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sábado, 31 de outubro de 2026

Metamorfose de uma Mulher

            A manhã aproximava-se lenta no seu despertar. O Sol desmaiado de dezembro erguia-se pálido e preguiçoso e o rubor habitual da Aurora tardava.

Levantei-me e descalça pisei o chão frio que sempre me arrefecia os pés. Voltei a prometer calçar as pantufas. Sabia que não o faria, contudo. Há muito deixara de contar as promessas que fazia a mim mesma. Sempre as quebrava. Rememorava as vezes que me deixei humilhar, depois de me ter jurado nunca mais o fazer. Assim, o chinelo de quarto era mais um lembrete do que um propósito. De qualquer modo, o ar gélido que se sentia na madrugada permitia-me sentir a realidade. Transpassava-me a carne até se alojar na alma.

Cumpri o alívio que o corpo me exigia, espreitei pela pequena janela da casa de banho e a luminosidade ainda fraca da manhã lembrou-me outro dezembro. O dia das poucas promessas que conseguira cumprir. Corria o ano de 1978. Tinha 30 anos, a pele lisa e firme, as mãos sem as manchas do tempo, o olhar cheio de esperanças por realizar. Tinha sido numa manhã como esta, de dezembro, fria e de sol esmaecido que se me fizera luz.

Não me sujeitaria mais as expectativas alheias e cumpriria o meu destino. Casada há 7 anos, os filhos não surgiram. Sentia no olhar alheio a reprovação do ventre seco, árido como a areia do deserto. Se me soubessem! Talvez tivessem sabido! Nunca fora eu. A prova são os três filhos que vieram mais tarde.

A autoridade do marido era a lei da casa e se ele me assegurava que responsabilidade era minha, só eu poderia ser solo e estéril e inóspito. Nunca o homem falharia na missão de propagação da espécie. Eu era a inútil que o destino tinha determinado ao marido educadíssimo, gentil e perfeito. As suas palavras eram mil agulhas finas a cravarem-se-me na pele. As suas ironias feriam-me mortalmente. O olhar de desprezo que me lançava quando pressentia que os meus olhos se detinham numa montra de roupa de criança era devastador. Sempre o mesmo comentário seco:

— quem não tem carro não precisa de garagem.

Fingia não ouvir e fingia não sentir. Normalizava o comentário cruel que me diminuía e que, aos poucos, me destruía. A cada remoque, a vontade de sair tomava conta dos meus músculos que se enrijeciam. Com o tempo, o meu rosto tornou-se sério e o meu sorriso gentil e fácil, que tanto o cativara, desaparecera.

Tinha, no entanto, um bom marido — diziam-me — até me permitia trabalhar!

Uma mulher sem filhos precisava de ocupar o seu tempo, pelo menos fosse útil à sociedade, já que era terra árida como esposa. Esta era a sua justificação. Não podia, porém, esquecer-me das minhas obrigações domésticas. Poder trabalhar era um luxo que me era oferecido e que eu não deveria desperdiçar. Eu era exemplar: excelente profissional, excelente dona da casa, perfeccionista. Sabia que ele não tolerava a desorganização e numa casa coabitada por dois adultos, a manutenção da limpeza não era difícil, mas os espaços deveriam estar imaculados, se me quisesse poupar os gritos que me atingiam como pedras de que a minha inutilidade se estendia à mais simples tarefa doméstica e que competia a qualquer mulher.

A minha epifania não se revelou repentinamente. Foi um processo longo durante o qual a rebelião interior se foi tornando mais forte. A leitura de O Segundo Sexo foi uma pedrada no charco. Não se leem novecentas e muitas páginas num ápice e nenhuma mulher permanece a mesma após a leitura de Beauvoir. Seguir-se-ia outra Simone, a Veil. Tinha de encontrar os subterfúgios mais imaginativos para conseguir esconder os livros que arranjara clandestinamente. Felizmente, como mulher semieducada da época, não tocava piano, mas sabia falar francês. Lia-os na língua original, em livros algo amarrotados e já gastos, passados de mão em mão, por um clube feminista pecaminoso, rebelde e clandestino. O livro circulava numa pasta de arquivo opaca e fechada. Visto de fora, seria apenas documentação de trabalho.

Era secretária num escritório de advogados e aproveitava a hora de almoço, que passava no local, para ler. Às vezes, inventava ligeiros atrasos ao final do dia, por força do excesso de trabalho, para poder ler. Sabia que nesse dia, em casa, teria de lidar com a frustração do meu atraso, mas pontualmente arriscava. Paulatinamente, as palavras de Simone foram ressoando e criando uma voz interior que se tornou questionadora. Desafiava os limites impostos e a decência. Inicialmente, corava ao ler determinadas passagens, depois, sorria e sentia um calor penetrar-me interiormente, invadindo-me o alegria plena que desconhecia.

«Ninguém nasce mulher: torna-se mulher.»

«O drama da mulher reside nesta confluência entre a reivindicação essencial de todo o sujeito, que se afirma sempre como o essencial, e as exigências de uma situação que a constitui como inessencial.»

«A representação do mundo, como o próprio mundo, é obra dos homens; eles descrevem-no a partir do seu próprio ponto de vista, que confundem com a verdade absoluta.»

 

«O casal livre não é uma utopia; para que exista, basta que a mulher seja educada e viva no mesmo mundo que o homem, partilhando com ele os mesmos deveres e os mesmos direitos.»

Eu descobria, paulatinamente, a construção do feminino e a alteridade, a falta de reciprocidade na relação entre os sexos, o privilégio masculino desvelado, o direito à autonomia e à liberdade. Eu descobria-me como ser autónomo, responsável por mim, pleno, um ser igual em direitos e deveres ao seu cônjuge e a qualquer outro homem.

Quando a luz interna se instala jamais é possível desativá-la. Assim sucedeu. À medida que ia mastigando devagar e fazendo a digestão lenta da autora, quebrava em mim, grilhão a grilhão a corrente que me prendia. Subitamente, em mim, só cabia a liberdade.

Num final de tarde, daqueles em que o expediente aperta, atrevi-me a consultar a Constituição de 1976. Nova. Dois anos de existência. Quase imaculada. A lei não muda a mentalidade, no imediato, mas a minha tinha vindo a fazer a sua metamorfose.

Esbarrei com o Princípio Geral da Igualdade (Artigo 13.º): «Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica ou condição social.»

Os meus olhos detiveram-se por um largo minuto na palavra sexo. Sorri. Depois, veio o direito de contrair casamento e dissolvê-lo (Artigo 36.º, n.º 1 e n.º 2): «Todos têm o direito de constituir família e de contrair casamento em condições de plena igualdade.» «A lei regula os requisitos e os efeitos do casamento e da sua dissolução, por morte ou divórcio, independentemente da forma de celebração.»

Cheguei a casa, tarde, nessa noite. Não fiz o jantar. Passei numa churrasqueira, aviei um frango de churrasco que sabia não constituir as delícias do paladar exigente do marido, umas batatas fritas e uma salada. Concedi-me o direito de ser displicente. Uma vez. Pus a mesa entre reclamações, lamentos e insultos embrulhados em lançarotes de ironia:

— Nada me compraz tanto quanto deliciar as minhas papilas gustativas com o cuidado de uma refeição bem confecionada pela minha mulher… Tão dócil e dedicada.

Desta vez respondi num tom cortante e áspero:

— Não me apeteceu cozinhar.

Senti-lhe a surpresa no latejar das têmporas, mas nada mais acrescentou.

Na manhã seguinte, liguei para o escritório a dar conta de uma indisposição. Fiz uma mala com os meus pertences. Saí para não voltar. As próximas notícias que ele receberia, seriam enviadas a partir do escritório de Miguel Veiga, a solicitar o divórcio.

Nina M.

 

 

 

 

 

 

 

 

           

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