« Noli me tangere »
Deparei-me com um
texto de um pároco que me fez andar a pensar sobre o assunto uma boa parte do
dia. O texto abordava o tema da Ressurreição de Jesus e o facto de a primeira
pessoa a vê-Lo ter sido Maria de Magdala, vulgo Maria Madalena, aquela que foi
designada a “Apóstola dos Apóstolos”, pois a ela coube a missão, confiada pelo
próprio Cristo de anunciar a Ressurreição.
O
texto tinha por base o Evangelho de João, por ser o que mais se centra na figura
de Madalena, ainda que todos os outros evangelistas tivessem registado o mesmo
episódio. Narra João que Madalena chorava junto ao túmulo vazio, quando vê dois
anjos e uma figura que não reconhece de imediato. Ao ouvir a voz que a chama: “Maria!”
Ela reconhece-O e trata-O por Mestre. Jesus vivo ter-lhe-á dito: “ Noli me
tangere”, mais vulgarmente traduzido por “Não me detenhas” ou, na tradução do
professor Frederico Lourenço, que o clérigo invocou, “Não me toques”.
A
partir desta proibição, o senhor padre desenvolveu uma reflexão que culminaria
numa possível explicação para interditar o sacerdócio às mulheres.
Questionava-se sobre o motivo desta proibição, pois Jesus já tinha sido tocado
por mulheres, anteriormente. A famosa cena da pecadora que lhe lava os pés com
as lágrimas e os enxuga com os cabelos é disso prova. O próprio corpo de Cristo
foi preparado para o sepulcro por mulheres, que o limparam e cobriram dos
unguentos habituais.
Concluía
o raciocínio, afirmando que a materialidade corpórea que Madalena via era de
pertença de uma outra dimensão. Jesus Ressuscitado apresentava corpo, uma vez
que incitou Tomé, o descrente, a tocar-lhe nas chagas e nos orifícios, marcas
da crucificação. No entanto, não tinha permitido que Maria Madalena o tocasse. O
seu pensamento conduziu-o ao facto de Cristo ter, em certa medida, escolhido
apenas homens como sacerdotes, porque são a representação de Cristo, são os
únicos que tiveram a autorização para O tocar e continuam a ser, pois na
Eucaristia assiste-se à transubstanciação, ou seja, a transformação do pão e do
vinho no corpo e sangue de Cristo, quando o sacerdote pronuncia as palavras de
Jesus na Última Ceia. Resumindo, se Madalena foi proibida de O tocar, as
mulheres não podem ser sacerdotisas porque também o tocariam, no momento da
transubstanciação, para além de o sacerdote assumir o papel do próprio Cristo, pelo
que não caberia a uma mulher.
Terminaria,
contudo, lembrando que compete ao homem o papel de pai, isto é, de representar Jesus
e às mulheres, pelo dom da maternidade, de mães, cumprindo o papel de mãe de
Jesus, no cumprimento da maternidade com os próprios filhos. Desta forma, o
papel da mulher na Igreja é igualmente relevante, mas diferente do papel do
homem, sendo-lhes, porém, permitido que sejam ministras da comunhão, por
delegação do representante de Cristo.
Não
faltaram palavras elogiosas de fiéis à reflexão do senhor padre, nomeadamente,
de mulheres. Surgiu, no entanto, o comentário de um homem indignado com as
interpretações de Frederico Lourenço, insinuando que a sua leitura era
“perigosa” por causa da sua orientação sexual. Sorri. No século XXI, ainda há
quem tema a leitura, o pensamento e o diálogo, como se o conhecimento fosse uma
ameaça.
Fiquei
pensativa com o raciocínio do senhor padre que me pareceu, ainda que envolto em
pruridos, no mínimo, condescendente e, no máximo, misógino.
Fui
procurar saber o que diziam os outros evangelistas. Marcos e Lucas confirmam o
surgimento primeiro de Jesus a Madalena, mas nada referem quanto a qualquer
proibição. Mateus, por sua vez, refere o episódio e diz que Jesus encontra Madalena
e a outra Maria (Sua mãe) no caminho, enquanto corriam para avisar os discípulos
e que elas abraçam os pés Dele e O adoram. Primeira contradição: segundo
Mateus, as mulheres puderam tocar Cristo, já que Lhe abraçam os pés! Talvez por
isto a tradução mais vulgar não seja não me toques, mas antes, não me detenhas
(interpretação minha, que não estudei teologia).
Depois,
dentro do Cristianismo há diferentes interpretações, visto que no
Protestantismo, a mulher pode exercer o papel de pastora. Fui em busca da
explicação. Para os católicos, o sacerdote atua “in persona Christi” (na pessoa
de Cristo), mas no protestantismo progressista, o pastor ou pastora é o líder e
o “professor espiritual” dentro de uma comunidade, e não alguém revestido de um
carácter ontológico especial. Assim, se todos os batizados são sacerdotes
perante Deus, o género não impede o exercício do ministério. São mais
inclusivos, sem sombra de dúvida.
A
divergência entre os dois braços do tronco comum está no facto de os católicos e
protestantes conservadores colocarem ênfase em passagens como a de Timóteo (“Não
permito que a mulher ensine…”) e os protestantes progressistas olharem para
passagens como a dos Gálatas (“Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem
nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo Jesus”). Para estes, também não há
transubstanciação, pois não há comunhão. Desta forma, qualquer pessoa, desde
que preparada, pode presidir a cerimónia. Os protestantes conservadores, tal
como os católicos, proíbem o sacerdócio às mulheres.
Concluo,
portanto, que as posições derivam de interpretações teológicas feitas pelos
homens e à sua medida. Jesus nada escreveu e quando os primeiros Evangelhos surgiram,
entre 60 e 100 DC, os discípulos já estavam, na sua maioria mortos. O único que
poderia estar, ainda, vivo era João. Quem conta um conto aumenta-lhe um ponto.
Não há como ter certezas do que foi dito exatamente, para além de se dever ter
em conta a época e a interpretação dos próprios apóstolos, pelo que são
admissíveis diferentes aceções e elas existem. Creio que Jesus não se importuna
com este assunto. Quer apenas que o homem, à Sua imagem e semelhança, seja bom
e justo.
Interrogo-me
se não passa de receio da Igreja por ver posto em causa um patriarcado milenar.
A avaliar pelos fiéis que se encontram na eucaristia, para além de ser gente
mais velha, o público é maioritariamente feminino. A Igreja corre o risco de
sacramentar apenas homens que exercerão o seu ministério para mulheres!
A
minha amiga Lurdes diz que é melhor não pensarmos nalgumas coisas, mas eu não
consigo evitar. É mal que se me cola ao corpo.
Isso
ou fazer como quando tinha uns três ou quatro anos e os meus pais me levavam à
missa. Consta que eu gostava de imitar o senhor padre em todos os gestos que
ele fazia. Ainda hoje considero haver muita poesia nos rituais eucarísticos.
Ora… O padre Luís era tomado pelo riso e via-se aflito para não se desmanchar,
pelo que pediu à minha mãe para não me levar, porque eu o imitava em tudo e ele
tinha de fazer um esforço para se não rir. Eu imagino que, para mim, o altar
seria uma espécie de palco. A minha mãe, em casa, admoestou-me e disse-me que o
padre Luís não me deixava mais ir à missa, porque eu o imitava e não podia ser.
Muito lampeira e despeitada, atirei:
-
Ai é?! Então, diz-lhe que já não vou ser médica. Vou ser padre e também não o
deixo ir à minha missa!
Bem…
Padre não sou e médica também não, mas púlpito não me falta. Na sala de aula,
contrario Timóteo, porque ensino todos os dias. Até doutrina, quando tenho de
dar o “Sermão de Santo António aos Peixes”, de Padre António Vieira.
Nina M.
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