Quando, sem esperar, nos surpreendem…
Durante a semana, a propósito desta
rubrica semanal e da crónica passada, o Rafael enviou-me uma mensagem calorosa,
ternurenta, reconhecendo a influência que eu e outros professores tiveram e
continuam a ter na sua jornada.
O Rafael é
um ex-aluno, quase a terminar a sua licenciatura em Engenharia Informática. Sugeria-me
que divulgasse um filme espanhol, realizado em parceria com entidades
portuguesas, tal como a RTP e Turismo de Portugal, contando também com a
participação de atores lusos. O filme provoca a reflexão e alerta sobre os
possíveis perigos da Inteligência Artificial (IA). Centra-se o drama no uso de
uma ferramenta digital que serve para analisar casos e ditar sentenças que um juiz
se limita a assinar, despachando com celeridade processos que, habitualmente, seriam
morosos. Não é preciso assistir ao filme para compreender imediatamente as
questões de foro ético que se levantam. Ao contrário do que se pensa, nem
sempre a justiça cega faz justiça e muito menos garantirá equidade. A IA poderia,
por exemplo, gerar informações fictícias ou citar jurisprudências inexistentes,
comprometendo a validade das sentenças; não seria fácil apurar a
responsabilidade no caso de um erro judicial cometido pela IA. A quem pedir responsabilidade
legal e ética numa situação dessas? A IA também não compreende contextos
emocionais e humanos, podendo relativizar informações e factos importantes para
a tomada de decisões, sabendo-se que há agravantes e atenuantes em relação ao
comportamento humano. Haveria, também, o risco de violar a privacidade e a
segurança dos envolvidos…
Ainda não vi o filme, mas estas são
algumas das questões que me assaltam o espírito, no mais imediato. Será um bom
filme para sugerir aos alunos, para uma apresentação oral, por exemplo. Digo-lhes
sempre que o tema, livro ou filme que escolhem é meio caminho para a
excelência. Não podem trabalhar com algo que seja mero entretenimento, devem
procurar algo que suscite a reflexão, que traga para a sala o pensamento, a
reflexão e o debate. Com pena minha, a faixa etária dos alunos com que trabalho
este ano, não permite complexidades exageradas, mas gosto sempre de lhes elevar
um bocadinho a fasquia. Só assim evoluem, mas na escola de onde venho, poderá
perfeitamente integrar a lista de filme preparada pelos professores para os
alunos do secundário. Não é a trama que mais importa (obviamente têm de mostrar
que dominam o assunto), mas as reflexões que lhes suscitaram, os exemplos que
foram capazes de dar, as relações e analogias que estabeleceram, enfim, a
mastigação do que viram, ouviram ou leram. A isto chama-se promover o espírito
crítico.
Ter um aluno que se lembra de propor à
ex-professora a visualização de um filme que sabe que pode ser usado em
contexto de sala de aula é extraordinário! Dei conta da minha alegria ao
Rafael. Eu e os outros seus professores conseguimos cumprir com a nossa função
em relação ao aluno. O Rafael é daqueles alunos que não esquecemos:
absolutamente simpático, educado, humilde, inteligente e empenhado,
participativo, sempre em busca do seu melhor, mas de forma equilibrada,
saudável e respeitadora. Em primeira instância, os parabéns são para os pais do
aluno, pela boa formação que lhe conseguiram passar e do próprio Rafael que
soube acolher os bons princípios. Felizmente, vamos encontrando vários “rafaeis”
ao longo da vida profissional. Na turma dele, havia muitos com este perfil,
comprometidos com a sua aprendizagem, bons meninos e bons alunos. No entanto,
destaco, particularmente, uma característica do Rafael que sempre se fez notar:
a sua preocupação com o social e o seu comprometimento com as grandes causas.
Cheguei a pensar que ele pudesse enveredar pela advocacia, por exemplo, pelo
gosto que ele manifestava em argumentar, em querer aprofundar e compreender os
assuntos. Não foi assim, mas continua a revelar esta mesma preocupação e é muito
satisfatório poder constatá-lo! É para isso que os educamos, para serem cidadãos
atentos, críticos e interventivos! Quando assim é, apenas sentimos que vale a
pena o nosso trabalho e invade-nos um misto de alegria e de orgulho pela jovem
pessoa que revelam ser. É tão consolador vê-los voar!
Assim, para não falhar ao Rafael e
porque os meus alunos ainda são um pouco pequenos para isto, deixo também aqui
a sugestão aos colegas que me vão acompanhando: o filme intitula-se “Justiça
Artificial” (2024) e ainda o livro que também indicou e que só pelo título
creio ser uma leitura importante - “Repensar o Capitalismo para Salvar a Humanidade”,
de Rebecca Henderson, da Ideias de Ler (chancela criada pela Porto editora para
livros de cariz mais pragmático). E como urge repensar o capitalismo! Não me
parece que o segredo esteja no seu abandono, mas é imperativo repensá-lo,
porque concentrar a riqueza mundial na mão de meia-dúzia, sem que haja uma
redistribuição mais conforme é pornográfico.
Obrigada, Rafael, pelas palavras que
me deixaram muito feliz e um bocadinho vaidosa e pelas sugestões! Se passares
por Paços de Ferreira, apita. Pago-te um café.
Nina M.
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