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sábado, 30 de maio de 2026

Crónica de Maus Costumes 470

 

Ainda há mesa

             Se há algo que me traz um pequeno momento de felicidade é ver os meus dois filhos num momento de cumplicidade fraterna. Aqueles instantes em que dizem coisas longe dos ouvidos dos pais e riem-se ambos do mesmo, nem que seja por um vídeo parvo do tiktok que eles sabem que eu detesto que eles vejam, apesar de saber que os veem mais do que o necessário.

            Ontem, a Matilde decidiu comparar as infâncias dos pais. Descobriu que a infância da mãe, apesar de ter sido muito diferente das deles, foi sobejamente mais fácil do que a do pai. Circunstâncias da vida e circunstâncias geográficas assim o ditaram.

            Sem que o soubessem expressar  desta forma, tomaram consciência de que a mãe, apesar de ter experienciado a sementeira das batatas e o seu arrancar (só de me lembrar de andar a apanhar as batatas dos porcos já me canso), de saber o que é andar de carro de bois, porque o avô das vizinhas fazia uma quinta e tinha bois e carro para transportar o que precisasse, de saber o que é ir ao mato e aos pinheiros ao monte, de percorrer as carreiras dos feijões ou do milho, também, por causa das vizinhas e saber o que é acartar lenha das oficinas para preparar o inverno, desta feita, lá para casa, assim como apanhar os bagos do chão, no tempo das vindimas, para se fazer um vinho que era amargo como trovisco e que os adultos juravam a pés juntos ser bom – só me lembro do senhor Claudino da Eva: “É vinho” — certo é que tinha participação nestas coisas uma vez no ano; o pai fazia-o sempre, ao longo de muitos anos. Vidas…

            Decidiram ambos, Rodrigo e Matilde, retirarem-me a autoridade moral para os repreender por se fazerem difíceis para colaborar nas tarefas domésticas, porque a mãe, eu mesma, não lhes posso dizer que se tivessem de fazer aquilo que eu fazia na idade deles é que iriam perceber o quanto custa. Sem qualquer pudor, atiraram-me à cara:

— Ó mãe! Tu não podes falar! Enquanto o pai andava a trabalhar, a fazer coisas, tu estavas a ver televisão ou a brincar. Se o pai te visse, naquela altura, iria achar-te rica!

            E assim me rotularam de burguesinha sem mais quê. Ponto. Lá tive de lhes explicar que, sim, que a minha infância foi muito feliz e que tive efetivamente meninice, tal como eles, mas sem os excessos atuais.

            A conversa foi circular. Chegou a este ponto porque a mais pequena perguntou se preferiríamos viver com ou sem telemóvel. Respondi que vivi sem ele durante uma boa parte da minha vida e que não me tinha feito falta. Bem, se fosse como os primeiros aparelhos, que só davam mesmo para telefonar e, mais tarde, enviar mensagem, estaria muito bem. Andaríamos todos menos distraídos com a espuma dos dias e eles aproveitariam melhor o tempo livre, porque a voracidade com que consomem vídeos não lhes treina a paciência nem a concentração. Só as estraga.

            Uma existência consumida em vertigem é apagada sem que disso se dê conta. Por isso, à mesa não há telemóveis. Se os houvesse, não existiria interação e a mesa ainda é o local de encontro. Pouco depois, cada um regressa aos seus afazeres. A mesa ainda é espaço de conversa e de partilha de ideias, de questões que se impõem, de espaço de diálogo. Quando os filhos crescem, é este tempo que permite a existência da família, para que não sejamos apenas indivíduos que coabitam no mesmo espaço e o vínculo permaneça.  

É-me insuportável estar a conversar com alguém que olhe para o telemóvel a todo o instante, que responda ou envie mensagens a todo o momento. Significa que a companhia do outro não preenche. É vazia. É uma falsa presença. Estes aparelhos, que também têm a enorme vantagem de permitir encontros, podem ser, paradoxalmente, responsáveis pelo afastamento e pela companhia vazia.

Não se convide alguém para café ou qualquer outra atividade se depois vai estar só pela metade. Quando se aceita o convite ou sugestão, é porque a presença das pessoas importa, caso contrário, não se aceitaria. É, portanto, justo que as tratemos com a atenção merecida.

Talvez precisemos de voltar a aprender o valor das pequenas coisas, o tempo em que um café se demorava sem pressa.

Eu, que raramente vou ao café, agora.

Pode ser um café caseiro. Acho sempre preferível. A maturidade traz o apreço pela intimidade, pelo recato e pelo conforto do lar. Nenhuma mesa ou banco de café é tão adequado e aprazível quanto o sofá de casa. Se alguém deixa o seu conforto para nos acompanhar, respeitemo-lo e saibamo-lo honrar com a nossa presença efetiva. Nunca sabemos quando será a última vez.

 

Nina M.

  

 

 

 

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