Trumpices
Impossível
permanecer indiferente aos acontecimentos que inundaram os meios de comunicação
social, hoje. Há uma pergunta a assolar-me o espírito: será o próprio Trump a
escrever os discursos que lê ou haverá alguém tão ou mais idiota do que ele a
redigir aquilo que ouvimos? São tão simples e tão pobres que poderiam ter sido
escritos por qualquer adolescente, sem grande esforço!
A
conferência de imprensa marcada para explicar o rapto de Maduro poderia ser
resumida num breve momento: Trump agradeceu às suas forças de elite a
extraordinária operação, enfatizando que não houve danos materiais nem humanos
para os americanos, salientou o poderio militar do seu país, afirmando que os
Estados Unidos podem impor a sua vontade e que só eles poderiam e teriam
conseguido fazer o que, hoje, realizaram. Apanharam o narcotraficante
responsável pela morte de milhares de americanos e pelo aumento do crime nalguns
estados, pelo que está a proteger os americanos. Publicou a imagem de Maduro
feito prisioneiro numa rede social, assim, mesmo à profissional e com toda a
deferência que a situação merece! Entretanto, lá foi dizendo que havia petróleo
na Venezuela e que as infraestruturas existentes foram construídas pelos
americanos e que, portanto, iriam explorá-las, mas sossegou o chinês ao
dizer-lhe que ele continuaria a ter o seu “oil”. Deixou uma palavrinha aos
venezuelanos, povo sofredor que, agora, estava livre. Pelo meio, foram lançados
recados para outros, pois se houver alguém que impeça a vontade e os interesses
dos “states”, sua excelência pode repetir o ar de sua graça.
Se não
ouviram, aqui fica a resenha. Reparem que, em dois minutos, se diz isto. O
Donald terá levado cerca de vinte minutos para isto, porque repetia as ideias
insistentemente, falava nitidamente para dentro, para o seu povo, como a
dizer-lhes: vejam bem como somos grandes e fortes e o que conseguimos fazer! Só
os Estados Unidos conseguem! Se lá estivesse, perguntar-lhe-ia por que razão
não vai ajudar o povo tão massacrado pela besta do líder da Coreia do Norte ou
até os chineses! E, talvez, de improviso,
lhe espetasse com o verso de Camões: “o fraco rei faz fraca a forte gente”. Se
não me enrolasse na aliteração, bastante expressiva por sinal, a sugerir a
força, que o fonema fricativo (“f”) deixa subentender.
Já me
lembrei de lhe sugerir que me deixasse escrever-lhe algo mais elaborado, a
troco de um bom dinheirito, porque não há almoços grátis... Creio que não seria
difícil fazer melhor e quem sabe, no final, não acabasse por acreditar eu mesma
no que tinha escrito. Lembro-me, logo de seguida, que não posso vender a alma
ao Diabo, quer dizer, ao Trump, pelo que continuarei a viver do meu salário… É
a vidinha… Quem nasceu para lagartixa nunca chega a jacaré.
Penso que a
minha falta de apreço, para não dizer ranço (acabei de usar um litote) em
relação ao cabeça alaranjada é notória. Abomino-o. A suprema ironia é que o
Trump tem andado a expulsar os seus imigrantes, incluindo venezuelanos, mas ao
Maduro e à esposa faz questão de os ir buscar a casa e escoltá-los para os
Estados Unidos! Tudo isto é um atropelo, um assassinato do Direito
Internacional, por mais voltas que se queira dar. Não se pode condenar a Rússia
e Israel e apoiar isto, por mais que Maduro o merecesse e eu acho que merece. É
lamentável que a ONU não consiga intervir atempada e adequadamente em países em
que haja nítido desrespeito pela segurança internacional ou pelos direitos de
um povo. Maduro ultrapassou todos os limites. Perpetuou-se no poder, com a
falsificação de resultados eleitorais, perseguia opositores políticos e
condenou um povo à fome e à miséria, num país próspero e rico. Merece tudo
quanto lhe possa acontecer. Não o lamento. Haveria matéria para que a ONU
interviesse, porém, a obrigatoriedade de os cinco países membros permanentes,
com poder de veto, terem de estar todos de acordo aniquila quase todas as
intervenções, porque são eles: Estados Unidos, França, Reino Unido, Rússia e
República Popular da China. Ora, estes dois últimos nunca votariam um resolução
favorável a uma intervenção na Venezuela, tal como não votariam em relação à
própria Rússia. Para além destes, mais quatro países, num total de nove em
quinze, teriam de estar de acordo. Se assim é, interrogo-me sobre o papel da
ONU. Só funciona em relação a países fracos e que não colidam com os interesses
das grandes potências. Aqui reside toda a hipocrisia a que vamos assistindo,
porque, efetivamente, não deveria haver espaço para Maduros, neste mundo.
Desejo,
vivamente, que o povo venezuelano possa recuperar a sua soberania e a sua
liberdade, que possa prosperar em paz e que possa escolher o seu líder. Apesar
do precedente perigoso que Trump abriu e da manifesta ilegalidade, haverá uma
alegria, ainda contida, até ao momento, nos venezuelanos. Oxalá, corra pelo
melhor. Não acredito que Trump tivesse raptado Maduro sem a conivência da
oposição e, talvez, de alguns militares. Veremos se, agora, perante este
cenário, as forças armadas abandonam Maduro, permitindo um governo de transição
até às eleições livres. Assim espero.
No meio de todo
o imbróglio, concedo a Trump apenas o facto de que os venezuelanos não
conseguiriam virar o regime sozinhos e precisavam de apoio. Não desta forma,
com esta ingerência, mas precisavam de apoio externo, sim. Dizer-se que o povo
unido é quem muda regimes não sei se é ingenuidade ou mesmo má-fé. O povo
expressou essa vontade em eleições e não foi respeitada. A única solução seria
que o regime quebrasse por dentro e que o movimento fosse conduzido por
militares, tal como aconteceu com o nosso Vinte e Cinco de Abril. Porém,
qualquer autocrata sabe untar bem os beiços às altas patentes que zelam pela
segurança. A esses, as dificuldades do restante povo não os assombraram. Teriam
de ser vários e de ter a certeza de que poderiam confiar uns nos outros, sabendo
que poderiam pôr a própria vida em risco e dos seus familiares, para além de poderem
atirar o país para uma guerra civil. Portanto, dizer-se que tem de ser o povo,
que vive esmagado e com medo, a fazer a revolução é pedir uma chacina, porque
seria isso que aconteceria. Maduro cairia sobre o próprio povo sem dó nem
piedade, com as suas forças armadas que cumprem ordens.
Sabemos que
Trump quer o petróleo. Esta é a sua verdadeira razão, mas para os venezuelanos,
tanto lhes faz que a matéria-prima seja vendida à China, como à Rússia, Cuba
ou, agora, os Estados Unidos, desde que lhes traga paz, segurança, liberdade e
autodeterminação. Haja esperança.
Nina M.
Sem comentários:
Enviar um comentário