20 de julho de 2018
Morreu abril
Murcham cravos na lapela
Morre a liberdade de forma vil
Morreu abril
Que eu não vi nascer
Mas não era suposto perder
Morreu abril
Matam-no os vilões
Anunciam-no ao vento
ferem corações
Morreu abril
Professor triste e só
Rejeita que tenham dó
Anseia liberdade
Morreu abril
Se enterram mestres
maltratam aprendizes
Malvados, infelizes
Morreu abril
Morreu o sonho
Morreu a liberdade
Morreu a dignidade
Morreu abril
Matam-no os cães de fila
Indiferentes ao saber alheio
Morreu abril
Esconjuro de político rasteiro
Que do povo quer dinheiro
Morreu abril
Enterram-no os que mais o exortam
E com palavras dóceis o exportam
Morreu abril...
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sábado, 21 de julho de 2018
sexta-feira, 20 de julho de 2018
Poesia
Era poeta. Escreveu-lhe poemas, porque sabia que ela gostava.
Estratégia de quem espera alcançar a glória e repousar longamente no seu corpo.
Ofereceu-lhe outros escritos por outrem, mas que diziam o que ele não fora
capaz de pôr por palavras.
Trinta anos depois, esporadicamente, ainda os reliam. Quando
a saudade trazida pela lembrança ainda fazia nó no coração e pregas na alma.
Então, sentiam-se um trapo. As memórias do que tinha sido não eram cristalinas
e apareciam envoltas numa névoa de dúvida.
Questionavam-se se também o outro
ainda era assaltado por si nos seus pensamentos, mesmo que raramente. Se
efetivamente sentiu o que escreveu e o que mostrou em ciúme travesso e pueril.
Não tinham direito a nada, mas queriam tudo.
“Deixa que corra paralelamente à
tua/ A minha vida, vivida assim, dá-me a mão”. Terminava assim um dos seus
poemas e paralelas se tornaram a vida de ambos. As linhas paralelas não se
cruzam, todos o sabem.
Como eles se atreveram a
entrelaçá-las e a desordenar o concerto do mundo, foram punidos pelo crime. Foi
longo e doloroso o castigo imposto a quem se atreve a quebrar regras que regem
o universo. Supõe-se que tem de ser, para andar tudo concertado. E no meio de
tanta ordem, viravam costas dois corações quebrados, usados pela vida como
trapos esfrangalhados para limpar o chão.
Depois da vida, a morte, e na
ressurreição subsequente, há que saber renascer sob nova forma e aparato mais
alinhado, não vá Clio aborrecer-se por lhe abalarem a ordenação dos
acontecimentos e lembrar-se de nova punição…
De modo que se perderam um do outro sem
saberem se efetivamente foi assim, por ausência de despedida. Esporadicamente,
cada um, na sua realidade, perguntava-se pelo outro. No entanto, nenhum se
atrevia a pontapear o alinhamento da existência e assim, mornamente passavam
pelos pingos da chuva que lhes traziam saudade.
Há quem diga que esta é o amor que
fica…
quinta-feira, 19 de julho de 2018
Será canto de sereia
Que enreda o marinheiro
Preso à melodia do amor
E numa emoção pura
Segue-a firme num torpor
Mar dentro e sem temor
Enredado em sua voz
Esquece que há vida feroz...
Ai! Pobre marinheiro...
Ouvem-se lamentos distantes
Surdo, segue como antes
E já no fundo do mar
Sem nada para ofertar
Só encontra a redenção
Não veio a morte nem grave pena
Do mito dos comuns mortais
Eram só eles os dois
Unidos na mesma dor
E arrastados pelo mundo
Renunciam ao amor
A sereia enganosa
Não matou seu coração
Mostrou-lhe apenas a vida
De poeta em expiação...
segunda-feira, 16 de julho de 2018
No silêncio envergonhado
Onde a palavra se desvela
Na inquietude reprimida
Que um leve suspirar revela
Vem de mansinho a visão
De um fragmento de ser perdido
No meio da imensidão
Mas no fugidio arrebatamento
De um toque lento de olhar
Vislumbra a alma luzidia
Emoção no despertar
E cumpre Orfeu a missão
Num canto belo e urgente
Para Eurídice resgatar
Aos baixios da prisão
Mas não cumpre o preceito
Não evita a devoção
Olha-a com deleite
Preso à sua paixão
E no moroso agoniar
Em que vai compondo os versos
Sabe não poder calar
Seus sentidos submersos.
Onde a palavra se desvela
Na inquietude reprimida
Que um leve suspirar revela
Vem de mansinho a visão
De um fragmento de ser perdido
No meio da imensidão
Mas no fugidio arrebatamento
De um toque lento de olhar
Vislumbra a alma luzidia
Emoção no despertar
E cumpre Orfeu a missão
Num canto belo e urgente
Para Eurídice resgatar
Aos baixios da prisão
Mas não cumpre o preceito
Não evita a devoção
Olha-a com deleite
Preso à sua paixão
E no moroso agoniar
Em que vai compondo os versos
Sabe não poder calar
Seus sentidos submersos.
sábado, 14 de julho de 2018
Crónica de Maus Costumes 90
Quando
o amor chega ao fim, não deve acabar nem a dignidade nem a delicadeza. O
verdadeiro caráter vê-se nesses pequenos grandes gestos de magnanimidade. Saber
reconhecer a culpa por não se ter sido capaz de manter o amor e pedir perdão
pelo sucedido, não é sinal de fraqueza, mas antes de magnificência.
Já é
penoso o suficiente para o abandonado ter de resistir à dor da perda e
conseguir manter a autoestima, assim, quem sai que deixe o coração do outro
deserto de tudo. Pode ficar vazio pelo amor que colapsou, mas que fique também
vazio de raiva e de desprezo.
Os
subterfúgios enganosos e mentiras piedosas não contribuem para o bem-estar do
ser que já se amou. Antes o iludem e prolongam uma esperança infundada que só
trará dor. Usar de manipulação para fazer sentir quem se deixa culpado pelo
insucesso do relacionamento, é vestir a pele de um menino de cinco anos que não
gosta de assumir a culpa que é sua e que tenta enganar o outro e a si mesmo.
Se o
amor que deixou de ser já foi significativo na nossa vida, não pode ser destratado
e pisado de forma tão torpe e funesta.
Há
palavras escusadas e que deveriam ser proibidas, porquanto podem infecionar a
ferida aberta. Não se diz a quem não se quer mais que os últimos tempos foram
apenas de mera diversão ou de sofrimento ou de mero cumprimento de “obrigações
conjugais”, expressão por si só absolutamente odiosa, já que o amor não pode
ser uma obrigação, mas antes uma entrega que se quer fazer. Não se pode querer
ferir de morte aquele que um dia já se amou! A isso chama-se crueldade. É
desnecessário e, francamente, para quem assiste de fora, é degradante. Diz
muito mais sobre quem abandona do que aquele que é abandonado.
Para
estes últimos, um pequeno conselho: nunca mendiguem amor, porque ninguém merece
apenas migalhas… Se quem estava quis sair é porque não merece a nossa afeição. Dói,
mas passa. O tempo, por vezes, é um remédio maravilhoso! E quando se recupera
da queda, levantamo-nos mais fortes, confiantes e atraentes. Podem estar certos
de que a luz atrai luz e chegará o dia em que se olha para trás e apenas se vê
uma experiência mal sucedida que contribuiu para o nosso desenvolvimento
interior.
Tu,
que me pediste um texto sobre a tua desventura, podes estar confiante que um
dia não assim tão longe deixará de doer e o brilho assomará aos teus olhos por
perceberes o teu incomensurável valor e o favor que te fizeram ao sair da tua
vida, mesmo que de forma vil!
Nessa
altura, ufanamente pensarás o quanto ele perdeu e que se te desperdiçou de
forma agreste, no propósito de te ferir, a natureza não o deve ter favorecido nem
em inteligência nem em caráter. Antes assim. Deixá-lo partir para não mais
voltar…
Nina
M.
Se no afago de um olhar
A magia acontece
E toda a alma resplandece
Num doce e efémero mergulhar
O tempo suspenso e leve
Acaricia o sorriso breve
Num eterno recordar
E no diálogo aberto
de metafísica tão certo
Em sereno respirar
À angústia se abandona
Em passo de dança lento
Que teima em se quedar
Num grito mudo e quieto
O coração rejeita o pesar inicial
Já renovada e refeita
A alma se enche com jeito
Criança inocente, pureza divinal...
segunda-feira, 9 de julho de 2018
Esperança
Como a guitarra que chora
A alma estremece e emudece
Perante o desacerto do mundo
Venha a esperança, que anoitece!
Lago sombrio da desventura
Cavernas de sombras escuras
Amanhã, quando a flor se abrir
E o sol iluminar e surgir
Na terra desalentada pelo tempo
É dia de mudança
É dia de ventura
É dia de esperança
A alma estremece e emudece
Perante o desacerto do mundo
Venha a esperança, que anoitece!
Lago sombrio da desventura
Cavernas de sombras escuras
Amanhã, quando a flor se abrir
E o sol iluminar e surgir
Na terra desalentada pelo tempo
É dia de mudança
É dia de ventura
É dia de esperança
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