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sábado, 8 de novembro de 2025

Crónica de Maus Costumes 441

                A porta das petições

               Não aprecio por aí além escrever a pedido, mas há certas petições, feitas de modo indireto, que na verdade dissimulam pequenas recriminações, que não me atrevo a ignorar.

            Vá-se lá saber a razão, o meu rapaz decidiu perguntar-me sobre o que tinha sido a crónica, na semana passada, talvez porque se aproximasse a hora de me sentar, para a escrever. Certamente, uma curiosidade inócua, visto que não lê a mãe. Não faltaria mais nada! Não basta ouvi-la quanto mais lê-la! Lá lhe disse o tema, a polarização política a que se assiste no mundo atual. Atira-me com um “isso é bom”! Entenda-se, a temática, não a crónica em si, obviamente. Disse-lhe que foi referenciado no texto. Ainda antes de acrescentar o que quer que fosse, a pequena, a irmã, olha para mim e diz-me que esta semana poderia escrever sobre ela, que estou sempre a falar do Rodrigo… Nem sempre é em tom elogioso, sempre com muito carinho e amor de mãe, é certo, mas isso ela não sabe. Também não me lê. Pergunto-lhe, então, queres que escreva sobre ti?! “Olha, fala que eu te vou buscar as camisolas e que as uso…”

            Lá lhe fiz o reparo que também tem algumas crónicas em que aparece, mas não a convenci. De modo que, minha pequena amorosa ciumenta, a crónica de hoje é tua, da filha que não escolhi, mas que desejei muito e que não trocaria por outra. A Matilde gosta de reconhecimento, sente necessidade de aprovação e gosta de reforço positivo. Não é difícil conseguir fazê-lo. É uma menina empática e sensível, dona de um coração meigo e que se comove facilmente. É criativa e habilidosa. Ao contrário da mãe, que é uma desajeitada, ela tem jeito para tudo: desenrasca-se muito bem nos trabalhos manuais, é uma boa atleta e uma boa aluna. Tem um brio e uma exigência implacáveis consigo mesma e é muito comprometida com o que decida fazer. A minha menina é aquela pequena ansiosa para quem falhar é insuportável. É assim desde pequenina. Ainda no infantário, fui obrigada a ligar à educadora para lhe dizer que havia dias em que os pais não a conseguiam levar à escola e que precisávamos de recorrer à ajuda do tio. Ainda hoje, quando é preciso, entreajudamo-nos e levamos filhos e sobrinhos, de modo que se acontecesse, de um dia por entre outro, a Matilde chegar ligeiramente mais tarde, a responsabilidade não seria dela. A educadora Denise (beijinho para ela), quando alguns meninos se atrasavam muito, brincava com eles e perguntava-lhes: “Já chegaste, ó turista?” A Matilde, só de pensar que poderia chegar um pouco depois e ouvir a educadora chamar-lhe turista, entrava em sofrimento sério. Teve de me ouvir falar com a educadora para poder serenar. É a menina ansiosa a quem treme as mãos e dói a barriga em dia de certos testes, apesar de se preparar muito bem e tem de recorrer ao “sedatif”, medicamento natural, recomendado pela pediatra, mais placebo do que outra coisa, para controlar o nervosismo. Já está um bocadinho melhor. É a menina a quem tenho de lembrar que não é obrigada a ter “muito bom” a tudo. Ela diz que sim, que sabe, mas chega ressabiada quando as coisas não correm como deseja e apresenta um oitenta e oito. Para ela, abaixo de noventa não é grande coisa… Se for de oitenta cinco para cima, ainda vai, menos disso fica rezingona, o que lhe vale o epíteto de “aziada”, posto pelo irmão, que não é dessas tolices nem compreende tamanhos desvarios… Tenho o mais relaxado que possa existir e a mais ansiosa. Quem sofre é a mãe, que tem de ser diferente, a mãe que cada um deles precisa é o oposto da outra.

            Esta menina delicada e sensível é, também, alegre, sociável, mas tímida, desenrascada, proativa, mas com pelo na venta. Se lhe dá na veneta, não faz fretes e acabou a conversa! É a minha doçura que em tenra idade gostava de me preparar lanches surpresa e de ver a minha reação de felicidade, que consistia em abraçá-la muito e dar-lhe muitos beijinhos. No fim, perguntava se tinha ficado feliz. Tinha de lhe garantir que sim. Precisava extremamente desse reconhecimento, porque gosta de agradar. É a menina que me pedia abraços. “Dás-me um abraço?”. Dava, claro! Muitos e prolongados, até ela se querer soltar de mim. A adolescência limpou algumas destas características. Os afetos começam a envergonhar-se…

            Matilde, raramente me pedes abraços, agora, e quando os dou não os recusas liminarmente, mas és mais comedida, invadida pela vergonha da adolescência. Não gostas de estar na mesma escola da mãe e ainda menos de seres vista comigo. Assim que estaciono o carro, é ver-te sair porta fora o mais rapidamente que consigas! Eu compreendo, filha. E deixo-te seguir, mas sabes… Tenho saudades dos abraços e das tareias de cócegas e de beijos que vos fazia, antes de vos deitar e de vos ler a história, antes de vos adormecer.

            Quando implicáveis um com o outro para saber a quem pertencia a fatia maior do amor da mãe, eu garantia que era exatamente igual: muito e imensurável. O teu mano, mais pequeno, por falta de melhor argumento, dizia-te que eu gostava dele há mais tempo. Não havia como negar, ele é mais velho. Veio primeiro. Fazer-te entender que a partir do momento em que te aninhaste na barriga da mãe te tornaste igual no amor, não era tarefa fácil. Via sempre uma pequena sombra no teu olhar, uma certa tristeza por não seres a primogénita.

O comentário de hoje é a sombra no teu olhar. Eu sei. O teu irmão exige mais da mãe, consome-lhe mais energia e, de certa maneira, mais atenção. A tua mãe é diferente da mãe do Rodrigo, porque assim tem de ser, mas aborrece-se muito, muito menos contigo e podes ter a certeza de que a medida do amor é a mesma: muito e imensurável.

Aqui tens a tua crónica, minha pequena Mati. Dás-me um abraço?

 

Nina M.

              

           

 

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