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sexta-feira, 10 de julho de 2026

Eros

Num cerimonial nosso,
Repetido a cada manhã,
Mias-me junto à porta,
À espera do maná.

Saciada a fome urgente,
Em voltas em meia-lua,
Saltitas roças-te todo
Nas minhas pernas nuas.

Por vício ou ritual,
Olhas-me com olhos doces,
De um azul sem igual,
Grato pelo que te trouxe.

Mimas-me com a cauda,
A cabeça e nariz frio,
Numa dança matinal
Com a qual sempre rio.

sábado, 4 de julho de 2026

Crónica de Maus Costumes 475

 

Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar

            O verso central de “Cantata da paz”, de Sophia de Mello Breyner Andresen, que denuncia as injustiças e apela às consciências permanecerá atualíssimo enquanto houver humanidade.

            Como saberão, lembro que Sophia era católica progressista, voz ativa contra a ditadura, juntamente com o marido Francisco Sousa Tavares, homem dotado de grande coragem. Sophia, essa mulher aristocrática, com semblante de deusa grega, não lhe ficava atrás. O poema referido foi criado para ser declamado numa vigília, na Capela do Rato, em Lisboa, como protesto contra a guerra colonial e um apelo à liberdade. Uma denúncia da fome, da injustiça, da guerra, com referências a Hiroshima — onde a carne das crianças se transforma em cinza — a África e ao Vietname. Uma chamada de atenção para uma época em que se vivia um “pecado organizado”.

            Aconselho a sua leitura ou melhor, aconselho a sua audição. O poema foi musicado pelo Francisco Fanhais, sacerdote progressista, influenciado pelo Bispo D. António Ferreira Gomes e pelas músicas de Zeca Afonso, que ouvia à revelia no seminário. Facilmente o encontrareis na Internet. Acabei de o ouvir. Fazei o mesmo e percebereis que o podemos cantar hoje porque, infelizmente, não perdeu a sua atualidade.

            O Homem é uma besta e as atrocidades continuam a existir. Continuamos a viver numa época de pecado organizado, em que todos sabemos quem são os grandes pecadores, que continuam a beneficiar da clemência e absoluta absolvição de outros líderes. Uns porque pertencem ao clã do pecado organizado e outros porque lhes falta a coragem de se oporem veementemente aos dislates, com enorme receio das consequências nefastas que tal ousadia implicaria, em termos económicos, para as suas nações.

            O mundo segue, assim, numa realidade feia e inaceitável, mas em que todos fingem. Uns fingem que não são responsáveis; outros fingem-se de vítimas; outros fingem não saber; outros fingem acreditar no que nunca acreditaram. Enfim, transformam a vida e os destinos dos povos numa enorme peça de teatro, onde cada um interpreta o seu papel o melhor que souber para que o pecado organizado se perpetue com a complacência de todos, incluindo a nossa.

            Nós, a arraia-miúda, encolhe os ombros numa resignação de quem já desistiu, de quem entende nada poder resolver e, portanto, vale mais não se inquietar muito. Ricardo Reis tinha razão: sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo. E assim vivemos, com as nossas preocupações, agora, com o Mundial, o calor que abunda, o pensamento nas férias, o trabalho que ainda é preciso cumprir… Distraímo-nos com o quotidiano comezinho, tantas vezes entediante e vazio. Não nos sobra tempo para olharmos para o lado. Afinal, o que se poderia fazer? As manifestações não adiantam de nada! Marcam uma posição, mas no dia seguinte, tudo permanece imutável.

Imagino, na minha inocência, um dia em que o mundo parasse por completo. Um dia em que ninguém saísse para trabalhar e jurasse assim continuar até que os responsáveis pelas vilanias erguessem as bandeiras brancas, em sinal de rendição e de redenção. Se Saramago fosse vivo, talvez aproveitasse a ideia e lhe desse forma de romance. Começaria assim: No dia seguinte, ninguém trabalhou. As alfaias agrícolas não saíram dos celeiros, os cafés não abriram. As escolas fecharam. Os hospitais colocaram um letreiro que dizia volto já, as esquadras estavam vazias e as indústrias paradas. Só os parques, as praias e os rios se povoavam com a leveza dos risos. Havia, porém, um local em cada país onde o desespero se fazia sentir: o parlamento ou o centro do poder.

            O resto da história podereis imaginar.

            Talvez os conflitos terminassem de uma vez, talvez os governantes de cada país começassem, finalmente, a governar para a população e não contra ela e até, quem sabe, os professores conseguissem voltar a exames escorreitos e sem enganos para classificar, sob o sol tórrido de julho!

            Talvez o senhor ministro da educação viesse, finalmente, reconhecer o erro e pedir desculpa ao país. Não dói assim tanto reconhecer um erro. Aliás, é a melhor forma de desarmar o outro: a assunção da culpa ou da responsabilidade. Talvez viesse dizer que na segunda fase se entregaria os exames em papel aos classificadores. Talvez os pais se preocupassem mais com os filhos. Talvez se pudesse continuar a acreditar na palavra de ministro.

 

Nina M.

sábado, 27 de junho de 2026

Crónica de Maus Costumes 474

 

Herói, vilão e espelho

               Poderia falar da catástrofe terrível que aconteceu na Venezuela e, no meio do caos, do recém-nascido de dezoito dias e da sua mãe que foram salvos. Uma graça, uma sorte, um acaso, mas não um milagre, porque seria Deus tão discriminador, que salva uns e condena outros? É esse o motivo que nos obriga à humildade de, perante um revés na vida, um problema grave, nunca questionarmos: porquê eu? Atrevo-me a dizer que a pergunta certa seria: porque não eu? Eu não sou mais importante do que o meu semelhante para a sociedade e os dois não somos mais do que um ponto obscuro na imensidão do universo. Nada há mais de tão real, de tão verdadeiro, mas em simultâneo, tão libertador.

            Poderia ir por aí. Não vou. Poderia ir pelo tumulto que se instalou uma vez mais na educação, nos aproveitamentos políticos feitos, no deitar gasolina numa casa já em chamas, mas a verdade é que o fogo foi posto pelo próprio Ministério. Mais uma digitalização imbecil, o ridículo de nos pôr a pintar bolinhas tornou-se ainda mais absurdo. Um sistema que é suposto agilizar, cedeu perante a tempestade de exames. Dou voltas à cabeça e nunca compreendo as razões para se mexer no que ainda vai funcionando neste país. Também não vou por aí nem pelo aperto que os russos começam a sentir.

            Excetuando o primeiro tópico, que me comove, que me emociona e enluta, e do último que me irrita, porque toda a guerra é uma imbecilidade, do intermédio não quero saber. Demasiado cansada destes filmes, da incompetência misturada com o histerismo de colegas que, perante um cenário caótico, ainda o ampliam, transformando-o numa cena apocalíptica. Quem tiver acesso a grupos de professores e dois dedos de testa perceberá a que me refiro. Bolas! Precisa-se de alguma serenidade e não de gente ainda mais ansiosa à beira de um ataque de nervos, a pôr todos os outros em polvorosa e à beira de um ataque de pânico, também. Evidentemente, a situação é grave, mas não é por se gritar muito uns com os outros que vai melhorar. Calma. Serenidade. Bom senso. Obviamente, os prazos para classificação de exames serão alargados e os miúdos não podem ser prejudicados. Obviamente, sobra sempre para os professores. É um facto. No entanto, criar mais caos, agora, nada resolve. Aguardem tranquilamente e quem arranjou o sarilho descalce a bota.

            Não vou por aí. Sobra-me um tema que polariza emoções como poucos: Cristiano Ronaldo. Há quem o endeuse e quem o demonize. A meu favor, e esta é uma qualidade sempre a meu favor, o meu portismo, que neste caso me torna insuspeita. Não idolatro o Ronaldo, mas admiro o seu profissionalismo e a sua determinação, reconhecendo, porém, que como qualquer ser humano, tem as suas falhas e tem direito a elas e às suas contradições como qualquer um de nós.

            Ronaldo é um vencedor. Não se fez sozinho, porque ninguém se faz sozinho, mas soube aproveitar todas as oportunidades que lhe foram oferecidas, com muito esforço, trabalho e também sofrimento. Não é fácil para uma criança pequena, de uma localidade, neste caso, situada numa ilha no meio do Atlântico, vir para a capital sozinho, sofrer com a ausência dos pais que só poderia ver de vez em quando. Um miúdo a quem faltou quase tudo. Não me espanto, por isso, que agora resvale um pouco para a ostentação. Quem nunca teve nada e agora pode ter tudo quanto o dinheiro pode comprar é natural que se deslumbre. Não aprecio propriamente essa maneira de estar. Há muitos outros exemplos de jogadores portugueses absolutamente extraordinários e dos melhores do mundo, com imensa visibilidade: Vitinha, Nuno Mendes e João Neves, por exemplo, que são muito mais recatados. O Ronaldo e a sua Georgina aproximam-se do universo das Kardashians. Vivem da imagem e para a imagem. Se o Ronaldo fosse apenas isto, obteria o meu respeito enquanto profissional, mas não a minha admiração. Ele consegue ser extremamente vaidoso e arrogante, mas também humilde, determinado e abnegado no seu ofício. É o jogador que raramente recusa uma fotografia com um petiz, que lhes faz festas, que pega neles ao colo, que lhes acena e sorri. Ao que parece, também é capaz de gestos solidários e altruístas e proporciona um nível de vida impensável a todos os seus familiares. Pode-se pensar que mal seria, mas na verdade, não é obrigado a isso.

            Na atualidade, o Ronaldo, como jogador, já não é o mesmo. É menos rápido, tem menos força e tornou-se num avançado mais estático. Creio que o próprio Ronaldo reconhecerá isso, mas compete ao treinador e apenas a este tomar a decisão de o pôr ou não a jogar, de o deixar ou não os noventa minutos em campo, de o considerar ou não um ativo precioso para a equipa. Pelos vistos, assim o considera. Acho, por isso, tão ofensivo que se culpe o Ronaldo por todos os desaires quanto se lhe dê os louros absolutos de uma vitória, porque o futebol é um coletivo. Sempre foi e sempre será. De modo que o empate do primeiro jogo não pode ser imputado ao Cristiano quando uma equipa falhou em toda a linha. Não é justo.

            Reconhecer isto não significa que ele tenha sempre lugar cativo na equipa ou que não possa sair se e quando o treinador entender, mediante a sua estratégia de jogo. Perante esta decisão, caso a haja, não compete ao Ronaldo fazer birra nem pressões, como já aconteceu anteriormente. A última palavra será sempre do treinador.

            O Cristiano irrita muita gente porque não encena o papel de bom moço e de profissional humilde. O Vitinha diz: “Não gosto de dizer que sou o melhor do mundo, porque há mais dois ou três jogadores muito bons, também.” Ao ouvir isto, nós sorrimos e batemos palmas. Gostamos da humildade. O Cristiano apregoava aos sete ventos que era o melhor do mundo. Em muitas épocas foi mesmo e é inquestionável que é um galáctico que extrapola o futebol. Fora do recinto de jogo, só comparável ao fenómeno David Beckham. Muita publicidade e mulheres aos pés de ambos. Em relação a este último, lembro-me sempre de uma tirada de uma colega que não posso aqui reproduzir para não cometer uma inconfidência.

            O Cristiano irrita muita gente porque nos retira as desculpas que arranjamos para os nossos pequenos fracassos. Ele contrariou o destino e, ao fazê-lo, mostra que é possível a realização com trabalho árduo. Também é preciso alguma sorte, mas esta não dispensa o empenho. A verdade é que poucos possuem a sua determinação e a sua obsessão. Ele é o homem que tem mais do que um euromilhões e continua a trabalhar como um louco, quando a maioria de nós se aposentaria. Isto pode ser visto como uma qualidade ou como um defeito, mas ninguém espere que ele diga não lhe apetecer jogar.

            Cristiano Ronaldo é tudo isto: humilde e arrogante, simples e vaidoso, solidário e egoísta, homem de família e ícone de sedução, autor de marcos históricos individuais e coletivos.

            Não aplaudo todas as suas opções de vida nem todas as suas escolhas, mas nada tenho a ver com isso. Cristiano é profundamente humano, tal como eu e tu, cheio de erros e de defeitos, mas também com as suas virtudes.

            Ronaldo é um herói e um vilão e apesar do golo monumental, do meio da rua, que marcou ao meu Futebol Clube do Porto, no Dragão, envergando as cores do seu Manchester United, não consigo não gostar dele nem não sentir orgulho por ser português, ainda que o tenha maldito dessa vez.

            Ele aguenta as críticas justas e injustas. São o seu combustível. Gostaria que nós, portugueses, e por extensão o Ronaldo, fôssemos todos muito felizes neste campeonato do mundo. Só para ver se o rapaz pode pendurar as chuteiras como campeão do mundo pela seleção, caso lhe apeteça.

 

Nina M.

 

 

 

sábado, 20 de junho de 2026

Crónica de Maus Costumes 473

 

O que nos fica dos dias

               Entre dias preenchidos que temos, há bocadinhos que nos ficam a temperar a alma. Junho é o mês da feira do livro da cidade, talvez a sua atividade cultural maior. Ontem, com Hugo Van Der Ding, o espaço encheu para o ouvir falar e hoje, também, Luísa Sobral foi contemplada com uma bela plateia e com uma conversa bem conduzida, que soube partir do livro, sem se perder em grandes detalhes biográficos. A Luísa é boa conversadora e, quando assim é, a tarefa do moderador torna-se um pouco mais fácil.

Tive, hoje, o privilégio de estar na apresentação do livro de uma querida amiga que teve o trabalho de recolher o testemunho e as histórias dos anciãos de Frazão. Memórias que seriam perdidas se a Lurdes Martins não se interessasse genuinamente pelos pedaços de gente, de tradições e de costumes. Partiu à descoberta e encontrou modos de vida num tempo cinzento e difícil. Memórias de tempos de miséria e de fome, revividos com emoção, nostalgia e saudade. Já sabemos que a memória tende a colecionar o que lhe faz bem, de modo que foi com comoção que muitos ouviram e contaram as histórias que lhes pertencem e que definem um pouco o que são hoje.

Guardo a felicidade autêntica da plateia a ouvir a autora desvendar um pouco dos mistérios que se encontram nas páginas dos livros, a ânsia com que o compraram, provavelmente, cheios de pressa para ler as narrativas que a Lurdes compilou, tendo o cuidado de registar a voz de cada um, as expressões populares já caídas em desuso. Testemunhos de enorme valor documental, que retratam uma época.

À noite, fui ouvir a Luísa Sobral. A conversa girou em torno do seu romance “Nem todas as árvores morrem de pé”.  Eu não o li, de modo que não posso ter qualquer opinião. No entanto, saber que foi apresentado e que obteve o aval de Maria do Rosário Pedreira para publicação é um belíssimo sinal.

De tudo quanto a Luísa foi desvendando, houve algo que não passa despercebido a uma mulher, o facto de abordar o tema da maternidade nos seus diferentes modos e homenagear todas as mães dos filhos por nascer. É um tema sobre o qual pouco se fala.

Já li, certa altura, um texto de uma mãe a lamentar-se da falta de empatia para com o luto de um filho que não chegou a ser. É um assunto delicado e que deve ser tratado com cautela. As perdas do embrião ou do feto exigem um luto que necessariamente tem de ser feito e um luto de uma mãe é perene. Haverá uma tendência para o minimizar, por se tratar de uma fase precoce, no entanto, quando a gravidez é desejada, a mulher torna-se mãe quando a descobre, portanto, é possível que para ela tenha havido a perda de um filho e não a perda de um amontoado de células. A mãe do texto que li lamentava a falta de compreensão pelo seu luto, a quase exigência de rápida recuperação como se os nossos sentimentos funcionassem mediante o simples acionar dos botões de ligar e desligar.

Não é assim. Quem perdeu sabe que perdeu e não esquece. Talvez lhe imagine um rosto e um nome que lhe pertencem. Talvez lhe imaginem a vida que poderia ter tido.

Lembro-me de, na minha segunda gravidez, numas análises de rotina, ao fazer a ficha, a funcionária me fazer responder a um inquérito e perguntar em voz alta, audível para toda a plateia: “quantos abortos já teve?”

Nenhum – foi a minha resposta. Soergueu a cabeça em sinal de espanto. Voltei a repetir: “nenhum, felizmente.”

Senti-me, de algum modo, agredida pela banalização de um assunto tão íntimo, mesmo que não tivesse passado pelo processo. Não é pergunta que se apregoe, assim, em tom elevado, no meio de uma sala cheia.

Imagino a dor das mães que já passaram pela experiência e algumas mais do que uma vez.

É preciso respeitar o tempo, as mazelas, os lutos, os sofrimentos alheios, mesmo que nos pareçam exagerados. Sente quem passa pelas vivências. Sentir com a imaginação é fundamental e garante a empatia, mas ainda assim, estará longe da tristeza que invade aquelas que enfrentam essas dificuldades. Efetivamente, curar as dores alheias é sempre muito mais fácil.

 

Nina M.

 

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Beijo no umbral

Tudo era intenso, assim,
Como o instante que precede
O beijo roubado contra o umbral

Mãos que acariciam o cabelo
E outras enlaçam a cintura
Enquanto o beijo se faz e se desfaz

Volta a ser beijo novamente
Esse instante sem ar
De estertor e desejo

Tudo era intenso, assim,
Num beijo desejado contra o umbral
E contra mim

terça-feira, 16 de junho de 2026

Submersão

Cruzei a tempestade
Enfrentei ventos e marés
Nuvens escuras e trovões

Perdi-me na agitação das vagas
E como casco leve submergi
A matar a sede com água salgada

Quase afoguei os pulmões
Na imensidão da vaga
Mas na crista da onda

Inteira e só
Devolvi-me
O naufrágio não me varou

sábado, 13 de junho de 2026

Crónica de Maus de Costumes 472

 

Brisa sobre a Terra

               Faz anos que nasci. Faz anos que nasceu o meu filho primogénito. A minha melhor prenda de aniversário e que será sempre insuperável.

            Agradeço todas as mensagens que me foram endereçadas. Algumas delas com palavras gentis e carinhosas. Gente de quem gosto e que tenho a felicidade de gostarem de mim. De me mimarem com palavras e de me criarem a ilusão de que a minha existência importa.

            Na verdade, eu ser ou não ser importa bem menos para o universo do que o bater das asas da borboleta da teoria do caos. Importaria para a família mais chegada e pouco mais. Mesmo esses teriam de aprender a viver com a ausência porque a vida não para.

            Razão tinha a avó Matilde, que quando sabia de alguma mulher grávida e lhe perguntavam o nome do bebé, ela adiantava-se à mãe e respondia lesta: “escusas cá na terra, não eras cá preciso”. Ficava o nome posto. Esta sentença ilustra bem a nossa pequenez, a nossa insignificância num universo imenso.

            Quando me ocorrem estas memórias, como lampejos que me assaltam, percebo claramente Saramago quando dizia que o homem mais sábio que conheceu era analfabeto, referindo-se ao seu avô Jerónimo.

            Efetivamente, os nossos avoengos, apesar da parca instrução, revelavam uma forte intuição filosófica sem o saberem. Sem sequer imaginarem a existência de uma área do saber chamada Filosofia.

            A frase da avó Matilde contém a verdade inexpugnável da pequenez, da fragilidade e da insignificância do homem. Nenhum de nós faria falta à natureza. Não sei se a minha avó pensaria nestas questões ou se lhe saía por chiste, mas intuía a grande questão existencial: para que existimos e porquê se cá éramos escusados?!

Está também contido na sentença o pasmo de existir, o milagre que se operou para que fosse exatamente eu e que esse eu tivesse originado um tu, preciso e concreto, neste mesmo dia.

Espanta-me a quantidade de mensagens e penso em como posso conhecer tanta gente. Pessoas que perderam um bocadinho do seu tempo para me endereçar os parabéns. Muitas delas, de forma terna e com muita gentileza.

Resta-me agradecer o facto de me fazerem sentir que importo, apesar de a minha lucidez conhecer perfeitamente o papel que lhe cabe. Menos do que uma borboleta, uma leve brisa passageira sobre a Terra, mas enquanto pudermos acenar com genuinidade a alguém ao longo do trajeto e ser correspondido, talvez, a nossa duração se justifique nesse pequeno instante.

 

Nina M.

 

 

 

domingo, 7 de junho de 2026

Fénix

Golpeada infinitamente
Por terra
Jaz a ave a contragosto.

Qual Simurgh
Das ruínas de três mundos
No chão. Sabe que não é o fim.

No chão. Imóvel. Repousa.
Respira a ganhar força.
Queda-se aninhada.

De asas soerguidas,
Ampara os golpes
Mais espaçados,

Menos potentes,
Mais indolores,
Mais inócuos,

Num impulso,
Ergue-se
Voa, Fénix!

Renascida das cinzas.
Faz-te luz.

sábado, 6 de junho de 2026

Crónica de Maus Costumes 471

 

Vidas em suspenso

             Eis chegada a hora. Não havia escrito nada, ainda, sobre o que vou falar por respeito, por não ser eu a visada. Talvez soubesse que um dia teria de o fazer, mas quando esse dia chegasse, eu saberia. É a hora.

            O meu núcleo familiar viveu tempos muito difíceis. Uma bola de hóquei que acertou em cheio na testa do meu marido, enquanto via um jogo de vólei da filha que nem era para ter sido realizado naquele dia, decretou a ida ao hospital e uma TAC que o atiraria para uma ressonância magnética, por haver ali qualquer coisa que era necessário despistar, que poderia ter sido impacto ou não.

            O diagnóstico veio rapidamente. Frio e cortante. Uma lâmina que atravessa a pele e que nos deixa perplexos. Momentaneamente incrédulos. Sem ornamentos: trata-se de um tumor cerebral primário de grau II e é maligno. Tem de ir à sua médica de família. Vai levar esta carta porque é preciso encaminhar o processo para o hospital público rapidamente. Tem de ser operado.

            Foi assim. Limpo. Nem pode ser de outra forma.

            Depois, vem a digestão e a fragilidade de que a condição humana é feita. Pensa-se no pior, nos filhos, como contar e as palavras a usar.

Uma familiar passava pelo mesmo processo, cancro da mama, e outra havia lutado contra um linfoma. Tudo gente na flor da idade e saudável. Felizmente, os três venceram. Os três continuamente vigiados. Os três a ter de suportar um tratamento que mata o mau e o bom. As radioterapias e as quimioterapias que arrasam, mesmo um corpo em forma e bem tratado. As dores, os enjoos, a má-disposição, a perda de peso, a perda de cor…

Só algo brilha no meio disto: a cor da esperança.

            Pensa-se a sério na morte. Não como uma possibilidade, mas algo palpável e ao dobrar da esquina. Perto. Demasiado perto, a sentir-se-lhe o cheiro. A fazer sentir os calafrios.

            Talvez noutra idade se possa aceitar melhor, mas quando há, ainda, trilho a percorrer, a ideia de finitude é um absurdo que não se consegue acomodar. Então, e os pequenos? Como ficam os pequenos obrigados a absorver a informação?

            É-se lacónico. A informação estritamente necessária, sem usar as palavras que assustam em demasia. O mais velho perguntou:

— É o mesmo da tia Mónica?

— Sim. Na cabeça, neste caso. Vai haver cirurgia e vai correr bem.

Silêncio.

— O pai vai ficar careca? — a preocupação da mais pequena. A vaidosa que se preocupa com a estética. E depois o cabelo vai crescer branco.

— Talvez — respondi. O importante é que o pai fique bom.

O pai mudo. Incapaz de uma palavra. A partir de então, só poderia admitir que corresse bem. Não queríamos criar preocupações excessivas nos filhos. Souberam o essencial, nunca tiveram a verdadeira consciência do perigo. Correu bem. Não se abalaram em excesso. O mais velho chegou a comentar, já depois da cirurgia, que demorou oito horas, que os adultos eram exagerados. Afinal, o pai andava, falava, só tinha o dreno, mas que também foi retirado passados dois ou três dias.

Viram o pai enfaixado, com um capacete de gaze na cabeça, a cicatriz exposta de lado a lado, mais tarde. O cabelo não caiu, afinal, para contentamento da Matilde. A inocência é tão bela.

 A vida a girar. Sem parar. No dia da cirurgia, fomos todos para a escola. Mantivemos rotinas. Não quis esperar horas a fio com a sensação de que o tempo estagnara e um nó no estômago difícil de desatar. A dinâmica da sala de aula obriga a reagir. Meia-volta, o relógio. Ainda não acabou.

As notícias chegaram por volta das 15h00. Tinha corrido bem.

— Não podemos ver o pai?

— Ainda não. Só quando sair do recobro. Tem de ficar a descansar.

Só foram ao hospital 2 dias mais tarde. Primeiro um, no dia seguinte, o outro. À vez.

Entre o diagnóstico e a cirurgia o tempo parece suspender. Fica-se refém da angústia. Evitem procurar informação na Internet, ainda que eu saiba que se acontecer comigo o farei. Não o consigo evitar, mas é penoso, porque não há duas situações iguais, um pormenor pode fazer toda a diferença e os organismos reagem de forma diferenciada. Só serve para aumentar a angústia.

Depois, vai-se gerindo. A vida é um moinho, diz o cantor. Não se compadece, não fica mais fácil e se tiver de nos puxar o tapete tanto faz haver alguém em ânsias como nada.

Ninguém sai ileso deste processo. Nem os que por ele passam nem os que os acompanham. Talvez passem a olhar para a vida de outra forma, mas não seria necessário o soco para se aprender alguma coisa.

Aos poucos, a vida vai retomando, depois, alguma normalidade. Os filhos continuam a acharem-se imortais e voltam a olhar para os pais como se estes também o fossem, apesar dos tratamentos penosos e das vigilâncias apertadas, para se certificar que não há recidivas.

Nem se lembram da gravidade da questão. Respiro fundo. Fizemos um bom trabalho. Os miúdos não perderam a rede nem a serenidade. Para eles, o assunto está resolvido. Para quem por elas passa, por agora, também. Confiantes, mas vigilantes. Não pode ser de outra forma.

No meio deste caos, de uma vida que prossegue sempre e sem paragem, olhar para o copo meio-cheio, talvez, possa salvar. A fatura e a exaustão emocional chegam com atraso. Primeiro, é preciso reagir. Não há tempo para lamentos. Nem agora. Não sou de lamentações extremas, mas há horas difíceis, inventadas pelo Diabo.

Honremos a vida. Não com folganças tolas, mas na busca por um sentido, mesmo quando tudo parece desabar e não fazer sentido nenhum. Não são necessárias coisas extraordinárias.

As singelezas dos dias, das palavras, de um olhar, de um abraço, de um mimo inesperado justificam a nossa existência e salvam-nos sempre.

Sei que morremos uma única vez e que vivemos todos os dias até ao derradeiro respirar. Aproveitemo-los todos, com as suas doces e agrestes tragédias.

 Nina M.

 

 

 

 

 

 

 

Hora dourada

Nesta hora dourada
Perto do ocaso do dia
Que se fecham os meus olhos
Ao ouvir a melodia

Não são música nem palavras
Que me saem do coração
São instantes são momentos
Reverbera a emoção

Um código silencioso
De que todo o homem é feito
Um suspiro belicoso
A lutar dentro do peito

O homem tem os seus ais
As suas dores maceradas
As minhas e as tuas num cais
A estas horas douradas

sábado, 30 de maio de 2026

Crónica de Maus Costumes 470

 

Ainda há mesa

             Se há algo que me traz um pequeno momento de felicidade é ver os meus dois filhos num momento de cumplicidade fraterna. Aqueles instantes em que dizem coisas longe dos ouvidos dos pais e riem-se ambos do mesmo, nem que seja por um vídeo parvo do tiktok que eles sabem que eu detesto que eles vejam, apesar de saber que os veem mais do que o necessário.

            Ontem, a Matilde decidiu comparar as infâncias dos pais. Descobriu que a infância da mãe, apesar de ter sido muito diferente das deles, foi sobejamente mais fácil do que a do pai. Circunstâncias da vida e circunstâncias geográficas assim o ditaram.

            Sem que o soubessem expressar  desta forma, tomaram consciência de que a mãe, apesar de ter experienciado a sementeira das batatas e o seu arrancar (só de me lembrar de andar a apanhar as batatas dos porcos já me canso), de saber o que é andar de carro de bois, porque o avô das vizinhas fazia uma quinta e tinha bois e carro para transportar o que precisasse, de saber o que é ir ao mato e aos pinheiros ao monte, de percorrer as carreiras dos feijões ou do milho, também, por causa das vizinhas e saber o que é acartar lenha das oficinas para preparar o inverno, desta feita, lá para casa, assim como apanhar os bagos do chão, no tempo das vindimas, para se fazer um vinho que era amargo como trovisco e que os adultos juravam a pés juntos ser bom – só me lembro do senhor Claudino da Eva: “É vinho” — certo é que tinha participação nestas coisas uma vez no ano; o pai fazia-o sempre, ao longo de muitos anos. Vidas…

            Decidiram ambos, Rodrigo e Matilde, retirarem-me a autoridade moral para os repreender por se fazerem difíceis para colaborar nas tarefas domésticas, porque a mãe, eu mesma, não lhes posso dizer que se tivessem de fazer aquilo que eu fazia na idade deles é que iriam perceber o quanto custa. Sem qualquer pudor, atiraram-me à cara:

— Ó mãe! Tu não podes falar! Enquanto o pai andava a trabalhar, a fazer coisas, tu estavas a ver televisão ou a brincar. Se o pai te visse, naquela altura, iria achar-te rica!

            E assim me rotularam de burguesinha sem mais quê. Ponto. Lá tive de lhes explicar que, sim, que a minha infância foi muito feliz e que tive efetivamente meninice, tal como eles, mas sem os excessos atuais.

            A conversa foi circular. Chegou a este ponto porque a mais pequena perguntou se preferiríamos viver com ou sem telemóvel. Respondi que vivi sem ele durante uma boa parte da minha vida e que não me tinha feito falta. Bem, se fosse como os primeiros aparelhos, que só davam mesmo para telefonar e, mais tarde, enviar mensagem, estaria muito bem. Andaríamos todos menos distraídos com a espuma dos dias e eles aproveitariam melhor o tempo livre, porque a voracidade com que consomem vídeos não lhes treina a paciência nem a concentração. Só as estraga.

            Uma existência consumida em vertigem é apagada sem que disso se dê conta. Por isso, à mesa não há telemóveis. Se os houvesse, não existiria interação e a mesa ainda é o local de encontro. Pouco depois, cada um regressa aos seus afazeres. A mesa ainda é espaço de conversa e de partilha de ideias, de questões que se impõem, de espaço de diálogo. Quando os filhos crescem, é este tempo que permite a existência da família, para que não sejamos apenas indivíduos que coabitam no mesmo espaço e o vínculo permaneça.  

É-me insuportável estar a conversar com alguém que olhe para o telemóvel a todo o instante, que responda ou envie mensagens a todo o momento. Significa que a companhia do outro não preenche. É vazia. É uma falsa presença. Estes aparelhos, que também têm a enorme vantagem de permitir encontros, podem ser, paradoxalmente, responsáveis pelo afastamento e pela companhia vazia.

Não se convide alguém para café ou qualquer outra atividade se depois vai estar só pela metade. Quando se aceita o convite ou sugestão, é porque a presença das pessoas importa, caso contrário, não se aceitaria. É, portanto, justo que as tratemos com a atenção merecida.

Talvez precisemos de voltar a aprender o valor das pequenas coisas, o tempo em que um café se demorava sem pressa.

Eu, que raramente vou ao café, agora.

Pode ser um café caseiro. Acho sempre preferível. A maturidade traz o apreço pela intimidade, pelo recato e pelo conforto do lar. Nenhuma mesa ou banco de café é tão adequado e aprazível quanto o sofá de casa. Se alguém deixa o seu conforto para nos acompanhar, respeitemo-lo e saibamo-lo honrar com a nossa presença efetiva. Nunca sabemos quando será a última vez.

 

Nina M.

  

 

 

 

sábado, 23 de maio de 2026

Crónica de Maus Costumes 469

 

Geografia da alma.

               Costumo dizer aos meus alunos que a Literatura é a vida. Não, necessariamente, uma cópia fiel e plasmada. Não uma imitação simples e tosca. Demasiadas vezes, o mundo prova que a ficção fica aquém da realidade.

            A vida, por si só, não basta e o ser humano tem a necessidade de recriar outras vidas que não são mais fáceis nem mais amáveis, mas são universos constitutivos de matéria profundamente humana, de muitas misérias e de algumas alegrias. Ocorrem-me, por isso, os versos de Gedeão: “Vê moinhos? São moinhos. /Vê gigantes? São gigantes.”

            Ninguém vê o mundo como ele é. Olha-se para ele como se é. Carregados com mochilas de dores, alegrias, prazeres e frustrações. O legado dos românticos alemães, de Schlegel, Novalis, Schiller mostra-nos isso. A importância do “eu” que nos serve de filtro para o mundo, onde as emoções ocupam o seu lugar de relevância. A interpretação onde não cabe unicamente a frieza ou o distanciamento racional. Talvez não nos possamos abandonar inteiramente às nossas perceções, sob pena de falharmos na análise, mas provavelmente também não nos poderemos cingir a um racionalismo inflexível. O que para um progenitor pode ser proteção, para um filho pode ser opressão.

            Quando olhamos para trás, sabendo que a memória nos atraiçoa e nos faz esquecer de certas violências ao ser, lembramos o que foi aprazível e apagamos o que foi negativo, excetuando, obviamente, situações demasiadamente traumáticas. Precisamente porque não as podermos esquecer se transformam em trauma. Ser-nos-ia impossível viver com todas as dores acumuladas ao longo da existência, de forma vívida e presente. Precisamos do esquecimento para nos salvarmos. Os deuses sempre souberam da importância das águas do Letes.

            Assim, na generalidade e salvaguardando as perturbações sérias, ao recuarmos aos tempos da inocência, não lembramos os episódios comezinhos de castigos e de pequenas infelicidades, mas as alegrias e as brincadeiras que nos fazem sorrir. Se lembramos as punições, é já sem dor, pelo que as desvalorizamos. Só assim se entende que as pessoas recordem tempos difíceis e de miséria com nostalgia e uma sensação de paraíso perdido. Na verdade, essas vivências não terão sido todas agradáveis, mas a nossa perceção, auxiliada pelo mecanismo da memória, mostra-nos o pedaço de céu que gostamos sempre de relembrar.

            Acontece sempre que relembro as correrias monte acima e monte abaixo, numa algaraviada de catraios inconscientes e felizes. Caso para dizer: “Raiva de não ter trazido o passado na algibeira”.

            Não é o passado que queremos na algibeira. É a sensação de paz, de conforto e de alegria simples que se perde com a idade adulta. Talvez o passado nem tenha sido assim, mas é dessa forma que o nosso “eu” o mostra. Quando o revisito, os tombos de bicicleta já nem doem e o paparoto de amoras ainda cheira maravilhosamente bem e deixa a boca roxa do seu vinho. A água fria do mar de Mindelo parece-me amena, no calor do verão, e o cheiro a maresia enche-me as narinas como ontem. Hoje, as amoras já não sabem ao mesmo e o mar do Mindelo é sobejamente mais gélida. No entanto, continua o mar do Norte mais encantador.

Sabiamente, o povo diz que recordar é viver e o poeta diz querer trazer o passado na algibeira. Os pedaços de memória reconstituem a geografia da alma e compõem a história que nos vai definindo e que vamos reescrevendo.

Olhamos o mundo com toda a bagagem que somos e que continuamente construímos, a alma de mãos dadas com a razão até à última página do livro que somos.

 

Nina M.

 

 

sábado, 16 de maio de 2026

Crónica de Maus Costumes 468

 

A origem do mal

            De onde surge a maldade? Onde habita e como se decide manifestar? A educação e a cultura deveriam bastar para a eliminar. Não basta.

             Vivo sem aceitar. Não tenho a bem-querença de Rousseau e entendo que o bem e o mal habitam o homem. A educação deveria fazer com que a escolha do bem fosse uma evidência, mas olhar atentamente o mundo arruína esta tese. Penso nos pais que têm filhos que fizeram a escolha do mal e entristeço-me. Talvez nada me pesasse tanto. Talvez nada me fizesse sentir tão absolutamente fracassada. No entanto, tenho a consciência de que a trajetória de cada um é mais da sua responsabilidade do que da alheia. Filhos dos mesmos pais, criados nas mesmas circunstâncias, reagem e crescem de modo diferente. Há um caminho feito em solidão, apesar de todas as influências que possamos ter.

            Não há nada de mais comovente e importante quanto ser, genuinamente, boa pessoa. Conseguir que o amor que nos habita vença a maldade para que na solidão de que todos somos feitos possamos descansar.

            Lembro-me de ter sido má e de logo em seguida a culpa remoer-me até aos ossos. A avó Matilde ainda tinha o tear, creio. Penso que estaria a batucar nele. Por alguma razão, não pude fazer o que me apetecia (já não sei do que se tratava), mas a avó não permitiu. Sei que conseguiu enfurecer-me muito. Subiu-me a ira ao rosto e sem que me pudesse libertar da frustração, muito zangada, disse-lhe que deveria cair e partir as duas pernas. Arrependi-me imediatamente a seguir, mas já estava dito e a avó sempre fazia questão de nos lembrar que o silêncio era de ouro.

            Não me lembro do que a avó me respondeu. Talvez tenha dito que não se desejava isso a ninguém. Eu calei. Fundo. Envergonhada e demasiadamente perturbada para lhe pedir desculpa, porém, ainda hoje me lembro do episódio.

            A avó Matilde, passados cinco minutos, já teria esquecido, mas eu não. Andei, depois, à roda dela, sem me descoser, até perceber que as palavras que não deveria ter dito foram esquecidas. Creio ter sido a única vez que me terá saído tal coisa à minha avó e com vontade, naquele momento. No entanto, a mais ferida fui eu.

            Este episódio pueril e inocente serve, provavelmente, para comprovar que a maldade poderá ferir quem a recebe, mas também quem a lança. A minha pequena maldade passou, mas não explica o mundo. A ciência tenta. Segundo ela, o mal deve ser analisado através de uma lente biopsicossocial.

Durante centenas de milhares de anos, o hominídeo competiu por recursos: comida, território, parceiros. Aqueles que eram capazes de usar a violência ou a trapaça para garantirem a sua sobrevivência tinham mais hipóteses de passar os seus genes adiante. Entretanto, o homem evoluiu para cooperar com os membros do seu grupo, mas desenvolveu uma forte hostilidade contra o outro, visto como potencial ameaça. Qualquer semelhança com os tempos atuais não é mera coincidência.

 A cooperação, por sua vez, exige empatia, capacidade de sentir a dor do outro. Para isso, a rede cerebral que inclui os neurónios-espelho, o córtex cingulado anterior e a ínsula, tem de estar a funcionar bem. Qualquer avaria gera defeito de fabrico. Assim, surge a psicopatia. O psicopata compreende racionalmente o sofrimento alheio, mas é incapaz de o sentir. Aliado a isto, convém que o córtex pré-frontal, o gerente dos “impulsos” esteja bem de saúde para ser capaz de travar o ímpeto violento.

 Finalmente, a perspetiva psicológica e social comprova que pessoas comuns podem cometer atrocidades quando o outro é desumanizado, reduzido a um rótulo, a um número. Durante o Holocausto, os judeus não tinham nome. Eram um número tatuado na pele. Antes disso, foram rotulados, o alvo a abater por serem os responsáveis da desgraça (há quem faça o mesmo, atualmente, com os imigrantes). Torna-se mais fácil, ainda, quando há diluição da responsabilidade e a obrigatoriedade de obediência. Foi assim que Arendt olhou para Eichmann, no julgamento de Nuremberga. O Holocausto não teria sido possível sem a cumplicidade e a indiferença de homens e mulheres, que difundiram o terror e que, no exercício do poder, se limitaram a cumprir ordens, incapazes de usarem a razão. Uma vez mais, qualquer semelhança com a atualidade será mera coincidência.

            A seleção natural, que nos programou para sermos adaptáveis e não propriamente amorosos, fez com que desenvolvêssemos duas ferramentas essenciais para a sobrevivência: a cooperação e a competição e a linha que separa o comportamento ético da crueldade é ténue e dependerá do equilíbrio biológico e também do contexto sociocultural do indivíduo.

            É imperioso calibrar as ferramentas evolutivas da cooperação e da competição, com urgência. Com toda a informação à disposição, é doloroso ver o homem, no século XXI, reduzido à sua condição animalesca. Quem sabe, um dia, não se invente um medicamento contra a maldade, que restabeleça os circuitos neuronais, para que possamos afirmar, finalmente, que o paraíso são os outros.

 

Nina M.

 

 

 

sábado, 9 de maio de 2026

Crónica de Maus Costumes 467

 

« Noli me tangere »

               Deparei-me com um texto de um pároco que me fez andar a pensar sobre o assunto uma boa parte do dia. O texto abordava o tema da Ressurreição de Jesus e o facto de a primeira pessoa a vê-Lo ter sido Maria de Magdala, vulgo Maria Madalena, aquela que foi designada a “Apóstola dos Apóstolos”, pois a ela coube a missão, confiada pelo próprio Cristo de anunciar a Ressurreição.

               O texto tinha por base o Evangelho de João, por ser o que mais se centra na figura de Madalena, ainda que todos os outros evangelistas tivessem registado o mesmo episódio. Narra João que Madalena chorava junto ao túmulo vazio, quando vê dois anjos e uma figura que não reconhece de imediato. Ao ouvir a voz que a chama: “Maria!” Ela reconhece-O e trata-O por Mestre. Jesus vivo ter-lhe-á dito: “ Noli me tangere”, mais vulgarmente traduzido por “Não me detenhas” ou, na tradução do professor Frederico Lourenço, que o clérigo invocou, “Não me toques”.

               A partir desta proibição, o senhor padre desenvolveu uma reflexão que culminaria numa possível explicação para interditar o sacerdócio às mulheres. Questionava-se sobre o motivo desta proibição, pois Jesus já tinha sido tocado por mulheres, anteriormente. A famosa cena da pecadora que lhe lava os pés com as lágrimas e os enxuga com os cabelos é disso prova. O próprio corpo de Cristo foi preparado para o sepulcro por mulheres, que o limparam e cobriram dos unguentos habituais.

               Concluía o raciocínio, afirmando que a materialidade corpórea que Madalena via era de pertença de uma outra dimensão. Jesus Ressuscitado apresentava corpo, uma vez que incitou Tomé, o descrente, a tocar-lhe nas chagas e nos orifícios, marcas da crucificação. No entanto, não tinha permitido que Maria Madalena o tocasse. O seu pensamento conduziu-o ao facto de Cristo ter, em certa medida, escolhido apenas homens como sacerdotes, porque são a representação de Cristo, são os únicos que tiveram a autorização para O tocar e continuam a ser, pois na Eucaristia assiste-se à transubstanciação, ou seja, a transformação do pão e do vinho no corpo e sangue de Cristo, quando o sacerdote pronuncia as palavras de Jesus na Última Ceia. Resumindo, se Madalena foi proibida de O tocar, as mulheres não podem ser sacerdotisas porque também o tocariam, no momento da transubstanciação, para além de o sacerdote assumir o papel do próprio Cristo, pelo que não caberia a uma mulher.

               Terminaria, contudo, lembrando que compete ao homem o papel de pai, isto é, de representar Jesus e às mulheres, pelo dom da maternidade, de mães, cumprindo o papel de mãe de Jesus, no cumprimento da maternidade com os próprios filhos. Desta forma, o papel da mulher na Igreja é igualmente relevante, mas diferente do papel do homem, sendo-lhes, porém, permitido que sejam ministras da comunhão, por delegação do representante de Cristo.

               Não faltaram palavras elogiosas de fiéis à reflexão do senhor padre, nomeadamente, de mulheres. Surgiu, no entanto, o comentário de um homem indignado com as interpretações de Frederico Lourenço, insinuando que a sua leitura era “perigosa” por causa da sua orientação sexual. Sorri. No século XXI, ainda há quem tema a leitura, o pensamento e o diálogo, como se o conhecimento fosse uma ameaça.

               Fiquei pensativa com o raciocínio do senhor padre que me pareceu, ainda que envolto em pruridos, no mínimo, condescendente e, no máximo, misógino.

               Fui procurar saber o que diziam os outros evangelistas. Marcos e Lucas confirmam o surgimento primeiro de Jesus a Madalena, mas nada referem quanto a qualquer proibição. Mateus, por sua vez, refere o episódio e diz que Jesus encontra Madalena e a outra Maria (Sua mãe) no caminho, enquanto corriam para avisar os discípulos e que elas abraçam os pés Dele e O adoram. Primeira contradição: segundo Mateus, as mulheres puderam tocar Cristo, já que Lhe abraçam os pés! Talvez por isto a tradução mais vulgar não seja não me toques, mas antes, não me detenhas (interpretação minha, que não estudei teologia).

               Depois, dentro do Cristianismo há diferentes interpretações, visto que no Protestantismo, a mulher pode exercer o papel de pastora. Fui em busca da explicação. Para os católicos, o sacerdote atua “in persona Christi” (na pessoa de Cristo), mas no protestantismo progressista, o pastor ou pastora é o líder e o “professor espiritual” dentro de uma comunidade, e não alguém revestido de um carácter ontológico especial. Assim, se todos os batizados são sacerdotes perante Deus, o género não impede o exercício do ministério. São mais inclusivos, sem sombra de dúvida.

               A divergência entre os dois braços do tronco comum está no facto de os católicos e protestantes conservadores colocarem ênfase em passagens como a de Timóteo (“Não permito que a mulher ensine…”) e os protestantes progressistas olharem para passagens como a dos Gálatas (“Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo Jesus”). Para estes, também não há transubstanciação, pois não há comunhão. Desta forma, qualquer pessoa, desde que preparada, pode presidir a cerimónia. Os protestantes conservadores, tal como os católicos, proíbem o sacerdócio às mulheres.

               Concluo, portanto, que as posições derivam de interpretações teológicas feitas pelos homens e à sua medida. Jesus nada escreveu e quando os primeiros Evangelhos surgiram, entre 60 e 100 DC, os discípulos já estavam, na sua maioria mortos. O único que poderia estar, ainda, vivo era João. Quem conta um conto aumenta-lhe um ponto. Não há como ter certezas do que foi dito exatamente, para além de se dever ter em conta a época e a interpretação dos próprios apóstolos, pelo que são admissíveis diferentes aceções e elas existem. Creio que Jesus não se importuna com este assunto. Quer apenas que o homem, à Sua imagem e semelhança, seja bom e justo.

               Interrogo-me se não passa de receio da Igreja por ver posto em causa um patriarcado milenar. A avaliar pelos fiéis que se encontram na eucaristia, para além de ser gente mais velha, o público é maioritariamente feminino. A Igreja corre o risco de sacramentar apenas homens que exercerão o seu ministério para mulheres!

               A minha amiga Lurdes diz que é melhor não pensarmos nalgumas coisas, mas eu não consigo evitar. É mal que se me cola ao corpo.

               Isso ou fazer como quando tinha uns três ou quatro anos e os meus pais me levavam à missa. Consta que eu gostava de imitar o senhor padre em todos os gestos que ele fazia. Ainda hoje considero haver muita poesia nos rituais eucarísticos. Ora… O padre Luís era tomado pelo riso e via-se aflito para não se desmanchar, pelo que pediu à minha mãe para não me levar, porque eu o imitava em tudo e ele tinha de fazer um esforço para se não rir. Eu imagino que, para mim, o altar seria uma espécie de palco. A minha mãe, em casa, admoestou-me e disse-me que o padre Luís não me deixava mais ir à missa, porque eu o imitava e não podia ser. Muito lampeira e despeitada, atirei:

               - Ai é?! Então, diz-lhe que já não vou ser médica. Vou ser padre e também não o deixo ir à minha missa!

               Bem… Padre não sou e médica também não, mas púlpito não me falta. Na sala de aula, contrario Timóteo, porque ensino todos os dias. Até doutrina, quando tenho de dar o “Sermão de Santo António aos Peixes”, de Padre António Vieira.

Nina M.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sábado, 2 de maio de 2026

Crónica de Maus Costumes 466

 

Campeões

               Obrigada, presidente. Obrigada, mister Farioli. Obrigada, rapazes. Obrigada, anónimos, que no silêncio dos corredores mantêm a máquina a funcionar. Hoje, é dia de título. Já vivemos muitos, mas este é especial. É mais íntimo. Mais ferido. Mais nosso.

            Desde logo, a família portista andava ressacada. Três anos sem ganhar o título de campeões nacionais é muito para quem anda mal-habituado ou bem, dependendo da perspetiva. Depois, foi um ano de perdas para o clube. O presidente Jorge Nuno partiu a 15 de fevereiro de 2025. A despedida era previsível. Sabia-se da doença e do agravamento do seu estado de saúde. Mais tarde, e sem nada que o fizesse prever, a 5 de agosto de 2025, o clube perdeu um dos ídolos, uma das suas lendas, um dos jogadores que representa a mística do clube, o diretor desportivo do clube, na altura. Uma perda irreparável. Muito sentida. Muito chorada.

            A conjuntura não era favorável ao FCP. Vinha de uma época desastrosa. Não era o facto de não ganhar. Era a forma como perdia. Uma equipa esfrangalhada, com muitos problemas, um plantel com pouca qualidade e um treinador que, apesar de ser bom comunicador, veio a meio da época para não acrescentar nada. Não faltou vontade, mas faltou competência para fazer melhor. Não faltou suor nem entrega, mas faltou capacidade. Saiu-lhe um presente envenenado, porque não se faz omeletes sem ovos, mas talvez fosse possível ter-se feito um bocadinho mais.  

No futebol, como na vida, parece que, às vezes, todo o mal se junta, apesar dos esforços. A situação financeira do clube era igualmente periclitante. O FCP passou pela mudança de direção, pela oposição interna de alguns adeptos (ainda hoje existe). No momento, está em silêncio, porque o Porto se sagrou campeão, mas basta um jogo menos conseguido, ainda que o ganhe, que os fantasmas saltam à rua, põem o trabalho em causa e tentam desestabilizar, por mais que a maioria lhes sugira que se calem, porque não têm razão.

            A vontade era muita e a necessidade também, quer sob o ponto de vista desportivo quer sob o ponto de vista económico. Além do campeonato, o FCP garante o acesso direto à “Champions”. Numa época de reestruturação, não foi coisa pouca. Talvez poucos acreditassem que fosse possível, mas esta casa já provou tantas e tantas vezes que, aqui, não há impossíveis! Há uma crença profunda de que é possível vencer impossíveis. Não de forma espalhafatosa, mas com trabalho, empenho, entrega e rigor. Nem sempre se consegue, é verdade, mas que não seja por falta de querer.

            Pinto da Costa dizia que gostava de ver o clube campeão, porque para algumas pessoas, com vidas muito difíceis, era das poucas alegrias que tinham e que ele gostava dessa sensação, de contribuir para um momento de alegria. Evidentemente, para uns sorrirem, outros têm de entristecer. É a vida. Hoje, é a nossa vez de sorrir. O presidente dos presidentes, onde quer que esteja, sorri. Não pode ser de outra forma para quem fez deste clube a sua vida.

            O eterno Jorge Costa gostaria de estar aqui a comemorar, mas com jeitinho, está a erguer um copo de vinho e a cortar um salpicão. Que o diga o Domingos, que não bebia vinho, mas que nos almoços, ao lado do capitão, pedia o seu copinho. Podiam beber um copinho. O Bicho arranjava forma de beber dois. O dele e o do Paciência. O homem que tinha direito à sua latrina particular, no balneário, e onde ninguém se atrevia a sentar. O homem que durante os primeiros dez minutos moía a cabeça ao Ricardo Carvalho, porque dizia que ele demorava dez minutos a acordar e a entrar no jogo. O mesmo homem que zurzia a cabeça ao Quaresma e o chamava de cigano filho da tal, quando este perdia uma bola em sítio proibido, e o mandava correr atrás dela. O mesmo homem sobre quem Mourinho disse, quando perguntado sobre a equipa para a época seguinte, que seria o Jorge e mais dez. O mesmo Jorge que num jogo frente ao Belenenses e a perder ao intervalo, se fechou com os colegas e deixou o Mourinho à porta e disse o que havia a dizer. Na segunda parte, o FCP virou o jogo e o Jorge marcou.

            Estas histórias, amplamente conhecidas do universo portista, que gosta de as saber e de as ouvir, serão, com toda a certeza partilhadas. O Bicho era bicho dentro do campo e lá o deixava ficar, porque fora das quatro linhas, era um homem tranquilo e amistoso, segundo os que com ele privaram.

            Jorge Costa esteve com o plantel até ao momento da consagração. Todos queriam ganhar o título. Por eles, mas também pelo Bicho. Era imperioso.

            Parabéns ao justíssimo vencedor. A melhor equipa, a mais coesa e a mais consistente. Honra aos vencidos. Ninguém vence sozinho. Os adversários engrandecem as vitórias . O campeonato ainda mexe. A disputa pelo segundo lugar ferve.

Viva o FCP! Viva o presidente André Villas-Boas! Viva os nossos rapazes!

Hip-hip! Urra!

 

Nina M.