Seguidores

sábado, 24 de janeiro de 2026

Crónica de Maus Costumes 452

 

O novo Calígula

            Os tempos mórbidos que vivemos apontam para uma transformação social que se adivinha, não se sabe se para melhor ou pior…

Os mais velhos tenderão a achar que é para pior e os mais novos, bem… Têm um futuro inteiro à sua frente e pouco passado atrás. Assim, a luta que a geração dos nossos pais travou pela liberdade e que nos deixou como legado a preservar, é a nossa preocupação essencial. Crescemos politizados, numa democracia muito jovem que era preciso proteger acima de qualquer outro valor. Os que viveram sob o jugo da ditadura sabem como a vida era difícil. A geração dos meus filhos entende que os pais já foram suficientemente desgraçados por não terem tido acesso a certos bens materiais que fazem parte da sua realidade. É-lhes impensável viver sem telemóvel, computadores e consolas. Ouvem as nossas histórias de infância e julgam-nos uns desgraçados. Insistimos que vivemos uma infância muito feliz: não passamos fome, ao contrário dos nossos pais (a minha mãe passa a vida a falar do caldo pobre que mais triste se tornava a seus olhos, quando não havia feijão. Nunca gostou da sopa sem ele. O meu pai acrescenta que o caldo era água lavada de couve-galega e um pouco da batata), mas não tivemos excesso e aprendemos a partilhar. Era o tempo em que uma bicicleta tinha de dar para todos os irmãos ou primeiro computador, o “spectrum” que funcionava ligado a um gravador, com a cassete dos jogos, comprado com o dinheiro que tínhamos juntado dos presentes… Nunca gastei dinheiro que considerasse um tal desperdício como este! Posso contar pelos dedos das mãos as vezes que sentei em frente ao machibombo para jogar… Não encho uma! Nunca gostei nem nunca tive paciência para esses jogos. Valia mais uma partida de cartas ou outras brincadeiras ao ar livre… Fomos uma geração mais equilibrada, ainda do analógico, do tempo em que as fotografias levavam o seu tempo. Era preciso gastar o rolo, primeiro, depois, levá-lo ao fotógrafo que levava oito dias para as revelar. Mesmo assim, corria-se sempre o risco de cortar cabeças, pés, de ficarem desfocadas… O preço era ao rolo. Ficassem boas ou más, aproveitássemos muitas ou poucas e o dia de o ir buscar, uma emoção e a ansiedade. Hoje, os miúdos vivem o tempo da vertigem e do “scrolling” ininterrupto, o tempo das imagens sucessivas, num caleidoscópio interminável, sem pausas, sem informação aprofundada e sem reflexão. A nossa geração soube o significado de crescer com algumas dificuldades, sem as mordomias que lhes proporcionamos, hoje. A vida mais confortável e livre que já herdamos era um legado que deveria ser preservado e alargado. Paulatinamente, a nossa geração transformou-se no novo conservadorismo, no sentido de querermos preservar e cuidar do novo modo de vida democrática. Portanto, sim, sou uma das que defendo e quero preservar os 50 anos disto. Significa os 50 anos democráticos. Tudo isto está muito longe das novas gerações para quem a defesa da democracia e da liberdade se tornou uma meta curta e precisam de que lhes falem num futuro em que viver em Marte seja a nova conquista. Nós continuamos a lutar contra a fome e as terríveis assimetrias que o mundo apresenta, a protestar e a verter uma lágrima pelas vidas que sucumbem perante assassinatos a sangue-frio e à vista de todos, por uma polícia que se torna política (ICE), num país que já foi o baluarte da democracia. A nossa geração estremece perante estas imagens e recusamo-nos a aceitar que possa ser verdade! É inaceitável. É injustificável e inqualificável. Os EUA escolheram ser governados por um terrorista sociopata e aqueles agentes que foram capazes de disparar, sem qualquer motivo, primeiro, contra Renée Good e, hoje, contra Alex Pretti são assassinos. Homicidas. Num país onde vigore a decência e a justiça estes canalhas teriam de responder perante a lei. Estou zangada. Muito zangada. Um presidente demente, um novo Calígula, mas poderoso, consegue trair todo o ocidente, todos os valores construídos, todas as Instituições e os Direitos Humanos. Um mentecapto mentiroso que não respeita o próprio povo, a quem só falta arranjar um cavalo chamado “Incitatus” e nomeá-lo senador. Grande besta! Pode ser que morra pelas mãos da própria guarda pretoriana, tal como aconteceu com o Calígula romano!

Olho para esta realidade angustiada. Não sei o olhar das novas gerações, facilmente manipuláveis, mas espero que compreendam que a oposição a estas tiranias é mais importante do que o avanço da Inteligência Artificial. Espero que entendam que os discursos de ódio cavam fossos sociais que antes não existiam, que a verdadeira evolução humana consiste na eliminação da crueldade e da maldade. Espero que compreendam que aqueles que se dizem muito cristãos, mas atiram, não a primeira, mas um cesto inteiro de pedras, subvertem a mensagem de Amor fraterno que Ele nos deixou. Invocam o Seu nome em vão. São os verdadeiros vendilhões do templo. Espero que entendam que estes não são melhores do que outros terroristas a quem apontam o dedo e de quem, insistem, nos querem proteger. Deus nos proteja dos falsos profetas!

Espero que a situação vivida nos EUA sirva de lição interna. Atentem nos discursos e nas colagens, nas bandeiras defendidas e nas sucessivas mentiras e não façam a escolha entre esquerda e direita. Façam a escolha entre a democracia e a tirania, entre a liberdade e a opressão, entre o bem e o mal. Chegamos aqui: não é mais uma simples escolha entre democratas, mas uma escolha entre o bem e o mal e este não acontece, apenas, aos outros.

Estou agastada. Bom domingo, se vos for possível…

 

Nina M.

Sem comentários:

Enviar um comentário