Seguidores

sábado, 6 de junho de 2026

Crónica de Maus Costumes 471

 

Vidas em suspenso

             Eis chegada a hora. Não havia escrito nada, ainda, sobre o que vou falar por respeito, por não ser eu a visada. Talvez soubesse que um dia teria de o fazer, mas quando esse dia chegasse, eu saberia. É a hora.

            O meu núcleo familiar viveu tempos muito difíceis. Uma bola de hóquei que acertou em cheio na testa do meu marido, enquanto via um jogo de vólei da filha que nem era para ter sido realizado naquele dia, decretou a ida ao hospital e uma TAC que o atiraria para uma ressonância magnética, por haver ali qualquer coisa que era necessário despistar, que poderia ter sido impacto ou não.

            O diagnóstico veio rapidamente. Frio e cortante. Uma lâmina que atravessa a pele e que nos deixa perplexos. Momentaneamente incrédulos. Sem ornamentos: trata-se de um tumor cerebral primário de grau II e é maligno. Tem de ir à sua médica de família. Vai levar esta carta porque é preciso encaminhar o processo para o hospital público rapidamente. Tem de ser operado.

            Foi assim. Limpo. Nem pode ser de outra forma.

            Depois, vem a digestão e a fragilidade de que a condição humana é feita. Pensa-se no pior, nos filhos, como contar e as palavras a usar.

Uma familiar passava pelo mesmo processo, cancro da mama, e outra havia lutado contra um linfoma. Tudo gente na flor da idade e saudável. Felizmente, os três venceram. Os três continuamente vigiados. Os três a ter de suportar um tratamento que mata o mau e o bom. As radioterapias e as quimioterapias que arrasam, mesmo um corpo em forma e bem tratado. As dores, os enjoos, a má-disposição, a perda de peso, a perda de cor…

Só algo brilha no meio disto: a cor da esperança.

            Pensa-se a sério na morte. Não como uma possibilidade, mas algo palpável e ao dobrar da esquina. Perto. Demasiado perto, a sentir-se-lhe o cheiro. A fazer sentir os calafrios.

            Talvez noutra idade se possa aceitar melhor, mas quando há, ainda, trilho a percorrer, a ideia de finitude é um absurdo que não se consegue acomodar. Então, e os pequenos? Como ficam os pequenos obrigados a absorver a informação?

            É-se lacónico. A informação estritamente necessária, sem usar as palavras que assustam em demasia. O mais velho perguntou:

— É o mesmo da tia Mónica?

— Sim. Na cabeça, neste caso. Vai haver cirurgia e vai correr bem.

Silêncio.

— O pai vai ficar careca? — a preocupação da mais pequena. A vaidosa que se preocupa com a estética. E depois o cabelo vai crescer branco.

— Talvez — respondi. O importante é que o pai fique bom.

O pai mudo. Incapaz de uma palavra. A partir de então, só poderia admitir que corresse bem. Não queríamos criar preocupações excessivas nos filhos. Souberam o essencial, nunca tiveram a verdadeira consciência do perigo. Correu bem. Não se abalaram em excesso. O mais velho chegou a comentar, já depois da cirurgia, que demorou oito horas, que os adultos eram exagerados. Afinal, o pai andava, falava, só tinha o dreno, mas que também foi retirado passados dois ou três dias.

Viram o pai enfaixado, com um capacete de gaze na cabeça, a cicatriz exposta de lado a lado, mais tarde. O cabelo não caiu, afinal, para contentamento da Matilde. A inocência é tão bela.

 A vida a girar. Sem parar. No dia da cirurgia, fomos todos para a escola. Mantivemos rotinas. Não quis esperar horas a fio com a sensação de que o tempo estagnara e um nó no estômago difícil de desatar. A dinâmica da sala de aula obriga a reagir. Meia-volta, o relógio. Ainda não acabou.

As notícias chegaram por volta das 15h00. Tinha corrido bem.

— Não podemos ver o pai?

— Ainda não. Só quando sair do recobro. Tem de ficar a descansar.

Só foram ao hospital 2 dias mais tarde. Primeiro um, no dia seguinte, o outro. À vez.

Entre o diagnóstico e a cirurgia o tempo parece suspender. Fica-se refém da angústia. Evitem procurar informação na Internet, ainda que eu saiba que se acontecer comigo o farei. Não o consigo evitar, mas é penoso, porque não há duas situações iguais, um pormenor pode fazer toda a diferença e os organismos reagem de forma diferenciada. Só serve para aumentar a angústia.

Depois, vai-se gerindo. A vida é um moinho, diz o cantor. Não se compadece, não fica mais fácil e se tiver de nos puxar o tapete tanto faz haver alguém em ânsias como nada.

Ninguém sai ileso deste processo. Nem os que por ele passam nem os que os acompanham. Talvez passem a olhar para a vida de outra forma, mas não seria necessário o soco para se aprender alguma coisa.

Aos poucos, a vida vai retomando, depois, alguma normalidade. Os filhos continuam a acharem-se imortais e voltam a olhar para os pais como se estes também o fossem, apesar dos tratamentos penosos e das vigilâncias apertadas, para se certificar que não há recidivas.

Nem se lembram da gravidade da questão. Respiro fundo. Fizemos um bom trabalho. Os miúdos não perderam a rede nem a serenidade. Para eles, o assunto está resolvido. Para quem por elas passa, por agora, também. Confiantes, mas vigilantes. Não pode ser de outra forma.

No meio deste caos, de uma vida que prossegue sempre e sem paragem, olhar para o copo meio-cheio, talvez, possa salvar. A fatura e a exaustão emocional chegam com atraso. Primeiro, é preciso reagir. Não há tempo para lamentos. Nem agora. Não sou de lamentações extremas, mas há horas difíceis, inventadas pelo Diabo.

Honremos a vida. Não com folganças tolas, mas na busca por um sentido, mesmo quando tudo parece desabar e não fazer sentido nenhum. Não são necessárias coisas extraordinárias.

As singelezas dos dias, das palavras, de um olhar, de um abraço, de um mimo inesperado justificam a nossa existência e salvam-nos sempre.

Sei que morremos uma única vez e que vivemos todos os dias até ao derradeiro respirar. Aproveitemo-los todos, com as suas doces e agrestes tragédias.

 Nina M.

 

 

 

 

 

 

 

Sem comentários:

Enviar um comentário