A hora do diabo
Estes tempos não
têm corrido de feição. Esta semana o coração dos portugueses congelou com a
notícia do assassinato da mãe de Vagos pelo próprio filho menor.
Impossível
ficar indiferente. Impossível não nos lembrarmos de uma série que passou em
certo canal e deixou os pais em estado de alerta. Impossível não nos
interrogarmos sobre o que se passa com os nossos filhos.
Este
caso tem contornos distintos… O miúdo não reagiu motivado por uma alteração
emocional oriunda de uma situação causadora de conflito, por exemplo, não é
produto de uma família desestruturada como tantas que sabemos existir, pelos
vistos, era afável com os colegas e bom aluno, mas, aparentemente, tudo foi
planeado. O último dado que li sobre o caso apontava para o facto de o menino
poder sofrer de um transtorno compulsivo-obsessivo e terá chegado muito ansioso
e arrependido ao centro educacional onde vai ficar. Espero que sim, que se
verifique essa angústia genuína da criança, porque pode significar que ela,
ainda, terá salvação. A mãe, que já partiu, quereria, certamente, que o seu
menino tivesse salvação e não fosse um monstro. Se isto não se verificar, a
pior das hipóteses, é tratar-se de um caso de psicopatia. Os psicopatas não
sentem empatia, por deficiência biológica, e não se arrependem. Não são,
contudo, inimputáveis, normalmente, pois têm a consciência do bem e do mal,
apenas não estremecem perante este último. O arrependimento poderá ser um sinal
positivo para este jovem que, apesar do mal, não pode ser abandonado.
Não
imagino o sofrimento do pai e do irmão que, neste momento, por um lado, têm um
filho e irmão causador da tragédia familiar e de toda a dor, mas que em
simultâneo, continua a ser o bebé que viram nascer e que terá sido criado com amor.
Será uma ambivalência de sentimentos e uma fratura de alma que dilacera e
destrói, onde o amor se mistura de modo intrincado com dor. Talvez a certeza de
que não se poderá votar ao abandono, mas o terrível sofrimento de saber que
aquele menino, ainda imberbe, empunhou friamente a arma e disparou pelas
costas. Nada nos prepara para isto. Bastou um momento de trevas num coração e
tudo ruiu.
A
mãe, a que partiu, no meio da tragédia, talvez seja a menos infeliz. Não viu
quem desferiu o golpe nem o olhar glacial de quem carregou no ventre. Não viu o
seu menino contra si, a quem já terá tudo perdoado.
Resta
o vazio e a incompreensão, o pesar, o desejo de que todos, sem exceção, se
salvem e consigam sobreviver nos meio dos escombros. Será difícil e muito
doloroso. Todos eles precisarão de um apoio silencioso e de muito respeito. Não
precisam de condenações nem de julgamentos fáceis. Não precisam de comentários
recriminatórios que pululam nas redes sociais. Precisam do nosso pesar e do
nosso silêncio, da certeza de que o país chora juntamente com eles as dores de
cada um.
A
sociedade precisa de começar a olhar mais atentamente para as suas crianças e
os pais, particularmente, de tempo de qualidade com elas, com brincadeiras e
conversas, mas também com a imposição de limites. Mais lentidão e menos ecrãs
vorazes, mais amor. A sociedade precisa, urgentemente, de amor!
O
meu coração enlutou e o miúdo de catorze anos não me sai do pensamento como se
fora meu… Há horas do diabo e a tua, pequeno jovem, foi uma delas. E eu quero
tanto que te consigas salvar!
Nina M.
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