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quarta-feira, 29 de julho de 2020

Etéreo

Não é à substância que aspiro
Antes ao imaterial e eterno
Ao luar invisível dos espíritos
Aos rios que os percorrem
Inexoravelmente antes
Do desaguar
Compreender as marés
E os seus ventos
Todos os seus lamentos
Medos e Anseios
Semear a serenidade
Feliz e dela recolher os frutos
Despertar alegre para a vida
Sorrir a cada nova oportunidade
E guardá-la assim incompleta
Na sua concha pura 
Onde só eu a sei

sábado, 25 de julho de 2020

Crónica de Maus Costumes 192


Valter, as mulheres e o tempo

            Acabei de ler O Remorso de Baltazar Serapião, de Valter Hugo Mãe, vencedor do prémio literário José Saramago, em 2007, e por este prefaciado. Só esta última nota dispensaria qualquer recensão de minha parte.
            Saramago classificou-o de Tsunami pela intensidade e revolução que traz à escrita. Valter parece criar uma língua nova. Estilo de autor, reduzida ao essencial, numa linguagem crua com anástrofes e elipses desconcertantes e que desconcertam a sintaxe e é do que eu menos gosto. Compreendo os motivos, a necessidade de marca própria, o desejo de abrir um livro sem nome e de lhe reconhecermos o autor. Seremos capazes de o fazer com Valter como com Saramago como Camões e Pessoa e os seus heterónimos (os três mais conhecidos, porque eles são imensos). No entanto, por defeito meu, certamente, talvez devido ao meu ofício, não gosto assim tanto. Serei clássica, por isso, tenho o atrevimento de discordar do nosso Nobel e considerar que o que ele elencou como catadupa de sinalética distrativa, eu gosto das pintas nos is e dos travessões, das exclamações, das reticências e dos pontos de interrogação. Enfim, gosto dessa parafernália que constitui as boas regras da nossa ortografia. Se somos capazes de ler sem elas e apreender o sentido, saber quando se trata de uma interrogação ou de uma afirmação? Certamente que sim e sem dificuldade, mas eu gosto de namorar o Português escorreito que herdamos numa versão mais atualizada a abrir portas ao que haveria de vir do nosso Camões e que se instituiu de modernidade a partir dos séculos XVII e XVIII.
No entanto, Valter tem o dom de saber tocar temas fraturantes, criar-lhes um enredo e retratá-los com dureza. Há passagens dos seus livros que são socos no estômago e eu gosto dessa intensidade, dessa atrocidade temática que é afinal a nossa desumanização. Não esperem nem temas nem linguagem delicodoces. Os romances de Valter não são para os que gostam de leveza. O seu remorso deveria ser o de muitos homens. Retrata a violência doméstica e o papel subalterno da mulher ao longo da história da humanidade. A má-fé sartriana é revelada pela personagem ao convencer-se de que os golpes rudes eram justificados pelo dever do marido que precisa de garantir a educação da esposa. O autor expõe a tradição milenar, a visão da mulher como um ser inferior cuja voz só traz perigo e não deve ser ouvida. Uma espécie de Circe que envenena os homens e os desgraça e, como tal, devem ser por eles educadas, para que possam ser boas esposas, preferencialmente mudas, absurdamente obedientes, dependentes e ainda assim amar fervorosamente os maridos, enquanto se recatam de todos os olhares alheios para não atrair sobre si a cobiça de outros. O romance poderia retratar a idade média ou a atualidade, tanto faz. É intemporal. É um grito de revolta contra a instrumentalização da mulher, vista como mero recetáculo dos alívios masculinos, caracterizadas num paradoxo de criaturas divinas que vieram alegrar os homens e sem as quais estes não podem viver, havendo as que cumprem esse papel ao qual estariam destinadas e, portanto, são as “putas” (na linguagem crua de Valter) que se abrem a todos homens, por eles banidas, mas também por eles procuradas e as outras de serventia para casar, mas que ao fazê-lo assinam uma sentença de prisão perpétua, perante maridos desconfiados, ciumentos, violentos, mas que apregoam, cegos, um amor distópico aos quatros ventos.
E porque parece que muitos homens e também mulheres ainda precisam de alargar horizontes, seria bom que aprendessem o respeito pela mulher e que definitivamente se rendessem à inteligência (tantas vezes superior à de alguns), à beleza delas, mas também à ternura, porque independentemente dos laços instituídos, a mulher será vaso acolhedor de quem quiser, talvez de quem ela amar, talvez de quem o merecer e, por certo, de quem a souber amar. Fazer dela um objeto utilitário, no século XXI, é um ultraje e um atestado de idiotice. Como diria o meu amigo Altério: ide ler, ide…

Nina M.
             


sexta-feira, 24 de julho de 2020

Paris

Sonho Paris
Rendida aos seus encantos
Pequena Ínfima Curvada
Perante tanta História e tanto logro
Sumptuosidade excelsa de um olhar novo
Ao longo do Sena de mãos dadas
Não há o nosso reflexo nas águas pardas
Só a promessa de um Louvre e de um Orsay
Aguardam pacientes a nossa chegada
E a Gioconda do grande mestre italiano
Entende finalmente o seu sorriso
Posta há séculos à espera 
Vê os seus anseios acedidos
Corro desabrida a fazer esvoaçar as pombas
E Notre-Dame assim ferida ainda queimada
Mas Augusta e imponente 
Abençoa o olhar ardente
Que seria da bela cidade sem Montmartre?
Mesmo se refeita à medida do turista
Vielas estreitas, ruas sinuosas encaminham os transeuntes
E do alto da colina, em frente ao Sacré-Coeur
Toda a Paris se inclina ao gesto do nosso amor
Quimera tão bela brilhante das luzes noturnas
Dorme em nossos corpos embalada
Ao sabor da brisa que passa
Bateau mouche onde nos levas?
Enche-nos a vida de graça!


sábado, 18 de julho de 2020

Crónica de Maus Costumes 191


Antero de Quental: ideal, angústia e morte

Antero de Quental, o grande mentor da Questão Coimbrã, das Conferências do Casino, um dos representantes da geração de 70, foi um poeta dual: apolíneo e noturno, dominado ora por Eros ora por Thanatos, que tenta superar o drama íntimo da luta de sentimentos opostos, sempre em busca do Ideal, da Perfeição, da Beleza, da Consciência e da Liberdade.
Qual Sísifo, perante tarefa inalcançável, que ao longo da vida se mantém íntegro, mas que não escapa ao malogro, à agonia e à desilusão de um real que não se molda às suas vontades e que o atiram para um pessimismo abúlico que o fazem desejar a morte. Um Quixote que busca a felicidade através da transformação política, por crer no futuro, que introduz o socialismo de Proudhon no seu país, que tem a coragem de largar o berço burguês e partir para Paris, experimentando as agruras de um simples operário tipógrafo. Sincero, desejando consonância entre pensamento e ação, embrenha-se na luta política em prol da liberdade, da justiça e do bem, consagrando-se a causas coletivas. Voltado para uma filosofia moral e simples, posta ao serviço dos outros, sem impugnar a sua independência, faz da sua poesia uma arma, conferindo-lhe um papel social e filosófico, fazendo dela a voz da revolução (“Ergue-te, pois, soldado do Futuro,/E dos raios de luz do sonho puro,/Sonhador, faze espada de combate!”). A impossibilidade de transformar o ideal em realidade condu-lo a uma busca permanente e obsessiva que lhe traz uma profunda angústia e frustração. Antero é o idealista que procura o sistema político capaz de restituir a justiça e o bem aos cidadãos; o pensador  em busca da sua filosofia, o poeta em busca da poesia perfeita e o homem em busca da paz interior. De tudo se desiludiu (“Abrem-se as portas d'ouro com fragor.../ Mas dentro encontro só, cheio de dor, /Silêncio e escuridão - e nada mais!”) e o seu suicídio prematuro não lhe permitiu assistir ao reconhecimento da sua obra poética.
O poeta cindido, descontente do mundo, mostra ânsia de além e vê na morte a libertação, associando-a à luz e à ideia pura hegeliana (“ Pedindo à forma, em vão, a ideia pura,/ Tropeço, em sombras, na matéria dura,/ E encontro a imperfeição de quanto existe. /Recebi o batismo dos poetas,/ E assentado entre as formas incompletas/ Para sempre fiquei pálido e triste.”), sendo evidente a oposição entre a tese (vida - incompletude – imperfeição –angústia) e a antítese ( morte – completude – perfeição – paz) . Na senda da tradição romântica, Antero associa a morte à liberdade, como facilmente se constata em Mors Liberatrix (“E, sendo a morte, sou a liberdade”). Através dela exprime a sua ânsia de imortalidade, a sua desesperação e o sentimento trágico da vida, tal como lia Unamuno na poesia anteriana. O que lhe interessava no poeta português era a demanda pela existência espiritual, pela pós-existência, angústia comum reveladora do conflito entre o pensamento e o sentimento, a razão e a fé, o não crer e o querer crer. A religiosidade de ambos deriva da fé perdida, sempre procurada, mas nunca encontrada (“Y lo que más le une a cada uno consigo mismo, lo que hace la unidad íntima de nuestra vida, son nuestras discórdias íntimas, las contradicciones interiores de nuestras discordias. Solo se pone uno en paz consigo mismo como Don Quijote, para morir”).
Assim, em Antero, a solução encontrada para a angústia provocada pela morte de Deus é a superação através do nirvana, reagindo ao vazio existencial, ao Não-Ser e à noite como opções positivas e libertadoras (“Só quem teme o Não-Ser é que se assusta / Com o teu vasto silêncio mortuário…”) e (“Dormirei no teu seio inalterável, / Na comunhão da paz universal, /Morte libertadora e inviolável”).
Antero parece encontrar na morte a síntese para as suas contradições e a evasão duradoura para combater o seu agonismo. O seu suicídio confirma a sinceridade da sua aspiração à liberdade. Apesar da descrença em Deus, o misticismo é evidente. O eterno deixou de ser o Deus bíblico para ser Ideia, Amor, Vontade… e a sua obra plena de símbolos religiosos.
Se com ela não alcançou o absoluto, a morte ter-lhe-á permitido, pelo menos, o descanso na mão direita de Deus.

Na Mão de Deus
Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depois do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!

Antero de Quental, in "Sonetos"

Nina M.

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Céu

Minha imensidão de azul
Abóbada celeste que desejo
Por ser azul tão sem nuvens
Olho-o e é a mim quem vejo
E toda nele me quero fundir
Nos braços desse céu ameno
Quero com paixão trazê-lo sereno
Deitar-me nesse espelho de luz refletida
Senti-la atravessar-me a pele
Dar de mim toda e sentir-me perdida
Percorrer os seus caminhos
E enfim... Encontrar-me nele

terça-feira, 14 de julho de 2020

Madalena Penitente de Ticiano

De olhos alagados e postos no alto
Procura o seu Senhor que afinal partiu
Imaterial e eterno a vencer a morte

Comovida trágica desvela
Dor e saudade de alvura cobertas
Com a sua nívea mão

A blusa alva fina e translúcida
Descobre-lhe o corpo
Insinua os túrgidos seios fartos

Numa tristeza promissora
De quem não abandona a natureza
De uma alma inocente e sedutora

Memento mori, Madalena Penitente,
O Livro Sagrado sobre a escura caveira
Sinal da humana e torpe finitude

Largado o vaso dos unguentos
Servirá de seu perfume de seu veneno
Absorvido por todos os seus poros

Não passa sem beber o cálice
A transbordar sensualidade
Expia os pecados e os seus medos

Bela amante do Cântico dos Cânticos






domingo, 12 de julho de 2020

Corgo

Longe do ruído e do mundo
Aves e correnteza
Pedaço de céu ornado de verde
Sinfonia de sons imaculados
Embalam os sentidos
Tudo me transporta a um mundo recôndito
Raro e quase só meu
Melros, pardais e lontras
Pedras polidas e gastas
Moldam-se e acolhem os corpos nus
Qual ventre materno da criação
Paraíso perdido para anjos caídos
Que na descida íngreme da vida
Se consolam nos silêncios guardados
Onde ouvem o palpitar do coração
Nesse instante de quase perfeição
Poder-se-ia deixar o rio levar a vida
E ser feliz