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sábado, 16 de maio de 2026

Crónica de Maus Costumes 468

 

A origem do mal

            De onde surge a maldade? Onde habita e como se decide manifestar? A educação e a cultura deveriam bastar para a eliminar. Não basta.

             Vivo sem aceitar. Não tenho a bem-querença de Rousseau e entendo que o bem e o mal habitam o homem. A educação deveria fazer com que a escolha do bem fosse uma evidência, mas olhar atentamente o mundo arruína esta tese. Penso nos pais que têm filhos que fizeram a escolha do mal e entristeço-me. Talvez nada me pesasse tanto. Talvez nada me fizesse sentir tão absolutamente fracassada. No entanto, tenho a consciência de que a trajetória de cada um é mais da sua responsabilidade do que da alheia. Filhos dos mesmos pais, criados nas mesmas circunstâncias, reagem e crescem de modo diferente. Há um caminho feito em solidão, apesar de todas as influências que possamos ter.

            Não há nada de mais comovente e importante quanto ser, genuinamente, boa pessoa. Conseguir que o amor que nos habita vença a maldade para que na solidão de que todos somos feitos possamos descansar.

            Lembro-me de ter sido má e de logo em seguida a culpa remoer-me até aos ossos. A avó Matilde ainda tinha o tear, creio. Penso que estaria a batucar nele. Por alguma razão, não pude fazer o que me apetecia (já não sei do que se tratava), mas a avó não permitiu. Sei que conseguiu enfurecer-me muito. Subiu-me a ira ao rosto e sem que me pudesse libertar da frustração, muito zangada, disse-lhe que deveria cair e partir as duas pernas. Arrependi-me imediatamente a seguir, mas já estava dito e a avó sempre fazia questão de nos lembrar que o silêncio era de ouro.

            Não me lembro do que a avó me respondeu. Talvez tenha dito que não se desejava isso a ninguém. Eu calei. Fundo. Envergonhada e demasiadamente perturbada para lhe pedir desculpa, porém, ainda hoje me lembro do episódio.

            A avó Matilde, passados cinco minutos, já teria esquecido, mas eu não. Andei, depois, à roda dela, sem me descoser, até perceber que as palavras que não deveria ter dito foram esquecidas. Creio ter sido a única vez que me terá saído tal coisa à minha avó e com vontade, naquele momento. No entanto, a mais ferida fui eu.

            Este episódio pueril e inocente serve, provavelmente, para comprovar que a maldade poderá ferir quem a recebe, mas também quem a lança. A minha pequena maldade passou, mas não explica o mundo. A ciência tenta. Segundo ela, o mal deve ser analisado através de uma lente biopsicossocial.

Durante centenas de milhares de anos, o hominídeo competiu por recursos: comida, território, parceiros. Aqueles que eram capazes de usar a violência ou a trapaça para garantirem a sua sobrevivência tinham mais hipóteses de passar os seus genes adiante. Entretanto, o homem evoluiu para cooperar com os membros do seu grupo, mas desenvolveu uma forte hostilidade contra o outro, visto como potencial ameaça. Qualquer semelhança com os tempos atuais não é mera coincidência.

 A cooperação, por sua vez, exige empatia, capacidade de sentir a dor do outro. Para isso, a rede cerebral que inclui os neurónios-espelho, o córtex cingulado anterior e a ínsula, tem de estar a funcionar bem. Qualquer avaria gera defeito de fabrico. Assim, surge a psicopatia. O psicopata compreende racionalmente o sofrimento alheio, mas é incapaz de o sentir. Aliado a isto, convém que o córtex pré-frontal, o gerente dos “impulsos” esteja bem de saúde para ser capaz de travar o ímpeto violento.

 Finalmente, a perspetiva psicológica e social comprova que pessoas comuns podem cometer atrocidades quando o outro é desumanizado, reduzido a um rótulo, a um número. Durante o Holocausto, os judeus não tinham nome. Eram um número tatuado na pele. Antes disso, foram rotulados, o alvo a abater por serem os responsáveis da desgraça (há quem faça o mesmo, atualmente, com os imigrantes). Torna-se mais fácil, ainda, quando há diluição da responsabilidade e a obrigatoriedade de obediência. Foi assim que Arendt olhou para Eichmann, no julgamento de Nuremberga. O Holocausto não teria sido possível sem a cumplicidade e a indiferença de homens e mulheres, que difundiram o terror e que, no exercício do poder, se limitaram a cumprir ordens, incapazes de usarem a razão. Uma vez mais, qualquer semelhança com a atualidade será mera coincidência.

            A seleção natural, que nos programou para sermos adaptáveis e não propriamente amorosos, fez com que desenvolvêssemos duas ferramentas essenciais para a sobrevivência: a cooperação e a competição e a linha que separa o comportamento ético da crueldade é ténue e dependerá do equilíbrio biológico e também do contexto sociocultural do indivíduo.

            É imperioso calibrar as ferramentas evolutivas da cooperação e da competição, com urgência. Com toda a informação à disposição, é doloroso ver o homem, no século XXI, reduzido à sua condição animalesca. Quem sabe, um dia, não se invente um medicamento contra a maldade, que restabeleça os circuitos neuronais, para que possamos afirmar, finalmente, que o paraíso são os outros.

 

Nina M.

 

 

 

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