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sábado, 4 de janeiro de 2025

Crónica de Maus Costumes 402

 

Quando, sem esperar, nos surpreendem…

               Durante a semana, a propósito desta rubrica semanal e da crónica passada, o Rafael enviou-me uma mensagem calorosa, ternurenta, reconhecendo a influência que eu e outros professores tiveram e continuam a ter na sua jornada.

            O Rafael é um ex-aluno, quase a terminar a sua licenciatura em Engenharia Informática. Sugeria-me que divulgasse um filme espanhol, realizado em parceria com entidades portuguesas, tal como a RTP e Turismo de Portugal, contando também com a participação de atores lusos. O filme provoca a reflexão e alerta sobre os possíveis perigos da Inteligência Artificial (IA). Centra-se o drama no uso de uma ferramenta digital que serve para analisar casos e ditar sentenças que um juiz se limita a assinar, despachando com celeridade processos que, habitualmente, seriam morosos. Não é preciso assistir ao filme para compreender imediatamente as questões de foro ético que se levantam. Ao contrário do que se pensa, nem sempre a justiça cega faz justiça e muito menos garantirá equidade. A IA poderia, por exemplo, gerar informações fictícias ou citar jurisprudências inexistentes, comprometendo a validade das sentenças; não seria fácil apurar a responsabilidade no caso de um erro judicial cometido pela IA. A quem pedir responsabilidade legal e ética numa situação dessas? A IA também não compreende contextos emocionais e humanos, podendo relativizar informações e factos importantes para a tomada de decisões, sabendo-se que há agravantes e atenuantes em relação ao comportamento humano. Haveria, também, o risco de violar a privacidade e a segurança dos envolvidos…

Ainda não vi o filme, mas estas são algumas das questões que me assaltam o espírito, no mais imediato. Será um bom filme para sugerir aos alunos, para uma apresentação oral, por exemplo. Digo-lhes sempre que o tema, livro ou filme que escolhem é meio caminho para a excelência. Não podem trabalhar com algo que seja mero entretenimento, devem procurar algo que suscite a reflexão, que traga para a sala o pensamento, a reflexão e o debate. Com pena minha, a faixa etária dos alunos com que trabalho este ano, não permite complexidades exageradas, mas gosto sempre de lhes elevar um bocadinho a fasquia. Só assim evoluem, mas na escola de onde venho, poderá perfeitamente integrar a lista de filme preparada pelos professores para os alunos do secundário. Não é a trama que mais importa (obviamente têm de mostrar que dominam o assunto), mas as reflexões que lhes suscitaram, os exemplos que foram capazes de dar, as relações e analogias que estabeleceram, enfim, a mastigação do que viram, ouviram ou leram. A isto chama-se promover o espírito crítico.

Ter um aluno que se lembra de propor à ex-professora a visualização de um filme que sabe que pode ser usado em contexto de sala de aula é extraordinário! Dei conta da minha alegria ao Rafael. Eu e os outros seus professores conseguimos cumprir com a nossa função em relação ao aluno. O Rafael é daqueles alunos que não esquecemos: absolutamente simpático, educado, humilde, inteligente e empenhado, participativo, sempre em busca do seu melhor, mas de forma equilibrada, saudável e respeitadora. Em primeira instância, os parabéns são para os pais do aluno, pela boa formação que lhe conseguiram passar e do próprio Rafael que soube acolher os bons princípios. Felizmente, vamos encontrando vários “rafaeis” ao longo da vida profissional. Na turma dele, havia muitos com este perfil, comprometidos com a sua aprendizagem, bons meninos e bons alunos. No entanto, destaco, particularmente, uma característica do Rafael que sempre se fez notar: a sua preocupação com o social e o seu comprometimento com as grandes causas. Cheguei a pensar que ele pudesse enveredar pela advocacia, por exemplo, pelo gosto que ele manifestava em argumentar, em querer aprofundar e compreender os assuntos. Não foi assim, mas continua a revelar esta mesma preocupação e é muito satisfatório poder constatá-lo! É para isso que os educamos, para serem cidadãos atentos, críticos e interventivos! Quando assim é, apenas sentimos que vale a pena o nosso trabalho e invade-nos um misto de alegria e de orgulho pela jovem pessoa que revelam ser. É tão consolador vê-los voar!

Assim, para não falhar ao Rafael e porque os meus alunos ainda são um pouco pequenos para isto, deixo também aqui a sugestão aos colegas que me vão acompanhando: o filme intitula-se “Justiça Artificial” (2024) e ainda o livro que também indicou e que só pelo título creio ser uma leitura importante - “Repensar o Capitalismo para Salvar a Humanidade”, de Rebecca Henderson, da Ideias de Ler (chancela criada pela Porto editora para livros de cariz mais pragmático). E como urge repensar o capitalismo! Não me parece que o segredo esteja no seu abandono, mas é imperativo repensá-lo, porque concentrar a riqueza mundial na mão de meia-dúzia, sem que haja uma redistribuição mais conforme é pornográfico.

Obrigada, Rafael, pelas palavras que me deixaram muito feliz e um bocadinho vaidosa e pelas sugestões! Se passares por Paços de Ferreira, apita. Pago-te um café.

 

Nina M.

 

 

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