Brisa sobre a Terra
Faz anos que nasci. Faz anos que nasceu
o meu filho primogénito. A minha melhor prenda de aniversário e que será sempre
insuperável.
Agradeço todas
as mensagens que me foram endereçadas. Algumas delas com palavras gentis e
carinhosas. Gente de quem gosto e que tenho a felicidade de gostarem de mim. De
me mimarem com palavras e de me criarem a ilusão de que a minha existência
importa.
Na verdade, eu
ser ou não ser importa bem menos para o universo do que o bater das asas da borboleta
da teoria do caos. Importaria para a família mais chegada e pouco mais. Mesmo
esses teriam de aprender a viver com a ausência porque a vida não para.
Razão tinha
a avó Matilde, que quando sabia de alguma mulher grávida e lhe perguntavam o
nome do bebé, ela adiantava-se à mãe e respondia lesta: “escusas cá na terra,
não eras cá preciso”. Ficava o nome posto. Esta sentença ilustra bem a nossa
pequenez, a nossa insignificância num universo imenso.
Quando me
ocorrem estas memórias, como lampejos que me assaltam, percebo claramente Saramago
quando dizia que o homem mais sábio que conheceu era analfabeto, referindo-se
ao seu avô Jerónimo.
Efetivamente,
os nossos avoengos, apesar da parca instrução, revelavam uma forte intuição
filosófica sem o saberem. Sem sequer imaginarem a existência de uma área do
saber chamada Filosofia.
A frase da
avó Matilde contém a verdade inexpugnável da pequenez, da fragilidade e da
insignificância do homem. Nenhum de nós faria falta à natureza. Não sei se a
minha avó pensaria nestas questões ou se lhe saía por chiste, mas intuía a
grande questão existencial: para que existimos e porquê se cá éramos escusados?!
Está também contido na sentença o
pasmo de existir, o milagre que se operou para que fosse exatamente eu e que
esse eu tivesse originado um tu, preciso e concreto, neste mesmo dia.
Espanta-me a quantidade de mensagens
e penso em como posso conhecer tanta gente. Pessoas que perderam um bocadinho
do seu tempo para me endereçar os parabéns. Muitas delas, de forma terna e com
muita gentileza.
Resta-me agradecer o facto de me
fazerem sentir que importo, apesar de a minha lucidez conhecer perfeitamente o
papel que lhe cabe. Menos do que uma borboleta, uma leve brisa passageira sobre
a Terra, mas enquanto pudermos acenar com genuinidade a alguém ao longo do
trajeto e ser correspondido, talvez, a nossa duração se justifique nesse
pequeno instante.
Nina M.
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