Seguidores

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Quase te sonhei

Quase te sonhei 
(Nunca me lembro de sonhar)
E tão real se me figurava
Que te fugia sem fugir
E te tinha sem te ter
No vazio do desejo e da ilusão
Tal era fome e a sede e em brasa
Que me acordaste num verso
Tudo o que podes ser em mim: sonho!
Sem fronteiras de realidade casta
Uma outra dimensão um outro mundo
Despovoado e pleno porque o habitas
Inconsequente inocente e feliz
Cruzasse o tempo  portas, vidas,
Espaços secretos
Seríamos crianças a correr livremente
No areal molhado sob o sol
Nesse particular instante do encontro
Acordo... Tudo se dissipa
Exceto a verdade de um quase sonho
Uma saudade serenamente contida

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Ouço a noite nas luzes amareladas

Ouço a noite nas luzes amareladas
Que trazem a saudade com o lusco-fusco
De um tempo que já não é mas não deixou de ser
Em contraciclo contracorrente e em contramão 
Sempre contra qualquer coisa
Como se nascêssemos pelo inverso
Na essência errada das coisas e dos seres
Sobra a angústia e o vazio
O pré-aviso de verso que se vai soltar
A insolvência de quem já se despojou
Fere violentamente a folha em branco imaculada
Surgem como quem rasga a alma os versos de ninguém
Surpreendidos da sua existência e ambicionando o além
Não sabem da sua origem nem da saudade nem do tempo
Vagos e confusos, perdidos
Alimentam-se das palavras que os formam
Namoram-nas... Vã cobiça...
Quedam-se deitados na letargia de um poema

sábado, 1 de agosto de 2020

Crónica de Maus Costumes 193


Má-educação, intolerância e falha democrática

                Há alguma gente que conheço que não usa o facebook. Sei que o Nuno Markl, por exemplo, abandonou a rede social, tendo explicado os seus motivos. Eu resisti muito à moda, mas por fim lá me convenceram das suas virtudes. Devagarinho fui aderindo e percebendo melhor o seu funcionamento, com as suas virtudes e os seus defeitos.
                Na verdade, a rede, em si, nem é boa nem é má. O uso que dela fazemos é que o determina, mas compreendo perfeitamente o Markl e as pessoas que não a querem usar. Não falo dos mais jovens, porque esses gostam cada vez mais gostam do imediato da imagem e preferem o Instagram. O facebook é a rede social dos mais velhos, como os meus filhos fazem questão de dizer. Para mim, a sua grande vantagem em relação às outras é permitir o texto. Hoje, são poucos os que leem e os que escrevem e, no entanto, o discurso escrito é, à partida, mais pensado, mais mastigado, havendo lugar para o tempo e afastando o instantâneo. Talvez  por isso, apesar das sugestões dos pequenos, não queira saber do Insta, diminutivo redutor com que designam essa rede. No entanto, há coisas que me aborrecem e que me preocupam no facebook: a questão da privacidade e dos dados. A verdade é que Orwell foi um visionário. Parece que estamos todos num Big Brother, espiados a todo o instante. Se cairmos na tentação de abrir uma janela que publicita a venda de máscaras, irá aparecer no nosso mural mais vinte anúncios semelhantes. Creio que o facebook saberá mais dos meus interesses do que alguns elementos da minha família! Depois, o que me irrita solenemente é Humberto Eco ter razão: as redes sociais apareceram para dar voz aos estúpidos. De repente, toda a gente é especialista em tudo, nos mais diferentes assuntos e com opinião avalizada sobre assuntos que desconhecem. Nunca o acesso à informação foi tão fácil e, todavia, nunca me pareceu tanto que a sociedade se estupidifica cada vez mais, por vontade própria, numa alienação assustadora e confrangedora. As pessoas indignam-se mais com certos comentários sobre o programa Big Brother e com as atitudes dos seus concorrentes ou com certas opiniões sobre futebol do que com a gestão do país e os seus problemas, passando ao lado de esquemas gravíssimos de corrupção, de injustiça social e de delapidação da nossa economia (já de si fraquinha)! Olho atónita e percebo entristecida que somos um povo manso. Um povo que reclama diariamente dos sacrifícios que faz, mas que não tem força moral para agir. Pior: quando veem outros a defender acerrimamente os seus direitos ainda os criticam, porque reconhecem neles a coragem e a ousadia que lhes falta. Assim, a petição dos professores contratados que circula na rede para corrigir uma série de injustiças ainda não perfez o número necessário de assinaturas! É absolutamente inacreditável! Primeiro que os contratados não adiram em bloco e depois que não sejam apoiados pelos professores do quadro, já que somos todos professores! Também nesta rede se veicula mais facilmente o supérfluo e o voyeurismo pela vida alheia do que o que verdadeiramente nos deveria interessar. Angustia-me a visão negativa da humanidade, que sei há muito perdida, mas que gosto sempre de pensar que é possível melhorar … O meu eterno ideal… Indigno-me com os comentários maledicentes, acintosos, de enxovalho gratuito e sem qualquer respeito pelo outro. As pessoas parecem lobos ferozes a atuar em alcateia para acabar com a presa, pasme-se, apenas porque discordam da opinião de alguém e são incapazes de contra-argumentar com lucidez, elegância e inteligência, partindo para um ataque ignóbil à pessoa e não às razões travadas. A última situação diz respeito a uma petição posta a circular por um professor de História que contesta a existência de ruas e de praças com o nome de Salazar, dado considerar-se que se presta uma homenagem ao fascismo e ao ditador. Pessoalmente, discordo. Não por ser apreciadora do regime ou de Salazar, bem pelo contrário, mas porque entendo que a História foi o que foi e que ninguém apaga os anos do regime ou a existência de tal figura. Como tal, para mim, é tão estúpido quanto derrubar a estátua do Padre António Vieira ou de Cristóvão Colombo, num contexto diferente. Não nos é prejudicial as ruas terem o nome do governante, pelo contrário, devemos lembrar-nos de como foi esse regime para sabermos que não queremos lá voltar. Pois bem, se não se concorda, só há uma de duas atitudes a tomar: ou não se comenta e não se assina a petição ou se manifesta o desacordo em termos apropriados e também não se assina. Optei por esta última opção. O que não deveria poder acontecer era partir para o insulto fácil só porque não gostamos da ideia. É de uma falta de educação, de uma falta de sensatez e de uma sem-vergonhice sem nome! Denuncia a democracia frágil e imberbe. As pessoas não compreenderam ainda que num regime democrático o desacordo é possível, a discussão de ideias e de argumentos é não só bem-vinda como um ato de cidadania, desde que saiba o significado de respeito pela integridade moral do outro. Democracia e liberdade não significam dizer tudo o que possa apetecer, se essas vontades vêm envolvidas de torpeza, sem justificação válida. A democracia não admite parênteses quando nos dá jeito! O colega foi apodado com uns mimos que não me atrevo a reproduzir. Subitamente, quer-se-me parecer que não falta gente a precisar de frequentar as aulas de Cidadania. Para agravar, tudo escrito num Português que, definitivamente, não é nem a língua de Camões nem a minha! Fico exasperada e mais me convenço que é mesmo necessário mudar alguma coisa no Ensino, porque não é viável que se destrate o nosso maior património: a nossa língua, veículo agregador, comunicacional, civilizacional e cultural!
A língua permite-nos o encontro connosco e com a alteridade, porque é com ela que pensamos. Mais me espanta ainda que se aceite tão placidamente todos os pontapés dados à ortografia, à sintaxe e à morfologia.  Apesar disto, também não é justificação para vexar os que os cometem e se sentirem necessidade de corrigir alguém, façam-no em privado. Ditam as regras de cortesia. Será que seríamos sem língua?! Não creio. Existiríamos, mas não seríamos.
               
Nina M.

quarta-feira, 29 de julho de 2020

Etéreo

Não é à substância que aspiro
Antes ao imaterial e eterno
Ao luar invisível dos espíritos
Aos rios que os percorrem
Inexoravelmente antes
Do desaguar
Compreender as marés
E os seus ventos
Todos os seus lamentos
Medos e Anseios
Semear a serenidade
Feliz e dela recolher os frutos
Despertar alegre para a vida
Sorrir a cada nova oportunidade
E guardá-la assim incompleta
Na sua concha pura 
Onde só eu a sei

sábado, 25 de julho de 2020

Crónica de Maus Costumes 192


Valter, as mulheres e o tempo

            Acabei de ler O Remorso de Baltazar Serapião, de Valter Hugo Mãe, vencedor do prémio literário José Saramago, em 2007, e por este prefaciado. Só esta última nota dispensaria qualquer recensão de minha parte.
            Saramago classificou-o de Tsunami pela intensidade e revolução que traz à escrita. Valter parece criar uma língua nova. Estilo de autor, reduzida ao essencial, numa linguagem crua com anástrofes e elipses desconcertantes e que desconcertam a sintaxe e é do que eu menos gosto. Compreendo os motivos, a necessidade de marca própria, o desejo de abrir um livro sem nome e de lhe reconhecermos o autor. Seremos capazes de o fazer com Valter como com Saramago como Camões e Pessoa e os seus heterónimos (os três mais conhecidos, porque eles são imensos). No entanto, por defeito meu, certamente, talvez devido ao meu ofício, não gosto assim tanto. Serei clássica, por isso, tenho o atrevimento de discordar do nosso Nobel e considerar que o que ele elencou como catadupa de sinalética distrativa, eu gosto das pintas nos is e dos travessões, das exclamações, das reticências e dos pontos de interrogação. Enfim, gosto dessa parafernália que constitui as boas regras da nossa ortografia. Se somos capazes de ler sem elas e apreender o sentido, saber quando se trata de uma interrogação ou de uma afirmação? Certamente que sim e sem dificuldade, mas eu gosto de namorar o Português escorreito que herdamos numa versão mais atualizada a abrir portas ao que haveria de vir do nosso Camões e que se instituiu de modernidade a partir dos séculos XVII e XVIII.
No entanto, Valter tem o dom de saber tocar temas fraturantes, criar-lhes um enredo e retratá-los com dureza. Há passagens dos seus livros que são socos no estômago e eu gosto dessa intensidade, dessa atrocidade temática que é afinal a nossa desumanização. Não esperem nem temas nem linguagem delicodoces. Os romances de Valter não são para os que gostam de leveza. O seu remorso deveria ser o de muitos homens. Retrata a violência doméstica e o papel subalterno da mulher ao longo da história da humanidade. A má-fé sartriana é revelada pela personagem ao convencer-se de que os golpes rudes eram justificados pelo dever do marido que precisa de garantir a educação da esposa. O autor expõe a tradição milenar, a visão da mulher como um ser inferior cuja voz só traz perigo e não deve ser ouvida. Uma espécie de Circe que envenena os homens e os desgraça e, como tal, devem ser por eles educadas, para que possam ser boas esposas, preferencialmente mudas, absurdamente obedientes, dependentes e ainda assim amar fervorosamente os maridos, enquanto se recatam de todos os olhares alheios para não atrair sobre si a cobiça de outros. O romance poderia retratar a idade média ou a atualidade, tanto faz. É intemporal. É um grito de revolta contra a instrumentalização da mulher, vista como mero recetáculo dos alívios masculinos, caracterizadas num paradoxo de criaturas divinas que vieram alegrar os homens e sem as quais estes não podem viver, havendo as que cumprem esse papel ao qual estariam destinadas e, portanto, são as “putas” (na linguagem crua de Valter) que se abrem a todos homens, por eles banidas, mas também por eles procuradas e as outras de serventia para casar, mas que ao fazê-lo assinam uma sentença de prisão perpétua, perante maridos desconfiados, ciumentos, violentos, mas que apregoam, cegos, um amor distópico aos quatros ventos.
E porque parece que muitos homens e também mulheres ainda precisam de alargar horizontes, seria bom que aprendessem o respeito pela mulher e que definitivamente se rendessem à inteligência (tantas vezes superior à de alguns), à beleza delas, mas também à ternura, porque independentemente dos laços instituídos, a mulher será vaso acolhedor de quem quiser, talvez de quem ela amar, talvez de quem o merecer e, por certo, de quem a souber amar. Fazer dela um objeto utilitário, no século XXI, é um ultraje e um atestado de idiotice. Como diria o meu amigo Altério: ide ler, ide…

Nina M.
             


sexta-feira, 24 de julho de 2020

Paris

Sonho Paris
Rendida aos seus encantos
Pequena Ínfima Curvada
Perante tanta História e tanto logro
Sumptuosidade excelsa de um olhar novo
Ao longo do Sena de mãos dadas
Não há o nosso reflexo nas águas pardas
Só a promessa de um Louvre e de um Orsay
Aguardam pacientes a nossa chegada
E a Gioconda do grande mestre italiano
Entende finalmente o seu sorriso
Posta há séculos à espera 
Vê os seus anseios acedidos
Corro desabrida a fazer esvoaçar as pombas
E Notre-Dame assim ferida ainda queimada
Mas Augusta e imponente 
Abençoa o olhar ardente
Que seria da bela cidade sem Montmartre?
Mesmo se refeita à medida do turista
Vielas estreitas, ruas sinuosas encaminham os transeuntes
E do alto da colina, em frente ao Sacré-Coeur
Toda a Paris se inclina ao gesto do nosso amor
Quimera tão bela brilhante das luzes noturnas
Dorme em nossos corpos embalada
Ao sabor da brisa que passa
Bateau mouche onde nos levas?
Enche-nos a vida de graça!


sábado, 18 de julho de 2020

Crónica de Maus Costumes 191


Antero de Quental: ideal, angústia e morte

Antero de Quental, o grande mentor da Questão Coimbrã, das Conferências do Casino, um dos representantes da geração de 70, foi um poeta dual: apolíneo e noturno, dominado ora por Eros ora por Thanatos, que tenta superar o drama íntimo da luta de sentimentos opostos, sempre em busca do Ideal, da Perfeição, da Beleza, da Consciência e da Liberdade.
Qual Sísifo, perante tarefa inalcançável, que ao longo da vida se mantém íntegro, mas que não escapa ao malogro, à agonia e à desilusão de um real que não se molda às suas vontades e que o atiram para um pessimismo abúlico que o fazem desejar a morte. Um Quixote que busca a felicidade através da transformação política, por crer no futuro, que introduz o socialismo de Proudhon no seu país, que tem a coragem de largar o berço burguês e partir para Paris, experimentando as agruras de um simples operário tipógrafo. Sincero, desejando consonância entre pensamento e ação, embrenha-se na luta política em prol da liberdade, da justiça e do bem, consagrando-se a causas coletivas. Voltado para uma filosofia moral e simples, posta ao serviço dos outros, sem impugnar a sua independência, faz da sua poesia uma arma, conferindo-lhe um papel social e filosófico, fazendo dela a voz da revolução (“Ergue-te, pois, soldado do Futuro,/E dos raios de luz do sonho puro,/Sonhador, faze espada de combate!”). A impossibilidade de transformar o ideal em realidade condu-lo a uma busca permanente e obsessiva que lhe traz uma profunda angústia e frustração. Antero é o idealista que procura o sistema político capaz de restituir a justiça e o bem aos cidadãos; o pensador  em busca da sua filosofia, o poeta em busca da poesia perfeita e o homem em busca da paz interior. De tudo se desiludiu (“Abrem-se as portas d'ouro com fragor.../ Mas dentro encontro só, cheio de dor, /Silêncio e escuridão - e nada mais!”) e o seu suicídio prematuro não lhe permitiu assistir ao reconhecimento da sua obra poética.
O poeta cindido, descontente do mundo, mostra ânsia de além e vê na morte a libertação, associando-a à luz e à ideia pura hegeliana (“ Pedindo à forma, em vão, a ideia pura,/ Tropeço, em sombras, na matéria dura,/ E encontro a imperfeição de quanto existe. /Recebi o batismo dos poetas,/ E assentado entre as formas incompletas/ Para sempre fiquei pálido e triste.”), sendo evidente a oposição entre a tese (vida - incompletude – imperfeição –angústia) e a antítese ( morte – completude – perfeição – paz) . Na senda da tradição romântica, Antero associa a morte à liberdade, como facilmente se constata em Mors Liberatrix (“E, sendo a morte, sou a liberdade”). Através dela exprime a sua ânsia de imortalidade, a sua desesperação e o sentimento trágico da vida, tal como lia Unamuno na poesia anteriana. O que lhe interessava no poeta português era a demanda pela existência espiritual, pela pós-existência, angústia comum reveladora do conflito entre o pensamento e o sentimento, a razão e a fé, o não crer e o querer crer. A religiosidade de ambos deriva da fé perdida, sempre procurada, mas nunca encontrada (“Y lo que más le une a cada uno consigo mismo, lo que hace la unidad íntima de nuestra vida, son nuestras discórdias íntimas, las contradicciones interiores de nuestras discordias. Solo se pone uno en paz consigo mismo como Don Quijote, para morir”).
Assim, em Antero, a solução encontrada para a angústia provocada pela morte de Deus é a superação através do nirvana, reagindo ao vazio existencial, ao Não-Ser e à noite como opções positivas e libertadoras (“Só quem teme o Não-Ser é que se assusta / Com o teu vasto silêncio mortuário…”) e (“Dormirei no teu seio inalterável, / Na comunhão da paz universal, /Morte libertadora e inviolável”).
Antero parece encontrar na morte a síntese para as suas contradições e a evasão duradoura para combater o seu agonismo. O seu suicídio confirma a sinceridade da sua aspiração à liberdade. Apesar da descrença em Deus, o misticismo é evidente. O eterno deixou de ser o Deus bíblico para ser Ideia, Amor, Vontade… e a sua obra plena de símbolos religiosos.
Se com ela não alcançou o absoluto, a morte ter-lhe-á permitido, pelo menos, o descanso na mão direita de Deus.

Na Mão de Deus
Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depois do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!

Antero de Quental, in "Sonetos"

Nina M.