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sábado, 27 de junho de 2026

Crónica de Maus Costumes 474

 

Herói, vilão e espelho

               Poderia falar da catástrofe terrível que aconteceu na Venezuela e, no meio do caos, do recém-nascido de dezoito dias e da sua mãe que foram salvos. Uma graça, uma sorte, um acaso, mas não um milagre, porque seria Deus tão discriminador, que salva uns e condena outros? É esse o motivo que nos obriga à humildade de, perante um revés na vida, um problema grave, nunca questionarmos: porquê eu? Atrevo-me a dizer que a pergunta certa seria: porque não eu? Eu não sou mais importante do que o meu semelhante para a sociedade e os dois não somos mais do que um ponto obscuro na imensidão do universo. Nada há mais de tão real, de tão verdadeiro, mas em simultâneo, tão libertador.

            Poderia ir por aí. Não vou. Poderia ir pelo tumulto que se instalou uma vez mais na educação, nos aproveitamentos políticos feitos, no deitar gasolina numa casa já em chamas, mas a verdade é que o fogo foi posto pelo próprio Ministério. Mais uma digitalização imbecil, o ridículo de nos pôr a pintar bolinhas tornou-se ainda mais absurdo. Um sistema que é suposto agilizar, cedeu perante a tempestade de exames. Dou voltas à cabeça e nunca compreendo as razões para se mexer no que ainda vai funcionando neste país. Também não vou por aí nem pelo aperto que os russos começam a sentir.

            Excetuando o primeiro tópico, que me comove, que me emociona e enluta, e do último que me irrita, porque toda a guerra é uma imbecilidade, do intermédio não quero saber. Demasiado cansada destes filmes, da incompetência misturada com o histerismo de colegas que, perante um cenário caótico, ainda o ampliam, transformando-o numa cena apocalíptica. Quem tiver acesso a grupos de professores e dois dedos de testa perceberá a que me refiro. Bolas! Precisa-se de alguma serenidade e não de gente ainda mais ansiosa à beira de um ataque de nervos, a pôr todos os outros em polvorosa e à beira de um ataque de pânico, também. Evidentemente, a situação é grave, mas não é por se gritar muito uns com os outros que vai melhorar. Calma. Serenidade. Bom senso. Obviamente, os prazos para classificação de exames serão alargados e os miúdos não podem ser prejudicados. Obviamente, sobra sempre para os professores. É um facto. No entanto, criar mais caos, agora, nada resolve. Aguardem tranquilamente e quem arranjou o sarilho descalce a bota.

            Não vou por aí. Sobra-me um tema que polariza emoções como poucos: Cristiano Ronaldo. Há quem o endeuse e quem o demonize. A meu favor, e esta é uma qualidade sempre a meu favor, o meu portismo, que neste caso me torna insuspeita. Não idolatro o Ronaldo, mas admiro o seu profissionalismo e a sua determinação, reconhecendo, porém, que como qualquer ser humano, tem as suas falhas e tem direito a elas e às suas contradições como qualquer um de nós.

            Ronaldo é um vencedor. Não se fez sozinho, porque ninguém se faz sozinho, mas soube aproveitar todas as oportunidades que lhe foram oferecidas, com muito esforço, trabalho e também sofrimento. Não é fácil para uma criança pequena, de uma localidade, neste caso, situada numa ilha no meio do Atlântico, vir para a capital sozinho, sofrer com a ausência dos pais que só poderia ver de vez em quando. Um miúdo a quem faltou quase tudo. Não me espanto, por isso, que agora resvale um pouco para a ostentação. Quem nunca teve nada e agora pode ter tudo quanto o dinheiro pode comprar é natural que se deslumbre. Não aprecio propriamente essa maneira de estar. Há muitos outros exemplos de jogadores portugueses absolutamente extraordinários e dos melhores do mundo, com imensa visibilidade: Vitinha, Nuno Mendes e João Neves, por exemplo, que são muito mais recatados. O Ronaldo e a sua Georgina aproximam-se do universo das Kardashians. Vivem da imagem e para a imagem. Se o Ronaldo fosse apenas isto, obteria o meu respeito enquanto profissional, mas não a minha admiração. Ele consegue ser extremamente vaidoso e arrogante, mas também humilde, determinado e abnegado no seu ofício. É o jogador que raramente recusa uma fotografia com um petiz, que lhes faz festas, que pega neles ao colo, que lhes acena e sorri. Ao que parece, também é capaz de gestos solidários e altruístas e proporciona um nível de vida impensável a todos os seus familiares. Pode-se pensar que mal seria, mas na verdade, não é obrigado a isso.

            Na atualidade, o Ronaldo, como jogador, já não é o mesmo. É menos rápido, tem menos força e tornou-se num avançado mais estático. Creio que o próprio Ronaldo reconhecerá isso, mas compete ao treinador e apenas a este tomar a decisão de o pôr ou não a jogar, de o deixar ou não os noventa minutos em campo, de o considerar ou não um ativo precioso para a equipa. Pelos vistos, assim o considera. Acho, por isso, tão ofensivo que se culpe o Ronaldo por todos os desaires quanto se lhe dê os louros absolutos de uma vitória, porque o futebol é um coletivo. Sempre foi e sempre será. De modo que o empate do primeiro jogo não pode ser imputado ao Cristiano quando uma equipa falhou em toda a linha. Não é justo.

            Reconhecer isto não significa que ele tenha sempre lugar cativo na equipa ou que não possa sair se e quando o treinador entender, mediante a sua estratégia de jogo. Perante esta decisão, caso a haja, não compete ao Ronaldo fazer birra nem pressões, como já aconteceu anteriormente. A última palavra será sempre do treinador.

            O Cristiano irrita muita gente porque não encena o papel de bom moço e de profissional humilde. O Vitinha diz: “Não gosto de dizer que sou o melhor do mundo, porque há mais dois ou três jogadores muito bons, também.” Ao ouvir isto, nós sorrimos e batemos palmas. Gostamos da humildade. O Cristiano apregoava aos sete ventos que era o melhor do mundo. Em muitas épocas foi mesmo e é inquestionável que é um galáctico que extrapola o futebol. Fora do recinto de jogo, só comparável ao fenómeno David Beckham. Muita publicidade e mulheres aos pés de ambos. Em relação a este último, lembro-me sempre de uma tirada de uma colega que não posso aqui reproduzir para não cometer uma inconfidência.

            O Cristiano irrita muita gente porque nos retira as desculpas que arranjamos para os nossos pequenos fracassos. Ele contrariou o destino e, ao fazê-lo, mostra que é possível a realização com trabalho árduo. Também é preciso alguma sorte, mas esta não dispensa o empenho. A verdade é que poucos possuem a sua determinação e a sua obsessão. Ele é o homem que tem mais do que um euromilhões e continua a trabalhar como um louco, quando a maioria de nós se aposentaria. Isto pode ser visto como uma qualidade ou como um defeito, mas ninguém espere que ele diga não lhe apetecer jogar.

            Cristiano Ronaldo é tudo isto: humilde e arrogante, simples e vaidoso, solidário e egoísta, homem de família e ícone de sedução, autor de marcos históricos individuais e coletivos.

            Não aplaudo todas as suas opções de vida nem todas as suas escolhas, mas nada tenho a ver com isso. Cristiano é profundamente humano, tal como eu e tu, cheio de erros e de defeitos, mas também com as suas virtudes.

            Ronaldo é um herói e um vilão e apesar do golo monumental, do meio da rua, que marcou ao meu Futebol Clube do Porto, no Dragão, envergando as cores do seu Manchester United, não consigo não gostar dele nem não sentir orgulho por ser português, ainda que o tenha maldito dessa vez.

            Ele aguenta as críticas justas e injustas. São o seu combustível. Gostaria que nós, portugueses, e por extensão o Ronaldo, fôssemos todos muito felizes neste campeonato do mundo. Só para ver se o rapaz pode pendurar as chuteiras como campeão do mundo pela seleção, caso lhe apeteça.

 

Nina M.

 

 

 

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