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sábado, 3 de janeiro de 2026

Crónica de maus costumes 449

 

Trumpices

            Impossível permanecer indiferente aos acontecimentos que inundaram os meios de comunicação social, hoje. Há uma pergunta a assolar-me o espírito: será o próprio Trump a escrever os discursos que lê ou haverá alguém tão ou mais idiota do que ele a redigir aquilo que ouvimos? São tão simples e tão pobres que poderiam ter sido escritos por qualquer adolescente, sem grande esforço!

            A conferência de imprensa marcada para explicar o rapto de Maduro poderia ser resumida num breve momento: Trump agradeceu às suas forças de elite a extraordinária operação, enfatizando que não houve danos materiais nem humanos para os americanos, salientou o poderio militar do seu país, afirmando que os Estados Unidos podem impor a sua vontade e que só eles poderiam e teriam conseguido fazer o que, hoje, realizaram. Apanharam o narcotraficante responsável pela morte de milhares de americanos e pelo aumento do crime nalguns estados, pelo que está a proteger os americanos. Publicou a imagem de Maduro feito prisioneiro numa rede social, assim, mesmo à profissional e com toda a deferência que a situação merece! Entretanto, lá foi dizendo que havia petróleo na Venezuela e que as infraestruturas existentes foram construídas pelos americanos e que, portanto, iriam explorá-las, mas sossegou o chinês ao dizer-lhe que ele continuaria a ter o seu “oil”. Deixou uma palavrinha aos venezuelanos, povo sofredor que, agora, estava livre. Pelo meio, foram lançados recados para outros, pois se houver alguém que impeça a vontade e os interesses dos “states”, sua excelência pode repetir o ar de sua graça.

            Se não ouviram, aqui fica a resenha. Reparem que, em dois minutos, se diz isto. O Donald terá levado cerca de vinte minutos para isto, porque repetia as ideias insistentemente, falava nitidamente para dentro, para o seu povo, como a dizer-lhes: vejam bem como somos grandes e fortes e o que conseguimos fazer! Só os Estados Unidos conseguem! Se lá estivesse, perguntar-lhe-ia por que razão não vai ajudar o povo tão massacrado pela besta do líder da Coreia do Norte ou até os chineses!  E, talvez, de improviso, lhe espetasse com o verso de Camões: “o fraco rei faz fraca a forte gente”. Se não me enrolasse na aliteração, bastante expressiva por sinal, a sugerir a força, que o fonema fricativo (“f”) deixa subentender.

            Já me lembrei de lhe sugerir que me deixasse escrever-lhe algo mais elaborado, a troco de um bom dinheirito, porque não há almoços grátis... Creio que não seria difícil fazer melhor e quem sabe, no final, não acabasse por acreditar eu mesma no que tinha escrito. Lembro-me, logo de seguida, que não posso vender a alma ao Diabo, quer dizer, ao Trump, pelo que continuarei a viver do meu salário… É a vidinha… Quem nasceu para lagartixa nunca chega a jacaré.

            Penso que a minha falta de apreço, para não dizer ranço (acabei de usar um litote) em relação ao cabeça alaranjada é notória. Abomino-o. A suprema ironia é que o Trump tem andado a expulsar os seus imigrantes, incluindo venezuelanos, mas ao Maduro e à esposa faz questão de os ir buscar a casa e escoltá-los para os Estados Unidos! Tudo isto é um atropelo, um assassinato do Direito Internacional, por mais voltas que se queira dar. Não se pode condenar a Rússia e Israel e apoiar isto, por mais que Maduro o merecesse e eu acho que merece. É lamentável que a ONU não consiga intervir atempada e adequadamente em países em que haja nítido desrespeito pela segurança internacional ou pelos direitos de um povo. Maduro ultrapassou todos os limites. Perpetuou-se no poder, com a falsificação de resultados eleitorais, perseguia opositores políticos e condenou um povo à fome e à miséria, num país próspero e rico. Merece tudo quanto lhe possa acontecer. Não o lamento. Haveria matéria para que a ONU interviesse, porém, a obrigatoriedade de os cinco países membros permanentes, com poder de veto, terem de estar todos de acordo aniquila quase todas as intervenções, porque são eles: Estados Unidos, França, Reino Unido, Rússia e República Popular da China. Ora, estes dois últimos nunca votariam um resolução favorável a uma intervenção na Venezuela, tal como não votariam em relação à própria Rússia. Para além destes, mais quatro países, num total de nove em quinze, teriam de estar de acordo. Se assim é, interrogo-me sobre o papel da ONU. Só funciona em relação a países fracos e que não colidam com os interesses das grandes potências. Aqui reside toda a hipocrisia a que vamos assistindo, porque, efetivamente, não deveria haver espaço para Maduros, neste mundo.

            Desejo, vivamente, que o povo venezuelano possa recuperar a sua soberania e a sua liberdade, que possa prosperar em paz e que possa escolher o seu líder. Apesar do precedente perigoso que Trump abriu e da manifesta ilegalidade, haverá uma alegria, ainda contida, até ao momento, nos venezuelanos. Oxalá, corra pelo melhor. Não acredito que Trump tivesse raptado Maduro sem a conivência da oposição e, talvez, de alguns militares. Veremos se, agora, perante este cenário, as forças armadas abandonam Maduro, permitindo um governo de transição até às eleições livres. Assim espero.

            No meio de todo o imbróglio, concedo a Trump apenas o facto de que os venezuelanos não conseguiriam virar o regime sozinhos e precisavam de apoio. Não desta forma, com esta ingerência, mas precisavam de apoio externo, sim. Dizer-se que o povo unido é quem muda regimes não sei se é ingenuidade ou mesmo má-fé. O povo expressou essa vontade em eleições e não foi respeitada. A única solução seria que o regime quebrasse por dentro e que o movimento fosse conduzido por militares, tal como aconteceu com o nosso Vinte e Cinco de Abril. Porém, qualquer autocrata sabe untar bem os beiços às altas patentes que zelam pela segurança. A esses, as dificuldades do restante povo não os assombraram. Teriam de ser vários e de ter a certeza de que poderiam confiar uns nos outros, sabendo que poderiam pôr a própria vida em risco e dos seus familiares, para além de poderem atirar o país para uma guerra civil. Portanto, dizer-se que tem de ser o povo, que vive esmagado e com medo, a fazer a revolução é pedir uma chacina, porque seria isso que aconteceria. Maduro cairia sobre o próprio povo sem dó nem piedade, com as suas forças armadas que cumprem ordens.

            Sabemos que Trump quer o petróleo. Esta é a sua verdadeira razão, mas para os venezuelanos, tanto lhes faz que a matéria-prima seja vendida à China, como à Rússia, Cuba ou, agora, os Estados Unidos, desde que lhes traga paz, segurança, liberdade e autodeterminação. Haja esperança.

 

Nina M.

           

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