O novo Calígula
Os tempos
mórbidos que vivemos apontam para uma transformação social que se adivinha, não
se sabe se para melhor ou pior…
Os mais velhos tenderão a achar que é
para pior e os mais novos, bem… Têm um futuro inteiro à sua frente e pouco
passado atrás. Assim, a luta que a geração dos nossos pais travou pela
liberdade e que nos deixou como legado a preservar, é a nossa preocupação
essencial. Crescemos politizados, numa democracia muito jovem que era preciso
proteger acima de qualquer outro valor. Os que viveram sob o jugo da ditadura
sabem como a vida era difícil. A geração dos meus filhos entende que os pais já
foram suficientemente desgraçados por não terem tido acesso a certos bens
materiais que fazem parte da sua realidade. É-lhes impensável viver sem
telemóvel, computadores e consolas. Ouvem as nossas histórias de infância e
julgam-nos uns desgraçados. Insistimos que vivemos uma infância muito feliz:
não passamos fome, ao contrário dos nossos pais (a minha mãe passa a vida a
falar do caldo pobre que mais triste se tornava a seus olhos, quando não havia
feijão. Nunca gostou da sopa sem ele. O meu pai acrescenta que o caldo era água
lavada de couve-galega e um pouco da batata), mas não tivemos excesso e
aprendemos a partilhar. Era o tempo em que uma bicicleta tinha de dar para
todos os irmãos ou primeiro computador, o “spectrum” que funcionava ligado a um
gravador, com a cassete dos jogos, comprado com o dinheiro que tínhamos juntado
dos presentes… Nunca gastei dinheiro que considerasse um tal desperdício como
este! Posso contar pelos dedos das mãos as vezes que sentei em frente ao
machibombo para jogar… Não encho uma! Nunca gostei nem nunca tive paciência
para esses jogos. Valia mais uma partida de cartas ou outras brincadeiras ao ar
livre… Fomos uma geração mais equilibrada, ainda do analógico, do tempo em que
as fotografias levavam o seu tempo. Era preciso gastar o rolo, primeiro,
depois, levá-lo ao fotógrafo que levava oito dias para as revelar. Mesmo assim,
corria-se sempre o risco de cortar cabeças, pés, de ficarem desfocadas… O preço
era ao rolo. Ficassem boas ou más, aproveitássemos muitas ou poucas e o dia de
o ir buscar, uma emoção e a ansiedade. Hoje, os miúdos vivem o tempo da
vertigem e do “scrolling” ininterrupto, o tempo das imagens sucessivas, num
caleidoscópio interminável, sem pausas, sem informação aprofundada e sem
reflexão. A nossa geração soube o significado de crescer com algumas
dificuldades, sem as mordomias que lhes proporcionamos, hoje. A vida mais
confortável e livre que já herdamos era um legado que deveria ser preservado e
alargado. Paulatinamente, a nossa geração transformou-se no novo
conservadorismo, no sentido de querermos preservar e cuidar do novo modo de vida
democrática. Portanto, sim, sou uma das que defendo e quero preservar os 50
anos disto. Significa os 50 anos democráticos. Tudo isto está muito longe das
novas gerações para quem a defesa da democracia e da liberdade se tornou uma
meta curta e precisam de que lhes falem num futuro em que viver em Marte seja a
nova conquista. Nós continuamos a lutar contra a fome e as terríveis
assimetrias que o mundo apresenta, a protestar e a verter uma lágrima pelas
vidas que sucumbem perante assassinatos a sangue-frio e à vista de todos, por
uma polícia que se torna política (ICE), num país que já foi o baluarte da
democracia. A nossa geração estremece perante estas imagens e recusamo-nos a
aceitar que possa ser verdade! É inaceitável. É injustificável e inqualificável.
Os EUA escolheram ser governados por um terrorista sociopata e aqueles agentes
que foram capazes de disparar, sem qualquer motivo, primeiro, contra Renée Good
e, hoje, contra Alex Pretti são assassinos. Homicidas. Num país onde vigore a
decência e a justiça estes canalhas teriam de responder perante a lei. Estou
zangada. Muito zangada. Um presidente demente, um novo Calígula, mas poderoso,
consegue trair todo o ocidente, todos os valores construídos, todas as
Instituições e os Direitos Humanos. Um mentecapto mentiroso que não respeita o
próprio povo, a quem só falta arranjar um cavalo chamado “Incitatus” e nomeá-lo
senador. Grande besta! Pode ser que morra pelas mãos da própria guarda
pretoriana, tal como aconteceu com o Calígula romano!
Olho para esta realidade angustiada.
Não sei o olhar das novas gerações, facilmente manipuláveis, mas espero que
compreendam que a oposição a estas tiranias é mais importante do que o avanço da
Inteligência Artificial. Espero que entendam que os discursos de ódio cavam fossos
sociais que antes não existiam, que a verdadeira evolução humana consiste na
eliminação da crueldade e da maldade. Espero que compreendam que aqueles que se
dizem muito cristãos, mas atiram, não a primeira, mas um cesto inteiro de
pedras, subvertem a mensagem de Amor fraterno que Ele nos deixou. Invocam o Seu
nome em vão. São os verdadeiros vendilhões do templo. Espero que entendam que
estes não são melhores do que outros terroristas a quem apontam o dedo e de quem,
insistem, nos querem proteger. Deus nos proteja dos falsos profetas!
Espero que a situação vivida nos EUA
sirva de lição interna. Atentem nos discursos e nas colagens, nas bandeiras
defendidas e nas sucessivas mentiras e não façam a escolha entre esquerda e
direita. Façam a escolha entre a democracia e a tirania, entre a liberdade e a
opressão, entre o bem e o mal. Chegamos aqui: não é mais uma simples escolha
entre democratas, mas uma escolha entre o bem e o mal e este não acontece,
apenas, aos outros.
Estou agastada. Bom domingo, se vos for
possível…
Nina M.
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