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segunda-feira, 29 de março de 2021

Fragrância

Quisera eu ser fragrância
Simples perfume no ar
Para dar asas à errância
E na minha casa morar

Voaria sem ter asas
Esparzindo o meu odor
Só tu bem o sentirias
O perfume do meu amor

Saberia a felicidade
O aroma que se espalha
pelo campo e pela cidade
Arde em fogo é fornalha

Viajaria leve livremente
Sem qualquer impedimento
Só para depositar um beijo
Nesse teu triste lamento

Seria apenas essência
Despojada de matéria
Imaterializada presença
Na ausência de miséria

E nessa decomposição
Em fragrância de fruto
Ter-me-ias sempre à mão
O teu ser absoluto


sábado, 27 de março de 2021

Crónica de Maus Costumes

 Memórias

            A minha cabeça, tal como a de todos, ganha vida sozinha e avança pelos trilhos da memória ou do pensamento, conforme a ocasião e dá largas ao seu livre-arbítrio sem pedir licença à dona.

            Na verdade, é ela a dona, que me faz ter pesadas ausências, por vezes notadas e sofríveis quando me sinto trespassar por um olhar inquisidor de quem tenta saber por que caminhos estreitos eu estive perdida. Demasiado sinuoso para ser explicado e, subitamente, as voltas já são tantas que não o saberia dizer.

            Hoje recuei no tempo e viajei até Chaves, a bela Aquae Flaviae, flor do Tâmega. Bela cidade. Pequenina e pitoresca, fria e quente como o Diabo ao sabor das estações, que me fazia gostar de romper o rabo das calças nos cafés para usufruir do ar condicionado que não tinha em casa e manter a temperatura mais agradável, quer de inverno quer de verão. No frio, o aquecedor a óleo que permanecia ligado o dia todo, ainda compunha o cenário, mas no verão… Era o suar das estopinhas … Por baixo do meu T0, havia um café, onde me refrescava e por lá permanecia, a gozar a temperatura amena. E eu que suporto bem o calor! O que fará quem com ele sofre!

            Certo, é que morava relativamente perto do centro da cidade, junto da avenida que passa em frente à escola Dr. Júlio Martins. E foi aí, na rua, que conheci o Sr. Engenheiro Montalvão Machado, o dono do T0 que arrendei.

            Os Montalvão Machado são um nome de respeito, desde sempre ligados à política local e nacional. O Dr. Júlio Montalvão Machado, por exemplo, foi um dos  fundadores do Partido Socialista, falecido em 2012, era também conhecido pelo interesse que dedicava à História local, tendo publicado alguns livros sobre a República e a Cidade de Chaves. A República chegou a Chaves com dois anos de atraso e o facto não esteve relacionado com a distância entre esta urbe e Lisboa, mas pelas sucessivas incursões monárquicas do Paiva Couceiro, refugiado em Espanha, para conseguir reorganizar os ataques invasivos. De modo que volta e meia, a bandeira hasteada mudava de cor. Tenho comigo um dos seus livros: Crónica da Vila Velha de Chaves, por razões académicas, na altura, oferecido pelo seu familiar. Quem gostar de História, vale a pena ficar a saber um pouco mais dos factos, pois os monárquicos e republicanos pulavam de trincheira como quem muda de camisa. Qualquer semelhança com a política local de hoje será mera ficção! Os Montalvão Machado eram familiares de António Granjo, que foi presidente da Câmara da Cidade, que participou na Primeira Guerra Mundial, exerceu funções de Presidente do Ministério, acabando brutalmente assassinado, naquela que ficou conhecida como a “Noite Sangrenta”, por ser um forte opositor à Monarquia do Norte, movimento liderado por Paiva Couceiro, que não viria a singrar.

            De modo que quando conheci o Sr. Engenheiro, já um homem idoso e curvado, conheci alguém com o peso da História aos ombros… Pena ter-me apercebido disso um pouco tarde, até porque quando o encontrava, normalmente, para lhe entregar o cheque com o pagamento da renda, trocávamos algumas palavras. Porém, a primeira vez que lhe falei, foi por telefone, para saber da casa. Atende-me do outro lado, uma voz assertiva e ufana “Estou sim, daqui fala o Sr. Engenheiro Montalvão Machado”. A Sónia Moreira, aos vinte e sete anos não era a mesma que é hoje. Menos ponderada, um pouco doida e com a pressa da vida. Soou-me a vaidade o atendimento e a plebeia atirou do alto da sua altivez, na fração de segundo seguinte: “Daqui fala a Dra. Sónia Moreira, muito bom-dia.” Parva, pois claro! Erros da mocidade. A minha colega que assistia à conversa ria-se que nem uma perdida. Quando desliguei, olhou-me, à espera do desenvolvimento. Disse-lhe: “Pois se o senhor se apresenta como senhor engenheiro, atiro-lhe com o doutora, que normalmente não me serve para nada…”

Ficamos tratados, nesse dia. A partir de então, sempre que nos cruzámos, senhor engenheiro para cá e senhora doutora para lá. Certo é que o senhor engenheiro (na verdade, ele gostava do titulozinho) simpatizava comigo e se à chegada me fez assinar um inventário com os bens que a casa continha, à saída não quis ver nada, por mais que insistisse para verificar que lá permanecia tudo direitinho.

            Hoje, não reagiria, decerto, dessa forma. Seria menos atrevida e mais comedida e, certamente, ter-lhe-ia aproveitado melhor as conversas, já que o distinto cavalheiro, com o seu je ne sais quoi de quixotesco, foi sempre afável, fazendo questão de mostrar a impressão que tinha a respeito da jovenzinha que se percebia distinguir da juventude estragada, dizia ele. Coitada de mim, com um apelido sem história e ao que parece com raízes judaicas (com jeitinho ainda tive cristãos-novos nos meus antepassados e não carrego ponta de antissemitismo, entenda-se. Hoje, já não se pode dizer nada sem clarificar que não há intuito de qualquer desprestígio nas palavras) e sem sangue importante que me corra nas veias. Devia ser o porte. Há quem me acuse disso, sem que no entanto manifeste qualquer elegância especial, aqui a chambeta, que rompe torto os sapatos…

            Certo é que a imagem do senhor, hoje, invadiu-me. Certamente, já terá falecido, pois se o conheci nos seus oitenta… Ele lá fez questão de me prestigiar com o apelido a história de família e de me honrar com a sua simpatia…

Em sua honra, senhor engenheiro Montalvão, em jeito de quem se desculpa pela ousadia passada, à qual terá achado a sua graça, parece-me…

 

Nina M.

sexta-feira, 26 de março de 2021

Redivivo

 Há palavras que nos definem

 Baixinho ou em silêncio

São nossas eternas amantes

O absoluto e a eternidade

Um segredo bem guardado

Da mais profunda intimidade

Pode ser um nome

Quem sabe um adjetivo

Talvez um verbo para os mais inquietos

Tenho várias que me amam

E me fazem...

Hoje sei uma

Pela qual me apaixonei

E volteia em mim em círculos

A dar-me conta da sua essência

Mas precisa de corpo inteiro

Para viver

Redivivo, o ressuscitado

Ou o que há de vir

E hei de ser rediviva

Assim que voltar ao viço da vida

E me abraçar à sua seiva 

Como náufrago perdido



 



segunda-feira, 22 de março de 2021

Freima

Não sei que frémito ou ânsia 

Lança um coração ao vento

Em passo de contradança

Em fúria de momento

Com loucura de criança

Fogo incêndio e cinza

Arde! Tudo em mim é chama

Viva em labaredas de azul

É  desconcerto freima atrevida

Um cansaço deste paul

Deste tempo de desilusão

É um grito de revolta

Agiganta-se a emoção 

Resgatemos a humanidade

Salvemos a nossa condição

Não haja leito de conforto

Para os jogadores de xadrez

Brademos contra as injúrias

Contra o ataque tão soez

Erga-se alto a nossa voz 

Faça-se ouvir

Um grito de blasfémia

Não calemos a cobardia

Combatamos com poesia

Os desmandos assassinos

Em cada poça de sangue

Jorrado por mãos carnívoras

Jaz um petiz exangue

Para horror dos que o choram

Sem tempo de o embalar 

Nem de exéquias decentes

Tempos de ferocidade

Tempos de homens doentes

E um dia sucede o outro nas calhas

De um mundo indiferente

Se nos falha o conforto

Já nem nos sentimos gente

É lá ao longe onde o sol ferve

E a terra seca moribunda

Não dói nem se ouve a matança

Mesmo que seja uma criança

Ainda haverá tempo. Haverá esperança?






sábado, 20 de março de 2021

Crónica de Maus Costumes 224

 

Confinamento e irritações

Pressuponho que o longo confinamento que vivemos não deixa ninguém saudável, tanto física quanto psicologicamente. No que respeita a condição física, para mim não fez grande diferença, dado que continuei ativa e com as corridinhas habituais. No entanto, a componente mental começa a evidenciar exaustão, devido à situação que se arrasta já há um ano. É muito tempo de clausura e a vida monástica nunca foi uma opção para mim.

A capacidade de colocar a situação em perspetiva também me faz saber que sou uma afortunada, sem grandes razões para o queixume. Aliás, sou pouco dada a isso… Concedo-me o direito à lástima durante um tempo, porque todos nós precisamos de um período de adaptação, mas tento sempre enquadrar a situação na devida moldura, para perceber que os meus motivos para o agastamento são ridículos se comparados com tantos verdadeiros problemas reais. A partir do momento em que mantenho o trabalho, o salário, a minha saúde e dos que amo, não há lugar para reclamações sob pena de cair no ridículo… Não falarei, portanto, do tanto que me falta, por considerar que o melhor a fazer nesta situação é olhar para o tanto que me sobra. Porém, se há algo em que o confinamento começa a fazer das suas é no que diz respeito à irritabilidade. Se a estupidez por si só já me causava algum prurido, neste momento, sinto sérias dificuldades em lidar com ela e vejo a minha paciência esgotar-se num ápice, perante algumas situações.

Incomodo-me, desde logo, com a minha classe profissional e com as queixas de alguns bebés chorões que nunca estão satisfeitos com nada. Desconfio que a única solução para essa gente era ficar de papo para o ar em casa, sem fazer nada e ver o dinheirinho a cair na conta ao final do mês. Eu também gostaria que me saísse o euromilhões, não para ficar inativa, pois não teria paciência para tal, mas para fazer única e exclusivamente o que me apetecesse e aquilo de que verdadeiramente gosto e que para aqui não vem ao caso…

Falo, obviamente, das vacinas e dos comentários chorosos (e estúpidos, já agora) sobre a obrigatoriedade ou não de a tomar e os medos exagerados que muitos revelam. Se falamos em desconfinar, aqui d’el-rei quem me acode, porque é um perigo e nem pensar… Sem vacina deveríamos todos recusar regressar à escola!… Onde já se viu?! E catrapumba! Cá vêm os discursos miserabilistas de fazerem da classe carne para canhão, etc e tal! Muito bem. Vamos desconfinar e os professores vão ser vacinados. Era o que haveria de faltar! Vamos servir de cobaias e não veem os problemas que têm surgido por esse mundo fora?! E chegam logo os arautos da desgraça a anunciar que daqui a dois anos é que vai ser bonito, porque vai começar gente a morrer em barda por causa dos coágulos originados pela vacina e sei lá o que mais… Ufa! Haja paciência!...

Meus amigos, não se querem vacinar? Não vacinem. Não são obrigados a isso, mas depois não se lamentem por se sentirem inseguros e se, eventualmente, contraírem a “gripezinha” lembrem-se também de que não podem prever possíveis sequelas futuras. A vacina pode causar efeitos secundários graves em alguns de nós? Pode. Tal como qualquer medicamento. A comunidade médica iria permitir que se inoculasse em massa a população com algo que fosse mais prejudicial do que benéfico, já depois de toda a testagem que foi efetuada? Obviamente, que não! Deixemo-nos de teorias da conspiração sem nexo e confiemos nos cientistas que têm vindo a trabalhar arduamente para nos devolverem a normalidade o mais rapidamente possível! Lembram-me aqueles pais modernaços e inconscientes que optam por não vacinar os filhos contra o sarampo, por exemplo. “O meu filho não foi vacinado e nunca apanhou!” Pois não! Grande parvo! Só não apanhou por haver imunidade de grupo já que a larga maioria se encontra inoculado. Deixássemos de o fazer e logo se veria… Por essa ordem de raciocínio, ainda hoje teríamos gente a morrer de tuberculose… Perco as estribeiras com isto! Depois, há aqueles que não sabem se serão vacinados na área de residência ou na área da escola, pois trabalham a muitos quilómetros de casa e se sentirem efeitos secundários como faço para voltar para casa? A sério? Isso é alguma questão? Se tiver algum problema muito sério será transportado para o hospital, se sentir uma ligeira indisposição lá terá que a aguentar ou pedir a alguém que o vá buscar. Como faria caso se sentisse mal num dia normal de trabalho?!

Não há paciência! Gente que gosta de complicar e que para cada solução encontrada adora arranjar um novo problema com a esperança que seja insolúvel!

Tudo isto me causa uma ligeira irritaçãozinha, mas a grande urticária surge com a passividade das agendas políticas, dos interesses partidários e da apatia de muitas ONG, muito defensoras dos direitos humanos quando por qualquer razão oculta lhes interessa, mas muito relapsas noutras situações. Ando há uma semana a tentar digerir a ira que se apoderou de mim, por uma situação que se arrasta há tempos e que parece a ninguém indignar. Falo de Moçambique. Hoje uma manifestação, em Lisboa, pró-desconfinamento, contra o uso de máscara, à luz do que se encontra agendado noutros países europeus, porque de facto o uso da máscara ou o cartão que indicará a nossa vacinação contra a COVID e que constitui um grave atentado contra a nossa liberdade é que é indecoroso! Decapitar meia-dúzia de crianças e chacinar comunidades, isso não interessa nada, porque se passa bem longe de nós! Talvez se lhe pegar por outro lado, muitos senhores possam sentir-se verdadeiramente ofendidos, indignados e começar a pressionar a comunidade internacional a intervir naquele território, para se tentar pôr cobro ao desmando. Atenção, que vou dar uma novidade: os moçambicanos são negros! Gente! São negros que estão a ser chacinados! Será que assim resulta?! Mamadou, Ascenso Simões, bloquistas em geral, alguém me ouve, por favor?! Querem agilizar algumas das vossas ações para chamar a atenção para esta barbárie?! Serei a única alma a quem ferve o sangue, treme o intestino e cai na raiva por se sentir impotente?

Fartinha desta santa e honrada hipocrisia de uma sociedade tinhosa da qual me apetece fugir, mas sem a qual não posso viver! Ó dilema!

Como diria o ilustre Fernando, na voz do seu Álvaro, “É o sono da soma de todas as desilusões,/ É o sono da síntese de todas as desesperanças […]”

 

Nina M.

 

sexta-feira, 19 de março de 2021

É no prelúdio da sílaba anunciada

 É no prelúdio da sílaba anunciada
 Que me observo e O vislumbro
 E na bruma dispersa dos versos O consumo
 Vejo-me e descubro-O envergonhada

 Senhor do meu dia e do meu ano
 Nesta era...Idade tão tardia
 A lua cheia que de brilho se enchia
 Só para desfazer o vil engano

Que a minha alma acrescentava
O Amor afinal não era só o dano
Mas a cura para o erro tão mundano
E a dádiva de mim se revelava

Encontra quem Te procura
Numa luta diária que porfia
Os deuses e a sua rebeldia
Ciente da desejosa aventura

Numa página em mim aparecia
A desvelar-se sem prurido e sem mistério
Silencioso como o túmulo de cemitério
O Amor derramado em Poesia



 

quinta-feira, 18 de março de 2021

Sem alma e sem chão

Sem alma e sem chão

Cabeças que rolam pelo chão

São crianças inocentes

Ainda ausentes de razão

Cordeiros da Páscoa imolados

A lembrar a culpa e a crueldade

 Dos que deveriam sentir-se envergonhados

Desça sobre vós a ira do vosso Profeta

Ou deus menor deus das trevas ou anjo caído

Que se sacia com sangue inocente

Arda ele e todos vós nessa sua sarça ardente!

Renego todos os deuses da ira e da tirania

Renego-vos, malditos, e a vossa vida fria...

Se o vosso deus poupou Abraão

Porque quereis transformá-lo em vilão?

Porque não vejo sublevação... Ondas gigantes

Imparáveis de indignação?

Que era das trevas que Idade Média avança

Sem que se impeça a morte de uma criança?!

Que a terra que um dia vos há de dar a sepultura

Se fenda aos vossos pés e vos engula!

Vos leve para um buraco negro sem fundo

Longe bem longe para os confins do mundo!

Não regressareis 

Onde houver um Homem de boa vontade

Não caberá um asco de ser humano!

Morrei e morrei já, vândalos tiranos!

Ide ao encontro das vossas sete virgens celestiais

Tão bestas tão feras 

Não sabem que as doces virgens

Rejeitam os boçais!

Iludidos, toscos ignorantes sanguinários

 Estais ao serviço de mercenários!

Quem pudera arrancar de mim esta ira! 

Este duplo nojo que me atormenta!

Perdoai-me, Senhor, que me transformo

Na fera perdida que a Tua Mensagem afugenta...