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sábado, 7 de fevereiro de 2026

Crónica de Maus Costumes 454

 

Memento Mori

               Partiu o pobre ou o Pacheco, nome pelo qual era tratado, mas como nem era pobre (o epíteto não passava de um chiste para acicatar quem tinha fama de poupado) nem Pacheco, porque este não era o seu verdadeiro nome, na verdade, o senhor Cândido Azevedo permanece entre os que o conheceram e com ele privaram. Teve uma vida cheia de trabalho e de sacrifício, de domingo a domingo. Viveu pelos filhos e para os filhos e creio que não sabia ser de outra forma.

               Eu gostava do Pacheco. A falar dele, dizia assim, a falar com ele, tratava-o por senhor Cândido. Partiu com 92 anos à frente da sua esposa, também ela Cândida, que padece de demência há alguns anos. Ele, mais velho, mas talvez todos fôssemos capazes de jurar que resistiria mais do que a mulher. A última vez que o vi, na véspera de consoada, estava hospitalizado e já muito debilitado, mas sempre a insistir em fazer as coisas por si, ainda que precisasse de ajuda para se sentar ou levantar. Foi simpatia mútua, porque o senhor Cândido sempre me tratou muito bem, com alguma deferência, até. Muitas vezes, dava-lhe para me tratar por madame e deixar cair um “comment allez-vous?”, que ia buscar ao fundo da sua memória prodigiosa, dos seus tempos de emigrante em França. O Pacheco engraçou comigo, desde que a minha existência começou a fazer parte daquele lugar, da aldeia onde Camilo, por si dito, passou os anos mais felizes da sua juventude. A aldeia perde parte do seu pitoresco e é um pouco estranho chegar ao café e saber que não irei encontrar o Pacheco nem o irei ver mais em cima do trator ou a conduzir o seu Fiat, ainda que as suas cataratas já não lhe permitissem ver um palmo à frente do nariz. Ele ria-se. Encolhia os ombros e gracejava que o carro já conhecia o caminho, quando lhe dizia que ele já não deveria conduzir. Guardei a sua imagem, em cima do trator, a passar estradão abaixo, a levantar o braço, com o chapéu de palha, no verão, sempre de sorriso aberto. Era muito fácil simpatizar-se com o senhor Cândido pela sua simpatia natural e pela sua astúcia para o negócio que me fazia sorrir. Um negociador nato! Deixo-lhe o meu pequeno tributo. Descanse em paz, senhor Cândido.

               Escrever a despedida de alguém faz-nos lembrar da nossa própria finitude. Comecei a pensar se preferiria ser cremada ou ter o habitual enterramento. Falar sobre isto não é mórbido. Creio ser sinal de consciência e de desassombro. A ideia de ficar fechada a sete palmos debaixo de terra é um pouco asfixiante… Eu sei que não sentirei nada, mas atrapalha-me as ideias em vida… Que hei de fazer? Na verdade, o que não me apetece nada é morrer. Nunca senti tal vontade… O forno não é propriamente sedutor, mas traz algumas vantagens: primeiro, literariamente, é mais interessante. O fogo é sempre símbolo de destruição, mas também de purificação, de fogo redentor e de reconstrução, a ideia de fénix renascida. Como creio que nos transformaremos numa energia que se fundirá no universo (como o pai de Lobo Antunes disse, o nada, em biologia não existe) será um renascimento. Portanto, o fogo destrói o antigo para permitir o novo. É bem mais bonita esta imagem literária do que a do “funéreo enterramento”, para usar uma expressão camoniana, extraída de “Os Lusíadas”. Depois, pouparei trabalho aos filhos com mausoléus no cemitério. A urna de cinzas, como lhe chamam, é pequena e caberá em qualquer parte. Se quiserem, podem deixá-la num columbário, mas não faço questão nenhuma… Liberto-os da “obrigação” de visitar sepultura, limpar e enfeitar com flores… Eu não estarei lá, de qualquer forma… De modo que ao falar disto, disse ao meu rapaz: como o pote (a urna de cinzas) vem lacrada, podes deixar-me ali, na biblioteca. Será um bom lugar… Depois, avisei, mas cuidado! Imaginemos que por acidente atirais o pote ao chão e ainda vos vedes obrigados a limpar… Atenção! Ainda vou parar dentro do aspirador! Isso também não me parece muito bem… Eis que o rapaz teve a belíssima ideia de dizer que sempre pode ir espalhar as cinzas ao Dragão!... Eu sorri. Pareceu-me um belíssimo lugar, na verdade, só que o avisei que terá de o fazer à renúncia. Só fará sentido se as esparzir pelo relvado… Ora, meu menino… Não te vão deixar fazer… Ele garantiu, de imediato, que compra um bilhete para visitar o museu e lá se arranja…

A minha imaginação viu-o a correr relvado adentro, a tentar livrar-se da mãe a todo o custo, enquanto seguranças correm atrás dele para impedir o maluco de pisar o relvado. Seria épico e muito mais engraçado do que baixar o féretro à terra…

Não sei… Fazei lá o que quiserdes das cinzas… Metei-as num armário qualquer, como se de uma arrumação se tratasse e pronto. Caso resolvido. Se vos pegar, de vez em quando, alguma saudade da mãe, tereis fotografias e tereis estes textos, que serão o legado possível. O enterramento, eu dispenso, meus filhos.

 

P.S. Amanhã, é dia de eleições. Ide votar, ide.

Nina M.

              

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