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sábado, 10 de outubro de 2026

Crónica de Maus Costumes 484

 

Tragédia Ronaldo

               O ser humano é hilariante. O mundo está a ferro e fogo. Trump declara que já é tempo de a Ucrânia arranjar outro presidente, preferencialmente, um fantoche de Putin para que ambos explorem o território que não lhes pertence como entenderem. Quem sabe uma espécie de novo Tratado de Tordesilhas, mais modesto, é certo, em que os dois dividem a Ucrânia entre eles. A ex-URSS já fez um pacto desses, cujo rompimento culminou na Segunda Guerra Mundial. Os alemães invadiram primeiro a Polónia, não cumpriram o trato e a coisa azedou. Zangam-se as comadres e descobrem-se as verdades. Lá andam ambos em negociatas, já que a guerra com o Irão nos lixou a vida e os combustíveis estão a um preço absurdo. Os norte-americanos também pagam a fatura e o alucinado presidente tem de resolver o problema que ele mesmo arranjou. Para ele, negociar com o execrável Vladimir é normalíssimo. Normal, normal, como diria o outro. Afinal, um ao lado do outro, no jogo do descubra as diferenças, eliminadas as físicas e a maior inteligência do russo, em tudo o resto se assemelham, representando ambos o que o ser humano tem de pior.

            A França é uma casa a arder. Para se ser presidente daquele país, atualmente, é preciso uma coragem avassaladora. Quem será capaz de dizer àqueles cidadãos que o país não tem dinheiro suficiente para tudo? A dívida pública francesa ultrapassou os quatro triliões de dólares em junho, superando o tamanho da própria economia. O país não gera superavit desde 1974, o que significa que esta situação é insustentável. Neste momento, com a guerra na Europa e também no Médio Oriente, as circunstâncias tornam-se, ainda, mais difíceis. Para piorar, os protestos estudantis eclodiram por todo o país, motivados pela falta de professores e de condições nas escolas. Na rua, a luta ultrapassa as fronteiras da educação e a insatisfação faz-se sentir. A minha questão é a seguinte: num país há muito habituado a uma proteção social de relevo, quem vai ter a coragem de dizer aos franceses que não vai ser possível continuar assim e que eles terão, necessariamente, de fazer sacrifícios? Notem bem, os franceses têm um salário mínimo de cerca de 1 500 euros, líquidos e o médio ronda os 2 733 euros. O preço da habitação é considerável. Em Paris, um T1 pode custar entre os 900 e os 1 200 euros mensais. Fora de Paris, o arrendamento fica um pouco mais barato. É possível arranjar um T2 entre os 650 e os 850 euros mensais. Se compararmos com a realidade portuguesa, observamos que o nosso salário mínimo é bastante inferior ao deles. O salário mínimo de um francês corresponde ao salário médio de um português, mas o preço da habitação é semelhante. O custo de vida é mais elevado em França, mas atendendo ao maior salário, sobra-lhes mais dinheiro ao final do mês. Apesar disto, percebe-se, pelas manifestações, que os franceses não estão disponíveis para aceitar a contenção. Sem falar da idade da reforma, que é bem mais baixa para o lado dos gauleses, aos 63 anos, quase. Nós já vamos quase nos 67. Seria caso para dizer que com essas condições os portugueses fariam milagres e os que diziam que se andava a viver acima da média, deveriam envergonhar-se. Somos peritos em engenharia financeira e, então, agora, com o preço dos combustíveis e dos bens alimentares, somos uns heróis! Nem à rua saímos. Vivemos conforme podemos. Mesmo assim, não surge um político honesto que nos diga, meus amigos, o orçamento é para gente pobre. Não é ambicioso nem pode ser, porque não há dinheiro e dentro do dinheiro que se tem, fazem-se opções políticas que não chegam a todo o lado. O cobertor é sempre curto. Eu creio que os portugueses desconhecem outro meio de vida além da austeridade, desde o início da derrocada do império, ainda no tempo do ilustre Camões.

Sabem lá os franceses! Eu acho que os poderíamos ajudar! Estou tentadíssima a enviar-lhes o Passos Coelho e o Vítor Gaspar e eles iriam ver se aguentam ou não! “Ai aguentam, aguentam!” — já dizia o economista. E aguentámos. Que remédio. Sabem lá os franceses!

No meio deste bulício internacional, nós fazemos como a atriz Susana Blazer, através da sua personagem Dolores Cotovelo: encolhemos os ombros e apregoamos um saboroso “quero lá saber! É-me indiferente!”

O que não nos é indiferente é a novela Ronaldo, que a procissão ainda vai no adro e estes assuntos da bola, neste país, são a coisa mais séria do mundo. Eu também tenho os meus momentos e as minhas reflexões e dei comigo a pensar que Ronaldo daria um herói trágico maravilhoso. Dei por mim a analisá-lo sob o ponto de vista literário. O moço ficou imediatamente mais interessante. Temos a personagem nobre ou heroica. Apesar de não ser nem aristocrata nem deus, pelos feitos futebolísticos realizados, assemelha-se a um semideus. Já serve. Temos vários conflitos trágicos que surgem impostos pela força motriz e implacável do destino e, também, motivados pelas paixões humanas. O desfecho não o conhecemos, ainda, mas pode encaminhar-se para a catástrofe, tão necessária à catarse coletiva.

O rapaz pobre sai em tenra idade da sua ilha natal, qual Ítaca, e desafia os deuses, contrariando o destino que lhe caberia. O jovem é a desmesura, uma improbabilidade e com uma vontade e orgulho férreos cresce como jogador nos palcos internacionais, torna-se uma lenda. Desafia as leis da natureza e recusa o envelhecimento (hybris). A personagem ameaça a ordem do cosmos e potencia o caos. Não passa incólume aos acontecimentos. Apesar das vitórias sucessivas, não se livra do pathos, do sofrimento imposto pelo fado (anankê), fruto das suas ações e escolhas. Tal como Ulisses, enfrentará outros ciclopes, outros monstros marinhos e sereias encantadoras. A ação da personagem conduzi-la-á ao conflito (Ágon), por outras palavras, a uma luta entre o bem e o mal. Durante o conflito, o semideus terá o auxílio de deuses protetores, mas convém sempre lembrar que o destino e a inevitabilidade estão acima deles. Nem estes o conseguem contrariar. Eis que subitamente, surge a peripécia, o acontecimento imprevisível que altera o rumo dos acontecimentos que compõem a ação dramática, sem que nada o fizesse esperar. Infalivelmente, virá a anagnórise, o reconhecimento dos acontecimentos trágicos, por meio de uma nova personagem de nome emblemático, qual presságio! Ei-lo: Jesus, no seu esplendor!

Obviamente, a ação só poderia culminar em catástrofe, resultante do confronto entre o desafio e o destino, num crescendo de sofrimento, atingindo-se o clímax. O herói abandonou o estágio em Copenhaga, em sofrimento desmesurado, e voa para junto da família, regressando ao seu clube, em busca de uma catarse (Katharsis) redentora. Resta-nos aguardar o último capítulo. Na reta final, o público, através do terror e da piedade que a tragédia desencadeia, deve-se juntar ao seu herói, na purificação das emoções e das paixões.

Até ao momento, ainda estamos no momento do terror, veremos se a piedade e a catarse final serão possíveis.

Perante esta tragédia, quem precisa de se preocupar com outras guerras?! Como diz a Dolores, não a mãe, a Dolores Cotovelo: “Quero lá saber! É-me indiferente!”

 

Nina M.

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