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sábado, 26 de julho de 2025

Exílio

Exílio é
Ausência
Falha e
Vazio

Áspero
Íngreme e
Exíguo

Encontro é
Lume
Plenitude e
Paixão

Se no exílio
Se perde a alma
O encontro ilumina
O coração


sábado, 19 de julho de 2025

Crónica de Maus Costumes 430

 

Futuro e escolhas

            Está prestes a finalizar uma etapa para muitos alunos e a começar outra. Há alunos, ainda, em exame, seja porque precisam de uma nova oportunidade para finalizarem o secundário, seja porque entendem que precisam de melhorar a classificação a determinada disciplina, para que possam alcançar os seus objetivos.

            Sempre que saem os resultados dos exames, fazem-se estatísticas e comparam-se resultados relativamente ao ano anterior, mesmo que as circunstâncias e os intervenientes no processo sejam diferentes,  como se isso não fizesse qualquer diferença para a análise. Esta tendência de olhar para o conjunto de uma perspetiva só inquina todo o processo.

            Constatou-se que a média nacional obtida na disciplina de Português subiu e que a Matemática desceu. Pior, nesta disciplina, 48% por cento dos alunos não alcançou a positiva. É francamente negativo. Se preferirmos uma perspetiva mais otimista, pode-se dizer que 52% dos alunos alcançaram resultados positivos. Ter quase metade dos alunos com classificações inferiores a dez não é bom e é necessário analisar detalhadamente as circunstâncias para se compreender o que se passa com os jovens portugueses e a Matemática (o eterno problema).

            Raramente, situações complicadas admitem leituras e soluções simples, portanto, dispenso sempre a tendência simplista de alguns levantarem o dedo em riste à falta de estudo e de comprometimento dos alunos e ao badalado facilitismo, como únicas explicações possíveis e viáveis e sem a admissão de outras causas. Creio serem capazes de fazer melhor. Os educadores têm a obrigação de fazerem um bocadinho melhor. Contra mim, tenho um adolescente com a suas dificuldades a Matemática e pouca motivação para o seu estudo. No entanto, ainda assim, é a disciplina para a qual se tenta preparar com maior zelo, dentro do seu perfil. Quando se fala de facilitismo, no secundário, torço o nariz. Vejo bem a quantidade de exercícios que os professores de Matemática impingem aos alunos, semanalmente, para que estes treinem, porque só com treino conseguem, nalguns casos, chegar à positiva e noutros alcançarem resultados muito bons. Egoisticamente e, talvez, erradamente, os professores de Matemática tendem a queimar tudo à sua volta, isto é, a quantidade de exercícios que lhes pedem para treino é tanta que se os das outras disciplinas pedissem o mesmo, os alunos não comiam nem dormiam. Na verdade, o ideal e o que os docentes desta disciplina aconselham aos alunos é a estudar, diariamente, pelo menos duas horas, mas se forem quatro tanto melhor. Ora… Pelo que observo, as meninas cumprem. A maioria dos rapazes não o faz. Não têm essa disciplina nem essa vontade férrea.  Se falta de estudo é isto. Sim, haverá falta de estudo. Seria interessante haver uma análise comparativa entre os resultados das meninas e dos rapazes, na Matemática.

            Sem desculpar a falta de empenho de muitos, se uma disciplina só exige que quase todo o tempo de estudo lhe seja dedicado, algo não pode estar bem. Mal dos alunos se tivessem de estudar duas horas diárias para todas as outras também. Os miúdos teriam um horário pior do que a jornada de trabalho dos pais. Particularmente, gostaria mesmo que existisse um estudo comparativo entre a Matemática exigida aos alunos portugueses, no ensino secundário, com a que se exige em países como a Finlândia, a Estónia (país que tem vindo a crescer em termos de resultados escolares, tendo ultrapassado a Finlândia, sempre usada como exemplo), a Dinamarca e, depois, os países asiáticos. Questiono-me se o programa da Matemática não é demasiado ambicioso para a capacidade cognitiva de uma maioria dos alunos, nesta faixa etária. Creio ser necessário esclarecer, com rigor, este aspeto. Naturalmente, há jovens mais dotados do que outros de inteligência matemática e é necessário encontrar um equilíbrio. Honestamente, querer pôr um aluno entre os 16 e os 18 anos, com dificuldades na disciplina, a estudar 3 ou 4 horas por dia é o mesmo que exigir a um sedentário 3 ou 4 horas de exercício diário. Interrogo-me se os adultos o conseguiriam fazer de forma consistente.

            Os alunos têm outras possibilidades, pensarão. É verdade, mas também têm o azar de ambicionarem, muitas vezes, uma profissão que lhes exige terem Matemática até ao 12º ano e terem de a usar como prova de ingresso, sem que, depois, precisem dela ao longo dos cursos. Acontece com alguns cursos na área da saúde, por exemplo. É um disparate! Haverá real necessidade de um programa que condiciona tanto os miúdos nas suas opções? Num certo fórum, um colega (não sei se seria de Matemática) afirmava que a maioria da população não precisa de saber o que é uma derivada ou uma integral. Eu pensei imediatamente que a mim, tal conhecimento, não me faz falta. Aliás, derivadas, só conheço o processo de formação de palavras (aposto que a malta das matemáticas também não sabe, com rigor, do que falo) e a integral, para mim, no que concerne farinhas, sempre ouvi dizer que é melhor para a saúde! Talvez haja conteúdos dispensáveis que devem ser abordados somente nas Universidades, nas áreas específicas em que, de facto, fazem falta.

            Continuo a defender uma mudança de paradigma na organização curricular, no secundário, à luz do que acontece noutros países europeus. Há um tronco comum de disciplinas obrigatórias, entre as quais, a língua materna, a Matemática, as Ciências, o Inglês, a História, a Filosofia e Educação Física. Depois, os alunos compõem o resto do seu currículo e tanto podem ter Literatura como Física ou dança ou geometria… Enfim, urge uma maior flexibilização dos currículos, mas para o fazer é preciso aferir com rigor quais os programas a implementar e, sobretudo, que sejam compatíveis com o nível de cognição, dentro da faixa etária dos alunos. É um absurdo continuar a ter alunos de humanidades que não gostam de ler, não gostam de línguas estrangeiras nem de Filosofia ou de História e só aí estão para evitar a Matemática. É uma pena que em quarenta anos nada tenha sido alterado relativamente a estas questões. Por que razão um aluno de Ciências e Tecnologias não pode ter Literatura, se for do seu agrado, ou um aluno de humanidades, Biologia?

            Certa altura, expliquei a alunos do 12º ano que fui muito mais feliz a partir do 10º ano, porque não tinha disciplinas de que não gostasse e me causassem calafrios, mas eu sou inteiramente vocacionada para as humanidades. Aliás, é sempre a condição humana que me apaixona. Portanto, a escolha da área foi óbvia. Porém, não tem de ser assim tão estanque. Não há razões para se obrigar os alunos a uma escolha definitiva tão cedo, sabendo-se que estas novas gerações são muito mais imaturas.

            Aos alunos que, ainda, prestarão provas, que a sorte vos sorria! Não se esqueçam: a sorte também dá algum trabalho.

 

Nina M.

           

 

sábado, 12 de julho de 2025

Crónica de Maus Costumes 429

 

Há dias horríveis para serem vividos

 

Propositadamente, deixei passar o tempo. Não liguei a televisão, nesses dias. Normalmente, não ligo e assim me mantive. O que me chegou foi, essencialmente, através das redes sociais, cada vez mais escabrosas, cada vez mais usadas para que pessoas desassossegadas desassosseguem outros, entendendo que podem maltratar a torto e a direito, que podem ser juízes sem formação para tal, numa falta de respeito e de voyeurismo em relação à vida alheia que fere.

Eu quedo-me atónita, interrogando-me. Questiono, silenciosamente, o motivo que conduz a certas posturas de gente adulta, sem que parem um segundo para olhar para si mesmas! Gente tão segura de si e da sua perfeição! Invejável ou talvez não. Foi com gente assim que a Inquisição e a PIDE se fortaleceram. Gente cheia de si, que não vacila um segundo e é muito lesta a fazer juízos de valor sobre tudo e sobre todos, mesmo desconhecendo os contornos e as circunstâncias. Acaso os conheçam… Porventura, alguém os investiu de derradeiros pilares da moralidade alheia? É com essas boas intenções que vemos certos países a criarem a polícia da moralidade e dos bons costumes, que punem mulheres em praça pública por se atreverem a mostrar os cabelos sedosos e, então, se forem adúlteras, mesmo que seja porque se apaixonaram e querem sair de um relacionamento para o qual a sua vontade não foi convocada, são apedrejadas até à morte, pelos próprios pais e irmãos, nascidos, imagine-se de um ventre de mulher! Isto não é cultura! Isto é a barbárie e aceitar esta forma medieval de vida, no século XXI, é cair num relativismo moral ofensivo. Não se indignam as entranhas dos diletos moralistas, com horror, contra estas situações, mas a alegada ausência de Cristiano Ronaldo no funeral do amigo serviu para fazer manchetes, explorar vergonhosamente o que não deveria ser explorado, numa hora de profunda dor que será eterna para os familiares mais próximos, especialmente, pais, esposa e filhos.

Procurei não ler grande coisa, mas as línguas viperinas fizeram-se sentir. Houve três aspetos que me chocaram, para além da morte extemporânea dos irmãos, que todos entristeceu, até os moralistas de plantão: primeiro, a oblituração de André Silva. Parecia e continua a parecer que só o Diogo Jota partiu, quando os pais tiveram a miserabilíssima dor de perder dois filhos. Para estes pais, independentemente de André ser menos conhecido, tem o mesmo valor de Diogo. A dor é a mesma. É muita. É irrazoável. É eterna. Escrevo isto com os olhos rasos de água. Vi o sofrimento de uma colega a quem aconteceu o mesmo. Só de pensar que a vida pode ser madrasta comigo e fazer-me algo parecido, sinto-me falecer. É, portanto, de uma imbecilidade atroz, de uma falta de sensibilidade tremenda e de uma ambição cruel e ensejo de mediatismo falar-se constantemente de Jota e esquecer-se André Silva. O único aspeto positivo disso seria maior sossego para uma possível companheira, esposa ou namorada de André, que não sei se existe. Em segundo lugar, o circo mediático que fazem de um momento de dor, com, ao que parece, as televisões a apontarem as câmaras para o momento das exéquias, fazendo uma cobertura jornalística integral desse momento, controlando quais os craques de futebol que marcaram presença e os que não apareceram. Querer reportar a notícia do funeral seria normal, já não será tão admissível fazer uma cobertura das 10h00 às 17h00, como se nada mais houvesse para dar a conhecer… Só por mera coincidência, iniciava-se também o julgamento de José Sócrates. Um momento de recolhimento, em que a família precisa de silêncio, assiste-se à exploração da dor ad nauseam. Por último, o julgamento imediato de Cristiano Ronaldo por, alegadamente, não ter comparecido. O rapaz foi crucificado instantaneamente. O pior é que Ronaldo seria castigado de ambas as formas. Se tivesse comparecido e houvesse gente falha de juízo (e não falta por aí) ainda invadiriam as cerimónias para arrancar autógrafos e fotografias ao capitão. A própria imprensa haveria de o aborrecer até conseguir umas declarações. Logo, se o fizesse, seria um egoísta, um vaidoso que foi retirar as atenções  e a justa homenagem aos irmãos. Como não compareceu, as críticas surgiram do mesmo modo. É um vaidoso, um arrogante, demonstrou falta de respeito e por aí fora. Até houve aqueles que sugeriam, quais justiceiros encarniçados, a imediata retirada da braçadeira ao capitão. Se Jota estiver assistir a este circo, levará as mãos à cabeça pelo disparate e, sobretudo, pelo facto de as pessoas não perceberem que, neste momento, a única coisa que importa é a dor inconsolável dos seus! Que diabo! É assim tão difícil de compreender isto? Alguém sabe das razões de Ronaldo? Alguém sabe o que ele combinou e conversou com a família de Jota?! Metam-se na vossa vidinha e deixem de ser coscuvilheiros!

Para terminar a minha indignação perante certos comportamentos, lembro que quando a dor é profunda, ninguém quer saber quem está ou deixou de estar no funeral! Tantas vezes as pessoas medicadas, anestesiadas, num cenário de morte inesperada, nem se apercebem das presenças. Muitas vezes, isso é o mais dispensável. A verdadeira cruz da família começa agora. A partir daqui, a presença dos mais íntimos é a indispensável e esta só a eles diz respeito. Não têm de o relatar publicamente. É inadmissível o assassinato de caráter que se faz nas redes sociais com a complacência da comunicação social e a falta de inteligência emocional de uma boa parte que gosta de opinar!

Ao olhar para isto, percebo a bênção do anonimato. Respiro fundo.

 

Nina M.

sábado, 5 de julho de 2025

Crónica de Maus Costumes 428

 

Cortes e cabelo

               Os meus filhos riem-se, muitas vezes, com as histórias de infância dos progenitores. Creio que ficam meio incrédulos com algumas peripécias e, talvez, a cogitar para eles mesmos sobre a veracidade do que lhes é contado, abanando a cabeça, como quem pensa para si que éramos uns pobres diabos, com uma infância deplorável, porque não tínhamos computadores nem telemóveis e que as nossas brincadeiras eram disparatadas e parvas.

               Esta semana, quando a propósito de uma ida ao barbeiro do meu mais velho, lhes disse que na altura em que os tios eram ainda mais novos do que eles, só existiam dois barbeiros na cidade, arregalaram os olhos. Hoje, há um barbeiro em cada esquina.

               Expliquei-lhes que a ida ao barbeiro representava uma tarde perdida. A avó aproveitava a ocasião e levava os dois filhos de uma vez, o que significava chegar à barbearia às 14:00 e ir embora às 17:00 horas, apenas. Tive de lhes explicar o motivo da demora: antes de mais, o cabelo era cortado apenas à tesoura e, na barbearia do senhor Pinto, trabalhavam somente dois barbeiros, o próprio dono e o senhor Emílio. Acontece que este último trabalhava mais com a tesoura no ar, tchic, tchic, tchic, do que no cabelo! A cada cortadela, erguia a tesoura, com toda a sua sapiência, cortando o ar às fatias, enquanto conversava com a clientela! Aquilo era um autêntico fórum onde os homens conversavam sobre tudo, desde a atualidade política, passando por carros e futebol. Talvez conversassem sobre mulheres, se não estivesse lá alguma. Assunto que nunca ouvi, porque sempre que estava presente era na companhia da minha mãe, mulher de família, com os dois filhos rapazes e eu. Ora… Suspeito que fizessem um esforço por dobrar a língua e evitassem certos e determinados assuntos em frente a uma senhora e a sua prole.

               Eu embirrava um bocadinho com o senhor Emílio, homem de metro meio, baixinho e magrito que sempre se metia comigo e jurava que me ia cortar o cabelo igual ao dos meus irmãos! Imediatamente, abanava a cabeça em sinal de desacordo, antes que a sua tesoura, em vez de fazer as acrobacias no ar, viesse poisar sobre a minha cabeça. Ele era o que se podia chamar de pica miolos. Naquele tempo, pousava por lá a Luisinha, a menina adolescente que tinha trissomia 21 e que era apaixonada pelo filho do senhor Pinto, rapaz novo, e a quem o senhor Emílio moía a paciência, porque inventava namoradas ao moço, só para acicatar o ciúme da jovem. A Luisinha ficava furiosa, por o ouvir dizer que o estroina estivera com outra miúda e que a andava a enganar. A menina discutia e zangava-se, amofinava, entristecia e quase chorava enraivecida, enquanto aquele malandro se ria, juntamente com a clientela. Quando via a Luisinha já muito triste e aflita, depois de a aborrecer um bom pedaço, lá acabava por dar o dito pelo não dito e a jurar que só estava a brincar e que o rapaz gostava dela e não tinha mais namorada nenhuma. Num esforço inverso, lá tratava de convencer a rapariguinha e jurar-lhe a pés juntos que o moçoilo só tinha olhos para ela. Nada disso era com maldade. A Luisinha era conhecida e acarinhada por todos. O senhor Emílio é que gostava de lhe torrar a paciência. De modo que com estas conversas com os clientes e atuações, o homem falava mais do que cortava cabelos e fazia a tesoura tinir no ar variadas vezes, antes de se decidir a usá-la na cabeça dos que lá iam. O senhor Emílio tinha, ainda, outro desplante maior… Creio que, hoje, seria demitido por justa causa. Quando se lembrava, principalmente, no tempo do calor, virava-se para o cliente sentado na cadeira, abotoado com a bata, com o cabelo meio cortado e meio por cortar e dizia: “Só um bocadinho… Eu volto já!” Pousava a tesoura sobre a bancada e zarpava barbearia fora. Ia enfiar-se no tasco ao lado, onde pedia um fino para matar a sede e por lá se demorava até esgotar o líquido que se encontrasse no copo. Era menino para fazer isto com todos os clientes que lhe viessem parar à cadeira!

               O mais extraordinário era o silêncio cúmplice do patrão e dos clientes. Ninguém dizia nada ao senhor Emílio, a coqueluche da barbearia e de quem todos gostavam e se riam com a sua boa disposição! Fazia o que lhe apetecia. Não admira, portanto, que a clientela se apinhasse nos sofás e que uma ida ao barbeiro empenhasse uma tarde inteira a uma pessoa.

Eu aborrecia-me de morte, sempre a perguntar à mãe quando seria tempo de irmos embora! Não havia previsão possível.

               Quando o senhor Monteiro se estabeleceu, o terceiro barbeiro, na altura, foi o gáudio e a alegria dos mais apressados. Este oferecia uma nova vantagem… Assim que os clientes alapassem o rabo na cadeira, ele despachava-os em vinte minutos! Escusado será dizer que, ao fim de um certo tempo, os meus irmãos passaram para a tesoura do senhor Monteiro e eu, não sei por que razão, pude deixar de os acompanhar ao suplício, até à altura em que já iam ambos sozinhos, sem precisarem sequer da dileta companhia da mãe.

               O Pinto ainda existe. Negócio que passou de pai para filho, mas agora, sem o senhor Emílio. Sei também que a perda desta ilustre figura descaracteriza e retira o pitoresco ao espaço.

Lembrar-me da barbearia é lembrar-me, sobretudo, do senhor Emílio. Bem-haja por todas as gargalhadas que arrancou, apesar da demora!

 

Nina M.

              

 

 

 

 

 

 

 

              

 

 

 

sábado, 28 de junho de 2025

Crónica de Maus Costumes 427

 

A lentidão urge no caos

 

            O mundo avança e transforma-se a um ritmo avassalador. A minha geração será a última a ter visto o mundo a preto e branco num televisor que tinha uma caixa tremenda, um mundo onde a lentidão e o analógico se cruzavam.

            Por falar em mundo analógico, não deixa de ser curioso como continua a cruzar-se comigo nos dias de hoje. A Dona Lurdes, a senhora funcionária que substituiu a Dona Carminda no seu posto, exerce as suas funções de forma tão simpática e competente quanto a sua antecessora. A Dona Carminda, mesmo reformada, é uma instituição dentro da ESPF, porque acompanhou várias gerações de professores e de alunos que vieram, mais tarde, a ser professores na escola, eu inclusive. Porém, dizia que o analógico continua a cruzar-se comigo, porque a Dona Lurdes tirou-me muitas fotografias. Sempre que precisávamos de fotos para as matrículas, lá íamos ao senhor Passos e, muitas vezes, era a Dona Lurdes que nos sentava no banco alto e nos compunha o rosto, virando-o mais para a esquerda ou para a direita, com o guarda-chuva atrás, e fazia os vários disparos que dariam origem às fotos. Não deixa de ser engraçado que a pessoa que ocupou o lugar da dona Carminda também me tenha visto crescer…

            Naquele tempo, a lentidão era outra. Primeiro, as fotografias demoravam oito dias a ficarem prontas e até lá fazíamos preces para que tivéssemos ficado bem, porque não havia possibilidade de repetir o processo. De modo que a ida ao fotógrafo para levantar as fotos era sempre precedida por alguma angústia e quando a dona Lurdes chegava com o envelope que continha as fotos tipo passe e uma outra, maior, oferta da casa, um estremeção percorria o corpo. A medo, puxávamos pela fotografia grande para avaliarmos o estrago…

            Hoje, com o mundo digital, tiramos e apagamos a vezes necessárias, espreitamos para o visor da câmara ou para o ecrã do telemóvel para decidirmos se gostamos ou não da carantonha que observamos todos os dias ao espelho e não parece tão mal, mas que nas fotografias decide parecer-se com um maltrapilho…

É impossível passar pela Dona Lurdes e não me ver sentada no banco, imóvel, a arreganhar a taxa sob as suas ordens: “ora, agora, um sorrisinho… Isso… Trac, trac, trac… Já está!” Quem aguentaria, atualmente, oito dias para ver as fotografias? Tudo aquilo era um processo enigmático! Literalmente, eram tiros no escuro e muitas fotografias não se aproveitavam! Só sabíamos do resultado, sem direito a segundas oportunidades, quando tínhamos as fotos na mão e depois de muita espera! Era sempre uma surpresa e nem sempre agradável. Foi assim durante muitos anos!

De repente, sem que déssemos conta, surgiu o digital e a Internet. Em poucos anos, deixou de ser necessário ligar o cabo ao telefone, porque o sem fios trouxe uma liberdade desejada, tal como os telemóveis… As novas gerações jamais conhecerão o mundo como a minha geração conheceu. Em vinte e cinco anos, a evolução foi gigantesca e continuamos a assistir ao processo de transformação, agora, com a chegada da Inteligência Artificial, só que, neste momento, a evolução será muito mais rápida. Tão rápida que o homem não consegue acompanhar o ritmo para regular a utilização das novas ferramentas. Parece estar sempre atrasado, a correr atrás do prejuízo, porque este novo mundo suscita muitas questões éticas sobre as quais é necessário refletir para se poder tomar uma posição. No entanto, a reflexão é do tempo da lentidão e o mundo moderno é da vertigem e do abismo, tonando-nos reféns da velocidade e do imediatismo.

É imperioso saber pausar. Não há pensamento sólido no meio de um remoinho. Talvez seja importante voltar à paciência da espera de outros tempos. Um tempo em que a chuva de verão tinha odores e as amoras amassadas em folhas de videira tinham sabor, o tempo em que a receção de uma carta escrita à mão criava formigueiro na barriga, em que o verão demorava o seu tempo sem que, de repente, fosse setembro outra vez, o tempo em que para se ver uma fotografia eram precisos oito dias, o tempo em que o poema levava uma vida inteira dentro de um ser.

É preciso tempo para ter tempo, porque é a única medida impossível de recuperar e a única que nos constrói.

 

Nina M.

 

 

 

 

              

 

 

 

quarta-feira, 25 de junho de 2025

Melancolia velha

Acordei assim...

Senhora de uma melancolia velha
Trazida pelo cansaço
Não me segurem pela mão
Hoje, sou sozinha.
Doente de solidão
Doente de um fim qualquer..

Não me alegram intenções
Nem me ocorrem pensamentos felizes
Mesmo as ideias felizes se entristecem
Hoje, no meio da neblina...
Eu...Que nasci com um sol dentro...

Haverias de te espantar...
Tu, que me conheces as entranhas,
Ao adivinhares o meu sorriso triste
Pela falta de luz nos olhos

Estou como o tempo
Cinzento e enfadonho
A pegar-me a inércia à alma
A ver-se o avesso de mim...

E não me perguntes por razões
Se não houver cura para o vazio
Ele lá fica. Imóvel, inerte e inútil
Quem soubesse que uma inutilidade
Poderia ser tão incómoda!

Deixa para lá. Não me ouças.
Acordei com um cobertor curto, hoje,
Tecido de soturnidade.
Amanhã, há de ser verão
E ouvir-se-ão os pássaros.





sábado, 21 de junho de 2025

Crónica de Maus Costumes 426

 

Mesquinhez e egos

               Todo o local de trabalho onde seja necessário lidar com pessoas, especialmente, muitas pessoas, pode tornar-se hostil para muitos, principalmente, para os mais sensíveis.

               Viver bem com o outro, no local de trabalho, implica uma grande capacidade de empatia, a faculdade de olhar o horizonte, bem mais longínquo do que o umbigo de cada um e a humildade de saber que não será nem melhor nem mais fundamental do que o outro, que cada um cumpre o seu papel e que a cooperação é sempre melhor do que a competição. Esta só deverá existir no desporto e com tino, porque até aí, demasiadas vezes, a coisa corre para o torto…

               Acontece que, no mundo laboral, a ganância é muita e para se ganhar dinheiro é preciso produzir muito. Quanto mais um funcionário produzir, mais lucra a empresa e, portanto, instigar a competição entre os funcionários, com incentivos remuneratórios para o mais produtivo, logo, mais útil, é uma estratégia benéfica para a empresa, mas pode ser péssima para os funcionários, dependendo da índole de cada um. Se houver discernimento e sentido de reconhecimento do trabalho e da competência alheia, talvez, a coabitação possa ser pacífica, mas se não existir e as pessoas forem de rancores, o ambiente fica contaminado, mesmo havendo uma polida capa de verniz, mas que estala ao mínimo sobressalto. Há os que se consideram sempre injustiçados e os que invejam sistematicamente a sorte alheia, mesmo que a recompensa não seja por aí além… Talvez fosse, teoricamente, mais interessante e mais justo se houvesse um reconhecimento equitativo de um todo, isto é, no caso de serem atingidos determinados objetivos, todos poderem beneficiar de um prémio… A questão está na raça humana, porque mesmo desta forma, iria haver aquele que não se iria empenhar tanto e, no final, receberia o mesmo… Começaria a ser olhado de viés pelos outros que, tendo alcançado o objetivo, considerariam injusta a gratificação do calão. De modo que as relações interpessoais, no trabalho, vivem inquinadas. Creio que ninguém encontrou, ainda, a solução para resolver a questão e eu também não a tenho. Creio que focar-se mais em si e no seu trabalho sem olhar o vizinho, poderá ajudar. Quando estas tensões persistem, podem dar origem a comportamentos menos aceitáveis, por falta de lealdade para com os pares. Quantas histórias não se ouvem de coisas que as pessoas são capazes de fazer para ultrapassar os outros, não olhando a meios para alcançarem os seus fins. Não vale tudo, na vida. Não pode valer tudo e os que usam de mesquinhez para atingir os outros, até podem alcançar os seus objetivos, mas um coração tão enegrecido nunca conhecerá a paz, porque esta habita apenas nas almas despojadas. Quem nada deseja, nada perde e, portanto, sempre alcança. E viver nesta tranquilidade e com esta despreocupação é um dos maiores bens que se pode alcançar, porque atualmente, uma boa saúde mental não é apenas desejo, é privilégio.

               Que os deuses me continuem a bafejar com pouca libido para questões mesquinhas e me encham de paixão para o que vale a pena. Assim, pode ser que me continuem a surgir versos enquanto caminho, lavo pratos ou passo a ferro. Continuem a bafejar-me com o sopro da sorte, que me retira da aborrecida realidade e do mundo cruel para me permitir a emoção, sem perturbação, perante a beleza das coisas inúteis.

Bom domingo, sem mesquinhez.

 

Nina M.