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sábado, 25 de outubro de 2025

Crónica de Maus Costumes 439

 

A hora do diabo

               Estes tempos não têm corrido de feição. Esta semana o coração dos portugueses congelou com a notícia do assassinato da mãe de Vagos pelo próprio filho menor.

               Impossível ficar indiferente. Impossível não nos lembrarmos de uma série que passou em certo canal e deixou os pais em estado de alerta. Impossível não nos interrogarmos sobre o que se passa com os nossos filhos.

               Este caso tem contornos distintos… O miúdo não reagiu motivado por uma alteração emocional oriunda de uma situação causadora de conflito, por exemplo, não é produto de uma família desestruturada como tantas que sabemos existir, pelos vistos, era afável com os colegas e bom aluno, mas, aparentemente, tudo foi planeado. O último dado que li sobre o caso apontava para o facto de o menino poder sofrer de um transtorno compulsivo-obsessivo e terá chegado muito ansioso e arrependido ao centro educacional onde vai ficar. Espero que sim, que se verifique essa angústia genuína da criança, porque pode significar que ela, ainda, terá salvação. A mãe, que já partiu, quereria, certamente, que o seu menino tivesse salvação e não fosse um monstro. Se isto não se verificar, a pior das hipóteses, é tratar-se de um caso de psicopatia. Os psicopatas não sentem empatia, por deficiência biológica, e não se arrependem. Não são, contudo, inimputáveis, normalmente, pois têm a consciência do bem e do mal, apenas não estremecem perante este último. O arrependimento poderá ser um sinal positivo para este jovem que, apesar do mal, não pode ser abandonado.

               Não imagino o sofrimento do pai e do irmão que, neste momento, por um lado, têm um filho e irmão causador da tragédia familiar e de toda a dor, mas que em simultâneo, continua a ser o bebé que viram nascer e que terá sido criado com amor. Será uma ambivalência de sentimentos e uma fratura de alma que dilacera e destrói, onde o amor se mistura de modo intrincado com dor. Talvez a certeza de que não se poderá votar ao abandono, mas o terrível sofrimento de saber que aquele menino, ainda imberbe, empunhou friamente a arma e disparou pelas costas. Nada nos prepara para isto. Bastou um momento de trevas num coração e tudo ruiu.

               A mãe, a que partiu, no meio da tragédia, talvez seja a menos infeliz. Não viu quem desferiu o golpe nem o olhar glacial de quem carregou no ventre. Não viu o seu menino contra si, a quem já terá tudo perdoado.

               Resta o vazio e a incompreensão, o pesar, o desejo de que todos, sem exceção, se salvem e consigam sobreviver nos meio dos escombros. Será difícil e muito doloroso. Todos eles precisarão de um apoio silencioso e de muito respeito. Não precisam de condenações nem de julgamentos fáceis. Não precisam de comentários recriminatórios que pululam nas redes sociais. Precisam do nosso pesar e do nosso silêncio, da certeza de que o país chora juntamente com eles as dores de cada um.

               A sociedade precisa de começar a olhar mais atentamente para as suas crianças e os pais, particularmente, de tempo de qualidade com elas, com brincadeiras e conversas, mas também com a imposição de limites. Mais lentidão e menos ecrãs vorazes, mais amor. A sociedade precisa, urgentemente, de amor!

               O meu coração enlutou e o miúdo de catorze anos não me sai do pensamento como se fora meu… Há horas do diabo e a tua, pequeno jovem, foi uma delas. E eu quero tanto que te consigas salvar!

 

Nina M.

 

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