Seguidores

sábado, 20 de junho de 2026

Crónica de Maus Costumes 473

 

O que nos fica dos dias

               Entre dias preenchidos que temos, há bocadinhos que nos ficam a temperar a alma. Junho é o mês da feira do livro da cidade, talvez a sua atividade cultural maior. Ontem, com Hugo Van Der Ding, o espaço encheu para o ouvir falar e hoje, também, Luísa Sobral foi contemplada com uma bela plateia e com uma conversa bem conduzida, que soube partir do livro, sem se perder em grandes detalhes biográficos. A Luísa é boa conversadora e, quando assim é, a tarefa do moderador torna-se um pouco mais fácil.

Tive, hoje, o privilégio de estar na apresentação do livro de uma querida amiga que teve o trabalho de recolher o testemunho e as histórias dos anciãos de Frazão. Memórias que seriam perdidas se a Lurdes Martins não se interessasse genuinamente pelos pedaços de gente, de tradições e de costumes. Partiu à descoberta e encontrou modos de vida num tempo cinzento e difícil. Memórias de tempos de miséria e de fome, revividos com emoção, nostalgia e saudade. Já sabemos que a memória tende a colecionar o que lhe faz bem, de modo que foi com comoção que muitos ouviram e contaram as histórias que lhes pertencem e que definem um pouco o que são hoje.

Guardo a felicidade autêntica da plateia a ouvir a autora desvendar um pouco dos mistérios que se encontram nas páginas dos livros, a ânsia com que o compraram, provavelmente, cheios de pressa para ler as narrativas que a Lurdes compilou, tendo o cuidado de registar a voz de cada um, as expressões populares já caídas em desuso. Testemunhos de enorme valor documental, que retratam uma época.

À noite, fui ouvir a Luísa Sobral. A conversa girou em torno do seu romance “Nem todas as árvores morrem de pé”.  Eu não o li, de modo que não posso ter qualquer opinião. No entanto, saber que foi apresentado e que obteve o aval de Maria do Rosário Pedreira para publicação é um belíssimo sinal.

De tudo quanto a Luísa foi desvendando, houve algo que não passa despercebido a uma mulher, o facto de abordar o tema da maternidade nos seus diferentes modos e homenagear todas as mães dos filhos por nascer. É um tema sobre o qual pouco se fala.

Já li, certa altura, um texto de uma mãe a lamentar-se da falta de empatia para com o luto de um filho que não chegou a ser. É um assunto delicado e que deve ser tratado com cautela. As perdas do embrião ou do feto exigem um luto que necessariamente tem de ser feito e um luto de uma mãe é perene. Haverá uma tendência para o minimizar, por se tratar de uma fase precoce, no entanto, quando a gravidez é desejada, a mulher torna-se mãe quando a descobre, portanto, é possível que para ela tenha havido a perda de um filho e não a perda de um amontoado de células. A mãe do texto que li lamentava a falta de compreensão pelo seu luto, a quase exigência de rápida recuperação como se os nossos sentimentos funcionassem mediante o simples acionar dos botões de ligar e desligar.

Não é assim. Quem perdeu sabe que perdeu e não esquece. Talvez lhe imagine um rosto e um nome que lhe pertencem. Talvez lhe imaginem a vida que poderia ter tido.

Lembro-me de, na minha segunda gravidez, numas análises de rotina, ao fazer a ficha, a funcionária me fazer responder a um inquérito e perguntar em voz alta, audível para toda a plateia: “quantos abortos já teve?”

Nenhum – foi a minha resposta. Soergueu a cabeça em sinal de espanto. Voltei a repetir: “nenhum, felizmente.”

Senti-me, de algum modo, agredida pela banalização de um assunto tão íntimo, mesmo que não tivesse passado pelo processo. Não é pergunta que se apregoe, assim, em tom elevado, no meio de uma sala cheia.

Imagino a dor das mães que já passaram pela experiência e algumas mais do que uma vez.

É preciso respeitar o tempo, as mazelas, os lutos, os sofrimentos alheios, mesmo que nos pareçam exagerados. Sente quem passa pelas vivências. Sentir com a imaginação é fundamental e garante a empatia, mas ainda assim, estará longe da tristeza que invade aquelas que enfrentam essas dificuldades. Efetivamente, curar as dores alheias é sempre muito mais fácil.

 

Nina M.

 

Sem comentários:

Enviar um comentário