Telenovela Ronaldo
Ronaldo é
alto, tem um porte e um corpo atlético e um palmo de cara que não lhe assenta
mal — o dinheiro faz milagres. Quem não se lembra dele aos dezoito anos,
imberbe e de dentes tortos — e a indústria da imagem e da moda tratou do resto.
Tudo foi possível porque o jogador é autoconfiante, determinado e os seus
resultados e a superação constante de recordes lhe alimentavam a autoestima e o
ego gigante que até hoje revela. Ronaldo não se intimida com a câmara. É
atrevido e dotado de dons naturais que fazem com que ela goste dele. É a pessoa
mais seguida nas redes sociais, ocupa o primeiro lugar no Instagram, com 679,2
milhões de seguidores, mas desmontou-se todo quando, num programa gravado em
família, perguntou aos filhos quem era a pessoa mais famosa que eles conheciam
e um dos petizes respondeu: a mamã! O ar de Ronaldo denunciou um misto de surpresa
e de indignação. Eu fartei-me de rir. Foi uma pequena lição de humildade dada
por um filho.
Se pudesse,
diria ao Ronaldo que ele pode descansar. Ninguém no seu perfeito juízo pode minimizar
a sua carreira, os seus troféus e todos os recordes arrancados a ferros com
muito suor, disciplina e esforço. Acrescentaria, também, que ele não precisa de
ser amado nem venerado por toda gente. Não haverá reconhecimento algum que lhe
possa trazer o amor e a presença dos pais que tanta falta lhe fizeram na
infância. Descanse o guerreiro porque venceu. Será o orgulho da Dona Dolores e
do Senhor José Dinis. Amá-lo-ão profundamente. Só não o puderam acompanhar para
o abraçar sempre que precisou. Essa dor moldou-lhe o carácter. Fez da fraqueza
força e superou-se. Nada mais há a provar.
Não
antipatizo com o rapaz. Não o idolatro, porque o único homem digno disso é
Jesus, o Cristo, não o outro, e reúne, até hoje, mais seguidores do que o
Ronaldo. Esta luta já perdeste, CR7. Nem vale a pena tentar competir. De resto,
vejo o egotismo do homem, a sua autoconfiança muito pincelada de arrogância,
mas da qual precisou, principalmente, em Espanha. Se fosse um bom menino, a
imprensa espanhola tê-lo-ia comido vivo. Não são muito fãs de portugueses, apesar
de nos apelidarem “nuestros hermanos.” Ronaldo teve muita fome de vencer, foi
obstinado e obcecado e só assim se conseguiu colocar no mesmo patamar do genial
Messi. O que num é talento puro, no outro há talento e muito trabalho. O
Cristiano sabe disso e acreditou em si, mas teve de correr sempre muito para
chegar mais alto, para quebrar todos os recordes. Dá vontade de perguntar se a
criança ferida já encontrou amor suficiente no reconhecimento alheio.
O Ronaldo
cresceu e tornou-se um quarentão. Está impecável. Ótimo. Uma condição física
invejável. Só não chega para jogar e fazer a diferença na alta competição. O
Ronaldo continua a ter muita vontade e a querer distinguir-se, mas parece que a
bola já não quer muito com ele. Escapa-se-lhe, os pés enrolam-se um no outro e
falha os remates, os livres embatem na barreira, não pressiona o adversário, já
não parte em drible para cima dele, nem o finta e nem o passa. Muitas vezes,
nem uma bola tirada à medida consegue introduzir na baliza. Com os seus 41 anos
faz muito, mas não o suficiente para ser titular ou jogar todos os jogos da
seleção. Tal como a mulher bela cujo tempo marcou e tem dificuldade em aceitar os
vincos que surgem no rosto e a flacidez natural, as marcas da vida, o Cristiano
parece não aceitar os efeitos do tempo e não se consciencializa que o seu
egotismo, as suas vontades não se podem sobrepor ao sonho coletivo.
Ninguém está
contra o Cristiano. Todos lhe reconhecem as conquistas, mas a equipa produz
mais sem ele em campo. As pedras funcionam como coletivo, quando não são
obrigadas a produzir para uma referência na linha avançada que pouco se
movimenta, não recupera bolas e denuncia dificuldade em marcar.
O envelhecimento
não poupa ninguém. Nem mesmo o Cristiano e ele não quer aceitar. Alguém tem de
lhe dizer que há já algum tempo não é um dos melhores do mundo, apesar de ficar
na História do futebol como um dos melhores do mundo de todos os tempos. Porém,
o estatuto não pode jogar sempre que quer. Poderá jogar se e quando o treinador
entender pertinente. É isto que Ronaldo não aceita e é forçoso que o faça para
não cair no ridículo. É penoso ver-se alguém que alcançou o céu fazer isto a si
mesmo. Foi essa sensação que o Pinto da Costa me deixou no seu último mandato,
com particular ênfase, no seu último ano. Creio ter sido para todos os
portistas uma dor de alma ver o homem responsável pela dimensão que o FCP
alcançou a sair do estádio derrotado. Triste como a noite e com um peso
imensurável sobre os ombros. Foi uma derrota necessária, mas não deixou de ser
dolorosa inclusivamente para os que contra ele votaram.
Não posso
ser hipócrita. Ronaldo não me causa o mesmo pesar, por um motivo evidente: para
mim, ninguém está acima do FCP e do que à instituição está ligado e nem o presidente
dos presidentes está acima do FCP. Nunca uma personalidade pode estar acima de
uma entidade amada.
Acontece o
mesmo com a seleção. Nunca o Ronaldo deverá estar acima dos interesses de um
coletivo. O melhor para a seleção seria ter o Cristiano e dar-lhe minutos de
jogo quando a equipa estiver a ganhar por três bolas de diferença e não for
necessário apertar muito.
O Ronaldo
não aceitou a evidência e ficou furioso. Sentiu o seu estatuto posto em causa e
abandonou os companheiros por achar que todos lhe devem prestar vassalagem.
Esquece que há talentos emergentes. Miúdos bons e que precisam e têm o direito
de mostrar o que valem sem terem de jogar para o galáctico que envelheceu. O
Jorge Jesus, treinador também egotista, tem razão, neste caso. Enquanto timoneiro
das quinas, deve zelar pelos interesses da equipa. É só isto. Não há invejas,
não há panelinhas nem traições, apenas a evidência de que o tempo passa para
todos, inclusive para o Ronaldo.
Haverá amigo
verdadeiro que lhe consiga dizer isto? Sabemos que o mundo conhece Ronaldo e
que ele é um símbolo de Portugal, embora preferisse que fôssemos conhecidos por
Pessoa. Saramago, Camões ou Sophia. Sabemos que pôs o nome de Portugal na boca
do mundo e que deu muito à seleção, mas também recebeu muito dela. Ninguém se
faz sozinho e Ronaldo deveria saber disso. Assim como foi capaz de agradecer à
senhora que lhe dava o hambúrguer quando sentia fome, ainda criança, na
academia de Alvalade, também deveria reconhecer que a seleção o ajudou a
atingir alguns dos seus objetivos. Nem a seleção deixará de existir sem Ronaldo
nem este deixará de ser um dos maiores ícones do futebol.
Era tudo tão
escusado se o homem tivesse um pouco menos de vaidade e ajudasse
verdadeiramente o treinador a construir balneário.
Lamento por
Portugal, pelos portugueses que gostam do Ronaldo e, sobretudo, por ele mesmo.
Depois disto, espero que ele mantenha a sua posição e que a seleção não se
humilhe. Em 2011, o Ricardo Carvalho fez uma parvoíce semelhante, na altura de
Paulo Bento. O melhor defesa central, na época. Ninguém foi atrás dele. Ficou
um ano de castigo. Regressou em 2014, com o Fernando Santos, depois de um
pedido de desculpas público por parte do jogador. Se, eventualmente, quiserem trazer
de volta o Cristiano, será o mínimo a exigir e se ele aceitar, sem birras,
ficar no banco. Talvez seja pedir muita humildade a quem se tem atribui excelsa
importância.
Por fim,
resta lembrar-lhe que apesar da sua reconhecida excelência, é tão mortal quanto
nós. Tudo se resume a isto — o banho de realidade que lhe está a fazer falta.
Nina M.