Seguidores

sábado, 20 de maio de 2023

Crónica de Maus Costumes 326

 

Erasmus e aprendizagem

          Vim à Finlândia em trabalho. Faço formação para desenvolvimento pessoal e com interesse genuíno, porque gosto de tentar melhorar a cada dia. Gosto de trocar experiências e, principalmente, de aprender com quem sabe mais do que eu, por ser perito na área e gosto também de partilhar experiências.

Manter o espírito aberto é essencial à aprendizagem, porque ninguém evolui se rejeitar de imediato o que desconhece. A formação (quis a ventura), deu-me a possibilidade de viajar, algo que gosto muito de fazer, e de conhecer novos lugares e novas culturas. No entanto, sabendo do currículo dos formadores, era capaz de a frequentar, mesmo que fosse nos lugares habituais. Hoje é sábado e começamos a trabalhar às 10h00 e terminamos às 18h00. Amanhã, começaremos às 09h00 e terminaremos às dezassete. Apesar do cansaço, mantemos o cérebro ativo, participamos, aprendemos e damos uso ao inglês que sabemos. Até francês conseguimos falar, porque o Peeter cresceu no Canadá, dominando ambas as línguas, para além da sua língua materna, o estoniano. Conhecemos novos colegas: há um grupo de italianos e um professor catalão. É muito engraçado confrontar as diferentes formas de pensar a educação, que radicam na cultura e nos valores de cada um e que não podemos deixar de associar ao local e às circunstâncias em que cada um cresceu. Pensar a educação significará, portanto, pensar numa ética da educação, trabalho hercúleo, rigoroso e difícil. Gosto mais da pedagogia aprendida desta forma e, naturalmente, tentarei evoluir a partir das novas aprendizagens que vou fazendo.

Assim, o assunto sério, que é a educação, está a ser tratado com o rigor que merece, sendo oferecida aos professores a oportunidade de refletirem conjuntamente sobre as suas práticas. Sobra, naturalmente, algum tempo para o convívio, no país dos mil lagos e que nunca adormece na primavera e no verão. Olho pela janela. São vinte e três e trinta e dois e o dia vai claro. É giro, mas dava-me jeito o escurinho para dormir, porque eu e o sol somos grandes amigos e enquanto o vejo, o organismo recusa-se ao descanso, mas não expulsa o cansaço. A viagem até à chegada foi uma aventura: duas escalas seguidas de três horas de autocarro, que nos ocupou o dia todo e que nos fez estar no aeroporto Francisco de Sá Carneiro às sete da manhã para chegarmos às quatro do dia seguinte (hora local). Pelo meio, apanhamos, em Inglaterra, um condutor indiano mudo e pouco simpático, que não nos dirigiu palavra enquanto nos transportou de um aeroporto ao outro, voos atrasados e muito riso. Será escusado dizer que o grupo de portugueses (quase portuguesas, porque só há um professor) não passa despercebido em lado nenhum. Ó mulheres! Estais pior que os italianos e os espanhóis…

Salva-vos a simpatia e a cordialidade que é notada onde quer que estejais! Por hoje é tudo, porque a fadiga faz-se sentir. Vamos ver se o sol da meia-noite não perturba os meus sonhos.

Morfeu, quero cair nos teus braços acolhedores.

 

P.S. Hoje, não haveria necessidade de crónica, mas após uma senhora, minha amiga, (afirma-o ser a pés juntos) a ter apregoado e coagido as restantes colegas (exagero um pouco) a partirem em busca da Nina M., que publica semanalmente aos sábados, eis que o texto teve de nascer!

Desculpai-me, caras colegas, porque correis o sério risco de dar o seu tempo por perdido. A solução é fácil: passais adiante sem detença! Bons sonhos.

 

Nina M.

 

 

sábado, 13 de maio de 2023

Crónica de Maus Costumes 325

 

Mesquinhez, inveja e pusilanimidade

               Hoje, enquanto estendia a roupa, ouvia duas vizinhas que conversavam. Trocavam impressões e lamúrias sobre relações familiares. Não podiam saber que as estava a ouvir, porque da rua não se vê para o interior da minha casa. Conseguiram fazer-me sorrir enquanto terminava a minha tarefa.

            Puseram-me o resto do dia a pensar sobre o comportamento humano. Extraordinariamente, o que aflige o comum dos mortais não é a guerra que assola o território europeu ou a fome que se encontra espalhada pelo mundo, muito menos o desrespeito pelos direitos humanos. Um destes dias, enquanto ia para trabalho, ouvia na rádio a horrível notícia de termos, dentro do solo português, crianças bem pequenas, compradas por mil euros ou pouco mais do que esta quantia, que estão a ser colocadas nas ruas das cidades, obrigadas à mendicância. Ao que parece, estas pobres vidas são compradas no mercado de leste, principalmente na Roménia e na Bulgária. A escravização continua a existir, no século XXI. O Homem é capaz de progressos extraordinários, como é o caso da inteligência artificial, mas não encontra antídoto para combater a desumanização que o destrói.

            Não deixa de ser pitoresco que com questões destas para serem resolvidas, a preocupação do comum dos mortais seja o atrevimento do familiar que teve comentários menos abonatórios e quem sabe injustos sobre a nossa pessoa. São esses pequenos agravos que roubam o sossego às almas e não outras questões distantes, que por estarem longínquas parecem não nos dizer respeito ou não merecer mais do que um encolher de ombros, resignando-nos à nossa incapacidade de ação direta nesses assuntos. Deixamo-nos consumir mais facilmente por um falso problema que nos é próximo do que pelo que realmente é preocupante. Talvez isto só se explique com o terrível egoísmo do ser humano, que se esgota nas suas dores, incapaz de ver as alheias.

Pelo mesmo motivo, a inveja surge da proximidade, nunca da distância. Suponho que ninguém inveja Mozart, Beethoven, Tolstoi, Camões ou Pessoa. Esses génios são admirados. Porém, já não tenho a certeza de que o Saramago, por exemplo, não tenha sido vítima de inveja alheia, enquanto viveu, talvez até por alguns dos seus pares. Também ninguém admite sentir inveja, porque é feio e sabemo-lo. Sentir inveja, ciúme ou cobiça é próprio do ser humano, mas a forma como se racionaliza o sentimento é que faz a diferença. Pode ser que haja a inteligência para controlar a emoção e a hombridade de admitir que a pessoa merece o que nos perturba, visto que terá trabalhado para isso e poderá servir-nos de inspiração ou então deixamo-nos corroer por ela, desvalorizando e menosprezando o mérito alheio. Na verdade, a inveja não passa de um reconhecimento mudo e doloroso do próprio fracasso. Parece também que a maioria das pessoas não se reconhece como invejosa, mas sente-se objeto da inveja alheia.

Creio não ser afetada por nenhuma das maleitas, quer dizer, gostaria de ter o génio, o dom, o talento natural e a inteligência de muitos, mas como nada disso em mim é excesso, mas antes moderação, na inteligência, e míngua nos talentos, significa também que me livro da invejazinha alheia, por falta de razões que a justifiquem.

            Creio ser este o sentimento que estará na base da revolta dos que quase insultam os colegas contratados por tomarem a decisão de concorrer à vinculação dinâmica. Quem não está disponível para concorrer por vários motivos, sendo o mais frequente de ordem familiar, não gosta de ver outros a concorrer para essas vagas, alegando futuras desistências e descontentamentos. Pois bem, as regras do jogo foram anunciadas e só vai a jogo quem quer. Posso decidir não ir, mas não me dá o direito de maltratar os que pretendem fazê-lo. Já agora, também deve haver professores a sul do Tejo, a quem interessa a vinculação. Sentir inveja do que poderá vincular e que terá de assumir todas as consequências (boas e más) da sua escolha também não é bonito.

            Para findar a incursão pelas atitudes bizarras do ser humano, soube que na opinião do delegado regional de Educação da Direção de Serviços da Região Norte, um tal senhor Luís Carlos Lobo (o nome fui eu pesquisar), os professores que fazem greves são uns radicais que dão má imagem à escola. Quem o afirmou publicamente, nas suas redes sociais, foi o colega Luís Sottomaior Braga, que garante ter ouvido o comentário feito com o diretor da sua escola, via telefónica. Acrescenta que se trata de uma forma de pressão ao seu diretor, uma vez que ele, apesar do cargo de subdiretor que exerce, nessa escola, tem participado ativamente na luta dos professores. Não posso fazer leitura de intenções à distância, mas acredito que o comentário seja verdadeiro, porque o colega não iria ser leviano ao ponto de apregoar uma mentira sobre alguém com responsabilidade na área da educação, que lhe poderia, inclusivamente, trazer problemas jurídicos. Ora, fiando-me na veracidade dos factos, só me resta considerar tal opinião miserável, mesquinha, pidesca e inaceitável em quem exerce cargos dessa natureza, porquanto não saiba o significado de um regime democrático. Quem assim pensa e age não me merece qualquer respeito. A pusilanimidade deve ter limites.

            Não admira, portanto, que o Freud preferisse a companhia dos animais à do ser humano. Dizia ele que os bichos não sofriam de personalidade dividida nem de desintegração do ego e que resulta da tentativa de o homem se adaptar a padrões de civilização demasiado elevados para o seu intelecto e para o seu mecanismo psíquico. Somos, portanto, seres inadaptados e coartados por uma civilização complicada, capazes das piores ações. Perante estes factos, sobra pouca esperança na humanidade.

 

Nina M.

 

domingo, 7 de maio de 2023

Desejo


Despertar súbito do corpo

Templo que abriga o desejo

Revelado num frémito ensejo

De prazer adiado e morto


Pulsa a seiva clara de uma vida

Que se quer doar, uma oração, 

Numa transcendência sentida

Um toque a dois, um só coração 


Fusão de corpos que são alma 

Lava ardente em explosão 

Metafísica em combustão 

Depois do amor, sobra a calma


De dois corpos abandonados

Ao prazer já consumado

A desejar renovação 


Como o vento e o mar volteiam

Nas ondas da imaginação 

Vive dentro de um corpo o desejo

Latente, à espera de concretização 


Vida e morte a cada vez

Sempre fénix renascida

Assim é todo o desejo

Na vida que se quer cumprida











sábado, 6 de maio de 2023

Crónica de Maus Costumes 324


Política e sacanices

               Portugal deveria ser um caso de estudo. Eça de Queirós e Ramalho Ortigão fizeram um retrato sociológico do país, com as suas “Farpas”, que continham um traço caricatural que primava pelo exagero (há que o dizer, garantindo a comicidade), mas que deixava a descoberto o Portugal oitocentista da Regeneração. Ora a regeneração era precisamente do que o país precisava e o que a Geração de 70 pretendia alcançar. As farpas, sem obedecer a qualquer estratégia partidária, resultam de um ensejo com um propósito cívico e crítico. Constituíram um jornalismo de crítica social e cultural, um jornalismo das ideias.

            Perante os acontecimentos recentes do país, imagino imediatamente o que Eça escreveria, com riso despudorado, sobre o Governo e as situações políticas que o próprio vai criando. Não seria muito diferente do que já deixou registado, apesar do salto temporal. Imagino como os outros líderes europeus acompanham estas vergonhas e os pensamentos que os assaltam. Pouco me espanta que o holandês, certa altura, tivesse considerado que nos países do sul da europa, os homens (entenda-se políticos) só quisessem vinho e mulheres generosas que os consolassem com carícias pagas, quer nas horas amargas quer nas de alegria. Só me lembro do Craft, impassível, a observar a bravata entre João da Ega e Tomás de Alencar, com desdém, sabendo de antemão que as disputas entre portugueses, depois do chorrilho de insultos e de ataques pessoais que sempre substituem a argumentação sólida e inteligente, culminaria em abraços e elogios, como se nada se tivesse passado. Pois bem, depois de uma demissão por conta de umas notas de uma reunião, supostamente secreta e que não deveriam existir, mas que o demitido considera ter de dar a conhecer, caso seja chamado à Comissão Parlamentar, gera-se um enredo digno de telenovela mexicana de baixíssima qualidade. Desde a confiscação do computador do estado e da proibição de o funcionário retirar documentos pessoais, à agressão que este comete e fuga, após tentativa de o reter, ao envolvimento do SIS e da PJ, tudo nos parece surreal. Após ouvirmos o comunicado do senhor ministro das infraestruturas, mais desconfiados e incrédulos ficamos e com dúvidas também. Ninguém percebe por que razão o senhor ministro e o PS quiseram reunir secretamente com a ex-presidente da TAP, antes da Comissão de Inquérito, todos gostaríamos de saber o teor das notas que motivaram a polémica, e o que continha de tão precioso o computador usado pelo senhor adjunto, para que ele não o pudesse manejar nem mais um segundo, a partir da sua saída. O senhor ministro pede a demissão, mas não assume qualquer responsabilidade no imbróglio vivido e nem explica cabalmente os motivos do despedimento do seu adjunto. O senhor Presidente da República, indignado com a falta de sentido de Estado e com o comportamento de rufias, aborrece-se e sugere a demissão do ministro, numa tentativa de pôr cobro à “galambice”. Eis que o senhor primeiro-ministro, porque pode, faz ouvidos de mercador e, apesar de considerar inqualificável o sucedido, reitera a plena confiança no homem da pasta, em claro desafio ao senhor presidente. O país perdeu-a toda, mas haja alguém crente! O máximo representante dos portugueses terá gelado, certamente, mas considerando a maioria absoluta obtida há cerca de apenas um ano, engoliu em seco o desaforo, descansou por umas horas e comunica ao país o seu desacordo, rasgando duramente a ação governativa de quem o encurralou…

O país assiste a todo este filme, sem saber se chora ou se ri, impassivelmente e sem desdém, mas com preocupação. Confiar a gestão de dossiês fundamentais para o país a um ministro metido, já por várias vezes, em contendas de contornos estranhos e obscuros aos olhos de quem observa de fora, não parece ser o melhor a fazer.

O senhor presidente promete atenção aos atos do Governo e marcação cerrada, enquanto o primeiro-ministro António Costa pensa fazer exatamente o mesmo que o youtuber Tiago Paiva fez com ele: mandar o senhor presidente para o cesto da gávea, mais conhecido por caralho, a título de castigo.

 

Nina M.

 

 

 

 

 

sábado, 29 de abril de 2023

Crónica de Maus Costumes 323

 

Vinte e cinco de abril, sempre!

               Numa crónica lúcida, Clara Ferreira Alves traçou o retrato do país, antes do vinte e cinco de abril, como a lembrar a alguns saudosistas que por cá sobejam a vida miserável que os portugueses tinham.

               Assim, desde o país analfabeto, às poucas mulheres que tinham uma licenciatura e direito ao voto, à necessidade de pedir autorização ao marido para viajar, à proibição do divórcio, ao alcoolismo, aos filhos criados com açúcar na chupeta para os acalmar, dada a ignorância sobre os malefícios do ingrediente, às cheias que deixaram inúmeros sem teto, tudo foi lembrado. Não falou a cronista nas crianças que ao pequeno-almoço ou ao lanche ingeriam sopas de vinho ou sopas de cavalo cansado, mas falou na mortalidade infantil. Não falou da Guerra Colonial… Há quarenta e nove anos o país pareceria um enorme acampamento de refugiados. Vivia sob uma mão férrea que impunha a miséria como virtude. Não havia acesso livre à cultura. Esta era interdita, por ser perigosa e o modo de vida europeu, nos países já democráticos, não chegava cá. Orgulhosamente sós, como acreditava o ditador. A imprensa era controlada e a coca-cola era proibida. Um país pequeno, miserável e inculto, cheio de gente a trabalhar de sol a sol, sem esperar nada mais da vida do que a sua sobrevivência. Quanto aos filhos, era como Deus queria… Da ninhada de dez, às vezes, havia oito vivos. Rara seria a mulher que não tivesse perdido um…. Viaja mais, hoje, um remediado (se o pretender fazer) do que o maior rico daquela época. Os que suspiram pelo retorno do ditador não sabem nada da História do país, caso contrário, evitariam pronunciar tais dislates. Era o país da moralidade, mas em simultâneo, dos filhos de pais incógnitos e do caso “ballet rose”. Era o país do medo e da hipocrisia.

               O vinte e cinco de abril foi, portanto, o que de melhor nos poderia ter acontecido. Planeada, nasci no junho do ano seguinte. Se viesse rapaz, já não iria para a Guerra, foi o pensamento dos meus pais. Cresci e vivi em liberdade, o maior bem que um povo pode ter e do qual deve cuidar. Nunca vivi em ditadura, mas sei ler e leio o suficiente para saber que qualquer regime autocrático é pavoroso. A democracia, mesmo que nos pareça doente, ainda é um bem de que dispomos, pelo que é necessário zelar pela sua permanência. Nada é adquirido e a liberdade custou a vida de muitos para ser desbaratada. É devido a esta consciência que me irrita a hipocrisia de uma classe política que muito celebra abril, mas que pouco faz para cuidar da democracia que temos, abrindo espaço para os extremismos. Não podemos admitir que as instituições que em primeira instância deveriam zelar pela democracia a façam perigar, pois são as suas ações ou inação que incitam descontentamentos que conduzem à expressão num voto extremista e populista.

               Na segunda década do século XXI, o país não pode esperar dez anos ou mais por um julgamento ou, pior ainda, deixar que o caso prescreva! A quem interessa o mau funcionamento da justiça e por que razão não é esta uma das preocupações fundamentais da Assembleia? Os parlamentares têm de olhar definitivamente para o problema e encontrar uma solução. Ela existirá. Se noutros países é possível, cá também o será! Haja vontade política e exigência dos cidadãos. O mau funcionamento das instituições democráticas e a desconfiança em relação a membros do Governo ou de partidos alavancam extremismos, tanto mais quanto mais casos surgirem. A César o que é de César. À justiça o que é da justiça, ao poder executivo e ao poder legislativo o que deles forem da sua competência e à Presidência da República a regulação do funcionamento das instituições. Porém, é preciso lembrar que não é suficiente alegar que compete à justiça o que ela deve tratar, se esta não for célere nem competente. Quanto à rapidez, estamos todos entendidos e quanto à competência, esta fica comprometida, se o primeiro pressuposto falhar.

Assim, olhando para o país, inteirando-me do que sucedeu na Assembleia, no vinte e cinco de abril e nos episódios subsequentes, seja com a conversa supostamente particular entre os três representantes máximos da nação, seja com as novas galambices, só me apetece correr todos à espadeirada perante a falta de compostura institucional e desejar, como o João da Ega, uma invasão! Não a espanhola, que esse povo é tão bruto e bárbaro quanto o português, mas um banho de civilidade e bons princípios democráticos, precisa-se! A festa coletiva tornada bravata de rapazotes, com as comadres a comentar, mais tarde, os incidentes.

 Seria cómico se não fosse triste, mas como a comicidade e a tragédia andam, por vezes, a par, deixemos fluir tranquilamente os acontecimentos, neste reino do faz de conta, onde desde sempre uma montanha pariu um rato!

 

Nina M. 

 

 

sábado, 22 de abril de 2023

Crónica de Maus Costumes 322


Filhos, pedidos & companhia…

-        Mamã! Vais escrever a tua crónica?

-        Sim, Matilde, vou.

-        Podes escrever sobre mim?

-        Por que razão queres que escreva sobre ti?

-        Estás a dizer que não queres escrever sobre mim?

-        O que queres que escreva?

-        Sei lá… O que quiseres…

Mentira. Se escrevesse o que quisesse e se a Matilde se sentisse lesada ou injustiçada iria ficar triste e ofendida. Ela é assim: um poço de sensibilidade, mas muito responsável e briosa no que faz, desde pequenita. Ainda andava no infantário, quando percebi que os dias em que ela tinha de ir com tio para a escola, porque os pais não tinham horário que a pudessem levar, eram fonte de angústia. Reclamava, pois custava-lhe compreender os motivos de não a podermos levar… Lembro-me de lhe perguntar, já agastada com a choraminguice, qual o problema de ir com tio, se afinal, gostava tanto de estar com os primos!…  A explicação vinha a seguir: quando ia com o tio, às vezes, chegava um pouco atrasada e a professora, aos meninos que chegavam atrasados, dizia-lhes: “Bom-dia, turista!” A minha Matilde detesta dar azo a que se lhe chame à atenção, pela exigência que se impõe a si mesma. Detesta falhar e tem dificuldade em lidar com o insucesso. Tive de lhe explicar que a professora só chamava turista aos meninos que chegavam sistematicamente atrasados, o que não era de todo o caso dela. Fui obrigada a ligar para a educadora e a explicar o sucedido para acalmar a sua angústia. Só serenou depois de me ouvir explicar que ela tinha mesmo de ir com o tio e que se este se atrasasse um pouco, a responsabilidade não seria dela. Aproveito para mandar um beijinho à educadora Denise, que teve um papel importantíssimo no desenvolvimento da Matilde. Uma profissional de excelência, muito carinhosa e preocupada com os meninos, mas também exigente no cumprimento de regras. O gosto pelas atividades manuais, a Matilde ganhou-o com a educadora, porque eu tenho duas mãos canhotas para essas coisas e nem o facto de ser esquerdina me salva! Ainda hoje a Matilde assume as suas responsabilidades. Joga vólei e o que o treinador lhe diz é lei. Se porventura falhar e o treinador ralhar fica possessa com ela mesma. Não se permite errar num ponto crucial para a equipa. Aplicada e responsável, quer chegar sempre a tempo ao treino e só se estiver doente o falha. Na escola, não gosta de dar motivos aos professores para se desgostarem com ela.

Na verdade, a Matilde gosta de se sentir apreciada e reconhecida. Precisa enormemente do reforço positivo e de sentir que os pais gostam do seu desempenho. Talvez estivesse a precisar que a mãe escrevesse sobre ela como forma de sentir concretamente o amor que lhe tenho.

Como negar o pedido a quem no outro dia, muito segura de si e na certeza de me deixar feliz, me diz que quando eu morrer, me enterrará com um livro e uma bandeira do Porto?! Lembrou-se de seguida que a mãe lhes dissera (aos filhos) que queria ser cremada, caso não surja uma opção que lhe agrade mais e logo deixa cair:

- É verdade! Tu queres ser cremada! Não posso queimar um livro nem a bandeira do Porto, pois não?!

Lá lhe disse que seria melhor não o fazer, efetivamente. Ela não se lembrou, mas noutra ocasião, já me tinha prometido arranjar maneira de espalhar as minhas cinzas no Dragão! Comecei-me a rir e disse que seria um bom local para passar a eternidade!

Toda esta conversa porque os proibi terminantemente de venderem a minha biblioteca, após o meu desaparecimento. Se porventura não herdarem o gosto da mãe pelos livros, que os doem a uma biblioteca, mas mostrei-me aborrecida, caso não conservem o espólio que sabem ser tão valioso para a mãe. O aborrescente de serviço (nem sei como) lá afiançou que os conservaria, após me ver desgostosa com a pequena, que entristecida se via a perder uma oportunidade de negócio, acrescentando que eu já nem estaria por cá e, como tal, já não veria nada…

A menina que quer vender os livros após a minha morte é a mesma que me vem trazer um bouquet em miniatura, fruto dos seus trabalhos manuais com que se vai entretendo, para me aquecer o coração.

Vós, leitores, que nada tendes a ver com isto, tende lá paciência, mas há pedidos de filhos que não devem ser recusados. A Matilde ficará feliz e vós podeis sempre ler outra crónica qualquer.

 

Nina M.

sábado, 15 de abril de 2023

Crónica de Maus Costumes 321

 

E a luta continua…

                Luís Sottomaior Braga, professor de História e subdiretor de um Agrupamento de Escolas da Abelheira, em Viana do Castelo, encontra-se em greve de fome desde as 24h00 de segunda-feira.

            Já lhe agradeci o gesto, através das redes sociais, assim como a sua determinação, força e coragem na defesa da escola pública e de todos os professores. O Luís faz o que eu não conseguiria fazer. Como diz alguém: “Viva a fartura que a fome, ninguém atura!” Eu aturo mal a fome. Se a sinto, tenho de a saciar naquele momento e pode ser até com pão seco! Não importa se a refeição que vai ser servida prestes é um manjar… Quero é consolar o estômago que se lamenta da falta de alimento e, depois, se não apetecer comer tanto, come-se menos ou nada. Com a fome, chega a impaciência e a irritabilidade; também é verdade que depois de uma certa altura, se não alimentarmos o corpo, a sensação de fome parece desaparecer. De qualquer forma, sei que não seria fácil colocar-me nessa situação. Para além deste incómodo, há todos os riscos que uma greve de fome implica. Certo é que esta decisão foi tomada por um conjunto de pessoas. O Luís dá o corpo às balas, mas há um grupo de retaguarda que lhe presta todo o apoio e que merece também o nosso agradecimento.

            O colega em questão não é consensual. Pelo que percebo e vou lendo, há os que dele gostam e os que o detestam. Há quem o acuse de uma certa hipocrisia, pois defende com afinco a sua classe, o que é inegável, mas no exercício das suas funções, acusam-no de autoritarismo e alguém que cria mau ambiente na escola. Não teço juízos de valor sobre quem não conheço e eu não conheço o colega. Certo é que o Luís foi um dos professores representantes da Iniciativa Legislativa de Cidadãos (ILC), tendo sido o porta-voz na audição da Comissão da Educação e da Ciência (CEC), em 2019, tendo defendido sem medo e sem papas na língua a recuperação do tempo de serviço, perante a arrogância insuportável e bacoca dos deputados que estavam presentes. Estes senhores esquecem-se          que ocupam os lugares com os votos dos cidadãos (muitas vezes uma minoria de cidadãos votantes) e que foram eleitos para os servirem e não para se servirem deles. Depreendo, pelo que vou lendo, na maioria, textos escritos pelo punho do próprio Luís, que se trata de um colega com uma cultura muito acima da média e com um conhecimento bastante sólido de legislação, quer pela natureza do cargo que ocupa, quer pela formação em administração escolar quer pelo curso de Direito que também chegou a frequentar, mas que não concluiu. Não que o seu currículo possa interessar para o efeito, mas também não se pode esquecer que é um elemento de uma direção a desencadear ativamente várias formas de luta. O Sottomaior Braga tem contribuído com ideias e tem espoletado várias formas de luta e não é de agora. Quem acompanha o movimento dos professores e as razões do seu descontentamento há muito lê ou ouve o colega. Foi um dos intervenientes, juntamente com o Paulo Guinote, num debate televisivo sobre a escola pública e que teve como convidada a Maria de Lurdes Rodrigues, que teve a desfaçatez de dizer que não sabia como se tinha chegado até aqui, no que concerne a falta de professores. Há muito que se pode acompanhar o Sottomaior Braga através do facebook. Certo é que nunca o vi desistir da luta começada ou deixar de lutar. Essa determinação e essa coerência têm de lhes ser concedidas. A partir deste momento, creio que o colega pode ficar de consciência tranquila quanto à sua participação no movimento pela dignificação da carreira docente.

            Ao longo da semana, o Luís foi sendo noticiado. Obteve alguma visibilidade, mas a luta da classe começa a desinteressar à Comunicação Social. O objetivo, dito pelo próprio, não é tanto a visibilidade nos media, mas espoletar uma ação política do senhor Presidente da República, apelando ao veto do diploma dos concursos, que não obteve qualquer acordo com nenhuma das organizações sindicais. Este gesto seria significativo, mas até ao momento, o senhor Presidente da República não teve tempo de dirigir umas palavras ao professor em greve de fome. Ele, que comenta tudo sobre todos, que está sempre disposto a tirar umas fotos com o populacho, porém, neste caso concreto, faz-se de cego, de surdo e de mudo, porque na falta de argumentos para justificar o que o Governo faz aos seus professores, vale mais o silêncio. Alguém tem de ser sacrificado em nome da estabilidade. Portanto, ficamos com a sensação de que esta maioria incompetente pode fazer o que bem entender, que não há escândalo capaz de fazer com que o senhor Presidente dissolva a Assembleia. Podemos desperdiçar milhões em indemnizações, podemos fechar os olhos a nomeações de familiares, às mentiras, perdão, à falta de memória de um governante que não se lembrava de ter sido informado sobre o que quer que fosse relativamente à senhora Reis, enfim, podemos relevar quase tudo, exceto a possibilidade de eleições antecipadas. Este Governo está a merecer há muito um enorme puxão de orelhas e de ser travado em relação a algumas opções políticas. Compete ao Presidente da República esse papel. Se entende não o dever fazer, entendo eu tal comportamento como cumplicidade e acordo com a ação governativa.

Os professores pedem o veto do diploma, senhor Presidente. Estão de olhos postos em si. O professor em greve de fome fê-la com esse propósito: sensibilizar para o problema e desencadear uma ação política, mas palavras não chegam, professor Marcelo. Precisamos de ações concretas. Mostre com ações que a razão está do lado dos professores, como já declarou. Sem tergiversar, sem meias-verdades e com toda a consciência. Uma palavra dirigida ao colega corajoso também não lhe ficaria mal.

 

Nina M.