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sábado, 7 de março de 2026

Crónica de Maus Costumes 458

 

O despertar de um génio

As notícias desta semana trouxeram a morte de António Lobo Antunes. Nada que surpreendesse muito. Sabia-se que ele tinha uma doença neurodegenerativa. Nem os génios são poupados à demência. Na verdade, nos últimos tempos já não seria o Lobo Antunes. O corpo, sim, mas o ser estaria longe…

Sempre que falo de Lobo Antunes, lembro-me da sua tirada para o pai, que o foi acordar, farto da sua preguiça. Sua excelência não se punha a pé para ir para a faculdade e andou três anos sem pôr os pés num exame! Quando me enervo com o meu filho, lembro-me desta história, porém, o Lobo Antunes era um genial e o meu filho, um simples mortal como a maioria de nós. Irritado com o rompante do pai, Lobo Antunes pergunta-lhe:

- Que foi? Veio assistir ao despertar de um génio?

Lembrava este episódio consciente do seu descaramento e da ousadia próprias de uma juventude, dona de uma ignorância atrevida, mas não deixou de dizer, quando recebeu o prémio da SPA, que já não tinha oportunidade, mas que gostaria de ter dito à mãe que, afinal, é possível viver de livros. Aliás, que um médico do SNS se reforma com cerca de 2 500 euros e que ele ganha bem mais. Afinal, se continuasse médico é que teria de ir vender pensos rápidos para a rua! Tem a sua piada, sim. Os pais que lhe exigiram o curso de medicina, que depois acabou por fazer de uma assentada, primeiro porque a mãe o comprou com a carta de condução e em segundo, porque ele descobriu que se despachasse a coisa, ficava com as férias livres para poder escrever, acabaram por receber uma bofetada de luva branca. O destino do filho era mesmo ser um gigante da literatura. Quando assim é, nada há a fazer. O homem lia aos quatro anos! Aos cinco e aos seis escrevia “romances de duas páginas”, como ele mesmo afirmou!

Tenho pena que o Nobel nunca tenha chegado. Lobo Antunes teve a bênção e a maldição de nascer português! Seria bem merecido, como certamente para tantos outros escritores de países periféricos… A França tem dezasseis laureados, EUA, treze, Reino Unido, doze, Alemanha, nove, Suécia, oito, Espanha e Itália, seis cada, Polónia, cinco, Irlanda, quatro e Rússia /URSS, quatro. Em português, apenas um (José Saramago), tal como Egito, Nigéria e Japão! O facto de haver um único prémio em língua portuguesa é de uma injustiça tremenda! O Brasil tem bons escritores! Um Jorge Amado foi esquecido! Clarice Lispector, o moçambicano Mia Couto, entre outros. Houve contemplados na América latina, na língua espanhola: Gabriel García Márquez (colombiano), Pablo Neruda e Gabriela Mistral (chilenos), Mario Vargas Llosa (peruano). O uruguaio Eduardo Galeano foi esquecido, apesar do seu antiamericanismo e anticapitalismo, tal como o checo Milan Kundera, exilado em Paris, a quem nunca foi perdoado ter virado costas ao regime da ex-União Soviética.

O processo de seleção é complexo. Em cada ano, de setembro a janeiro, a Academia Sueca envia 600 a 700 formulários de indicação para pessoas ao redor do mundo: a Membros da própria Academia Sueca, a membros de outras academias ou sociedades literárias, a professores de literatura e linguística em universidades, ex-laureados com o prémio Nobel, presidentes de sociedades de autores. De fevereiro a abril, a Academia recebe as propostas e filtra cerca de 200 nomes para eliminar repetições e certificarem-se de que os candidatos se integram nos “critérios de excelência idealista” de Alfred Nobel. E a excelência idealista dará pano para mangas… Em Maio, os nomes ficarão reduzidos a cinco, aprovados por todos os dezoito membros da Academia Sueca. De junho a Agosto, os elementos da Academia têm de ler a obra completa dos cinco finalistas e a deliberação chega entre setembro e outubro. Em setembro, reúnem para debater o mérito de cada finalista e a votação é em outubro. O vencedor tem de receber mais da metade dos votos. Finalmente, o anúncio é feito numa quinta-feira de outubro, às 13horas. Todo este processo é envolto no mais absoluto sigilo. Há que admitir que o processo é longo e muito cuidado, mas não impede que injustiças sejam cometidas e que os países mais periféricos sejam mais esquecidos, como se observa pela lista. Percebemos que o processo é também politizado e que a interpretação do conceito de excelência idealista pedida por Alfred Nobel tem mudado ao longo do século. Seja como for, faltou mais um Nobel para Portugal. É caso para questionarmos se a obra de Lobo Antunes não será mais válida do que a de Bob Dylan, literariamente falando, por mais que as letras das suas canções abordem temas ligados à condição humana e tenham qualidade literária!

Lobo Antunes, o romancista polifónico, e do fluxo de consciência, que aborda temas como a memória, a solidão, a guerra colonial, enfim… faz desfilar a solidão radical do indivíduo, as suas máscaras e o que sobra do homem sem elas, a dor profunda e tentativa de colar os próprios cacos, um indivíduo a tentar não se dissolver no caos que é o mundo. Uma leitura densa e difícil, mas que nos confronta com os próprios demónios.

Lobo Antunes partiu sem o Nobel e eu acho profundamente injusto, para ele, para nós, um país pequeno capaz de produzir gigantes e, sobretudo, para a língua portuguesa.

Descanse em Paz, Lobo Antunes, e que Deus lhe faça a vontade e o deixe repousar entre Camões e Vasco da Gama, como escreveu numa das suas belíssimas crónicas e o deixe ter inúmeras conversas com os grandes amigos que foi perdendo (José Cardoso Pires, Vasco Pulido valente e Eduardo Lourenço, para além do irmão e pais, naturalmente). Frei Bento Domingues, ainda por cá se aguenta, apesar dos seus 91 anos. Rezará pelo amigo, mas não o visitará na tumba, já que lhe disse, certa altura, que nenhum morto se encontrava no cemitério.

Com tristeza, assistimos à partida de um génio com a esperança de que possa ser o despertar para outra coisa ainda e essa coisa é que é linda, para parafrasear Pessoa.

 

Nina M.

 

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