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sábado, 23 de maio de 2026

Crónica de Maus Costumes 469

 

Geografia da alma.

               Costumo dizer aos meus alunos que a Literatura é a vida. Não, necessariamente, uma cópia fiel e plasmada. Não uma imitação simples e tosca. Demasiadas vezes, o mundo prova que a ficção fica aquém da realidade.

            A vida, por si só, não basta e o ser humano tem a necessidade de recriar outras vidas que não são mais fáceis nem mais amáveis, mas são universos constitutivos de matéria profundamente humana, de muitas misérias e de algumas alegrias. Ocorrem-me, por isso, os versos de Gedeão: “Vê moinhos? São moinhos. /Vê gigantes? São gigantes.”

            Ninguém vê o mundo como ele é. Olha-se para ele como se é. Carregados com mochilas de dores, alegrias, prazeres e frustrações. O legado dos românticos alemães, de Schlegel, Novalis, Schiller mostra-nos isso. A importância do “eu” que nos serve de filtro para o mundo, onde as emoções ocupam o seu lugar de relevância. A interpretação onde não cabe unicamente a frieza ou o distanciamento racional. Talvez não nos possamos abandonar inteiramente às nossas perceções, sob pena de falharmos na análise, mas provavelmente também não nos poderemos cingir a um racionalismo inflexível. O que para um progenitor pode ser proteção, para um filho pode ser opressão.

            Quando olhamos para trás, sabendo que a memória nos atraiçoa e nos faz esquecer de certas violências ao ser, lembramos o que foi aprazível e apagamos o que foi negativo, excetuando, obviamente, situações demasiadamente traumáticas. Precisamente porque não as podermos esquecer se transformam em trauma. Ser-nos-ia impossível viver com todas as dores acumuladas ao longo da existência, de forma vívida e presente. Precisamos do esquecimento para nos salvarmos. Os deuses sempre souberam da importância das águas do Letes.

            Assim, na generalidade e salvaguardando as perturbações sérias, ao recuarmos aos tempos da inocência, não lembramos os episódios comezinhos de castigos e de pequenas infelicidades, mas as alegrias e as brincadeiras que nos fazem sorrir. Se lembramos as punições, é já sem dor, pelo que as desvalorizamos. Só assim se entende que as pessoas recordem tempos difíceis e de miséria com nostalgia e uma sensação de paraíso perdido. Na verdade, essas vivências não terão sido todas agradáveis, mas a nossa perceção, auxiliada pelo mecanismo da memória, mostra-nos o pedaço de céu que gostamos sempre de relembrar.

            Acontece sempre que relembro as correrias monte acima e monte abaixo, numa algaraviada de catraios inconscientes e felizes. Caso para dizer: “Raiva de não ter trazido o passado na algibeira”.

            Não é o passado que queremos na algibeira. É a sensação de paz, de conforto e de alegria simples que se perde com a idade adulta. Talvez o passado nem tenha sido assim, mas é dessa forma que o nosso “eu” o mostra. Quando o revisito, os tombos de bicicleta já nem doem e o paparoto de amoras ainda cheira maravilhosamente bem e deixa a boca roxa do seu vinho. A água fria do mar de Mindelo parece-me amena, no calor do verão, e o cheiro a maresia enche-me as narinas como ontem. Hoje, as amoras já não sabem ao mesmo e o mar do Mindelo é sobejamente mais gélida. No entanto, continua o mar do Norte mais encantador.

Sabiamente, o povo diz que recordar é viver e o poeta diz querer trazer o passado na algibeira. Os pedaços de memória reconstituem a geografia da alma e compõem a história que nos vai definindo e que vamos reescrevendo.

Olhamos o mundo com toda a bagagem que somos e que continuamente construímos, a alma de mãos dadas com a razão até à última página do livro que somos.

 

Nina M.

 

 

sábado, 16 de maio de 2026

Crónica de Maus Costumes 468

 

A origem do mal

            De onde surge a maldade? Onde habita e como se decide manifestar? A educação e a cultura deveriam bastar para a eliminar. Não basta.

             Vivo sem aceitar. Não tenho a bem-querença de Rousseau e entendo que o bem e o mal habitam o homem. A educação deveria fazer com que a escolha do bem fosse uma evidência, mas olhar atentamente o mundo arruína esta tese. Penso nos pais que têm filhos que fizeram a escolha do mal e entristeço-me. Talvez nada me pesasse tanto. Talvez nada me fizesse sentir tão absolutamente fracassada. No entanto, tenho a consciência de que a trajetória de cada um é mais da sua responsabilidade do que da alheia. Filhos dos mesmos pais, criados nas mesmas circunstâncias, reagem e crescem de modo diferente. Há um caminho feito em solidão, apesar de todas as influências que possamos ter.

            Não há nada de mais comovente e importante quanto ser, genuinamente, boa pessoa. Conseguir que o amor que nos habita vença a maldade para que na solidão de que todos somos feitos possamos descansar.

            Lembro-me de ter sido má e de logo em seguida a culpa remoer-me até aos ossos. A avó Matilde ainda tinha o tear, creio. Penso que estaria a batucar nele. Por alguma razão, não pude fazer o que me apetecia (já não sei do que se tratava), mas a avó não permitiu. Sei que conseguiu enfurecer-me muito. Subiu-me a ira ao rosto e sem que me pudesse libertar da frustração, muito zangada, disse-lhe que deveria cair e partir as duas pernas. Arrependi-me imediatamente a seguir, mas já estava dito e a avó sempre fazia questão de nos lembrar que o silêncio era de ouro.

            Não me lembro do que a avó me respondeu. Talvez tenha dito que não se desejava isso a ninguém. Eu calei. Fundo. Envergonhada e demasiadamente perturbada para lhe pedir desculpa, porém, ainda hoje me lembro do episódio.

            A avó Matilde, passados cinco minutos, já teria esquecido, mas eu não. Andei, depois, à roda dela, sem me descoser, até perceber que as palavras que não deveria ter dito foram esquecidas. Creio ter sido a única vez que me terá saído tal coisa à minha avó e com vontade, naquele momento. No entanto, a mais ferida fui eu.

            Este episódio pueril e inocente serve, provavelmente, para comprovar que a maldade poderá ferir quem a recebe, mas também quem a lança. A minha pequena maldade passou, mas não explica o mundo. A ciência tenta. Segundo ela, o mal deve ser analisado através de uma lente biopsicossocial.

Durante centenas de milhares de anos, o hominídeo competiu por recursos: comida, território, parceiros. Aqueles que eram capazes de usar a violência ou a trapaça para garantirem a sua sobrevivência tinham mais hipóteses de passar os seus genes adiante. Entretanto, o homem evoluiu para cooperar com os membros do seu grupo, mas desenvolveu uma forte hostilidade contra o outro, visto como potencial ameaça. Qualquer semelhança com os tempos atuais não é mera coincidência.

 A cooperação, por sua vez, exige empatia, capacidade de sentir a dor do outro. Para isso, a rede cerebral que inclui os neurónios-espelho, o córtex cingulado anterior e a ínsula, tem de estar a funcionar bem. Qualquer avaria gera defeito de fabrico. Assim, surge a psicopatia. O psicopata compreende racionalmente o sofrimento alheio, mas é incapaz de o sentir. Aliado a isto, convém que o córtex pré-frontal, o gerente dos “impulsos” esteja bem de saúde para ser capaz de travar o ímpeto violento.

 Finalmente, a perspetiva psicológica e social comprova que pessoas comuns podem cometer atrocidades quando o outro é desumanizado, reduzido a um rótulo, a um número. Durante o Holocausto, os judeus não tinham nome. Eram um número tatuado na pele. Antes disso, foram rotulados, o alvo a abater por serem os responsáveis da desgraça (há quem faça o mesmo, atualmente, com os imigrantes). Torna-se mais fácil, ainda, quando há diluição da responsabilidade e a obrigatoriedade de obediência. Foi assim que Arendt olhou para Eichmann, no julgamento de Nuremberga. O Holocausto não teria sido possível sem a cumplicidade e a indiferença de homens e mulheres, que difundiram o terror e que, no exercício do poder, se limitaram a cumprir ordens, incapazes de usarem a razão. Uma vez mais, qualquer semelhança com a atualidade será mera coincidência.

            A seleção natural, que nos programou para sermos adaptáveis e não propriamente amorosos, fez com que desenvolvêssemos duas ferramentas essenciais para a sobrevivência: a cooperação e a competição e a linha que separa o comportamento ético da crueldade é ténue e dependerá do equilíbrio biológico e também do contexto sociocultural do indivíduo.

            É imperioso calibrar as ferramentas evolutivas da cooperação e da competição, com urgência. Com toda a informação à disposição, é doloroso ver o homem, no século XXI, reduzido à sua condição animalesca. Quem sabe, um dia, não se invente um medicamento contra a maldade, que restabeleça os circuitos neuronais, para que possamos afirmar, finalmente, que o paraíso são os outros.

 

Nina M.

 

 

 

sábado, 9 de maio de 2026

Crónica de Maus Costumes 467

 

« Noli me tangere »

               Deparei-me com um texto de um pároco que me fez andar a pensar sobre o assunto uma boa parte do dia. O texto abordava o tema da Ressurreição de Jesus e o facto de a primeira pessoa a vê-Lo ter sido Maria de Magdala, vulgo Maria Madalena, aquela que foi designada a “Apóstola dos Apóstolos”, pois a ela coube a missão, confiada pelo próprio Cristo de anunciar a Ressurreição.

               O texto tinha por base o Evangelho de João, por ser o que mais se centra na figura de Madalena, ainda que todos os outros evangelistas tivessem registado o mesmo episódio. Narra João que Madalena chorava junto ao túmulo vazio, quando vê dois anjos e uma figura que não reconhece de imediato. Ao ouvir a voz que a chama: “Maria!” Ela reconhece-O e trata-O por Mestre. Jesus vivo ter-lhe-á dito: “ Noli me tangere”, mais vulgarmente traduzido por “Não me detenhas” ou, na tradução do professor Frederico Lourenço, que o clérigo invocou, “Não me toques”.

               A partir desta proibição, o senhor padre desenvolveu uma reflexão que culminaria numa possível explicação para interditar o sacerdócio às mulheres. Questionava-se sobre o motivo desta proibição, pois Jesus já tinha sido tocado por mulheres, anteriormente. A famosa cena da pecadora que lhe lava os pés com as lágrimas e os enxuga com os cabelos é disso prova. O próprio corpo de Cristo foi preparado para o sepulcro por mulheres, que o limparam e cobriram dos unguentos habituais.

               Concluía o raciocínio, afirmando que a materialidade corpórea que Madalena via era de pertença de uma outra dimensão. Jesus Ressuscitado apresentava corpo, uma vez que incitou Tomé, o descrente, a tocar-lhe nas chagas e nos orifícios, marcas da crucificação. No entanto, não tinha permitido que Maria Madalena o tocasse. O seu pensamento conduziu-o ao facto de Cristo ter, em certa medida, escolhido apenas homens como sacerdotes, porque são a representação de Cristo, são os únicos que tiveram a autorização para O tocar e continuam a ser, pois na Eucaristia assiste-se à transubstanciação, ou seja, a transformação do pão e do vinho no corpo e sangue de Cristo, quando o sacerdote pronuncia as palavras de Jesus na Última Ceia. Resumindo, se Madalena foi proibida de O tocar, as mulheres não podem ser sacerdotisas porque também o tocariam, no momento da transubstanciação, para além de o sacerdote assumir o papel do próprio Cristo, pelo que não caberia a uma mulher.

               Terminaria, contudo, lembrando que compete ao homem o papel de pai, isto é, de representar Jesus e às mulheres, pelo dom da maternidade, de mães, cumprindo o papel de mãe de Jesus, no cumprimento da maternidade com os próprios filhos. Desta forma, o papel da mulher na Igreja é igualmente relevante, mas diferente do papel do homem, sendo-lhes, porém, permitido que sejam ministras da comunhão, por delegação do representante de Cristo.

               Não faltaram palavras elogiosas de fiéis à reflexão do senhor padre, nomeadamente, de mulheres. Surgiu, no entanto, o comentário de um homem indignado com as interpretações de Frederico Lourenço, insinuando que a sua leitura era “perigosa” por causa da sua orientação sexual. Sorri. No século XXI, ainda há quem tema a leitura, o pensamento e o diálogo, como se o conhecimento fosse uma ameaça.

               Fiquei pensativa com o raciocínio do senhor padre que me pareceu, ainda que envolto em pruridos, no mínimo, condescendente e, no máximo, misógino.

               Fui procurar saber o que diziam os outros evangelistas. Marcos e Lucas confirmam o surgimento primeiro de Jesus a Madalena, mas nada referem quanto a qualquer proibição. Mateus, por sua vez, refere o episódio e diz que Jesus encontra Madalena e a outra Maria (Sua mãe) no caminho, enquanto corriam para avisar os discípulos e que elas abraçam os pés Dele e O adoram. Primeira contradição: segundo Mateus, as mulheres puderam tocar Cristo, já que Lhe abraçam os pés! Talvez por isto a tradução mais vulgar não seja não me toques, mas antes, não me detenhas (interpretação minha, que não estudei teologia).

               Depois, dentro do Cristianismo há diferentes interpretações, visto que no Protestantismo, a mulher pode exercer o papel de pastora. Fui em busca da explicação. Para os católicos, o sacerdote atua “in persona Christi” (na pessoa de Cristo), mas no protestantismo progressista, o pastor ou pastora é o líder e o “professor espiritual” dentro de uma comunidade, e não alguém revestido de um carácter ontológico especial. Assim, se todos os batizados são sacerdotes perante Deus, o género não impede o exercício do ministério. São mais inclusivos, sem sombra de dúvida.

               A divergência entre os dois braços do tronco comum está no facto de os católicos e protestantes conservadores colocarem ênfase em passagens como a de Timóteo (“Não permito que a mulher ensine…”) e os protestantes progressistas olharem para passagens como a dos Gálatas (“Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo Jesus”). Para estes, também não há transubstanciação, pois não há comunhão. Desta forma, qualquer pessoa, desde que preparada, pode presidir a cerimónia. Os protestantes conservadores, tal como os católicos, proíbem o sacerdócio às mulheres.

               Concluo, portanto, que as posições derivam de interpretações teológicas feitas pelos homens e à sua medida. Jesus nada escreveu e quando os primeiros Evangelhos surgiram, entre 60 e 100 DC, os discípulos já estavam, na sua maioria mortos. O único que poderia estar, ainda, vivo era João. Quem conta um conto aumenta-lhe um ponto. Não há como ter certezas do que foi dito exatamente, para além de se dever ter em conta a época e a interpretação dos próprios apóstolos, pelo que são admissíveis diferentes aceções e elas existem. Creio que Jesus não se importuna com este assunto. Quer apenas que o homem, à Sua imagem e semelhança, seja bom e justo.

               Interrogo-me se não passa de receio da Igreja por ver posto em causa um patriarcado milenar. A avaliar pelos fiéis que se encontram na eucaristia, para além de ser gente mais velha, o público é maioritariamente feminino. A Igreja corre o risco de sacramentar apenas homens que exercerão o seu ministério para mulheres!

               A minha amiga Lurdes diz que é melhor não pensarmos nalgumas coisas, mas eu não consigo evitar. É mal que se me cola ao corpo.

               Isso ou fazer como quando tinha uns três ou quatro anos e os meus pais me levavam à missa. Consta que eu gostava de imitar o senhor padre em todos os gestos que ele fazia. Ainda hoje considero haver muita poesia nos rituais eucarísticos. Ora… O padre Luís era tomado pelo riso e via-se aflito para não se desmanchar, pelo que pediu à minha mãe para não me levar, porque eu o imitava em tudo e ele tinha de fazer um esforço para se não rir. Eu imagino que, para mim, o altar seria uma espécie de palco. A minha mãe, em casa, admoestou-me e disse-me que o padre Luís não me deixava mais ir à missa, porque eu o imitava e não podia ser. Muito lampeira e despeitada, atirei:

               - Ai é?! Então, diz-lhe que já não vou ser médica. Vou ser padre e também não o deixo ir à minha missa!

               Bem… Padre não sou e médica também não, mas púlpito não me falta. Na sala de aula, contrario Timóteo, porque ensino todos os dias. Até doutrina, quando tenho de dar o “Sermão de Santo António aos Peixes”, de Padre António Vieira.

Nina M.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sábado, 2 de maio de 2026

Crónica de Maus Costumes 466

 

Campeões

               Obrigada, presidente. Obrigada, mister Farioli. Obrigada, rapazes. Obrigada, anónimos, que no silêncio dos corredores mantêm a máquina a funcionar. Hoje, é dia de título. Já vivemos muitos, mas este é especial. É mais íntimo. Mais ferido. Mais nosso.

            Desde logo, a família portista andava ressacada. Três anos sem ganhar o título de campeões nacionais é muito para quem anda mal-habituado ou bem, dependendo da perspetiva. Depois, foi um ano de perdas para o clube. O presidente Jorge Nuno partiu a 15 de fevereiro de 2025. A despedida era previsível. Sabia-se da doença e do agravamento do seu estado de saúde. Mais tarde, e sem nada que o fizesse prever, a 5 de agosto de 2025, o clube perdeu um dos ídolos, uma das suas lendas, um dos jogadores que representa a mística do clube, o diretor desportivo do clube, na altura. Uma perda irreparável. Muito sentida. Muito chorada.

            A conjuntura não era favorável ao FCP. Vinha de uma época desastrosa. Não era o facto de não ganhar. Era a forma como perdia. Uma equipa esfrangalhada, com muitos problemas, um plantel com pouca qualidade e um treinador que, apesar de ser bom comunicador, veio a meio da época para não acrescentar nada. Não faltou vontade, mas faltou competência para fazer melhor. Não faltou suor nem entrega, mas faltou capacidade. Saiu-lhe um presente envenenado, porque não se faz omeletes sem ovos, mas talvez fosse possível ter-se feito um bocadinho mais.  

No futebol, como na vida, parece que, às vezes, todo o mal se junta, apesar dos esforços. A situação financeira do clube era igualmente periclitante. O FCP passou pela mudança de direção, pela oposição interna de alguns adeptos (ainda hoje existe). No momento, está em silêncio, porque o Porto se sagrou campeão, mas basta um jogo menos conseguido, ainda que o ganhe, que os fantasmas saltam à rua, põem o trabalho em causa e tentam desestabilizar, por mais que a maioria lhes sugira que se calem, porque não têm razão.

            A vontade era muita e a necessidade também, quer sob o ponto de vista desportivo quer sob o ponto de vista económico. Além do campeonato, o FCP garante o acesso direto à “Champions”. Numa época de reestruturação, não foi coisa pouca. Talvez poucos acreditassem que fosse possível, mas esta casa já provou tantas e tantas vezes que, aqui, não há impossíveis! Há uma crença profunda de que é possível vencer impossíveis. Não de forma espalhafatosa, mas com trabalho, empenho, entrega e rigor. Nem sempre se consegue, é verdade, mas que não seja por falta de querer.

            Pinto da Costa dizia que gostava de ver o clube campeão, porque para algumas pessoas, com vidas muito difíceis, era das poucas alegrias que tinham e que ele gostava dessa sensação, de contribuir para um momento de alegria. Evidentemente, para uns sorrirem, outros têm de entristecer. É a vida. Hoje, é a nossa vez de sorrir. O presidente dos presidentes, onde quer que esteja, sorri. Não pode ser de outra forma para quem fez deste clube a sua vida.

            O eterno Jorge Costa gostaria de estar aqui a comemorar, mas com jeitinho, está a erguer um copo de vinho e a cortar um salpicão. Que o diga o Domingos, que não bebia vinho, mas que nos almoços, ao lado do capitão, pedia o seu copinho. Podiam beber um copinho. O Bicho arranjava forma de beber dois. O dele e o do Paciência. O homem que tinha direito à sua latrina particular, no balneário, e onde ninguém se atrevia a sentar. O homem que durante os primeiros dez minutos moía a cabeça ao Ricardo Carvalho, porque dizia que ele demorava dez minutos a acordar e a entrar no jogo. O mesmo homem que zurzia a cabeça ao Quaresma e o chamava de cigano filho da tal, quando este perdia uma bola em sítio proibido, e o mandava correr atrás dela. O mesmo homem sobre quem Mourinho disse, quando perguntado sobre a equipa para a época seguinte, que seria o Jorge e mais dez. O mesmo Jorge que num jogo frente ao Belenenses e a perder ao intervalo, se fechou com os colegas e deixou o Mourinho à porta e disse o que havia a dizer. Na segunda parte, o FCP virou o jogo e o Jorge marcou.

            Estas histórias, amplamente conhecidas do universo portista, que gosta de as saber e de as ouvir, serão, com toda a certeza partilhadas. O Bicho era bicho dentro do campo e lá o deixava ficar, porque fora das quatro linhas, era um homem tranquilo e amistoso, segundo os que com ele privaram.

            Jorge Costa esteve com o plantel até ao momento da consagração. Todos queriam ganhar o título. Por eles, mas também pelo Bicho. Era imperioso.

            Parabéns ao justíssimo vencedor. A melhor equipa, a mais coesa e a mais consistente. Honra aos vencidos. Ninguém vence sozinho. Os adversários engrandecem as vitórias . O campeonato ainda mexe. A disputa pelo segundo lugar ferve.

Viva o FCP! Viva o presidente André Villas-Boas! Viva os nossos rapazes!

Hip-hip! Urra!

 

Nina M.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Desalento


Vivo uma caixa vazia
Amarrotada e velha
Desferida a golpes

Sobejam longos silêncios
A temperar a alma
A forjar a calma

Já houve sonho e esperança
Até amor
Onde sobram migalhas

Intrépidas solidões
Que insistem ficar
Um sorriso desmaiado

Porque o sol que nem aquece
Deitou-se noutros poentes
Sobre outras marés

sábado, 25 de abril de 2026

Crónica de Maus Costumes 465

 

Abril, hoje e sempre

            Passei a manhã em lides domésticas e enquanto cumpro com tarefas necessárias, mas infinitamente aborrecidas, vou ouvindo coisas que me tornam a tarefa mais suportável. Concentro-me na palavra e o trabalho pesa menos. Fui recuperar o Vencidos do Luís Osório, programa que gosto de ouvir, porque o jornalista, escritor e artista (o Luís faz um pouco de tudo) convida sempre portugueses muito interessantes. Pessoas que vale a pena conhecer.

            O convidado da semana passada tinha sido o tenente-coronel Vasco Lourenço, o homem que arquitetou o 25 de Abril, mas que se encontrava nos Açores, com uma transferência compulsiva ordenada por Marcelo Caetano como punição pela sua atividade conspirativa. Marcelo tinha razão. Vasco Lourenço conspirava. Foi uma das figuras mais carismáticas do Movimento das forças Armadas e o grande estratega do golpe militar que viria a derrubar a ditadura. Não fosse isto suficiente, aliado a Melo Antunes, foi um dos integrantes do “Grupo dos Nove”, uma ala moderada, a quem devemos que o país não tenha caído para uma deriva radical nem à esquerda e nem à direita. O seu posicionamento e atuação, talvez, tenha evitado uma guerra civil. É sempre bom ouvir quem conheceu o movimento por dentro.

            Ao ouvi-lo, consolido a ideia. Ler certos comentários sobre qualquer publicação que se faça sobre o 25 de Abril causa náuseas. Vasco Lourenço di-lo de forma serena e tranquila: são os efeitos da Democracia, que não é um regime perfeito, mas aquele que ainda é o melhor. Tem razão, naturalmente. E acrescenta que é preciso enfrentá-los sem medo, porque é com isso que eles contam. Confesso que há coisas contra as quais não consigo ficar calada, como seja o facto de haver gente tão… Nem sei que lhe hei de apodar… Gente tão sem memória ou intelectualmente desonesta que se põe a tecer loas ao modo de vida antes de Abril e tem a ousadia de tecer comparações inenarráveis. Conseguem irritar-me, verdadeiramente.

Tal como disse Vasco Lourenço, para essa gente, só encontro três explicações: ou são pessoas cruéis, no sentido de acreditarem e de validarem os princípios defendidos por semelhante regime, com todas as ignomínias que o compunham, ou são ignorantes e desconhecem os factos ou são verdadeiramente estúpidas e não têm capacidade para os compreender. Penso haver imensa gente a integrar os dois últimos grupos.

Como gosto de interagir com os autores de algumas publicações, há sempre alguém que se entende no direito de vir comentar o meu comentário. Se o fizer educadamente, ainda que diga disparates, ainda tolero, mas ter de aturar grunhos ignorantes e mal-educados, numa conversa que nem lhes era dirigida, é insuportável. Não me calam. É preciso enfrentar essa gente. É aborrecido, mas necessário.

            Não há paciência para os que querem ser donos de Abril.  Não há paciência para os que de Abril desdenham. Não há paciência para quem santifica toda a esquerda nem para quem a demoniza. Não há paciência para os que igualam os dois anos de PREC a 48 de ditadura, nem para os que têm memória seletiva e atacam uns movimentos reacionários, defendendo outros, quando ambos têm os mesmos males agarrados ao corpo.

            Abril foi o que de melhor aconteceu a este país, a madrugada esperada, “o dia inicial inteiro e limpo”, tal como escreveu Sophia. Isto é inquestionável. Nos anos que se seguiram, até à consolidação da Democracia, especialmente no tempo do PREC, houve momentos vergonhosos, cruéis e sangrentos, perpetrados quer por uma esquerda radicalizada, com alguma da gente que fez com que Abril fosse possível, mas que depois decidiu entrar por terrenos pantanosos, quer por uma direita extremada e inconsolável, que pretendia recuperar o poder que havia perdido.  O distinto “Grupo dos Nove” foi essencial para a preservação de um regime democrático moderado.

            Ver pessoas a defender “o meu bandido é melhor do que o teu” é absolutamente confrangedor. Depois, houve a necessidade de unificar e de fazer um país funcionar e de enterrar os machados de guerra e foram concedidos perdões a ambas as partes e até condecorações.

            O 25 de Abril foi uma enorme conquista e o melhor que aconteceu aos portugueses. O saldo é francamente positivo, mas houve danos causados também, feridas abertas, algumas por curar. É preciso encarar a realidade dos factos tais como eles aconteceram, sem omissões. Reconhecer que não há revolução sem vítimas, sem injustiças e sem erros. Eles aconteceram.

            Não há paciência, sobretudo, para quem transforma Abril numa trincheira partidária. A luta foi entre a Ditadura e a Democracia. Há esquerda e direita radicais, mas também há esquerda e direita democráticas. No fim, só estas últimas são necessárias e desejáveis, porquanto não impugnam a Liberdade, a substância da qual deveremos ser feitos.

 

Nina M.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sábado, 18 de abril de 2026

Crónica de Maus Costumes 464

 

O homem que filmou o escuro

No espetáculo do Martim Sousa Tavares, ouvi algumas histórias e uma das mais engraçadas foi passada com o realizador João César Monteiro. Esse mesmo. O cineasta que colocou o público a ir ao cinema para olhar para um ecrã escuro durante a maior parte do filme, apenas com a leitura do guião, numa espécie de voz off. Ironia suprema: o filme chamava-se Branca de Neve, mas o ecrã ficava preto.

O público não gostou. Sentiu-se enganado. A película tinha sido financiada por entidades públicas, ligadas à cultura, envolvendo muito dinheiro, cerca de 130 mil contos, o que equivaleria a 650 mil euros, na atualidade. Evidentemente, o realizador não foi poupado a críticas, apelidado de maluco lunático, na melhor das hipóteses; de ladrão  de contribuintes, na pior.

Porém, João César Monteiro era alguém fora dos padrões. Ele pretendia passar a mensagem de que há textos tão belos que dispensam a imagem. A imagem, dizia ele, distrai, desviando o foco da beleza textual. Ele já contestava a ditadura da imagem para valorizar a beleza da palavra. O público não compreendeu nem aceitou semelhante explicação, o que levou o cineasta a proferir a famosa frase: “eu quero que os portugueses se fodam”.

Naturalmente, se a audácia de fazer um filme auditivo, quase sem imagem, caiu mal, a injúria proferida ao povo não lhe foi perdoada. O caso lavrou muita tinta nos jornais e foi assunto à mesa do café. Num gesto polémico de humor cáustico, o realizador terá enviado uma quantia irrisória ao Estado como “reembolso”, acompanhada de um comentário sarcástico, após o ICAM (atual ICA) ter reduzido o subsídio a metade, após a estreia.

João César Monteiro era um provocador. Hoje, talvez a maioria sorria ao lembrar-se deste episódio; na época, foi considerado persona non grata. Efetivamente, num dos seus filmes, ele usa a frase em relação ao dinheiro que lhe dão: “Eu vou gastá-lo mal.” César Monteiro teve talento para o gastar mal.

Foi ele o autor do documentário de Sophia, realizado no Algarve, numas férias da família. O realizador ligou à poeta (Sophia queria ser chamada de poeta e não de poetisa) e esta acedeu, convidando-o para ir ter ao Algarve. Numa das cenas, grava a família no mar. Acontece que uma das familiares não mergulhava como Monteiro pretendia. Ele entrega a câmara ao barqueiro e atira-se à água para exemplificar. Conseguiu mergulhar, mas tardava regressar à superfície. É, então, quando um tio do Martim comenta: “Se calhar, ele está a afogar-se”.  O pai e o tio do maestro mergulham e, na verdade, salvam o cineasta. Refeitos do susto, o realizador esclarece que não sabia nadar! Será difícil compreender o que lhe terá passado pela cabeça para se atirar à água sem saber nadar. Deve ter contado com a perícia dos nadadores, mas arriscou-se bem!

 Esta e outras narrativas serviram para mostrar como somos feitos de histórias e como, nalguns casos, se atinge a imortalidade. Um homem só está morto quando não houver mais ninguém que dele se lembre. Quando lembramos os nossos mortos ao partilhar uma história comum, estamos a fixar a memória deles e a torná-los imortais. Os grandes artistas são recordados com uma certa nostalgia, até por aqueles que não os conheceram, e muitos são idolatrados post-mortem. Foi o que ocorreu com este cineasta português. Após a morte, a irreverência foi catalogada como genialidade e os críticos de cinema internacionais, principalmente os franceses, compararam-no a Jean-Luc Godard.

São vários os exemplos em que o reconhecimento maior chega após a morte, basta-nos pensar em Pessoa. No entanto, para nós, comuns mortais, a imortalidade nesta vida é menor e vem com prazo. Duraremos até que os nossos familiares e amigos se lembrem de nós. Quando formos apenas um nome perdido numa genealogia encomendada, sem que ninguém dê por nós, chegamos ao fim. Teremos alcançado o chão do mar, onde César Monteiro correu o risco de repousar.

 

Nina M.

 

 

 

sábado, 11 de abril de 2026

Crónica de Maus Costumes 463

 

Viagens e cansaços

               A fadiga é muita e só por comprometimento alinhavo meia-dúzia de palavras. A leitura da crónica de Gonçalo Cadilhe, conhecido pela sua escrita de viagem, deixou-me a pensar.

            O autor, pródigo andarilho e que conhece o mundo nos seus infinitos recantos, afirma que muito lhe falta conhecer, ainda. Imediatamente estabeleço comparações. Se este homem tece esta constatação que direi eu? Só poderia considerar-me uma analfabeta de mundo. Conheço algumas coisas, mas ao pé deste viajante, o que conheço caber-lhe-á no bolso de um casaco.

            Surpreendeu-me, por isso, o conceito do síndrome de Stendhal, que desconhecia, por completo. O próprio autor que deu nome à “doença” o clarificou: o desânimo e a tristeza sentidos quando, na primeira viagem a Florença, se apercebeu de que o tempo de que dispunha era manifestamente insuficiente para albergar tanta descoberta e conhecimento. O ser sente-se incompetente para conseguir apreender tudo o que os sentidos lhe fazem chegar. Aí, surge a comoção.

Compreendo bem Stendhal, porque Florença causou-me o mesmo impacto. E, agora, Praga. São aqueles lugares com os quais nos identificamos de imediato, como se, de alguma forma, o nosso ser ali tivesse pertença. Não acontece com todos os locais, por mais belos que estes possam ser. Há uma espécie de magia que nos liga por um fio invisível a sítios que visitamos pela primeira vez. A riqueza despretensiosa destas cidades acolhedoras agrada-me, assim como a alegria traduzida em conversas na rua, uma certa boémia que lhes confere charme.

            Pelos vistos, ao Cadilhe, terá sido o Egipto a causar-lhe o mesmo efeito. Não nego, à partida, o que desconheço, mas não me imagino propriamente apaixonada por este país, apesar da sua importância para a história da humanidade e da biblioteca de Alexandria.

            Certo é que viajar é sempre prazeroso e o contacto com a realidade de outro país e de outros povos permite criar empatia pela diferença, aprender a respeitar outras culturas, enfim, a saber viver num mundo cada vez mais global.

            É o medo do outro que origina a discriminação, mas quando compreendemos que o forasteiro não vem para subtrair, mas para somar, passamos a olhar o mundo por outro prisma.

            Viajar é bom e a “democratização” das viagens de avião, uma benesse que não se pode perder.

 

Nina M.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sábado, 4 de abril de 2026

Crónica de Maus Costumes 462

 

Páscoa e memórias

            Entramos na Páscoa. A memória mais recuada que tenho atira-me para um domingo de Páscoa cuja tarde foi passada em casa da minha avó. Deveria dizer casinha. Abrigo de pobres, construída sabe-se com que sacrifício!

            A casa tinha rés-do chão e primeiro andar. Em baixo, aquilo que se chamava de lojas: dois compartimentos que poderiam servir de arrumos para lenha. Talvez a minha avó tivesse aí o seu tear para fazer as mantas e as colchas de rei. Estas eram tecidas com fios brancos, com uma coroa ao centro. Tenho uma feita por ela - e tenho, também, os brincos com que sempre a vi. Raramente os uso porque são difíceis de colocar. Apertam ao contrário. Porém, em ocasião de festa mais especial, gosto de os usar.

As memórias que tenho não me permitem ver o tear nesse local, porque nessa altura, a minha avó já passava o dia em casa dos meus pais e só iam à noite para a sua casinha, pelo que o tear foi montado lá. Ainda bebé, a minha avó punha a alcofa no estrado e eu dormia o dia todo ao som da batida do tear e das canelas a deslizarem pelos fios. Dizem que à noite ninguém me aguentava! Não dormia e berrava. Eu digo que me faltava o barulho do tear, mas nunca ninguém se lembrou de ir experimentar.

Era para essa casinha, já um pouco mais crescida, que os acompanhava e dormia no meio dos dois, da avó Matilde e do avô António, e tenho tão presente pôr cada uma das minhas pernas em cima deles e de dizer: esta é do avô (a esquerda) e esta é da avó (a direita). Sei que às vezes, talvez, no tempo mais quente, o avô ia dormir para a outra cama.

            Em cima, a casa tinha a cozinha com a pedra do lar para pôr os potes, um quarto e uma sala onde também cabia uma cama. Quer a porta da cozinha quer a da sala, nas extremidades da casa, davam para o pequeno quintal que tinham. A memória mais antiga que tenho da Páscoa foi passada nesta casita, onde se esperou uma tarde inteira pela visita do compasso, com a mesa posta, como manda a tradição. Eu e uma saia de bombazina azul-marinho com peito e alças que prendiam com dois patinhos brancos.

            São memórias muito ténues, porque o meu avô ainda era vivo e ele faleceu quando eu tinha, apenas, cinco anos. Lembro-me, no entanto, muito bem do avô António: de estatura média, magro, já calvo e também não sei porquê, mas vejo-o sempre nas suas calças pretas com o balde na mão para pensar as galinhas. No tempo da poda, com as folhas de fiteiras presas nas presilhas das calças para amarrar as vides, empoleirado na escada.

Não me lembro da voz dos meus avós. A avó Matilde era parca em palavras. Sempre um ar austero e grave como se o riso fosse um desconcerto. Muito riso, pouco sizo, diz o ditado. Creio que a avó assim pensava. Eu e os meus irmãos éramos dos seus netos mais novos. A avó tinha imensos netos, mais de vinte, descendência de quatro dos seus filhos. Uma delas é solteira e não deixou prole no mundo.

            O meu avô António teve a infelicidade de ficar órfão de pais aos cinco anos e de ter sido criado por uma irmã mais velha. O desgraçado aos dez ou onze anos começou a servir. A minha avó Matilde é fruto de um casamento em segundas núpcias da minha bisavó Justina, que teve os seus próprios filhos - uma mão cheia deles - e dois enteados para criar. O azar foi tanto que enviuvou cedo e ficou só, naquele tempo, para criar o bando de petizes que tinha a seu cargo.

            Olhando para o par de jarras que eram os meus avós, é caso para constatar que a pobreza casa com a miséria! Só a terceira geração (a minha) largou a pobreza para passar à condição de remediada. Pelo meio, uma exceção que foi a minha mãe, que conseguiu estudar, fruto da ajuda da família Ferreira Gomes. Houve uns anos em que os meus avós foram para a Granja, uma quinta em Bustelo, Penafiel, como caseiros do Dr. Ferreira Gomes. Já lá estava também a tia Emília, meia-irmã da minha avó. A minha mãe sempre dizia que queria ser professora e foi, com a ajuda deles. Depois, os genes devem ter passado porque dois dos seus filhos seguiram-lhe as pisadas.

            Durante muitos anos, já após a morte dos avós, a Páscoa era celebrada em passeio. Sobrava para a tia que, anualmente, se levantava de madrugada para aquecer o forno a lenha e pôr o anho a assar, ainda antes da missa dominical matutina. Depois da eucaristia das 08h00, era todo um afazer de embalar pratos e copos, talheres, mesa e cadeiras, porque o almoço seria o tradicional anho assado, mas em jeito de piquenique. Só de imaginar o labor, a fome encolhe-se. Para nós e para os primos era uma festa. A canalha quer estar junta, porque o mundo dos adultos é sensaborão e sem interesse.

Amanhã, será Páscoa. Agora, mais tranquila e sem arcas atrás, no sossego do lar de todos, que é sempre a casa dos pais. Continua a haver o anho magistralmente assado em forno de lenha. Nem nos melhores restaurantes. O mérito é da mãe e da tia, que às nove horas - ou até antes - estarão a acender o forno para o queimar e deixar com o lastro necessário para meter as grossas pingadeiras com o anho, as batatas e o arroz de forno, obviamente.

Amanhã, será Páscoa e o almoço melhorado. Afinal, Jesus ressuscitou. Aleluia, Aleluia!

 

Nina M.

 

 

 

sábado, 28 de março de 2026

Crónica de Maus Costumes 461

 

O algoritmo decisor

Vamos ver se reproduzo o que já escrevi, mentalmente, ao longo do dia. A propósito de uma conversa sobre Inteligência Artificial (IA) com uma colega, deu-me para pesquisar um pouco sobre o assunto e o que começa a acontecer é uma inversão de papéis no mundo empresarial.

Recentemente, foi lançado o projeto Rentahuman.ai (o Marketplace gerido por IA), que funciona assim: uma empresa - ou até outra IA - define um objetivo, por exemplo, criar uma campanha de marketing em Portugal. Para o alcançar, o agente de IA, portanto, o algoritmo da plataforma analisa o mercado, publica a vaga, entrevista os candidatos humanos, define o salário conforme o mercado e contrata o gestor humano. Este, por sua vez, reportará o progresso alcançado à IA e se os indicadores de desempenho não forem atingidos, o humano pode ver o seu contrato renegociado ou automaticamente terminado pelo agente IA. Na prática, significa isto: o humano trabalha e presta contes ao algoritmo. A máquina a comandar o homem; a criação a tomar conta do criador.

A chinesa NetDragon inverteu o sistema. Colocou a IA Tang Yu a planear a captação de talentos. Identifica onde há falhas de competência na empresa e emite ordens de contratação para os Recursos Humanos, que executam as estratégias definidas pelo algoritmo. É aqui que nos encontramos e será um pouco difícil imaginar onde estaremos daqui a 15 anos.

Depois, tropecei numa notícia que dava conta de um robô - ou humanoide, se preferirmos - concebido para fazer companhia a senhoras solitárias ou menos solitárias, dependendo da sua vontade, dotados de falo, na verdade, um falo enorme de 30 centímetros, ajustável ao gosto da compradora! Fiquei a magicar que nenhuma mulher precisa de tal e que será desconfortável e contraproducente! Mesmo na engenharia, o tamanho continua a ser a grande obsessão masculina! Esta ideia de jerico só pode ter vindo de um homem! Confirmadíssimo: recorri à IA para saber a informação. O modelo, Henry, foi criado por Matt McMullen.

O humanoide é “construído” ao gosto do cliente, que pode escolher traços de personalidade - timidez, intelectualidade, romantismo. Está programado para aprender com as conversas. Memoriza factos e preferências o que lhe permite desenvolver a interação. É capaz de falar, de contar piadas e até de recitar poesia. O cliente pode “trocar módulos” sem precisar de comprar um robô novo: muda o rosto, por exemplo, revestido de silicone de platina, o mesmo que é usado em próteses médicas, capaz de reter o calor se o sistema de aquecimento interno for ativado.

Este mundo novo levanta questões éticas enormes: o perigo da desumanização das relações. Habituar-se a um “parceiro” que não tem vontade própria e diz sim a tudo, diminui a capacidade de lidar com a complexidade do outro e há a privacidade: a intimidade com um robô cheio de microfones e de câmaras, que processa dados na nuvem gera um nível de exposição sem precedentes. Quem responsabilizar se as conversas íntimas forem “hackeadas”?

Não me seduz este “admirável mundo novo”, mas lembro-me das palavras do sábio Agostinho da Silva: chegaria o dia em que o homem não precisaria de trabalhar, porque seria substituído pelas máquinas - que o homem não foi feito para trabalhar, mas para criar. Esse tempo já esteve mais longe. São assim os visionários. Capazes de prever muito antes o que acaba por suceder.

Dentro de poucos anos, o trabalho será residual - o novo luxo. A maioria viverá de um rendimento individual atribuído pelos governos, fruto da tributação das empresas. Teremos de preencher o vazio existencial deixado pela ausência de trabalho e de encontrar um sentido e propósito para a vida. Os criadores estarão em vantagem. Libertos das questões pragmáticas da vida, poderão dedicar-se aos seus delírios.

Eu, que já trabalho há 28 anos, se a renda anual me permitir viajar de vez em quando, com a leitura, a escrita e alguma prática desportiva, arranjo-me bem. Se o robô doméstico se tornar acessível e fizer a lida da casa, melhor ainda. Posso sempre dar-lhe aulas enquanto ele me passa a roupa a ferro ou me limpa as casas de banho.

Em alternativa, podemos tentar extrair água em Marte e arranjar maneira de começar tudo de novo noutro planeta, mantendo a humanidade mais ou menos como sempre foi - com exceção da sua tendência para arranjar conflitos armados. De hoje para amanhã, ainda andamos à paulada aos humanoides e temo que não ganhemos a guerra.

Tudo isto me assusta, mas em simultâneo, desperta-me uma curiosidade enorme. Quero estar cá para observar a mudança e fazer como Ricardo Reis, porque sábio é aquele que se contenta com o espetáculo do mundo!

Para terminar em beleza, não posso deixar de pedir à IA que seja o meu leitor beta. Já vos conto as novidades. Propôs uns reajustamentos - uns aceito; outros ignoro. Nunca é de desprezar a ajuda do maquinismo e, como é expectável, as críticas são sempre positivas.

 

Nina M.

 

 

quinta-feira, 26 de março de 2026

Assalto

Quando me assaltaram
O meu coração estilhaçou-se no chão
Não me levaram nada
Exceto a minha própria presença

Fiquei assim desamparada
Como ramo fustigado
Em noite de invernia

Sempre à espera da próxima primavera

sábado, 21 de março de 2026

Crónica de Maus Costumes 460

 

A dor e o esquecimento

               Dei comigo a pensar em Fernando Pessoa e na sua necessidade de se refugiar na infância, mesmo que esta fosse literariamente recriada – a da sua poesia, para obliterar a sua dor de pensar.

Na verdade, ele teve um tio muito fanfarrão e bom contador de histórias que o acompanhou na viagem de navio para a África do Sul e o entreteve durante o percurso. O próprio Pessoa, ao que parece, gostava de pregar partidas. Certo dia, terá posto uns transeuntes à procura de uma moeda que lhe teria caído sem cair, mas para o poeta do “mito é o nada que é tudo”, não espanta que gostasse dessas brincadeiras. Bastará lembrar do simulacro do suicídio do mago britânico Alesteir Crowley, em que Pessoa esteve envolvido. Independentemente das razões que terão motivado a encenação, Pessoa ter-se-á divertido. Fala-se de golpe publicitário para o inglês vender os seus livros, já que andava mal de finanças; equaciona-se a iniciação de Pessoa na corrente esotérica de Crowley e até quem sugira uma cortina de fumo que terá permitido ao mago encontros de espião. Uma semana mais tarde, Crowley foi visto em Berlim e as investigações cessaram. Certo é que a infância surge como o paraíso perdido e irrecuperável, o tempo mítico da felicidade que não voltaria a viver.

Depois, surge-me o reino maravilhoso de Miguel Torga, encravado entre fragas nuas e inóspitas. Uma meninez de escassez e de miséria, de tempos difíceis e uma infância curta, visto que aos 13 anos embarcaria para o Brasil para trabalhar na fazenda do seu tio. Regressaria aos 18, com uma vida precoce marcada pelo trabalho. Quem lê a sua autobiografia romanceada, A Criação do Mundo, encontra, nas primeiras páginas, a nostalgia da infância, através da longa rememoração efetuada pelo narrador. Lobo Antunes, escritor cru e duro, não omite a ternura nas suas memórias de infância junto dos avós, nem Saramago, apesar da dor da injustiça social. As páginas dedicadas ao avô Jerónimo, o homem mais sábio que conheceu, apesar de analfabeto, comprovam-no. Por fim, basta analisarmos a nossa própria experiência. A infância surge sempre doce e distante da dor e quando a evocamos, se fôssemos filmados ou fotografados, ver-nos-iam com um sorriso aparvalhado de quem não pensa em coisa nenhuma, mas se encontra fora deste mundo.

Há uma explicação para a doçura nostálgica: o nosso cérebro tende a fazer com que as emoções negativas associadas a uma memória desapareçam mais rapidamente do que as positivas. É um mecanismo de autopreservação e de sobrevivência. Se nos lembrássemos de todas as dores ou medos infantis, o trauma seria paralisante. Precisamente por isto, a gente que passou por traumas terríveis na sua infância precisa de ajuda especializada para os superar. O esquecimento é, por isso, um bem. Organizamos as memórias de modo a criarmos uma narrativa onde somos os sobreviventes, em que os tempos difíceis realçam a nossa resiliência ou o carinho e proteção dos que amamos. Construímos a nossa própria narrativa adocicada.

Na idade adulta, o mecanismo continua a funcionar, com algumas nuances. O cérebro não apaga o facto, mas reduz substancialmente a carga negativa. Só por isso somos capazes de nos rirmos, no ano seguinte, de umas férias que tenham corrido muito mal. Manter a dor emocional viva consumir-nos-ia a energia mental e bloquear-nos-ia os passos. O nosso cérebro transforma os momentos maus em aprendizagem ou lições de vida e guarda, preferencialmente, os sucessos. No entanto, em casos de trauma severo, o cérebro mantém a memória negativa profundamente ativada e, por isso, há situações em que a doçura não nos abraça facilmente e a memória queima como uma casa em chamas.

Recuperemos, por isso, os momentos inocentes e puros da infância ou, em alternativa, banhemo-nos no rio Lima, que já foi confundido com o Letes pelas legiões romanas, desde que o comandante Décimo Júnio Bruto não esteja do outro lado da margem a chamar-nos pelo nome.

 

Nina M.

 

 

 

 

 

sexta-feira, 20 de março de 2026

Há tristezas que se sentam

Há tristezas que se sentam
À mesa
E dormem connosco
Na cama

Fazem-nos calos na alma
Entumescem-nos a carne

Para, ao acordar, sabermos
Que há vida em nós

sábado, 14 de março de 2026

Crónica de Maus Costumes 459

 

Memórias de um país distante

Assaltam-me memórias. Interrogo-me sobre as memórias que povoarão as novas gerações. Certamente distintas. Certamente importantes. Espero que igualmente lúcidas.

As minhas retratam um Portugal esquecido, já, algo bafiento e muito provinciano. Nem sabíamos que o éramos! A nossa visão de mundo era do tamanho do que os olhos alcançavam e do que a ingenuidade permitia, para o bem e para o mal. As minhas memórias não são cosmopolitas. Pertencem, ainda, a um mundo rural que já não encontro nem nas profundezas da ruralidade. Não porque os meus pais possuíssem terras, além do pequeno quintal que rodeava a casa. As tarefas agrícolas eram poucas e eu era-lhes poupada. Nunca gostei da sensação de secura que fica nas mãos depois de mexer na terra-as luvas são uma modernice- ou depois do manejo da enxada. Talvez haja quem não saiba que os homens cuspiam nas mãos e as esfregavam energicamente uma contra a outra para as humedecer e amolecer os calos, retirar-lhes a aspereza que sobrava da jorna. As únicas leiras que sirvo para talhar são as das palavras. Porém, não esqueço. O trabalho miúdo de apanhar o bago para a prensa, já em dias outonais, tantas vezes molhados, melancólicos e frios. Maldizia comigo os adultos que punham a catraiada a apanhar bagos. Que interesse haveria em fazer mais meia-dúzia de garrafas de vinho era o que não entendia. Se ainda fosse bom! A sua maior qualidade seria a ausência de aditivos e nem assim, porque o sulfato era sagrado. Uma zurrapa que dali resultava, mas que só quem já tinha passado mal poderia compreender a necessidade de evitar qualquer desperdício. Por isso, todo o bago se apanhava.

Ouço ao longe o aproximar do carro de bois. Não tínhamos bois. Eram do senhor Casimiro que fazia as terras do senhor Alão. Aproveitei a boleia uma ou duas vezes enquanto brincava com a suas netas, gaiatas mais ou menos da minha idade. Para lá o carro ia vazio e a canalha empoleirava-se numa algaraviada que acompanhava o solavanco das rodas sobre o alcatrão esburacado. Em simultâneo, ouço o tio Manel, acabado de chegar da França, a resmungar do estado do piso. Parece impossível que esses filhos – já perceberam o restante - não componham a estrada! Chega-se a Portugal e é um tam-tam-tam, tam-tam-tam! Depois, os bois sobre os sulcos do caminho de terra para chegar ao campo. Hora de apear. À vinda, o trajeto era feito a pé. O carro transportava ora o milho ora o pendão ora a erva. O que fosse. E eu trazia, por vezes, a brisa e a coceira de passar entre os carreiros das espigas ou dos feijões. Quando havia sede, a bica sobre o tanque grande era incansável e a água fresca. O calor talvez desse vontade de fazer do tanque piscina, mas ninguém o usava para esse fim. Não ia sempre para o campo. Às vezes, as raparigas lá podiam ficar a brincar em minha casa, mas se a jeira fosse mais longa que o habitual… Ala! Lá iam as moças contrafeitas. Era bem melhor brincar às casinhas ou ao elástico ou ao esconde-esconde.

A voz dos adultos torna-se clara e ouço o Sininho a contar e a rir-se que nem um perdido que o Severinho, seu irmão, lhe jurara a pés juntos ter ouvido o padre dizer na missa “o comunismo esteja convosco” em vez do habitual “o Senhor esteja convosco”. O irmão não acreditou, pois claro. Tal tirada não tinha qualquer nexo, ainda que o senhor padre não fosse propriamente escorreito. E lá lhe dizia para ele não dizer isso a ninguém. O Severinho, já com uma certa idade e com problemas de audição, chamava a mulher para confirmação. Olha lá, diz lá tu o que é que o padre disse, hoje, na missa. Ela, coitada, o mal da surdez deve-se-lhe ter pegado e confirmava: “o comunismo esteja convosco!”

O Sininho ria-se como um perdido, até às lágrimas, porque não achara meios de convencer o irmão, que não ia à missa com o padre. Cristão cumpridor das suas funções, sabendo da avareza do prelado, fazia questão de lhe pagar a côngrua no último dia de dezembro. O pároco era carne de pescoço e a velhice talvez o estivesse a tornar avarento ou apenas a agravar-lhe os sintomas. Havia paroquianos que não lhe atendiam aos caprichos que consideravam insustentáveis e um contratestemunho de fé. De modo que o Severinho jurava a pés juntos que se o padre passasse por ele na rua e lhe estendesse a mão para o cumprimentar, que lhe responderia: “Mão de porco só cozida!” O irmão bem tentava contemporizar e acalmar-lhe os ânimos, mas não havia meio. O mesmo Severinho veio, certa vez, regalado de uma tarde de passada na discoteca para celebrar qualquer data que não me recordo! Surdo como uma porta, a música aos brados não lhe fez impressão e dizia à boca cheia que tinha julgado mal aqueles lugares, mas que afinal se estava lá muito bem…

Eu ouvia estas e outras histórias, enquanto saboreava a broa que o sininho me dava, enquanto esperava com o meu pai que a mãe terminasse o serviço na Junta. A mulher tirou a carta, mas não conduzia. Entretinha-se à conversa com o Sininho, na mercearia. Eu sempre às espreita, porque, às vezes, lá calhava de passar por lá o Nero, o mendigo cordial, mas de quem eu fugia como o diabo da cruz.

Ouço o tossicar do Lino das Toiras que me ouve no caminho, de mão dada com a avó, a caminho da sua casa, e como o silêncio me era uma ideia estranha, nesse tempo, me perguntava, invariavelmente: “Já vais, minha papagaia?!” Ao Lino das Toiras entrou-lhe uma vaca telhado adentro, durante a noite. Foi um rebuliço. O meu avô e outros homens a pé. Atrás da vaca, talvez… Eu não dei por nada. No sono profundo, se um terramoto vier, ficarei soterrada.

Vem-me a voz da senhora Margarida, a imagem já não me é nítida. Vejo o vulto de preto, a subir as escaditas de pedra para casa. Mulher má com os próprios filhos e que maltratava o cão. Coitadinho do bicho. Nem nome tinha.  Preso à casota por um cadeado curto. Batia-lhe, por vezes. Só lhe dava caldo que o bicho não comia. Queria que comesse a batata do caldo. Aqueles olhos tristes do animal, a quem ela dizia, num tom raivoso, que era fidalgo. A senhora Margarida tinha uma fúria muito grande dentro de si que a inocência não permitia compreender. E nós, miúdos, a assistir àquilo remoídos… Raios partam a velha, má como as cobras! E a nós ainda nos deixava brincar na sua eira! Outros quaisquer eram corridos sem dó nem piedade. Lá nos devia achar educados… Aguentou-se numa velhice prolongada, mas nem os filhos lhe poupavam as palavras e apelidavam a mãe de ser muito mazinha. Era.

Estas pessoas poderiam ser personagens de um conto do Torga, o retrato de um Portugal distante e rude, longe dos centros urbanos que, ainda assim, não escapavam à pequenez de um país por se cumprir. Talvez sejamos a última geração com memórias semelhantes. Aquela em que, na escola primária (era assim chamada), as enfermeiras apareciam para vacinar a catraiada. Tudo em fila. Eu escapava. Felizmente, a minha mãe levava os filhos ao centro de saúde e poupava-nos à vergonha de deixar um pouco da nalga ao léu, à frente de todos, para levar com a seringa. Era isso e os comprimidos de flúor. A escola sempre foi pau para toda a colher!

Não sei que memórias guardará a juventude. Não serão mais as de um Portugal tão provinciano quanto o meu, mas que ainda assim, me faz sorrir!

 

Nina M.

 

 

 

 

terça-feira, 10 de março de 2026

Exílio

Há dias de exílio
Nortadas que tombam
Os corpos por terra
Dias de cicatrizes fechadas
Quem se é após a sobrevivência
A duros golpes
Não é mais quem se foi
Descobrir o lugar de pertença
Nos lugares e gentes
E saber-se não ser dali

Sobra o vazio por acúmulo
De feridas e dor
O embotamento
Um corpo fechado
A defender-se sem esbracejar
E no fim das penas
Nâo sem pesar
Resta ir