Memórias de um país distante
Assaltam-me
memórias. Interrogo-me sobre as memórias que povoarão as novas gerações.
Certamente distintas. Certamente importantes. Espero que igualmente lúcidas.
As minhas
retratam um Portugal esquecido, já, algo bafiento e muito provinciano. Nem sabíamos
que o éramos! A nossa visão de mundo era do tamanho do que os olhos alcançavam
e do que a ingenuidade permitia, para o bem e para o mal. As minhas memórias
não são cosmopolitas. Pertencem, ainda, a um mundo rural que já não encontro
nem nas profundezas da ruralidade. Não porque os meus pais possuíssem terras,
além do pequeno quintal que rodeava a casa. As tarefas agrícolas eram poucas e
eu era-lhes poupada. Nunca gostei da sensação de secura que fica nas mãos
depois de mexer na terra-as luvas são uma modernice- ou depois do manejo da
enxada. Talvez haja quem não saiba que os homens cuspiam nas mãos e as
esfregavam energicamente uma contra a outra para as humedecer e amolecer os
calos, retirar-lhes a aspereza que sobrava da jorna. As únicas leiras que sirvo
para talhar são as das palavras. Porém, não esqueço. O trabalho miúdo de
apanhar o bago para a prensa, já em dias outonais, tantas vezes molhados, melancólicos
e frios. Maldizia comigo os adultos que punham a catraiada a apanhar bagos. Que
interesse haveria em fazer mais meia-dúzia de garrafas de vinho era o que não
entendia. Se ainda fosse bom! A sua maior qualidade seria a ausência de
aditivos e nem assim, porque o sulfato era sagrado. Uma zurrapa que dali
resultava, mas que só quem já tinha passado mal poderia compreender a
necessidade de evitar qualquer desperdício. Por isso, todo o bago se apanhava.
Ouço ao longe o
aproximar do carro de bois. Não tínhamos bois. Eram do senhor Casimiro que fazia
as terras do senhor Alão. Aproveitei a boleia uma ou duas vezes enquanto brincava
com a suas netas, gaiatas mais ou menos da minha idade. Para lá o carro ia vazio
e a canalha empoleirava-se numa algaraviada que acompanhava o solavanco das
rodas sobre o alcatrão esburacado. Em simultâneo, ouço o tio Manel, acabado de
chegar da França, a resmungar do estado do piso. Parece impossível que esses
filhos – já perceberam o restante - não componham a estrada! Chega-se a Portugal
e é um tam-tam-tam, tam-tam-tam! Depois, os bois sobre os sulcos do caminho de
terra para chegar ao campo. Hora de apear. À vinda, o trajeto era feito a pé. O
carro transportava ora o milho ora o pendão ora a erva. O que fosse. E eu
trazia, por vezes, a brisa e a coceira de passar entre os carreiros das espigas
ou dos feijões. Quando havia sede, a bica sobre o tanque grande era incansável
e a água fresca. O calor talvez desse vontade de fazer do tanque piscina, mas
ninguém o usava para esse fim. Não ia sempre para o campo. Às vezes, as
raparigas lá podiam ficar a brincar em minha casa, mas se a jeira fosse mais
longa que o habitual… Ala! Lá iam as moças contrafeitas. Era bem melhor brincar
às casinhas ou ao elástico ou ao esconde-esconde.
A voz dos
adultos torna-se clara e ouço o Sininho a contar e a rir-se que nem um perdido
que o Severinho, seu irmão, lhe jurara a pés juntos ter ouvido o padre dizer na
missa “o comunismo esteja convosco” em vez do habitual “o Senhor esteja convosco”.
O irmão não acreditou, pois claro. Tal tirada não tinha qualquer nexo, ainda
que o senhor padre não fosse propriamente escorreito. E lá lhe dizia para ele
não dizer isso a ninguém. O Severinho, já com uma certa idade e com problemas
de audição, chamava a mulher para confirmação. Olha lá, diz lá tu o que é que o
padre disse, hoje, na missa. Ela, coitada, o mal da surdez deve-se-lhe ter
pegado e confirmava: “o comunismo esteja convosco!”
O Sininho
ria-se como um perdido, até às lágrimas, porque não achara meios de convencer o
irmão, que não ia à missa com o padre. Cristão cumpridor das suas funções,
sabendo da avareza do prelado, fazia questão de lhe pagar a côngrua no último
dia de dezembro. O pároco era carne de pescoço e a velhice talvez o estivesse a
tornar avarento ou apenas a agravar-lhe os sintomas. Havia paroquianos que não
lhe atendiam aos caprichos que consideravam insustentáveis e um
contratestemunho de fé. De modo que o Severinho jurava a pés juntos que se o
padre passasse por ele na rua e lhe estendesse a mão para o cumprimentar, que
lhe responderia: “Mão de porco só cozida!” O irmão bem tentava contemporizar e
acalmar-lhe os ânimos, mas não havia meio. O mesmo Severinho veio, certa vez,
regalado de uma tarde de passada na discoteca para celebrar qualquer data que
não me recordo! Surdo como uma porta, a música aos brados não lhe fez impressão
e dizia à boca cheia que tinha julgado mal aqueles lugares, mas que afinal se
estava lá muito bem…
Eu ouvia estas
e outras histórias, enquanto saboreava a broa que o sininho me dava, enquanto
esperava com o meu pai que a mãe terminasse o serviço na Junta. A mulher tirou
a carta, mas não conduzia. Entretinha-se à conversa com o Sininho, na mercearia.
Eu sempre às espreita, porque, às vezes, lá calhava de passar por lá o Nero, o
mendigo cordial, mas de quem eu fugia como o diabo da cruz.
Ouço o tossicar
do Lino das Toiras que me ouve no caminho, de mão dada com a avó, a caminho da
sua casa, e como o silêncio me era uma ideia estranha, nesse tempo, me
perguntava, invariavelmente: “Já vais, minha papagaia?!” Ao Lino das Toiras
entrou-lhe uma vaca telhado adentro, durante a noite. Foi um rebuliço. O meu
avô e outros homens a pé. Atrás da vaca, talvez… Eu não dei por nada. No sono profundo,
se um terramoto vier, ficarei soterrada.
Vem-me a voz da
senhora Margarida, a imagem já não me é nítida. Vejo o vulto de preto, a subir
as escaditas de pedra para casa. Mulher má com os próprios filhos e que
maltratava o cão. Coitadinho do bicho. Nem nome tinha. Preso à casota por um cadeado curto. Batia-lhe,
por vezes. Só lhe dava caldo que o bicho não comia. Queria que comesse a batata
do caldo. Aqueles olhos tristes do animal, a quem ela dizia, num tom raivoso,
que era fidalgo. A senhora Margarida tinha uma fúria muito grande dentro de si
que a inocência não permitia compreender. E nós, miúdos, a assistir àquilo remoídos…
Raios partam a velha, má como as cobras! E a nós ainda nos deixava brincar na
sua eira! Outros quaisquer eram corridos sem dó nem piedade. Lá nos devia achar
educados… Aguentou-se numa velhice prolongada, mas nem os filhos lhe poupavam
as palavras e apelidavam a mãe de ser muito mazinha. Era.
Estas pessoas poderiam
ser personagens de um conto do Torga, o retrato de um Portugal distante e rude,
longe dos centros urbanos que, ainda assim, não escapavam à pequenez de um país
por se cumprir. Talvez sejamos a última geração com memórias semelhantes.
Aquela em que, na escola primária (era assim chamada), as enfermeiras apareciam
para vacinar a catraiada. Tudo em fila. Eu escapava. Felizmente, a minha mãe
levava os filhos ao centro de saúde e poupava-nos à vergonha de deixar um pouco
da nalga ao léu, à frente de todos, para levar com a seringa. Era isso e os
comprimidos de flúor. A escola sempre foi pau para toda a colher!
Não sei que
memórias guardará a juventude. Não serão mais as de um Portugal tão provinciano
quanto o meu, mas que ainda assim, me faz sorrir!
Nina M.
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