A porta das petições
Não aprecio por aí além escrever a
pedido, mas há certas petições, feitas de modo indireto, que na verdade dissimulam
pequenas recriminações, que não me atrevo a ignorar.
Vá-se lá
saber a razão, o meu rapaz decidiu perguntar-me sobre o que tinha sido a
crónica, na semana passada, talvez porque se aproximasse a hora de me sentar, para
a escrever. Certamente, uma curiosidade inócua, visto que não lê a mãe. Não
faltaria mais nada! Não basta ouvi-la quanto mais lê-la! Lá lhe disse o tema, a
polarização política a que se assiste no mundo atual. Atira-me com um “isso é
bom”! Entenda-se, a temática, não a crónica em si, obviamente. Disse-lhe que
foi referenciado no texto. Ainda antes de acrescentar o que quer que fosse, a
pequena, a irmã, olha para mim e diz-me que esta semana poderia escrever sobre
ela, que estou sempre a falar do Rodrigo… Nem sempre é em tom elogioso, sempre
com muito carinho e amor de mãe, é certo, mas isso ela não sabe. Também não me
lê. Pergunto-lhe, então, queres que escreva sobre ti?! “Olha, fala que eu te
vou buscar as camisolas e que as uso…”
Lá lhe fiz o
reparo que também tem algumas crónicas em que aparece, mas não a convenci. De
modo que, minha pequena amorosa ciumenta, a crónica de hoje é tua, da filha que
não escolhi, mas que desejei muito e que não trocaria por outra. A Matilde gosta
de reconhecimento, sente necessidade de aprovação e gosta de reforço positivo. Não
é difícil conseguir fazê-lo. É uma menina empática e sensível, dona de um
coração meigo e que se comove facilmente. É criativa e habilidosa. Ao contrário
da mãe, que é uma desajeitada, ela tem jeito para tudo: desenrasca-se muito bem
nos trabalhos manuais, é uma boa atleta e uma boa aluna. Tem um brio e uma
exigência implacáveis consigo mesma e é muito comprometida com o que decida
fazer. A minha menina é aquela pequena ansiosa para quem falhar é insuportável.
É assim desde pequenina. Ainda no infantário, fui obrigada a ligar à educadora
para lhe dizer que havia dias em que os pais não a conseguiam levar à escola e
que precisávamos de recorrer à ajuda do tio. Ainda hoje, quando é preciso, entreajudamo-nos
e levamos filhos e sobrinhos, de modo que se acontecesse, de um dia por entre
outro, a Matilde chegar ligeiramente mais tarde, a responsabilidade não seria
dela. A educadora Denise (beijinho para ela), quando alguns meninos se atrasavam
muito, brincava com eles e perguntava-lhes: “Já chegaste, ó turista?” A
Matilde, só de pensar que poderia chegar um pouco depois e ouvir a educadora chamar-lhe
turista, entrava em sofrimento sério. Teve de me ouvir falar com a educadora
para poder serenar. É a menina ansiosa a quem treme as mãos e dói a barriga em
dia de certos testes, apesar de se preparar muito bem e tem de recorrer ao “sedatif”,
medicamento natural, recomendado pela pediatra, mais placebo do que outra
coisa, para controlar o nervosismo. Já está um bocadinho melhor. É a menina a
quem tenho de lembrar que não é obrigada a ter “muito bom” a tudo. Ela diz que
sim, que sabe, mas chega ressabiada quando as coisas não correm como deseja e apresenta
um oitenta e oito. Para ela, abaixo de noventa não é grande coisa… Se for de
oitenta cinco para cima, ainda vai, menos disso fica rezingona, o que lhe vale
o epíteto de “aziada”, posto pelo irmão, que não é dessas tolices nem
compreende tamanhos desvarios… Tenho o mais relaxado que possa existir e a mais
ansiosa. Quem sofre é a mãe, que tem de ser diferente, a mãe que cada um deles
precisa é o oposto da outra.
Esta menina
delicada e sensível é, também, alegre, sociável, mas tímida, desenrascada,
proativa, mas com pelo na venta. Se lhe dá na veneta, não faz fretes e acabou a
conversa! É a minha doçura que em tenra idade gostava de me preparar lanches surpresa
e de ver a minha reação de felicidade, que consistia em abraçá-la muito e dar-lhe
muitos beijinhos. No fim, perguntava se tinha ficado feliz. Tinha de lhe
garantir que sim. Precisava extremamente desse reconhecimento, porque gosta de
agradar. É a menina que me pedia abraços. “Dás-me um abraço?”. Dava, claro!
Muitos e prolongados, até ela se querer soltar de mim. A adolescência limpou algumas
destas características. Os afetos começam a envergonhar-se…
Matilde,
raramente me pedes abraços, agora, e quando os dou não os recusas liminarmente,
mas és mais comedida, invadida pela vergonha da adolescência. Não gostas de
estar na mesma escola da mãe e ainda menos de seres vista comigo. Assim que
estaciono o carro, é ver-te sair porta fora o mais rapidamente que consigas! Eu
compreendo, filha. E deixo-te seguir, mas sabes… Tenho saudades dos abraços e
das tareias de cócegas e de beijos que vos fazia, antes de vos deitar e de vos ler
a história, antes de vos adormecer.
Quando
implicáveis um com o outro para saber a quem pertencia a fatia maior do amor da
mãe, eu garantia que era exatamente igual: muito e imensurável. O teu mano,
mais pequeno, por falta de melhor argumento, dizia-te que eu gostava dele há
mais tempo. Não havia como negar, ele é mais velho. Veio primeiro. Fazer-te
entender que a partir do momento em que te aninhaste na barriga da mãe te
tornaste igual no amor, não era tarefa fácil. Via sempre uma pequena sombra no
teu olhar, uma certa tristeza por não seres a primogénita.
O comentário de hoje é a sombra no
teu olhar. Eu sei. O teu irmão exige mais da mãe, consome-lhe mais energia e,
de certa maneira, mais atenção. A tua mãe é diferente da mãe do Rodrigo, porque
assim tem de ser, mas aborrece-se muito, muito menos contigo e podes ter a
certeza de que a medida do amor é a mesma: muito e imensurável.
Aqui tens a tua crónica, minha
pequena Mati. Dás-me um abraço?
Nina M.
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