O algoritmo decisor
Vamos ver se reproduzo o que já
escrevi, mentalmente, ao longo do dia. A propósito de uma conversa sobre Inteligência
Artificial (IA) com uma colega, deu-me para pesquisar um pouco sobre o assunto
e o que começa a acontecer é uma inversão de papéis no mundo empresarial.
Recentemente, foi lançado o projeto Rentahuman.ai
(o Marketplace gerido por IA), que funciona assim: uma empresa - ou até outra
IA - define um objetivo, por exemplo, criar uma campanha de marketing em
Portugal. Para o alcançar, o agente de IA, portanto, o algoritmo da plataforma
analisa o mercado, publica a vaga, entrevista os candidatos humanos, define o
salário conforme o mercado e contrata o gestor humano. Este, por sua vez,
reportará o progresso alcançado à IA e se os indicadores de desempenho não
forem atingidos, o humano pode ver o seu contrato renegociado ou
automaticamente terminado pelo agente IA. Na prática, significa isto: o humano trabalha
e presta contes ao algoritmo. A máquina a comandar o homem; a criação a tomar
conta do criador.
A chinesa NetDragon inverteu o
sistema. Colocou a IA Tang Yu a planear a captação de talentos. Identifica onde
há falhas de competência na empresa e emite ordens de contratação para os
Recursos Humanos, que executam as estratégias definidas pelo algoritmo. É aqui
que nos encontramos e será um pouco difícil imaginar onde estaremos daqui a 15
anos.
Depois, tropecei numa notícia que
dava conta de um robô - ou humanoide, se preferirmos - concebido para fazer
companhia a senhoras solitárias ou menos solitárias, dependendo da sua vontade,
dotados de falo, na verdade, um falo enorme de 30 centímetros, ajustável ao
gosto da compradora! Fiquei a magicar que nenhuma mulher precisa de tal e que
será desconfortável e contraproducente! Mesmo na engenharia, o tamanho continua
a ser a grande obsessão masculina! Esta ideia de jerico só pode ter vindo de um
homem! Confirmadíssimo: recorri à IA para saber a informação. O modelo, Henry,
foi criado por Matt McMullen.
O humanoide é “construído” ao gosto do
cliente, que pode escolher traços de personalidade - timidez, intelectualidade,
romantismo. Está programado para aprender com as conversas. Memoriza factos e
preferências o que lhe permite desenvolver a interação. É capaz de falar, de
contar piadas e até de recitar poesia. O cliente pode “trocar módulos” sem
precisar de comprar um robô novo: muda o rosto, por exemplo, revestido de silicone
de platina, o mesmo que é usado em próteses médicas, capaz de reter o calor se
o sistema de aquecimento interno for ativado.
Este mundo novo levanta questões éticas
enormes: o perigo da desumanização das relações. Habituar-se a um “parceiro”
que não tem vontade própria e diz sim a tudo, diminui a capacidade de lidar com
a complexidade do outro e há a privacidade: a intimidade com um robô cheio de microfones
e de câmaras, que processa dados na nuvem gera um nível de exposição sem
precedentes. Quem responsabilizar se as conversas íntimas forem “hackeadas”?
Não me seduz este “admirável mundo
novo”, mas lembro-me das palavras do sábio Agostinho da Silva: chegaria o dia
em que o homem não precisaria de trabalhar, porque seria substituído pelas
máquinas - que o homem não foi feito para trabalhar, mas para criar. Esse tempo
já esteve mais longe. São assim os visionários. Capazes de prever muito antes o
que acaba por suceder.
Dentro de poucos anos, o trabalho
será residual - o novo luxo. A maioria viverá de um rendimento individual atribuído
pelos governos, fruto da tributação das empresas. Teremos de preencher o vazio
existencial deixado pela ausência de trabalho e de encontrar um sentido e
propósito para a vida. Os criadores estarão em vantagem. Libertos das questões
pragmáticas da vida, poderão dedicar-se aos seus delírios.
Eu, que já trabalho há 28 anos, se a
renda anual me permitir viajar de vez em quando, com a leitura, a escrita e
alguma prática desportiva, arranjo-me bem. Se o robô doméstico se tornar
acessível e fizer a lida da casa, melhor ainda. Posso sempre dar-lhe aulas
enquanto ele me passa a roupa a ferro ou me limpa as casas de banho.
Em alternativa, podemos tentar extrair
água em Marte e arranjar maneira de começar tudo de novo noutro planeta, mantendo
a humanidade mais ou menos como sempre foi - com exceção da sua tendência para
arranjar conflitos armados. De hoje para amanhã, ainda andamos à paulada aos
humanoides e temo que não ganhemos a guerra.
Tudo isto me assusta, mas em
simultâneo, desperta-me uma curiosidade enorme. Quero estar cá para observar a
mudança e fazer como Ricardo Reis, porque sábio é aquele que se contenta com o
espetáculo do mundo!
Para terminar em beleza, não posso deixar
de pedir à IA que seja o meu leitor beta. Já vos conto as novidades. Propôs uns
reajustamentos - uns aceito; outros ignoro. Nunca é de desprezar a ajuda do maquinismo
e, como é expectável, as críticas são sempre positivas.
Nina M.
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