Tendas e chuteiras
Inevitavelmente,
há dois temas que não largam os portugueses: as tendas e o Ronaldo. Não importa
se o troglodita do Trump perdeu o Senado, já pouco nos lembramos do que continua
a acontecer na Ucrânia e em Gaza. Vemos a Europa a braços com uma crise social motivada
pela crise política e económica, mas o importante são os acampamentos.
Em
Portugal, seguiu-se a tendência. Surgiram os protestos pela habitação. Causa
nobre e justa que os sucessivos governos tinham vindo a descurar há mais de
duas décadas. Foi-se do protesto pacífico à conturbação num ápice, por inépcia
do governo. Obviamente, as ordens para fazer dispersar a população chegaram e
os agentes cumpriram. Ao contrário do que muitos alegam, quem está no terreno
obedece a ordens. Se não o fizer, há processos disciplinares rigorosos com suspensão
imediata de funções e de grande parte do salário até averiguação total dos
factos. A desobediência aos superiores pode acabar em exoneração. É assim que
as coisas se processam. A alternativa para quem não acredita na missão que desempenha
seria desistir da profissão. A hierarquia nessa Instituição é lei. Não será
para todos. Não seria para mim, mas é preciso haver quem o faça.
No
meio da refrega, houve exageros, certamente, e haverá levantamento de inquérito
para se apurarem as responsabilidades. No entanto, não convém ser-se
maniqueísta. A PSP aguentou horas a fio, foi dialogando com os responsáveis
pelo movimento, pediu que acatassem as ordens que fossem dadas, neste caso, a
dispersão após a 00h30. Ouviram os insultos, aguentaram empurrões, cuspidelas,
lançamentos de garrafas. Não ocultemos os factos e não, os agentes não têm de
tolerar tudo quanto um imbecil se lembre de fazer, apesar de terem a paciência
burilada pelo serviço. Quando o aviso de megafone chega e são sempre três,
obrigatoriamente, intervalados por um certo tempo, é bom que todos saibam que
na falta de acatamento das ordens, os agentes terão de atuar e, no uso proporcional
da força, fazer dispersar. Não sejamos nem ingénuos nem crentes. Não é com
palavras meigas que se dispersam centenas de pessoas que se recusam a
colaborar. Seria maravilhoso se assim fosse, mas se houvesse essa colaboração,
já não teria havido necessidade de se chegar a este ponto. Alguns manifestantes
quiseram criar conflito aberto em desafio às autoridades policiais. Se as
ordens tivessem sido para os homens aguentarem firmes e hirtos, assim teriam
feito, estoicamente e com paciência de Jó. Não foi o caso e, de cada vez que
houver conflito e lhes forem dadas ordens para fazer dispersar, os três avisos
repetir-se-ão e se a multidão não cumprir, a polícia agirá.
O mais curioso
é saber-se que muitos estariam de acordo com o motivo do protesto, no entanto,
independentemente da opinião de cada um, têm de cumprir com o serviço que lhes
foi incumbido.
Como a ironia
da vida não se faz tardar, alguns dos que tinham estado nos protestos, no
Porto, sobre os quais houve carga policial, foram os mesmos que passados uns
poucos de dias provocaram os adeptos do Nápoles, indivíduos pouco amigáveis e
com ligações à extrema-direita. Valeu-lhes a mesma polícia para que não sofressem
nas mãos dos napolitanos. Também consigo imaginar o que não pensaram alguns dos
agentes, mas serviço é serviço e a responsabilidade não se enxota. Pergunto eu
com os meus botões se esses indivíduos serão masoquistas e se gostam de levar
umas belas sovas! Nem sequer foi provocação futebolística. Foi mesmo provocação
político-ideológica e, provavelmente, só o fizeram porque se sentiram
salvaguardados pela mesma polícia a quem andaram a apelidar de fascista nos
dias anteriores. É assim… Uma coisa esquisita, entre o chamem a polícia quando dá
jeito e malditos fascistas que não os podemos aguentar, quando não nos convém.
Tanto
sarilho para, no final, já ninguém querer saber da crise da habitação e o
assunto ter descambado para acampamentos e tendeiros. Agora, o braço de ferro é
entre os manifestantes-tendeiros (com aqueles que no fim do dia regressam aos
seus afazeres nunca houve problema algum) e os presidentes de Câmara, Carlos Moedas
e Pedro Duarte. Desejo-lhes quilos de paciência para aturarem aquilo que já soa
a perrice de canalha. Por esta altura, já todos os políticos perceberam que vão
ter de olhar para o problema da habitação com seriedade. Esse era o objetivo dos
manifestantes sérios e foi cumprido. Agora, deixem-se de politiquices porque,
também, já todos sabemos que o problema tem uma dimensão que não é resolúvel a
curto prazo. Deixem os pequenos comerciantes ganhar a vida! Se calhar, na ótica
de alguns, serão demasiado burgueses e, como tal, não têm direito ao trabalho.
Com certeza, já pagaram por aquele espaço e, também, não podem ver os seus
direitos pisados pelos direitos de outros! Haja paciência!
Eu
estou velha para certas coisas. Ah e tal, mas faz parte destas coisas… Pode
fazer, mas não significa que não seja uma imbecilidade. A última manifestação
em que estive presente, felizmente, com acatamento de ordens e pacífica, também
lia o “slogan” em todo o lado: “Quem adormece em democracia acorda em ditadura”.
A frase é verdadeira, mas absolutamente ridícula e nada adequada, porque se
estivéssemos em ditadura, nenhum dos milhares que éramos estaria ali. Lembro-me,
também, dos famigerados cartazes do João Costa. Por muito que o homem nos
fizesse perder a paciência, há linhas que não se devem cruzar.
Felizmente,
nem tudo é desacato. O Ronaldo decidiu arrumar as chuteiras. Leu um bom
comunicado, aquele que deveria ter sido feito antes da sua birra. Imagino que
lhe terá custado muito a admitir que chegou a hora do descanso do guerreiro.
Obrigada por tudo, capitão. Obrigada pela entrega e pela paixão, obrigada pela
projeção que deste e continuas a dar ao país. Neste momento, não é dentro de
campo que podes ajudar.
Um dia,
voltarás à casa da tua paixão. Todos sabemos disso. Todos contamos com isso,
porque há histórias que nunca se apagam.
É
bom saber descer a montanha.
Nina M.