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quarta-feira, 2 de agosto de 2023

Ausências de quem perdeu

Há ausências tão ferozes
Tão violentas
De quem perdeu
Um descarnar de alma
Até ao osso cru e polido
A mexer a chaga viva
Ardente dentro do peito
Que num registo poético
O homem chama
Saudade
O ditongo suaviza
A dor da falha
A sibilante acaricia
A palavra alongada
Pela tónica e termina
Em sussurro quase mudo
Impercetível
Como os seus efeitos 
A longo prazo


Crónica de Maus Costumes 335


Viagens & peripécias 


Passear com os pais e os irmãos é sempre bom. Cumpre-se o presente de aniversário da mãe, que foi precisamente esta saída. Começa a ser uma espécie de ritual, mas desta vez, apesar da dificuldade em conseguir uma data à conveniência de todos, conseguimos reunir.

Gostamos todos de passear e a responsabilidade foi do pai que, com o seu Ford escort 1300, branco, conseguia a proeza de meter lá dentro sete ou oito pessoas. Quatro ou cinco adultos e o resto canalha (nesse tempo éramos nós, os três irmãos, os miúdos). Dentro do bólide, cuja matrícula ainda sei de cor (DM-25-99), mas se me perguntam pela matrícula do meu carro, sou incapaz de a dizer, assim de sopetão, percorremos algumas das estradas de Portugal. A memória torna-se  muito seletiva com a idade e gosto de recordar a professora Assunção Monteiro, que era capaz de reproduzir datas e trechos literários de cor, mas afirmava, ufanamente, não saber o número de telefone de sua casa ou a matrícula da viatura, por se recusar, dizia ela, a ocupar a memória com coisas insignificantes. Tornei-me igual. Aprendi bem a lição. 

Certo é que às vinte e duas horas ainda fazemos o trajeto para casa, por conta de um furo que obrigou a andar com um pneu para desenrascar, mas que não permite grandes velocidades.

Os miúdos, os primos, os famosos cinco, estão felizes como nunca e já andavam a planear o carro dos miúdos há semanas! Todos juntos não lamentam a estrada agreste pela serranias nem lamentam cansaços. Estranhamente, acordaram cheios de pressa e com vontade de partir. Dizia o meu aborrescente, satisfeito da vida, que tínhamos de fazer mais passeios assim... O que ele quer dizer é que pouco lhes importa se vão para o Piódão ou outro lado qualquer, mas o que o anima é estarem todos juntos.

 Ocorre-me, imediatamente, os passeios que fazíamos, também nós, com os primos e, tal como eles, todos juntos num só carro. Os momentos prazerosos da vida são feitos de vivências significativas e ver a alegria estampada no rosto dos famosos cinco é uma satisfação enorme para os pais. Quero que eles, tal como nós, quando crescerem, tenham estes momentos para recordar. Histórias das quais se possam lembrar e rir-se juntos. Há frases e tiradas que nos acompanham vida fora. Um dos meus primos, que anualmente enchia o famoso ford escort a caminho da praia, invariavelmente, em Guilhabreu, se saía: ó ti' rene, olha as betoneiras verdes! De manhã e à tarde, diariamente, a frase era repetida, ao longo da segunda quinzena de julho... 

Serão sobretudo estas memórias que lhes ficarão e sei que a viagem será falada durante muito tempo.

Tens razão, Rodrigo, temos de fazer isto mais vezes, filho...


Nina M.

sábado, 29 de julho de 2023

Crónica de Maus Costumes 336

 Férias, descanso e tempo

 

            Este é o último fim de semana de julho, o que significa que esta rubrica semanal ficará em pousio. Quem a escreve terá quatro semanas descomprometidas e quem a lê já como rotina terá de a alterar um pouco e também não será difícil, com toda a certeza.

            Hoje, farei uma espécie de “mixórdia de temáticas”, mas sem o sentido de humor de Ricardo Araújo Pereira. Começo pela Jornada Mundial da Juventude, que tem trazido gente jovem e menos jovem, oriunda de todo o globo. Ficam em famílias de acolhimento e vivem, juntamente com eles, um espírito de fraternidade e de partilha. Não acolhi ninguém das jornadas, mas conheço a experiência, por já ter recebido a minha Gaia durante uns meses. Há quem conteste imenso o dinheiro gasto e os mais radicais resguardam-se na laicidade do Estado e nos últimos escândalos associados à pedofilia, dentro da Igreja. É preciso saber-se que uma certa quantidade de árvores não faz a floresta inteira e que a par dessa gente que trai os princípios cristãos também há muitos que são capazes de dar um verdadeiro testemunho do seu cristianismo. Hoje, o Parque da Cidade do Porto recebeu imensos peregrinos. Diz quem lá esteve que o ambiente foi de alegria contagiante, de multiculturalidade, com milhares de jovens a cantar e a pular, de forma sadia e sem comportamentos de risco associados a outro tipo de eventos. Numa das paróquias do concelho, há uma família eslovaca de seis: os pais e quatro filhos. Todos pequenos. O mais novo com apenas um ano. Vieram assim, com fé e correndo o risco de terem de se separar e ficar em casas distintas. Correu-lhes bem. Alguém teve condições e generosidade para os albergar a todos. Não teria essa coragem, a de partir com tanto filho pequeno sem saber bem para onde e em que condições. O espírito que os anima e os une não passa despercebido. Isto, seja-se crente ou não, mais crítico ou menos crítico em relação à despesa e a um possível retorno económico, não nos deixa indiferentes. Num mundo cada vez mais global, mas onde o egoísmo impera e que é ferido constantemente por conflitos entre os povos, esta jornada, com as pessoas que movimenta num convívio salutar e multicultural, que promove a tolerância e a aceitação do outro, só pode ser observada como uma luz de esperança para um futuro que se quer melhor. Quem não concorda com o evento pelo facto de não ser religioso, bem, goste ou não, a matriz cultural europeia é a judaico-cristã. Para o bem e para o mal. Nem todos gostam de futebol e já cá tivemos o europeu e o mundial, onde se terá gastado mais na construção de estádios… Acolhemos outro tipo de espetáculos musicais que podem também não ser do agrado de toda a gente. Não me parece correto que se use de dois pesos e de duas medidas. Estou à vontade para falar, porque nunca marquei presença em nenhum. Também não estarei em Lisboa. Penso que o Luís Osório, no seu “Postal do dia” fez uma análise bastante correta, de que gostei, e cujo texto já partilhei. Olhar para esta jornada apenas do ponto de vista económico é absolutamente redutor. O Papa Francisco tem sido uma voz constante na defesa dos mais desvalidos, dos refugiados, dos pobres, das vítimas em todas as circunstâncias e tem apontado o seu dedo crítico ao capitalismo feroz e desregrado que sobrepõe o interesse económico à vida humana. Um milhão de pessoas em Lisboa significa que partilham da visão do Papa, que é o grande motor para a vinda de todos. Quantos não estarão presentes por falta de oportunidade e não por falta de vontade… Para mim, esta mobilização é um sinal inequívoco de que ainda há esperança. Há jovens comprometidos na construção de um mundo melhor, eles que são o futuro das nações.

            Aprecio o que me rodeia à distância. Apesar de admirar o Papa Francisco, não me vejo metida no meio de multidões e de confusão. Evito-as. Gosto cada vez menos de grandes ajuntamentos. Sinto-me sempre uma estrangeira, expulsa da sua própria casa. Tem-se agravado com a idade e com a perda de vontade de pertença ao grupo alargado. Gosto da intimidade e do privado. Dos encontros genuínos com amigos, no sossego e no resguardo do lar. A convivência que aprecio tem de ser significativa e poucas coisas o são, efetivamente. Não adianta tentarem agarrar-me pelo braço e puxar-me pela manga, porque não vou. Não quero e não estou em idade de precisar de me adaptar a contextos que nada me dizem. Não é petulância, muito menos arrogância, apenas exercer o direito de preservar o meu ser, sem que o sinta agredido, sem fazer frete. O pleno usufruto da minha liberdade, mesmo que os filhos julguem a mãe um bocadinho estranha. Já tive a minha boa dose de multidões (selecionada mediante o gosto) em tempo útil da juventude. Tudo tem o seu tempo e, atualmente, o meu é outro. Sem retorno e inegociável. Preciso de pausar o tempo e de o viver mais demoradamente. Hoje, no quarto da filha, os olhos depararam-se com os novos quadros que pôs na parede. Quis retirar a suas fotos de menina de três ou quatro anos e, de repente, essa pequena criança deixou de existir. Há uma pré-adolescente que elimina as memórias da sua mais tenra infância sem saber que a mãe tem saudades dessa menina, desse irmão mais pequeno também… Sem se dar conta de que o tempo carrasco não deixa ninguém impune. Portanto, há demasiadas distrações que nos descentram, nos roubam a nós mesmos e nos distraem com superficialidades. Há significativos irrecuperáveis e ou os vivemos quando assim tem de ser ou escapar-se-nos-ão por entre os dedos, líquido e rarefeito.

            Votos de umas boas férias. Reencontrar-nos-emos em setembro, assim espero.

 

Nina M.

           

           

quarta-feira, 19 de julho de 2023

Poesia-me

Escreve um poema, insistes
Poesia-me
E penso na métrica e na musicalidade
Desejável para fixar o indizível
As palavras são insuficientes
Diante da plenitude, da beleza e do sublime
Do inferno da dor também.
Assim que há silêncios mágicos
Tão profundamente sentidos
Por uma alma [duas por uma ser manifestamente insuficiente]
Silêncios metafísicos
Vem o mundo. Quer
Arrancar-me suspiros a lembrar
Que existe
As tarefas: o jantar, a casa...
Escreve um poema - ouço.
E obedeço
Silencio-me em busca
De palavras que traduzam
Os silêncios perfeitos.
Não as encontro.
Emudeço.
Silencio como brisa suave
A acariciar amorosamente um rosto.



sábado, 15 de julho de 2023

Crónica de Maus Costumes 334

 

 Maternidade: Prós e contras

             Os meus olhos cruzaram-se com um texto, durante a semana, em que uma mulher afirmava que a opção de não ter filhos poderia ser uma escolha altruísta, devido ao estado em que se encontra o mundo.

            Fiquei parada a olhar para aquelas linhas, a pensar… Pelos vistos, antes de mais, há a tese de que o altruísmo, afinal é egoísta, porque a ação de fazer o bem e de alegrar o outro, ao que parece, traz mais benefícios ao agente do que ao beneficiado. Parece que são libertadas umas certas hormonas como a dopamina, a serotonina, a oxitocina, responsáveis pela sensação do bem-estar. Portanto, alegrar alguém com um gesto, com uma palavra de apreço, com um presente parece trazer benefícios ao próprio. Portanto, só temos a ganhar com as atitudes positivas.

Compreendo a ideia que sustenta tal afirmação, mas não me convence. Afirmar que trazer um filho ao mundo pode ser um ato egoísta e não gerar vida pode ser um gesto altruísta, porque iríamos poupar o novo ser ao desgosto de crescer e de se desenvolver num mundo alucinado e pouco razoável, não me parece argumento de monta. O mundo nunca foi recomendável! Sempre houve fome, guerra, ódio, misérias e opressões. Se todos pensássemos dessa forma, o ser humano estaria extinto. A crueldade existente nunca demoveu a humanidade de procriar. Parece-me mais lógico cada um trabalhar individualmente em prol de um mundo higiénico, porque se formos pensar na linha do tempo, desde os primórdios, a vida humana é feita de convulsões e nunca houve tantas condições. Naturalmente, também aqui há cisões abruptas e fossos absurdos e nem todos os homens têm o mesmo conforto, mas julgo que é inegável a evolução positiva, numa visão mais ampla da história da humanidade. Obviamente, a humanidade está muito longe de ser perfeita e há um longo trabalho a ser feito, mas deverá, precisamente, o ser ocidental questionar a maternidade ou paternidade como um gesto de altruísmo se nunca teve tantas condições favoráveis? Não serão estas até as responsáveis por uma certa doença da pós-modernidade, em que o tanto já é tão em demasia que sobra apenas um vazio imenso? Um tédio inexplicável e uma anedonia injustificável, num mundo em que quase se tem tudo e nada se abarca nem satisfaz. Parece que o facto de o homem não precisar de lutar pela sua sobrevivência o deixou à deriva, sem um sentido e um propósito que justifique a sua existência. Perante este cenário, surgirá o pensamento de que não valerá a pena trazer crianças ao mundo…  É verdade que se a população existente no planeta fosse estrategicamente redistribuída, sem olhar a fronteiras e nações (afinal o planeta é a casa de todos) a Europa não seria tão envelhecida. Paradoxalmente, temos um planeta sobrepovoado, em que os países ricos esgotam rapidamente os recursos naturais. Há quem defenda o decréscimo do ritmo de crescimento populacional nos países em vias de desenvolvimento como parte da resolução do problema, acompanhado de outras medidas, naturalmente, como o recurso mais regrado da energia, uma melhor gestão das zonas urbanas, a proteção da água, um crescente controlo da exploração florestal e a preservação das terras cultiváveis.

Não me parece, no entanto, que a decisão de ter um filho passe por esta postura de não querer sobrepovoar o planeta. A mulher tem o direito de não querer ter filhos e uma análise racional, tecnicista e fria aconselha-o vivamente. Desde logo, cada filho até atingir a maioridade representa uma despesa de cerca de duzentos mil euros aos pais (se eu colocar o numerário em viagens e livros, ainda me arrependo de ter tido os meus…), depois, a responsabilidade, a preocupação, o centro e o foco da vida passam a ser eles, inevitavelmente. Há perda de liberdade, na medida em que os pais assumem a tarefa de criar e de educar um novo ser que não pediu para nascer e tudo o que possamos fazer pode direta ou indiretamente prejudicá-los. Para não falar das situações aborrecidas como as noites mal dormidas, as doenças que sempre surgem, as birras, a exigência de atenção que não se compadece de cansaços e um dar de si a todo o instante, sempre mais e sempre de forma inesgotável, até ao fim dos nossos dias.

Na verdade, é muito fácil conseguir elencar um enorme número de razões para não se ser mãe nem pai e o altruísmo é a última que me ocorre.

A favor, apenas duas e, por sinal, egoístas: o privilégio de saber o que é o amor incondicional. Saber com todo o coração que daríamos, sem pestanejar, a vida por aquele ser que acolhemos no ventre e a possibilidade de prolongarmos os nossos genes na vida terrena, o que nos confere uma certa imortalidade. Estas duas razões ofuscam todos as outras contrariedades. Confirma-se a teoria de que quem dá amor, faz o bem, cuida, muitas vezes, sem vontade e com sacrifício, apenas porque ama, é o beneficiado. Por isso, os pais, mesmo exauridos, quando olham as suas crias, sobra apenas o amor, o retemperador de forças que os induz cuidado, sempre renovado, sem contas nem reclamações.

A minha pequena Matilde, na sua ânsia de compreender o mundo, pergunta-me muitas vezes se preferiria que morresse ela ou eu. E a minha resposta é invariavelmente a mesma: claro que preferiria morrer eu. Nem gosto que me fales assim. E ela insiste em querer saber os motivos. Tento explicar-lhe que a morte dela ou do irmão seria a morte em vida da mãe. Não há nada que me assuste mais. Invariavelmente, ela arregala os olhos e diz-me: mas, ó mãe, morrerias. Trocarias a tua vida pela minha? Sem pestanejar, respondo. Ela cala-se e eu sei o que lhe vai na alma. O que ela não me diz e daí vem o seu espanto é que ela não seria capaz de o fazer por mim. Tenho de acrescentar, para serenar o seu coração, que o amor de uma mãe por um filho é sempre maior do que o inverso e está bem assim, por isso, nenhum filho precisa de dar a vida pela mãe ou pelo pai, porque nenhum deles aceitaria.

 

Nina M.

 

 

quarta-feira, 12 de julho de 2023

Felicidade

Um momento de felicidade
Uma faísca
Uma centelha
Brilha
No meio do caos

Não é inteira a todo o instante
Tem o seu tempo
Fugaz
Às vezes chega pela aurora
Evapora-se pela manhã

Quem trocaria vida
Por esses breves e leves
Instantes
Quem a deixará cativa
De uma felicidade errante?

Ser feliz não ausenta de lágrimas
Um rosto sereno e belo
Caberá ao lado
A dor
Não querendo faz parte dela

Ser feliz é ser-se pleno
Realização de alma
Na Inteireza de um ser
Que não vem só com virtude
O cumprimento faz sofrer

Desejar uma vida boa
No meio da alienação
Ter vislumbres
Rasgos felizes
No meio da confusão




sábado, 8 de julho de 2023

Crónica de Maus Costumes 333

 Eterno retorno e amor fati

“E se um dia ou uma noite um demónio se esgueirasse na tua mais solitária solidão e te dissesse:

- Esta vida, assim como tu a vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande na tua vida há de retornar, e tudo pela mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio.
A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira.

 Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demónio que te falasse assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que responderias: - Tu és um deus, e nunca ouvi nada mais divino!

 Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse. A pergunta, diante de tudo e de cada coisa:

- Quero isto ainda uma vez e ainda inúmeras vezes?
Pesaria como o mais pesado dos pesos sobre teu agir! Ou então, como terias de ficar de bem contigo mesmo e com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?

Este excerto pode ler-se em “A Gaia Ciência”, de Friedrich Nietzsche e sistematiza o conceito de “eterno retorno”.

Partindo do princípio de que o nosso corpo é um conjunto de incontáveis partículas, oriundas da explosão de estrelas, e de que a massa existente no universo é finita, mas o tempo é infinito, num dado momento, todas as partículas de massa tenderão a ocupar todas as posições possíveis umas em relação às outras, repetindo, inevitavelmente, as posições ocupadas anteriormente. Portanto, como somos feitos de partículas dispostas no espaço, num universo de tempo infinito e de matéria finita, elas (as partículas) repetem as suas posições, logo, repetem também a nossa vida exatamente como ela decorreu, infinitas vezes.

Pela lógica, caros leitores, cada um de vós já leu esta crónica e repetirá a sua leitura ad eternum e, por essa mesma lógica, cada um de nós é, afinal, imortal! Não é maravilhoso?! E o universo é tão perfeito que nos originou com fraca memória (teorizo sem certezas) e tudo de que nos lembramos não passam de breves instantes, breves insinuações baças e nebulosas da memória, que designamos por “déjà vu”.

O desafio que Nietzsche nos propõe e nos faz pensar é mais complexo… A ser verdadeira a possibilidade de termos fraca memória, a nossa vida fica facilitada, porque se não nos lembramos, tudo o que fazemos, neste exato momento, está a ser realizado pela primeira vez, mas e se nos lembrássemos? E se houvesse consciência dessa repetição? Se a cada repetição já conhecêssemos a história, os diálogos, os pensamentos e os desfechos? Teríamos a coragem de viver a mesma vida eternamente, numa caminhada sem fim ou seria um fardo demasiado pesado e rejeitaríamos imediatamente tal hipótese? Que resposta daríamos ao demónio que nos oferecesse esta imortalidade?

Eu não lido muito bem com a rotina. Enfada-me. Cansa-me. Preciso de inventar estratégias para lhe fugir. Suponho que Nietzsche me considerasse fraca e ressentida, sensível à melancolia, pela necessidade da criatividade, pela urgência de criar mundos e viver neles para assim suportar esta dura realidade. É o que a escrita e a imaginação nos permitem: transformamo-nos numa espécie de seres demiúrgicos, com a capacidade de criar universos paralelos. E é tão bom poder fazê-lo. Doloroso também poderá ser, mas catártico.

É esta mesma razão que leva o homem, segundo o mesmo filósofo, a acreditar na vida para além da morte e a buscar a transcendência. Tudo não passa de um analgésico, na sua perspetiva, numa tentativa do homem evitar o sofrimento, nem que para isso tenha de mentir a si mesmo e acreditar na mentira que constrói, neste caso, numa vida para além da morte.

Talvez tentasse negociar com o demónio para me deixar lembrar só dos momentos plenos e que não me importaria de reviver à exaustão. Só esses. Tudo o resto, o melhor seria não lembrar mesmo e viver tudo como se fosse a primeira e única vez. Ora… O que propõe Nietzsche para solucionar o problema que ele mesmo levantou? O conceito de “amor fati”, que mais não significa do que amor ao próprio destino. Aceitação plena da vida ausente de sentido, que caminha inexoravelmente para o nada. Um sim consciente e assertivo em resposta ao desafio lançado, um não só viveria a minha vida eternamente, como quero que seja assim.

Na verdade, Nietzsche é um estoico com umas pinceladas inovadoras… Na sua perspetiva, os que enfrentam a vida de frente, sabendo que as agruras fazem parte da experiência de estar vivo, com toda a autenticidade e sem placebos, merecem viver.

O Nietzsche morreu louco. Depois da famosa cena do cavalo, em Turim, o filósofo nunca mais foi o mesmo. Ao ver o cocheiro chicotear violentamente o cavalo, ele impediu-o, chorando e murmurando palavras impercetíveis ao ouvido do animal. Em 1879, largava o mundo académico e a rejeição de Lou Salomé (a mulher brilhante que encantou Freud, Nietzsche, Rilke…) atirou-o para um mundo de amargura e de solidão. Viria a morrer em 1900, no mesmo ano do nosso Eça de Queirós, e com poucos dias de diferença. Eça morreu a 16 de agosto e o filósofo, no dia vinte e cinco, do mesmo mês, num quadro de demência. A causa da morte não está claramente definida. Segundo os médicos alemães, o óbito estaria relacionado com o consumo excessivo de ópio e de haxixe, que ele usaria como forma de automedicação e há outra teoria que aponta a sífilis como causa, visto que seria um frequentador assíduo de lupanares.

O cinismo da vida é tramado e não dá sossego a ninguém, principalmente, aos maiores. O homem que propôs o “amor fati” não o soube aplicar, caso contrário não teria ensandecido ou viveu tão intensamente e cruamente a dor, sem subterfúgios (tese que cairá por terra caso o consumo de ópio e de haxixe se comprove) que enlouqueceu. Viveu anos em silêncio e as últimas palavras que terá dito foram: “mãe, eu sou um idiota”, dez anos antes da sua morte. Não, Nietzsche. Não eras nada idiota, mas a absoluta solidão e a amargura podem matar; matam a alma, com toda a certeza. Talvez a consciência do eterno retorno à mesma dor da rejeição fosse insuportável e talvez a loucura e a fraca memória fossem melhores do que a consciência.

Nina M.