No silêncio envergonhado
Onde a palavra se desvela
Na inquietude reprimida
Que um leve suspirar revela
Vem de mansinho a visão
De um fragmento de ser perdido
No meio da imensidão
Mas no fugidio arrebatamento
De um toque lento de olhar
Vislumbra a alma luzidia
Emoção no despertar
E cumpre Orfeu a missão
Num canto belo e urgente
Para Eurídice resgatar
Aos baixios da prisão
Mas não cumpre o preceito
Não evita a devoção
Olha-a com deleite
Preso à sua paixão
E no moroso agoniar
Em que vai compondo os versos
Sabe não poder calar
Seus sentidos submersos.
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segunda-feira, 16 de julho de 2018
sábado, 14 de julho de 2018
Crónica de Maus Costumes 90
Quando
o amor chega ao fim, não deve acabar nem a dignidade nem a delicadeza. O
verdadeiro caráter vê-se nesses pequenos grandes gestos de magnanimidade. Saber
reconhecer a culpa por não se ter sido capaz de manter o amor e pedir perdão
pelo sucedido, não é sinal de fraqueza, mas antes de magnificência.
Já é
penoso o suficiente para o abandonado ter de resistir à dor da perda e
conseguir manter a autoestima, assim, quem sai que deixe o coração do outro
deserto de tudo. Pode ficar vazio pelo amor que colapsou, mas que fique também
vazio de raiva e de desprezo.
Os
subterfúgios enganosos e mentiras piedosas não contribuem para o bem-estar do
ser que já se amou. Antes o iludem e prolongam uma esperança infundada que só
trará dor. Usar de manipulação para fazer sentir quem se deixa culpado pelo
insucesso do relacionamento, é vestir a pele de um menino de cinco anos que não
gosta de assumir a culpa que é sua e que tenta enganar o outro e a si mesmo.
Se o
amor que deixou de ser já foi significativo na nossa vida, não pode ser destratado
e pisado de forma tão torpe e funesta.
Há
palavras escusadas e que deveriam ser proibidas, porquanto podem infecionar a
ferida aberta. Não se diz a quem não se quer mais que os últimos tempos foram
apenas de mera diversão ou de sofrimento ou de mero cumprimento de “obrigações
conjugais”, expressão por si só absolutamente odiosa, já que o amor não pode
ser uma obrigação, mas antes uma entrega que se quer fazer. Não se pode querer
ferir de morte aquele que um dia já se amou! A isso chama-se crueldade. É
desnecessário e, francamente, para quem assiste de fora, é degradante. Diz
muito mais sobre quem abandona do que aquele que é abandonado.
Para
estes últimos, um pequeno conselho: nunca mendiguem amor, porque ninguém merece
apenas migalhas… Se quem estava quis sair é porque não merece a nossa afeição. Dói,
mas passa. O tempo, por vezes, é um remédio maravilhoso! E quando se recupera
da queda, levantamo-nos mais fortes, confiantes e atraentes. Podem estar certos
de que a luz atrai luz e chegará o dia em que se olha para trás e apenas se vê
uma experiência mal sucedida que contribuiu para o nosso desenvolvimento
interior.
Tu,
que me pediste um texto sobre a tua desventura, podes estar confiante que um
dia não assim tão longe deixará de doer e o brilho assomará aos teus olhos por
perceberes o teu incomensurável valor e o favor que te fizeram ao sair da tua
vida, mesmo que de forma vil!
Nessa
altura, ufanamente pensarás o quanto ele perdeu e que se te desperdiçou de
forma agreste, no propósito de te ferir, a natureza não o deve ter favorecido nem
em inteligência nem em caráter. Antes assim. Deixá-lo partir para não mais
voltar…
Nina
M.
Se no afago de um olhar
A magia acontece
E toda a alma resplandece
Num doce e efémero mergulhar
O tempo suspenso e leve
Acaricia o sorriso breve
Num eterno recordar
E no diálogo aberto
de metafísica tão certo
Em sereno respirar
À angústia se abandona
Em passo de dança lento
Que teima em se quedar
Num grito mudo e quieto
O coração rejeita o pesar inicial
Já renovada e refeita
A alma se enche com jeito
Criança inocente, pureza divinal...
segunda-feira, 9 de julho de 2018
Esperança
Como a guitarra que chora
A alma estremece e emudece
Perante o desacerto do mundo
Venha a esperança, que anoitece!
Lago sombrio da desventura
Cavernas de sombras escuras
Amanhã, quando a flor se abrir
E o sol iluminar e surgir
Na terra desalentada pelo tempo
É dia de mudança
É dia de ventura
É dia de esperança
A alma estremece e emudece
Perante o desacerto do mundo
Venha a esperança, que anoitece!
Lago sombrio da desventura
Cavernas de sombras escuras
Amanhã, quando a flor se abrir
E o sol iluminar e surgir
Na terra desalentada pelo tempo
É dia de mudança
É dia de ventura
É dia de esperança
domingo, 8 de julho de 2018
Crónica de Maus Costumes 89
Excelentíssimo Senhor Presidente da República,
Quiseram alguns amigos que a minha rubrica semanal encarnasse a forma de carta, endereçada a Vossa Excelência. Confiaram-me a sua voz e as suas inquietações. Oxalá possa estar à altura do desafio.
Somos professores em luta. Lutamos pelo tempo de serviço efetivamente prestado e que nos foi espoliado. Na altura, o argumento que garantia a constitucionalidade da medida era o facto de esta ser temporária. Pois bem, querem eternizá-la, apagar os nove anos, quatro meses e dois dias. Há muitos seres que foram crescendo, evoluindo, ao longo desse tempo que nos querem sonegar. Como se pudéssemos dizer aos jovens que ajudámos a formar até então que suspendam o crescimento! O trabalho realizado está à vista de todos, Sr. Presidente… Alguns já acabaram a sua formação superior e outros preparam-se para lá chegar! A verdade é que sem os professores, estes jovens não teriam concluído o seu percurso.
Não podemos apagar o que foi feito nem tão pouco fazer de conta que ele não existiu, porque se trata de trabalho acumulado, cansaços e anos letivos planificados e realizados!
O segredo que explica a união de uma classe em torno do mesmo propósito é simples: a justiça. Repare que nos anos agudos da crise, os professores não se subtraíram ao sacrifício nem me lembro de manifestações grandiosas. A classe soube compreender o contexto socioeconómico peculiar que se vivia e soube ser abnegada.
A luta dos professores, neste momento, ganha outros contornos. A progressão nas carreiras é vital, pois apesar das falsas informações veiculadas, os professores não são principescamente pagos, bem pelo contrário. Se acrescermos ao baixo salário as deslocações ou arrendamento de casa (quando deslocados) e combustível, haverá situações em que os professores quase pagam para trabalhar.
Como vê, a questão salarial é importante, mas o que move esta luta vai muito mais além e se o Governo deste país não o souber interpretar, então, não terá a sensibilidade nem a sabedoria necessárias a quem dirige. Trata-se de uma luta pela dignidade, pela justiça e pelo exemplo de cidadania que se quer transmitir.
Um Governo que não compreende que investir na educação também é investir nos professores, não quer um país letrado e informado. Nós, cidadãos e particularmente professores, estamos cansados de ver desperdício e dinheiro desbaratado. Façamos assim, Sr. Presidente, quando os senhores deputados da nação que deveriam saber representar os seus cidadãos forem capazes de trabalhar e de viver apenas do seu salário (por sinal bem mais elevado do que o da generalidade dos professores), sem ajudas de custo para domicílio, viagens e outras mordomias, os professores poderão equacionar esquecer o que o Estado lhes deve. Como é possível, num Estado de direito, não cumprir com o que está estipulado no Orçamento de Estado? A casa da democracia está severamente doente, Senhor Presidente!
O exemplo deve vir sempre de cima. Como professora, não posso impor aos meus alunos o que eu mesma não cumprir, pois bem, a classe política também deveria ter vergonha de decretar o que não determina para si mesma!
Os professores leem jornais e acompanham as notícias! Veem os aumentos aos amigos, as negociatas mal explicadas, a corrupção que grassa no setor financeiro e conluio entre este e a classe política! Muitas vezes, Senhor Presidente, não é a questão da legalidade que se coloca, mas antes a da imoralidade!
Esta união representa a repulsa por este estado de coisas. Nós, Senhor Presidente, também temos um sonho: o de fecundar a semente do conhecimento, a formação integral do indivíduo, capaz de uma cidadania ativa e exigente! A Iniciativa Legislativa de Cidadãos veio para ficar. A Assembleia da República não pode ficar refém de deputados que não pugnam pelos seus cidadãos!
A luta é também uma lição de cidadania plena. Será receio do que a atividade docente pode conseguir? É na escola que se plantam as sementes da mudança. Leva anos, gerações, mas a semente vai frutificando e haverá o dia em que veremos cidadãos livres e honrados a exigir transparência e justiça aos que nos governam!
Termino, Senhor Presidente, apelando ao bom senso de Vossa Excelência, fazendo votos para que, como representante máximo de todos os portugueses, possa ter uma palavra de apoio aos professores, lembrando ao Senhor Primeiro-ministro que um país deseducado será sempre um país atrasado.
Bem-Haja!
sábado, 7 de julho de 2018
Não sei se chore ou se ria
Não sei se chore ou se ria
Se me liberte ou aprisione
Da estranha sensação
Que me esmaga e consome
Divido a meio a laranja
Vejo a parte podre e sã
Só não sei distinguir
Qual das duas a má
A menina persistente
faz a escolha inconsciente
Crédula e ingénua pensa
Na felicidade inexistente
Fio de luar perdido
Clarão nunca alcançado
Lembranças do vazio
Sonhos não realizados
Fazes-te linda mulher
Lua vestida de prata
Para enganar a solidão
Que lentamente te mata
Vês a aproximar-se o fim
Pensas no descanso eterno
Tua alma é assim
Desalento em pleno inverno.
Pudesse eu…
Pudesse eu…
Congelar o tempo que não volta
Guardar eternamente esses segundos
Em que eu senti o teu respirar
Pudesse eu…
Sentir o teu aconchego ao relento
A chuva fria e fina que entra alma dentro
Mas que se acaba desmaiada em teu abraço…
Pudesse eu…
Acabar de vez com a solidão
Sentir pela última vez a tua mão
Afagar-me esta tristeza e não ser em vão
Pudesse eu…
Ser a síntese do passado, do presente e do futuro
Voz que se ergue e se ouve para lá do muro
Entrar e aninhar-me no teu coração
Pudesse eu…
Ter-te sempre mesmo ausente em qualquer parte
A tua voz e o teu calor em mim guardar-te
Como a um verso serenamente saber amar-te
Pudesse eu…
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