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sábado, 28 de março de 2026

Crónica de Maus Costumes 461

 

O algoritmo decisor

Vamos ver se reproduzo o que já escrevi, mentalmente, ao longo do dia. A propósito de uma conversa sobre Inteligência Artificial (IA) com uma colega, deu-me para pesquisar um pouco sobre o assunto e o que começa a acontecer é uma inversão de papéis no mundo empresarial.

Recentemente, foi lançado o projeto Rentahuman.ai (o Marketplace gerido por IA), que funciona assim: uma empresa - ou até outra IA - define um objetivo, por exemplo, criar uma campanha de marketing em Portugal. Para o alcançar, o agente de IA, portanto, o algoritmo da plataforma analisa o mercado, publica a vaga, entrevista os candidatos humanos, define o salário conforme o mercado e contrata o gestor humano. Este, por sua vez, reportará o progresso alcançado à IA e se os indicadores de desempenho não forem atingidos, o humano pode ver o seu contrato renegociado ou automaticamente terminado pelo agente IA. Na prática, significa isto: o humano trabalha e presta contes ao algoritmo. A máquina a comandar o homem; a criação a tomar conta do criador.

A chinesa NetDragon inverteu o sistema. Colocou a IA Tang Yu a planear a captação de talentos. Identifica onde há falhas de competência na empresa e emite ordens de contratação para os Recursos Humanos, que executam as estratégias definidas pelo algoritmo. É aqui que nos encontramos e será um pouco difícil imaginar onde estaremos daqui a 15 anos.

Depois, tropecei numa notícia que dava conta de um robô - ou humanoide, se preferirmos - concebido para fazer companhia a senhoras solitárias ou menos solitárias, dependendo da sua vontade, dotados de falo, na verdade, um falo enorme de 30 centímetros, ajustável ao gosto da compradora! Fiquei a magicar que nenhuma mulher precisa de tal e que será desconfortável e contraproducente! Mesmo na engenharia, o tamanho continua a ser a grande obsessão masculina! Esta ideia de jerico só pode ter vindo de um homem! Confirmadíssimo: recorri à IA para saber a informação. O modelo, Henry, foi criado por Matt McMullen.

O humanoide é “construído” ao gosto do cliente, que pode escolher traços de personalidade - timidez, intelectualidade, romantismo. Está programado para aprender com as conversas. Memoriza factos e preferências o que lhe permite desenvolver a interação. É capaz de falar, de contar piadas e até de recitar poesia. O cliente pode “trocar módulos” sem precisar de comprar um robô novo: muda o rosto, por exemplo, revestido de silicone de platina, o mesmo que é usado em próteses médicas, capaz de reter o calor se o sistema de aquecimento interno for ativado.

Este mundo novo levanta questões éticas enormes: o perigo da desumanização das relações. Habituar-se a um “parceiro” que não tem vontade própria e diz sim a tudo, diminui a capacidade de lidar com a complexidade do outro e há a privacidade: a intimidade com um robô cheio de microfones e de câmaras, que processa dados na nuvem gera um nível de exposição sem precedentes. Quem responsabilizar se as conversas íntimas forem “hackeadas”?

Não me seduz este “admirável mundo novo”, mas lembro-me das palavras do sábio Agostinho da Silva: chegaria o dia em que o homem não precisaria de trabalhar, porque seria substituído pelas máquinas - que o homem não foi feito para trabalhar, mas para criar. Esse tempo já esteve mais longe. São assim os visionários. Capazes de prever muito antes o que acaba por suceder.

Dentro de poucos anos, o trabalho será residual - o novo luxo. A maioria viverá de um rendimento individual atribuído pelos governos, fruto da tributação das empresas. Teremos de preencher o vazio existencial deixado pela ausência de trabalho e de encontrar um sentido e propósito para a vida. Os criadores estarão em vantagem. Libertos das questões pragmáticas da vida, poderão dedicar-se aos seus delírios.

Eu, que já trabalho há 28 anos, se a renda anual me permitir viajar de vez em quando, com a leitura, a escrita e alguma prática desportiva, arranjo-me bem. Se o robô doméstico se tornar acessível e fizer a lida da casa, melhor ainda. Posso sempre dar-lhe aulas enquanto ele me passa a roupa a ferro ou me limpa as casas de banho.

Em alternativa, podemos tentar extrair água em Marte e arranjar maneira de começar tudo de novo noutro planeta, mantendo a humanidade mais ou menos como sempre foi - com exceção da sua tendência para arranjar conflitos armados. De hoje para amanhã, ainda andamos à paulada aos humanoides e temo que não ganhemos a guerra.

Tudo isto me assusta, mas em simultâneo, desperta-me uma curiosidade enorme. Quero estar cá para observar a mudança e fazer como Ricardo Reis, porque sábio é aquele que se contenta com o espetáculo do mundo!

Para terminar em beleza, não posso deixar de pedir à IA que seja o meu leitor beta. Já vos conto as novidades. Propôs uns reajustamentos - uns aceito; outros ignoro. Nunca é de desprezar a ajuda do maquinismo e, como é expectável, as críticas são sempre positivas.

 

Nina M.

 

 

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