O despertar de um génio
As notícias desta semana trouxeram a
morte de António Lobo Antunes. Nada que surpreendesse muito. Sabia-se que ele tinha
uma doença neurodegenerativa. Nem os génios são poupados à demência. Na
verdade, nos últimos tempos já não seria o Lobo Antunes. O corpo, sim, mas o
ser estaria longe…
Sempre que falo de Lobo Antunes,
lembro-me da sua tirada para o pai, que o foi acordar, farto da sua preguiça.
Sua excelência não se punha a pé para ir para a faculdade e andou três anos sem
pôr os pés num exame! Quando me enervo com o meu filho, lembro-me desta
história, porém, o Lobo Antunes era um genial e o meu filho, um simples mortal
como a maioria de nós. Irritado com o rompante do pai, Lobo Antunes
pergunta-lhe:
- Que foi? Veio assistir ao despertar
de um génio?
Lembrava este episódio consciente do
seu descaramento e da ousadia próprias de uma juventude, dona de uma ignorância
atrevida, mas não deixou de dizer, quando recebeu o prémio da SPA, que já não
tinha oportunidade, mas que gostaria de ter dito à mãe que, afinal, é possível
viver de livros. Aliás, que um médico do SNS se reforma com cerca de 2 500
euros e que ele ganha bem mais. Afinal, se continuasse médico é que teria de ir
vender pensos rápidos para a rua! Tem a sua piada, sim. Os pais que lhe
exigiram o curso de medicina, que depois acabou por fazer de uma assentada, primeiro
porque a mãe o comprou com a carta de condução e em segundo, porque ele
descobriu que se despachasse a coisa, ficava com as férias livres para poder
escrever, acabaram por receber uma bofetada de luva branca. O destino do filho
era mesmo ser um gigante da literatura. Quando assim é, nada há a fazer. O
homem lia aos quatro anos! Aos cinco e aos seis escrevia “romances de duas
páginas”, como ele mesmo afirmou!
Tenho pena que o Nobel nunca tenha
chegado. Lobo Antunes teve a bênção e a maldição de nascer português! Seria bem
merecido, como certamente para tantos outros escritores de países periféricos… A
França tem dezasseis laureados, EUA, treze, Reino Unido, doze, Alemanha, nove,
Suécia, oito, Espanha e Itália, seis cada, Polónia, cinco, Irlanda, quatro e
Rússia /URSS, quatro. Em português, apenas um (José Saramago), tal como Egito,
Nigéria e Japão! O facto de haver um único prémio em língua portuguesa é de uma
injustiça tremenda! O Brasil tem bons escritores! Um Jorge Amado foi esquecido!
Clarice Lispector, o moçambicano Mia Couto, entre outros. Houve contemplados na
América latina, na língua espanhola: Gabriel García Márquez (colombiano), Pablo
Neruda e Gabriela Mistral (chilenos), Mario Vargas Llosa (peruano). O uruguaio Eduardo
Galeano foi esquecido, apesar do seu antiamericanismo e anticapitalismo, tal
como o checo Milan Kundera, exilado em Paris, a quem nunca foi perdoado ter
virado costas ao regime da ex-União Soviética.
O processo de seleção é complexo. Em
cada ano, de setembro a janeiro, a Academia Sueca envia 600 a 700 formulários
de indicação para pessoas ao redor do mundo: a Membros da própria Academia
Sueca, a membros de outras academias ou sociedades literárias, a professores de
literatura e linguística em universidades, ex-laureados com o prémio Nobel,
presidentes de sociedades de autores. De fevereiro a abril, a Academia recebe
as propostas e filtra cerca de 200 nomes para eliminar repetições e
certificarem-se de que os candidatos se integram nos “critérios de excelência
idealista” de Alfred Nobel. E a excelência idealista dará pano para mangas… Em
Maio, os nomes ficarão reduzidos a cinco, aprovados por todos os dezoito membros
da Academia Sueca. De junho a Agosto, os elementos da Academia têm de ler a
obra completa dos cinco finalistas e a deliberação chega entre setembro e
outubro. Em setembro, reúnem para debater o mérito de cada finalista e a
votação é em outubro. O vencedor tem de receber mais da metade dos votos.
Finalmente, o anúncio é feito numa quinta-feira de outubro, às 13horas. Todo
este processo é envolto no mais absoluto sigilo. Há que admitir que o processo
é longo e muito cuidado, mas não impede que injustiças sejam cometidas e que os
países mais periféricos sejam mais esquecidos, como se observa pela lista.
Percebemos que o processo é também politizado e que a interpretação do conceito
de excelência idealista pedida por Alfred Nobel tem mudado ao longo do século. Seja
como for, faltou mais um Nobel para Portugal. É caso para questionarmos se a
obra de Lobo Antunes não será mais válida do que a de Bob Dylan, literariamente
falando, por mais que as letras das suas canções abordem temas ligados à
condição humana e tenham qualidade literária!
Lobo Antunes, o romancista polifónico,
e do fluxo de consciência, que aborda temas como a memória, a solidão, a guerra
colonial, enfim… faz desfilar a solidão radical do indivíduo, as suas máscaras
e o que sobra do homem sem elas, a dor profunda e tentativa de colar os
próprios cacos, um indivíduo a tentar não se dissolver no caos que é o mundo.
Uma leitura densa e difícil, mas que nos confronta com os próprios demónios.
Lobo Antunes partiu sem o Nobel e eu
acho profundamente injusto, para ele, para nós, um país pequeno capaz de
produzir gigantes e, sobretudo, para a língua portuguesa.
Descanse em Paz, Lobo Antunes, e que
Deus lhe faça a vontade e o deixe repousar entre Camões e Vasco da Gama, como
escreveu numa das suas belíssimas crónicas e o deixe ter inúmeras conversas com
os grandes amigos que foi perdendo (José Cardoso Pires, Vasco Pulido valente e Eduardo
Lourenço, para além do irmão e pais, naturalmente). Frei Bento Domingues, ainda
por cá se aguenta, apesar dos seus 91 anos. Rezará pelo amigo, mas não o
visitará na tumba, já que lhe disse, certa altura, que nenhum morto se
encontrava no cemitério.
Com tristeza, assistimos à partida de
um génio com a esperança de que possa ser o despertar para outra coisa ainda e essa
coisa é que é linda, para parafrasear Pessoa.
Nina M.
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