Seguidores

terça-feira, 14 de setembro de 2021

Descida ao inferno

Quem desce ao inferno vai só.

Permanece só

E se o abandonar, regressa só.

É solidão que mata pela ausência

Do ser amado.

Nenhuma mão pode travar

A queda vertiginosa 

Paradoxalmente desejada

Porque no lodo do fundo da alma,

Na mais profunda dor,

Se encontra a verdade, 

A desolação destruidora, amante do cinismo.

Um absurdo sem retorno ou redenção

Uma alma cega, surda e muda,

Uma alma morta e desfeita

Partida em ínfimos pedaços 

De impossível reparação.

O inferno é isto.

Se dele se regressa, 

É-se ténue lembrança de quem se foi,

De carcaça rija a amparar indiferente

Os golpes e as dores da existência...

Porque a dor maior ficou lá caída,

Último grito de resistência.

Porque o inferno é isto...

sábado, 11 de setembro de 2021

Crónica de Maus Costumes 245

 

O limite de cada dor é uma dor maior (Émile Michel Cioran)

 

Não podia, pela razão que alguns conhecerão, deixar de prestar a minha sincera solidariedade e o meu profundo pesar a todos os pais que perderam um filho. Não me ocorre nada pior que possa afetar tanto a sanidade de uma mãe ou de um pai. Quando tal acontece é a realização do nosso maior receio. É o meu medo maior. Será o de tantos outros.

Ao longo da minha vida, já fui várias vezes confrontada com esta injustiça. O primeiro caso de que tenho memória foi com um primo (filho do meu padrinho), que morreu afogado no rio. Eu era miúda e tenho memória da mãe do meu primo Nuno, que veio uns dias para minha casa, a convite da minha mãe, por certo. Apática, de preto integral, sentada numa cadeira e de olhar parado por detrás dos óculos grossos, enquanto a minha avó Matilde, que morou connosco depois do desaparecimento do meu avô, tentava fazer com que reagisse, supervisionando os afazeres na cozinha. Não lembro mais nada, mas tenho esta imagem gravada. Sem compreender a dimensão, sabia que a Maria Emília estava lá pela tristeza de ter perdido o Nuno.

Hoje, sendo mãe, compreendo o alcance de tamanha dor. Não era tristeza. Era destruição, vazio profundo e absurdo. É muito difícil combater o absurdo e quando a vida contraria a lei natural e nos retira o chão sobra quase nada.

Mais tarde, assisti à infelicidade dos colegas com quem trabalhei, que perderam os dois filhos que tinham (um rapaz e uma rapariga), num acidente de viação, no IP4. Os irmãos viajavam no mesmo carro. O mesmo olhar perdido, a mesma ausência de sentido, a procura da filha no casaco dela e que agora a mãe vestia, como quem a resgata ao infinito…

Recentemente, um amigo de longa data que perde o único filho, por motivo de doença prolongada. Sinto o mesmo pesar, a mesma incapacidade e a mesma impotência para ajudar, porque tudo me parece débil, inócuo e em vão. Não há palavras nem gestos que levem a dor embora ou que curem o sofrimento e cubram o vazio. Acredito que o absurdo só pode ser curável pelo amor, mas mesmo este me parece falível em tamanha dor. Talvez ajude a resistir… Sei apenas que esta fatalidade exige uma coragem imensa e uma vontade férrea para suportar a dor dos dias, para reaprender a viver, para aceitar a perda, para viver no sofrimento até ser capaz de o transformar em saudade apaziguada e ninguém sabe como fazer… Creio que só mesmo o tempo será o agente não do esquecimento, mas da aceitação e da resignação… Depois… O que cada um faz dessa fatalidade dependerá da sua personalidade. Há quem ceda ao cinismo e à amargura, há quem desista da vida, há quem use a experiência para ajudar outros que passam pelo mesmo processo, há quem consiga encontrar algum sentido e vencer o absurdo, enfim… É sempre uma resposta pessoal, sem haver certo ou errado, apenas pessoas que tentam sobreviver o melhor que podem e como sabem.

Desta forma, não hesitei um segundo em assinar a petição que circula nas redes sociais a solicitar mais dias de nojo para estas perdas. Esse tempo extra que é pedido não vai curar a alma dos progenitores, mas talvez lhes possa dar o tempo de que necessitam para se reorganizarem internamente, em busca da sua reconstrução.

Pede-se respeito e compaixão. Compaixão não no sentido da simples comiseração, mas no sentido para o qual a decomposição da palavra aponta (com +  paixão), ou seja, com passionis, étimo latino que significa ação de sofrer, de suportar, remetendo para a Paixão de Cristo. Assim, sentir compaixão, no sentido de sofrer com os que sofrem ou se quisermos seguir o modernismo linguístico em voga, sermos empáticos com o outro e a sua dor.

O limite de cada dor é uma dor maior, diz Cioran. Estes pais atingiram o limite do limite, porque não há dor maior.

 

Nina M.

 

 

 

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Perda

 A vida nem sempre é milagre belo

Se os trilhos se embaraçam e nos confundem

E as implacáveis rodas do tempo esmagam

As flores singelas ainda mal nascidas 

Dor aguda, sentido desfeito

Um vazio enlutado dentro do peito

Fere a revolta de luta perdida

Esmigalha a vida o homem com o seu peso

Ao ver acordar um novo dia na vida

Sabê-lo sempre triste e nunca ledo

Neste desterro de sofrimento perene

Permitam os deuses a emoção

de passo a passo dia a dia

Poder reencontrar a alma em combustão


A Miguel Torga

 Duro douro vinhateiro de socalcos

 Plantado à força da enxada

Sustentas as montanhas

Com as tuas leiras...

Erguem-se ao céu em oferenda aos deuses

o néctar sato extraído pelas mãos

Sagradas do Homem às cepas viçosas

Monte engalanado pela vinha

Até onde os humanos olhos alcançam visão

E no meio desta dureza um canto urgente:

O poeta a elevar a voz que lhe vem do coração



Crónica de Maus Costumes 244

 

Revisitações

Hoje, viajei no tempo. Adentrei nas minhas memórias e adentrei na História do país. Recuei 20 anos e em simultâneo remontei à época dos romanos.

Visitei a belíssima Acqua Flaviae e descobri-lhe outro olhar. Ferida pelo Tâmega, erige-se colina acima, mantendo parte das suas muralhas históricas, a lembrar séculos de vigilância do alto da sua torre. Intocável e invencível. Qual coroa cimeira com a cidadela de vielas estreitas e casario colorido (a lembrar-me a beleza da Ribeira, da Invicta. Só Florença me causa essa impressão).

Hoje, não fui ao "quarto escuro" nem ao Faustino e nem ao "Ar de bar" nem à "Livreiro" (a livraria que era do costume). Não deixei de sorrir ao perceber ainda a existência de "O Príncipe" e de o "A romana". Lugares frequentados em tempos e que se mantêm de pé, apesar do tempo, a lembrar a minha própria duração...

Hoje, Chaves tinha outra luz e outro olhar... O sol brilhava a pique, cruzado com o brilho dos olhos dos meus filhos... Sem a neblina terrível de inverno que a gelam e a tornam agreste. Hoje, o sol queimava a ponte romana de Trajano, intacta, solene e altiva. Bastião do império e um dos baluartes flavienses, a par com o Forte de S. Francisco... Guardiões de uma História rica de valentia e de episódios castiços... Repentinamente, eram as segundas Invasões Francesas ou a implantação da República. Só no resto de Portugal, porque à cidade fronteiriça ela (a República) chegaria apenas dois anos mais tarde e, mesmo assim, Paiva Couceiro não descansou e tentou inverter a História. Os Paços da Cidade a ladear a grande torre, de frente para a praça e para as vielas, vigilantes, a ver quem passa. Aos pés, o espelho de água, as poldras, as Caldas, enfeitados pelo verde dos belíssimos jardins e parques... A casa onde outrora vivi, com o meu nome inscrito, como se aguardasse a visita que tardou... 

A cidade estava mais bela ou o meu olhar mais atento e melancólico. Um tempo que não volta, mas que se inscreveu na memória... E esta, sempre seletiva, escolhe guardar as boas recordações. Recordar é viver, porque significa literalmente voltar ao coração.

Quem não a conhece não sabe o que perde.

Há cidades pequeninas lindíssimas e acolhedoras, no nosso país. Chaves é uma delas e merece que lhe pousem o olhar.

Nina M.


segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Abandono

Encontram-me nos teus

Nos meus silêncios 

Nos espaços e tempos

Indefinidos, invisíveis e longínquos 

Na ausência do mundo 

No doce marulhar das águas 

Abrilhantado pelo sol

Na palavra suspensa

De um reino silencioso

Onde apenas a curva de um olhar

Semeia entendimentos

Às vezes pardo e vazio de crença  

Outras grávido de esperança 

Como um povo votado ao esquecimento

O meu reflexo na negrura transparente

A esperança sempre a esperança 

Que perscruta como quem sabe

Do abandono 

Por fim... Só desalento e impotência.




sábado, 28 de agosto de 2021

Crónica de Maus Costumes 243

 

Regressos

O final de agosto é tempo de voltar à rotina para a maioria dos portugueses. Novo ano letivo se aproxima e as férias terminam. É tempo de regressos, reinícios ou novas experiências, nalguns casos.

Para mim, será um feliz regresso. Desejo a todos aqueles que iniciam uma nova etapa laboral ou que apenas retomam a sua atividade habitual as maiores felicidades. Certamente, a  vacinação massiva da população dará os seus frutos e este ano será menos atribulado do que o últimos dois anos letivos (para mim, o tempo rege-se mais pelo calendário escolar do que pelo civil). Segundo a DGS, “entre janeiro e 8 de agosto de 2021, foram identificados 16.671 casos de infeção em 5.467.487 pessoas com esquema vacinal completo contra a COVID-19 há mais de 14 dias.” Significa que apenas 0,3% das pessoas vacinadas contraíram o maldito vírus. Mesmo não sendo totalmente eficaz, há uma ótima margem de segurança. Os casos que acompanhei de pessoas vacinadas que contraíram o vírus manifestaram-se felizes por terem as duas doses da vacina, porque nuns casos os sintomas foram ligeiros e noutros as pessoas foram assintomáticas, mesmo os idosos. Boa notícia para o SNS que não verá os serviços sobrelotados, bom para os portugueses que não precisarão de adiar os tratamentos de outras doenças nem de lidar com o número de mortos do inverno passado. Será bom para economia, pais, alunos e professores. Finalmente, recuperaremos a normalidade, apesar de ainda haver cuidados a ter.

Se o mundo pode tranquilizar um pouco mais com estes dados, não deveria fechar os olhos à crueldade. Em meia-dúzia de dias, os talibãs tomaram Cabul, após a retirada dos Estados-Unidos da América. Entre 1996 e 2001, estes fundamentalistas islâmicos espalharam o terror e oprimiram a mulher. A crueldade parece não ter fim à vista e é certo que o exército americano não pode permanecer no território indefinidamente, apesar de ter a sua responsabilidade na situação vivida. Também muniram os talibãs de armamento aquando do domínio russo. Porém, a sua presença nos últimos vinte anos permitiu às mulheres terem a liberdade de ser, o direito à existência. Agora, foram novamente votadas ao esquecimento e ao desaparecimento, como se não fossem elas grande força social. Não há homem que não tenha vindo do ventre sagrado da mulher. Eis a verdade que incomoda e tanto ofende. Sei apenas que não se pode votar aquela gente ao abandono e que talvez não se consiga nada sem o auxílio de outros países árabes circundantes, por quem os fundamentalistas são financiados. Não vejo como resolver a questão num país onde o sentido da vida ainda reside na oferta da própria existência em nome de um Deus de grandeza, conquistador e opressor. Os cristãos também tiveram os seus cruzados. O interesse económico tirou proveito do fundamentalismo. E eu olho aqueles grupos tribais, as diferentes fações do mundo islão e parece-me estar num filme passado na Idade Média. O mundo ocidental fez uma caminhada difícil ao longo dos séculos, de mãos dadas com a ciência, rejeitando os fundamentalismos religiosos e o obscurantismo sem fundamento. Assim se terminou com a maior vergonha da Igreja Católica: o Tribunal do Santo Ofício. Religiosos que mais não foram do que vendilhões do templo. Demónios que subverteram a palavra de amor deixada por aquele em cujo nome agiam. Homens que destroem a Igreja e que a afastam da Ideia de Deus. É bom que os cristãos não fechem os olhos a esta vergonhosa mácula, que percebam as atrocidades indesculpáveis, cometidas de forma injusta e aviltante. É bom que saibam que também carregam sangue inocente nas mãos para que o percurso de hoje possa ser limpo, para que a verdadeira palavra de amor que o Novo Testamento trouxe faça sentido. É bom que o cristão perceba que se exclui e rejeita o inocente perseguido, está a rejeitar a mensagem em que diz acreditar. Receber os refugiados (homens, mulheres e crianças) é, antes de mais, um dever humanitário de consciência e também um valor cristão. Quem não o souber claramente, então, não é nem humano nem cristão. Já agora, acrescento ainda que é perfeitamente possível ser-se humano sem ser cristão, mas ser cristão sem ser humano é uma hipocrisia e uma falácia.

Há discursos que são dispensáveis e que só instigam ao ódio. Às questões colocadas sobre os homens que ocupam os aviões em vez de mulheres, será bom relembrar que são aqueles que não partilham da visão fundamentalista islâmica, que colaboraram com as forças internacionais, intelectuais, políticos, jornalistas e ativistas que fogem de uma possível decapitação. Será assim difícil colocar-se no lugar do outro? À falácia vergonhosa de quem pergunta em tom jocoso e de certo regozijo onde andam as feministas e porque não vão reivindicar para o Afeganistão, ou por que razão não pintam os lábios de vermelho, só me apetece dizer-lhes uma coisa muito feia, que não posso escrever para não ser mal-educada. A defesa da dignidade e da liberdade da mulher é transversal a todas: europeias, africanas, asiáticas, americanas ou oceânicas.

O assunto é demasiado sério para ser tratado com essa leviandade e para se politizarem e polarizarem os discursos. É essa sordidez e baixeza moral que me incomoda nos meandros da política. Em tempo de crise e de atentado à humanidade, a única ação decente é tentar ajudar os que precisam.

 

Nina M.