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sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Olhos

Se uns olhos serenos
Não ocultam a paixão
Vê-se toda a alma espelhada
Eles são pura emoção
Brilham com uma luz igual
À de outros olhos seus
Se se cruzam no caminho
Do afago que se perdeu
Cintilantes no propósito
De se voltarem a olhar
Cerram-se por uns instantes
Pr'o momento eternizar
Nesse desejo insano
De ser imortalidade
Procuram-se em toda a parte
Estão presos por vontade
Se a presença o consente
Contemplam a perfeição
Do amor que os uniu
Exigência e ambição
Mais belos se tornam eles
No exílio da ausência
Já que se conseguem ver
no seu tempo de carência
Olhos que são um abraço
Beijo de ternura feito
No dia em que se não mostram
Há um outro par desfeito
São olhos de uma saudade
Que se quer sempre presente
Buscam autenticidade
Que encontram num outro ente 
Nesta pura dialética
Numa valsa do olhar
É amor que resplandece
Não há como o negar
Transcendência almejada
Que chega por um olhar
Deve ser acomodada
Para se eternizar


segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Dor


A dor que me curva e mata o meu ser
Quer adensar-se em mim, nesta minha alma
Exangue que se sente falecer
Rouba a minha alegria e a minha calma

Sei bem que não mais te poderei ter
Foste sem acordo estabelecido
Tu, que a mim sempre estiveste rendido,
A quem julguei impossível perder

Esta vida que é tão madrasta e cínica
Invejosa da ventura e do sonho
Despe-me a minha alva e tão bela túnica

Ousada, a tal tirania me oponho
Ostento a resiliência crónica 
Qual bandeira neste mundo medonho
 

sábado, 13 de outubro de 2018

Crónica de Maus Costumes 102


 Simplesmente mãe

Sou mãe e como a maioria das mães amo profundamente, incomensuravelmente e irremediavelmente os meus filhos. Porém, a minha individualidade não se esgota neles, muito pelo contrário, impõe-se para além deles.
Assim, não sou o tipo de mulher que gostaria de ficar em casa para tratar das crias. Enquanto são muito pequenos, até à idade dos três anos, admito que sim, que poderia dar jeito, pelo menos um horário mais reduzido, mas a partir do momento em que eles entram na escola, começam a ganhar a sua autonomia e a reconhecer-se também no outro, não me deixaria seduzir por levá-los à escola e regressar serenamente a casa, onde prepararia tudo muito bem para os receber de volta.
Preciso mais do que isso. A minha individualidade enquanto mulher é sagrada. Deste modo, necessito do meu trabalho, da minha escrita, da minha corrida, dos meus amigos e do meu espaço sagrado a sós, refugiada comigo mesma, para manutenção do meu estado de sanidade mental. Se não tivesse tudo isto, não poderia ser feliz e uma mãe infeliz não faz ninguém feliz.
É assim que me protejo, quando sou invadida por um daqueles pensamentos invasivos que nos deixam cheias de culpa pelo acompanhamento que não se conseguiu dar, pela vida demasiado agitada e corrida e que não permitiu ter o melhor acompanhamento na seleção da roupa ou do recado que ficou por assinar ou de algo que era suposto enviar e se esqueceu. Aprendi a desvalorizar, a saber que sou quase perfeita, mas que ainda não atingi a perfeição, a deixar que os filhos se tornem um pouco mais autónomos e se responsabilizem pelas suas coisas. Nem sempre corre bem? Evidentemente que não. É um processo de aprendizagem em que estamos todos envolvidos e aprende-se com os erros e não com as proezas.
No entanto, sou a mãe que ao deitar lhes confessa ao ouvido o amor que lhes tem. Sou a mãe que eles exigem que os vá deitar e aconchegar e a quem gritam, se me finjo de esquecida, “o meu beijo de boa-noite?!” Sou a mãe a quem o Rodrigo pergunta se algum dia fosse preso se o iria visitar à cadeia… A mesma mãe que olha para ele com orgulho, por ver que aos onze, ainda que dúvidas ao alcance da sua tenra idade, já revela inquietação existencial. A essa pergunta, a mãe responde que ficaria dilacerada se tivesse que o ir visitar à prisão, mas que provavelmente o faria, porque o amor desta mãe é inesgotável. A mesma mãe que se interroga se amaria um filho psicopata, incapaz, por defeito biológico, de sentir amor ou compaixão, quando tudo o que quer é criar os filhos no e para o amor.
Uma mãe que ama incondicionalmente os filhos, apesar de todos os gritos que os senhores psicólogos insistem que não se devem dar, das mil e uma ameaças e ao cabo de tanto nervo, lá sai uma que é efetivamente cumprida e desliga-se a televisão ou confisca-se o tablet insuportável, sempre com o volume no máximo!
Uma mãe que sendo imperfeita é absolutamente perfeita à medida dos filhos que tem!
Nina M.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Nunca quis o inverno

Nunca quis o inverno
E o inverno
É ver o meu sol longe
Refugiado nas negras nuvens
Na tristeza envergonhada
Se não me vem buscar

Quero sempre o verão
A brisa morna que abraça
A saudade que invade o coração
Quero o brilho do meu olhar
Brilho do teu refletido no meu
Sereno e doce contemplar

Esplendor de alma inquieta
Que se aloja num canto de mim
Reclama manhã nova com cheiro a jasmim
Quero a aurora boreal do teu abraço
O terno aconchego do teu regaço
O teu manto de amor sem fim

Anseio um verão perene
O calor de tua alma eterna
Que sorri só para mim
E como uma criança pura
Que o seu mal não cura 
Ter-te apenas com ternura

Poder somente amar-te
Sem reservas de outra arte
Aqui e em qualquer parte
Trazer sempre o verão comigo
Fechar os olhos contigo
E assim eternizar-te

sábado, 6 de outubro de 2018

Crónica de Maus Costumes 101


Em demanda do amor

   Hoje, a crónica sabe-me a recomeço. Deu a volta e começa de novo. Introduzo uma novidade por sugestão de uma amiga e leitora: tentarei encontrar um subtítulo para cada uma delas, para facilitar a procura, caso a queiram reler, já que os números dizem pouco. Já me tinha ocorrido, todavia, por vezes, o título faz-se tão caro que por preguiça usei o número.
No início era o Verbo que depois se fez carne e homem e trouxe o amor, talvez com a pretensão de que pudesse ser a verdade eterna, o reflexo do pensamento divino e a lei absoluta do ser. Porém, esqueceu-se o divino que o Verbo feito homem já não era o primeiro sobre a terra e que todos os outros se encontravam já manchados pelo pecado original. Adão e Eva, que desobedeceram ao criador e, tal como Pandora não resistiu à abertura da caixa, espalhando todos os males do mundo (vá que a conseguiu fechar a tempo e assim o homem conservou a esperança) também eles sucumbiram à tentação e experimentaram o fruto proibido, manchando a humanidade, que nunca mais se endireitou!
Deveria ter-se acabado aqui a teimosia do homem em se querer igualar ao divino, mas ele é caprichoso, ambicioso e ufano, logo não lhe chega a imagem à sua semelhança, também lhe deseja a prepotência e o absoluto. De maneira que foi necessário que o Enviado chegasse para repor alguma ordem e lembrar o que de mais importante poderá haver no Homem, através dos seus dois mandamentos, síntese da sua doutrina: Amar a Deus sobre todas as coisas e Amar o próximo como a si mesmo. O segredo para uma vida boa e bela está, portanto, no amor!
Não admira que o mundo ande desgovernado se o desamor é abundante. Se há humanos capazes de amar, também os há capazes de lançar o ódio e a desgraça alheia. Assim se tem perpetuado a espécie, nesta ambivalência, com maior peso do lado da desgraça, mesmo que já se tenham passado XXI séculos após a disseminação da boa-nova!  
Vendo que pouco consegue no coletivo, o Homem lança-se à procura do amor na esfera da sua privacidade, no entanto, os exemplos, ao longo dos tempos não são animadores. Orpheu, na sua rebeldia e insistindo na vivência de um amor bem vivo e terreno, bem tenta libertar a amada das garras de Hades, com génio e belas palavras, mas sentiu o sabor acre da derrota, depois de quase ter alcançado a vitória. Não há nada mais penoso do que a perda, depois de quase se alcançar a glória! Não perdeu o amor, antes saiu vitorioso, já que Orpheu sempre o manteve vivo por Eurídice e por essa teimosia foi morto. Os trovadores tangem a sua coita de amor causada pela insensibilidade e distância da sua “senhor”. Romeu e Julieta, impedidos de viver o seu amor, só encontram a liberdade almejada na morte. O nosso Camões vive mortificado apontando o “amor ardente” como uma das causas da sua desgraça, aspirando ao sublime através do amor platónico e, então, no século XIX, a expressão do amor excessivo, por vezes sublimado, ganha expressão doentia.
Assim, o amor romântico idealizado, tido como verdadeiro e absoluto, tem revelado ao longo dos séculos duas características comuns: distância e sofrimento.
Estará o homem sedento de amor condenado ao sofrimento? A ser verdadeiro, o amor não se cumpre, mas mantém-se, apesar da inacessibilidade ou vive na leveza, mas desgraçadamente, porque nunca sentiu o sabor de um amor eterno!
Cada um escolha a fórmula que melhor lhe aprouver. Ou se lamenta por conhecer o amor e não o poder ter ou ambiciona o amor verdadeiro e incomensurável, mas não o alcança!

Nina M.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Queria eu...

Queria eu...
ter-te apenas neste instante
Deitado em meu regaço
De ternura abundante
Libertar-te do cansaço

Queria eu...
Uma vida bem palpável
Passada a teu lado
Não o momento findável
Deste nosso lindo fado

Queria eu...
Guardar-te sempre em mim
Com minúcia e sem pudor
Abraçar-te pela aurora
Segredar-te, meu amor

Queria eu...
Serenar-me só contigo
Guardar teu cheiro e tua voz
Noite dentro num abrigo
Feito apenas para nós

Queria eu...
Prolongar-te vida fora
à espera de eternidade
Ter-te sempre sem demora
Aplacar esta saudade

Queria eu...
Ser o teu eterno amor
Entranhar-me no teu ser
Sentir sempre o teu calor
Sempre nos podermos ter

Queria eu...
Fundir-me num abraço
Alojar-me em tua alma
Que o encontro nunca escasso
Ditasse a minha calma

Queria eu...
Ter-te de amor vencido
Ver-te apenas assim
Desarmado e rendido
Inteiro só para mim.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Elegia da loucura

Se o calor de um abraço
pudesse serenar a alma
Mitigar esse cansaço
E também ser sua calma
Toda ela se entregaria
Despida e sem segredos
Quanto assim desejaria
Despojar-se de seus medos
São anseios que perpassam
Escurecem o seu ser
Casa onde habita o sol
Mesmo ao anoitecer
Quer só uma sombra amiga
Onde possa repousar
Desta sua fadiga
Que a quer inquietar
Não se prende ao limite
Por livre se julgar
É melhor que não hesite 
E seu espírito purgar
Mas se amar o desvario 
For de sua condição
Pobre alma, pobre espírito
Viverá em aflição
Se a razão o perturbar
E não a puder ouvir
Feche-se em qualquer lugar
Que a impeça de sair
Se um abraço serenasse
Todo este seu sentir
Se facilmente o achasse
Sem ter que se mentir
Que fulgor ganharia
Sua alma e coração
Se no abraço certo
Visse a superação
Eterna racionalidade
Que pede introspeção
Será sempre a sua verdade
E também a perdição
Por estes trilhos da vida
Que a alma vai percorrendo
Ainda que se veja perdida
A si mesmo se vai fazendo
E se no fim da jornada
Vislumbrar a sua coerência
Fique a alma descansada
Agiu conforme a consciência
Este seu cismar
Faz em si ablação
Mas querendo-se inteira
Sustém a respiração
Apenas por um segundo
A servir-lhe de consolo 
Alma sôfrega e errante
Não te faças qualquer dolo...