Campeões
Obrigada, presidente. Obrigada,
mister Farioli. Obrigada, rapazes. Obrigada, anónimos, que no silêncio dos
corredores mantêm a máquina a funcionar. Hoje, é dia de título. Já vivemos
muitos, mas este é especial. É mais íntimo. Mais ferido. Mais nosso.
Desde logo,
a família portista andava ressacada. Três anos sem ganhar o título de campeões
nacionais é muito para quem anda mal-habituado ou bem, dependendo da perspetiva.
Depois, foi um ano de perdas para o clube. O presidente Jorge Nuno partiu a 15
de fevereiro de 2025. A despedida era previsível. Sabia-se da doença e do agravamento
do seu estado de saúde. Mais tarde, e sem nada que o fizesse prever, a 5 de
agosto de 2025, o clube perdeu um dos ídolos, uma das suas lendas, um dos
jogadores que representa a mística do clube, o diretor desportivo do clube, na
altura. Uma perda irreparável. Muito sentida. Muito chorada.
A conjuntura
não era favorável ao FCP. Vinha de uma época desastrosa. Não era o facto de não
ganhar. Era a forma como perdia. Uma equipa esfrangalhada, com muitos problemas,
um plantel com pouca qualidade e um treinador que, apesar de ser bom
comunicador, veio a meio da época para não acrescentar nada. Não faltou
vontade, mas faltou competência para fazer melhor. Não faltou suor nem entrega,
mas faltou capacidade. Saiu-lhe um presente envenenado, porque não se faz
omeletes sem ovos, mas talvez fosse possível ter-se feito um bocadinho mais.
No futebol, como na vida, parece que,
às vezes, todo o mal se junta, apesar dos esforços. A situação financeira do
clube era igualmente periclitante. O FCP passou pela mudança de direção, pela
oposição interna de alguns adeptos (ainda hoje existe). No momento, está em
silêncio, porque o Porto se sagrou campeão, mas basta um jogo menos conseguido,
ainda que o ganhe, que os fantasmas saltam à rua, põem o trabalho em causa e
tentam desestabilizar, por mais que a maioria lhes sugira que se calem, porque
não têm razão.
A vontade
era muita e a necessidade também, quer sob o ponto de vista desportivo quer sob
o ponto de vista económico. Além do campeonato, o FCP garante o acesso direto à
“Champions”. Numa época de reestruturação, não foi coisa pouca. Talvez poucos
acreditassem que fosse possível, mas esta casa já provou tantas e tantas vezes
que, aqui, não há impossíveis! Há uma crença profunda de que é possível vencer
impossíveis. Não de forma espalhafatosa, mas com trabalho, empenho, entrega e rigor.
Nem sempre se consegue, é verdade, mas que não seja por falta de querer.
Pinto da
Costa dizia que gostava de ver o clube campeão, porque para algumas pessoas,
com vidas muito difíceis, era das poucas alegrias que tinham e que ele gostava
dessa sensação, de contribuir para um momento de alegria. Evidentemente, para
uns sorrirem, outros têm de entristecer. É a vida. Hoje, é a nossa vez de
sorrir. O presidente dos presidentes, onde quer que esteja, sorri. Não pode ser
de outra forma para quem fez deste clube a sua vida.
O eterno
Jorge Costa gostaria de estar aqui a comemorar, mas com jeitinho, está a erguer
um copo de vinho e a cortar um salpicão. Que o diga o Domingos, que não bebia
vinho, mas que nos almoços, ao lado do capitão, pedia o seu copinho. Podiam
beber um copinho. O Bicho arranjava forma de beber dois. O dele e o do Paciência.
O homem que tinha direito à sua latrina particular, no balneário, e onde ninguém
se atrevia a sentar. O homem que durante os primeiros dez minutos moía a cabeça
ao Ricardo Carvalho, porque dizia que ele demorava dez minutos a acordar e a
entrar no jogo. O mesmo homem que zurzia a cabeça ao Quaresma e o chamava de
cigano filho da tal, quando este perdia uma bola em sítio proibido, e o mandava
correr atrás dela. O mesmo homem sobre quem Mourinho disse, quando perguntado
sobre a equipa para a época seguinte, que seria o Jorge e mais dez. O mesmo
Jorge que num jogo frente ao Belenenses e a perder ao intervalo, se fechou com
os colegas e deixou o Mourinho à porta e disse o que havia a dizer. Na segunda
parte, o FCP virou o jogo e o Jorge marcou.
Estas
histórias, amplamente conhecidas do universo portista, que gosta de as saber e
de as ouvir, serão, com toda a certeza partilhadas. O Bicho era bicho dentro do
campo e lá o deixava ficar, porque fora das quatro linhas, era um homem
tranquilo e amistoso, segundo os que com ele privaram.
Jorge Costa
esteve com o plantel até ao momento da consagração. Todos queriam ganhar o
título. Por eles, mas também pelo Bicho. Era imperioso.
Parabéns ao
justíssimo vencedor. A melhor equipa, a mais coesa e a mais consistente. Honra
aos vencidos. Ninguém vence sozinho. Os adversários engrandecem as vitórias . O
campeonato ainda mexe. A disputa pelo segundo lugar ferve.
Viva o FCP! Viva o presidente André Villas-Boas! Viva os
nossos rapazes!
Hip-hip! Urra!
Nina M.
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