Ainda há mesa
Ontem, a
Matilde decidiu comparar as infâncias dos pais. Descobriu que a infância da
mãe, apesar de ter sido muito diferente das deles, foi sobejamente mais fácil
do que a do pai. Circunstâncias da vida e circunstâncias geográficas assim o
ditaram.
Sem que o
soubessem expressar desta forma, tomaram
consciência de que a mãe, apesar de ter experienciado a sementeira das batatas
e o seu arrancar (só de me lembrar de andar a apanhar as batatas dos porcos já
me canso), de saber o que é andar de carro de bois, porque o avô das vizinhas
fazia uma quinta e tinha bois e carro para transportar o que precisasse, de
saber o que é ir ao mato e aos pinheiros ao monte, de percorrer as carreiras
dos feijões ou do milho, também, por causa das vizinhas e saber o que é acartar
lenha das oficinas para preparar o inverno, desta feita, lá para casa, assim
como apanhar os bagos do chão, no tempo das vindimas, para se fazer um vinho
que era amargo como trovisco e que os adultos juravam a pés juntos ser bom – só
me lembro do senhor Claudino da Eva: “É vinho” — certo é que tinha participação
nestas coisas uma vez no ano; o pai fazia-o sempre, ao longo de muitos anos.
Vidas…
Decidiram ambos,
Rodrigo e Matilde, retirarem-me a autoridade moral para os repreender por se
fazerem difíceis para colaborar nas tarefas domésticas, porque a mãe, eu mesma,
não lhes posso dizer que se tivessem de fazer aquilo que eu fazia na idade
deles é que iriam perceber o quanto custa. Sem qualquer pudor, atiraram-me à
cara:
— Ó mãe! Tu não podes falar! Enquanto o pai andava a
trabalhar, a fazer coisas, tu estavas a ver televisão ou a brincar. Se o pai te
visse, naquela altura, iria achar-te rica!
E assim me
rotularam de burguesinha sem mais quê. Ponto. Lá tive de lhes explicar que,
sim, que a minha infância foi muito feliz e que tive efetivamente meninice, tal
como eles, mas sem os excessos atuais.
A conversa
foi circular. Chegou a este ponto porque a mais pequena perguntou se
preferiríamos viver com ou sem telemóvel. Respondi que vivi sem ele durante uma
boa parte da minha vida e que não me tinha feito falta. Bem, se fosse como os
primeiros aparelhos, que só davam mesmo para telefonar e, mais tarde, enviar
mensagem, estaria muito bem. Andaríamos todos menos distraídos com a espuma dos
dias e eles aproveitariam melhor o tempo livre, porque a voracidade com que
consomem vídeos não lhes treina a paciência nem a concentração. Só as estraga.
Uma existência
consumida em vertigem é apagada sem que disso se dê conta. Por isso, à mesa não
há telemóveis. Se os houvesse, não existiria interação e a mesa ainda é o local
de encontro. Pouco depois, cada um regressa aos seus afazeres. A mesa ainda é
espaço de conversa e de partilha de ideias, de questões que se impõem, de
espaço de diálogo. Quando os filhos crescem, é este tempo que permite a
existência da família, para que não sejamos apenas indivíduos que coabitam no
mesmo espaço e o vínculo permaneça.
É-me insuportável estar a conversar
com alguém que olhe para o telemóvel a todo o instante, que responda ou envie
mensagens a todo o momento. Significa que a companhia do outro não preenche. É
vazia. É uma falsa presença. Estes aparelhos, que também têm a enorme vantagem
de permitir encontros, podem ser, paradoxalmente, responsáveis pelo afastamento
e pela companhia vazia.
Não se convide alguém para café ou qualquer
outra atividade se depois vai estar só pela metade. Quando se aceita o convite
ou sugestão, é porque a presença das pessoas importa, caso contrário, não se
aceitaria. É, portanto, justo que as tratemos com a atenção merecida.
Talvez precisemos de voltar a
aprender o valor das pequenas coisas, o tempo em que um café se demorava sem
pressa.
Eu, que raramente vou ao café, agora.
Pode ser um café caseiro. Acho sempre
preferível. A maturidade traz o apreço pela intimidade, pelo recato e pelo
conforto do lar. Nenhuma mesa ou banco de café é tão adequado e aprazível
quanto o sofá de casa. Se alguém deixa o seu conforto para nos acompanhar,
respeitemo-lo e saibamo-lo honrar com a nossa presença efetiva. Nunca sabemos quando
será a última vez.
Nina M.
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