Teísmo, ateísmo e a infinita estupidez humana
Hoje passou-me diante dos olhos um
texto de um ateu encarniçado que me deixou a pensar… Dividia o Homem em duas
espécies: “homens inteligentes sem religião e Homens religiosos sem
inteligência”, fazendo de todo o crente um estúpido. Eu considero apenas haver
homens inteligentes e outros menos inteligentes, independentemente da sua
crença ou do seu ateísmo. Não resisto ao sarcasmo: Pobre Kierkegaard! Foste um
tonto! Talvez só um iludido!
Tal como ele (o autor do texto que
li), facilmente reconheço que numa era em que o conhecimento e a ciência chegam
às massas, há dogmas que passaram a ser questionáveis à luz da razão. O senhor
afirma-se um ser livre, ateu e sem alma (porque esta não existe) nem
espiritualidade, afirmando-se feliz no seu ceticismo. Ainda bem que se afirma
feliz, porque o texto estava impregnado de um tom amargo. Nem os agnósticos lhe
escapam, pois a seus olhos, mantêm-se numa posição confortável de nem serem
peixe nem carne, mediante a ausência de provas que confirmem a existência ou a
inexistência de Deus. Tal como Nietzsche e, mais tarde Sartre, as entrelinhas
sugerem um apelo à responsabilidade existencial sem a crença na bengala de uma
entidade superior que nos ampara na queda. O total assumir da responsabilidade
dos nossos atos, sem esperar um céu redentor ou um inferno castigador após a
morte. A assunção do corpo pelo corpo e da matéria pela matéria e a aceitação
da morte como o fim de tudo, o niilismo absoluto.
Talvez traga maior
responsabilidade viver desta forma, porquanto a questão do sentido da vida
ganhe uma dimensão exponencial. Na verdade, essa questão passará a ser o cerne
da existência e do sentido dela. Ariano Suassuna, escritor brasileiro,
afirmava-se crente por não lhe restar outra opção. Ou isso ou seria um
desesperado, afirmava. Não sei se li desespero, mas uma certa ira é percetível,
não sei se verdadeiramente causada pela estupidez dos crentes se pela
inevitabilidade da sua pequenez e da sua fragilidade. A verdade é que sermos
reduzidos ao nada e ao vazio dói. Não nos deixa margem para o erro e para o
absurdo em que tantas vezes as nossas vidas se transformam. Lembro-me de um
excerto belíssimo de “A Saga”, de Sophia de Mello Breyner Andresen, conto para
todas as idades (dizem que é infantil, mas eu não acredito ou serei eu ainda
criança), que nos ensina isto: “E Hans compreendeu que, como todas as vidas, a
sua vida não seria a sua própria vida, a que nele estava impaciente e latente,
mas um misto de encontro e desencontro, de desejo cumprido e desejo fracassado,
embora, em rigor tudo fosse possível. E compreendeu que as suas grandes
vitórias seriam as que não tinha desejado e que, por isso, nem sequer seriam
vitórias.”
Face ao incumprimento da vida, não
será natural o Homem procurar o alto? A espiritualidade sempre fez parte do ser
humano. Não serão a literatura, a música e as artes a expressão do divino no
homem? A máxima expressão da beleza… Não Devemos confundir sistemas religiosos
com espiritualidade. Não concebo a existência humana sem estas manifestações
que nos sublimam nem a vida sem a criação do espírito.
Talvez Deus, a existir, possa não
ser uma entidade exterior a nós, mas a ideia residente que nos empurra para a
transcendência. Talvez seja o amor que carregamos e, por isso mesmo, nos seja
possível amar o próximo… Ou talvez não seja nada disto, porque nos colocaríamos
a questão de haver gente com um Deus gigante dentro de si e outras à míngua…
Segui o conselho do senhor: “Sábio
é aquele que formula para si próprio perguntas inteligentes em que questiona certos
valores e crenças, procurando as respostas verdadeiras.” Não sei. Há tanta
coisa para a qual não encontro resposta… Porém, não sou sábia, logo o erro estará
na perguntas, que também não serão inteligentes…
Se a mensagem for válida e humana eu já gosto,
assim como gosto do Deus-menino vindo à terra para a povoar com a sua
inocência, a lembrar-me do poema de Alberto Caeiro em que Jesus é a criança que
corre, brinca e rebola na relva, que vive no nosso seio…
Não. Nem todos os crentes são
estúpidos. Serão mais esperançados, mais oníricos, menos pessimistas e não
creio que se sintam desobrigados de se cumprirem nesta vida finita.
Cito Soren Kierkegaard: A fé
começa precisamente aonde acaba a razão.
Nina M.