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sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

God's failed Project


(versão inglesa IA de O projeto falhado de Deus)

​There are days of cavernous bleakness

​Skin wrinkles under a death-rattle of cold

A white mantle covers the streets

Or the heavy rain washing the windowpanes

Reminds one of helplessness

The fragility of wounded innocents

The vile blow they do not understand

And from which they cannot deviate

They only want the father, the mother, the routine

Something that sounds familiar

And reminds them of caresses

Of the safe harbor that was home

They suffer abandonment and solitude

The betrayal that comes from the hand

That should have provided shelter

Ignominy opens irreconcilable craters

Brutality is always sordid

It fixes itself, grimy, upon the skin

It is deaf.

It is cowardly.

It is petty.

It is aviling.

Never ask the scoundrel if he wants to be good.

​Man — God’s failed project!

Projeto falhado de Deus

Há dias de desalento cavernoso

A pele enruga-se sob um estertor de frio
Um manto branco cobre as ruas
Ou a chuva forte a lavar as vidraças
Lembra o desamparo
A fragilidade de inocentes feridos
O soco vil que não compreendem
 E do qual não se sabem desviar
Só quer o pai, a mãe, a sua rotina
Algo que lhe soe a conhecido
E lhe lembre das carícias
Do porto seguro que foi a casa
Sofrem o abandono e a solidão
A traição que vem da mão
Que deveria amparar 
A ignomínia abre crateras inconciliáveis
A bruteza é sempre sórdida
Fixa-se, encardida, na pele 
É surda.
É cobarde.
É mesquinha.
É aviltante.
Nunca perguntes ao pulha se quer ser bom.

O homem - projeto falhado de Deus!

sábado, 17 de janeiro de 2026

Crónica de Maus Costumes 451

 “We shall never surrender” (Winston Churchill)

            Hoje, é dia de reflexão, pelo que não se deve abordar a temática a das presidenciais. Não falarei sobre qualquer candidato, mas abordarei o facto de muita gente, nestas eleições, se mostrar indecisa até à última hora. Li e ouvi vários testemunhos de que não sabem em quem hão de votar e que nunca se viram nesta situação. Parece haver muita gente que não gosta, particularmente, de nenhum candidato e, portanto, não se conseguem decidir e arrastam a decisão para a boca das urnas.

            Pus-me a pensar sobre as razões, sobre os possíveis motivos de não haver nenhum candidato que apaixone, entusiasme e congregue como em outros atos eleitorais. Muitos estarão lembrados da mítica segunda volta entre Mário Soares e Freitas do Amaral, em 1986. Eu tinha 11 anos e lembro-me da campanha acesa que incendiou o país. Na primeira volta, a preocupação de Mário Soares foi bater o PCP, que tinha uma forte base de apoio, na altura, num país recém-nascido de uma ditadura fascista, com sucessivos governos de curta duração e uma crise económica instalada. A esquerda mais radical lá teve de engolir o sapo e apoiar Mário Soares. A única alternativa que lhe restava para retirar a presidência a Freitas do Amaral. Soares passou de um discurso anticomunista, na primeira volta, para um discurso antifascista, na segunda. Polarizou, portanto, o cenário político. A bordoada que levou na Marinha Grande santificou-o e Soares saiu vencedor. Para uns, “Soares é fixe” e quem apoiava Freitas, automaticamente, respondia: “e a malta que se lixe.”

            Olha-se para estes dois nomes, mas poderiam ser citados outros, o de Jorge Sampaio ou de Cavaco Silva, independentemente das simpatias ou antipatias de cada um, e via-se estes seres como dinossauros políticos. Esta é uma das razões para a falta do agrado geral em relação aos candidatos atuais. Por alguma razão, e creio que será mais do domínio do emocional, as pessoas não veem carisma nos líderes que se prontificaram a cumprir a nobre missão de serem o presidente dos portugueses. Olho para a questão e parece-me, ainda, resquícios de um sebastianismo mítico, de um espírito messiânico que se nos entranhou. Estamos sempre à espera de um messias que nos há de salvar e elevar o bom nome da bandeira. Um homem que seja capaz de acreditar num futuro melhor e que com a sua ação, quiçá espécie de magia, nos retire do marasmo. Na verdade, não pretendemos um presidente, queremos um super-herói à maneira de um super-homem e que nem sequer definhe com a exposição à “Kryptonite”!

            Esquecemo-nos que, tal como na maioria dos ofícios, não será necessária uma aura particular. Bastará, antes de qualquer outra coisa, que seja um bom ser humano. O coração deve estar no sítio certo e deverá ter sensibilidade social; convém que seja íntegro e honesto e que perceba minimamente da poda, isto é, que seja competente e equilibrado. Entre a competência exímia e a bondade intrínseca, esta última é fundamental. A competência pode ser desenvolvida e aprendida, já a bondade é preciso que faça parte dos genes. Tudo o resto é acessório e mais ao gosto de A ou de B. Se é risonho e popular como o professor Marcelo ou austero como Cavaco ou institucional como Sampaio, já depende do gosto de cada um. Eu confesso que não aprecio nada vê-los em bailaricos! Não é que não tenham esse direito como qualquer outra pessoa, mas aquilo soa a falso como Judas… Exceto se for o presidente Marcelo… Esse pode tudo, porque é para o lado que se lembra… A diferença é que lhe é genuíno e, portanto, ninguém estranha…

            Eu não quero nada com a política, mas não podia andar nestas lides… Ter de andar nas feiras e mercados, bailinhos e bailados e beijocar velhinhas e velhinhos brejeiros a todo o instante!... Deus me livre e guarde! E eu até sou de abraços, mas sou seletiva!

            Creio haver uma certa injustiça cair no erro de comparar candidatos. Os tempos são outros e muitos dos grandes homens que designamos foram feitos pelas circunstâncias, com o mérito de terem sabido estar à altura. Assim se imortalizaram Winston Churchill e Charles de Gaulle, por exemplo. Os tempos exigiram e eles compareceram. Faz falta um destes, na Europa, na verdade… Talvez devamos recuperar o slogan de Churchill “We shall never surrender!” e esfregá-lo na cara do Trampas, do Trump, perdão, mediante as suas novas ameaças com as tarifas por recusarmos a compra da Groenlândia…

            Certo é que com mais ou menos carisma, os candidatos são muitos e a oferta variada. Não será por falta de candidatos que haverá grande abstenção, se a houver. Tendes, ainda, até amanhã, para vos decidirdes. O meu candidato está escolhido há algum tempo, peso, conta e medida.

            Ide às urnas e votai em consciência. Bom domingo.

 

Nina M.

 

sábado, 10 de janeiro de 2026

Tragédia

O que restou do incêndio
Foi uma casa queimada
As paredes em ruínas
E traves negras na alma.

Despojos e escombros sob cinza
Num enorme cinzeiro apagado.

Num canto
O que restou do fiteiro verde
Com as pontas chamuscadas
Das faúlhas
Onde o rouxinol ainda pousa
Todas as manhãs

Como quem espera a vida

Crónica de Maus Costumes 450

 

Uma paixão maior a bem da sanidade

               O mundo está louco e a responsabilidade é, sobretudo, dos líderes de países militarmente e economicamente mais poderosos.

            A Rússia tem intensificado os seus ataques a Kiev, enquanto a Ucrânia continua a pedir mais auxílio, sobretudo no que a sistemas de defesa aérea diz respeito. A União Europeia, como sempre, debate novas sanções e um reforço na ajuda prestada.

            O Irão confronta-se com protestos internos, com fortes críticas ao regime de Ayatollah Khomeini e à situação económica do país. Tal como é habitual em qualquer autocracia, o governo responde com repressão. Morreram já cinquenta manifestantes. Esperemos que as mortes não sejam em vão e que a população consiga fazer cair o regime por dentro. Nunca é sem sangue. Há sempre perdas de vidas quando o povo exige que a sua voz se faça ouvir.

A tensão cresce entre a Venezuela e os Estados Unidos e agudiza-se a crise económica. A população vê-se na contingência de viver com os apoios fornecidos pelo governo. Para comer, precisam da esmola do Estado ou das paróquias, há escassez de medicamentos e nos hospitais falta tudo. O setor produtivo do país foi arruinado pelas políticas vigentes desde o governo de Chávez, piorando substancialmente com Maduro.

Os Estados Unidos enfrentam também debates intensos sobre a sua política externa, enquanto o doido do presidente Trump insiste na questão da Groenlândia…

 As tensões entre Israel e grupos armados na Palestina e no Líbano continuam a fazer-se sentir…

Olhar para o mundo e encontrá-lo desta forma deixa-nos sem palavras. O mundo podia ser um lugar tão bom para se viver, se os homens fossem menos gananciosos, se vigorasse mais a cooperação, com a consciência do bem comum! E eu faço sempre as mesmas perguntas: para quê? Porquê?

Um dia, vamos todos morrer e há gente que insiste em deixar ruínas e cinzas em vez de jardins com flores. Não há qualquer racionalidade nisto…

Olho para o nosso quintal e observo a cloaca a céu aberto. A campanha para as presidenciais tem-se enchido de lodo. De entre os cinco candidatos que podem passar à segunda volta, há uma figura, apenas, que se mantém afastado do lodaçal: António José Seguro. Os outros chafurdam na lama como se fosse uma obrigação política atuar desta forma, contribuindo ativamente para a polarização e desconfiança vigentes em relação aos políticos. Lança-se a suspeição sobre os candidatos como quem bebe um copo de água. Seguro tem a vantagem de ter estado arredado das lides políticas. O Governo tenta lidar e lida mal com a pressão sobre o SNS. Há inúmeros problemas para resolver, mas não é possível que não se possa fazer melhor. A principal causa da pressão sobre o SNS é a falta de médicos. Não são mais macas nem ambulâncias (ainda que possam ser necessárias, acredito que sim), que irão resolver o problema. Precisamos de mais médicos no SNS, tal como precisamos de mais professores, de mais assistentes operacionais e de mais polícias. Os serviços públicos estão pelas ruas da amargura e ainda há que entenda que deles pode prescindir. Só quando os problemas se escancaram, se percebe a necessidade do capital humano. Pelo meio, há aproveitamento político óbvio, uma ministra da saúde que não consegue agregar nem inspira confiança e um governo a não conseguir gerir os dossiês a que se propôs. A saúde não melhorou, a falta de professores é visível e não se veem verdadeiras medidas para sanar o problema e a questão da habitação continua a ser uma dificuldade séria. Sem a criação de condições para fixar o capital humano nos serviços públicos, estes degradam-se. O problema reside no facto de o setor privado não poder substituir, totalmente, esta prestação de serviços, porque visa o lucro. O doente deixa de ser um paciente e um para se tornar um cliente com o qual o prestador de serviços lucra. Na saúde, uma das hipotéticas soluções passaria por dar a possibilidade a toda a população de usufruir da ADSE, sabendo que teriam de descontar os respetivos 3,5 % sobre o salário ilíquido de cada um. Desta forma, retirar-se-ia doentes das urgências, deixando para os hospitais públicos as pessoas que não podem pagar a referida taxa e os casos mais graves de saúde, que exigem um tratamento prolongado e caro, fora do alcance até dos que têm uma situação económica estável. Desta forma, se surgisse uma dor repentina, a pessoa já não teria necessidade de entupir as urgências do hospital público. Nunca entendi a razão pela qual ainda não se chegou a um pacto de regime sobre este assunto. Se a solução se põe ante os olhos e se em vez de se tentar resolver os problemas da população, os políticos se enredam e se perdem nas ideologias, fica o cidadão com o problema por resolver e a Assembleia a discutir eternamente o sexo dos anjos… Fico, demasiadas vezes, com a sensação de que os brutos que determinam os nossos destinos só se importam com a sua partidarite e, portanto, a solução pode ser boa, mas se vier de campos políticos opostos, já não serve. São estes comportamentos medíocres dos deputados que geram descontentamento e desilusão, tornando as pessoas permeáveis aos populismos e às falsas promessas de falsos profetas.

Gostaria que Montenegro se lembrasse que as pessoas que o elegeram votaram numa social-democracia e esta preserva e trata bem os serviços que presta aos cidadãos, fazendo jus aos impostos que lhes cobra. A alavancagem da economia não pode ser feita contra as pessoas, mas antes com elas.

Perante estas tristezas internas e externas, resta-nos refugiar naquilo que nos possa elevar a alma e tirar deste mundo insano, nem que seja por breves instantes. Não há quem aguente viver sempre no pragmatismo, sob pena de adoecer! Contra estas loucuras, só uma paixão maior!

 

Nina M.

 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Auscultação

Guardas apaixonadamente 
Todos os meus segredos
Sabes escutar
[E sabes que vem do latino auscultare]
E assim escutas, calado, o meu coração
Sem estetoscópio, auscultas.
Apenas o teu gesto estreito de inclinare
O ouvido sobre mim.
Não me olhas ou observas
Sabes perscrutare
Desconfio que sondas os clássicos só para me desnudar sem esforço e com paixão.
Não me conheces, sabes-me.
O meu olhar mais terno e mais irado
Mais apaixonado e mais frio
O olhar mais apagado ou vazio
Sabes-me o sorriso. O social, o divertido, o prazeroso, o gentil, o magoado, o que oculta o insondável indizível.
Entraste e fechaste a porta.
Perdeste-a nos meus labirintos.
Nestes jardins sem bancos
Onde não é fácil repousar.
Sabes-me as mãos, os trejeitos e caretas.
O espanto, a desilusão, a alegria e a tristeza.
Alegra-te o sol cá dentro.
Aborrece-te o sol cá dentro.
Há dias nublados e de morrinha.
Diligente, és capaz de me oferecer um poema
Um reino de emoções à minha mercê
E se desconfias da sua pequenez
Inventas-me toda uma hermenêutica.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Crónica de maus costumes 449

 

Trumpices

            Impossível permanecer indiferente aos acontecimentos que inundaram os meios de comunicação social, hoje. Há uma pergunta a assolar-me o espírito: será o próprio Trump a escrever os discursos que lê ou haverá alguém tão ou mais idiota do que ele a redigir aquilo que ouvimos? São tão simples e tão pobres que poderiam ter sido escritos por qualquer adolescente, sem grande esforço!

            A conferência de imprensa marcada para explicar o rapto de Maduro poderia ser resumida num breve momento: Trump agradeceu às suas forças de elite a extraordinária operação, enfatizando que não houve danos materiais nem humanos para os americanos, salientou o poderio militar do seu país, afirmando que os Estados Unidos podem impor a sua vontade e que só eles poderiam e teriam conseguido fazer o que, hoje, realizaram. Apanharam o narcotraficante responsável pela morte de milhares de americanos e pelo aumento do crime nalguns estados, pelo que está a proteger os americanos. Publicou a imagem de Maduro feito prisioneiro numa rede social, assim, mesmo à profissional e com toda a deferência que a situação merece! Entretanto, lá foi dizendo que havia petróleo na Venezuela e que as infraestruturas existentes foram construídas pelos americanos e que, portanto, iriam explorá-las, mas sossegou o chinês ao dizer-lhe que ele continuaria a ter o seu “oil”. Deixou uma palavrinha aos venezuelanos, povo sofredor que, agora, estava livre. Pelo meio, foram lançados recados para outros, pois se houver alguém que impeça a vontade e os interesses dos “states”, sua excelência pode repetir o ar de sua graça.

            Se não ouviram, aqui fica a resenha. Reparem que, em dois minutos, se diz isto. O Donald terá levado cerca de vinte minutos para isto, porque repetia as ideias insistentemente, falava nitidamente para dentro, para o seu povo, como a dizer-lhes: vejam bem como somos grandes e fortes e o que conseguimos fazer! Só os Estados Unidos conseguem! Se lá estivesse, perguntar-lhe-ia por que razão não vai ajudar o povo tão massacrado pela besta do líder da Coreia do Norte ou até os chineses!  E, talvez, de improviso, lhe espetasse com o verso de Camões: “o fraco rei faz fraca a forte gente”. Se não me enrolasse na aliteração, bastante expressiva por sinal, a sugerir a força, que o fonema fricativo (“f”) deixa subentender.

            Já me lembrei de lhe sugerir que me deixasse escrever-lhe algo mais elaborado, a troco de um bom dinheirito, porque não há almoços grátis... Creio que não seria difícil fazer melhor e quem sabe, no final, não acabasse por acreditar eu mesma no que tinha escrito. Lembro-me, logo de seguida, que não posso vender a alma ao Diabo, quer dizer, ao Trump, pelo que continuarei a viver do meu salário… É a vidinha… Quem nasceu para lagartixa nunca chega a jacaré.

            Penso que a minha falta de apreço, para não dizer ranço (acabei de usar um litote) em relação ao cabeça alaranjada é notória. Abomino-o. A suprema ironia é que o Trump tem andado a expulsar os seus imigrantes, incluindo venezuelanos, mas ao Maduro e à esposa faz questão de os ir buscar a casa e escoltá-los para os Estados Unidos! Tudo isto é um atropelo, um assassinato do Direito Internacional, por mais voltas que se queira dar. Não se pode condenar a Rússia e Israel e apoiar isto, por mais que Maduro o merecesse e eu acho que merece. É lamentável que a ONU não consiga intervir atempada e adequadamente em países em que haja nítido desrespeito pela segurança internacional ou pelos direitos de um povo. Maduro ultrapassou todos os limites. Perpetuou-se no poder, com a falsificação de resultados eleitorais, perseguia opositores políticos e condenou um povo à fome e à miséria, num país próspero e rico. Merece tudo quanto lhe possa acontecer. Não o lamento. Haveria matéria para que a ONU interviesse, porém, a obrigatoriedade de os cinco países membros permanentes, com poder de veto, terem de estar todos de acordo aniquila quase todas as intervenções, porque são eles: Estados Unidos, França, Reino Unido, Rússia e República Popular da China. Ora, estes dois últimos nunca votariam um resolução favorável a uma intervenção na Venezuela, tal como não votariam em relação à própria Rússia. Para além destes, mais quatro países, num total de nove em quinze, teriam de estar de acordo. Se assim é, interrogo-me sobre o papel da ONU. Só funciona em relação a países fracos e que não colidam com os interesses das grandes potências. Aqui reside toda a hipocrisia a que vamos assistindo, porque, efetivamente, não deveria haver espaço para Maduros, neste mundo.

            Desejo, vivamente, que o povo venezuelano possa recuperar a sua soberania e a sua liberdade, que possa prosperar em paz e que possa escolher o seu líder. Apesar do precedente perigoso que Trump abriu e da manifesta ilegalidade, haverá uma alegria, ainda contida, até ao momento, nos venezuelanos. Oxalá, corra pelo melhor. Não acredito que Trump tivesse raptado Maduro sem a conivência da oposição e, talvez, de alguns militares. Veremos se, agora, perante este cenário, as forças armadas abandonam Maduro, permitindo um governo de transição até às eleições livres. Assim espero.

            No meio de todo o imbróglio, concedo a Trump apenas o facto de que os venezuelanos não conseguiriam virar o regime sozinhos e precisavam de apoio. Não desta forma, com esta ingerência, mas precisavam de apoio externo, sim. Dizer-se que o povo unido é quem muda regimes não sei se é ingenuidade ou mesmo má-fé. O povo expressou essa vontade em eleições e não foi respeitada. A única solução seria que o regime quebrasse por dentro e que o movimento fosse conduzido por militares, tal como aconteceu com o nosso Vinte e Cinco de Abril. Porém, qualquer autocrata sabe untar bem os beiços às altas patentes que zelam pela segurança. A esses, as dificuldades do restante povo não os assombraram. Teriam de ser vários e de ter a certeza de que poderiam confiar uns nos outros, sabendo que poderiam pôr a própria vida em risco e dos seus familiares, para além de poderem atirar o país para uma guerra civil. Portanto, dizer-se que tem de ser o povo, que vive esmagado e com medo, a fazer a revolução é pedir uma chacina, porque seria isso que aconteceria. Maduro cairia sobre o próprio povo sem dó nem piedade, com as suas forças armadas que cumprem ordens.

            Sabemos que Trump quer o petróleo. Esta é a sua verdadeira razão, mas para os venezuelanos, tanto lhes faz que a matéria-prima seja vendida à China, como à Rússia, Cuba ou, agora, os Estados Unidos, desde que lhes traga paz, segurança, liberdade e autodeterminação. Haja esperança.

 

Nina M.