Se um abraço se oferece
E dois seres se enlaçam
Duas almas florescem
No brilho de um olhar
O mundo desaparece
Sobra o amor que anoitece
E acaricia o despertar
Na noite nua e pura
Ergue-se o sopro que dura
Chega a verdade vencida
Adivinhada num breve respirar
Simples e efémeros mortais
Sempre desejosos de mais
Querem o tempo parar
Ânsia divina e louca
Que teimam perpetuar
Desafiados deuses e demónios
Importa ao amor não falhar
Querem o seu por direito
Sem absolvição divina
Humano é o gesto e o peito
E a terra onde ele germina!
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sábado, 30 de março de 2019
Crónica de Maus Costumes 125
Imprevistos
Toda a nossa a vida é um grande imprevisto que
vamos escrevendo à medida que vamos existindo. A crónica de hoje é exemplo
disso mesmo. Não era para ser este o tema, mas outro que anotei num qualquer
pedaço de papel e que já não sei onde guardei. Talvez se pensar bem, me lembre,
mas também já não me faz falta nenhuma, porque a imprevisibilidade da vida faz
com que eu faça inversão de marcha e siga novo trilho.
A surpresa bateu à porta dos vizinhos. Não foi boa.
Tendemos a pressupor que as surpresas sejam agradáveis, mas nada mais errado.
Basta procurarmos o étimo da palavra. Surpresa vem do francês surprise, do verbo surprendre, que, por sua vez, tem origem no latim prehendere e que significa prender,
agarrar. O prefixo (sur) significa
sobre. Facilmente chegamos à total compreensão da palavra. Alguém é
“sobreprendido”, ou seja, um bandido que se prepara para assaltar alguém, mas
que é surpreendido e acaba ele preso pela vítima. Surpresa! Nada positiva. De
modo que a esperança que teima em acreditar que uma surpresa será sempre
positiva é infundada, para não dizer estúpida.
A surpresa que se abateu sobre estas pessoas foi
negativa e estúpida por ferir a natureza e o percurso natural das coisas. Perderam
um filho de vinte e nove anos, que tinha acabado de se levantar e se preparava
para tomar o pequeno-almoço. Caiu com grande estrondo. Com o barulho, pais e
irmão levantaram-se e viram o corpo caído, inanimado. Um jovem sem qualquer
problema de saúde. Obviamente, chamaram o INEM e o rapaz foi prontamente
socorrido por outra vizinha enfermeira que, apesar dos esforços, não conseguiu
segurar a vida, que sentiu escorrer-lhe por entre os dedos, enquanto fazia as
manobras de reanimação cardíaca, até que a equipa médica chegasse. Fulminante.
Talvez todos gostássemos de uma morte assim: limpa
e cirúrgica, mas não aos vinte e nove! A partir de muita idade e muita vida e
se as forças nos faltassem! Até lá, queremos sorver vida!
Hoje, acredito que metade da alma daqueles pais
morreu juntamente com o filho. Sobra outro, que não ocupa o vazio e a saudade e
a dor que ficam, mas que obriga a alguma reação e possibilitará, talvez, algum
conforto… Deveria ser terminantemente proibido um progenitor ver o seu filho
partir antes de si. É o absurdo da vida e tudo aquilo que nos ausenta de um
sentido fere e mata. Julgo não haver absurdo, angústia ou dor maior para
suportar. Por alguns testemunhos que já li, os pais em luto pela perda de um
filho (luto que é interminável) aprendem a lidar com a dor, aprendem a gerir a
dor que não se desvanece, mas que se aninha dentro deles e vai causando danos
mais suaves com a passagem do tempo. Porém, ninguém deveria ter que passar por
uma provação desta natureza.
Só me lembro da crónica de Lobo Antunes, feliz por
lhe ter surgido nítida a ideia para a escrita do seu próximo livro e que, de
repente, se lembra dos pais e lhe sai um “como gostaria que me houvessem dado
colo! Às vezes sou tão pequeno!” E estas palavras de um velho gigante literário
emocionam-me e penso: “ainda bem que dei colo, muito colo aos meus”! E continuo
a dar sempre que mo pedem e até quando o rejeitam. E hoje, mais certamente sei
que nenhum momento deve ser desperdiçado e faço o mea culpa por todas as vezes que resmungo, porque me obrigam a
levantar da cama ao exigirem o beijo de boa-noite, antes de adormecerem. Faço-me
sempre de difícil e de zangada, pois bem que os avisei que se se demorassem a arranjar
para dormir, a mãe deitar-se-ia primeiro e não iria ao quarto. Acabo normalmente
por ceder. Desconfio que preciso mais eu do beijo e do abraço do que eles. Ao ler
Lobo Antunes, fico aliviada. Não quero que os meus filhos algum dia digam que a
mãe não lhes deu colo e lhe sentiram a falta ou eu pensar que poderia não ter tido
pruridos emocionais e ter-lhes dito vezes sem conta que os amava. Prolongarei os
beijos ao adormecer, ao entardecer e ao amanhecer e multiplicarei os “amo-te mais
que muito” por esta vida fora, porque nunca saberei quando será o meu último. Sei
apenas que um dia o será. Espero mesmo que a despedida seja minha e que tenham eles
de lidar com a perda da mãe, lá para os noventa e qualquer coisa…
Nina M.
sábado, 23 de março de 2019
Crónica de Maus Costumes 124
Silveirices e infortúnios
Fosse eu Ricardo Araújo Pereira e
teria matéria de sobra para fazer uma excelente rubrica para a Mixórdia de Temáticas.
Descobri por estes dias o verdadeiro
significado de pessoas tóxicas referenciadas, inúmeras vezes, em artigos
manhosos de psicologia e autoajuda. Porém, apesar de algum manifesto
preconceito, devo dar-lhes razão. Pessoas com esse traço distintivo de carácter
conseguem indispor quem está ao seu redor, apesar do esforço por manter a
bonomia e a boa-disposição.
Genericamente, veem problemas em
todo o lado e se fazemos questão de os solucionar, desencantam um ainda mais
difícil para resolver… São pessoas que em vez de procurarem soluções, procuram
problemas. Obviamente, a identificação do problema é necessária para a sua
resolução, mas pessoas tóxicas focam-se na dificuldade e ali se mantêm como um
disco riscado fiel à agulha. E se alguém lhes aponta uma saída, fazem questão
de recuar três passos, não vá a pessoa ter descoberto mesmo a solução! São
pessoas indispostas e pouco flexíveis. Não cedem um palmo com receio de que tal
comportamento lhes traga um problema irresolúvel. Destilam o fel da
indisposição e parecem furiosas com o mundo! Nem o melhor dos otimistas se
atreva a tentar minimizar a situação, porque o enfadonho problemático vai
escarnecer da positividade e num passo de mágico arranjar, repentinamente, mais
duas ou três dificuldades sobre as quais ainda ninguém tinha pensado! E
aguarda, ufano da sua proeza, o resultado, olhando nos olhos de quem insiste em
resolver assuntos, como quem diz “ tens a mania, então, resolve lá mais este…”
Quase se lhes consegue sentir o sabor doce do triunfo se o desenrascado se
enrasca e não lhe surge logo ali, de supetão, uma resposta firme e à altura da situação.
Triunfante, continua a debitar lixo que intoxica até que o seu interlocutor não
é mais capaz de acompanhar os seus histerismos e sai derrotado, não pelas dificuldades,
mas por quem tem prazer em provar que a vida é mesmo difícil e que talvez mais valesse
não ter nascido!
Sempre desconfiados, acreditam que o
universo se uniu e conspira contra a sua pobre alma, que nada fez para merecer tal!
É mais fácil acreditar nisso do que enfrentar os seus medos e admitir que a sua
vida é fruto das suas escolhas, apesar de as circunstâncias também ditarem muita
coisa. Não é fácil escolher e decidir em condições adversas, porém, é algo que cada
um de nós tem de fazer por si, se possível sem condenar o outro por ações que são
da sua responsabilidade, com ou sem atenuantes.
Há gente verdadeiramente difícil!
Nina M.
segunda-feira, 18 de março de 2019
Prece
Não entristeças, meu bem
O adeus que passou na brisa morna
É somente um breve até amanhã
A cada nova aurora a natureza se transforma
Cada despedida é presença tua que retorna
Alma despida e plena de instantes duradouros
É memória, é tempo e universo
Fragmentos coligidos docemente
É amor conservado num só verso
Em mim guardado religiosamente
Intocável grande e imortal
Não sucumbe à tentação de ser
Permanece puro, em beleza sem igual
Para não haver risco de o perder
No absurdo existencial de que é feito
Coexistem tudo e nada, alfa e ómega
Não pode apertado laço ser desfeito
E nessa certeza a alma não cega
sábado, 16 de março de 2019
Crónica de Maus Costumes 122
O Sabor da Infância
O tema não é novo. Já o abordei mais
do que uma vez neste espaço. A infância tem, em mim, a mesma importância que o
sonho. Já me assumi saudosista e a infância deixa-me uma saudade boa, daquela
que nos faz parecer estúpidos, quando somos apanhados a rir sós, sem que os
outros percebam as nossas razões. Normalmente, não apetece explicar, porque o
pensamento já terá dado tantas voltas que conseguir explicar como se chegou ao
passado é complicado. Então, vale mais como resposta um encolher de ombros ao
jeito de quem diz : “rio-me por nada” e arruma-se o assunto.
A minha infância tem cheiros,
sabores e muitas pessoas. Algumas já não partilham esta dimensão e lembrá-la é
também recordar os que já desapareceram. Lembro-me, repentinamente, do senhor
Zé Corino que quando passava, a miudagem corria atrás dele. “Ó senhor Zé, faça lá
um verso!” E o poeta popular, mal-amanhado, pobremente vestido, de calças escuras
e largas, lá desencantava rapidamente uma quadra para gáudio dos cachopos! “ Faça
outra!” Pedíamos. Era assim até que se fartasse ou lhe faltasse a inspiração. Talvez
o meu gosto pelas rimas venha daí!...
Sabe a cristas de
silvas novas cortadas, descascadas e comidas sob um sol tórrido de verão, a
azedas de trevos que podiam ou não ser de quatro folhas (ninguém gostava deles,
mas todos os comiam!) e a água da chuva (destilada, portanto) com sabor a tinta
do gradeamento do jardim, nos famosos concursos de sorvedouro, a paparotos de
amoras no tempo quente de julho e a baloiços perigosos feitos com um rebo de
eucalipto e uma corda atado a um carvalho enorme. À luz do tempo, é perigoso.
Se a corda se desatasse, alguém poderia ter-se magoado seriamente, mas ao menino e ao borracho põe-lhe Deus a mão
por baixo e Ele quis que a ganapada se divertisse na sua absoluta
inconsciência e audácia, sem que nenhum mal viesse… A minha infância também
está povoada das vozes esganiçadas das mães que gritavam tão fortemente pelo
nome dos filhos que era audível a dois quilómetros de distância! Não havia
telemóveis nem eram necessários! Sempre alguém ouvia e avisava o parceiro que a
mãe estava a chamar. Corríamos que nem loucos, monte acima e monte abaixo
descobrindo minas de água, presas onde se colhiam os agriões para a salada e
madeira encastelada transformada em torre de castelo onde morava a Rapunzel…
A minha infância também sabe a fruta
roubada pelos mariolas que trepavam às árvores que nem macacos e traziam no
regaço o produto do imenso trabalho e também a castanhas retiradas dos ouriços
com os pés. Sabe ao vento frio do outono e do inverno que não era suficiente
para impedir as brincadeiras, mas o cheiro da terra quente do mês de julho, que
se sentia pela noite dentro e permitia as brincadeiras até às onze da noite,
era especial…
Hoje, já não há meses de julho assim
tão quentes… A saudade duplica pelo tempo vivido e pelo calor…
Há uma magia na infância, e aquela
de que falo durou até cerca dos 11 anos, que não mais desaparece da alma. As
sensações ficaram incrustadas e volta e meia surgem à superfície para me fazer
sorrir… Quando é que a realidade se tornou complicada? Parece-me que a partir
da adolescência. Não sinto a mesma nostalgia dessa fase. Não deixa grande
saudade. Parece haver um lapso temporal entre a infância e a faculdade, tempo
que recordo com prazer, de natureza diferente da pureza da meninice, mas ainda
assim com crescimento, desenvolvimento pessoal, muita alegria e algumas dores
também. O que está no meio não foi, com certeza, terrível, mas por algum motivo
não se destaca.
Seja como for a infância, tempo mítico
da felicidade plena, só encontra concorrente quando se sonha de olhos fechados,
mas abertos e se deambula na imaginação, onde se recria novas vidas e experiências
como se quer e deseja, sem que o peso do mundo possa interferir. É-se novamente
criança e absolutamente, intrinsecamente e irremediavelmente feliz!
Nina M.
quarta-feira, 13 de março de 2019
Manifesto
Não mais sucumbirei ao desalento
E a cada dificuldade
Acenarei com um sorriso
Perdi a tristeza toda
Lá no fundo de um tempo
Em que fui viúva de mim
Ressurgi forte e segura
Alegremente percorro os trilhos do ser
Sem queixume ou lamento
Apenas inquietação resiliente
Recuso bater-me com a vida
Ou esmurrar o ar em vão
Visto-me de maleabilidade
Evito as esquinas e as ruas escuras
Mantenho longe de mim as agruras
Olho e alcanço nuvens brancas
Céu azul e sol doirado
Ofertei ao Diabo as negruras
E nas asas do poeta me refugio
Anjo proscrito e protetor
Mundo de luz onde não cabe a dor!
E a cada dificuldade
Acenarei com um sorriso
Perdi a tristeza toda
Lá no fundo de um tempo
Em que fui viúva de mim
Ressurgi forte e segura
Alegremente percorro os trilhos do ser
Sem queixume ou lamento
Apenas inquietação resiliente
Recuso bater-me com a vida
Ou esmurrar o ar em vão
Visto-me de maleabilidade
Evito as esquinas e as ruas escuras
Mantenho longe de mim as agruras
Olho e alcanço nuvens brancas
Céu azul e sol doirado
Ofertei ao Diabo as negruras
E nas asas do poeta me refugio
Anjo proscrito e protetor
Mundo de luz onde não cabe a dor!
terça-feira, 12 de março de 2019
Queda
Talvez pudéssemos cair
Assim... Nos braços um do outro
Sem remorso nem arrependimento
Como quem toma o fruto maduro
Da colheita de si
Numa única redenção
Para depois viver a sua ausência
Furtarmo-nos uma vez à decência...
Talvez pudesse ser fácil
Simples e livre tal momento
Ou antes existências presas
Ao delírio da vontade
À saudade apetecida
Não quereríamos uma só vez
Mas infinitamente repetida
Num apelo sério de alma perdida
Assim... Nos braços um do outro
Sem remorso nem arrependimento
Como quem toma o fruto maduro
Da colheita de si
Numa única redenção
Para depois viver a sua ausência
Furtarmo-nos uma vez à decência...
Talvez pudesse ser fácil
Simples e livre tal momento
Ou antes existências presas
Ao delírio da vontade
À saudade apetecida
Não quereríamos uma só vez
Mas infinitamente repetida
Num apelo sério de alma perdida
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