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sábado, 14 de fevereiro de 2026

Crónica de Maus Costumes 455

 

Amor e violência

               É Dia dos Namorados… Deveria ser um dia dedicado ao amor, à amizade e à paixão. Se possível, o ideal é ter tudo isso num só relacionamento, mas a perfeição não existe. Nessa impossibilidade, que se possa aproximar, pelo menos.

               Não tenho o hábito de celebrar este dia. O capitalismo consegue transformar tudo em oportunidade de negócio, até os sentimentos mais bonitos, criando uma espécie de artificialidade que me incomoda. Muita gente diz o mesmo sobre o Natal, mas para mim, essa data é incomparável. Será sempre a celebração do Amor pela humanidade e a festa da família… Não me alongarei sobre a minha visão sobre este dia, até porque já o fiz, há muito tempo, numa destas crónicas. Seria repetitivo e escusado. Entristece-me mais que estes dias precisem de ser relembrados, em claro sinal de que nos outros 364 dias do ano, mal se vai.

               Foi com este pesar e choque que me chegou o caso brasileiro de um indivíduo que matou os dois filhos e, depois, pôs termo à sua própria vida, para se vingar da esposa que o havia deixado. O pusilânime alegou uma traição. Ao que parece, o casal já estaria separado desde dezembro e o monstro não foi capaz de respeitar a decisão da ex-mulher em abandonar a relação. Para piorar a situação, a mãe, durante as exéquias dos meninos, teve de se ausentar porque há gente escabrosa e alienada que se deu ao trabalho de aparecer no local para injuriar esta mãe, que vive a dor maior do luto pelos filhos. A vítima maior de todo este caso horripilante. Pior, algumas das injúrias foram proferidas por mulheres, que tiveram o topete de a responsabilizar por uma escolha que competiu, unilateralmente, ao macho-alfa de ego tão frágil e tão incrivelmente covarde, que foi capaz de fazer matar os próprios filhos! Este sujeito não tem perdão! Certamente, conseguiu o seu intuito: matou a ex-mulher, deixando-a viva. Não sei o que acontecerá a esta mãe, o que fará com o seu desespero, com a sua dor… A mim… A revolta é tanta que só me apeteceria profanar a sepultura e espancar o morto até às últimas forças! Mesmo sabendo que ninguém morre, efetivamente, duas vezes. É pouco cristão e não traria os meninos de volta àquela mãe, mas… Caramba! Que dizer, sentir, pensar numa situação destas?!

               Não é apenas um caso isolado. Infelizmente, não será único, mas quando se falar em machismo estrutural e em misoginia, lembrem-se de casos destes… Estes conceitos encerram uma ferramenta de controlo que serve para punir mulheres que desafiam normas sociais e recompensam aquelas que as seguem. A desqualificação intelectual, a objetificação do corpo feminino, as diferenças salariais, a dificuldade em ascender a cargos de poder, as barreiras à educação, o assédio moral, sexual e feminicídio são manifestações claras de uma herança patriarcal, que é preciso desmanchar. Entendamos que está tão interiorizada que as próprias mulheres padecem do mal. Essa é a razão para que uma mãe fosse vilipendiada, no auge do seu sofrimento por outras mulheres. Ler testemunhos que legitimam a ação do criminoso ao dizer que “toda a ação desencadeia uma reação” é doloroso. Não se pode ter afirmações dessas. Nada legitima esta violência contra os próprios filhos! E, evidentemente, não há amor nenhum aqui! Apenas ódio, posse e incapacidade de lidar com a frustração. Um homem fraco. Um criminoso que não perdoou a mulher por não o desejar mais e se vingou da forma mais nojenta e mais vil que poderia existir. Nenhum casamento legitima a posse. Ninguém é dono de ninguém. Habituem-se, homens! As mulheres são seres livres, independentes, dotadas de inteligência, com direito à mesma liberdade, às suas escolhas, sonhos e ambições pessoais, que não dependem de nenhum macho! Obviamente, estão obrigadas ao cumprimento dos mesmos deveres enquanto cidadãs…

               O psiquiatra Daniel Sampaio afirmava, numa entrevista ao Luís Osório, que todos os hospitais deveriam ter uma ala de psiquiatria para adolescentes e falava, precisamente, na necessidade de sensibilizar os jovens e de os educar para a rejeição da violência no namoro. As últimas estatísticas portuguesas referentes ao assunto são escabrosas: 68% dos jovens legitima, pelo menos, um comportamento violento, como o controlo (impedir o parceiro de estar com amigos ou exigir as senhas de redes sociais - 53,4%), a perseguição (40,9%), a violência psicológica (insultos ou chantagem emocional - 27,6%), violência nas redes sociais (partilha de fotos íntimas ou pressão para atos sexuais – 15,1%), violência física (6%). Os dados revelam que 66.7% dos jovens que já tiveram um relacionamento reportam ter sido vítimas de pelo menos um destes comportamentos.

Desde cedo se confunde controlo com cuidado, ciúme com prova de amor e se legitima a violência com o sofrimento do agressor. Ninguém é responsável pelas reações coléricas do outro. A incapacidade de gerir a frustração e o ego ferido compete a cada um de nós e a mais ninguém.

               Hoje, em Dia dos Namorados alerto os jovens que não me leem… Os sinais de alerta são sempre dados, a paixão, que se diz ser cega, impede que os vejamos… Portanto, se o relacionamento avança de forma extremamente rápida com declarações de amor eterno em poucos dias, se houver pressão para morar juntos ou até casar muito cedo, se o controlo for efetuado em nome da tua segurança e sob a desculpa de cuidado, como críticas à indumentária, pedir a localização em tempo real, exigir senhas de telemóvel ou de computador, exigir saber com quem falas a todo o instante, tecer comentários negativos sobre os amigos para te afastar deles, fazer-te duvidar da tua própria memória, negando factos, viver em constante estado de alerta para não causar um conflito e oscilações bruscas de humor sem razão aparente, são bandeiras vermelhíssimas às quais deves dar importância! Foge desse relacionamento tóxico o quanto antes. Essa pessoa sugar-te-á toda a energia e a tua saúde mental.

               É preciso trabalhar estes temas com os jovens e a ensiná-los a aceitar a frustração que, naturalmente, surge quando há uma rejeição. Perceber que alguém saudável sofre como tem de sofrer, sem causar dano a terceiros, para se voltar a reerguer. A vida é feita destes tombos e da capacidade de nos regenerarmos. Se cada pessoa que se sentiu enganada fosse matar alguém por causa da sua dor, não sobraria gente no mundo! É preciso educar para as emoções. As escolas vão abordando estes assuntos, mas não de maneira eficaz. É o que se conclui ao olharmos para as estatísticas e a sociedade tem de aprender a deixar de delegar tudo nas escolas, que já fazem extraordinariamente mais do que lhes compete.

               É desde cedo que se desconstroem preconceitos e a prevenção é sempre melhor do que a reação. Portugal nunca aprendeu a prevenir o que quer que fosse. Está na hora de o começarmos a pensar a longo prazo e não, apenas, no imediato.

               É Dia dos Namorados e não tenho nada terno para dizer, depois do que li e que tanto me agastou. Namorai o que puderdes e bem.

 

Nina M.

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