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sábado, 13 de junho de 2026

Crónica de Maus de Costumes 472

 

Brisa sobre a Terra

               Faz anos que nasci. Faz anos que nasceu o meu filho primogénito. A minha melhor prenda de aniversário e que será sempre insuperável.

            Agradeço todas as mensagens que me foram endereçadas. Algumas delas com palavras gentis e carinhosas. Gente de quem gosto e que tenho a felicidade de gostarem de mim. De me mimarem com palavras e de me criarem a ilusão de que a minha existência importa.

            Na verdade, eu ser ou não ser importa bem menos para o universo do que o bater das asas da borboleta da teoria do caos. Importaria para a família mais chegada e pouco mais. Mesmo esses teriam de aprender a viver com a ausência porque a vida não para.

            Razão tinha a avó Matilde, que quando sabia de alguma mulher grávida e lhe perguntavam o nome do bebé, ela adiantava-se à mãe e respondia lesta: “escusas cá na terra, não eras cá preciso”. Ficava o nome posto. Esta sentença ilustra bem a nossa pequenez, a nossa insignificância num universo imenso.

            Quando me ocorrem estas memórias, como lampejos que me assaltam, percebo claramente Saramago quando dizia que o homem mais sábio que conheceu era analfabeto, referindo-se ao seu avô Jerónimo.

            Efetivamente, os nossos avoengos, apesar da parca instrução, revelavam uma forte intuição filosófica sem o saberem. Sem sequer imaginarem a existência de uma área do saber chamada Filosofia.

            A frase da avó Matilde contém a verdade inexpugnável da pequenez, da fragilidade e da insignificância do homem. Nenhum de nós faria falta à natureza. Não sei se a minha avó pensaria nestas questões ou se lhe saía por chiste, mas intuía a grande questão existencial: para que existimos e porquê se cá éramos escusados?!

Está também contido na sentença o pasmo de existir, o milagre que se operou para que fosse exatamente eu e que esse eu tivesse originado um tu, preciso e concreto, neste mesmo dia.

Espanta-me a quantidade de mensagens e penso em como posso conhecer tanta gente. Pessoas que perderam um bocadinho do seu tempo para me endereçar os parabéns. Muitas delas, de forma terna e com muita gentileza.

Resta-me agradecer o facto de me fazerem sentir que importo, apesar de a minha lucidez conhecer perfeitamente o papel que lhe cabe. Menos do que uma borboleta, uma leve brisa passageira sobre a Terra, mas enquanto pudermos acenar com genuinidade a alguém ao longo do trajeto e ser correspondido, talvez, a nossa duração se justifique nesse pequeno instante.

 

Nina M.

 

 

 

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