Amor maior
O mundo anda
louco, filha. O dia em que fizeste 15 anos fica marcado pelo ataque conjunto
dos EUA e de Israel ao Irão. Obviamente, as retaliações não se fizeram esperar
e as imagens de prédios em chamas, em vários países do Médio Oriente que os
governantes iranianos considerarão aliados dos Estados Unidos da América,
invadem os canais televisivos.
No
entanto, fazes 15 anos, Matilde e, hoje, nenhuma destas loucuras importa.
Lembro-me da passagem de Camilo a propósito da sua heroína romântica, Teresa,
em “Amor de Perdição” - Amava Simão uma sua vizinha, menina de quinze anos,
rica herdeira, regularmente bonita e bem-nascida. Da janela do seu quarto é que
ele a vira pela primeira vez, para amá-la sempre. Não ficara ela incólume da
ferida que fizera no coração do vizinho: amou-o também, e com mais seriedade
que a usual nos seus anos.
Ora,
minha filha, és uma rica herdeira, mas não uma herdeira rica, és mais do que
regularmente bonita e que eu saiba, ainda nenhum Simão te cortejou à janela e,
para já, chegas-me incólume ao lar. Espero que se prolongue esta benesse por
mais uns anitos, porque o mundo é imenso e largo, por isso, há mais do que
tempo para o conheceres.
Não
és uma herdeira rica, dizia, nem princesa, epíteto pelo qual nunca te tratei e
o motivo é simples: quero-te uma linda plebeia, ciente da realidade que a
circunda e das dificuldades que a vida sempre insiste em nos trazer. Porém,
este realismo não precisa de ser cru. Pode e deve ser sempre acompanhado da
esperança que nos faz mover. Movemo-nos com a fé de quem espera dias melhores,
mesmo que os dias nos pareçam muito negros, de vez em quando. Assim, não és uma
princesa a quem os súbditos, servem, obedecem e mimam. És uma jovem a preparar
o teu futuro de mulher que sabe que é a única responsável por si mesma e, como
tal, deve garantir a sua independência. Sei que será assim. És uma menina doce,
mas determinada; uma menina meiga, mas que sabe dizer não, quando não quer algo
e, dificilmente, te demovem. Uma menina que trabalha com brio para alcançar o
que pretende e que tem algum pelo na venta.
Foi
um dia feliz para ti e foi bonito ver a tua alegria com o gesto do teu irmão.
Não esperavas e foi o sinal de que, apesar das implicâncias de irmãos, ele está
lá e tu importas-lhe. Foi um momento bonito, ver-te correr escada abaixo para
me contares que o Rodrigo te presenteou. Nada me deixa mais feliz do que vos
pressentir amigos e unidos. Assim deve ser. Assim é com a mãe e o pai e os tios
de ambos os lados.
São
15 anos da minha pequena Matilde, cuja ânsia em conhecer o mundo fez com que
viesse um mês mais cedo. Colocaram-te no meu regaço e tu, acabada de seres
retirada de dentro de mim, ao seres pousada no meu colo, olhaste-me, curiosa,
de olho arregalado, no teu nico de gente, de 48 centímetros. Eras uma réplica
do teu irmão, mais pequenina e mais magrinha, os mesmos olhos despertos para
abraçar o mundo. Uma viagem rápida que deixa a mãe muito saudosa dos momentos em que vos podia
equilibrar em cima do meu peito e deixar-vos adormecer, assim, em ritmo
compassado pelo bater dos corações.
És demasiado grande para que te possa
deixar dormir sobre mim, agora, mas nunca o suficiente para que não caibas,
ainda, todinha no meu coração. No dia 28 de fevereiro de 2011, nascia o meu
segundo amor maior.
Nina M.
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