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quinta-feira, 19 de junho de 2025

Pira funérea

Há qualquer coisa de poético
Na pira flutuante na jangada
Sobre o rio
Ao sabor da corrente
Para entrar no Estígio
A volta de honra à vida
Mesmo de olhos fechados
De carne fria e rígida
Descer o rio a arder
Para quem foi chama
É final majestático
Diferente da asfixia que sempre
São os enterramentos
Pás de terra a soterrar um corpo
Que já não sente nem pesa
Colocar-lhe um teto baixo
De escuridão e de humidade
[A humidade faz mal aos ossos]
Ou em alternativa penosa
Empurrar um corpo inerte
Para uma sarça ardente fechada
E dela retirar o pó que sobrou
Sem o óbolo para o barqueiro

sábado, 14 de junho de 2025

Crónica de Maus Costumes 425

 

18 anos de ti !

               Eu tenho a felicidade de partilhar o dia de nascimento com o meu filho mais velho. Gosto que Fernando Pessoa tenha nascido a 13 de junho e que seja dia de Santo António (neste caso, dia da morte. Nos santos assinala-se o dia da morte, certamente, porque representa a ressurreição, a passagem para uma nova forma de vida). Santo António era um orador exímio, como tão bem imortalizou o Padre António Vieira e é um santo que tem uma biografia apelativa e uma história de vida fascinante. De modo que não poderia ter melhor data para nascer do que o 13 de junho, porque sou ladeada por dois vultos maiores das palavras e eu gosto delas…

            Porém, meu filho, mais do que apreciar a coincidência do dia do meu nascimento com estas duas figuras maiores, gosto ainda mais de ter a sorte de partilhar este dia contigo. Um dos dias mais felizes da minha vida e o outro será também a data de nascimento da tua irmã. Tu foste o primogénito, abriste o caminho para o mundo desconhecido e desafiante da maternidade e eras um bebé muito bonito ! A adolescência estraga-vos um pouco, mas paciência, são as dores do crescimento. De modo que, ontem, eu celebrei o meu aniversário, o teu e ainda o aniversário de mãe de primeira viagem. Três razões para celebrar. Discretamente e em intimidade como gostamos (eu e tu). Também preferes que não haja grande algazarra e enquanto prezares a companhia da casa, dos avós, dos tios e dos primos, esforçar-me-ei para que, por mais difícil que seja o dia, como ontem, a data não passe em claro. Foi um aniversário especial : eu atingi o meio século e tu a maioridade. A mãe não tem peneiras nem pruridos em dizer a idade. Primeiro, está bem conservada, depois, independentemente de tudo, não adianta fazer-se de conta que não se tem a idade que contamos. Não podemos mudar isso. Há que aceitar o facto de não podermos travar o tempo e, sobretudo, esforçarmo-nos por envelhecer bem, mantermo-nos ativos e termos sempre sonhos e objetivos para realizar. Não têm de ser grandiosos. Pode ser apenas conquistar mais tempo de qualidade para nós, por exemplo. Parece simples e é tão difícil, com os afazeres e a responsabilidade que a vida nos traz ! Vais aprender isso, um dia…

            Não pretendo, porém, falar de mim. Nem gosto muito de o fazer. Prefiro registar o privilégio de caminhar ao teu lado há dezoito anos. Sabes filho, mesmo que já não tivéssemos mais tempo juntos, o percurso até aqui já teria valido a pena. Já teria justificado a minha existência e os meus dias. És um jovem (não posso dizer menino, agora. Talvez não gostes, ainda que no mais fundo do meu coração, continues o meu menino de sempre) e, como todos os outros jovens, tens muito mais certezas do que dúvidas. És de convicções firmes e é difícil, por vezes, desconstruir crenças ou ideias que já formaste. Há, porém, uma qualidade que te reconheço e que anseio que não percas : quando não estás muito seguro e estás a tentar encontrar o teu caminho, conversas. Nem que seja para tentar contrariar tudo quanto a mãe te diz e testar a solidez de todos os argumentos. Conversas e vais ouvindo e eu espero, um dia, colher os frutos. Para já, não és um jovem estouvado e gostas do teu sossego. O coração de mãe pede para que assim continues e assim te possa guardar… Garanto que a casa é tão melhor do que qualquer outro lugar ! No entanto, também sei que há lugares muito apelativos que vais querer descobrir e, quando tiver de ser, voarás, sem restrição da tua liberdade, mas fá-lo com passos seguros e firmes.

Para isso, eu gostaria muito que lesses Fernando Savater, Ética para um Jovem. Podes descarregar o PDF, mas talvez a mãe to deixe, como quem não quer a coisa, em cima da tua secretária… Pode ser que aos vinte e cinco sintas vontade de o ler, por o teres ali, sempre à mão e a curiosidade ou o aborrecimento bater à porta. Vou só dar-te um lamiré… O autor escreveu para o seu filho, Amador, mas sem pretender passar qualquer lição de moral, apenas fazê-lo refletir e pensar sobre certas questões, numa linguagem simples, acessível e bem-humorada. Filosofia ao alcance de todos… Dizer-te que ele, o autor, não pretende ser amigo do filho. É pai e não quer aborrecer mais o filho do que o habitual, como qualquer família decente faz, e narra a história de um petiz, filho de um amigo, de 5 anos que, ao ver o mar com o pai, pergunta-lhe se podem passear num barco, juntamente com a mãe. O pai afiança que sim, feliz com a ideia do miúdo, para depois este confidenciar que quando chegassem a alto mar, atiraria os dois borda fora, porque toda a gente sabe que os pais dão cabo da vida dos filhos… Vês como não será aborrecido ? Talvez já tenhas sentido vontade de me deitar borda fora, algumas vezes. Se não o sentiste, provavelmente, não fiz o meu trabalho bem feito. Possivelmente, continuas a sentir, de cada vez que a mãe te lembra a responsabilidade que deve, obrigatoriamente, acompanhar a idade ; de cada vez que a mãe te lembra a importância da escola que detestas, mas reconheces precisar ou te relembra da matemática que te obrigam a saber e que abominas. Preferias ficar duas horas a olhar para uma parede, sem poder fazer nada, a estudá-la, dizes, mas… É o que tem de ser. A vida, muitas vezes, não é do nosso agrado. No entanto, como vês, foste capaz de terminar esta primeira etapa. Faltam os exames que não te deixo esquecer… Não quero que fiques com vontade de me largar em alto mar ou de me deitar de um avião, neste momento…

Apenas desejo que faças o teu caminho e que tenhas uma vida boa. Sabes bem, porque conheces a mãe o suficiente, que não me refiro a bens materiais excessivos, apenas desejo que disponhas do suficiente para uma vida agradável, mas a vida boa não é apenas a confortável, mas aquela que poderá justificar a tua existência e dar-te um sentido. Não há vida boa sem escolhas éticas e sem a construção de uma ética pessoal que pode ou não albergar princípios religiosos e morais, costumes ou tradições. Terás de ser tu a descobrir o caminho, a fazeres as tuas opções, enfim, a tomares a vida nas tuas mãos, porque como já conversámos, ou escolhes tu ou outros escolherão por ti. Não controlamos tudo, mas há sempre uma fatia que é de nossa responsabilidade e é com essa que nos devemos preocupar. Quanto ao que nos excede ou ultrapassa, o que não tem remédio, remediado está.

            Na verdade, quero apenas acompanhar o teu percurso sem assistir a grandes quedas, ainda que saiba que não posso nem devo proteger-te de tudo e estar ao teu lado, a gargalhar e em silêncio, se tiver de ser, viver o suficiente para acompanhar a tua vida e a tua rebeldia e teimosia silenciosas (reconheço-as bem). Pretendo continuar a dar-te vontade de me atirares ao mar até ao momento em que possas voar sem auxílio. Sou tua mãe. Pari-te no meu aniversário e foste o meu melhor presente de sempre. Pretendo continuar a viagem maravilhosa que temos feito juntos, passando por paisagens verdejantes e planas, junto ao mar calmo e montanhas íngremes de caminhos estreitos. No entanto, o céu continua a ser o limite e está lá, à espera que o visites.

 

Nina M.

 

 

 

 

 

 

sábado, 7 de junho de 2025

Crónica de Maus Costumes 424

 

Alteridade

            A alteridade é um lugar difícil. Calçar os sapatos do outro não é fácil e, muitas vezes, é uma impossibilidade.

            Por muita empatia que uma pessoa possa revelar, a verdade é que conseguir colocar-se exatamente no lugar que não é o seu para sentir o mesmo que o outro, não é possível. Ficamos apenas pela imaginação do que poderá ser e como se sentirá, mas nunca na exata medida das coisas.

Talvez seja esta a razão para os atritos e as dificuldades que encontramos nas relações interpessoais. Tendemos a olhar para as situações e para a alteridade à luz do que somos e do que sentimos, o que faz com que sejamos lestos no julgamento. O juízo de valor é impulsivo, é baseado no que somos e não deixa espaço para a aceitação da diferença. É o contrário do pensamento e da reflexão, a manifesta incapacidade de olhar o objeto a partir de diferentes ângulos. Neste sentido, o julgamento não incorre apenas na injustiça como resvala também para a sobranceria e a soberba e estas são inexpugnáveis. Para além de conterem a arrogância atrevida da presunção da verdade, ou seja, todo aquele que julga considera-se melhor do que o outro, porque quem aponta o dedo está a expor a suposta falha do outro sem olhar para si mesmo, também não permitem que o sujeito permaneça de peito aberto para, verdadeiramente, tentar entender as razões e as motivações alheias. Sem esta capacidade de escuta, não haverá diálogo feito no pressuposto da boa-fé e do entendimento genuíno.

Quando as pessoas se desentendem e os conflitos surgem, só o diálogo permitirá a normalização das relações, mas para isso é necessário que ambas as partes estejam predispostas à escuta ativa, mais preocupadas em compreender as motivações do outro e a olhar para os factos a partir do seu prisma do que em tecer acusações e tentar vencer a disputa. Para isso, é preciso saber ouvir de coração limpo. Raramente acontece de uma parte ter a razão toda. Cada lado tem as suas razões e as suas dores e ambos estão certos, até porque uma ação desencadeia uma reação e assim sucessivamente. Então, em vez de as pessoas se centrarem na ação ou reação do outro, talvez, fosse importante centrar-se no seu próprio comportamento. Questionar o outro sobre o comportamento que tanto o terá ferido, com calma e com verdadeira disponibilidade para ouvir, mesmo que possa entender que a razão está do seu lado. É importante ter consciência das palavras e do tom usado, porque a agressividade gera agressividade e uma palavra que é dita, mesmo sem querer, jamais poderá ser retirada. Poderemos pedir mil vezes desculpa, o que minimiza, mas o dano já está causado. Se ambas as partes da contenda tiverem esta postura, um compromisso com a escuta ativa, mesmo que cheguem à conclusão de que a convivência ficou comprometida ou a amizade manchada, pelo menos fica a compreensão das partes. Não significa que se possa perdoar ou esquecer, mas que houve uma tentativa de se colocar no lugar do outro. E até se pode terminar a dizer que as motivações foram percebidas, mas que não são toleráveis, porque os limites de cada um compete a cada um estabelecê-los. Só não vale o fechamento ressabiado e mesquinho de quem usa de sobranceria moral para com o próximo.

Admito que me possam apontar erros. Todos erramos. Algumas falhas são detetadas, imediatamente, pelo bom senso, outras, posso nem me aperceber delas e se ferirem alguém, esse terá toda a legitimidade para me fazer ver a sua razão. Aceito com total consciência de que posso ter falhado, mas que o façam sem pingo de sobranceria e de soberba, que rejeito liminarmente, porque a minha falha não faz o outro melhor do que eu (a menos que estejamos a falar de comportamentos passíveis de serem crimes), sem insultos e sem me levantar a voz ou ficará a falar sozinho, porque a boa educação também cabe nas reprimendas. Aja em conformidade e garanto escuta ativa, peito aberto, consciência recetiva e autorreflexão.

Tenhamos a capacidade de compreender que não devemos julgar. É preferível tentar compreender e, se não for possível consegui-lo, ter a humildade de saber que ninguém é melhor do que o outro. Somos todos iguais e todos diferentes, porque experimentamos os mesmos sentimentos de forma díspar. Somos todos humanos e todos falhos.

 

Nina M.

 

sábado, 31 de maio de 2025

Crónica de Maus Costumes 423

 

Cinquenta anos         

 

A escola que frequentei como aluna e na qual, atualmente, sou professora, celebrou cinquenta anos de existência, há uns dias. Nasceu no mesmo ano que eu e é dezoito dias mais velha…

            Quando a conheci, éramos ambas adolescentes, mas ela mais acabada do que eu, porque deixava entrar água nalguns espaços, havia uma sala onde nasciam pequenos cogumelos e era gélida e inóspita. Ainda assim, a escola era bem melhor do que a preparatória, que era mais velha, ainda, e onde havia aulas ao sábado de manhã, o que me deixava profundamente irritada.

Gostava mais do liceu (como chamávamos à secundária) do que tinha gostado da preparatória. Era maior e os miúdos não eram tão grunhos. Não havia um senhor Ferreira com um molho gigantesco de chaves na mão a distribuir mosquetes a torto e a direito sobre as cabeças dos petizes encurralados num pátio, enquanto aguardavam pelos autocarros. « Eiriz, Sanfins da pacense ! » - gritava o senhor Ferreira a plenos pulmões. A catraiada desse autocarro furava e corria desabrida no corredor estreito de acesso à rua, guardado pelo funcionário. De cada vez que vinha ao portão espreitar os autocarros que já tinham chegado, havia sempre meia-dúzia de atrevidos que avançavam as correntes a servir de gradeamento e se infiltravam no corredor, atrás do funcionário, que nos queria a todos do outro lado do perímetro. Era nessa altura que ele se virava, irritadíssimo, com a sua mão defeituosa, e distribuía cacetadas com o molho de chaves. Ocorre-me, agora, que ele deveria ser o guardião de todas as chaves da escola ! Eu… Sempre atenta e com receio de que alguma vergastada me pudesse acertar inadvertida e injustamente. Lá aguardava, pacientemente, a suportar  os encontrões até ouvir : Ferreira e Vilela, Albano Esteves !… Tudo aquilo me lembrava dos touros prestes a entrar na arena e eu nunca fui fã de touradas…

A chegada à secundária, libertou-me da bruteza e até já era crescida o suficiente para poder vir para o pátio do Star, o café, aguardar a chegada do autocarro, na paz do Senhor. Não guardo recordações extraordinárias desse tempo.  Na verdade, a adolescência é uma fase difícil e sei que era bem mais feliz a correr os montes, até Ferreiró Fundo, junto ao rio Ferreira, próximo do atual bosque das Quintãs que, na época, era ladeado por lameiros cultivados ou a explorar os castelos de madeira encastrada ou a jogar ao trinta um com a ganapada da aldeia. Uma infância feliz, num meio mais rural, ainda, do que era a pequena cidade de Paços.

Naquela época, a escolaridade obrigatória era apenas o sexto ano, o que implicava a seleção de miúdos mais cedo, um ambiente mais ordeiro, cívico e respirável. Havia a D. Carminda, o senhor Abel, a D. Conceição e o senhor Nuno, um funcionário mais novo, que gostava de meter conversa com a ganapada e que brincava connosco. Havia ralhetes, mas não havia mosquetada e era muito mais tranquilo. Também não havia aulas ao sábado, o que era um prazer !

Na segunda metade do século XX , a escolaridade obrigatória era apenas o sexto ano. Comecei a trabalhar e esta regra ainda se mantinha. Depois, passou a ser o nono até chegar ao atual décimo segundo ano. Em 1991, apenas 30% da população terminava o secundário, na região do Tâmega e Sousa. Em 2023, 98,3% terminou a escolaridade obrigatória. O abandono escolar foi drasticamente reduzido, através de políticas de inclusão social e de apoios para famílias mais carenciadas. Foi feito um esforço tremendo pelo país, pela escola e também pelas autarquias para chegarmos até aqui. O ensino profissional permitiu reduzir o abandono escolar e é imperioso que nele se continue a apostar, melhorando-o, até porque os estudos comprovam que os países europeus mais desenvolvidos economicamente, apresentam um ensino profissional forte. A Criação dos CTESP segue esta política de investimento na educação. Portanto, não são legítimos os discursos apocalíticos sobre a educação. Muito tem sido feito e muito continua por fazer. Nem tudo está péssimo e nem tudo está ótimo. É preciso continuar a caminhada. Neste percurso, gostaria que os jovens compreendessem a importância da escola, mesmo que esses tempos possam não ser os mais felizes. Na escola, crescemos ; na escola, nos educamos ; na escola, adquirimos competências para a vida ; na escola, criamos laços e afetos. A minha vida foi e continua a ser feita na escola, que me tem trazido tanto : alegrias e dores, prazeres e cansaços, afetos e indiferenças, enfim… Tudo aquilo de que uma vida se compõe !

Agradeço à ESPF a minha formação de base, à UTAD, a minha formação e os anos de alegria, vividos junto dos melhores amigos que se poderia desejar e onde fui, ingenuamente, feliz. Agradeço a todas as escolas por onde passei (são muitas, cerca de dezasseis), porque em todas elas aprendi.

Parabéns, ESPF ! Venham lá outros cinquenta, mas que, entretanto, algures pelo caminho, eu me possa reformar !

 

Nina M.

 

           

 

 

 

terça-feira, 27 de maio de 2025

São as palavras que me hão de perder

São as palavras que me hão de perder
As ideias que me trazem o
Mar dos meus mergulhos
Profundos. Em apneia.
E nelas respirar
E retirar o sal da vida


São as palavras que me hão de matar
Aquietar o coração
até ao último batimento
Onde reine o silêncio na
Solidão mais funda

São as palavras que me hão de ferir
Até sentir os olhos doer
De tanto os fechar à bruta realidade
Que me encarcera o ser

São as palavras que me hão de matar
De amor e de desamor
Em carne viva ardente

São as palavras que me hão de ferir
Na fatalidade de ser ser em busca

São as palavras um universo por decifrar

sábado, 24 de maio de 2025

Crónica de Maus Costumes 422

 Rescaldos

               Os resultados eleitorais do passado fim de semana têm feito correr rios de tinta… A AD subiu, mas não o suficiente para governar sozinha, de modo que o Governo terá de conseguir dialogar com os diversos partidos e arranjar acordos para conseguir implementar o que preconiza.

               A surpresa foi a queda substancial do principal partido da oposição e constatar que esses votos migraram para um outro que muitos não desejariam ver crescer. A maioria do eleitorado continua a preferir uma orientação política ao centro. Se somarmos o resultado da AD e o do PS, constata-se que continuam a ter mais votos do que todos os outros juntos. Para mim, bom sinal. Os portugueses continuam, na generalidade, a preferir gente moderada à frente dos desígnios do país.

               No entanto, será necessária uma séria reflexão sobre o sucedido, desde logo pelo partido socialista. Para além de sofrer o desgaste de muitos anos de Governo, a aposta em Pedro Nuno Santos revelou-se ineficaz. Nesta altura, é fácil percebê-lo, à época não foi tão evidente.

O partido terá de encontrar, agora, o seu caminho novamente, sob uma nova liderança.

               Espero que o Governo recém-eleito seja capaz de governar e de fazer um bom trabalho, em primeiro lugar, pelas pessoas, pelo país; depois, porque as eleições mostram que não há margem para erros. Se a AD falhar na tarefa, temo bem que os indesejáveis continuem a subir. Alimentam-se do ressentimento de muitos e da ignorância dos mais incautos. O argumento de que no pós-abril têm sido sempre os mesmos a governar e que pouco fizeram tem tido acolhimento e, por isso, entendem que a mudança deve pender para o lado dos que berram mais alto as falácias que apresentam, dos que se mostram mais radicais e mais duros, dos que espicaçam a implementação de uma justiça popular, dos que preferem os ataques pessoais à troca séria de ideias.

O problema é que o populismo parece ter-se entranhado e tomado conta de muitos. Tomou conta de muitos jovens que formam a sua consciência política com pouco conhecimento histórico, baseando-se nos vídeos que veem no Tikok e no Instagram. Todos os candidatos as usaram, mas o que mais cativa os jovens é o Ventura e os seus soundbytes, repetidos ad nauseam. Estamos a falar de jovens escolarizados, que ouviram falar das ditaduras fascistas, do Holocausto e da política perniciosa de Hitler, na escola, mas não conseguem interpretar os sinais… É preocupante. No entanto, talvez não devesse espantar se pensarmos que os alemães, povo dotado de uma cultura extraordinária, com filósofos, escritores, músicos de excelência, gente instruída e experiente caiu no engodo, não só não viu a verdade como apoiou o regime totalitário.

Hannah Arendt explica-o bem, citando como exemplo Hitler e Stalin, que usaram a propaganda como meio de disseminar o mal, de forma atrativa. Hitler escolheu o povo judeu como vítima do terror, responsabilizando-o por todo o mal e dificuldades que a Alemanha atravessava, colhendo o apoio do povo, para perpetuar o poder e o controlo das massas. O totalitarismo tem, como tríade orientadora, a polícia, a propaganda e o terror. À primeira, concedia-se o poder do exército, a segunda disseminava o ódio e o terror gerava perseguições e torturas, instigava o medo que, por sua vez, neutralizava as ações políticas dos homens.  Todos totalitarismos funcionam de forma semelhante. Nunca anunciam claramente ao que vêm, mas os sinais estão lá. Todos os ditadores seguem os mesmos princípios. Fê-lo também Stalin, Mussolini, Franco e Salazar, que escolheram os seus opositores como alvos a abater.

Não é preciso ser-se muito inteligente para perceber quem o líder do partido em ascensão responsabiliza por todos os males do país, numa propaganda perniciosa e mentirosa, com dados adulterados, promovendo o ódio e o medo, ganhando o apoio das massas. O medo da invasão cultural e da substituição demográfica, o medo do agravamento da crise da habitação, o medo da perda de trabalho (trabalhos que o português já nem quer fazer), o medo de que o dinheiro dos contribuintes seja gasto no apoio a gente que não contribui… O medo, o medo, o medo… O egoísmo e a burrice. Tudo junto.  O líder em questão atua desta forma descarada e sem pudor.

Uma coisa é dizer-se que as entradas no país devem ser mais controladas e a imigração mais regulada, até para salvaguarda dos próprios imigrantes. Há que evitar circuitos de miséria e de pobreza e também combater as máfias em torno da escravização de pessoas. Não é admissível que um país de emigrantes permita o alastramento desses grupos criminosos. Não é admissível que um país de emigrantes considere que os emigrantes portugueses são todos muito bons e os imigrantes sejam todos muito maus, que é o que se quer fazer sentir. Outra, bem diferente, é usar o soundbite como arma de arremesso contra quem se escolheu como alvo, incentivando o racismo e a xenofobia para fazer crer na necessidade de um líder forte e duro o suficiente para “limpar Portugal”. Só a expressão me causa calafrios.

O modus operandi está identificado. Reflita quem quiser, ainda que eu saiba que a base da argumentação factual não convença quem já se convenceu. Segundo especialistas da comunicação, apenas as contranarrativas serão eficazes contra o discurso do ódio. A comunicação social tem um papel importante a fazer, no sentido de dar voz a quem não a tem para desconstruir preconceitos. Seria bom que os órgãos de comunicação local se interessassem pelas histórias das pessoas e as contassem, numa ação de proximidade. Talvez, assim, se percebesse que gente é gente, em qualquer lugar do mundo, sujeita aos mesmos deveres e aos mesmos direitos. É também o dever de cada cidadão saber ouvir e predispor-se a conhecer o outro, com humanidade, habituar-se a ver pessoas e não números.

Esta é a forma que encontrei de exercer cidadania…

 

Nina M.

 

 

 

sábado, 17 de maio de 2025

Crónica de Maus Costumes 421

 

Insanidade

 

            Já não me deveria espantar com a loucura que a humanidade revela. Por princípio, o conceito define um estado mental em desequilíbrio, um transtorno mental caracterizado por uma perda de contacto com a realidade, que pode ser acompanhado de delírios, alucinações, agitações ou apatia.

            Seja o que for, a loucura ou a insanidade é uma fuga a uma realidade que possivelmente causa dor. Pensando no que vou vendo, uma boa parte da humanidade está emocionalmente doente. Não encontro outra explicação.

            Deparei-me, ao longo da semana, com notícias sobre os bebés « reborn »… Para quem desconhece, tratam-se de bonecos hiper-realistas, feitos de silicone e que parecem bebés verdadeiros, com cheiro, cabelo, pele, em tudo muito semelhantes. São lindos, efetivamente…

Quando era criança, gostava imenso de bonecas. Tinha cerca de quarenta bonecas, todas batizadas com o seu nome. Umas reproduziam pequenas palavras, outras gatinhavam, outras andavam… Tinha uma oferecida pela minha tia que estava em França que cantava « sur le pont d’Avignon, on y danse on y danse/ Sur le pont d’Avignon, on y danse tous en rond… » Ainda as guardei para a minha pequena, que já não apreciou tanto estes brinquedos… Tive um chorão, como lhe chamavam, com cerca de 50 centímetros, que ao longe passava mesmo por um bebé. Prenda da minha madrinha, na minha primeira comunhão, aos seis anos. Escusado será dizer que foi a minha melhor prenda. Adorava bonecas! E consumia a Lila (a minha tia a quem não chamamos tia), que tem mãos de fada para a costura. O chorão (martelão para o meu pai, mas epíteto que me deixava furiosa, porque o nome dele era Nuno, se a memória não me engana) tinha direito a alcofa de palhinha, lençóis, colcha e roupa feita à medida pela Lila, pois claro, que me aparava o pião! Se naquela época existisse o reborn eu quereria muito um! Na verdade, olho para esses bonecos e acho-os lindos! Parece que estamos na presença de recém-nascido de carne e osso. Até aqui tudo certo, a perfeição do boneco espanta-nos, mas pensamos na sorte das crianças que podem ter bonecos tão bonitos e realistas…

O problema surge quando percebemos que os bonecos pertencem, na maioria, a mulheres adultas que os tratam como bebés verdadeiros! O boneco tem certidão de nascimento, dão-lhe biberão, têm berço, dão-lhe banho e a pior das loucuras : levam-nos ao hospital porque o boneco está com febre ou para fazer a consulta de rotina e pesar, inclusivamente, organizam festas de aniversário e convidam outras « mães » de « reborn’s »! Ao ver que isso já é um comportamento disseminado e mais ou menos normalizado nas redes sociais, siderei ! De repente, pareceu-me que a louca seria eu, tal a normalidade com que estas mulheres agiam ! Bem sei que há homens adultos que também brincam com as « playstation's », mas isto pareceu-me um absurdo!

Sabemos que os algoritmos fazem das suas… Depois de ver isto, logo de seguida, surge-me a notícia de um homem, um fisioculturista, que tem uma boneca adulta, também hiper-realista e, tal como as  « mães reborn », também ele levava a namorada (seria uma « reborn » já crescida) para lanchar, jantar, passear, viajar… Dizia, satisfeito, que as pessoas se acercavam, curiosas, que queriam tirar fotografias com ambos e que ficavam agradavelmente surpreendidas…

Eu… Nem sei que diga… Parece-me, obviamente, um comportamento desviante a necessitar de psicoterapia… Que fragilidades emocionais, que vínculos fragilizam as pessoas para que estas tenham a necessidade de recorrer a estas ilusões ? Quão difícil será suportar a realidade para necessitarem de um escape desta amplitude ? Apesar de se mostrarem felizes nos seus papéis de mães e de namorados, estes seres não podem estar bem ! Ou isso ou, então, quem já estará insana para este mundo sou eu… O que leva as pessoas a preferirem laços fictícios e imaginários à realidade ?! Por mais hiper-realista que seja, um « reborn » não é uma criança nem a boneca hiper-realista, namorada… Que vazios poderão preencher num relacionamento unilateral ?! O casal de namorados dificilmente discutirá e as mães imaginárias não terão grandes problemas para educar as suas crianças!

Vivemos num mundo estranho, onde o homem humaniza os animais ao ponto de os despir da sua natureza, tratando-os como filhos, preferindo cuidar de um animal de estimação a uma criança e em que se substitui os afetos verdadeiros por afetos fictícios, como se estes só pudessem existir quando o outro não nos contesta e não nos desagrada. Talvez o Homem seja tão incompetente e tão intolerante que não é capaz de aceitar que o outro possa divergir de Si, de aceitar a diferença e, sobretudo, de respeitar a vontade alheia… O homem não está para o diálogo, para a cedência nem para o encontro, que implica trabalho e determinação, mas não pode, por outro lado, dispensar os afetos, uma vez que somos seres gregários e gostamos da validação alheia. De modo que, eventualmente, alguns se fechem numa bolha própria em que a realidade e a ficção se misturam a tal ponto que já não conseguem distinguir qual deles é o mundo mais verdadeiro : o do sonho e da imaginação ou o da realidade dolorosa.

Fiquei apreensiva e a pensar como iria gostar de um boneco desses, se ainda fosse criança…

Os meus filhos já estão crescidos, já não usam biberão nem fralda e já não precisam que lhes dê banho e, por mais saudades que sinta dessa fase em que após a amamentação os deitava sobre o meu peito, onde eles dormiam consolados e eu lhes sentia o cheiro a bebé e os sentia tão unicamente meus, não me passa pela cabeça fazer isso com um boneco! A fase do faz de conta já passou há muito e por mais hiper-realistas que sejam, não são seres de verdade! Só alguém profundamente desiludido poderá apreciar tanto uma ilusão!

 

Nina M.