade.

A minha miúda é um pouco mais solta. Sempre gostei mais de pequenos grupos, onde se consiga sentir a pertença e nem sempre acontece. Ela está sempre disposta a sair com os amigos e gosta de ser a Matilde, de modo que ser a “filha da stôra” é cortarem-lhe a sua identidade e a possibilidade de ser quem realmente é: tão diferente de mim e tão melhor do que eu em quase tudo!

Havemos de resolver isso, filha.

Um dia destes, tive cá em casa uma das suas grandes amigas — com essas é às três de uma vez e detestam que se diga as gémeas! Vou porém, fazê-lo, para não identificar a qual delas me refiro. Às vezes, vêm as três; outras, só uma de cada vez. Gostam de vir à vez para não roubarem a atenção umas às outras. São umas ariscas engraçadas e que gosto de ter por cá. Abraçam-me e falam-me das saudades de vir cá a casa e afirmam gostar muito de estar connosco. Respondo, de coração cheio, que são sempre muito bem-vindas e que também gosto de as receber.

Decide, então, a gémea contar-me que na nova escola os colegas são muito “betinhos”, ricos e cheios de mania. Diz-me com ar muito indignado:

— Ó Sónia! Imagina que no outro dia, um deles  me disse que sabia que havia gente pobre, assim, aqueles que só vão de férias para o Algarve! Eu fiquei a olhar para ele… Pensei: será que esta gente não tem televisão?! Eu nem disse nada!

Soltou-se-me uma gargalhada franca e lembrei-me, imediatamente do Caco Antibes do Sai de Baixo: “Detesto pobre!” O que me ri! Depois, disse-lhe: deverias ter respondido que os verdadeiramente pobres não se podem dar ao luxo de ir para o Algarve nem para lado nenhum, até porque o Algarve está pela hora da morte.

A miúda concordou. Ficava mais caro ir para o Algarve do que certos destinos no estrangeiro. Ainda mais me ri quando me conta que o sujeito teve um blusão de prenda de uma marca caríssima, que tinha custado mil euros e ela nesse dia, tinha levado um blusão já menos novo e dizia:  “e eu… Fogo! A olhar para o meu…”

Respondi, imediatamente: o teu que te deixava quentinha de igual forma, que é o que importa. Também tenho um dessa marca do teu e gosto bem dele. Sabes, isso não interessa para nada. Valemos pelo que somos e não pelo que temos ou ostentamos. Ainda por cima, quando é feito dessa forma exibicionista, não é bonito. Não há nada de mal em poder comprar essas coisas, mas se acharem que são melhores do que os outros que as não podem ter, enganam-se. A soberbia não é propriamente admirável.

Os olhos sorriram-se-lhe. Deve ter cogitado: “pensas como nós.” Uso o plural, porque os pais das meninas em questão são muito bem formados e têm feito um belo trabalho. Elas são extremamente educadas, sensíveis e generosas, mas têm um sentido de justiça e um poder de argumentação assinalável e não se deixam intimidar. Dizem o que pensam.

Rio-me sempre muito quando as tenho comigo. Adoram a Matilde. Adoram estar cá e nós gostamos de as ter. Sobretudo, porque para elas, a Matilde não é filha da stôra. É só a filha da Sónia.

 

Nina M.

 

 

 

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Eros

Num cerimonial nosso,
Repetido a cada manhã,
Mias-me junto à porta,
À espera do maná.

Saciada a fome urgente,
Em voltas em meia-lua,
Saltitas roças-te todo
Nas minhas pernas nuas.

Por vício ou ritual,
Olhas-me com olhos doces,
De um azul sem igual,
Grato pelo que te trouxe.

Mimas-me com a cauda,
A cabeça e nariz frio,
Numa dança matinal
Com a qual sempre rio.

sábado, 4 de julho de 2026

Crónica de Maus Costumes 475

 

Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar

            O verso central de “Cantata da paz”, de Sophia de Mello Breyner Andresen, que denuncia as injustiças e apela às consciências permanecerá atualíssimo enquanto houver humanidade.

            Como saberão, lembro que Sophia era católica progressista, voz ativa contra a ditadura, juntamente com o marido Francisco Sousa Tavares, homem dotado de grande coragem. Sophia, essa mulher aristocrática, com semblante de deusa grega, não lhe ficava atrás. O poema referido foi criado para ser declamado numa vigília, na Capela do Rato, em Lisboa, como protesto contra a guerra colonial e um apelo à liberdade. Uma denúncia da fome, da injustiça, da guerra, com referências a Hiroshima — onde a carne das crianças se transforma em cinza — a África e ao Vietname. Uma chamada de atenção para uma época em que se vivia um “pecado organizado”.

            Aconselho a sua leitura ou melhor, aconselho a sua audição. O poema foi musicado pelo Francisco Fanhais, sacerdote progressista, influenciado pelo Bispo D. António Ferreira Gomes e pelas músicas de Zeca Afonso, que ouvia à revelia no seminário. Facilmente o encontrareis na Internet. Acabei de o ouvir. Fazei o mesmo e percebereis que o podemos cantar hoje porque, infelizmente, não perdeu a sua atualidade.

            O Homem é uma besta e as atrocidades continuam a existir. Continuamos a viver numa época de pecado organizado, em que todos sabemos quem são os grandes pecadores, que continuam a beneficiar da clemência e absoluta absolvição de outros líderes. Uns porque pertencem ao clã do pecado organizado e outros porque lhes falta a coragem de se oporem veementemente aos dislates, com enorme receio das consequências nefastas que tal ousadia implicaria, em termos económicos, para as suas nações.

            O mundo segue, assim, numa realidade feia e inaceitável, mas em que todos fingem. Uns fingem que não são responsáveis; outros fingem-se de vítimas; outros fingem não saber; outros fingem acreditar no que nunca acreditaram. Enfim, transformam a vida e os destinos dos povos numa enorme peça de teatro, onde cada um interpreta o seu papel o melhor que souber para que o pecado organizado se perpetue com a complacência de todos, incluindo a nossa.

            Nós, a arraia-miúda, encolhe os ombros numa resignação de quem já desistiu, de quem entende nada poder resolver e, portanto, vale mais não se inquietar muito. Ricardo Reis tinha razão: sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo. E assim vivemos, com as nossas preocupações, agora, com o Mundial, o calor que abunda, o pensamento nas férias, o trabalho que ainda é preciso cumprir… Distraímo-nos com o quotidiano comezinho, tantas vezes entediante e vazio. Não nos sobra tempo para olharmos para o lado. Afinal, o que se poderia fazer? As manifestações não adiantam de nada! Marcam uma posição, mas no dia seguinte, tudo permanece imutável.

Imagino, na minha inocência, um dia em que o mundo parasse por completo. Um dia em que ninguém saísse para trabalhar e jurasse assim continuar até que os responsáveis pelas vilanias erguessem as bandeiras brancas, em sinal de rendição e de redenção. Se Saramago fosse vivo, talvez aproveitasse a ideia e lhe desse forma de romance. Começaria assim: No dia seguinte, ninguém trabalhou. As alfaias agrícolas não saíram dos celeiros, os cafés não abriram. As escolas fecharam. Os hospitais colocaram um letreiro que dizia volto já, as esquadras estavam vazias e as indústrias paradas. Só os parques, as praias e os rios se povoavam com a leveza dos risos. Havia, porém, um local em cada país onde o desespero se fazia sentir: o parlamento ou o centro do poder.

            O resto da história podereis imaginar.

            Talvez os conflitos terminassem de uma vez, talvez os governantes de cada país começassem, finalmente, a governar para a população e não contra ela e até, quem sabe, os professores conseguissem voltar a exames escorreitos e sem enganos para classificar, sob o sol tórrido de julho!

            Talvez o senhor ministro da educação viesse, finalmente, reconhecer o erro e pedir desculpa ao país. Não dói assim tanto reconhecer um erro. Aliás, é a melhor forma de desarmar o outro: a assunção da culpa ou da responsabilidade. Talvez viesse dizer que na segunda fase se entregaria os exames em papel aos classificadores. Talvez os pais se preocupassem mais com os filhos. Talvez se pudesse continuar a acreditar na palavra de ministro.

 

Nina M.

sábado, 27 de junho de 2026

Crónica de Maus Costumes 474

 

Herói, vilão e espelho

               Poderia falar da catástrofe terrível que aconteceu na Venezuela e, no meio do caos, do recém-nascido de dezoito dias e da sua mãe que foram salvos. Uma graça, uma sorte, um acaso, mas não um milagre, porque seria Deus tão discriminador, que salva uns e condena outros? É esse o motivo que nos obriga à humildade de, perante um revés na vida, um problema grave, nunca questionarmos: porquê eu? Atrevo-me a dizer que a pergunta certa seria: porque não eu? Eu não sou mais importante do que o meu semelhante para a sociedade e os dois não somos mais do que um ponto obscuro na imensidão do universo. Nada há mais de tão real, de tão verdadeiro, mas em simultâneo, tão libertador.

            Poderia ir por aí. Não vou. Poderia ir pelo tumulto que se instalou uma vez mais na educação, nos aproveitamentos políticos feitos, no deitar gasolina numa casa já em chamas, mas a verdade é que o fogo foi posto pelo próprio Ministério. Mais uma digitalização imbecil, o ridículo de nos pôr a pintar bolinhas tornou-se ainda mais absurdo. Um sistema que é suposto agilizar, cedeu perante a tempestade de exames. Dou voltas à cabeça e nunca compreendo as razões para se mexer no que ainda vai funcionando neste país. Também não vou por aí nem pelo aperto que os russos começam a sentir.

            Excetuando o primeiro tópico, que me comove, que me emociona e enluta, e do último que me irrita, porque toda a guerra é uma imbecilidade, do intermédio não quero saber. Demasiado cansada destes filmes, da incompetência misturada com o histerismo de colegas que, perante um cenário caótico, ainda o ampliam, transformando-o numa cena apocalíptica. Quem tiver acesso a grupos de professores e dois dedos de testa perceberá a que me refiro. Bolas! Precisa-se de alguma serenidade e não de gente ainda mais ansiosa à beira de um ataque de nervos, a pôr todos os outros em polvorosa e à beira de um ataque de pânico, também. Evidentemente, a situação é grave, mas não é por se gritar muito uns com os outros que vai melhorar. Calma. Serenidade. Bom senso. Obviamente, os prazos para classificação de exames serão alargados e os miúdos não podem ser prejudicados. Obviamente, sobra sempre para os professores. É um facto. No entanto, criar mais caos, agora, nada resolve. Aguardem tranquilamente e quem arranjou o sarilho descalce a bota.

            Não vou por aí. Sobra-me um tema que polariza emoções como poucos: Cristiano Ronaldo. Há quem o endeuse e quem o demonize. A meu favor, e esta é uma qualidade sempre a meu favor, o meu portismo, que neste caso me torna insuspeita. Não idolatro o Ronaldo, mas admiro o seu profissionalismo e a sua determinação, reconhecendo, porém, que como qualquer ser humano, tem as suas falhas e tem direito a elas e às suas contradições como qualquer um de nós.

            Ronaldo é um vencedor. Não se fez sozinho, porque ninguém se faz sozinho, mas soube aproveitar todas as oportunidades que lhe foram oferecidas, com muito esforço, trabalho e também sofrimento. Não é fácil para uma criança pequena, de uma localidade, neste caso, situada numa ilha no meio do Atlântico, vir para a capital sozinho, sofrer com a ausência dos pais que só poderia ver de vez em quando. Um miúdo a quem faltou quase tudo. Não me espanto, por isso, que agora resvale um pouco para a ostentação. Quem nunca teve nada e agora pode ter tudo quanto o dinheiro pode comprar é natural que se deslumbre. Não aprecio propriamente essa maneira de estar. Há muitos outros exemplos de jogadores portugueses absolutamente extraordinários e dos melhores do mundo, com imensa visibilidade: Vitinha, Nuno Mendes e João Neves, por exemplo, que são muito mais recatados. O Ronaldo e a sua Georgina aproximam-se do universo das Kardashians. Vivem da imagem e para a imagem. Se o Ronaldo fosse apenas isto, obteria o meu respeito enquanto profissional, mas não a minha admiração. Ele consegue ser extremamente vaidoso e arrogante, mas também humilde, determinado e abnegado no seu ofício. É o jogador que raramente recusa uma fotografia com um petiz, que lhes faz festas, que pega neles ao colo, que lhes acena e sorri. Ao que parece, também é capaz de gestos solidários e altruístas e proporciona um nível de vida impensável a todos os seus familiares. Pode-se pensar que mal seria, mas na verdade, não é obrigado a isso.

            Na atualidade, o Ronaldo, como jogador, já não é o mesmo. É menos rápido, tem menos força e tornou-se num avançado mais estático. Creio que o próprio Ronaldo reconhecerá isso, mas compete ao treinador e apenas a este tomar a decisão de o pôr ou não a jogar, de o deixar ou não os noventa minutos em campo, de o considerar ou não um ativo precioso para a equipa. Pelos vistos, assim o considera. Acho, por isso, tão ofensivo que se culpe o Ronaldo por todos os desaires quanto se lhe dê os louros absolutos de uma vitória, porque o futebol é um coletivo. Sempre foi e sempre será. De modo que o empate do primeiro jogo não pode ser imputado ao Cristiano quando uma equipa falhou em toda a linha. Não é justo.

            Reconhecer isto não significa que ele tenha sempre lugar cativo na equipa ou que não possa sair se e quando o treinador entender, mediante a sua estratégia de jogo. Perante esta decisão, caso a haja, não compete ao Ronaldo fazer birra nem pressões, como já aconteceu anteriormente. A última palavra será sempre do treinador.

            O Cristiano irrita muita gente porque não encena o papel de bom moço e de profissional humilde. O Vitinha diz: “Não gosto de dizer que sou o melhor do mundo, porque há mais dois ou três jogadores muito bons, também.” Ao ouvir isto, nós sorrimos e batemos palmas. Gostamos da humildade. O Cristiano apregoava aos sete ventos que era o melhor do mundo. Em muitas épocas foi mesmo e é inquestionável que é um galáctico que extrapola o futebol. Fora do recinto de jogo, só comparável ao fenómeno David Beckham. Muita publicidade e mulheres aos pés de ambos. Em relação a este último, lembro-me sempre de uma tirada de uma colega que não posso aqui reproduzir para não cometer uma inconfidência.

            O Cristiano irrita muita gente porque nos retira as desculpas que arranjamos para os nossos pequenos fracassos. Ele contrariou o destino e, ao fazê-lo, mostra que é possível a realização com trabalho árduo. Também é preciso alguma sorte, mas esta não dispensa o empenho. A verdade é que poucos possuem a sua determinação e a sua obsessão. Ele é o homem que tem mais do que um euromilhões e continua a trabalhar como um louco, quando a maioria de nós se aposentaria. Isto pode ser visto como uma qualidade ou como um defeito, mas ninguém espere que ele diga não lhe apetecer jogar.

            Cristiano Ronaldo é tudo isto: humilde e arrogante, simples e vaidoso, solidário e egoísta, homem de família e ícone de sedução, autor de marcos históricos individuais e coletivos.

            Não aplaudo todas as suas opções de vida nem todas as suas escolhas, mas nada tenho a ver com isso. Cristiano é profundamente humano, tal como eu e tu, cheio de erros e de defeitos, mas também com as suas virtudes.

            Ronaldo é um herói e um vilão e apesar do golo monumental, do meio da rua, que marcou ao meu Futebol Clube do Porto, no Dragão, envergando as cores do seu Manchester United, não consigo não gostar dele nem não sentir orgulho por ser português, ainda que o tenha maldito dessa vez.

            Ele aguenta as críticas justas e injustas. São o seu combustível. Gostaria que nós, portugueses, e por extensão o Ronaldo, fôssemos todos muito felizes neste campeonato do mundo. Só para ver se o rapaz pode pendurar as chuteiras como campeão do mundo pela seleção, caso lhe apeteça.

 

Nina M.

 

 

 

sábado, 20 de junho de 2026

Crónica de Maus Costumes 473

 

O que nos fica dos dias

               Entre dias preenchidos que temos, há bocadinhos que nos ficam a temperar a alma. Junho é o mês da feira do livro da cidade, talvez a sua atividade cultural maior. Ontem, com Hugo Van Der Ding, o espaço encheu para o ouvir falar e hoje, também, Luísa Sobral foi contemplada com uma bela plateia e com uma conversa bem conduzida, que soube partir do livro, sem se perder em grandes detalhes biográficos. A Luísa é boa conversadora e, quando assim é, a tarefa do moderador torna-se um pouco mais fácil.

Tive, hoje, o privilégio de estar na apresentação do livro de uma querida amiga que teve o trabalho de recolher o testemunho e as histórias dos anciãos de Frazão. Memórias que seriam perdidas se a Lurdes Martins não se interessasse genuinamente pelos pedaços de gente, de tradições e de costumes. Partiu à descoberta e encontrou modos de vida num tempo cinzento e difícil. Memórias de tempos de miséria e de fome, revividos com emoção, nostalgia e saudade. Já sabemos que a memória tende a colecionar o que lhe faz bem, de modo que foi com comoção que muitos ouviram e contaram as histórias que lhes pertencem e que definem um pouco o que são hoje.

Guardo a felicidade autêntica da plateia a ouvir a autora desvendar um pouco dos mistérios que se encontram nas páginas dos livros, a ânsia com que o compraram, provavelmente, cheios de pressa para ler as narrativas que a Lurdes compilou, tendo o cuidado de registar a voz de cada um, as expressões populares já caídas em desuso. Testemunhos de enorme valor documental, que retratam uma época.

À noite, fui ouvir a Luísa Sobral. A conversa girou em torno do seu romance “Nem todas as árvores morrem de pé”.  Eu não o li, de modo que não posso ter qualquer opinião. No entanto, saber que foi apresentado e que obteve o aval de Maria do Rosário Pedreira para publicação é um belíssimo sinal.

De tudo quanto a Luísa foi desvendando, houve algo que não passa despercebido a uma mulher, o facto de abordar o tema da maternidade nos seus diferentes modos e homenagear todas as mães dos filhos por nascer. É um tema sobre o qual pouco se fala.

Já li, certa altura, um texto de uma mãe a lamentar-se da falta de empatia para com o luto de um filho que não chegou a ser. É um assunto delicado e que deve ser tratado com cautela. As perdas do embrião ou do feto exigem um luto que necessariamente tem de ser feito e um luto de uma mãe é perene. Haverá uma tendência para o minimizar, por se tratar de uma fase precoce, no entanto, quando a gravidez é desejada, a mulher torna-se mãe quando a descobre, portanto, é possível que para ela tenha havido a perda de um filho e não a perda de um amontoado de células. A mãe do texto que li lamentava a falta de compreensão pelo seu luto, a quase exigência de rápida recuperação como se os nossos sentimentos funcionassem mediante o simples acionar dos botões de ligar e desligar.

Não é assim. Quem perdeu sabe que perdeu e não esquece. Talvez lhe imagine um rosto e um nome que lhe pertencem. Talvez lhe imaginem a vida que poderia ter tido.

Lembro-me de, na minha segunda gravidez, numas análises de rotina, ao fazer a ficha, a funcionária me fazer responder a um inquérito e perguntar em voz alta, audível para toda a plateia: “quantos abortos já teve?”

Nenhum – foi a minha resposta. Soergueu a cabeça em sinal de espanto. Voltei a repetir: “nenhum, felizmente.”

Senti-me, de algum modo, agredida pela banalização de um assunto tão íntimo, mesmo que não tivesse passado pelo processo. Não é pergunta que se apregoe, assim, em tom elevado, no meio de uma sala cheia.

Imagino a dor das mães que já passaram pela experiência e algumas mais do que uma vez.

É preciso respeitar o tempo, as mazelas, os lutos, os sofrimentos alheios, mesmo que nos pareçam exagerados. Sente quem passa pelas vivências. Sentir com a imaginação é fundamental e garante a empatia, mas ainda assim, estará longe da tristeza que invade aquelas que enfrentam essas dificuldades. Efetivamente, curar as dores alheias é sempre muito mais fácil.

 

Nina M.

 

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Beijo no umbral

Tudo era intenso, assim,
Como o instante que precede
O beijo roubado contra o umbral

Mãos que acariciam o cabelo
E outras enlaçam a cintura
Enquanto o beijo se faz e se desfaz

Volta a ser beijo novamente
Esse instante sem ar
De estertor e desejo

Tudo era intenso, assim,
Num beijo desejado contra o umbral
E contra mim

terça-feira, 16 de junho de 2026

Submersão

Cruzei a tempestade
Enfrentei ventos e marés
Nuvens escuras e trovões

Perdi-me na agitação das vagas
E como casco leve submergi
A matar a sede com água salgada

Quase afoguei os pulmões
Na imensidão da vaga
Mas na crista da onda

Inteira e só
Devolvi-me
O naufrágio não me varou

sábado, 13 de junho de 2026

Crónica de Maus de Costumes 472

 

Brisa sobre a Terra

               Faz anos que nasci. Faz anos que nasceu o meu filho primogénito. A minha melhor prenda de aniversário e que será sempre insuperável.

            Agradeço todas as mensagens que me foram endereçadas. Algumas delas com palavras gentis e carinhosas. Gente de quem gosto e que tenho a felicidade de gostarem de mim. De me mimarem com palavras e de me criarem a ilusão de que a minha existência importa.

            Na verdade, eu ser ou não ser importa bem menos para o universo do que o bater das asas da borboleta da teoria do caos. Importaria para a família mais chegada e pouco mais. Mesmo esses teriam de aprender a viver com a ausência porque a vida não para.

            Razão tinha a avó Matilde, que quando sabia de alguma mulher grávida e lhe perguntavam o nome do bebé, ela adiantava-se à mãe e respondia lesta: “escusas cá na terra, não eras cá preciso”. Ficava o nome posto. Esta sentença ilustra bem a nossa pequenez, a nossa insignificância num universo imenso.

            Quando me ocorrem estas memórias, como lampejos que me assaltam, percebo claramente Saramago quando dizia que o homem mais sábio que conheceu era analfabeto, referindo-se ao seu avô Jerónimo.

            Efetivamente, os nossos avoengos, apesar da parca instrução, revelavam uma forte intuição filosófica sem o saberem. Sem sequer imaginarem a existência de uma área do saber chamada Filosofia.

            A frase da avó Matilde contém a verdade inexpugnável da pequenez, da fragilidade e da insignificância do homem. Nenhum de nós faria falta à natureza. Não sei se a minha avó pensaria nestas questões ou se lhe saía por chiste, mas intuía a grande questão existencial: para que existimos e porquê se cá éramos escusados?!

Está também contido na sentença o pasmo de existir, o milagre que se operou para que fosse exatamente eu e que esse eu tivesse originado um tu, preciso e concreto, neste mesmo dia.

Espanta-me a quantidade de mensagens e penso em como posso conhecer tanta gente. Pessoas que perderam um bocadinho do seu tempo para me endereçar os parabéns. Muitas delas, de forma terna e com muita gentileza.

Resta-me agradecer o facto de me fazerem sentir que importo, apesar de a minha lucidez conhecer perfeitamente o papel que lhe cabe. Menos do que uma borboleta, uma leve brisa passageira sobre a Terra, mas enquanto pudermos acenar com genuinidade a alguém ao longo do trajeto e ser correspondido, talvez, a nossa duração se justifique nesse pequeno instante.

 

Nina M.

 

 

 

domingo, 7 de junho de 2026

Fénix

Golpeada infinitamente
Por terra
Jaz a ave a contragosto.

Qual Simurgh
Das ruínas de três mundos
No chão. Sabe que não é o fim.

No chão. Imóvel. Repousa.
Respira a ganhar força.
Queda-se aninhada.

De asas soerguidas,
Ampara os golpes
Mais espaçados,

Menos potentes,
Mais indolores,
Mais inócuos,

Num impulso,
Ergue-se
Voa, Fénix!

Renascida das cinzas.
Faz-te luz.

sábado, 6 de junho de 2026

Crónica de Maus Costumes 471

 

Vidas em suspenso

             Eis chegada a hora. Não havia escrito nada, ainda, sobre o que vou falar por respeito, por não ser eu a visada. Talvez soubesse que um dia teria de o fazer, mas quando esse dia chegasse, eu saberia. É a hora.

            O meu núcleo familiar viveu tempos muito difíceis. Uma bola de hóquei que acertou em cheio na testa do meu marido, enquanto via um jogo de vólei da filha que nem era para ter sido realizado naquele dia, decretou a ida ao hospital e uma TAC que o atiraria para uma ressonância magnética, por haver ali qualquer coisa que era necessário despistar, que poderia ter sido impacto ou não.

            O diagnóstico veio rapidamente. Frio e cortante. Uma lâmina que atravessa a pele e que nos deixa perplexos. Momentaneamente incrédulos. Sem ornamentos: trata-se de um tumor cerebral primário de grau II e é maligno. Tem de ir à sua médica de família. Vai levar esta carta porque é preciso encaminhar o processo para o hospital público rapidamente. Tem de ser operado.

            Foi assim. Limpo. Nem pode ser de outra forma.

            Depois, vem a digestão e a fragilidade de que a condição humana é feita. Pensa-se no pior, nos filhos, como contar e as palavras a usar.

Uma familiar passava pelo mesmo processo, cancro da mama, e outra havia lutado contra um linfoma. Tudo gente na flor da idade e saudável. Felizmente, os três venceram. Os três continuamente vigiados. Os três a ter de suportar um tratamento que mata o mau e o bom. As radioterapias e as quimioterapias que arrasam, mesmo um corpo em forma e bem tratado. As dores, os enjoos, a má-disposição, a perda de peso, a perda de cor…

Só algo brilha no meio disto: a cor da esperança.

            Pensa-se a sério na morte. Não como uma possibilidade, mas algo palpável e ao dobrar da esquina. Perto. Demasiado perto, a sentir-se-lhe o cheiro. A fazer sentir os calafrios.

            Talvez noutra idade se possa aceitar melhor, mas quando há, ainda, trilho a percorrer, a ideia de finitude é um absurdo que não se consegue acomodar. Então, e os pequenos? Como ficam os pequenos obrigados a absorver a informação?

            É-se lacónico. A informação estritamente necessária, sem usar as palavras que assustam em demasia. O mais velho perguntou:

— É o mesmo da tia Mónica?

— Sim. Na cabeça, neste caso. Vai haver cirurgia e vai correr bem.

Silêncio.

— O pai vai ficar careca? — a preocupação da mais pequena. A vaidosa que se preocupa com a estética. E depois o cabelo vai crescer branco.

— Talvez — respondi. O importante é que o pai fique bom.

O pai mudo. Incapaz de uma palavra. A partir de então, só poderia admitir que corresse bem. Não queríamos criar preocupações excessivas nos filhos. Souberam o essencial, nunca tiveram a verdadeira consciência do perigo. Correu bem. Não se abalaram em excesso. O mais velho chegou a comentar, já depois da cirurgia, que demorou oito horas, que os adultos eram exagerados. Afinal, o pai andava, falava, só tinha o dreno, mas que também foi retirado passados dois ou três dias.

Viram o pai enfaixado, com um capacete de gaze na cabeça, a cicatriz exposta de lado a lado, mais tarde. O cabelo não caiu, afinal, para contentamento da Matilde. A inocência é tão bela.

 A vida a girar. Sem parar. No dia da cirurgia, fomos todos para a escola. Mantivemos rotinas. Não quis esperar horas a fio com a sensação de que o tempo estagnara e um nó no estômago difícil de desatar. A dinâmica da sala de aula obriga a reagir. Meia-volta, o relógio. Ainda não acabou.

As notícias chegaram por volta das 15h00. Tinha corrido bem.

— Não podemos ver o pai?

— Ainda não. Só quando sair do recobro. Tem de ficar a descansar.

Só foram ao hospital 2 dias mais tarde. Primeiro um, no dia seguinte, o outro. À vez.

Entre o diagnóstico e a cirurgia o tempo parece suspender. Fica-se refém da angústia. Evitem procurar informação na Internet, ainda que eu saiba que se acontecer comigo o farei. Não o consigo evitar, mas é penoso, porque não há duas situações iguais, um pormenor pode fazer toda a diferença e os organismos reagem de forma diferenciada. Só serve para aumentar a angústia.

Depois, vai-se gerindo. A vida é um moinho, diz o cantor. Não se compadece, não fica mais fácil e se tiver de nos puxar o tapete tanto faz haver alguém em ânsias como nada.

Ninguém sai ileso deste processo. Nem os que por ele passam nem os que os acompanham. Talvez passem a olhar para a vida de outra forma, mas não seria necessário o soco para se aprender alguma coisa.

Aos poucos, a vida vai retomando, depois, alguma normalidade. Os filhos continuam a acharem-se imortais e voltam a olhar para os pais como se estes também o fossem, apesar dos tratamentos penosos e das vigilâncias apertadas, para se certificar que não há recidivas.

Nem se lembram da gravidade da questão. Respiro fundo. Fizemos um bom trabalho. Os miúdos não perderam a rede nem a serenidade. Para eles, o assunto está resolvido. Para quem por elas passa, por agora, também. Confiantes, mas vigilantes. Não pode ser de outra forma.

No meio deste caos, de uma vida que prossegue sempre e sem paragem, olhar para o copo meio-cheio, talvez, possa salvar. A fatura e a exaustão emocional chegam com atraso. Primeiro, é preciso reagir. Não há tempo para lamentos. Nem agora. Não sou de lamentações extremas, mas há horas difíceis, inventadas pelo Diabo.

Honremos a vida. Não com folganças tolas, mas na busca por um sentido, mesmo quando tudo parece desabar e não fazer sentido nenhum. Não são necessárias coisas extraordinárias.

As singelezas dos dias, das palavras, de um olhar, de um abraço, de um mimo inesperado justificam a nossa existência e salvam-nos sempre.

Sei que morremos uma única vez e que vivemos todos os dias até ao derradeiro respirar. Aproveitemo-los todos, com as suas doces e agrestes tragédias.

 Nina M.

 

 

 

 

 

 

 

Hora dourada

Nesta hora dourada
Perto do ocaso do dia
Que se fecham os meus olhos
Ao ouvir a melodia

Não são música nem palavras
Que me saem do coração
São instantes são momentos
Reverbera a emoção

Um código silencioso
De que todo o homem é feito
Um suspiro belicoso
A lutar dentro do peito

O homem tem os seus ais
As suas dores maceradas
As minhas e as tuas num cais
A estas horas douradas

sábado, 30 de maio de 2026

Crónica de Maus Costumes 470

 

Ainda há mesa

             Se há algo que me traz um pequeno momento de felicidade é ver os meus dois filhos num momento de cumplicidade fraterna. Aqueles instantes em que dizem coisas longe dos ouvidos dos pais e riem-se ambos do mesmo, nem que seja por um vídeo parvo do tiktok que eles sabem que eu detesto que eles vejam, apesar de saber que os veem mais do que o necessário.

            Ontem, a Matilde decidiu comparar as infâncias dos pais. Descobriu que a infância da mãe, apesar de ter sido muito diferente das deles, foi sobejamente mais fácil do que a do pai. Circunstâncias da vida e circunstâncias geográficas assim o ditaram.

            Sem que o soubessem expressar  desta forma, tomaram consciência de que a mãe, apesar de ter experienciado a sementeira das batatas e o seu arrancar (só de me lembrar de andar a apanhar as batatas dos porcos já me canso), de saber o que é andar de carro de bois, porque o avô das vizinhas fazia uma quinta e tinha bois e carro para transportar o que precisasse, de saber o que é ir ao mato e aos pinheiros ao monte, de percorrer as carreiras dos feijões ou do milho, também, por causa das vizinhas e saber o que é acartar lenha das oficinas para preparar o inverno, desta feita, lá para casa, assim como apanhar os bagos do chão, no tempo das vindimas, para se fazer um vinho que era amargo como trovisco e que os adultos juravam a pés juntos ser bom – só me lembro do senhor Claudino da Eva: “É vinho” — certo é que tinha participação nestas coisas uma vez no ano; o pai fazia-o sempre, ao longo de muitos anos. Vidas…

            Decidiram ambos, Rodrigo e Matilde, retirarem-me a autoridade moral para os repreender por se fazerem difíceis para colaborar nas tarefas domésticas, porque a mãe, eu mesma, não lhes posso dizer que se tivessem de fazer aquilo que eu fazia na idade deles é que iriam perceber o quanto custa. Sem qualquer pudor, atiraram-me à cara:

— Ó mãe! Tu não podes falar! Enquanto o pai andava a trabalhar, a fazer coisas, tu estavas a ver televisão ou a brincar. Se o pai te visse, naquela altura, iria achar-te rica!

            E assim me rotularam de burguesinha sem mais quê. Ponto. Lá tive de lhes explicar que, sim, que a minha infância foi muito feliz e que tive efetivamente meninice, tal como eles, mas sem os excessos atuais.

            A conversa foi circular. Chegou a este ponto porque a mais pequena perguntou se preferiríamos viver com ou sem telemóvel. Respondi que vivi sem ele durante uma boa parte da minha vida e que não me tinha feito falta. Bem, se fosse como os primeiros aparelhos, que só davam mesmo para telefonar e, mais tarde, enviar mensagem, estaria muito bem. Andaríamos todos menos distraídos com a espuma dos dias e eles aproveitariam melhor o tempo livre, porque a voracidade com que consomem vídeos não lhes treina a paciência nem a concentração. Só as estraga.

            Uma existência consumida em vertigem é apagada sem que disso se dê conta. Por isso, à mesa não há telemóveis. Se os houvesse, não existiria interação e a mesa ainda é o local de encontro. Pouco depois, cada um regressa aos seus afazeres. A mesa ainda é espaço de conversa e de partilha de ideias, de questões que se impõem, de espaço de diálogo. Quando os filhos crescem, é este tempo que permite a existência da família, para que não sejamos apenas indivíduos que coabitam no mesmo espaço e o vínculo permaneça.  

É-me insuportável estar a conversar com alguém que olhe para o telemóvel a todo o instante, que responda ou envie mensagens a todo o momento. Significa que a companhia do outro não preenche. É vazia. É uma falsa presença. Estes aparelhos, que também têm a enorme vantagem de permitir encontros, podem ser, paradoxalmente, responsáveis pelo afastamento e pela companhia vazia.

Não se convide alguém para café ou qualquer outra atividade se depois vai estar só pela metade. Quando se aceita o convite ou sugestão, é porque a presença das pessoas importa, caso contrário, não se aceitaria. É, portanto, justo que as tratemos com a atenção merecida.

Talvez precisemos de voltar a aprender o valor das pequenas coisas, o tempo em que um café se demorava sem pressa.

Eu, que raramente vou ao café, agora.

Pode ser um café caseiro. Acho sempre preferível. A maturidade traz o apreço pela intimidade, pelo recato e pelo conforto do lar. Nenhuma mesa ou banco de café é tão adequado e aprazível quanto o sofá de casa. Se alguém deixa o seu conforto para nos acompanhar, respeitemo-lo e saibamo-lo honrar com a nossa presença efetiva. Nunca sabemos quando será a última vez.

 

Nina M.