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sábado, 4 de abril de 2026

Crónica de Maus Costumes 462

 

Páscoa e memórias

            Entramos na Páscoa. A memória mais recuada que tenho atira-me para um domingo de Páscoa cuja tarde foi passada em casa da minha avó. Deveria dizer casinha. Abrigo de pobres, construída sabe-se com que sacrifício!

            A casa tinha rés-do chão e primeiro andar. Em baixo, aquilo que se chamava de lojas: dois compartimentos que poderiam servir de arrumos para lenha. Talvez a minha avó tivesse aí o seu tear para fazer as mantas e as colchas de rei. Estas eram tecidas com fios brancos, com uma coroa ao centro. Tenho uma feita por ela - e tenho, também, os brincos com que sempre a vi. Raramente os uso porque são difíceis de colocar. Apertam ao contrário. Porém, em ocasião de festa mais especial, gosto de os usar.

As memórias que tenho não me permitem ver o tear nesse local, porque nessa altura, a minha avó já passava o dia em casa dos meus pais e só iam à noite para a sua casinha, pelo que o tear foi montado lá. Ainda bebé, a minha avó punha a alcofa no estrado e eu dormia o dia todo ao som da batida do tear e das canelas a deslizarem pelos fios. Dizem que à noite ninguém me aguentava! Não dormia e berrava. Eu digo que me faltava o barulho do tear, mas nunca ninguém se lembrou de ir experimentar.

Era para essa casinha, já um pouco mais crescida, que os acompanhava e dormia no meio dos dois, da avó Matilde e do avô António, e tenho tão presente pôr cada uma das minhas pernas em cima deles e de dizer: esta é do avô (a esquerda) e esta é da avó (a direita). Sei que às vezes, talvez, no tempo mais quente, o avô ia dormir para a outra cama.

            Em cima, a casa tinha a cozinha com a pedra do lar para pôr os potes, um quarto e uma sala onde também cabia uma cama. Quer a porta da cozinha quer a da sala, nas extremidades da casa, davam para o pequeno quintal que tinham. A memória mais antiga que tenho da Páscoa foi passada nesta casita, onde se esperou uma tarde inteira pela visita do compasso, com a mesa posta, como manda a tradição. Eu e uma saia de bombazina azul-marinho com peito e alças que prendiam com dois patinhos brancos.

            São memórias muito ténues, porque o meu avô ainda era vivo e ele faleceu quando eu tinha, apenas, cinco anos. Lembro-me, no entanto, muito bem do avô António: de estatura média, magro, já calvo e também não sei porquê, mas vejo-o sempre nas suas calças pretas com o balde na mão para pensar as galinhas. No tempo da poda, com as folhas de fiteiras presas nas presilhas das calças para amarrar as vides, empoleirado na escada.

Não me lembro da voz dos meus avós. A avó Matilde era parca em palavras. Sempre um ar austero e grave como se o riso fosse um desconcerto. Muito riso, pouco sizo, diz o ditado. Creio que a avó assim pensava. Eu e os meus irmãos éramos dos seus netos mais novos. A avó tinha imensos netos, mais de vinte, descendência de quatro dos seus filhos. Uma delas é solteira e não deixou prole no mundo.

            O meu avô António teve a infelicidade de ficar órfão de pais aos cinco anos e de ter sido criado por uma irmã mais velha. O desgraçado aos dez ou onze anos começou a servir. A minha avó Matilde é fruto de um casamento em segundas núpcias da minha bisavó Justina, que teve os seus próprios filhos - uma mão cheia deles - e dois enteados para criar. O azar foi tanto que enviuvou cedo e ficou só, naquele tempo, para criar o bando de petizes que tinha a seu cargo.

            Olhando para o par de jarras que eram os meus avós, é caso para constatar que a pobreza casa com a miséria! Só a terceira geração (a minha) largou a pobreza para passar à condição de remediada. Pelo meio, uma exceção que foi a minha mãe, que conseguiu estudar, fruto da ajuda da família Ferreira Gomes. Houve uns anos em que os meus avós foram para a Granja, uma quinta em Bustelo, Penafiel, como caseiros do Dr. Ferreira Gomes. Já lá estava também a tia Emília, meia-irmã da minha avó. A minha mãe sempre dizia que queria ser professora e foi, com a ajuda deles. Depois, os genes devem ter passado porque dois dos seus filhos seguiram-lhe as pisadas.

            Durante muitos anos, já após a morte dos avós, a Páscoa era celebrada em passeio. Sobrava para a tia que, anualmente, se levantava de madrugada para aquecer o forno a lenha e pôr o anho a assar, ainda antes da missa dominical matutina. Depois da eucaristia das 08h00, era todo um afazer de embalar pratos e copos, talheres, mesa e cadeiras, porque o almoço seria o tradicional anho assado, mas em jeito de piquenique. Só de imaginar o labor, a fome encolhe-se. Para nós e para os primos era uma festa. A canalha quer estar junta, porque o mundo dos adultos é sensaborão e sem interesse.

Amanhã, será Páscoa. Agora, mais tranquila e sem arcas atrás, no sossego do lar de todos, que é sempre a casa dos pais. Continua a haver o anho magistralmente assado em forno de lenha. Nem nos melhores restaurantes. O mérito é da mãe e da tia, que às nove horas - ou até antes - estarão a acender o forno para o queimar e deixar com o lastro necessário para meter as grossas pingadeiras com o anho, as batatas e o arroz de forno, obviamente.

Amanhã, será Páscoa e o almoço melhorado. Afinal, Jesus ressuscitou. Aleluia, Aleluia!

 

Nina M.

 

 

 

sábado, 28 de março de 2026

Crónica de Maus Costumes 461

 

O algoritmo decisor

Vamos ver se reproduzo o que já escrevi, mentalmente, ao longo do dia. A propósito de uma conversa sobre Inteligência Artificial (IA) com uma colega, deu-me para pesquisar um pouco sobre o assunto e o que começa a acontecer é uma inversão de papéis no mundo empresarial.

Recentemente, foi lançado o projeto Rentahuman.ai (o Marketplace gerido por IA), que funciona assim: uma empresa - ou até outra IA - define um objetivo, por exemplo, criar uma campanha de marketing em Portugal. Para o alcançar, o agente de IA, portanto, o algoritmo da plataforma analisa o mercado, publica a vaga, entrevista os candidatos humanos, define o salário conforme o mercado e contrata o gestor humano. Este, por sua vez, reportará o progresso alcançado à IA e se os indicadores de desempenho não forem atingidos, o humano pode ver o seu contrato renegociado ou automaticamente terminado pelo agente IA. Na prática, significa isto: o humano trabalha e presta contes ao algoritmo. A máquina a comandar o homem; a criação a tomar conta do criador.

A chinesa NetDragon inverteu o sistema. Colocou a IA Tang Yu a planear a captação de talentos. Identifica onde há falhas de competência na empresa e emite ordens de contratação para os Recursos Humanos, que executam as estratégias definidas pelo algoritmo. É aqui que nos encontramos e será um pouco difícil imaginar onde estaremos daqui a 15 anos.

Depois, tropecei numa notícia que dava conta de um robô - ou humanoide, se preferirmos - concebido para fazer companhia a senhoras solitárias ou menos solitárias, dependendo da sua vontade, dotados de falo, na verdade, um falo enorme de 30 centímetros, ajustável ao gosto da compradora! Fiquei a magicar que nenhuma mulher precisa de tal e que será desconfortável e contraproducente! Mesmo na engenharia, o tamanho continua a ser a grande obsessão masculina! Esta ideia de jerico só pode ter vindo de um homem! Confirmadíssimo: recorri à IA para saber a informação. O modelo, Henry, foi criado por Matt McMullen.

O humanoide é “construído” ao gosto do cliente, que pode escolher traços de personalidade - timidez, intelectualidade, romantismo. Está programado para aprender com as conversas. Memoriza factos e preferências o que lhe permite desenvolver a interação. É capaz de falar, de contar piadas e até de recitar poesia. O cliente pode “trocar módulos” sem precisar de comprar um robô novo: muda o rosto, por exemplo, revestido de silicone de platina, o mesmo que é usado em próteses médicas, capaz de reter o calor se o sistema de aquecimento interno for ativado.

Este mundo novo levanta questões éticas enormes: o perigo da desumanização das relações. Habituar-se a um “parceiro” que não tem vontade própria e diz sim a tudo, diminui a capacidade de lidar com a complexidade do outro e há a privacidade: a intimidade com um robô cheio de microfones e de câmaras, que processa dados na nuvem gera um nível de exposição sem precedentes. Quem responsabilizar se as conversas íntimas forem “hackeadas”?

Não me seduz este “admirável mundo novo”, mas lembro-me das palavras do sábio Agostinho da Silva: chegaria o dia em que o homem não precisaria de trabalhar, porque seria substituído pelas máquinas - que o homem não foi feito para trabalhar, mas para criar. Esse tempo já esteve mais longe. São assim os visionários. Capazes de prever muito antes o que acaba por suceder.

Dentro de poucos anos, o trabalho será residual - o novo luxo. A maioria viverá de um rendimento individual atribuído pelos governos, fruto da tributação das empresas. Teremos de preencher o vazio existencial deixado pela ausência de trabalho e de encontrar um sentido e propósito para a vida. Os criadores estarão em vantagem. Libertos das questões pragmáticas da vida, poderão dedicar-se aos seus delírios.

Eu, que já trabalho há 28 anos, se a renda anual me permitir viajar de vez em quando, com a leitura, a escrita e alguma prática desportiva, arranjo-me bem. Se o robô doméstico se tornar acessível e fizer a lida da casa, melhor ainda. Posso sempre dar-lhe aulas enquanto ele me passa a roupa a ferro ou me limpa as casas de banho.

Em alternativa, podemos tentar extrair água em Marte e arranjar maneira de começar tudo de novo noutro planeta, mantendo a humanidade mais ou menos como sempre foi - com exceção da sua tendência para arranjar conflitos armados. De hoje para amanhã, ainda andamos à paulada aos humanoides e temo que não ganhemos a guerra.

Tudo isto me assusta, mas em simultâneo, desperta-me uma curiosidade enorme. Quero estar cá para observar a mudança e fazer como Ricardo Reis, porque sábio é aquele que se contenta com o espetáculo do mundo!

Para terminar em beleza, não posso deixar de pedir à IA que seja o meu leitor beta. Já vos conto as novidades. Propôs uns reajustamentos - uns aceito; outros ignoro. Nunca é de desprezar a ajuda do maquinismo e, como é expectável, as críticas são sempre positivas.

 

Nina M.

 

 

quinta-feira, 26 de março de 2026

Assalto

Quando me assaltaram
O meu coração estilhaçou-se no chão
Não me levaram nada
Exceto a minha própria presença

Fiquei assim desamparada
Como ramo fustigado
Em noite de invernia

Sempre à espera da próxima primavera

sábado, 21 de março de 2026

Crónica de Maus Costumes 460

 

A dor e o esquecimento

               Dei comigo a pensar em Fernando Pessoa e na sua necessidade de se refugiar na infância, mesmo que esta fosse literariamente recriada – a da sua poesia, para obliterar a sua dor de pensar.

Na verdade, ele teve um tio muito fanfarrão e bom contador de histórias que o acompanhou na viagem de navio para a África do Sul e o entreteve durante o percurso. O próprio Pessoa, ao que parece, gostava de pregar partidas. Certo dia, terá posto uns transeuntes à procura de uma moeda que lhe teria caído sem cair, mas para o poeta do “mito é o nada que é tudo”, não espanta que gostasse dessas brincadeiras. Bastará lembrar do simulacro do suicídio do mago britânico Alesteir Crowley, em que Pessoa esteve envolvido. Independentemente das razões que terão motivado a encenação, Pessoa ter-se-á divertido. Fala-se de golpe publicitário para o inglês vender os seus livros, já que andava mal de finanças; equaciona-se a iniciação de Pessoa na corrente esotérica de Crowley e até quem sugira uma cortina de fumo que terá permitido ao mago encontros de espião. Uma semana mais tarde, Crowley foi visto em Berlim e as investigações cessaram. Certo é que a infância surge como o paraíso perdido e irrecuperável, o tempo mítico da felicidade que não voltaria a viver.

Depois, surge-me o reino maravilhoso de Miguel Torga, encravado entre fragas nuas e inóspitas. Uma meninez de escassez e de miséria, de tempos difíceis e uma infância curta, visto que aos 13 anos embarcaria para o Brasil para trabalhar na fazenda do seu tio. Regressaria aos 18, com uma vida precoce marcada pelo trabalho. Quem lê a sua autobiografia romanceada, A Criação do Mundo, encontra, nas primeiras páginas, a nostalgia da infância, através da longa rememoração efetuada pelo narrador. Lobo Antunes, escritor cru e duro, não omite a ternura nas suas memórias de infância junto dos avós, nem Saramago, apesar da dor da injustiça social. As páginas dedicadas ao avô Jerónimo, o homem mais sábio que conheceu, apesar de analfabeto, comprovam-no. Por fim, basta analisarmos a nossa própria experiência. A infância surge sempre doce e distante da dor e quando a evocamos, se fôssemos filmados ou fotografados, ver-nos-iam com um sorriso aparvalhado de quem não pensa em coisa nenhuma, mas se encontra fora deste mundo.

Há uma explicação para a doçura nostálgica: o nosso cérebro tende a fazer com que as emoções negativas associadas a uma memória desapareçam mais rapidamente do que as positivas. É um mecanismo de autopreservação e de sobrevivência. Se nos lembrássemos de todas as dores ou medos infantis, o trauma seria paralisante. Precisamente por isto, a gente que passou por traumas terríveis na sua infância precisa de ajuda especializada para os superar. O esquecimento é, por isso, um bem. Organizamos as memórias de modo a criarmos uma narrativa onde somos os sobreviventes, em que os tempos difíceis realçam a nossa resiliência ou o carinho e proteção dos que amamos. Construímos a nossa própria narrativa adocicada.

Na idade adulta, o mecanismo continua a funcionar, com algumas nuances. O cérebro não apaga o facto, mas reduz substancialmente a carga negativa. Só por isso somos capazes de nos rirmos, no ano seguinte, de umas férias que tenham corrido muito mal. Manter a dor emocional viva consumir-nos-ia a energia mental e bloquear-nos-ia os passos. O nosso cérebro transforma os momentos maus em aprendizagem ou lições de vida e guarda, preferencialmente, os sucessos. No entanto, em casos de trauma severo, o cérebro mantém a memória negativa profundamente ativada e, por isso, há situações em que a doçura não nos abraça facilmente e a memória queima como uma casa em chamas.

Recuperemos, por isso, os momentos inocentes e puros da infância ou, em alternativa, banhemo-nos no rio Lima, que já foi confundido com o Letes pelas legiões romanas, desde que o comandante Décimo Júnio Bruto não esteja do outro lado da margem a chamar-nos pelo nome.

 

Nina M.

 

 

 

 

 

sexta-feira, 20 de março de 2026

Há tristezas que se sentam

Há tristezas que se sentam
À mesa
E dormem connosco
Na cama

Fazem-nos calos na alma
Entumescem-nos a carne

Para, ao acordar, sabermos
Que há vida em nós

sábado, 14 de março de 2026

Crónica de Maus Costumes 459

 

Memórias de um país distante

Assaltam-me memórias. Interrogo-me sobre as memórias que povoarão as novas gerações. Certamente distintas. Certamente importantes. Espero que igualmente lúcidas.

As minhas retratam um Portugal esquecido, já, algo bafiento e muito provinciano. Nem sabíamos que o éramos! A nossa visão de mundo era do tamanho do que os olhos alcançavam e do que a ingenuidade permitia, para o bem e para o mal. As minhas memórias não são cosmopolitas. Pertencem, ainda, a um mundo rural que já não encontro nem nas profundezas da ruralidade. Não porque os meus pais possuíssem terras, além do pequeno quintal que rodeava a casa. As tarefas agrícolas eram poucas e eu era-lhes poupada. Nunca gostei da sensação de secura que fica nas mãos depois de mexer na terra-as luvas são uma modernice- ou depois do manejo da enxada. Talvez haja quem não saiba que os homens cuspiam nas mãos e as esfregavam energicamente uma contra a outra para as humedecer e amolecer os calos, retirar-lhes a aspereza que sobrava da jorna. As únicas leiras que sirvo para talhar são as das palavras. Porém, não esqueço. O trabalho miúdo de apanhar o bago para a prensa, já em dias outonais, tantas vezes molhados, melancólicos e frios. Maldizia comigo os adultos que punham a catraiada a apanhar bagos. Que interesse haveria em fazer mais meia-dúzia de garrafas de vinho era o que não entendia. Se ainda fosse bom! A sua maior qualidade seria a ausência de aditivos e nem assim, porque o sulfato era sagrado. Uma zurrapa que dali resultava, mas que só quem já tinha passado mal poderia compreender a necessidade de evitar qualquer desperdício. Por isso, todo o bago se apanhava.

Ouço ao longe o aproximar do carro de bois. Não tínhamos bois. Eram do senhor Casimiro que fazia as terras do senhor Alão. Aproveitei a boleia uma ou duas vezes enquanto brincava com a suas netas, gaiatas mais ou menos da minha idade. Para lá o carro ia vazio e a canalha empoleirava-se numa algaraviada que acompanhava o solavanco das rodas sobre o alcatrão esburacado. Em simultâneo, ouço o tio Manel, acabado de chegar da França, a resmungar do estado do piso. Parece impossível que esses filhos – já perceberam o restante - não componham a estrada! Chega-se a Portugal e é um tam-tam-tam, tam-tam-tam! Depois, os bois sobre os sulcos do caminho de terra para chegar ao campo. Hora de apear. À vinda, o trajeto era feito a pé. O carro transportava ora o milho ora o pendão ora a erva. O que fosse. E eu trazia, por vezes, a brisa e a coceira de passar entre os carreiros das espigas ou dos feijões. Quando havia sede, a bica sobre o tanque grande era incansável e a água fresca. O calor talvez desse vontade de fazer do tanque piscina, mas ninguém o usava para esse fim. Não ia sempre para o campo. Às vezes, as raparigas lá podiam ficar a brincar em minha casa, mas se a jeira fosse mais longa que o habitual… Ala! Lá iam as moças contrafeitas. Era bem melhor brincar às casinhas ou ao elástico ou ao esconde-esconde.

A voz dos adultos torna-se clara e ouço o Sininho a contar e a rir-se que nem um perdido que o Severinho, seu irmão, lhe jurara a pés juntos ter ouvido o padre dizer na missa “o comunismo esteja convosco” em vez do habitual “o Senhor esteja convosco”. O irmão não acreditou, pois claro. Tal tirada não tinha qualquer nexo, ainda que o senhor padre não fosse propriamente escorreito. E lá lhe dizia para ele não dizer isso a ninguém. O Severinho, já com uma certa idade e com problemas de audição, chamava a mulher para confirmação. Olha lá, diz lá tu o que é que o padre disse, hoje, na missa. Ela, coitada, o mal da surdez deve-se-lhe ter pegado e confirmava: “o comunismo esteja convosco!”

O Sininho ria-se como um perdido, até às lágrimas, porque não achara meios de convencer o irmão, que não ia à missa com o padre. Cristão cumpridor das suas funções, sabendo da avareza do prelado, fazia questão de lhe pagar a côngrua no último dia de dezembro. O pároco era carne de pescoço e a velhice talvez o estivesse a tornar avarento ou apenas a agravar-lhe os sintomas. Havia paroquianos que não lhe atendiam aos caprichos que consideravam insustentáveis e um contratestemunho de fé. De modo que o Severinho jurava a pés juntos que se o padre passasse por ele na rua e lhe estendesse a mão para o cumprimentar, que lhe responderia: “Mão de porco só cozida!” O irmão bem tentava contemporizar e acalmar-lhe os ânimos, mas não havia meio. O mesmo Severinho veio, certa vez, regalado de uma tarde de passada na discoteca para celebrar qualquer data que não me recordo! Surdo como uma porta, a música aos brados não lhe fez impressão e dizia à boca cheia que tinha julgado mal aqueles lugares, mas que afinal se estava lá muito bem…

Eu ouvia estas e outras histórias, enquanto saboreava a broa que o sininho me dava, enquanto esperava com o meu pai que a mãe terminasse o serviço na Junta. A mulher tirou a carta, mas não conduzia. Entretinha-se à conversa com o Sininho, na mercearia. Eu sempre às espreita, porque, às vezes, lá calhava de passar por lá o Nero, o mendigo cordial, mas de quem eu fugia como o diabo da cruz.

Ouço o tossicar do Lino das Toiras que me ouve no caminho, de mão dada com a avó, a caminho da sua casa, e como o silêncio me era uma ideia estranha, nesse tempo, me perguntava, invariavelmente: “Já vais, minha papagaia?!” Ao Lino das Toiras entrou-lhe uma vaca telhado adentro, durante a noite. Foi um rebuliço. O meu avô e outros homens a pé. Atrás da vaca, talvez… Eu não dei por nada. No sono profundo, se um terramoto vier, ficarei soterrada.

Vem-me a voz da senhora Margarida, a imagem já não me é nítida. Vejo o vulto de preto, a subir as escaditas de pedra para casa. Mulher má com os próprios filhos e que maltratava o cão. Coitadinho do bicho. Nem nome tinha.  Preso à casota por um cadeado curto. Batia-lhe, por vezes. Só lhe dava caldo que o bicho não comia. Queria que comesse a batata do caldo. Aqueles olhos tristes do animal, a quem ela dizia, num tom raivoso, que era fidalgo. A senhora Margarida tinha uma fúria muito grande dentro de si que a inocência não permitia compreender. E nós, miúdos, a assistir àquilo remoídos… Raios partam a velha, má como as cobras! E a nós ainda nos deixava brincar na sua eira! Outros quaisquer eram corridos sem dó nem piedade. Lá nos devia achar educados… Aguentou-se numa velhice prolongada, mas nem os filhos lhe poupavam as palavras e apelidavam a mãe de ser muito mazinha. Era.

Estas pessoas poderiam ser personagens de um conto do Torga, o retrato de um Portugal distante e rude, longe dos centros urbanos que, ainda assim, não escapavam à pequenez de um país por se cumprir. Talvez sejamos a última geração com memórias semelhantes. Aquela em que, na escola primária (era assim chamada), as enfermeiras apareciam para vacinar a catraiada. Tudo em fila. Eu escapava. Felizmente, a minha mãe levava os filhos ao centro de saúde e poupava-nos à vergonha de deixar um pouco da nalga ao léu, à frente de todos, para levar com a seringa. Era isso e os comprimidos de flúor. A escola sempre foi pau para toda a colher!

Não sei que memórias guardará a juventude. Não serão mais as de um Portugal tão provinciano quanto o meu, mas que ainda assim, me faz sorrir!

 

Nina M.

 

 

 

 

terça-feira, 10 de março de 2026

Exílio

Há dias de exílio
Nortadas que tombam
Os corpos por terra
Dias de cicatrizes fechadas
Quem se é após a sobrevivência
A duros golpes
Não é mais quem se foi
Descobrir o lugar de pertença
Nos lugares e gentes
E saber-se não ser dali

Sobra o vazio por acúmulo
De feridas e dor
O embotamento
Um corpo fechado
A defender-se sem esbracejar
E no fim das penas
Nâo sem pesar
Resta ir

domingo, 8 de março de 2026

Manifesto

 Mulher!


Queriam-te submissa
Ousaste desobedecer

Queriam-te delicada
Ousaste a dureza

Queriam-te útil ao lar
Inventaste a Arte

Queriam-te a mais fiel
Ousaste a traição

Queriam-te contida
Ousaste a excentricidade

Queriam-te inteligência discreta
Derrubaste Academias

Quiseram-te tudo e o seu contrário
Só não te quiseram a ti!

Então...
Vieram as violências
As ignomínias
Força bruta de animais
Irados medrosos
Do que não podem controlar

Apanhaste
Sofreste
Morreste. Tantas vezes.
Uma e outra e mais outra.
Sobreviveste
Não podes calar!

sábado, 7 de março de 2026

Crónica de Maus Costumes 458

 

O despertar de um génio

As notícias desta semana trouxeram a morte de António Lobo Antunes. Nada que surpreendesse muito. Sabia-se que ele tinha uma doença neurodegenerativa. Nem os génios são poupados à demência. Na verdade, nos últimos tempos já não seria o Lobo Antunes. O corpo, sim, mas o ser estaria longe…

Sempre que falo de Lobo Antunes, lembro-me da sua tirada para o pai, que o foi acordar, farto da sua preguiça. Sua excelência não se punha a pé para ir para a faculdade e andou três anos sem pôr os pés num exame! Quando me enervo com o meu filho, lembro-me desta história, porém, o Lobo Antunes era um genial e o meu filho, um simples mortal como a maioria de nós. Irritado com o rompante do pai, Lobo Antunes pergunta-lhe:

- Que foi? Veio assistir ao despertar de um génio?

Lembrava este episódio consciente do seu descaramento e da ousadia próprias de uma juventude, dona de uma ignorância atrevida, mas não deixou de dizer, quando recebeu o prémio da SPA, que já não tinha oportunidade, mas que gostaria de ter dito à mãe que, afinal, é possível viver de livros. Aliás, que um médico do SNS se reforma com cerca de 2 500 euros e que ele ganha bem mais. Afinal, se continuasse médico é que teria de ir vender pensos rápidos para a rua! Tem a sua piada, sim. Os pais que lhe exigiram o curso de medicina, que depois acabou por fazer de uma assentada, primeiro porque a mãe o comprou com a carta de condução e em segundo, porque ele descobriu que se despachasse a coisa, ficava com as férias livres para poder escrever, acabaram por receber uma bofetada de luva branca. O destino do filho era mesmo ser um gigante da literatura. Quando assim é, nada há a fazer. O homem lia aos quatro anos! Aos cinco e aos seis escrevia “romances de duas páginas”, como ele mesmo afirmou!

Tenho pena que o Nobel nunca tenha chegado. Lobo Antunes teve a bênção e a maldição de nascer português! Seria bem merecido, como certamente para tantos outros escritores de países periféricos… A França tem dezasseis laureados, EUA, treze, Reino Unido, doze, Alemanha, nove, Suécia, oito, Espanha e Itália, seis cada, Polónia, cinco, Irlanda, quatro e Rússia /URSS, quatro. Em português, apenas um (José Saramago), tal como Egito, Nigéria e Japão! O facto de haver um único prémio em língua portuguesa é de uma injustiça tremenda! O Brasil tem bons escritores! Um Jorge Amado foi esquecido! Clarice Lispector, o moçambicano Mia Couto, entre outros. Houve contemplados na América latina, na língua espanhola: Gabriel García Márquez (colombiano), Pablo Neruda e Gabriela Mistral (chilenos), Mario Vargas Llosa (peruano). O uruguaio Eduardo Galeano foi esquecido, apesar do seu antiamericanismo e anticapitalismo, tal como o checo Milan Kundera, exilado em Paris, a quem nunca foi perdoado ter virado costas ao regime da ex-União Soviética.

O processo de seleção é complexo. Em cada ano, de setembro a janeiro, a Academia Sueca envia 600 a 700 formulários de indicação para pessoas ao redor do mundo: a Membros da própria Academia Sueca, a membros de outras academias ou sociedades literárias, a professores de literatura e linguística em universidades, ex-laureados com o prémio Nobel, presidentes de sociedades de autores. De fevereiro a abril, a Academia recebe as propostas e filtra cerca de 200 nomes para eliminar repetições e certificarem-se de que os candidatos se integram nos “critérios de excelência idealista” de Alfred Nobel. E a excelência idealista dará pano para mangas… Em Maio, os nomes ficarão reduzidos a cinco, aprovados por todos os dezoito membros da Academia Sueca. De junho a Agosto, os elementos da Academia têm de ler a obra completa dos cinco finalistas e a deliberação chega entre setembro e outubro. Em setembro, reúnem para debater o mérito de cada finalista e a votação é em outubro. O vencedor tem de receber mais da metade dos votos. Finalmente, o anúncio é feito numa quinta-feira de outubro, às 13horas. Todo este processo é envolto no mais absoluto sigilo. Há que admitir que o processo é longo e muito cuidado, mas não impede que injustiças sejam cometidas e que os países mais periféricos sejam mais esquecidos, como se observa pela lista. Percebemos que o processo é também politizado e que a interpretação do conceito de excelência idealista pedida por Alfred Nobel tem mudado ao longo do século. Seja como for, faltou mais um Nobel para Portugal. É caso para questionarmos se a obra de Lobo Antunes não será mais válida do que a de Bob Dylan, literariamente falando, por mais que as letras das suas canções abordem temas ligados à condição humana e tenham qualidade literária!

Lobo Antunes, o romancista polifónico, e do fluxo de consciência, que aborda temas como a memória, a solidão, a guerra colonial, enfim… faz desfilar a solidão radical do indivíduo, as suas máscaras e o que sobra do homem sem elas, a dor profunda e tentativa de colar os próprios cacos, um indivíduo a tentar não se dissolver no caos que é o mundo. Uma leitura densa e difícil, mas que nos confronta com os próprios demónios.

Lobo Antunes partiu sem o Nobel e eu acho profundamente injusto, para ele, para nós, um país pequeno capaz de produzir gigantes e, sobretudo, para a língua portuguesa.

Descanse em Paz, Lobo Antunes, e que Deus lhe faça a vontade e o deixe repousar entre Camões e Vasco da Gama, como escreveu numa das suas belíssimas crónicas e o deixe ter inúmeras conversas com os grandes amigos que foi perdendo (José Cardoso Pires, Vasco Pulido valente e Eduardo Lourenço, para além do irmão e pais, naturalmente). Frei Bento Domingues, ainda por cá se aguenta, apesar dos seus 91 anos. Rezará pelo amigo, mas não o visitará na tumba, já que lhe disse, certa altura, que nenhum morto se encontrava no cemitério.

Com tristeza, assistimos à partida de um génio com a esperança de que possa ser o despertar para outra coisa ainda e essa coisa é que é linda, para parafrasear Pessoa.

 

Nina M.

 

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Crónica de Maus Costumes 457

 

Amor maior

               O mundo anda louco, filha. O dia em que fizeste 15 anos fica marcado pelo ataque conjunto dos EUA e de Israel ao Irão. Obviamente, as retaliações não se fizeram esperar e as imagens de prédios em chamas, em vários países do Médio Oriente que os governantes iranianos considerarão aliados dos Estados Unidos da América, invadem os canais televisivos.

               No entanto, fazes 15 anos, Matilde e, hoje, nenhuma destas loucuras importa. Lembro-me da passagem de Camilo a propósito da sua heroína romântica, Teresa, em “Amor de Perdição” - Amava Simão uma sua vizinha, menina de quinze anos, rica herdeira, regularmente bonita e bem-nascida. Da janela do seu quarto é que ele a vira pela primeira vez, para amá-la sempre. Não ficara ela incólume da ferida que fizera no coração do vizinho: amou-o também, e com mais seriedade que a usual nos seus anos.

               Ora, minha filha, és uma rica herdeira, mas não uma herdeira rica, és mais do que regularmente bonita e que eu saiba, ainda nenhum Simão te cortejou à janela e, para já, chegas-me incólume ao lar. Espero que se prolongue esta benesse por mais uns anitos, porque o mundo é imenso e largo, por isso, há mais do que tempo para o conheceres.

               Não és uma herdeira rica, dizia, nem princesa, epíteto pelo qual nunca te tratei e o motivo é simples: quero-te uma linda plebeia, ciente da realidade que a circunda e das dificuldades que a vida sempre insiste em nos trazer. Porém, este realismo não precisa de ser cru. Pode e deve ser sempre acompanhado da esperança que nos faz mover. Movemo-nos com a fé de quem espera dias melhores, mesmo que os dias nos pareçam muito negros, de vez em quando. Assim, não és uma princesa a quem os súbditos, servem, obedecem e mimam. És uma jovem a preparar o teu futuro de mulher que sabe que é a única responsável por si mesma e, como tal, deve garantir a sua independência. Sei que será assim. És uma menina doce, mas determinada; uma menina meiga, mas que sabe dizer não, quando não quer algo e, dificilmente, te demovem. Uma menina que trabalha com brio para alcançar o que pretende e que tem algum pelo na venta.

               Foi um dia feliz para ti e foi bonito ver a tua alegria com o gesto do teu irmão. Não esperavas e foi o sinal de que, apesar das implicâncias de irmãos, ele está lá e tu importas-lhe. Foi um momento bonito, ver-te correr escada abaixo para me contares que o Rodrigo te presenteou. Nada me deixa mais feliz do que vos pressentir amigos e unidos. Assim deve ser. Assim é com a mãe e o pai e os tios de ambos os lados. 

               São 15 anos da minha pequena Matilde, cuja ânsia em conhecer o mundo fez com que viesse um mês mais cedo. Colocaram-te no meu regaço e tu, acabada de seres retirada de dentro de mim, ao seres pousada no meu colo, olhaste-me, curiosa, de olho arregalado, no teu nico de gente, de 48 centímetros. Eras uma réplica do teu irmão, mais pequenina e mais magrinha, os mesmos olhos despertos para abraçar o mundo. Uma viagem rápida que deixa a mãe muito saudosa dos momentos em que vos podia equilibrar em cima do meu peito e deixar-vos adormecer, assim, em ritmo compassado pelo bater dos corações.

És demasiado grande para que te possa deixar dormir sobre mim, agora, mas nunca o suficiente para que não caibas, ainda, todinha no meu coração. No dia 28 de fevereiro de 2011, nascia o meu segundo amor maior.

 

Nina M.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Crónica de Maus Costumes 456

 

Anda tudo a morrer

            O subtítulo da crónica de hoje não é meu. Surripiei-o ao meu primogénito que, de vez em quando tem umas saídas destemperadas, mas ingénuas, que me desconcertam e me deixam entre o riso e o desespero…

            Não quer nada com a escrita, mas teria talento se o quisesse trabalhar…  Enfim… Considera uma perda de tempo, mas fareja-me de cada vez que me vê a participar de fóruns relacionados com a Literatura e a escrita. Deve andar a tentar perceber o que haverá ali de tão interessante para fazer com que a mãe se dê a mais um trabalho suplementar, do qual não vingam frutos.

Soltou a frase à mesa, durante o jantar, a propósito de um comentário sobre o falecimento de alguém, talvez marcado, também, por uma experiência familiar difícil. Certo é que lá deixou cair o desabafo: também… Agora, anda tudo a morrer… Primeiro, travei a garfada que levava à boca, por segundos; depois, abanei a cabeça e, finalmente, sorri. Disse: Isso dá um ótimo título! Fui anotar para não o esquecer.  Bem, recuperada a serenidade, lá lhe disse: É. Anda tudo a morrer, como se fosse uma questão de escolha!

- Não é isso!

Certo, percebi, onde queria chegar. Confronta-se com a realidade de ver, repentinamente, o desaparecimento de algumas pessoas, daí o seu “anda tudo a morrer…” Na verdade, andamos todos a morrer um bocadinho todos os dias, porque cada dia passado representa menos um que viveremos. Assim, é preciso parar com a mania de querermos apressar as coisas, de desejarmos que chegue rapidamente o fim de semana, o verão, o próximo mês, seja o que for… De cada vez que o desejamos, estamos a pedir que a nossa finitude se aproxime sem disso termos consciência. Povoam-me as últimas palavras que o ator Eric Dane deixou às suas meninas, antes da sua viagem final. Tão novo, ainda… Tão cheio de vida e partiu tão cheio de dignidade. Dizia-lhes que vivessem no presente. Tem razão. A única forma de aproveitarmos devidamente esta caminhada é adquirir a capacidade de saber viver no presente, a capacidade de valorizar todos os momentos, mesmo aqueles que nos parecem inócuos e mera rotina. De repente, a rotina que parece incomodar pode deixar de existir. Foi o que aconteceu com o Eric Dane. A Esclerose Lateral Amiotrófica roubou-lhe tudo: a capacidade de caminhar, de falar, de comer e de respirar… É o que acontece com tanta gente todos os dias e um dia, por azar, pode calhar-nos a fava. Então, tudo o que dávamos por garantido pode deixar de existir. A vida não é justa, não é democrática e nem sempre distribui alegrias ou agruras por meritocracia. É como calha e como tiver de ser. Vamos morrendo um bocadinho todos os dias, mas também vamos vivendo. Portanto, há que saber viver enquanto o batimento final não chega. Saber viver no presente, como aconselhou o ator às filhas. Para isso, precisam de se apaixonar por algo para terem algo que faça valer a pena o esforço de levantar da cama todas as manhãs e, também, por alguém, recomenda. Por fim, lutar, ser resiliente para realizar os objetivos. Por outras palavras, o ator deixa-lhes a mensagem de que é fundamental encontrar o sentido para a vida e pugnar por ele com lealdade. Foi uma bela mensagem e bons conselhos, mesmo que não sejam novos, mas que haveria o homem de inventar mais no que à alma humana diz respeito? Epicuro deixou-nos o seu “carpe diem”, o aproveitar o dia, em busca de prazeres moderados e evitar a dor, os estoicos, também nos convidam a viver o presente porque é o único tempo que podemos controlar. O amanhã não nos pertence. A formulação completa de Horácio dizia “Carpe diem, quam minimum crédula postero” – Colha o dia, confiando o mínimo possível no amanhã. Duas filosofias coexistentes e rivais que mostravam ao indivíduo como ele pode ser feliz e ter paz de espírito mesmo quando o mundo á sua volta se desmorona. Um epicurista aconselharia a largar a política e ir cuidar do jardim. A arte de contemplar! O estoico aconselharia a cumprir o nosso lugar na sociedade, independentemente, das dificuldades que pudessem surgir. A mim, mais de 2.300 anos depois, parece-me inteligente fazer a síntese e conseguir aliar as duas, na expectativa de viver uma vida boa. Quem não for muito helenista pode sempre recorrer a Heidegger e ao ser-para-a-morte, não para se sentar à espera dela, mas porque a consciência de que ela está ao virar da esquina, obriga-nos a escolher melhor e sem perda de tempo.  Se os epicuristas colhiam o prazer para ignorar o vazio (a morte) e os estoicos a aceitavam resignadamente, como um dever, por se tratar de uma lei da natureza, Heidegger propõe a liberdade de ser autêntico, porque a consciência da finitude não deixa espaço para adiamentos. Ser autêntico é ser o condutor da própria vida e saber o que nos convém, não desperdiçando o tempo que nos resta.

Efetivamente, anda tudo a morrer, filho e tu, sem saberes sequer da existência de Heidegger, descobriste, de certa forma, o ser-para-a-morte. Falta, agora, trabalhares a tua autenticidade.

 

Nina M.

 

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Crónica de Maus Costumes 455

 

Amor e violência

               É Dia dos Namorados… Deveria ser um dia dedicado ao amor, à amizade e à paixão. Se possível, o ideal é ter tudo isso num só relacionamento, mas a perfeição não existe. Nessa impossibilidade, que se possa aproximar, pelo menos.

               Não tenho o hábito de celebrar este dia. O capitalismo consegue transformar tudo em oportunidade de negócio, até os sentimentos mais bonitos, criando uma espécie de artificialidade que me incomoda. Muita gente diz o mesmo sobre o Natal, mas para mim, essa data é incomparável. Será sempre a celebração do Amor pela humanidade e a festa da família… Não me alongarei sobre a minha visão sobre este dia, até porque já o fiz, há muito tempo, numa destas crónicas. Seria repetitivo e escusado. Entristece-me mais que estes dias precisem de ser relembrados, em claro sinal de que nos outros 364 dias do ano, mal se vai.

               Foi com este pesar e choque que me chegou o caso brasileiro de um indivíduo que matou os dois filhos e, depois, pôs termo à sua própria vida, para se vingar da esposa que o havia deixado. O pusilânime alegou uma traição. Ao que parece, o casal já estaria separado desde dezembro e o monstro não foi capaz de respeitar a decisão da ex-mulher em abandonar a relação. Para piorar a situação, a mãe, durante as exéquias dos meninos, teve de se ausentar porque há gente escabrosa e alienada que se deu ao trabalho de aparecer no local para injuriar esta mãe, que vive a dor maior do luto pelos filhos. A vítima maior de todo este caso horripilante. Pior, algumas das injúrias foram proferidas por mulheres, que tiveram o topete de a responsabilizar por uma escolha que competiu, unilateralmente, ao macho-alfa de ego tão frágil e tão incrivelmente covarde, que foi capaz de fazer matar os próprios filhos! Este sujeito não tem perdão! Certamente, conseguiu o seu intuito: matou a ex-mulher, deixando-a viva. Não sei o que acontecerá a esta mãe, o que fará com o seu desespero, com a sua dor… A mim… A revolta é tanta que só me apeteceria profanar a sepultura e espancar o morto até às últimas forças! Mesmo sabendo que ninguém morre, efetivamente, duas vezes. É pouco cristão e não traria os meninos de volta àquela mãe, mas… Caramba! Que dizer, sentir, pensar numa situação destas?!

               Não é apenas um caso isolado. Infelizmente, não será único, mas quando se falar em machismo estrutural e em misoginia, lembrem-se de casos destes… Estes conceitos encerram uma ferramenta de controlo que serve para punir mulheres que desafiam normas sociais e recompensam aquelas que as seguem. A desqualificação intelectual, a objetificação do corpo feminino, as diferenças salariais, a dificuldade em ascender a cargos de poder, as barreiras à educação, o assédio moral, sexual e feminicídio são manifestações claras de uma herança patriarcal, que é preciso desmanchar. Entendamos que está tão interiorizada que as próprias mulheres padecem do mal. Essa é a razão para que uma mãe fosse vilipendiada, no auge do seu sofrimento por outras mulheres. Ler testemunhos que legitimam a ação do criminoso ao dizer que “toda a ação desencadeia uma reação” é doloroso. Não se pode ter afirmações dessas. Nada legitima esta violência contra os próprios filhos! E, evidentemente, não há amor nenhum aqui! Apenas ódio, posse e incapacidade de lidar com a frustração. Um homem fraco. Um criminoso que não perdoou a mulher por não o desejar mais e se vingou da forma mais nojenta e mais vil que poderia existir. Nenhum casamento legitima a posse. Ninguém é dono de ninguém. Habituem-se, homens! As mulheres são seres livres, independentes, dotadas de inteligência, com direito à mesma liberdade, às suas escolhas, sonhos e ambições pessoais, que não dependem de nenhum macho! Obviamente, estão obrigadas ao cumprimento dos mesmos deveres enquanto cidadãs…

               O psiquiatra Daniel Sampaio afirmava, numa entrevista ao Luís Osório, que todos os hospitais deveriam ter uma ala de psiquiatria para adolescentes e falava, precisamente, na necessidade de sensibilizar os jovens e de os educar para a rejeição da violência no namoro. As últimas estatísticas portuguesas referentes ao assunto são escabrosas: 68% dos jovens legitima, pelo menos, um comportamento violento, como o controlo (impedir o parceiro de estar com amigos ou exigir as senhas de redes sociais - 53,4%), a perseguição (40,9%), a violência psicológica (insultos ou chantagem emocional - 27,6%), violência nas redes sociais (partilha de fotos íntimas ou pressão para atos sexuais – 15,1%), violência física (6%). Os dados revelam que 66.7% dos jovens que já tiveram um relacionamento reportam ter sido vítimas de pelo menos um destes comportamentos.

Desde cedo se confunde controlo com cuidado, ciúme com prova de amor e se legitima a violência com o sofrimento do agressor. Ninguém é responsável pelas reações coléricas do outro. A incapacidade de gerir a frustração e o ego ferido compete a cada um de nós e a mais ninguém.

               Hoje, em Dia dos Namorados alerto os jovens que não me leem… Os sinais de alerta são sempre dados, a paixão, que se diz ser cega, impede que os vejamos… Portanto, se o relacionamento avança de forma extremamente rápida com declarações de amor eterno em poucos dias, se houver pressão para morar juntos ou até casar muito cedo, se o controlo for efetuado em nome da tua segurança e sob a desculpa de cuidado, como críticas à indumentária, pedir a localização em tempo real, exigir senhas de telemóvel ou de computador, exigir saber com quem falas a todo o instante, tecer comentários negativos sobre os amigos para te afastar deles, fazer-te duvidar da tua própria memória, negando factos, viver em constante estado de alerta para não causar um conflito e oscilações bruscas de humor sem razão aparente, são bandeiras vermelhíssimas às quais deves dar importância! Foge desse relacionamento tóxico o quanto antes. Essa pessoa sugar-te-á toda a energia e a tua saúde mental.

               É preciso trabalhar estes temas com os jovens e a ensiná-los a aceitar a frustração que, naturalmente, surge quando há uma rejeição. Perceber que alguém saudável sofre como tem de sofrer, sem causar dano a terceiros, para se voltar a reerguer. A vida é feita destes tombos e da capacidade de nos regenerarmos. Se cada pessoa que se sentiu enganada fosse matar alguém por causa da sua dor, não sobraria gente no mundo! É preciso educar para as emoções. As escolas vão abordando estes assuntos, mas não de maneira eficaz. É o que se conclui ao olharmos para as estatísticas e a sociedade tem de aprender a deixar de delegar tudo nas escolas, que já fazem extraordinariamente mais do que lhes compete.

               É desde cedo que se desconstroem preconceitos e a prevenção é sempre melhor do que a reação. Portugal nunca aprendeu a prevenir o que quer que fosse. Está na hora de o começarmos a pensar a longo prazo e não, apenas, no imediato.

               É Dia dos Namorados e não tenho nada terno para dizer, depois do que li e que tanto me agastou. Namorai o que puderdes e bem.

 

Nina M.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Crónica de Maus Costumes 454

 

Memento Mori

               Partiu o pobre ou o Pacheco, nome pelo qual era tratado, mas como nem era pobre (o epíteto não passava de um chiste para acicatar quem tinha fama de poupado) nem Pacheco, porque este não era o seu verdadeiro nome, na verdade, o senhor Cândido Azevedo permanece entre os que o conheceram e com ele privaram. Teve uma vida cheia de trabalho e de sacrifício, de domingo a domingo. Viveu pelos filhos e para os filhos e creio que não sabia ser de outra forma.

               Eu gostava do Pacheco. A falar dele, dizia assim, a falar com ele, tratava-o por senhor Cândido. Partiu com 92 anos à frente da sua esposa, também ela Cândida, que padece de demência há alguns anos. Ele, mais velho, mas talvez todos fôssemos capazes de jurar que resistiria mais do que a mulher. A última vez que o vi, na véspera de consoada, estava hospitalizado e já muito debilitado, mas sempre a insistir em fazer as coisas por si, ainda que precisasse de ajuda para se sentar ou levantar. Foi simpatia mútua, porque o senhor Cândido sempre me tratou muito bem, com alguma deferência, até. Muitas vezes, dava-lhe para me tratar por madame e deixar cair um “comment allez-vous?”, que ia buscar ao fundo da sua memória prodigiosa, dos seus tempos de emigrante em França. O Pacheco engraçou comigo, desde que a minha existência começou a fazer parte daquele lugar, da aldeia onde Camilo, por si dito, passou os anos mais felizes da sua juventude. A aldeia perde parte do seu pitoresco e é um pouco estranho chegar ao café e saber que não irei encontrar o Pacheco nem o irei ver mais em cima do trator ou a conduzir o seu Fiat, ainda que as suas cataratas já não lhe permitissem ver um palmo à frente do nariz. Ele ria-se. Encolhia os ombros e gracejava que o carro já conhecia o caminho, quando lhe dizia que ele já não deveria conduzir. Guardei a sua imagem, em cima do trator, a passar estradão abaixo, a levantar o braço, com o chapéu de palha, no verão, sempre de sorriso aberto. Era muito fácil simpatizar-se com o senhor Cândido pela sua simpatia natural e pela sua astúcia para o negócio que me fazia sorrir. Um negociador nato! Deixo-lhe o meu pequeno tributo. Descanse em paz, senhor Cândido.

               Escrever a despedida de alguém faz-nos lembrar da nossa própria finitude. Comecei a pensar se preferiria ser cremada ou ter o habitual enterramento. Falar sobre isto não é mórbido. Creio ser sinal de consciência e de desassombro. A ideia de ficar fechada a sete palmos debaixo de terra é um pouco asfixiante… Eu sei que não sentirei nada, mas atrapalha-me as ideias em vida… Que hei de fazer? Na verdade, o que não me apetece nada é morrer. Nunca senti tal vontade… O forno não é propriamente sedutor, mas traz algumas vantagens: primeiro, literariamente, é mais interessante. O fogo é sempre símbolo de destruição, mas também de purificação, de fogo redentor e de reconstrução, a ideia de fénix renascida. Como creio que nos transformaremos numa energia que se fundirá no universo (como o pai de Lobo Antunes disse, o nada, em biologia não existe) será um renascimento. Portanto, o fogo destrói o antigo para permitir o novo. É bem mais bonita esta imagem literária do que a do “funéreo enterramento”, para usar uma expressão camoniana, extraída de “Os Lusíadas”. Depois, pouparei trabalho aos filhos com mausoléus no cemitério. A urna de cinzas, como lhe chamam, é pequena e caberá em qualquer parte. Se quiserem, podem deixá-la num columbário, mas não faço questão nenhuma… Liberto-os da “obrigação” de visitar sepultura, limpar e enfeitar com flores… Eu não estarei lá, de qualquer forma… De modo que ao falar disto, disse ao meu rapaz: como o pote (a urna de cinzas) vem lacrada, podes deixar-me ali, na biblioteca. Será um bom lugar… Depois, avisei, mas cuidado! Imaginemos que por acidente atirais o pote ao chão e ainda vos vedes obrigados a limpar… Atenção! Ainda vou parar dentro do aspirador! Isso também não me parece muito bem… Eis que o rapaz teve a belíssima ideia de dizer que sempre pode ir espalhar as cinzas ao Dragão!... Eu sorri. Pareceu-me um belíssimo lugar, na verdade, só que o avisei que terá de o fazer à renúncia. Só fará sentido se as esparzir pelo relvado… Ora, meu menino… Não te vão deixar fazer… Ele garantiu, de imediato, que compra um bilhete para visitar o museu e lá se arranja…

A minha imaginação viu-o a correr relvado adentro, a tentar livrar-se da mãe a todo o custo, enquanto seguranças correm atrás dele para impedir o maluco de pisar o relvado. Seria épico e muito mais engraçado do que baixar o féretro à terra…

Não sei… Fazei lá o que quiserdes das cinzas… Metei-as num armário qualquer, como se de uma arrumação se tratasse e pronto. Caso resolvido. Se vos pegar, de vez em quando, alguma saudade da mãe, tereis fotografias e tereis estes textos, que serão o legado possível. O enterramento, eu dispenso, meus filhos.

 

P.S. Amanhã, é dia de eleições. Ide votar, ide.

Nina M.

              

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Inteireza

A sombra, reverso da luz

A melancolia, reverso da alegria

A soturnidade, reverso da jovialidade

Assim é o meu ser: vivo e lúgubre

Nostálgico a espaços e álacre amiúde

Um equilíbrio sereno entre peso e leveza

Não se aventure o vampiro

A romper-me as veias

A sugar-me o sangue

Procure outro sol outra luz

Outro longe

A minha inteireza resistirá

Ao sopro do vento

Ao canto da sereia








sábado, 31 de janeiro de 2026

Crónica de Maus Costumes 453

 Enquanto os tolos dão, os finos não compram


            Ando há umas semanas a tentar escrever umas crónicas mais doces, quem sabe mais literárias, mas deparo-me com a realidade aterradora que nãos nos dá tréguas: a invasão de Trump à Venezuela, as atuações miseráveis do ICE, as intenções de apropriação da Groenlândia, a primeira volta das presidenciais, os milhares de mortos no Irão…


           Por mais que queiramos esquecer, a bem da nossa sanidade, a realidade não permite. Puxa-nos a perna. Enquanto escrevo, vou espreitando um documentário (amanhã, terei de o recuperar atentamente) sobre a ação do Trump em relação à justiça. A colonização que dela tenta fazer, aniquilando a separação de poderes, decidindo quem é ou não processado, fechando acordos com grandes escritórios de advogados, proíbe a entrada de determinada imprensa na Casa Branca, confronta as Universidades, fez deportações ilegais de imigrantes, não cumprindo com ordens judiciais, enfim, um ditadorzinho do calibre de Putin, que já esvaziou o poder de muitas entidades que o poderiam travar (a ele e aos seus cães de fila trogloditas). Vigora o medo e dizem os entendidos que o que se passará a seguir dependerá, em boa parte, da reação do povo e do que entendem querer para o país. Por outras palavras: ou o povo estadunidense cerra fileiras e sai à rua, luta pela democracia ou poderá estar a assistir ao princípio do fim de um Estado de Direito e na concentração de um poder absoluto nas mãos de um presidente. Os exemplos da História não são bons. Será fundamental que as pessoas compreendam o perigo real que isso pode oferecer. Não basta o contexto internacional terrível a que assistimos, para mim, a defesa da democracia e da liberdade é um imperativo de consciência. Não há valores mais altos do que estes, porque nada sobeja quando a liberdade falha e a democracia morre. De modo que assisto com gastura crónica ao que se passa.


            Quando volto os olhos para dentro, vejo uma região centro devastada pela intempérie e o desespero da população afetada pela calamidade. Os políticos não são responsáveis pela tempestade, obviamente. Contra a força bruta da natureza, o homem nada pode, mas os governantes são responsáveis pelo país e pelas suas gentes. Uma ministra da Administração Interna não pode demorar três dias a chegar ao local. A sua obrigação primeira é a de ir ao local, inteirar-se com os seus olhos e deixar uma palavra de conforto e, preferencialmente, de confiança, às pessoas. Em que mundo vive esta gente? Será alienação ou incompetência pura? Não entendo! Logicamente, a presença da senhora não acrescentaria nada à logística nem aos trabalhos que estavam a ser realizados, mas era a sua obrigação ter comparecido, tal como o primeiro-ministro. Tenho bem presente a imagem dos reis de Espanha presentes nas cheias que lhes alagou o sul do país. Ouviram o que não quiseram, algumas críticas justas, talvez, outras, completamente infundadas, gritos que vinham do desespero, mas não deixaram de cumprir com a sua obrigação moral e ética. O governo falhou redondamente. Para não falar do ministro Leitão Amaro e do suor desperdiçado em telefonemas. Ó senhor ministro, há portugueses a trabalhar diariamente tanto ou mais que o senhor, só não pode ser em mangas de camisa e arregaçadas, porque está um frio de rachar, nalgumas zonas, e nem todos dispõem de ar condicionado. Não bastava isto (apesar do pronto arrependimento e do eclipse das imagens, o mal já estava causado e caiu no ridículo), ainda haveria de chegar outro com meia-dúzia de garrafões de água, qual ajuda humanitária, para retirar da tragédia dividendos políticos! Vou explicar como deveria ser feito. Queria mesmo levar água? Arranjava um daqueles camiões grandes que usa para os comícios em campanha e carregava-os até cima. Mandava entregar com cumprimentos do deputado e até poderia lá ir, desde que não se fizesse acompanhar por uma comitiva de jornalistas, também sempre prontos a explorar uma cena deplorável, populista e sensacionalista.


           Às vezes, apetece emigrar… Tudo parece mau de mais. Mais fez o Pedro Chagas Freitas que tentou mobilizar gente capaz de prestar um primeiro auxílio, porque o nível dos estragos é de monta e vai levar tempo até se conseguir repor alguma normalidade no que à eletricidade e água diz respeito. Deixo a minha solidariedade àquelas pessoas e a um Presidente da Câmara sempre presente, esse sim, a fazer o que pode e o que o ultrapassa, a tentar obter ajuda para resolver o problemas da sua população. Aí está a diferença entre a política de gabinete e a política de proximidade. É de proximidade e de preocupação genuína de que este povo precisa. Um cansaço…
Assalta-me o espírito o Nero, não o romano, mas antes o mendigo pelintra da minha infância, sem túnica nem coroa de louro, o que ia à mercearia do Sininho, que lhe dava as bolachas Maria que ficavam partidas no fundo da caixa de cinco quilos e lhe zurzia a paciência: “Ó Carvalho, tu não precisas de andar nessa figura… Olha para isso…”
Sujo, andrajoso, sapatos sem meias, um casaquito, num frio de enregelar os ossos, no inverno, de barba e de cabelos algo compridos, magrito, o Nero calcorreava as redondezas a pedir esmola. Morava numa casa velha, com janelas partidas, sem condições, no meio do monte. No entanto, tinha posses, o Nero… Tinha bens, terrenos… E tinha uma pancada forte naquela cabeça… Não sei exatamente qual seria o problema, padecia de uma doença do foro mental. Isso é certo.


- Não precisas dito, Carvalho! Parece impossível – dizia-lhe o Sininho, com boas intenções e amigo de lhe matar a fome.


- Olha… Enquanto os tolos dão, os finos não compram!


- Ah! Seu cara de… um nome parecido com o do mendigo Carvalho… Então… Tu ainda me chamas de tolo?!


Era uma gargalhada de cada vez que o Sininho contava a façanha do Nero.


O Nero… O Nero não tinha preocupações com o contexto político nacional ou internacional. Movia-o apenas a preocupação de arranjar a comida do dia e, no inverno, de passar a noite junto aos fornos da padaria do Mesquita e, por certo, comer uns pães quentinhos e uns bolos a sair do fornos de lenha. O Nero encaixa no perfil de loucos que o Ariano Suassuna, escritor brasileiro, estimava… Aqueles que dão respostas inusitadas e que, no meio da sua loucura, mostram uma lucidez desarmante!


Enquanto os tolos dão, os finos não compram! Verdade, Nero. Verdade.
 
Nina M.
 
 
 

sábado, 24 de janeiro de 2026

Crónica de Maus Costumes 452

 

O novo Calígula

            Os tempos mórbidos que vivemos apontam para uma transformação social que se adivinha, não se sabe se para melhor ou pior…

Os mais velhos tenderão a achar que é para pior e os mais novos, bem… Têm um futuro inteiro à sua frente e pouco passado atrás. Assim, a luta que a geração dos nossos pais travou pela liberdade e que nos deixou como legado a preservar, é a nossa preocupação essencial. Crescemos politizados, numa democracia muito jovem que era preciso proteger acima de qualquer outro valor. Os que viveram sob o jugo da ditadura sabem como a vida era difícil. A geração dos meus filhos entende que os pais já foram suficientemente desgraçados por não terem tido acesso a certos bens materiais que fazem parte da sua realidade. É-lhes impensável viver sem telemóvel, computadores e consolas. Ouvem as nossas histórias de infância e julgam-nos uns desgraçados. Insistimos que vivemos uma infância muito feliz: não passamos fome, ao contrário dos nossos pais (a minha mãe passa a vida a falar do caldo pobre que mais triste se tornava a seus olhos, quando não havia feijão. Nunca gostou da sopa sem ele. O meu pai acrescenta que o caldo era água lavada de couve-galega e um pouco da batata), mas não tivemos excesso e aprendemos a partilhar. Era o tempo em que uma bicicleta tinha de dar para todos os irmãos ou primeiro computador, o “spectrum” que funcionava ligado a um gravador, com a cassete dos jogos, comprado com o dinheiro que tínhamos juntado dos presentes… Nunca gastei dinheiro que considerasse um tal desperdício como este! Posso contar pelos dedos das mãos as vezes que sentei em frente ao machibombo para jogar… Não encho uma! Nunca gostei nem nunca tive paciência para esses jogos. Valia mais uma partida de cartas ou outras brincadeiras ao ar livre… Fomos uma geração mais equilibrada, ainda do analógico, do tempo em que as fotografias levavam o seu tempo. Era preciso gastar o rolo, primeiro, depois, levá-lo ao fotógrafo que levava oito dias para as revelar. Mesmo assim, corria-se sempre o risco de cortar cabeças, pés, de ficarem desfocadas… O preço era ao rolo. Ficassem boas ou más, aproveitássemos muitas ou poucas e o dia de o ir buscar, uma emoção e a ansiedade. Hoje, os miúdos vivem o tempo da vertigem e do “scrolling” ininterrupto, o tempo das imagens sucessivas, num caleidoscópio interminável, sem pausas, sem informação aprofundada e sem reflexão. A nossa geração soube o significado de crescer com algumas dificuldades, sem as mordomias que lhes proporcionamos, hoje. A vida mais confortável e livre que já herdamos era um legado que deveria ser preservado e alargado. Paulatinamente, a nossa geração transformou-se no novo conservadorismo, no sentido de querermos preservar e cuidar do novo modo de vida democrática. Portanto, sim, sou uma das que defendo e quero preservar os 50 anos disto. Significa os 50 anos democráticos. Tudo isto está muito longe das novas gerações para quem a defesa da democracia e da liberdade se tornou uma meta curta e precisam de que lhes falem num futuro em que viver em Marte seja a nova conquista. Nós continuamos a lutar contra a fome e as terríveis assimetrias que o mundo apresenta, a protestar e a verter uma lágrima pelas vidas que sucumbem perante assassinatos a sangue-frio e à vista de todos, por uma polícia que se torna política (ICE), num país que já foi o baluarte da democracia. A nossa geração estremece perante estas imagens e recusamo-nos a aceitar que possa ser verdade! É inaceitável. É injustificável e inqualificável. Os EUA escolheram ser governados por um terrorista sociopata e aqueles agentes que foram capazes de disparar, sem qualquer motivo, primeiro, contra Renée Good e, hoje, contra Alex Pretti são assassinos. Homicidas. Num país onde vigore a decência e a justiça estes canalhas teriam de responder perante a lei. Estou zangada. Muito zangada. Um presidente demente, um novo Calígula, mas poderoso, consegue trair todo o ocidente, todos os valores construídos, todas as Instituições e os Direitos Humanos. Um mentecapto mentiroso que não respeita o próprio povo, a quem só falta arranjar um cavalo chamado “Incitatus” e nomeá-lo senador. Grande besta! Pode ser que morra pelas mãos da própria guarda pretoriana, tal como aconteceu com o Calígula romano!

Olho para esta realidade angustiada. Não sei o olhar das novas gerações, facilmente manipuláveis, mas espero que compreendam que a oposição a estas tiranias é mais importante do que o avanço da Inteligência Artificial. Espero que entendam que os discursos de ódio cavam fossos sociais que antes não existiam, que a verdadeira evolução humana consiste na eliminação da crueldade e da maldade. Espero que compreendam que aqueles que se dizem muito cristãos, mas atiram, não a primeira, mas um cesto inteiro de pedras, subvertem a mensagem de Amor fraterno que Ele nos deixou. Invocam o Seu nome em vão. São os verdadeiros vendilhões do templo. Espero que entendam que estes não são melhores do que outros terroristas a quem apontam o dedo e de quem, insistem, nos querem proteger. Deus nos proteja dos falsos profetas!

Espero que a situação vivida nos EUA sirva de lição interna. Atentem nos discursos e nas colagens, nas bandeiras defendidas e nas sucessivas mentiras e não façam a escolha entre esquerda e direita. Façam a escolha entre a democracia e a tirania, entre a liberdade e a opressão, entre o bem e o mal. Chegamos aqui: não é mais uma simples escolha entre democratas, mas uma escolha entre o bem e o mal e este não acontece, apenas, aos outros.

Estou agastada. Bom domingo, se vos for possível…

 

Nina M.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

God's failed Project


(versão inglesa IA de O projeto falhado de Deus)

​There are days of cavernous bleakness

​Skin wrinkles under a death-rattle of cold

A white mantle covers the streets

Or the heavy rain washing the windowpanes

Reminds one of helplessness

The fragility of wounded innocents

The vile blow they do not understand

And from which they cannot deviate

They only want the father, the mother, the routine

Something that sounds familiar

And reminds them of caresses

Of the safe harbor that was home

They suffer abandonment and solitude

The betrayal that comes from the hand

That should have provided shelter

Ignominy opens irreconcilable craters

Brutality is always sordid

It fixes itself, grimy, upon the skin

It is deaf.

It is cowardly.

It is petty.

It is aviling.

Never ask the scoundrel if he wants to be good.

​Man — God’s failed project!

Projeto falhado de Deus

Há dias de desalento cavernoso

A pele enruga-se sob um estertor de frio
Um manto branco cobre as ruas
Ou a chuva forte a lavar as vidraças
Lembra o desamparo
A fragilidade de inocentes feridos
O soco vil que não compreendem
 E do qual não se sabem desviar
Só quer o pai, a mãe, a sua rotina
Algo que lhe soe a conhecido
E lhe lembre das carícias
Do porto seguro que foi a casa
Sofrem o abandono e a solidão
A traição que vem da mão
Que deveria amparar 
A ignomínia abre crateras inconciliáveis
A bruteza é sempre sórdida
Fixa-se, encardida, na pele 
É surda.
É cobarde.
É mesquinha.
É aviltante.
Nunca perguntes ao pulha se quer ser bom.

O homem - projeto falhado de Deus!

sábado, 17 de janeiro de 2026

Crónica de Maus Costumes 451

 “We shall never surrender” (Winston Churchill)

            Hoje, é dia de reflexão, pelo que não se deve abordar a temática a das presidenciais. Não falarei sobre qualquer candidato, mas abordarei o facto de muita gente, nestas eleições, se mostrar indecisa até à última hora. Li e ouvi vários testemunhos de que não sabem em quem hão de votar e que nunca se viram nesta situação. Parece haver muita gente que não gosta, particularmente, de nenhum candidato e, portanto, não se conseguem decidir e arrastam a decisão para a boca das urnas.

            Pus-me a pensar sobre as razões, sobre os possíveis motivos de não haver nenhum candidato que apaixone, entusiasme e congregue como em outros atos eleitorais. Muitos estarão lembrados da mítica segunda volta entre Mário Soares e Freitas do Amaral, em 1986. Eu tinha 11 anos e lembro-me da campanha acesa que incendiou o país. Na primeira volta, a preocupação de Mário Soares foi bater o PCP, que tinha uma forte base de apoio, na altura, num país recém-nascido de uma ditadura fascista, com sucessivos governos de curta duração e uma crise económica instalada. A esquerda mais radical lá teve de engolir o sapo e apoiar Mário Soares. A única alternativa que lhe restava para retirar a presidência a Freitas do Amaral. Soares passou de um discurso anticomunista, na primeira volta, para um discurso antifascista, na segunda. Polarizou, portanto, o cenário político. A bordoada que levou na Marinha Grande santificou-o e Soares saiu vencedor. Para uns, “Soares é fixe” e quem apoiava Freitas, automaticamente, respondia: “e a malta que se lixe.”

            Olha-se para estes dois nomes, mas poderiam ser citados outros, o de Jorge Sampaio ou de Cavaco Silva, independentemente das simpatias ou antipatias de cada um, e via-se estes seres como dinossauros políticos. Esta é uma das razões para a falta do agrado geral em relação aos candidatos atuais. Por alguma razão, e creio que será mais do domínio do emocional, as pessoas não veem carisma nos líderes que se prontificaram a cumprir a nobre missão de serem o presidente dos portugueses. Olho para a questão e parece-me, ainda, resquícios de um sebastianismo mítico, de um espírito messiânico que se nos entranhou. Estamos sempre à espera de um messias que nos há de salvar e elevar o bom nome da bandeira. Um homem que seja capaz de acreditar num futuro melhor e que com a sua ação, quiçá espécie de magia, nos retire do marasmo. Na verdade, não pretendemos um presidente, queremos um super-herói à maneira de um super-homem e que nem sequer definhe com a exposição à “Kryptonite”!

            Esquecemo-nos que, tal como na maioria dos ofícios, não será necessária uma aura particular. Bastará, antes de qualquer outra coisa, que seja um bom ser humano. O coração deve estar no sítio certo e deverá ter sensibilidade social; convém que seja íntegro e honesto e que perceba minimamente da poda, isto é, que seja competente e equilibrado. Entre a competência exímia e a bondade intrínseca, esta última é fundamental. A competência pode ser desenvolvida e aprendida, já a bondade é preciso que faça parte dos genes. Tudo o resto é acessório e mais ao gosto de A ou de B. Se é risonho e popular como o professor Marcelo ou austero como Cavaco ou institucional como Sampaio, já depende do gosto de cada um. Eu confesso que não aprecio nada vê-los em bailaricos! Não é que não tenham esse direito como qualquer outra pessoa, mas aquilo soa a falso como Judas… Exceto se for o presidente Marcelo… Esse pode tudo, porque é para o lado que se lembra… A diferença é que lhe é genuíno e, portanto, ninguém estranha…

            Eu não quero nada com a política, mas não podia andar nestas lides… Ter de andar nas feiras e mercados, bailinhos e bailados e beijocar velhinhas e velhinhos brejeiros a todo o instante!... Deus me livre e guarde! E eu até sou de abraços, mas sou seletiva!

            Creio haver uma certa injustiça cair no erro de comparar candidatos. Os tempos são outros e muitos dos grandes homens que designamos foram feitos pelas circunstâncias, com o mérito de terem sabido estar à altura. Assim se imortalizaram Winston Churchill e Charles de Gaulle, por exemplo. Os tempos exigiram e eles compareceram. Faz falta um destes, na Europa, na verdade… Talvez devamos recuperar o slogan de Churchill “We shall never surrender!” e esfregá-lo na cara do Trampas, do Trump, perdão, mediante as suas novas ameaças com as tarifas por recusarmos a compra da Groenlândia…

            Certo é que com mais ou menos carisma, os candidatos são muitos e a oferta variada. Não será por falta de candidatos que haverá grande abstenção, se a houver. Tendes, ainda, até amanhã, para vos decidirdes. O meu candidato está escolhido há algum tempo, peso, conta e medida.

            Ide às urnas e votai em consciência. Bom domingo.

 

Nina M.