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sábado, 31 de janeiro de 2026

Crónica de Maus Costumes 453

 Enquanto os tolos dão, os finos não compram


            Ando há umas semanas a tentar escrever umas crónicas mais doces, quem sabe mais literárias, mas deparo-me com a realidade aterradora que nãos nos dá tréguas: a invasão de Trump à Venezuela, as atuações miseráveis do ICE, as intenções de apropriação da Groenlândia, a primeira volta das presidenciais, os milhares de mortos no Irão…


           Por mais que queiramos esquecer, a bem da nossa sanidade, a realidade não permite. Puxa-nos a perna. Enquanto escrevo, vou espreitando um documentário (amanhã, terei de o recuperar atentamente) sobre a ação do Trump em relação à justiça. A colonização que dela tenta fazer, aniquilando a separação de poderes, decidindo quem é ou não processado, fechando acordos com grandes escritórios de advogados, proíbe a entrada de determinada imprensa na Casa Branca, confronta as Universidades, fez deportações ilegais de imigrantes, não cumprindo com ordens judiciais, enfim, um ditadorzinho do calibre de Putin, que já esvaziou o poder de muitas entidades que o poderiam travar (a ele e aos seus cães de fila trogloditas). Vigora o medo e dizem os entendidos que o que se passará a seguir dependerá, em boa parte, da reação do povo e do que entendem querer para o país. Por outras palavras: ou o povo estadunidense cerra fileiras e sai à rua, luta pela democracia ou poderá estar a assistir ao princípio do fim de um Estado de Direito e na concentração de um poder absoluto nas mãos de um presidente. Os exemplos da História não são bons. Será fundamental que as pessoas compreendam o perigo real que isso pode oferecer. Não basta o contexto internacional terrível a que assistimos, para mim, a defesa da democracia e da liberdade é um imperativo de consciência. Não há valores mais altos do que estes, porque nada sobeja quando a liberdade falha e a democracia morre. De modo que assisto com gastura crónica ao que se passa.


            Quando volto os olhos para dentro, vejo uma região centro devastada pela intempérie e o desespero da população afetada pela calamidade. Os políticos não são responsáveis pela tempestade, obviamente. Contra a força bruta da natureza, o homem nada pode, mas os governantes são responsáveis pelo país e pelas suas gentes. Uma ministra da Administração Interna não pode demorar três dias a chegar ao local. A sua obrigação primeira é a de ir ao local, inteirar-se com os seus olhos e deixar uma palavra de conforto e, preferencialmente, de confiança, às pessoas. Em que mundo vive esta gente? Será alienação ou incompetência pura? Não entendo! Logicamente, a presença da senhora não acrescentaria nada à logística nem aos trabalhos que estavam a ser realizados, mas era a sua obrigação ter comparecido, tal como o primeiro-ministro. Tenho bem presente a imagem dos reis de Espanha presentes nas cheias que lhes alagou o sul do país. Ouviram o que não quiseram, algumas críticas justas, talvez, outras, completamente infundadas, gritos que vinham do desespero, mas não deixaram de cumprir com a sua obrigação moral e ética. O governo falhou redondamente. Para não falar do ministro Leitão Amaro e do suor desperdiçado em telefonemas. Ó senhor ministro, há portugueses a trabalhar diariamente tanto ou mais que o senhor, só não pode ser em mangas de camisa e arregaçadas, porque está um frio de rachar, nalgumas zonas, e nem todos dispõem de ar condicionado. Não bastava isto (apesar do pronto arrependimento e do eclipse das imagens, o mal já estava causado e caiu no ridículo), ainda haveria de chegar outro com meia-dúzia de garrafões de água, qual ajuda humanitária, para retirar da tragédia dividendos políticos! Vou explicar como deveria ser feito. Queria mesmo levar água? Arranjava um daqueles camiões grandes que usa para os comícios em campanha e carregava-os até cima. Mandava entregar com cumprimentos do deputado e até poderia lá ir, desde que não se fizesse acompanhar por uma comitiva de jornalistas, também sempre prontos a explorar uma cena deplorável, populista e sensacionalista.


           Às vezes, apetece emigrar… Tudo parece mau de mais. Mais fez o Pedro Chagas Freitas que tentou mobilizar gente capaz de prestar um primeiro auxílio, porque o nível dos estragos é de monta e vai levar tempo até se conseguir repor alguma normalidade no que à eletricidade e água diz respeito. Deixo a minha solidariedade àquelas pessoas e a um Presidente da Câmara sempre presente, esse sim, a fazer o que pode e o que o ultrapassa, a tentar obter ajuda para resolver o problemas da sua população. Aí está a diferença entre a política de gabinete e a política de proximidade. É de proximidade e de preocupação genuína de que este povo precisa. Um cansaço…
Assalta-me o espírito o Nero, não o romano, mas antes o mendigo pelintra da minha infância, sem túnica nem coroa de louro, o que ia à mercearia do Sininho, que lhe dava as bolachas Maria que ficavam partidas no fundo da caixa de cinco quilos e lhe zurzia a paciência: “Ó Carvalho, tu não precisas de andar nessa figura… Olha para isso…”
Sujo, andrajoso, sapatos sem meias, um casaquito, num frio de enregelar os ossos, no inverno, de barba e de cabelos algo compridos, magrito, o Nero calcorreava as redondezas a pedir esmola. Morava numa casa velha, com janelas partidas, sem condições, no meio do monte. No entanto, tinha posses, o Nero… Tinha bens, terrenos… E tinha uma pancada forte naquela cabeça… Não sei exatamente qual seria o problema, padecia de uma doença do foro mental. Isso é certo.


- Não precisas dito, Carvalho! Parece impossível – dizia-lhe o Sininho, com boas intenções e amigo de lhe matar a fome.


- Olha… Enquanto os tolos dão, os finos não compram!


- Ah! Seu cara de… um nome parecido com o do mendigo Carvalho… Então… Tu ainda me chamas de tolo?!


Era uma gargalhada de cada vez que o Sininho contava a façanha do Nero.


O Nero… O Nero não tinha preocupações com o contexto político nacional ou internacional. Movia-o apenas a preocupação de arranjar a comida do dia e, no inverno, de passar a noite junto aos fornos da padaria do Mesquita e, por certo, comer uns pães quentinhos e uns bolos a sair do fornos de lenha. O Nero encaixa no perfil de loucos que o Ariano Suassuna, escritor brasileiro, estimava… Aqueles que dão respostas inusitadas e que, no meio da sua loucura, mostram uma lucidez desarmante!


Enquanto os tolos dão, os finos não compram! Verdade, Nero. Verdade.
 
Nina M.
 
 
 

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