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sábado, 23 de maio de 2026

Crónica de Maus Costumes 469

 

Geografia da alma.

               Costumo dizer aos meus alunos que a Literatura é a vida. Não, necessariamente, uma cópia fiel e plasmada. Não uma imitação simples e tosca. Demasiadas vezes, o mundo prova que a ficção fica aquém da realidade.

            A vida, por si só, não basta e o ser humano tem a necessidade de recriar outras vidas que não são mais fáceis nem mais amáveis, mas são universos constitutivos de matéria profundamente humana, de muitas misérias e de algumas alegrias. Ocorrem-me, por isso, os versos de Gedeão: “Vê moinhos? São moinhos. /Vê gigantes? São gigantes.”

            Ninguém vê o mundo como ele é. Olha-se para ele como se é. Carregados com mochilas de dores, alegrias, prazeres e frustrações. O legado dos românticos alemães, de Schlegel, Novalis, Schiller mostra-nos isso. A importância do “eu” que nos serve de filtro para o mundo, onde as emoções ocupam o seu lugar de relevância. A interpretação onde não cabe unicamente a frieza ou o distanciamento racional. Talvez não nos possamos abandonar inteiramente às nossas perceções, sob pena de falharmos na análise, mas provavelmente também não nos poderemos cingir a um racionalismo inflexível. O que para um progenitor pode ser proteção, para um filho pode ser opressão.

            Quando olhamos para trás, sabendo que a memória nos atraiçoa e nos faz esquecer de certas violências ao ser, lembramos o que foi aprazível e apagamos o que foi negativo, excetuando, obviamente, situações demasiadamente traumáticas. Precisamente porque não as podermos esquecer se transformam em trauma. Ser-nos-ia impossível viver com todas as dores acumuladas ao longo da existência, de forma vívida e presente. Precisamos do esquecimento para nos salvarmos. Os deuses sempre souberam da importância das águas do Letes.

            Assim, na generalidade e salvaguardando as perturbações sérias, ao recuarmos aos tempos da inocência, não lembramos os episódios comezinhos de castigos e de pequenas infelicidades, mas as alegrias e as brincadeiras que nos fazem sorrir. Se lembramos as punições, é já sem dor, pelo que as desvalorizamos. Só assim se entende que as pessoas recordem tempos difíceis e de miséria com nostalgia e uma sensação de paraíso perdido. Na verdade, essas vivências não terão sido todas agradáveis, mas a nossa perceção, auxiliada pelo mecanismo da memória, mostra-nos o pedaço de céu que gostamos sempre de relembrar.

            Acontece sempre que relembro as correrias monte acima e monte abaixo, numa algaraviada de catraios inconscientes e felizes. Caso para dizer: “Raiva de não ter trazido o passado na algibeira”.

            Não é o passado que queremos na algibeira. É a sensação de paz, de conforto e de alegria simples que se perde com a idade adulta. Talvez o passado nem tenha sido assim, mas é dessa forma que o nosso “eu” o mostra. Quando o revisito, os tombos de bicicleta já nem doem e o paparoto de amoras ainda cheira maravilhosamente bem e deixa a boca roxa do seu vinho. A água fria do mar de Mindelo parece-me amena, no calor do verão, e o cheiro a maresia enche-me as narinas como ontem. Hoje, as amoras já não sabem ao mesmo e o mar do Mindelo é sobejamente mais gélida. No entanto, continua o mar do Norte mais encantador.

Sabiamente, o povo diz que recordar é viver e o poeta diz querer trazer o passado na algibeira. Os pedaços de memória reconstituem a geografia da alma e compõem a história que nos vai definindo e que vamos reescrevendo.

Olhamos o mundo com toda a bagagem que somos e que continuamente construímos, a alma de mãos dadas com a razão até à última página do livro que somos.

 

Nina M.

 

 

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