Em demanda do amor
Hoje, a crónica sabe-me a recomeço. Deu a volta e começa de
novo. Introduzo uma novidade por sugestão de uma amiga e leitora: tentarei
encontrar um subtítulo para cada uma delas, para facilitar a procura, caso a
queiram reler, já que os números dizem pouco. Já me tinha ocorrido, todavia,
por vezes, o título faz-se tão caro que por preguiça usei o número.
No
início era o Verbo que depois se fez carne e homem e trouxe o amor, talvez com a
pretensão de que pudesse ser a verdade eterna, o reflexo do pensamento divino e
a lei absoluta do ser. Porém, esqueceu-se o divino que o Verbo feito homem já não
era o primeiro sobre a terra e que todos os outros se encontravam já manchados
pelo pecado original. Adão e Eva, que desobedeceram ao criador e, tal como Pandora
não resistiu à abertura da caixa, espalhando todos os males do mundo (vá que a
conseguiu fechar a tempo e assim o homem conservou a esperança) também eles
sucumbiram à tentação e experimentaram o fruto proibido, manchando a humanidade,
que nunca mais se endireitou!
Deveria
ter-se acabado aqui a teimosia do homem em se querer igualar ao divino, mas ele
é caprichoso, ambicioso e ufano, logo não lhe chega a imagem à sua semelhança,
também lhe deseja a prepotência e o absoluto. De maneira que foi necessário que
o Enviado chegasse para repor alguma ordem e lembrar o que de mais importante
poderá haver no Homem, através dos seus dois mandamentos, síntese da sua doutrina:
Amar a Deus sobre todas as coisas e Amar o próximo como a si mesmo. O segredo
para uma vida boa e bela está, portanto, no amor!
Não
admira que o mundo ande desgovernado se o desamor é abundante. Se há humanos
capazes de amar, também os há capazes de lançar o ódio e a desgraça alheia. Assim
se tem perpetuado a espécie, nesta ambivalência, com maior peso do lado da
desgraça, mesmo que já se tenham passado XXI séculos após a disseminação da
boa-nova!
Vendo
que pouco consegue no coletivo, o Homem lança-se à procura do amor na esfera da
sua privacidade, no entanto, os exemplos, ao longo dos tempos não são
animadores. Orpheu, na sua rebeldia e insistindo na vivência de um amor bem
vivo e terreno, bem tenta libertar a amada das garras de Hades, com génio e
belas palavras, mas sentiu o sabor acre da derrota, depois de quase ter
alcançado a vitória. Não há nada mais penoso do que a perda, depois de quase se
alcançar a glória! Não perdeu o amor, antes saiu vitorioso, já que Orpheu
sempre o manteve vivo por Eurídice e por essa teimosia foi morto. Os trovadores
tangem a sua coita de amor causada pela insensibilidade e distância da sua “senhor”.
Romeu e Julieta, impedidos de viver o seu amor, só encontram a liberdade
almejada na morte. O nosso Camões vive mortificado apontando o “amor ardente”
como uma das causas da sua desgraça, aspirando ao sublime através do amor platónico
e, então, no século XIX, a expressão do amor excessivo, por vezes sublimado, ganha
expressão doentia.
Assim,
o amor romântico idealizado, tido como verdadeiro e absoluto, tem revelado ao
longo dos séculos duas características comuns: distância e sofrimento.
Estará
o homem sedento de amor condenado ao sofrimento? A ser verdadeiro, o amor não
se cumpre, mas mantém-se, apesar da inacessibilidade ou vive na leveza, mas
desgraçadamente, porque nunca sentiu o sabor de um amor eterno!
Cada
um escolha a fórmula que melhor lhe aprouver. Ou se lamenta por conhecer o amor
e não o poder ter ou ambiciona o amor verdadeiro e incomensurável, mas não o
alcança!
Nina
M.
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