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sábado, 12 de setembro de 2026

Crónica de Maus Costumes 480

 

Crónica leve de verão

            Há quem me diga que sou predisposta a que determinadas coisas me aconteçam ou, de forma menos simpática, que me ponho a jeito. Eu já tentei fazer uma introspeção relativamente a isso, mas francamente não encontro uma razão especial a não ser a de que as pessoas olham e devem considerar que não tenho ar de maltratar ninguém, até porque facilmente me apanham a sorrir. Sozinha, muitas vezes. Sou meio tresloucadita.

            Estação de metro no Dragão. O objetivo era seguir para o centro do Porto. Estacionámos o carro nas imediações e, depois, seria percorrer o centro a pé, deixar-nos encantar pelas vielas, pelas belíssimas escadas das verdades que conduzem os turistas da Sé até à Ribeira, pelo meio do casario labiríntico e colorido.

            Retirava os Andantes da máquina para mim e familiares que vivem nos Estado-Unidos. Um deles, norte-americano, lá nascido e criado. Retirei e distribuí os passes. Entretanto, fui abordada por um senhor de meia-idade (agora me lembro que talvez fosse pouco mais velho do que eu). Nos dias de hoje, um quase jovem, afinal! Deus me livre! Tenho de me curar desta maleita de olhar para os outros e os achar envelhecidos sem me lembrar que já levo a minha conta bem avançada. Impregna-se esta mania no corpo de pensar que é mais jovem do que aquilo que é na realidade, e que a rigidez muscular e o ranger das articulações desmentem com uma facilidade quase afrontosa.

            O senhor abordou-me. Olhos vivos, pequeninos e azuis. Um senhor alto, magro e calvo.

            — Ó menina, não me poderia ajudar? Eu conheço bem o Porto, mas hoje vim de autocarro e nunca andei de metro… Não sei tirar o bilhete.

            — Com certeza. Não me custa nada. O senhor para onde quer ir?

O homem explicou que queria ir para a Trindade. Disse-lhe que saía mesmo lá, na estação, atrás da Câmara. De seguida, perguntou-me se sabia onde ficava uma certa companhia de seguros, porque precisava de resolver um problema. Já andavam a brincar com ele há demasiado tempo. Eu não sabia, mas peguei no telemóvel e fui pesquisar para desenrascar o senhor. A coisa tinha ficado resolvida. Disse-lhe o nome da rua e o senhor desceu para a plataforma.

Chegou o metro. Íamos sair no Bolhão e o homem na Trindade. Entrámos e, coincidentemente, o senhor ficou ao meu lado. Certo e sabido: foi durante toda a viagem a conversar comigo e a contar-me a sua história de vida. Eu não perguntei absolutamente nada; ouvi atentamente, apenas. Gosto de gente genuína e simples. O senhor era assim. Desses que abre o livro e ficamos a saber coisas que nem perguntámos. Queria resolver uma questão por causa do trabalho. O patrão de muitos anos não lhe queria pagar a indemnização a que tinha direito, por causa de um acidente de trabalho. Parece que tentaram chegar a acordo, mas a outra parte falhou. O bom homem já nem se queria ralar, afinal, trabalhou tantos anos para o patrão! Tinha consideração por ele, mas nem pensar! A doutora (a advogada) não deixou. Tinha-lhe dito: “vai pagar, vai; tem de lhe pagar o que o senhor tem direito.

— Sabe… É que a doutora também recebe o dela…

— Pois claro, então… Ninguém trabalha de graça – respondi.

— Sabe, menina, eu tenho um filho na Bélgica e foi ele que me disse que era melhor vir cá para resolver isto com o seguro. Nunca mais me dizem nada. Eu ligo, ligo e não querem saber. Não pode ser.

— Pois não.

— Olhe… Eu conheço meio mundo! Já estive na Bélgica, também… Já trabalhei nos Açores… Mas aí… É preciso cuidado! As mulheres, se apanham um tipo, não o largam! Eu não! Mas tive um colega que se viu lixado com uma! Ele tinha cá mulher!

— Por esta altura, eu já mostrava um sorriso de orelha a orelha deliciada com a singeleza, a transparência e a genuinidade do homem.

— Respondi-lhe, apenas: olhe que a coisa havia de se pôr feia, caso a esposa descobrisse.

— Pois é. Pois é. Elas são lixadas. São lixadas.

Pelo meio, ainda teve tempo de me dizer a quantia que iria receber e de que eu já não me lembro…

O americano olhava incrédulo. Devia estar a pensar que os portugueses são doidos. Falam com gato e sapato e pelos cotovelos. Saímos no Bolhão. Se tivéssemos seguido para a Trindade, desconfio que haveria de ter conversa para todo o dia. A minha sobrinha lá explicava ao marido que aqui as pessoas são assim, mesmo não conhecendo, falam facilmente. É verdade e se encontrarem um ouvido disposto, então, o desbragamento é total. Já na Penha, em Guimarães tinha ocorrido algo semelhante. À saída do teleférico, ao ver expostas umas peças, fruto de escavações, inferia, alto, que pudessem ter sido trazidas de Briteiros. Ora… Ia a passar um senhor que ouviu e me informou que foram encontradas numa obra que alguém que ele conhecia fazia. O seu pai assistira ao achado. Tinham sido entregues ao museu e, posteriormente, levadas para ali. Escusado será dizer que tivemos visita guiada pela Penha e capelas e a informação preciosa de que para comer mais barato nas tascas dos pedregulhos era melhor ir à outra que naquele dia se encontrava fechada, mas que serve bem e mais em conta. Fez questão de nos narrar a história de um lisboeta que dali saiu encantado e a quem o homem, prestável, à boa maneira das gentes do Norte, ainda lhe arranjou quem lhe vendesse uma boa pinga.

É assim. Não faltam histórias. Haja ocasião, tempo e boa vontade para as ouvir. Esta portugalidade genuína e pura enternece-me e, talvez, o consigam adivinhar no meu olhar.

 

Nina M.