Geografia da alma.
Costumo dizer aos meus alunos que a
Literatura é a vida. Não, necessariamente, uma cópia fiel e plasmada. Não uma
imitação simples e tosca. Demasiadas vezes, o mundo prova que a ficção fica
aquém da realidade.
A vida, por
si só, não basta e o ser humano tem a necessidade de recriar outras vidas que
não são mais fáceis nem mais amáveis, mas são universos constitutivos de
matéria profundamente humana, de muitas misérias e de algumas alegrias. Ocorrem-me,
por isso, os versos de Gedeão: “Vê moinhos? São moinhos. /Vê gigantes?
São gigantes.”
Ninguém vê o
mundo como ele é. Olha-se para ele como se é. Carregados com mochilas de dores,
alegrias, prazeres e frustrações. O legado dos românticos alemães, de Schlegel,
Novalis, Schiller mostra-nos isso. A importância do “eu” que nos serve de
filtro para o mundo, onde as emoções ocupam o seu lugar de relevância. A interpretação
onde não cabe unicamente a frieza ou o distanciamento racional. Talvez não nos
possamos abandonar inteiramente às nossas perceções, sob pena de falharmos na
análise, mas provavelmente também não nos poderemos cingir a um racionalismo inflexível.
O que para um progenitor pode ser proteção, para um filho pode ser opressão.
Quando
olhamos para trás, sabendo que a memória nos atraiçoa e nos faz esquecer de
certas violências ao ser, lembramos o que foi aprazível e apagamos o que foi
negativo, excetuando, obviamente, situações demasiadamente traumáticas.
Precisamente porque não as podermos esquecer se transformam em trauma. Ser-nos-ia
impossível viver com todas as dores acumuladas ao longo da existência, de forma
vívida e presente. Precisamos do esquecimento para nos salvarmos. Os deuses sempre
souberam da importância das águas do Letes.
Assim, na
generalidade e salvaguardando as perturbações sérias, ao recuarmos aos tempos da
inocência, não lembramos os episódios comezinhos de castigos e de pequenas
infelicidades, mas as alegrias e as brincadeiras que nos fazem sorrir. Se
lembramos as punições, é já sem dor, pelo que as desvalorizamos. Só assim se
entende que as pessoas recordem tempos difíceis e de miséria com nostalgia e
uma sensação de paraíso perdido. Na verdade, essas vivências não terão sido
todas agradáveis, mas a nossa perceção, auxiliada pelo mecanismo da memória,
mostra-nos o pedaço de céu que gostamos sempre de relembrar.
Acontece
sempre que relembro as correrias monte acima e monte abaixo, numa algaraviada
de catraios inconscientes e felizes. Caso para dizer: “Raiva de não ter
trazido o passado na algibeira”.
Não é o
passado que queremos na algibeira. É a sensação de paz, de conforto e de
alegria simples que se perde com a idade adulta. Talvez o passado nem tenha
sido assim, mas é dessa forma que o nosso “eu” o mostra. Quando o revisito, os
tombos de bicicleta já nem doem e o paparoto de amoras ainda cheira
maravilhosamente bem e deixa a boca roxa do seu vinho. A água fria do mar de
Mindelo parece-me amena, no calor do verão, e o cheiro a maresia enche-me as
narinas como ontem. Hoje, as amoras já não sabem ao mesmo e o mar do Mindelo é
sobejamente mais gélida. No entanto, continua o mar do Norte mais encantador.
Sabiamente, o povo diz que recordar é
viver e o poeta diz querer trazer o passado na algibeira. Os pedaços de memória
reconstituem a geografia da alma e compõem a história que nos vai definindo e que
vamos reescrevendo.
Olhamos o mundo com toda a bagagem
que somos e que continuamente construímos, a alma de mãos dadas com a razão até
à última página do livro que somos.
Nina M.
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