Anda tudo a morrer
O subtítulo
da crónica de hoje não é meu. Surripiei-o ao meu primogénito que, de vez em
quando tem umas saídas destemperadas, mas ingénuas, que me desconcertam e me
deixam entre o riso e o desespero…
Não quer
nada com a escrita, mas teria talento se o quisesse trabalhar… Enfim… Considera uma perda de tempo, mas
fareja-me de cada vez que me vê a participar de fóruns relacionados com a
Literatura e a escrita. Deve andar a tentar perceber o que haverá ali de tão
interessante para fazer com que a mãe se dê a mais um trabalho suplementar, do
qual não vingam frutos.
Soltou a frase à mesa, durante o
jantar, a propósito de um comentário sobre o falecimento de alguém, talvez
marcado, também, por uma experiência familiar difícil. Certo é que lá deixou
cair o desabafo: também… Agora, anda tudo a morrer… Primeiro, travei a garfada
que levava à boca, por segundos; depois, abanei a cabeça e, finalmente, sorri. Disse: Isso dá um ótimo título! Fui anotar para não o esquecer. Bem, recuperada a serenidade, lá lhe disse: É.
Anda tudo a morrer, como se fosse uma questão de escolha!
- Não é isso!
Certo, percebi, onde queria chegar. Confronta-se com a realidade de ver, repentinamente, o desaparecimento de
algumas pessoas, daí o seu “anda tudo a morrer…” Na verdade, andamos todos a
morrer um bocadinho todos os dias, porque cada dia passado representa menos um
que viveremos. Assim, é preciso parar com a mania de querermos apressar as
coisas, de desejarmos que chegue rapidamente o fim de semana, o verão, o
próximo mês, seja o que for… De cada vez que o desejamos, estamos a pedir que a
nossa finitude se aproxime sem disso termos consciência. Povoam-me as últimas
palavras que o ator Eric Dane deixou às suas meninas, antes da sua viagem
final. Tão novo, ainda… Tão cheio de vida e partiu tão cheio de dignidade. Dizia-lhes
que vivessem no presente. Tem razão. A única forma de aproveitarmos devidamente
esta caminhada é adquirir a capacidade de saber viver no presente, a capacidade
de valorizar todos os momentos, mesmo aqueles que nos parecem inócuos e mera
rotina. De repente, a rotina que parece incomodar pode deixar de existir. Foi o
que aconteceu com o Eric Dane. A Esclerose Lateral Amiotrófica roubou-lhe tudo:
a capacidade de caminhar, de falar, de comer e de respirar… É o que acontece
com tanta gente todos os dias e um dia, por azar, pode calhar-nos a fava.
Então, tudo o que dávamos por garantido pode deixar de existir. A vida não é
justa, não é democrática e nem sempre distribui alegrias ou agruras por meritocracia.
É como calha e como tiver de ser. Vamos morrendo um bocadinho todos os dias,
mas também vamos vivendo. Portanto, há que saber viver enquanto o batimento
final não chega. Saber viver no presente, como aconselhou o ator às filhas.
Para isso, precisam de se apaixonar por algo para terem algo que faça valer a
pena o esforço de levantar da cama todas as manhãs e, também, por alguém,
recomenda. Por fim, lutar, ser resiliente para realizar os objetivos. Por
outras palavras, o ator deixa-lhes a mensagem de que é fundamental encontrar o
sentido para a vida e pugnar por ele com lealdade. Foi uma bela mensagem e bons
conselhos, mesmo que não sejam novos, mas que haveria o homem de inventar mais
no que à alma humana diz respeito? Epicuro deixou-nos o seu “carpe diem”, o
aproveitar o dia, em busca de prazeres moderados e evitar a dor, os estoicos,
também nos convidam a viver o presente porque é o único tempo que podemos
controlar. O amanhã não nos pertence. A formulação completa de Horácio dizia “Carpe
diem, quam minimum crédula postero” – Colha o dia, confiando o mínimo possível
no amanhã. Duas filosofias coexistentes e rivais que mostravam ao indivíduo
como ele pode ser feliz e ter paz de espírito mesmo quando o mundo á sua volta se
desmorona. Um epicurista aconselharia a largar a política e ir cuidar do
jardim. A arte de contemplar! O estoico aconselharia a cumprir o nosso lugar na
sociedade, independentemente, das dificuldades que pudessem surgir. A mim, mais
de 2.300 anos depois, parece-me inteligente fazer a síntese e conseguir aliar
as duas, na expectativa de viver uma vida boa. Quem não for muito helenista
pode sempre recorrer a Heidegger e ao ser-para-a-morte, não para se sentar à
espera dela, mas porque a consciência de que ela está ao virar da esquina, obriga-nos
a escolher melhor e sem perda de tempo.
Se os epicuristas colhiam o prazer para ignorar o vazio (a morte) e os
estoicos a aceitavam resignadamente, como um dever, por se tratar de uma lei da
natureza, Heidegger propõe a liberdade de ser autêntico, porque a consciência
da finitude não deixa espaço para adiamentos. Ser autêntico é ser o condutor da
própria vida e saber o que nos convém, não desperdiçando o tempo que nos resta.
Efetivamente, anda tudo a morrer,
filho e tu, sem saberes sequer da existência de Heidegger, descobriste, de
certa forma, o ser-para-a-morte. Falta, agora, trabalhares a tua autenticidade.
Nina M.
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