Ausência
Falha e
Vazio
Áspero
Íngreme e
Exíguo
Encontro é
Lume
Plenitude e
Paixão
Se no exílio
Se perde a alma
O encontro ilumina
O coração
Está prestes
a finalizar uma etapa para muitos alunos e a começar outra. Há alunos, ainda,
em exame, seja porque precisam de uma nova oportunidade para finalizarem o
secundário, seja porque entendem que precisam de melhorar a classificação a
determinada disciplina, para que possam alcançar os seus objetivos.
Sempre que
saem os resultados dos exames, fazem-se estatísticas e comparam-se resultados
relativamente ao ano anterior, mesmo que as circunstâncias e os intervenientes
no processo sejam diferentes, como se
isso não fizesse qualquer diferença para a análise. Esta tendência de olhar
para o conjunto de uma perspetiva só inquina todo o processo.
Constatou-se
que a média nacional obtida na disciplina de Português subiu e que a Matemática
desceu. Pior, nesta disciplina, 48% por cento dos alunos não alcançou a
positiva. É francamente negativo. Se preferirmos uma perspetiva mais otimista,
pode-se dizer que 52% dos alunos alcançaram resultados positivos. Ter quase
metade dos alunos com classificações inferiores a dez não é bom e é necessário
analisar detalhadamente as circunstâncias para se compreender o que se passa
com os jovens portugueses e a Matemática (o eterno problema).
Raramente,
situações complicadas admitem leituras e soluções simples, portanto, dispenso
sempre a tendência simplista de alguns levantarem o dedo em riste à falta de
estudo e de comprometimento dos alunos e ao badalado facilitismo, como únicas
explicações possíveis e viáveis e sem a admissão de outras causas. Creio serem
capazes de fazer melhor. Os educadores têm a obrigação de fazerem um bocadinho
melhor. Contra mim, tenho um adolescente com a suas dificuldades a Matemática e
pouca motivação para o seu estudo. No entanto, ainda assim, é a disciplina para
a qual se tenta preparar com maior zelo, dentro do seu perfil. Quando se fala
de facilitismo, no secundário, torço o nariz. Vejo bem a quantidade de exercícios
que os professores de Matemática impingem aos alunos, semanalmente, para que
estes treinem, porque só com treino conseguem, nalguns casos, chegar à positiva
e noutros alcançarem resultados muito bons. Egoisticamente e, talvez,
erradamente, os professores de Matemática tendem a queimar tudo à sua volta,
isto é, a quantidade de exercícios que lhes pedem para treino é tanta que se os
das outras disciplinas pedissem o mesmo, os alunos não comiam nem dormiam. Na
verdade, o ideal e o que os docentes desta disciplina aconselham aos alunos é a
estudar, diariamente, pelo menos duas horas, mas se forem quatro tanto melhor.
Ora… Pelo que observo, as meninas cumprem. A maioria dos rapazes não o faz. Não
têm essa disciplina nem essa vontade férrea. Se falta de estudo é isto. Sim, haverá falta
de estudo. Seria interessante haver uma análise comparativa entre os resultados
das meninas e dos rapazes, na Matemática.
Sem
desculpar a falta de empenho de muitos, se uma disciplina só exige que quase
todo o tempo de estudo lhe seja dedicado, algo não pode estar bem. Mal dos
alunos se tivessem de estudar duas horas diárias para todas as outras também.
Os miúdos teriam um horário pior do que a jornada de trabalho dos pais. Particularmente,
gostaria mesmo que existisse um estudo comparativo entre a Matemática exigida
aos alunos portugueses, no ensino secundário, com a que se exige em países como
a Finlândia, a Estónia (país que tem vindo a crescer em termos de resultados
escolares, tendo ultrapassado a Finlândia, sempre usada como exemplo), a
Dinamarca e, depois, os países asiáticos. Questiono-me se o programa da
Matemática não é demasiado ambicioso para a capacidade cognitiva de uma maioria
dos alunos, nesta faixa etária. Creio ser necessário esclarecer, com rigor,
este aspeto. Naturalmente, há jovens mais dotados do que outros de inteligência
matemática e é necessário encontrar um equilíbrio. Honestamente, querer pôr um
aluno entre os 16 e os 18 anos, com dificuldades na disciplina, a estudar 3 ou
4 horas por dia é o mesmo que exigir a um sedentário 3 ou 4 horas de exercício
diário. Interrogo-me se os adultos o conseguiriam fazer de forma consistente.
Os alunos
têm outras possibilidades, pensarão. É verdade, mas também têm o azar de ambicionarem,
muitas vezes, uma profissão que lhes exige terem Matemática até ao 12º ano e
terem de a usar como prova de ingresso, sem que, depois, precisem dela ao longo
dos cursos. Acontece com alguns cursos na área da saúde, por exemplo. É um disparate!
Haverá real necessidade de um programa que condiciona tanto os miúdos nas suas
opções? Num certo fórum, um colega (não sei se seria de Matemática) afirmava
que a maioria da população não precisa de saber o que é uma derivada ou uma
integral. Eu pensei imediatamente que a mim, tal conhecimento, não me faz
falta. Aliás, derivadas, só conheço o processo de formação de palavras (aposto
que a malta das matemáticas também não sabe, com rigor, do que falo) e a
integral, para mim, no que concerne farinhas, sempre ouvi dizer que é melhor
para a saúde! Talvez haja conteúdos dispensáveis que devem ser abordados
somente nas Universidades, nas áreas específicas em que, de facto, fazem falta.
Continuo a defender
uma mudança de paradigma na organização curricular, no secundário, à luz do que
acontece noutros países europeus. Há um tronco comum de disciplinas
obrigatórias, entre as quais, a língua materna, a Matemática, as Ciências, o Inglês,
a História, a Filosofia e Educação Física. Depois, os alunos compõem o resto do
seu currículo e tanto podem ter Literatura como Física ou dança ou geometria…
Enfim, urge uma maior flexibilização dos currículos, mas para o fazer é preciso
aferir com rigor quais os programas a implementar e, sobretudo, que sejam compatíveis
com o nível de cognição, dentro da faixa etária dos alunos. É um absurdo
continuar a ter alunos de humanidades que não gostam de ler, não gostam de línguas
estrangeiras nem de Filosofia ou de História e só aí estão para evitar a
Matemática. É uma pena que em quarenta anos nada tenha sido alterado
relativamente a estas questões. Por que razão um aluno de Ciências e
Tecnologias não pode ter Literatura, se for do seu agrado, ou um aluno de
humanidades, Biologia?
Certa
altura, expliquei a alunos do 12º ano que fui muito mais feliz a partir do 10º
ano, porque não tinha disciplinas de que não gostasse e me causassem calafrios,
mas eu sou inteiramente vocacionada para as humanidades. Aliás, é sempre a
condição humana que me apaixona. Portanto, a escolha da área foi óbvia. Porém,
não tem de ser assim tão estanque. Não há razões para se obrigar os alunos a
uma escolha definitiva tão cedo, sabendo-se que estas novas gerações são muito
mais imaturas.
Aos alunos
que, ainda, prestarão provas, que a sorte vos sorria! Não se esqueçam: a sorte
também dá algum trabalho.
Nina M.
Há dias horríveis para serem vividos
Propositadamente, deixei passar o
tempo. Não liguei a televisão, nesses dias. Normalmente, não ligo e assim me
mantive. O que me chegou foi, essencialmente, através das redes sociais, cada
vez mais escabrosas, cada vez mais usadas para que pessoas desassossegadas
desassosseguem outros, entendendo que podem maltratar a torto e a direito, que
podem ser juízes sem formação para tal, numa falta de respeito e de voyeurismo
em relação à vida alheia que fere.
Eu quedo-me atónita, interrogando-me.
Questiono, silenciosamente, o motivo que conduz a certas posturas de gente
adulta, sem que parem um segundo para olhar para si mesmas! Gente tão segura de
si e da sua perfeição! Invejável ou talvez não. Foi com gente assim que a
Inquisição e a PIDE se fortaleceram. Gente cheia de si, que não vacila um
segundo e é muito lesta a fazer juízos de valor sobre tudo e sobre todos, mesmo
desconhecendo os contornos e as circunstâncias. Acaso os conheçam… Porventura,
alguém os investiu de derradeiros pilares da moralidade alheia? É com essas
boas intenções que vemos certos países a criarem a polícia da moralidade e dos
bons costumes, que punem mulheres em praça pública por se atreverem a mostrar
os cabelos sedosos e, então, se forem adúlteras, mesmo que seja porque se
apaixonaram e querem sair de um relacionamento para o qual a sua vontade não
foi convocada, são apedrejadas até à morte, pelos próprios pais e irmãos,
nascidos, imagine-se de um ventre de mulher! Isto não é cultura! Isto é a
barbárie e aceitar esta forma medieval de vida, no século XXI, é cair num
relativismo moral ofensivo. Não se indignam as entranhas dos diletos
moralistas, com horror, contra estas situações, mas a alegada ausência de
Cristiano Ronaldo no funeral do amigo serviu para fazer manchetes, explorar
vergonhosamente o que não deveria ser explorado, numa hora de profunda dor que
será eterna para os familiares mais próximos, especialmente, pais, esposa e
filhos.
Procurei não ler grande coisa, mas as
línguas viperinas fizeram-se sentir. Houve três aspetos que me chocaram, para
além da morte extemporânea dos irmãos, que todos entristeceu, até os moralistas
de plantão: primeiro, a oblituração de André Silva. Parecia e continua a
parecer que só o Diogo Jota partiu, quando os pais tiveram a miserabilíssima
dor de perder dois filhos. Para estes pais, independentemente de André ser
menos conhecido, tem o mesmo valor de Diogo. A dor é a mesma. É muita. É
irrazoável. É eterna. Escrevo isto com os olhos rasos de água. Vi o sofrimento
de uma colega a quem aconteceu o mesmo. Só de pensar que a vida pode ser
madrasta comigo e fazer-me algo parecido, sinto-me falecer. É, portanto, de uma
imbecilidade atroz, de uma falta de sensibilidade tremenda e de uma ambição
cruel e ensejo de mediatismo falar-se constantemente de Jota e esquecer-se
André Silva. O único aspeto positivo disso seria maior sossego para uma
possível companheira, esposa ou namorada de André, que não sei se existe. Em
segundo lugar, o circo mediático que fazem de um momento de dor, com, ao que
parece, as televisões a apontarem as câmaras para o momento das exéquias,
fazendo uma cobertura jornalística integral desse momento, controlando quais os
craques de futebol que marcaram presença e os que não apareceram. Querer
reportar a notícia do funeral seria normal, já não será tão admissível fazer
uma cobertura das 10h00 às 17h00, como se nada mais houvesse para dar a
conhecer… Só por mera coincidência, iniciava-se também o julgamento de José
Sócrates. Um momento de recolhimento, em que a família precisa de silêncio,
assiste-se à exploração da dor ad nauseam. Por último, o julgamento
imediato de Cristiano Ronaldo por, alegadamente, não ter comparecido. O rapaz
foi crucificado instantaneamente. O pior é que Ronaldo seria castigado de ambas
as formas. Se tivesse comparecido e houvesse gente falha de juízo (e não falta
por aí) ainda invadiriam as cerimónias para arrancar autógrafos e fotografias
ao capitão. A própria imprensa haveria de o aborrecer até conseguir umas
declarações. Logo, se o fizesse, seria um egoísta, um vaidoso que foi retirar
as atenções e a justa homenagem aos
irmãos. Como não compareceu, as críticas surgiram do mesmo modo. É um vaidoso,
um arrogante, demonstrou falta de respeito e por aí fora. Até houve aqueles que
sugeriam, quais justiceiros encarniçados, a imediata retirada da braçadeira ao
capitão. Se Jota estiver assistir a este circo, levará as mãos à cabeça pelo
disparate e, sobretudo, pelo facto de as pessoas não perceberem que, neste
momento, a única coisa que importa é a dor inconsolável dos seus! Que diabo! É
assim tão difícil de compreender isto? Alguém sabe das razões de Ronaldo?
Alguém sabe o que ele combinou e conversou com a família de Jota?! Metam-se na
vossa vidinha e deixem de ser coscuvilheiros!
Para terminar a minha indignação
perante certos comportamentos, lembro que quando a dor é profunda, ninguém quer
saber quem está ou deixou de estar no funeral! Tantas vezes as pessoas
medicadas, anestesiadas, num cenário de morte inesperada, nem se apercebem das
presenças. Muitas vezes, isso é o mais dispensável. A verdadeira cruz da
família começa agora. A partir daqui, a presença dos mais íntimos é a
indispensável e esta só a eles diz respeito. Não têm de o relatar publicamente.
É inadmissível o assassinato de caráter que se faz nas redes sociais com a
complacência da comunicação social e a falta de inteligência emocional de uma
boa parte que gosta de opinar!
Ao olhar para isto, percebo a bênção
do anonimato. Respiro fundo.
Nina M.
Os
meus filhos riem-se, muitas vezes, com as histórias de infância dos
progenitores. Creio que ficam meio incrédulos com algumas peripécias e, talvez,
a cogitar para eles mesmos sobre a veracidade do que lhes é contado, abanando a
cabeça, como quem pensa para si que éramos uns pobres diabos, com uma infância
deplorável, porque não tínhamos computadores nem telemóveis e que as nossas
brincadeiras eram disparatadas e parvas.
Esta
semana, quando a propósito de uma ida ao barbeiro do meu mais velho, lhes disse
que na altura em que os tios eram ainda mais novos do que eles, só existiam
dois barbeiros na cidade, arregalaram os olhos. Hoje, há um barbeiro em cada
esquina.
Expliquei-lhes
que a ida ao barbeiro representava uma tarde perdida. A avó aproveitava a
ocasião e levava os dois filhos de uma vez, o que significava chegar à
barbearia às 14:00 e ir embora às 17:00 horas, apenas. Tive de lhes explicar o
motivo da demora: antes de mais, o cabelo era cortado apenas à tesoura e, na
barbearia do senhor Pinto, trabalhavam somente dois barbeiros, o próprio dono e
o senhor Emílio. Acontece que este último trabalhava mais com a tesoura no ar,
tchic, tchic, tchic, do que no cabelo! A cada cortadela, erguia a tesoura, com
toda a sua sapiência, cortando o ar às fatias, enquanto conversava com a
clientela! Aquilo era um autêntico fórum onde os homens conversavam sobre tudo,
desde a atualidade política, passando por carros e futebol. Talvez conversassem
sobre mulheres, se não estivesse lá alguma. Assunto que nunca ouvi, porque
sempre que estava presente era na companhia da minha mãe, mulher de família,
com os dois filhos rapazes e eu. Ora… Suspeito que fizessem um esforço por
dobrar a língua e evitassem certos e determinados assuntos em frente a uma
senhora e a sua prole.
Eu
embirrava um bocadinho com o senhor Emílio, homem de metro meio, baixinho e
magrito que sempre se metia comigo e jurava que me ia cortar o cabelo igual ao
dos meus irmãos! Imediatamente, abanava a cabeça em sinal de desacordo, antes
que a sua tesoura, em vez de fazer as acrobacias no ar, viesse poisar sobre a
minha cabeça. Ele era o que se podia chamar de pica miolos. Naquele tempo,
pousava por lá a Luisinha, a menina adolescente que tinha trissomia 21 e que
era apaixonada pelo filho do senhor Pinto, rapaz novo, e a quem o senhor Emílio
moía a paciência, porque inventava namoradas ao moço, só para acicatar o ciúme
da jovem. A Luisinha ficava furiosa, por o ouvir dizer que o estroina estivera
com outra miúda e que a andava a enganar. A menina discutia e zangava-se,
amofinava, entristecia e quase chorava enraivecida, enquanto aquele malandro se
ria, juntamente com a clientela. Quando via a Luisinha já muito triste e
aflita, depois de a aborrecer um bom pedaço, lá acabava por dar o dito pelo não
dito e a jurar que só estava a brincar e que o rapaz gostava dela e não tinha
mais namorada nenhuma. Num esforço inverso, lá tratava de convencer a rapariguinha
e jurar-lhe a pés juntos que o moçoilo só tinha olhos para ela. Nada disso era
com maldade. A Luisinha era conhecida e acarinhada por todos. O senhor Emílio é
que gostava de lhe torrar a paciência. De modo que com estas conversas com os
clientes e atuações, o homem falava mais do que cortava cabelos e fazia a
tesoura tinir no ar variadas vezes, antes de se decidir a usá-la na cabeça dos
que lá iam. O senhor Emílio tinha, ainda, outro desplante maior… Creio que,
hoje, seria demitido por justa causa. Quando se lembrava, principalmente, no
tempo do calor, virava-se para o cliente sentado na cadeira, abotoado com a
bata, com o cabelo meio cortado e meio por cortar e dizia: “Só um bocadinho… Eu
volto já!” Pousava a tesoura sobre a bancada e zarpava barbearia fora. Ia
enfiar-se no tasco ao lado, onde pedia um fino para matar a sede e por lá se
demorava até esgotar o líquido que se encontrasse no copo. Era menino para
fazer isto com todos os clientes que lhe viessem parar à cadeira!
O
mais extraordinário era o silêncio cúmplice do patrão e dos clientes. Ninguém
dizia nada ao senhor Emílio, a coqueluche da barbearia e de quem todos gostavam
e se riam com a sua boa disposição! Fazia o que lhe apetecia. Não admira,
portanto, que a clientela se apinhasse nos sofás e que uma ida ao barbeiro
empenhasse uma tarde inteira a uma pessoa.
Eu aborrecia-me
de morte, sempre a perguntar à mãe quando seria tempo de irmos embora! Não
havia previsão possível.
Quando
o senhor Monteiro se estabeleceu, o terceiro barbeiro, na altura, foi o gáudio
e a alegria dos mais apressados. Este oferecia uma nova vantagem… Assim que os
clientes alapassem o rabo na cadeira, ele despachava-os em vinte minutos!
Escusado será dizer que, ao fim de um certo tempo, os meus irmãos passaram para
a tesoura do senhor Monteiro e eu, não sei por que razão, pude deixar de os
acompanhar ao suplício, até à altura em que já iam ambos sozinhos, sem
precisarem sequer da dileta companhia da mãe.
O
Pinto ainda existe. Negócio que passou de pai para filho, mas agora, sem o
senhor Emílio. Sei também que a perda desta ilustre figura descaracteriza e
retira o pitoresco ao espaço.
Lembrar-me da
barbearia é lembrar-me, sobretudo, do senhor Emílio. Bem-haja por todas as
gargalhadas que arrancou, apesar da demora!
Nina M.
O mundo
avança e transforma-se a um ritmo avassalador. A minha geração será a última a
ter visto o mundo a preto e branco num televisor que tinha uma caixa tremenda, um
mundo onde a lentidão e o analógico se cruzavam.
Por falar em
mundo analógico, não deixa de ser curioso como continua a cruzar-se comigo nos
dias de hoje. A Dona Lurdes, a senhora funcionária que substituiu a Dona
Carminda no seu posto, exerce as suas funções de forma tão simpática e
competente quanto a sua antecessora. A Dona Carminda, mesmo reformada, é uma
instituição dentro da ESPF, porque acompanhou várias gerações de professores e
de alunos que vieram, mais tarde, a ser professores na escola, eu inclusive.
Porém, dizia que o analógico continua a cruzar-se comigo, porque a Dona Lurdes
tirou-me muitas fotografias. Sempre que precisávamos de fotos para as
matrículas, lá íamos ao senhor Passos e, muitas vezes, era a Dona Lurdes que nos
sentava no banco alto e nos compunha o rosto, virando-o mais para a esquerda ou
para a direita, com o guarda-chuva atrás, e fazia os vários disparos que dariam
origem às fotos. Não deixa de ser engraçado que a pessoa que ocupou o lugar da
dona Carminda também me tenha visto crescer…
Naquele
tempo, a lentidão era outra. Primeiro, as fotografias demoravam oito dias a
ficarem prontas e até lá fazíamos preces para que tivéssemos ficado bem, porque
não havia possibilidade de repetir o processo. De modo que a ida ao fotógrafo
para levantar as fotos era sempre precedida por alguma angústia e quando a dona
Lurdes chegava com o envelope que continha as fotos tipo passe e uma outra,
maior, oferta da casa, um estremeção percorria o corpo. A medo, puxávamos pela
fotografia grande para avaliarmos o estrago…
Hoje, com o
mundo digital, tiramos e apagamos a vezes necessárias, espreitamos para o visor
da câmara ou para o ecrã do telemóvel para decidirmos se gostamos ou não da
carantonha que observamos todos os dias ao espelho e não parece tão mal, mas
que nas fotografias decide parecer-se com um maltrapilho…
É impossível passar pela Dona Lurdes
e não me ver sentada no banco, imóvel, a arreganhar a taxa sob as suas ordens: “ora,
agora, um sorrisinho… Isso… Trac, trac, trac… Já está!” Quem aguentaria,
atualmente, oito dias para ver as fotografias? Tudo aquilo era um processo
enigmático! Literalmente, eram tiros no escuro e muitas fotografias não se
aproveitavam! Só sabíamos do resultado, sem direito a segundas oportunidades, quando
tínhamos as fotos na mão e depois de muita espera! Era sempre uma surpresa e
nem sempre agradável. Foi assim durante muitos anos!
De repente, sem que déssemos conta,
surgiu o digital e a Internet. Em poucos anos, deixou de ser necessário ligar o
cabo ao telefone, porque o sem fios trouxe uma liberdade desejada, tal como os
telemóveis… As novas gerações jamais conhecerão o mundo como a minha geração
conheceu. Em vinte e cinco anos, a evolução foi gigantesca e continuamos a
assistir ao processo de transformação, agora, com a chegada da Inteligência
Artificial, só que, neste momento, a evolução será muito mais rápida. Tão
rápida que o homem não consegue acompanhar o ritmo para regular a utilização
das novas ferramentas. Parece estar sempre atrasado, a correr atrás do
prejuízo, porque este novo mundo suscita muitas questões éticas sobre as quais
é necessário refletir para se poder tomar uma posição. No entanto, a reflexão é
do tempo da lentidão e o mundo moderno é da vertigem e do abismo, tonando-nos
reféns da velocidade e do imediatismo.
É imperioso saber pausar. Não há
pensamento sólido no meio de um remoinho. Talvez seja importante voltar à
paciência da espera de outros tempos. Um tempo em que a chuva de verão tinha
odores e as amoras amassadas em folhas de videira tinham sabor, o tempo em que
a receção de uma carta escrita à mão criava formigueiro na barriga, em que o
verão demorava o seu tempo sem que, de repente, fosse setembro outra vez, o
tempo em que para se ver uma fotografia eram precisos oito dias, o tempo em que
o poema levava uma vida inteira dentro de um ser.
É preciso tempo para ter tempo,
porque é a única medida impossível de recuperar e a única que nos constrói.
Nina M.
Acordei assim...
Senhora de uma melancolia velha
Todo o local de
trabalho onde seja necessário lidar com pessoas, especialmente, muitas pessoas,
pode tornar-se hostil para muitos, principalmente, para os mais sensíveis.
Viver bem com o outro,
no local de trabalho, implica uma grande capacidade de empatia, a faculdade de
olhar o horizonte, bem mais longínquo do que o umbigo de cada um e a humildade
de saber que não será nem melhor nem mais fundamental do que o outro, que cada
um cumpre o seu papel e que a cooperação é sempre melhor do que a competição.
Esta só deverá existir no desporto e com tino, porque até aí, demasiadas vezes,
a coisa corre para o torto…
Acontece que, no mundo
laboral, a ganância é muita e para se ganhar dinheiro é preciso produzir muito.
Quanto mais um funcionário produzir, mais lucra a empresa e, portanto, instigar
a competição entre os funcionários, com incentivos remuneratórios para o mais
produtivo, logo, mais útil, é uma estratégia benéfica para a empresa, mas pode
ser péssima para os funcionários, dependendo da índole de cada um. Se houver
discernimento e sentido de reconhecimento do trabalho e da competência alheia,
talvez, a coabitação possa ser pacífica, mas se não existir e as pessoas forem
de rancores, o ambiente fica contaminado, mesmo havendo uma polida capa de
verniz, mas que estala ao mínimo sobressalto. Há os que se consideram sempre
injustiçados e os que invejam sistematicamente a sorte alheia, mesmo que a
recompensa não seja por aí além… Talvez fosse, teoricamente, mais interessante
e mais justo se houvesse um reconhecimento equitativo de um todo, isto é, no
caso de serem atingidos determinados objetivos, todos poderem beneficiar de um
prémio… A questão está na raça humana, porque mesmo desta forma, iria haver
aquele que não se iria empenhar tanto e, no final, receberia o mesmo… Começaria
a ser olhado de viés pelos outros que, tendo alcançado o objetivo,
considerariam injusta a gratificação do calão. De modo que as relações
interpessoais, no trabalho, vivem inquinadas. Creio que ninguém encontrou,
ainda, a solução para resolver a questão e eu também não a tenho. Creio que
focar-se mais em si e no seu trabalho sem olhar o vizinho, poderá ajudar. Quando
estas tensões persistem, podem dar origem a comportamentos menos aceitáveis,
por falta de lealdade para com os pares. Quantas histórias não se ouvem de
coisas que as pessoas são capazes de fazer para ultrapassar os outros, não
olhando a meios para alcançarem os seus fins. Não vale tudo, na vida. Não pode
valer tudo e os que usam de mesquinhez para atingir os outros, até podem
alcançar os seus objetivos, mas um coração tão enegrecido nunca conhecerá a
paz, porque esta habita apenas nas almas despojadas. Quem nada deseja, nada
perde e, portanto, sempre alcança. E viver nesta tranquilidade e com esta
despreocupação é um dos maiores bens que se pode alcançar, porque atualmente, uma
boa saúde mental não é apenas desejo, é privilégio.
Que os deuses me
continuem a bafejar com pouca libido para questões mesquinhas e me encham de
paixão para o que vale a pena. Assim, pode ser que me continuem a surgir versos
enquanto caminho, lavo pratos ou passo a ferro. Continuem a bafejar-me com o
sopro da sorte, que me retira da aborrecida realidade e do mundo cruel para me
permitir a emoção, sem perturbação, perante a beleza das coisas inúteis.
Bom domingo, sem mesquinhez.
Nina M.