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sábado, 29 de novembro de 2025

Crónica de Maus Costumes 444

 

 Uma árvore que cai faz mais barulho do que uma floresta que cresce

               Ouço a notícia do agente da PSP e dos militares da GNR que escravizavam os imigrantes, depois, junta-se a notícia dos onze bombeiros que decidiram sodomizar o colega, ainda rapazito jovem… Que diabo se passa com esta gente? Não sei como se deixa tanto mal criar-se em nós. A maldade faz-me sentir impotente. Felizmente, meia-dúzia de meliantes não põem em causa uma classe inteira.

 Quando soube da prisão preventiva de um sujeito conhecido por suspeita de crimes de associação criminosa, fraude fiscal qualificada, falsificação de documentos e de branqueamento de capitais, lesando pessoas e o Estado em cinco milhões e meio de euros, eu já só penso que, pelo menos, este e os seus compinchas, porque há mais falsários envolvidos, não exploraram violentamente ninguém…

            Cismo no mundo em que vivo e a fúria ataca-me e, juntamente com este tempo cinzento, tempo de chuva, tempo húmido e frio, fico mal-humorada. Imagino a habitação social que se poderia construir com esse dinheiro, para que os jovens possam ter a sua independência e construir família mais cedo e penso, sobretudo, em quantos outros cinco milhões e meio esvoaçam na economia paralela para manter vidas, às vezes, pornograficamente faustosas de que ninguém necessita, sem o mínimo pudor, a mínima consciência social, a mínima noção de que todos, todos, todos, devemos contribuir para uma sociedade melhor, porque a sociedade evoluída é aquela em que todos cuidam de todos. Olhar o mundo e ver que há gente tão desumanamente e miseravelmente estúpida, que não vê além do seu umbigo, ensandece-me! Porém, não me compadeço deles. Compadeço-me daqueles que lhes são próximos e são arrastados para esse lodaçal, sem responsabilidade. Dos desonestos, por ambicionarem excessivamente mais do que aquilo que necessitam, por mera vaidade, ou dos cruéis, não sou capaz de sentir misericórdia. Que cada um colha aquilo que plantou e veja a justiça a funcionar.

Ouvir notícias, hoje, é uma prova de resistência à sanidade. Se partirmos para o panorama internacional, então, a ação humana fede: a invasão russa da Ucrânia; a guerra entre Israel e Palestina, com milhares de mortos e bloqueios à ajuda humanitária; o genocídio e a guerra civil no Sudão; o domínio de gangues e massacres no Haiti; censura e crimes de lesa-humanidade na Nicarágua; perseguições e prisões políticas na Venezuela; intensificação da repressão na Bielorrússia; perseguição dos uigures na China; extinção dos direitos das mulheres pelo regime talibã no Afeganistão; violência do narcotráfico no México e no Brasil; sequestros e massacres de cristãos na Nigéria e Moçambique, entre muitas outras que, certamente, me faltará designar.

Maioritariamente, não ligo a televisão. Pouco vejo e o que vejo é porque alguém da casa a ligou. Se estiver só, faz-me companhia o silêncio, o livro ou programas radiofónicos que abraçam a cultura ou me envolvem numa boa conversa, enquanto trato de tarefas domésticas, porque em minha casa, em catraia, nunca fui tratada com o síndroma da princesa e, como tal, lá cumpro com a regra de que quem usa ou suja limpa. Mais depressa me colariam à pele o síndroma da gata borralheira para aprender que a vida se leva com esforço, trabalho e empenho. As mulheres da minha família sempre foram muito kantianas sem sequer imaginarem o que isso significa. A moral cristã do trabalho, também, lhes foi bem passada e eu… Mais calaceirita me confesso, porque nos meus devaneios reflexivos reconheço o papel produtivo do ócio e, à boa maneira do pós-modernismo, abraço a ideia de que o trabalho é necessário com conta peso e medida e que romantizar os que trabalham em excesso é contribuir para a normalização dos esgotamentos, a doença do século. De modo que enquanto atimo as lides caseiras, procuro consolo nesses placebos que se revelam eficazes enquanto duram e me ajudam a não perder totalmente a fé na humanidade.

Hoje, no “Vencidos” de Luís Osório, fiquei a conhecer um pouco melhor Luís Portela, o homem que foi médico durante três anos, seis anos professor universitário e aos 27 anos assumiu a presidência da Bial. Em 1994, criou a fundação Bial, que atribui inúmeras bolsas para investigação na ciência e inúmeros prémios, alguns bem chorudos, na área da saúde. Ouvir este homem falar do seu sentido de vida, apesar de ter uma vida confortável e economicamente abastada, que se sente feliz quando recebe e-mails de doentes a agradecer-lhe a descoberta do medicamento que lhes permitiu controlar a epilepsia ou ouvi-lo dizer que diariamente procura ser melhor do que aquilo que foi no dia anterior e que esse caminho de aperfeiçoamento deverá ser um propósito ou, ainda, o cuidado que punha na escolha dos trabalhadores da Bial, desde o cientista à senhora da limpeza, pois é preferível escolher um bom ser humano, ainda que menos evoluído tecnicamente, do que um técnico excelente, mas de má índole, é um verdadeiro bálsamo que minimiza as iniquidades a que vamos assistindo neste mundo. São estes seres que, ainda, permitem alguma fé na humanidade e, tal como ele, também o meu “vencido” preferido é Jesus, ele, homem de ciência, não-religioso, mas absolutamente crente na espiritualidade, ainda entende ser possível que Ele e a Sua mensagem triunfem. Jesus, o maior e melhor líder espiritual, diz ele, apesar de também admirar Confúcio e Buda.

Quando se ouve ou lê gente desta, seres absolutamente admiráveis, quer profissionalmente quer humanamente, aqueles que comecei por referir nos primeiros parágrafos da crónica tornam-se-me tão pequenos, tão desprezíveis e, sobretudo, absolutamente, ridículos! Compraz-se o meu coração por saber de homens que justificam a sua existência. De alguma forma, sereno um pouco e agradeço ao Luís Osório a possibilidade que nos dá de os descobrir. No meio do deserto encontrar um oásis é, seguramente, uma forma de salvação.

Ide ouvir, ide.

 

Nina M.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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