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sábado, 17 de outubro de 2026

Crónica de Maus Costumes 485

 

O lado oposto da barricada

               Ouvem gritos de protestos. Insultos. Palavras que carregam um peso que não cabe a muitos. Fascista! Chulo (por desconhecerem pária ou por ser mais feio), “filho desta e mais da outra”. Alguns, talvez as mereçam, é como tudo na vida, mas não são, seguramente, a maioria. Não respondem. Sentem os músculos do corpo enrijecer e a contração muscular sob o peso de coletes, proteções e capacetes. Cerram fileiras. Aguardam ordens. Nunca há uma carga policial das forças especiais sem ordem superior e sem pré-avisos. E os avisos são os apelos ao cumprimento das solicitações efetuadas por aqueles que estão a trabalhar.

            Não entendo a ideia peregrina de se considerar que se pode tudo, mesmo depois das explicações sobre o que a lei prevê. Dura Lex, sed lex. O cansaço acumula-se no corpo e na alma e pode, efetivamente, afetar o discernimento e a razoabilidade. Eis que surge a ordem: é para dispersar os manifestantes. Neste momento, só me ocorre a rubrica do Gato Fedorento e aplicá-la a uma nova realidade: os manifestantes queiram, por delicadeza e ordeiramente, arrumar a tenda (literalmente) e dispersar! Às três da manhã, não podem cantar nem perturbar os outros que têm direito ao descanso! Ocorre-me imediatamente aplicar a mesma estratégia às festas de verão, ao ar livre, com o brilhantismo e arte dos DJ’s que me chegam até casa, até às cinco da manhã! Dar-me-ia jeito alguém para terminar com o barulho. Do outro lado, ouvidos moucos porque o protesto tudo permite.

            Dadas as ordens para varrer o local, os agentes devem zelar pelo cumprimento dos regulamentos a que estão sujeitos, nomeadamente o da proporcionalidade no uso da força e, pelo qual, depois, cada um responde por si, havendo razões para abertura de inquérito.

            Então… As pessoas não se podem manifestar? Podem e devem, se entenderem haver razões para isso. Não podem perturbar a ordem pública nem desobedecer às instruções indicadas por quem tem o ofício de fazer cumprir a lei, a menos que ao obedecer se esteja a incorrer num crime. Se não for o caso, a desobediência insistente e duradoura pode trazer consequências nefastas e evitáveis para todos.

            Assisto a tempos estranhos e pesarosos em que se perderam o bom senso e o respeito entre pessoas que, por força das circunstâncias, estão em lados opostos da barricada. Lastimo profundamente. Parece-me uma forma de esvaziar os motivos do protesto e de desviar o foco da discussão que é urgente que o país tenha.

            Dito isto, é importante que os governantes ouçam e sintam o pulsar das agruras e do desespero dos que trabalham, dos que se esforçam e, mesmo assim, não conseguem chegar ao final do mês, porque um dos ordenados fica no arrendamento. Seria suposto ter uma vida digna, ganha com o suor do trabalho de cada um. É preciso implementar políticas que obriguem os mercados a serenar.

            Governo e autarquias têm de investir em habitação social com rendas moderadas que os mais jovens e famílias de classe de classe média-baixa possam suportar. Há formas de construir mais rapidamente e com qualidade. É imperioso fazê-lo e sem demora. Em simultâneo, arranjar forma de reduzir a especulação imobiliária, talvez com o aumento de impostos sobre uma segunda habitação. Até lá, resta ao povo aguentar-se e sofrer. Fazer ouvir a sua voz de forma ordeira e pacífica é sempre necessário. Causar caos e anarquia, como assistimos noutros países europeus, apenas enfraquece os centros democráticos, favorecendo o crescimento dos líderes populistas. Criar o caos e a anarquia, fomentando a necessidade de repor a ordem, é a melhor forma de causar a erosão das democracias. Elas, que estão tão frágeis por conta das frustrações acumuladas, dados os problemas complexos para os quais os líderes não têm conseguido arranjar soluções. Uma democracia também se conserva mediante a qualidade do futuro que consegue oferecer.

            Esperemos que os ânimos serenem, que haja discernimento para se saber que problemas complexos não têm soluções simples e que o ruído sem a intenção de que todas as partes se ouçam e criem condições para se tentar solucionar o problema não resolve nada, apenas polariza, corrói e destrói o que se tenta preservar.

Nina M.

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