O fado de ser português
Portugal tem vindo a tornar-se num
país de terceiro mundo. É certo que sempre estivemos a léguas dos nossos
parentes europeus, fruto dos anos do “orgulhosamente sós”. Ficamos sós e sem
orgulho porque perante o cenário de uma Guerra Colonial, da fome, da miséria,
da falta de infraestruturas, da baixíssima taxa de alfabetização, do
raquitismo, da emigração em barda, da mentalidade mesquinha e corrupta, da
subserviência — e poderia continuar, pois o rosário não se findaria tão cedo—
não há altivez que subsista.
Continuamos um país de joelhos
perante a Europa, sem capacidade de a olhar de igual para igual, pela pequenez
do território, mas sobretudo, pela pequenez económica e produtiva. Não falo de
pequenez cultural e científica. Temos gente excecional, com provas dadas, quer
internamente quer internacionalmente.
Este país que vive há séculos de
joelhos, há fases em que parece conseguir soerguer-se, mas nunca se chega a
levantar. A dada altura, faltam as forças e pega-se-lhe o quebranto. Perante
esta constatação, não falta gente entendida, alguns percebem muito de tudo e de
todas as áreas, a debitar palpites sobre as medidas mais eficazes para resolver
os problemas da saúde, da educação e da habitação rapidamente. Não sei como
nenhum Governo se lembrou de os convocar para beneficiar de tão douto
conhecimento.
Eu apenas sei que a crise de
habitação é séria e há muita gente aflita e com razão para reclamar e se fazer
ouvir. Não pode haver famílias em que ambos os elementos do casal trabalham e
não ganham o suficiente para pagar a renda de casa, pois não lhes sobraria
quase nada para fazer face às outras despesas.
Um problema que se arrasta há mais
de duas décadas e tem vindo a piorar. Em primeiro lugar, o país deixou de
investir na construção de habitação social. Foi um erro. Mais casas com rendas
acessíveis e em conformidade com o salário português é o que se deseja. O
aumento populacional, embora possa não ser a principal razão, contribuiu para o
agudizar da situação por si só difícil. Ora… É neste mesmo país que existem 638
frações de imóveis devolutos, pertencentes ao Ministério da Defesa, sem que se
faça delas usufruto. O mais curioso é que segundo notícias de 2021, iria ser
feito um investimento de 775 milhões de euros, em que 30% seria dedicado à
reabilitação e 67% à construção de novas casas. Até ao momento, não se
verificou nem uma coisa nem outra. Essa rede habitacional com rendas moderadas deveria
estar pronta em 2026, mas nada mais se ouviu a esse propósito.
O país contabiliza mais de 730 mil
habitações desocupadas, que não estão oficialmente classificadas como devolutas.
Sem cadastro nacional atualizado, com câmaras municipais desprovidas de meios
técnicos e de vontade política, o país assiste à degradação das habitações
enquanto, ó suprema ironia, tantos reivindicam o direito à habitação! Convém
acrescentar, direito à habitação a preço justo, isto é, adequado à realidade
dos salários do país.
Neste
cenário ou numa casa onde não há pão, todos berram e ninguém tem razão.
O problema existe. É preciso
procurar soluções. Julgo que uma das soluções passaria pela reabilitação de
imóveis devolutos e a construção de novos imóveis, recorrendo às casas
modulares ou de madeira, de forma mais rápida e, já agora, mais económica.
Incomoda-me sobremaneira este número avassalador de casas vazias. O Estado tem
de agilizar e de simplificar processos num país onde o papelinho, o
requerimento, o modelo A-não-sei-das-quantas ainda vigoram para tudo e para
nada!
É indecente. No entanto, antes que
se ponham com ideias, tudo isto tem e deve ser feito de forma ágil, mas em
conformidade com a lei. Talvez possa haver vontade política para isso, quem
sabe, mas o processo não será tão célere quanto se gostaria e há questões que
levam o seu tempo. Urge paciência e ponderação.
Finalmente, ter acabado com o SEF
foi um péssimo serviço prestado ao país. Ver as filas desde as quatro da manhã,
à porta da AIMA, de gente que aguarda ser atendida, sentada nos passeios, tudo
parece um cenário irrealista de um país subdesenvolvido.
Estas imagens deixam-nos a léguas do
desenvolvimento e com a sensação de que somos a periferia de todas as
periferias. Uma pessoa arrepela-se, esbugalha os olhos, sente o abalo nas
tripas, bufa, solta uns impropérios, diz-se que dá vontade de zarpar daqui para
fora, mas é a este retângulo esquizofrénico que, apesar de tudo, sentimos
pertencer.
Nina M.
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