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sábado, 9 de maio de 2026

Crónica de Maus Costumes 467

 

« Noli me tangere »

               Deparei-me com um texto de um pároco que me fez andar a pensar sobre o assunto uma boa parte do dia. O texto abordava o tema da Ressurreição de Jesus e o facto de a primeira pessoa a vê-Lo ter sido Maria de Magdala, vulgo Maria Madalena, aquela que foi designada a “Apóstola dos Apóstolos”, pois a ela coube a missão, confiada pelo próprio Cristo de anunciar a Ressurreição.

               O texto tinha por base o Evangelho de João, por ser o que mais se centra na figura de Madalena, ainda que todos os outros evangelistas tivessem registado o mesmo episódio. Narra João que Madalena chorava junto ao túmulo vazio, quando vê dois anjos e uma figura que não reconhece de imediato. Ao ouvir a voz que a chama: “Maria!” Ela reconhece-O e trata-O por Mestre. Jesus vivo ter-lhe-á dito: “ Noli me tangere”, mais vulgarmente traduzido por “Não me detenhas” ou, na tradução do professor Frederico Lourenço, que o clérigo invocou, “Não me toques”.

               A partir desta proibição, o senhor padre desenvolveu uma reflexão que culminaria numa possível explicação para interditar o sacerdócio às mulheres. Questionava-se sobre o motivo desta proibição, pois Jesus já tinha sido tocado por mulheres, anteriormente. A famosa cena da pecadora que lhe lava os pés com as lágrimas e os enxuga com os cabelos é disso prova. O próprio corpo de Cristo foi preparado para o sepulcro por mulheres, que o limparam e cobriram dos unguentos habituais.

               Concluía o raciocínio, afirmando que a materialidade corpórea que Madalena via era de pertença de uma outra dimensão. Jesus Ressuscitado apresentava corpo, uma vez que incitou Tomé, o descrente, a tocar-lhe nas chagas e nos orifícios, marcas da crucificação. No entanto, não tinha permitido que Maria Madalena o tocasse. O seu pensamento conduziu-o ao facto de Cristo ter, em certa medida, escolhido apenas homens como sacerdotes, porque são a representação de Cristo, são os únicos que tiveram a autorização para O tocar e continuam a ser, pois na Eucaristia assiste-se à transubstanciação, ou seja, a transformação do pão e do vinho no corpo e sangue de Cristo, quando o sacerdote pronuncia as palavras de Jesus na Última Ceia. Resumindo, se Madalena foi proibida de O tocar, as mulheres não podem ser sacerdotisas porque também o tocariam, no momento da transubstanciação, para além de o sacerdote assumir o papel do próprio Cristo, pelo que não caberia a uma mulher.

               Terminaria, contudo, lembrando que compete ao homem o papel de pai, isto é, de representar Jesus e às mulheres, pelo dom da maternidade, de mães, cumprindo o papel de mãe de Jesus, no cumprimento da maternidade com os próprios filhos. Desta forma, o papel da mulher na Igreja é igualmente relevante, mas diferente do papel do homem, sendo-lhes, porém, permitido que sejam ministras da comunhão, por delegação do representante de Cristo.

               Não faltaram palavras elogiosas de fiéis à reflexão do senhor padre, nomeadamente, de mulheres. Surgiu, no entanto, o comentário de um homem indignado com as interpretações de Frederico Lourenço, insinuando que a sua leitura era “perigosa” por causa da sua orientação sexual. Sorri. No século XXI, ainda há quem tema a leitura, o pensamento e o diálogo, como se o conhecimento fosse uma ameaça.

               Fiquei pensativa com o raciocínio do senhor padre que me pareceu, ainda que envolto em pruridos, no mínimo, condescendente e, no máximo, misógino.

               Fui procurar saber o que diziam os outros evangelistas. Marcos e Lucas confirmam o surgimento primeiro de Jesus a Madalena, mas nada referem quanto a qualquer proibição. Mateus, por sua vez, refere o episódio e diz que Jesus encontra Madalena e a outra Maria (Sua mãe) no caminho, enquanto corriam para avisar os discípulos e que elas abraçam os pés Dele e O adoram. Primeira contradição: segundo Mateus, as mulheres puderam tocar Cristo, já que Lhe abraçam os pés! Talvez por isto a tradução mais vulgar não seja não me toques, mas antes, não me detenhas (interpretação minha, que não estudei teologia).

               Depois, dentro do Cristianismo há diferentes interpretações, visto que no Protestantismo, a mulher pode exercer o papel de pastora. Fui em busca da explicação. Para os católicos, o sacerdote atua “in persona Christi” (na pessoa de Cristo), mas no protestantismo progressista, o pastor ou pastora é o líder e o “professor espiritual” dentro de uma comunidade, e não alguém revestido de um carácter ontológico especial. Assim, se todos os batizados são sacerdotes perante Deus, o género não impede o exercício do ministério. São mais inclusivos, sem sombra de dúvida.

               A divergência entre os dois braços do tronco comum está no facto de os católicos e protestantes conservadores colocarem ênfase em passagens como a de Timóteo (“Não permito que a mulher ensine…”) e os protestantes progressistas olharem para passagens como a dos Gálatas (“Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo Jesus”). Para estes, também não há transubstanciação, pois não há comunhão. Desta forma, qualquer pessoa, desde que preparada, pode presidir a cerimónia. Os protestantes conservadores, tal como os católicos, proíbem o sacerdócio às mulheres.

               Concluo, portanto, que as posições derivam de interpretações teológicas feitas pelos homens e à sua medida. Jesus nada escreveu e quando os primeiros Evangelhos surgiram, entre 60 e 100 DC, os discípulos já estavam, na sua maioria mortos. O único que poderia estar, ainda, vivo era João. Quem conta um conto aumenta-lhe um ponto. Não há como ter certezas do que foi dito exatamente, para além de se dever ter em conta a época e a interpretação dos próprios apóstolos, pelo que são admissíveis diferentes aceções e elas existem. Creio que Jesus não se importuna com este assunto. Quer apenas que o homem, à Sua imagem e semelhança, seja bom e justo.

               Interrogo-me se não passa de receio da Igreja por ver posto em causa um patriarcado milenar. A avaliar pelos fiéis que se encontram na eucaristia, para além de ser gente mais velha, o público é maioritariamente feminino. A Igreja corre o risco de sacramentar apenas homens que exercerão o seu ministério para mulheres!

               A minha amiga Lurdes diz que é melhor não pensarmos nalgumas coisas, mas eu não consigo evitar. É mal que se me cola ao corpo.

               Isso ou fazer como quando tinha uns três ou quatro anos e os meus pais me levavam à missa. Consta que eu gostava de imitar o senhor padre em todos os gestos que ele fazia. Ainda hoje considero haver muita poesia nos rituais eucarísticos. Ora… O padre Luís era tomado pelo riso e via-se aflito para não se desmanchar, pelo que pediu à minha mãe para não me levar, porque eu o imitava em tudo e ele tinha de fazer um esforço para se não rir. Eu imagino que, para mim, o altar seria uma espécie de palco. A minha mãe, em casa, admoestou-me e disse-me que o padre Luís não me deixava mais ir à missa, porque eu o imitava e não podia ser. Muito lampeira e despeitada, atirei:

               - Ai é?! Então, diz-lhe que já não vou ser médica. Vou ser padre e também não o deixo ir à minha missa!

               Bem… Padre não sou e médica também não, mas púlpito não me falta. Na sala de aula, contrario Timóteo, porque ensino todos os dias. Até doutrina, quando tenho de dar o “Sermão de Santo António aos Peixes”, de Padre António Vieira.

Nina M.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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