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quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Ícaro

- És feliz, amor meu?
Anjo caído do céu...
Assim sem asas prostrado na terra...
- E alguém é feliz na guerra
Em meio do que não tem
Próximo do que almeja?!
Sei a cura para o absurdo
Tudo o que espanta o mundo surdo
Até descobri o ideal
Sei da esperança final...
Se sou feliz?!
A momentos para além do tempo
Sou Ícaro desassombrado
Comporto a mesma alegria
De quem se queimou no sol
E na terra vive prostrado
Porém sempre que sou tudo
Tempo infinito e absoluto
Poema vivo no coração de alguém
Sei não estar aquém...
A alma eleva-se por magia
Sem asas voa numa correria
Ao encontro do sagrado imutável
Se sou feliz?
Fui-o neste instante passageiro
Onde se inscreve o amor derradeiro

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Caronte

Eis  o carrasco.
Chega Caronte à beira-rio
Atravessa o silêncio da noite
Pálido e frio
Observa sarcástico a rebelião
Dos que atrasam a partida
Não mostra pressa
Perde-se no sabor da tortura
Revolta sadia contra o tempo
Finitude injusta e prematura
Não é chegada a hora!
Nunca será a hora
Se a consciência não dorme ainda
Se o corpo balanceia no movimento...
Tirano, implacável, o tempo é surdo
Arrasta consigo as vozes que quer calar
Dor, angústia e solidão
Murmúrio, séquito de quem sobeja
Silêncio absoluto sepulcral
Cala a alma dorida, amarrotada da viagem
Mortalha do ser efémero
A vida... Essa foi agora
O depois... O que a morte quis

domingo, 27 de outubro de 2019

Crónica de Maus Costumes 153


Costela cristã
Já me disseram, por outras palavras, que a minha esperança e bonomia para com o outro reside na minha costela cristã. Sorri. Não tenho só uma costela cristã. Tenho várias. É a minha matriz cultural e a de quase todos os que nasceram neste país e a minha matriz educacional também. Não a larguei. Poderia tê-lo feito, mas escolhi não o fazer.
Assumo, assim, a minha identidade cristã, de pertença a uma comunidade católica. Também assumo as minhas dúvidas e as minhas críticas face a uma igreja (diferente de Deus) que nem sempre soube ou sabe dar o exemplo e que é falível, porque é feita de homens. Há erros mais desculpáveis do que outros. O que mais me inquieta e desgosta na posição da Igreja (entenda-se representante de toda uma comunidade crente) é o isolamento e a necessidade de ocultação de factos por sentirem que fragilizam a sua estrutura e a sua importância. A transparência será sempre o melhor caminho. Sinto que falha principalmente junto dos jovens. A sociedade não é mais a mesma e se é verdade haver valores imutáveis que devem continuar a ser preconizados, também não é menos verdade que o conhecimento torna as pessoas mais críticas e questionadoras, faz com que haja dificuldade em lidar e em acreditar em determinados dogmas instituídos. Ou se sabe valorizar a mensagem da Boa Nova, o essencial do Cristianismo, ou se perde a identidade. Sinto e vejo muitas vezes esta identidade perdida, à deriva, no seio dos que deveriam ser os primeiros a darem o exemplo.
Se escolhi permanecer ligada a esta comunidade, ainda que me recuse a embarcar na ideologia de rebanho, como a apelida Nietzsche, e, por isso mesmo, manter um espírito crítico, é devido à sua mensagem de amor. É o convite constante à vigilância do ego e o reconhecimento da imperfeição, fruto da vil condição humana. Porém, é sobre esta consciência de pequenez que se constrói o ser dia após dia, com paciência e numa tarefa árdua que exige resiliência, um exame introspetivo quase diário, a humildade de se reconhecer pequeno e ser que falha; a humildade para recomeçar diariamente um trabalho de Sísifo, que sabendo não alcançar a perfeição, permite, no entanto que se evolua. Tal só será viável se a mensagem frutificar e se houver terreno que a saiba acolher e olhar-se. É difícil confrontarmo-nos com as nossas angústias e olhá-las de frente, com o fariseu que habita em cada um e domesticá-lo, mas é do nada que se ergue o melhor templo.
Humano é o que erra e pede desculpa, o que fracassa e recomeça, o que assume a sua insignificância no universo, mas tenta fazer o melhor que pode com as circunstâncias em que vive. Humano é o que se preocupa em responder sem subterfúgios à sua consciência, a única a quem deve verdadeiramente justificações. Humano é o que nem sempre é corajoso, às vezes é frágil, mas luta para ser melhor. Eu vejo poucos seres humanos e muitos super-heróis decadentes. Como diria Pessoa, ou melhor, Álvaro de Campos no seu “Poema em linha reta”:

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
[…]
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?”
[…]
Vale certamente a pena ler na íntegra… “Tudo vale a pena/Se a alma não é pequena”.
Nina M.

sábado, 26 de outubro de 2019

Tempo

Tempo finito da realidade,
Querer-te-ia antes
Indistinto e perene
Ser de outra dimensão...
Tempo congelado
Tempo reunido
Manta de retalhos...
Nessas memórias de tempo
Mora a alma crua e gasta
Poder segurar-te entre as mãos
Antes de partires novamente
Revelar-te imortal e sem fundo
Permanecer nesse tempo irreal
De completude total
De quem chegou ao fim do mundo
Olhar-te
Ver-te inteiro
Encontro transfigurado
No tempo sacralizado

domingo, 20 de outubro de 2019

Hoje afasto o sonho

Hoje afasto o sonho
Quimera longínqua 
Sou tristeza enraizada
Sinfonia triste amargurada
O azul do céu espreitou
Só para me fazer sorrir
E entre as nuvens me mostrou
Estranheza pela angústia sentir
- És sol e abóbada celeste
Queria que acreditasse
Mas se o dia é agreste...
- O céu limpo faz milagres!
Não retira a poeira 
Em que se tornarão os ossos
Nem a carne nua e fria
Debaixo da sepultura escura
O que sobrará no tempo infindo?
O nada em que me tornei...
A possibilidade que não fui...
A memória gasta e escassa de alguém...
E entre o dia em que se nasce
E o dia em que se parte
Sobram dias de ninguém.
- Olha a tua obra, dizem.
Não sei se vale um vintém
Nem almejo imortalidade
Essa vinga nos genes que ficam
Quero só a paz serena de alma
Saciada!
Ou morrerei assim... Sempre
Sempre inconformada!

sábado, 19 de outubro de 2019

Crónica de Maus Costumes 152


Fernando Gomes e os meus amigos

                Quero começar esta crónica semanal manifestando o meu desejo de sinceras melhoras ao ex-jogador do meu FCP, Fernando Gomes, o nosso “bi-bota”, como é conhecido. Para os mais distraídos, Fernando Gomes ganhou, por duas vezes (em 83 e em 85) a “Bota de Ouro”, troféu atribuído ao melhor marcador da Europa, pela UEFA. Considero que este país nunca lhe reconheceu o devido valor. Talvez acontecesse se a camisola fosse de outra cor… Felizmente, ele vestiu de azul e branco a maior parte da sua carreira desportiva!
O Gomes está doente. Foi-lhe diagnosticado um tumor no pâncreas. Desejo vivamente que consiga debelar a maldita enfermidade. Quero agradecer-lhe por tudo quanto deu ao meu FCP e confidenciar-lhe o seguinte: nunca fui de ídolos. Não tive paixonetas de adolescência por atores, cantores, jogadores, o que quer que fosse… Ainda hoje sou assim. Gosto muito de um poeta em especial e de algumas personalidades das mais diversas áreas, isto é, gosto muito do trabalho deles e não deles concretamente, porque na verdade não os conheço. Assim, admiro-os pelo que fizeram ou conseguem fazer, mas não sei se os estimo, porque teria que os conhecer pessoalmente para o saber. O Gomes foge à regra.
Sou a irmã do meio entre rapazes e, como eles não gostavam de bonecas, de vez em quando, gostava eu da bola e sempre que jogávamos aos penaltis lá em casa, invariavelmente, eu encarnava o Gomes e não se falava mais do assunto. Eu era o Gomes e os meus irmãos que escolhessem entre os outros do plantel azul e branco. Eles recorriam a alguns estrangeiros, o mais velho, por exemplo, era o Zico, apelido pelo qual ainda hoje é conhecido entre os colegas da escola… Eu era invariavelmente o Gomes. Gostava tanto dele, que fiquei absolutamente desgostosa com a sua transferência para o Sporting, onde viria a terminar a sua carreira. Sei que a responsabilidade da transferência foi mais da estrutura do que da sua vontade. Assim, anos mais tarde, voltaria àquela que sempre foi a sua casa para trabalhar na direção do seu clube. O Gomes foi, portanto, quem mais se aproximou de um ídolo para mim, na tenra idade dos nove ou dez anos. Ai de quem se atrevesse a dizer algo de menos positivo em relação à sua pessoa! Nem o Paulo Futre ou o Rabah Madjer conseguiram ofuscar o seu valor aos meus olhos!
Pelo sonho, pela ilusão, pela alegria e vitórias proporcionadas, o meu gigantesco obrigada!
Ao refletir sobre este assunto, constato que cresci num ambiente masculino: dois irmãos e os meus primos com quem mais convivi pela proximidade etária, todos rapazes! Foi sendo assim pela vida fora! Na faculdade, o meu grupo de amigos era constituído maioritariamente por rapazes e tenho amigos homens que foram ou são fundamentais na minha história de vida.
Sinto-me em dívida contigo, Zé Silva. Serás o único que vou particularizar, por querer há muito tecer-te um agradecimento público. Já o fiz, mas não estavas presente e ainda não nos tínhamos reencontrado no facebook!
O Zé é responsável pelas minhas publicações. Antes dele, tudo ficava na gaveta. Certo dia, convidou-me para colaborar com uma rubrica no jornal “Viver Valpaços”, o que fiz durante três anos (o prazo da sua existência). O Zé nem sabia que eu escrevia ou como escrevia. Fizemos um acordo, disse-lhe: eu escrevo-te um texto, dou-to a ler e tu prometes-me que só publicas se considerares ter qualidade suficiente. Era uma gaiata de 25 anos, desconfiada do que conseguiria fazer, tal como hoje ainda. A ideia de mediocridade sempre me afligiu! Não melhorei nada, nesse aspeto! Sugeri que pedisse colaboração a outra pessoa.
 Resposta pronta: “Sónia, se quisesse um artigo sobre moda até poderia ser. Não é essa linha que pretendo.”
Surgiu, dessa forma, o meu primeiro texto público: “O reino do faz de conta”. Poderia ser perfeitamente uma crónica destas. Consistia numa crítica a um estado de coisas neste país!
Julgo que o Zé nunca compreendeu o significado dessas palavras. Reconhecia-me, ele, alguém que admiro e estimo pelo ser humano que é e pela sua vasta cultura, capacidade para poder com ele colaborar, sem nunca ter lido nada meu! Deduzo que terá chegado a essa conclusão através das nossas conversas, da nossa convivência. Na altura, Zé, estarias próximo dos 40 anos, mais velho, mais experiente, bem mais culto do que eu e, no entanto, vislumbraste, vá-se lá saber como, algum potencial. Se o gosto pela escrita existia, depois disso, entranhou-se definitivamente. Obrigada. Julgo que não serei caso único, mas quem assim entender que se manifeste.
Sou uma felizarda, porque as circunstâncias da vida têm-me trazido os amigos de que preciso para crescer, para evoluir, para não me deixar sossegar e exigir-me cada vez mais. A verdade é que o fazem mais os amigos homens do que as amigas mulheres (perdoem-me a franca honestidade). Identifico-me mais com os interesses masculinos do que com os femininos, salvo raras exceções (pronto, Lurdes Martins, já te identifiquei, podes sossegar…).
Pode parecer estranho a olhos alheios, mas não quero saber, porque tenho o pleno direito às minhas idiossincrasias e estou-me literalmente nas tintas para o que possam pensar! Não me interessam malas nem sapatos ou a cor da berra do verniz e tampouco a conversa constante sobre a escola ou os filhos! Também os tenho e também os amo, mas sou muito mais além de mãe. Recuso depositar-lhes a minha vida nas mãos e esperar a síndrome do ninho vazio! Hão de voar que é para isso que os crio e, quando tal acontecer, alegrar-me-ei por ter cumprido o meu papel.  A minha vida será preenchida com o meu ser.
Se é para ter uma conversa, deem-me a Literatura, a Poesia, a Arte, a História, a Sociologia, a Psicologia, a Filosofia e todos os domínios que pensem o Homem, a sociedade e a vida. Independentemente do género, venha até mim essa gente! Lamento, as ciências exatas são importantíssimas, mas não exercem qualquer fascínio em mim. Defeito meu, eu sei, mas tenho direito a ele!
Há em mim uma necessidade orgânica de me ligar a quem tem muito para me oferecer. Sou muito exigente, dizem-me constantemente em casa. Será a imperfeição que não consigo corrigir. Leio o que posso para aprender e evoluir, mas sempre se manifesta insuficiente, porque nunca terei tempo para ler o que preciso. Como ouvinte atenta que sou, aprendo também muito com os outros, assim eles possam partilhar o seu saber e bebo tudo sofregamente com ânsia de me cultivar. Ainda assim, sinto sempre ficar aquém. Nada nunca é suficiente e a ignorância que não quero mantém-se ao virar da esquina.
Aos meus amigos, na maioria homens que contribuem para afastar de mim tal cálice e manifestam interesses comuns, obrigada. Vou-me tornando uma versão melhor com a vossa indispensável ajuda. Sou um sorvedouro oportunista, reconheço-o, mas retribuo com o que me é possível… Perdoai se o saber não é tanto!
Nina M.  






quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Difícil viver só entre a multidão

Difícil viver só entre a multidão
Sentir que se é só
Tanto quanto ao nascer e ao morrer
Só no caminho sinuoso do encontro de si
Renegar convites alegres de fútil companhia
E encontrar o sonho numa solidão equivalente
Abraçá-la como se abraça a gente...
Sina que sempre se adivinhou
Ao longe no destino que traçou
Caminho sem retorno de êxtase
As palavras ficam vazias, abstratas
Nem sinal de poesia!
Eu, que as venero e as amo!
Que nelas me queria poder fundir 
E delas me cobrir por inteiro
Estranha condição de ser infinito
De alma em revolução
E o fosso entre mim e os outros que não vejo
Vai-se cavando lento e moribundo
No movimento natural da ordem das coisas
Totalmente só no meio de tanto ruído
Só uma voz quero ouvir
Só uma voz quero seguir:
A do silêncio impoluto que escuta.